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sábado, 7 de abril de 2012

"Tome sua cruz e siga-me"

Cada homem deve carregar sua cruz

Jesus quis que os homens vissem todo o sofrimento d’Ele, para que cada um de nós tivesse a coragem de carregar o seu próprio sofrimento. Se o Homem-Deus passasse pela Terra e sofresse um pouquinho, derramando uma gotinha de sangue, remidos estávamos.

Mas faltaria a lição de conformidade com a dor, de aceitação do sofrimento como sendo a mais alta coisa da vida — não um desastre, um trambolho, algo que não se compreende e não deveria ter sucedido —, o caminho necessário para que o homem chegue até onde deve chegar, a estrada para a qual ele se dirige como sendo a realização de seu próprio destino.

Quer dizer, cada um de nós nasceu para carregar uma cruz, passar por um horto das oliveiras, beber um cálice, ter as suas horas de agonia e em que diz a Deus Nosso Senhor: “Meu Pai, se possível, afastai de mim este cálice, mas faça-se a vossa vontade e não a minha.”

A ideia de que o homem nasceu para dar glória a Deus, antes de tudo sofrendo, esta ideia retriz, fundamental na formação do verdadeiro católico, não a teríamos se não fosse apresentada pelo mais sublime e arrebatador dos exemplos, que é Nosso Senhor Jesus Cristo morrendo na Cruz.

Vemos aqui um contraste com o espírito moderno, segundo o qual a finalidade do homem na Terra é ter êxito, saúde, enriquecer, gozar a vida e morrer bem tarde, quando não mais houver remédio. E, durante toda a existência, ter a maior quota possível de segurança, de maneira tal que, não digo o sofrimento, mas o medo do sofrimento, não o assalte. Tal visualização é pagã por essência. Calcular a vida assim é calculá-la à maneira de um pagão. A formação católica prepara as pessoas para o sofrimento, pois está fundamentada em Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja vida foi centrada nesta hora suprema da dor.

Como consideramos os sofrimentos de nossa vida?

Isto nos leva a perguntar como consideramos os sofrimentos de nossa vida, dos quais o maior, sem dúvida nenhuma, é a nossa própria santificação. Toda santificação séria faz sofrer, e sofrer muito. E se alguém me disser que não sofre, eu teria vontade de perguntar-lhe, de imediato: “Então tu não te santificas?” Porque não há santificação que não venha acompanhada de dor.

Visando nossa santificação, devemos fazer perguntas como as seguintes:

Combatemos os maus impulsos que, em consequência do pecado original e das nossas más ações, existem dentro de nós? Como fazemos, não só para reprimir os maus impulsos, mas para praticar as virtudes que lhes são opostas? Aceitamos as nossas limitações de inteligência, físicas de toda ordem, sociais, tais como: falta de posição, de fortuna, de atrativos? Há pessoas sem graça, com as quais os outros não gostam de ter relações; passam diante delas e, quando muito, as cumprimentam. Existem também as muito engraçadas, procuradas por todo o mundo para se divertirem com elas, e que nos solicitam à palhaçada. Como aceitamos a necessidade de resistir a essa solicitação?

Para tudo isto, cada um tem a sua cruz. E Nosso Senhor Jesus Cristo nos mostra o papel fundamental do sofrimento. Uma das razões pelas quais não foi possível ao Padre Eterno atender à oração de Jesus foi que os homens tivessem esse exemplo.

Quando Napoleão estava na fase ascensional de sua carreira, antes ainda de se tornar imperador, um bajulador disse-lhe: “General Bonaparte, por que vós não vos fazeis proclamar deus?” Os antigos heróis romanos, e os da Antiguidade em geral, quando “megalavam” muito, acabavam sendo divinizados. Ele olhou para o sujeito de frente e deu esta resposta esmagadora: “Depois de Jesus Cristo, só há um jeito de alguém ser tomado a sério como deus: subir no alto do Calvário fazendo-se crucificar. Eu não estou disposto a isto.”

O exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo calou tão fundo que nunca mais nenhum candidato à divindade foi tomado a sério, porque só a cruz é séria, e apenas são verdadeiramente sérios os homens que querem carregar sua cruz. Portanto, devemos amar a nossa cruz e meditar sobre os pontos acima referidos.

Ele sofreu para que pudéssemos meditar isto juntos, e cada um sair daqui mais resolvido a combater o seu bom combate. Quer dizer, a carregar sua cruz.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Não durmamos enquanto se renova a Paixão!

