Continuação dos comentários ao Evangelho – XV Domingo do Tempo Comum - Lc 10, 25-37- Ano C - 2013
A parábola: Quem é, afinal, o meu próximo?
30 Jesus, retomando a palavra, disse: “Um homem descia
de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram, o
espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto.”
Quantas escolas e cursos de
didática se multiplicam por todo o orbe! Entretanto, é impossível superar
aquela empregada pelo Divino Mestre em sua vida pública. A criação da figura do
Bom Samaritano é simplesmente genial. A própria descrição das circunstâncias
geográficas nas quais o caso se verifica é de um colorido tão real que por pouco
não julgamos tratar-se de um fato histórico.
Jerusalém dista de Jericó,
aproximadamente, trinta quilômetros e, entretanto, a diferença de altitude
entre uma e outra cidade quase atinge seus mil metros. Ao empreender-se o
caminho partindo de Jerusalém, depois de percorrer uns três quilômetros,
chega-se a Betânia, após a qual termina a vegetação e uma região bem rochosa se
evidencia por longa extensão. A certa altura, nos dias de hoje, encontra-se uma
hospedaria com o nome de “Bom Samaritano”, ao que parece, para fazer jus à
parábola. Tudo leva a crer que de fato deve ter sido esse o local descrito pelo
Senhor, pois ao longo dos séculos multiplicaram-se ali os assaltos, e não só à
noite, mas em plena luz do dia. Ademais, existem ainda, não muito distante
desse albergue, as ruínas de uma fortaleza, prova evidente do quanto devia ser
perigoso o local.
O Evangelho sempre procura ser
sintético, motivo pelo qual muitos aspectos, talvez secundários, de suas
narrações não passam para a História. Por isso, não é exagero imaginarmos o
quanto os detalhes psicológicos e geográficos foram cuidadosamente elaborados
pelo Senhor.
Por esse caminho descia
supostamente um judeu, pois, não tendo sido mencionada sua raça, por exclusão
só podia tratar-se de um co-nacional do levita e do sacerdote que o sucederiam
após o assalto. Entretanto, como veremos, essa imprecisão tem sua razão de ser.
Das cavernas, ou de trás das rochas, surgem uns assaltantes que despojam o pobre
homem e, certamente por ter ele reagido, aplicam-lhe severos golpes,
abandonando-o quase sem vida em meio ao seu próprio sangue, impedido, portanto,
de seguir seu curso normal.
Uma vez delineada a dramática
situação desse homem e a fuga dos bandidos, a cena se enriquece com três
personagens mais: um sacerdote, um levita e o samaritano.
O sacerdote e o levita violam a Lei, por terem
o coração endurecido
31 Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um
sacerdote que, quando o viu, passou de largo. 32 Igualmente um levita, chegando
perto daquele lugar e vendo-o, passou adiante.
A nacionalidade judaica e a
respectiva religião eram os mais elevados pressupostos de honra de todo o povo
eleito. Ora, aquele ferido possuía essas características essenciais, e vê-se
claramente qual foi a intenção do Divino Mestre ao ideá-lo como vítima, pois o
sacerdote ao se aproximar apenas o verá e passará adiante. Deduz-se que ele
havia terminado seu serviço no Templo e retornava a Jericó onde residiam muitos
dos de sua categoria. Não podia ser mais providencial esse encontro fortuito. A
Lei determinava como obrigação grave socorrer qualquer acidentado, sobretudo em
estado pré-agônico.
Religião, nacionalidade,
desamparo, nada moveu aquele duro coração de um ministro de Deus chamado ao
heroísmo da caridade. Não é difícil imaginarmos os raciocínios que
provavelmente elaborou a partir de então e ao longo do caminho, para tranquilizar
sua atormentada consciência: “É um homem qualquer! Um desconhecido, sem
títulos. É melhor nem me deter, para não rebaixar minha condição”. Eram as
razões ditadas pelo orgulho mal combatido, e não tão raro, naqueles que tinham
por vocação a missão de extirpar esse mesmo vício nos outros e em si próprios.
Ademais, se a humildade fosse sua companheira, nada lhe custaria, ainda que por
puras palavras, procurar confortar aquele pobre hebreu. Um pequeno desvio, sem
muito deter-se, foi todo o seu esforço. “Assueta
vilescunt”, diz-se em latim; ele estava calcinado por uma rotina entibiada
de suas funções litúrgicas no Templo, como também intoxicado pela hipocrisia
dos escribas e fariseus.
Não lhe devia ser estranho um
certo cálculo dos gastos a serem efetuados, caso ele se propusesse socorrer
aquela vítima roubada, despojada e ensanguentada. Nem sequer poderia contar com
uma recompensa e, menos ainda, com a recuperação do dinheiro empregado. Nada
poderia esperar em retribuição aquele ministro pela perda de tempo,
incomodidade, prejuízo, etc. Manifestou-se robusto seu caráter interesseiro de
um vil pragmatismo diante daquele drama.
No extremo oposto da bondade,
encontramos ao longo da História corações duros, cruéis e difíceis de se
deixarem enternecer pelos necessitados. Nada os move à compaixão. Ali “por
acaso, descia” um exemplo vivo dessa empedernida insensibilidade.
Aquela cena, entrecortada por
gemidos que imploravam socorro e misericórdia, mais inspirava repulsa e náusea
do que pena, naquele coração pervadido de amor próprio.
Porém, a Lei era explicitamente
contrária aos seus sentimentos de egoísmo (cf. Ex 23, 5), e ele não podia ter
abandonado seu irmão, sobretudo naquelas circunstâncias. As mesmas
considerações serviriam para caracterizar a atitude idêntica do levita que,
logo a seguir, também passou por ali. Ambos provavelmente haviam deixado o
Templo após o término de seu expediente e desciam para Jericó, cidade que
abrigava a metade dos servidores religiosos.
