CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR - ANO - A - 2014
A ação do Espírito na alma é mais
importante que os sinais
Tanto
aos pastores quanto aos Reis, o Espírito Santo falou no fundo da alma,
inspirando-lhes a fé no advento do Messias. Com efeito, muitos outros avistaram
a estrela, pois ela não fora invisível, e vários conheceram também o relato dos
pastores de Belém, na noite de Natal; todavia, nem todos acreditaram, só aqueles
que foram favorecidos por moções do Espírito Santo.
Por isso
ressalta São Tomás 13 o papel da graça, como um raio de verdade mais luminoso
que a estrela, a instruir os corações dos Magos. E, então, mais importante a
comunicação direta do Espírito Santo, do que os meros sinais sensíveis. A tal ponto
que, para os justos, como Ana e Simeão1’4 habituados a discernir a voz de Deus
em seu interior, não foi necessária a aparição de Anjos ou o surgimento de
estrelas, ou qualquer indicação extraordinária de que aquele era o Filho de
Deus, o Messiasprometido. Simplesmente, quando viram o Menino entrar no Templo,
nos braços de sua Mãe, foram tomados pelo espírito de profecia e, por ação do
Paráclito, compreenderam que ante seus olhos estava a Luz que iluminaria as
nações, a glória de Israel (cf. Lc 2, 32). Assim, torna-se patente como para as
almas mais puras e elevadas as manifestações sobrenaturais não vêm acompanhadas
dos sinais exteriores, sendo estes, contudo, adequados para tocar os menos
espiritualizados.
Confiamos mais em Deus se
tivermos as mãos vazias
Impelidos
por um sopro divino, os Magos chegam a Jerusalém, iniaginando talvez que o povo
estivesse em festa pelo nascimento do Rei esperado. No entanto, não se
decepcionam, apesar de encontrarem tudo na mais completa normalidade, e, na sua
ingenuidade, vão pedir informações sobre o Rei dos judeus ao próprio Herodes.
Era o homem a quem nunca deveriam ter procurado! Este fica perturbado, pensando
que ia perder o trono, como rezamos num dos hinos do Ofício Divino desta
Solenidade: “Por que, Herodes, temes I chegar o Rei que é Deus? I Não rouba os reis
da Terra / quem reinos dá nos Céus”.15 Ou nas contundentes palavras de um Santo
do século V: “Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio
para te destronar, mas para vencer o demônio”.16 Eo rei idumeu, embora rico e
poderoso, não é capaz de se aproximar serenamente do Menino Jesus para Lhe render
homenagem, mas quer matá-Lo.
Eloquente
contraste, útil para a vida espiritual. O que mais vale é saber onde está Nosso
Senhor Jesus Cristo e adorá-Lo, ou possuir todos os bens da Terra? Muitas vezes
Deus faz com que estes nos faltem, porque quando as mãos estão carregadas de
riquezas é difícil juntá-las para rezar. Estamos mais aptos a confiar em Deus
se temos as mãos vazias. Portanto, não nos perturbemos caso venhamos a passar
necessidades. Enfrentar problemas, dramas e aflições é um dom de Deus. Quem não
sofre e não experimenta alguma instabilidade deposita a segurança em si mesmo e
acaba por voltar as costas ao Criador, o que lhe acarreta o maior dos
sofrimentos: ignorar a felicidade de depender de Deus.
Nesse
sentido, recolhemos uma preciosa lição da simbologia da mirra oferecida pelos Magos,
da qual pouco se fala. De sabor amargo — característica evocativa do sofrimento
—, era usada também para embalsamar os cadáveres. Com tal oferecimento se
tornava presente, já desde o momento de vir ao mundo e de dar a conhecer sua
grandeza divina, a missão redentora do Menino e sua Morte na Cruz. A mirra
também é útil para nós, porque recordando nosso destino final, a morte, modera
nossa ganância e o desejo de viver para sempre nesta Terra.