Em suas invectivas ao povo israelita, os profetas do Antigo Testamento eram instrumentos da misericórdia de Deus: seu objetivo era chamar o povo à conversão. De igual forma procederam os Papas ao longo dos séculos.
Há dois funestíssimos erros, que não raramente lavram entre os católicos e que, com extraordinária oportunidade, devem ser desmascarados na Semana Santa. Como frequentemente ocorre, esses erros não provêm propriamente de premissas falsas, mas de premissas incompletas. É uma visão parcial e estreita das coisas, que os provoca. E só uma meditação acurada, feita à luz de considerações naturais ou de argumentos inspirados em motivos sobrenaturais, pode pôr à luz o mau germe que neles se oculta.
Ineficiência da Igreja diante da crise?
O primeiro desses erros consiste em acoimar de ineficiente a ação da Igreja, para a solução da crise contemporânea. [...] E [dizem] que, portanto, é preciso apelar para uma outra organização, que, ela sim, salvará a civilização católica.
Argumentemos. E argumentemos só com a infalível autoridade dos Pontífices. Porque se para algum católico um argumento inspirado nas palavras dos Papas não for suficientemente convincente, é melhor que esse católico estude bem o seu Catecismo, antes de tentar “salvar a civilização”.
Diz o Santo Padre Leão XIII, e, depois dele, todos os Pontífices o têm repetido, [...] que essa crise moral gerou crises econômicas, sociais ou políticas. E só quando ela for resolvida, serão resolvidos os problemas relacionados com as finanças, a organização política e a vida social dos povos contemporâneos.
Por outro lado, a solução desse problema moral só pode estar na ação da Igreja, porque só o Catolicismo, armado de seus recursos sobrenaturais e naturais, tem o dom maravilhoso de produzir nas almas os frutos de virtude indispensáveis para que floresça a civilização católica.
O que acabamos de dizer é diretamente extraído das Encíclicas. Basta abri-las, para encontrar o que afirmamos. Como consequência, de duas uma: ou os Papas estão errados, ou devemos reconhecer que só o Catolicismo salvará o mundo da crise em que está mergulhado. Portanto, é inútil discutir se, no país A ou no país B, os católicos agiram ou não agiram bem. [...]
Se é verdade que só a Igreja pode remediar os males contemporâneos, é só nas fileiras da Igreja que devemos procurar lutar pela eliminação desses males. Pouco nos importa que outros não cumpram o seu dever. Cumpramos o nosso. E, depois de termos feito todo o possível — a palavra “todo” significa tudo, mas absolutamente tudo, e não apenas “um pouco” ou “muito” — resignemo-nos diante da avalanche que vem. Porque, ainda que pereça o mundo inteiro, ainda que a própria Igreja seja devastada pelos lobos da heresia, ela é imortal. Nadará sobre as águas revoltas do dilúvio. E é de dentro de seu seio sagrado que sairão depois da tempestade, como Noé da Arca, os homens que hão de fundar a civilização de amanhã.
Duas lições, para duas mentalidades erradas
Mas é aí que não querem chegar certos católicos. Como os [apóstolos antes de Pentecostes], eles só compreendem Cristo sobre um trono de glória. Eles só Lhe são fiéis nos dias parecidos com o Domingo de Ramos, quando a multidão O aclama e cobre o seu caminho com suas vestes. Porque, para eles, Cristo deve ser um Rei terreno. Deve dominar o mundo constantemente. E se, por algum tempo, a impiedade dos homens O reduzirem de Rei a Crucificado, de Soberano a Vítima, não mais querem saber d’Ele. [...]
No entanto, Cristo quis passar por todos os opróbrios, todos os vexames, todas as humilhações, mostrando que a História da Igreja também teria seus Calvários, suas humilhações, suas derrotas. E que muito mais meritória era e é a fidelidade no Gólgota do que no Tabor.
Foi para ensinar a gente assim que Nosso Senhor se submeteu a todas as humilhações, no Calvário. Entretanto, foi para ensinar gente diferente que Ele quis a glória do Domingo de Ramos.
Há gente de uma mentalidade detestável, que acha absolutamente natural que Cristo sofra, que a Igreja seja vexada, humilhada, perseguida. Gente comodista, “cujus Deus venter est” — “que têm por Deus o seu próprio ventre”, e que pensa que, como a Igreja deve imitar a Cristo, é natural que todos os [seus inimigos] se atirem contra ela e a façam sofrer. É a Paixão de Cristo que se repete, dizem eles. E enquanto essa Paixão se repete, eles levam sua vida farta e cômoda, nas orgias, nas imundícies, na exacerbação de todos os sentidos e na prática de todos os pecados.
Para gente como esta é que foi feito o látego com que foram expulsos os vendilhões do Templo.
Devemos estar sempre com a Igreja
Não é verdade que devamos cruzar os braços ante as investidas dos inimigos da Igreja. Não é verdade que devamos dormir enquanto se renova a Paixão. O próprio Cristo recomendou que seus Apóstolos orassem e vigiassem. E se devemos aceitar os sofrimentos da Igreja com a resignação com que Nossa Senhora aceitou os padecimentos de seu Filho, não é menos exato que será um motivo de [reprovação] para nós, se nos portarmos ante as dores do Salvador com a sonolência, a indiferença e a covardia de discípulos infiéis.
A verdade é esta: devemos estar sempre com a Igreja, “porque só ela tem palavras de vida eterna”. Se ela é atacada, lutemos por ela. Mas lutemos como mártires, até a efusão de nosso sangue, até o emprego de nosso último recurso de energia e de inteligência. Se, apesar disto tudo, ela continuar a ser oprimida, soframos com ela, como São João Evangelista aos pés da Cruz. E estejamos certos de que, neste mundo ou no outro, Jesus misericordioso não nos negará o esplêndido prêmio de assistirmos à sua glória divina e suprema.
O Legionário Plinio Correa de Oliveira