Misericórdia do samaritano
33 Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto
dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se dele, ligou-lhe
as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento,
levou-o a uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte tirou dois denários,
deu-os ao estalajadeiro e disse-lhe: “Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to
pagarei quando voltar”.
Bem diferente foi a reação do
samaritano. Sem levar em conta o ódio racial que violentamente os separava,
apesar de se tratar de um inimigo seu, sua religiosa incompatibilidade se
transformou, no mesmo instante, em comiseração. O Evangelho recolhe os
maravilhosos detalhes da divina parábola elaborada por Jesus para o doutor da
Lei: o samaritano se manifesta um herói da caridade desde o descer de sua
montaria, aplicando in loco todos os cuidados cabíveis naqueles tempos,
conduzindo a vítima a uma pousada, até o contrair uma dívida com o
estalajadeiro, a fim de que este dispensasse todos os cuidados ao pobre judeu.
Percebe-se, pelo contrato proposto e aceito, ser ele um mercador de confiança e
muito estimado pelo dono da estalagem.
Novamente, Jesus responde ao
doutor da Lei com outra pergunta, parecendo à primeira vista desejoso de
desviar-se um tanto da substância da temática proposta pelo consulente. Esse
aparente desvio da questão, intencionalmente levado a cabo pelo Divino Mestre,
é uma quimera que atrai a atenção da maioria dos comentaristas, dando-lhes
ocasião para levantar as mais variadas hipóteses. Trazemos à tona a mais sábia
e lúcida delas:
“No meu entender, Cristo pretende demonstrar de modo geral que todo
homem é nosso próximo; mas o faz de modo adaptado àquele doutor com quem estava
tratando. Pensava este que só os justos, ou só os amigos, ou ao menos só os
judeus, eram seus próximos. E das próprias palavras da Lei teve ocasião de
errar, porque no hebraico próximo significa o mesmo que amigo e companheiro.
Quis, pois, Cristo tirá-lo desse erro e obrigá-lo a reconhecer e confessar que
próximo não era só o judeu para o judeu, mas também o samaritano para o judeu,
isto é, o inimigo para o inimigo. E se o próprio inimigo era próximo para o
inimigo, todo homem deve se considerar próximo em relação ao outro. Demonstrou
isso com a melhor e mais eficaz argumentação, ou seja, pelo efeito, fazendo ver
que o inimigo tinha sido próximo para o inimigo, isto é, o samaritano para o judeu,
pois fez o que é característico do próximo, que é ajudar. Por isso Cristo
propôs a parábola com o exemplo de um samaritano” (8).
No mesmo sentido, opina um
conhecido comentarista moderno:
“A pergunta de Cristo foi feita com intenção especial. Perguntou-Lhe o
doutor da Lei quem era o ‘próximo’ para ele. E Cristo [por sua vez], perguntou:
Quem agiu como ‘próximo’? Desse modo, com um exemplo prático, fez ver que cada
homem é ‘próximo’ para todos os homens. Motivo pelo qual deve estar ‘próximo’ a
ele em todas as suas necessidades. É o paradoxo oriental servindo de máxima
pedagogia. Tal foi a lição magisterial de Cristo” (9).
Tem toda razão Maldonado ao
expressar essa análise, pois não era tão explícito para um judeu o conceito de
próximo, por várias razões. Por sua história e por sua lei, antes de tudo.
Sempre que os judeus se misturavam com outros povos, acabavam caindo na
idolatria. Por outro lado, basta considerar o quanto a Terra Prometida se
localizava entre mar, desertos e montanhas, separando o povo judeu,
geograficamente, dos demais. Daí ser muito restrito para eles o verdadeiro
significado de “próximo”. E entre si julgavam-se irmãos, mas, com os outros,
viviam numa antipatia instintiva levada, não raras vezes, até ao ódio.
Por cima dessas circunstâncias,
o povo judeu possuía uma missão universal. A ele havia sido confiado o tesouro
espiritual do qual deveria ser alimentada toda a humanidade.
Assim se explica essa belíssima
parábola composta pelo Divino Mestre, que foge um tanto da morfologia das outras,
nas quais o simbolismo se espraia por todos os substantivos e adjetivos. Ela
constitui um exemplo efetivo e afetivo de amor a Deus, sem o qual não existe
Religião, e de amor ao próximo, sem o qual não há amor a Deus.
Quem diz amar a Deus, mas não ama
seu próximo, além de mentir, desobedece à Lei divina e se esquece de seu
Preciosíssimo Sangue derramado no Calvário.
Esse amor deve ser universal e
não podemos nos apoiar em pretextos, aparentemente legítimos, para não
praticá-lo, como o fizeram o sacerdote e o levita da parábola. Eles certamente
estavam encarregados de missões boas e delas retornavam para suas casas,
entretanto, procederam mal com o necessitado.
Não poucos autores aplicam a
parábola ao próprio Jesus Cristo, com muita piedade. Não será de mau gosto
fazermos uma aplicação a nós, perguntando-nos quais têm sido, em geral, nossas
atitudes e reações face aos necessitados de qualquer espécie.
1) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
2) Pe. Juan de Maldonado SJ, Comentários
a los Cuatro Evangelios, BAC, Madrid, 1951, p. 545.
3) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
4) Pe. Juan
de Maldonado SJ, op. cit., p. 546.
5) Id., ibid.
6) Santo Ambrósio, op. cit. – id.
7) São Cirilo, op. cit. – ibid.
8) Pe. Juan
de Maldonado SJ, op. cit., pág. 548.
9) Pe. Manuel de Tuya OP, Biblia
Comentada, BAC, 1964, p. 839.