Atrás das aparências, a grandeza
de Deus Encarnado
Atitude
diametralmente oposta à de Herodes é a dos Reis Magos, como afirma o Doutor
Angélico: “os Magos são as primícias dos pagãos a crerem em Cristo. Neles
apareceram, numa espécie de presságio, a fé e a devoção dos pagãos vindos a
Cristo de lugares remotos. Por isso, sendo a fé e a devoção dos pagãos isenta
de erro por inspiração do Espírito Santo, também se deve crer que os Magos,
inspirados pelo Espírito Santo, se comportaram sabiamente ao prestarem
homenagem a Cristo”.17 Eles viram um Menino envolto em panos, numa casa pobre,
decerto desprovida de qualquer sinal externo de realeza. Entretanto, movidos
pela fé, O reconhecem como Deus. Ainda para São Tomás,18 não era conveniente
que Nosso Senhor manifestasse toda a sua divindade através dos véus da natureza
humana, logo ao nascer. Se — imaginemos — quando Ele ainda estava no berço
viesse um Anjo e erigisse em poucos segundos um palácio no centro de Jerusalém,
mais estupendo do que o Templo, uma coorte angélica descesse do Céu para
anunciar a chegada do Messias e os judeus vissem uma criança em corpo glorioso,
reluzente de esplendor, que papel teria a fé? Perderia sua razão de ser, uma
vez que ela recai necessariamente sobre as coisas que não se veem. E em torno
deste Menino, então, se juntariam, em seguida, todos os pragmáticos, todos os
interesseiros, todos os oportunistas que quereriam fazer carreira à custa de
seu prestígio.
Porém,
acrescenta São Tomás,19 a Encarnação do Verbo, para ser proveitosa, não podia
permanecer oculta à humanidade inteira. Por tal motivo, Nosso Senhor Jesus
Cristo quis revelá-la apenas a alguns, aos quais mostrou sua divindade por meio
de pequenos sinais acompanhados da graça — suficiente em certos casos,
superabundante em outros —, para que uns servissem de testemunho aos demais.
Um
desses diminutos sinais, o próprio Evangelista o menciona. Afirma ele que os
Reis, ao verem de novo a estrela, “sentiram uma alegria muito grande”. Ainda
que não esteja no texto sagrado, é de se supor que, ao contemplarem o Menino,
tenham experimentado um júbilo interior intensíssimo, e talvez se tenham
comovido até às lágrimas. Ajoelharam-se arrebatados pelo encanto com o Divino
Infante, o “mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44, 3), diante do qual não
cabia outra atitude a não ser a adoração. Tudo marcado por uma suave e intensa
alegria, nota distintiva da atuação do Espírito Santo, e que até nossos dias
caracteriza as celebrações natalinas.
A IGREJA, ESTRELA QUE NOS GUIA ATÉ
JESUS
A grande
fé demonstrada pelos Reis Magos na Epifania nos lembra a parábola do grão de
mostarda. Ele é minúsculo, mas, uma vez plantado, cresce e torna-se um grande
arbusto. Ora, esse Menino que vem ao mundo numa Gruta e hoje manifesta sua divindade
aos soberanos vindos do Oriente, vai depois morrer no Calvário e de seu lado
traspassado pela lança brotará a Santa Igreja. Esta nasce sem nenhum templo, de
forma apagada, se desenvolve e, em certo momento, toma conta do Império Romano,
até se expandir por todo o mundo.
Quantas
famílias, povos e nações inteiras ao longo da História se porão a caminho, à
semelhança dos Magos, para seguir uma estrela: a Santa Igreja Católica
Apostólica Romana. Sim! Ela, a distribuidora dos Sacramentos, promotora da
santificação e dispensadora de todas as graças, faz o papel de uma estrela a
cintilar diante de nossos olhos, através do esplendor de sua Liturgia, da
infalibilidade de sua doutrina, da santidade de suas obras, convidando-nos a obedecer
à voz do Divino Espírito Santo que fala em nosso interior. Assim, a Igreja
promove um novo desabrochar do senso do maravilhoso nos corações de seus filhos,
parecendo nos dizer: “Olha como Deus é belo! Ele é o Autor de tudo isso”.
Esta
estrela é para nós, portanto, a alegria da existência, a segurança e a certeza
dos nossos passos, a sustentação do nosso entusiasmo e do amor a Deus. Sobretudo,
esta estrela é a garantia de uma eternidade feliz. Quem a ela se abraçar terá
conquistado a salvação, quem se separar dela seguirá por outros caminhos e não
chegará à Belém eterna, onde está aquele Menino, agora sim, glorioso e refulgente
pelos séculos dos séculos.
13) Cf.
Idem, a.5, ad 4.
14) Cf.
Idem, a.5.
15)
SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR. Hino de II Vésperas. In: COMISSAO EPISCOPAL
DE TEXTOS LITURGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Ave Maria; Paulinas;
Paulus; Vozes, 1999, v.1, p.516.
16) SÃO
QUODVULTDEUS. De Sym bolo. Sermo II ad catechumenos, c.IV, n.4: ML 40, 655.
17) SÃO
TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, op. cit., a.8.
18) Cf.
Idem, a.1.
19) Cf.
Idem, a.2.