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Instituição da Eucaristia

Preparação para a Eucaristia

A instituição da Eucaristia sucedeu imediatamente ao lava-pés, com o qual tem ela íntima relação. “Cristo executou tal ação ou cerimônia com o objetivo de ensinar, por meio desse simbolismo externo, que os homens não devem aproximar-se da sacrossanta e divina Eucaristia impuros e manchados”, afirma Maldonado.

A Eucaristia é um Sacramento insuperável, porque não há outro cuja substância seja o próprio Deus. No Batismo, que nos abre as portas para a participação da vida divina, Nosso Senhor Jesus Cristo está como Autor, não como substância. Mas no Sacramento da Eucaristia, Ele está como Autor e como Substância, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Essa é a principal razão pela qual São Tomás a considera o mais importante dos Sacramentos, em termos absolutos.

Na Sagrada Hóstia, o Criador Se doa à criatura e, ao mesmo tempo, assume-a e transforma, tornando-a mais semelhante a Ele. E, se ela corresponde ao seu amor, estabelece com ela uma “comunhão de vontade” que, conforme ensina o Papa Bento XVI, “cresce em comunhão de pensamento e sentimento”.

Logo adiante, esclarece o Pontífice como daí floresce o amor ao próximo: “Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Consiste precisamente no fato de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizarse a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo”.

Quem participa do Sagrado Banquete sem ter pelos seus irmãos esse amor do qual nos deu exemplo Nosso Senhor, está ainda, por assim dizer, com “os pés sujos”. Mas quando nos aproximamos da Mesa Eucarística tão cheios de preocupação pelos outros quanto por nós mesmos, ou até mais ainda, agradamos a Deus de tal forma que Ele derrama sobre nossas almas abundantíssimas e renovadas Graças.

Amar aos outros como Deus nos amou! Eis uma das mais belas formas de preparar-se para a Eucaristia no tempo da Páscoa que agora começa. Se assim fizermos, estaremos imitando, de fato, em nossas vidas, o Divino Mestre no sublime ato do lava-pés. E ninguém melhor para interceder por nós e promover a limpeza de nossas almas para acercar-nos do Pão dos Anjos, do que Maria Santíssima. Recorramos a Ela, sempre.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Jesus lava os pés dos discípulos- Evangelho João 13, 12-15

Continuação dos comentários ao Evangelho Jo 13, 12-15

Figura da caridade fraterna

Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-Se de novo. E disse aos discípulos: ‘Compreendeis o que acabo de fazer? 13 Vós Me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois Eu o sou. 14 Portanto, se Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15 Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que Eu fiz’”.
Santo Agostinho, com seu voo de águia nos céus da teologia e da piedade, nos deixou esta bela consideração a respeito dos presentes versículos: “Ó bem-aventurado São Pedro! Isso é o que ignoravas quando não permitias que te lavasse; isso é o que teu Senhor e Mestre prometeu que haverias de saber depois, quando te assustou para que Lhe permitisses lavar-te. Aprendamos, irmãos, a humildade do Altíssimo; façamos uns aos outros, humildes, o que o Altíssimo fez humildemente. Grande é este sermão sobre a humildade. Alguns irmãos o põem em prática com obras visíveis, quando recebem outros hospitaleiramente, conservando esses costumes humildes (I Tm 5, 10). Contudo, onde não mais existem esses costumes, os santos executam com o coração aquilo que não fazem com as mãos, se realmente podem ser contados no número daqueles dos quais diz o hino dos três santos varões: ‘Santos e humildes de coração, bendizei o Senhor’” (Dn 3, 87).24

A afirmação de Nosso Senhor nesse versículo 13 — “Eu o sou” — evoca poderosamente o “Eu sou Aquele que é”, do Antigo Testamento, bem como a resposta com a qual Ele prostrará por terra os soldados, no Horto das Oliveiras: “Ego sum – Sou Eu” (Jo 18, 5).

Cristo faz o papel de servo, salienta Fillion, “com pleno conhecimento e convicção de Sua divindade”. Sabia que “o Pai tinha posto tudo em Suas mãos” e — como bem pondera o padre Truyols — “tendo perfeita consciência do ilimitado poder que o Pai lhe conferira, de ter sido engendrado pelo mesmo Pai e de que brevemente subiria aos Céus para sentar-Se à Sua direita, apesar de conhecer muito bem esta Sua excelsa grandeza e infinita dignidade, quis Jesus abaixar-Se a ponto de lavar os pés de Seus discípulos”.

Esclarece o mesmo Fillion: “Claro que Jesus não tencionava fazer do lava-pés uma instituição durável e um rito obrigatório; Seu ato era, antes de tudo, figura da caridade fraterna que os cristãos devem exercer mutuamente”. Na mesma linha, observa o Cardeal Gomá: “Jesus nos apresenta a espécie como gênero, um caso particular como lei geral: pelo lava-pés, devemos entender todos os exemplos de humildade e de caridade”.

A lição dada por Nosso Senhor representava uma monumental quebra dos padrões vigentes. Ele queria dar o exemplo de quanto devemos nos interessar pelos outros, sobretudo no que diz respeito à salvação da alma, preocupando-nos de que cada um dos nossos irmãos progrida cada vez mais na vida espiritual, tal como pondera, de modo admirável, Santo Agostinho: “Além dessas considerações morais, podemos entender que o Senhor nos recomenda lavar-nos uns aos outros — purificando nossos afetos — esses pecados que aderem a nós quando caminhamos pelo mundo. Como será isso? Podemos acaso dizer que alguém tem possibilidade de limpar seu irmão do contágio dos delitos? Claro que sim! E disso somos advertidos também por esses assombrosos atos do Senhor, ou seja, que, confessando-nos mutuamente nossos delitos, oremos por nós como Cristo intercede por nós (cf. Rm 8, 34). Ouçamos o Apóstolo São Tiago que nos ordena isso, dizendo com toda clareza: ‘Confessai mutuamente vossos pecados e orai uns pelos outros para serdes salvos’ (Tg 5, 16). […]

“Portanto, perdoemo-nos mutuamente nossos pecados, oremos mutuamente por nossos delitos, e assim, de certo modo, nos lavaremos os pés uns aos outros. A nós cabe, por sua Graça, esse ministério da caridade e da humildade, enquanto a Ele corresponde escutar-nos e limpar-nos de toda mancha de pecado, por Cristo e em Cristo, para que aquilo que perdoemos, isto é, aquilo que desliguemos na terra, seja desligado no Céu’”.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Jesus lava os pés dos discípulos- Evangelho João 13, 1-30

Continuação dos comentários ao Evangelho Jo 13, 6-10 - Quinta-feira Santa

Cristo dava em tudo prioridade a Pedro

“Chegou, assim, a Simão Pedro”.

Alguns comentaristas antigos — como Orígenes, Leôncio, Crisóstomo, Teofilacto e Eutímio — opinam que Nosso Senhor começou por lavar os pés de Judas “para pagar ao traidor o mal com o bem e comovê-lo por meio de um benefício singular, bem como advertir-nos de que devemos agir semelhantemente com nossos inimigos”.

Mas Santo Agostinho, São Beda e muitos outros autores afirmam ter Ele começado por Pedro. “Primeiro, porque é certo que em tudo Cristo dava prioridade a Pedro, como cabeça dos demais Apóstolos; segundo, por não se poder acreditar que os outros Apóstolos não protestassem caso Cristo começasse por eles”.

Nunca devemos rejeitar uma Graça

6“Pedro disse: ‘Senhor, tu me lavas os pés?’. 7 Respondeu Jesus: ‘Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás’. 8 Disse-lhe Pedro: ‘Tu nunca me lavarás os pés!’. Mas Jesus respondeu: ‘Se Eu não te lavar, não terás parte comigo’. 9 Simão Pedro disse: ‘Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça’. 10 Jesus respondeu: ‘Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos’”.

Ao ver Cristo Se aproximar para lavar-lhe os pés, São Pedro, sempre impulsivo, teve um verdadeiro sobressalto. Como os demais Apóstolos, não podia compreender naquele momento a transcendência do gesto do Divino Mestre. Mas Nosso Senhor lhe adverte que se não o permitisse, não teria parte com Ele.

Podemos imaginar o que deve ter sido sentir os próprios pés sendo lavados pela Segunda Pessoa da Santíssima Trindade! Não terá ele experimentado também, à medida que as sagradas e adorabilíssimas mãos de Jesus retiravam a poeira do caminho, que todos os passos dados por esses pés, que não foram bons, ou foram quiçá pecaminosos, estavam sendo perdoados e uma alvura divina penetrava em sua alma?

E nós? Se quisermos ter parte com Jesus, devemos pedir, como São Pedro, a Graça de sermos purificados por inteiro, ou seja, que o preciosíssimo Sangue do Redentor limpe todas as nossas faltas. Pois, como sublinha Maldonado, “na pessoa de Pedro, o Senhor fala a todo o gênero humano, e nos ensina que ninguém terá parte com Ele se não se deixar lavar por Ele. Com efeito, quem poderá salvar-se sem ser lavado e purificado pelo Sangue de Jesus?”.

Ora, o exemplo do Príncipe dos Apóstolos ensina-nos também que, para participarmos do Divino Banquete, precisamos ter em relação a Jesus uma atitude de total aceitação, nunca rejeitando alguma graça que Ele queira nos conceder, por mais inexplicável, ou até imerecida, que ela nos possa parecer. A esse respeito, sublinha um piedoso comentarista: “Quão importante é não se opor à vontade de Deus nem à dos superiores que O representam, mesmo sob o falacioso pretexto da piedade ou da humildade! São Basílio tira desta passagem do Evangelho duas regras de conduta cheias de sabedoria: desagrada a Deus quem se opõe à sua vontade, mesmo se o faz com boa intenção; deve-se aceitar com a maior docilidade possível tudo quanto quer o Senhor”.17 Santo Agostinho assim comenta o diálogo entre o Salvador e Pedro: “‘Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás’. Assustado pela profundidade daquela ação do Senhor, não permite que se lhe faça aquilo cujo motivo ignora; não pode ver, não pode resistir a Cristo humilhado aos seus pés. ‘Tu nunca me lavarás os pés!’. “

‘Se Eu não te lavar, não terás parte comigo.’ Então, angustiado entre o amor e o temor, e mais inquieto por ser negado por Cristo do que por vê-Lo assim humilhado, replicou: ‘Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça’. Se assim ameaças, aqui tens meus membros e, além de não tirar o mais baixo, entrego-Te o mais alto”.

Quanto ao simbolismo do gesto de lavar a cabeça e as mãos, lembremos ainda o comentário do grande São Bernardo: “Está lavado quem não tem pecados graves; aquele cuja cabeça, isto é, sua intenção, e cujas mãos, ou seja, sua conduta e suas obras, estão limpas”.

Entretanto, nem todos estavam limpos para o Banquete Eucarístico que iria, em seguida, se realizar.

Eis o que a esse propósito nos diz Luís de Granada: “Contempla, pois, nesta Ceia, ó minha alma, teu doce e benigno Jesus, e observa o exemplo de inestimável humildade que Ele aqui te dá, levantando-Se da mesa e lavando os pés de Seus discípulos. Ó bom Jesus, o que fazes?! Ó doce Jesus, por que tanto Se humilha tua majestade?! O que sentirias, minha alma, se visses Deus ali ajoelhado aos pés dos homens, aos pés de Judas? Oh, cruel, como não se abranda teu coração ante tão grande humildade? Como tamanha mansidão não é capaz de partir tuas entranhas? É possível que tenhas decidido vender esse mansíssimo Cordeiro? É possível que esse exemplo não te cause agora compunção?”.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Jesus lava os pés dos discípulos- Evangelho João 13

Judas estava determinado a cometer o crime

“Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus”.

Estava presente Judas Iscariotes, que já resolvera participar do horroroso crime de deicídio. A esse respeito, assim se refere Santo Agostinho: “Judas tinha já decidido em seu coração ceder às sugestões diabólicas e trair um Mestre em quem não aprendera a conhecer a Deus. Viera ao banquete já com essa disposição, como explorador do Pastor, como armador de insídias ao Salvador, como vendedor do Redentor”.8

São João Crisóstomo nota ter sido intenção do Evangelista “deixar claro que Cristo lavou os pés do homem que havia já decidido traí-Lo”,9 ressaltando, assim, a paciência e clemência de Jesus. Logo a seguir, porém, aponta como o Discípulo Amado visava também acentuar “a enorme maldade daquele homem, porque não o levavam a desistir nem o fato de compartilhar a hospitalidade de Cristo, embora fosse este o mais eficaz freio para a maldade, nem sequer o de que Cristo continuava sendo seu mestre, suportando-o até o último dia”.

O Mestre lava os pés dos discípulos

“Jesus, sabendo que o Pai tinha posto tudo em Suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4 levantou-Se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5 Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido”.

Comentando essa afirmação de São João, “Sabendo que o Pai tinha posto tudo em Suas mãos”, explicita Santo Agostinho: “Portanto, também o próprio traidor, pois se não o houvesse tido em suas mãos, não teria podido servir-Se dele à vontade. Estava já, portanto, entregue ao traidor, precisamente ao que desejava entregá-Lo, de modo que quando O entregasse para o mal, saísse de sua traição um bem que ele ignorava. Sabia muito bem o que estava fazendo por seus amigos esse Senhor que Se servia pacientemente de seus inimigos”.11

Para entender estes versículos, devemos levar em consideração os costumes orientais de há dois mil anos, bem distintos dos nossos. Naquele tempo, era praxe, para manifestar deferência, os servos lavarem os pés dos convidados, com água, perfumes e unguentos, nos banquetes e jantares solenes. Ora, isso jamais era feito pelo próprio anfitrião. Tratava-se de serviço próprio aos escravos.

Nesta Ceia, quem era o Anfitrião? Nada mais nada menos que o próprio Deus feito homem. Aquele em cujas mãos “o Pai tinha posto tudo” e que “de Deus tinha saído e para Deus voltava”, vai fazer papel de servo, lavando os pés dos que O reverenciavam como Mestre e Senhor. Belamente interpreta os pormenores desta cena o gênio de Santo Agostinho, ao afirmar: “Tirou Seu manto Aquele que, sendo Deus, aniquilou-Se a Si mesmo; cingiu-Se com uma toalha Aquele que recebeu a forma de servo; derramou água numa bacia para lavar os pés de Seus discípulos Aquele que verteu Seu Sangue para com ele lavar as manchas do pecado”

Gesto tão inusitado não podia deixar de causar perplexidade nos Apóstolos, como bem comenta o mesmo santo: “Quem não se encheria de estupor se o Filho de Deus lhe lavasse os pés?”

domingo, 1 de abril de 2012

Cristo faz o papel de Servo


“Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado Sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.

Alguns comentaristas afirmam que a expressão “até o fim” significa que Ele amou Seus discípulos até a hora da morte, mas esta interpretação nos parece incompleta. Num plano mais profundo, as palavras de Jesus refletem o desejo de levar Seu amor pelos homens até um limite inimaginável: “até a perfeição”, escreve Fillion, baseando-se em São João Crisóstomo e vários outros autores.6 O próprio Deus vai entregar-Se como vítima expiatória. O Inocente imolar-Se-á pelos culpados. Impossível demonstração maior de amor! Neste afeto estamos todos concernidos. Cada um de nós, portanto, foi amado “até o fim”.

Sabendo perfeitamente que iria passar por todos os inenarráveis tormentos da Paixão, o Divino Mestre os quis, quase diríamos, com sofreguidão. Assim, começa Ele a Ceia dizendo: “Há muito que Eu desejei comer esta Páscoa convosco” (Lc 22, 15).

Era aquele o derradeiro momento de convívio com os Seus. A partir dali, tudo não seria senão sofrimento, humilhação e dor. Por isso Jesus, “cuja ternura para Seus discípulos não conhece limites, vai multiplicar as demonstrações dela, antes de morrer. A todos os benefícios com os quais os cumulou, acrescentará novos, que superam os anteriores. Ele os reservou para o fim, como seu supremo legado”.