Comentários ao Evangelho 5º Domingo da Páscoa – Ano B – Jo 15, 1-8
Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo
que não der fruto em Mim, Ele o cortará; 2 e todo o que der fruto, podá-loá, para
que dê mais fruto. 3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos
anunciei. 4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode
por si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim também vós, se não
permanecerdes em Mim. 5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em
Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6 Se
alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo, e secará; depois
recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá. 7 Se permanecerdes em Mim, e as
minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
8 Nisto é glorificado meu Pai: em que vós deis muito fruto e sejais meus discípulos
(Jo 15, 1-8).
Deus quis se fazer íntimo de nós
Moisés se maravilhou
com a sarça que ardia sem se consumir. Aquelas chamas de incomum beleza,
mantidas pela ação de um anjo, atraíram-no. Movido por uma forte e sobrenatural
curiosidade, ele aproximou-se “para contemplar esse extraordinário espetáculo”
e qual não foi sua surpresa ao ouvir de dentro das labaredas a voz de Deus, a
adverti-lo de que tirasse suas sandálias por encontrar-se numa “terra santa”.
Ali recebeu a elevada
missão de libertar do cativeiro o povo eleito e de conduzi-lo à Terra
Prometida. Porém, naqueles alvores de seu profetismo, surgiu uma perplexidade:
como apresentar aos outros o Senhor? Dúvida inteiramente compreensível, pois o
Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó era distante, invisível e de difícil acesso.
Mas, a resposta foi extremamente sintética: “Iah Weh”, ou seja: “Eu sou” (1).
Aquele era o mesmo
Deus que passeara todas as tardes com Adão no Paraíso (2) e que, após o pecado
original, fez-Se menos presente entre os homens. A partir daí, quase sempre
suas manifestações se deram através da grandeza dos castigos (dilúvio, confusão
das línguas, etc.), que incutiam um profundo respeito, temor e admiração no
povo. Embora a travessia do Mar Vermelho, o maná e outras ocorrências
miraculosas durante o Êxodo lhes dessem um conhecimento experimental da
existência de um Ser Supremo que os protegia nos caminhos da vida, a própria
entrega das Tábuas da Lei no Sinai tornou-se um símbolo do relacionamento d’Ele
com o homem, baseado numa severa justiça. Aquele Ser absoluto se apresentava ao
povo eleito como um Legislador intransigente, invisível e intocável.
Esse modo de agir
divino passou por uma transformação inimaginável nestes mais de dois mil anos
de Novo Testamento, desde que o “Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,
14). Aquele mesmo Deus que fez tremer o Sinai e deu grandes poderes ao braço de
Sansão e à voz de Elias, pôde ser adorado enquanto bebê na manjedoura, em
Belém, e esteve nos braços de Maria, José, Simeão e dos Reis Magos.
Doze anos mais tarde,
ainda menino, discutiu com os doutores no Templo, e durante sua juventude,
auxiliou seu pai nos trabalhos de carpintaria. E, ao iniciar sua missão
pública, fez-Se presente a umas bodas em Caná, realizando ali seu primeiro
milagre.
Em Jesus, Deus quis
Se fazer íntimo de nós. Ele continuou sendo o mesmo “Iah Weh”, mas
atribuindo-Se títulos diferentes: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10, 11), “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida” ( Jo 14, 6), “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12),
“Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7), “Eu sou o pão vivo que desceu do céu”
(Jo 6, 51). Fazendo menção a essas criaturas todas — inclusive comparando-se à
galinha com seus pintainhos, ao chorar sobre Jerusalém —, Ele mostra bem qual
seu incomensurável desejo (desejo eterno) de nos fazer participar de sua vida.
É nesse contexto que
se insere o Evangelho do 5º domingo de Páscoa (ano B). “Eu sou a videira
verdadeira, e meu Pai é o agricultor”.
Nossa permanência em
Jesus
Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor
Comenta o Cardeal
Isidro Gomá y Tomás: “A belíssima alegoria da vinha mística, assim como a do
Bom Pastor, foi-nos conservada apenas por São João. Pode ter servido de
sugestão ao Senhor a lembrança do vinho da ceia, do qual disse que não mais
beberia. Ou então simplesmente a inventou, por ser ela extremamente apta para
exprimir o pensamento, ou melhor, a teoria da união espiritual com Ele”. 3
Para Israel, a
parreira de uva era uma realidade comum e corrente a ponto de, sob o reinado de
Salomão, assim se referir a Escritura à paz por ele conquistada com todos os
povos vizinhos: “Judá e Israel, desde Dã até Bersabéia, viviam sem temor algum,
cada qual debaixo de sua vinha e de sua figueira” (1 Rs 4, 25).
A verdadeira videira
E qual o significado
do vocábulo “verdadeira”, empregado pelo Mestre neste versículo? Antes já
dissera: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), e João afirmara ser
Ele “a luz verdadeira”. Como explicar o uso desses adjetivos?
Em face de heresias
de outrora, alguns Padres da Igreja procuravam esclarecer este particular pelos
efeitos produzidos pela “videira”, pela “luz” ou pelo “pão” verdadeiros, pois
alimentam a fé dos que deles se servem, enquanto os seres materiais
correspondentes só servem para a sustentação ou desenvolvimento físico. Nós,
porém, somos levados a achar que Deus, na sua infinita e eterna sabedoria,
criou esses seres todos (luz, pão, vinha, pastor, caminho, etc.)
primordialmente para melhor Se fazer entender pelo homem. Nesse sentido, não
contêm eles a verdade inteira, mas apenas a simbolizam. A arquetipia desses
seres se encontra no próprio Jesus.
E por que Jesus,
nessa ocasião, passa a falar em videira e agricultor? Ouçamos novamente o
Cardeal Gomá: “Jesus disse a seus discípulos que vai separar-Se deles, mas essa
separação será apenas segundo o corpo. Espiritualmente, deverão permanecer
intimamente unidos a Ele para viver a vida divina; morrerão se d’Ele se
separarem. Propõe essa doutrina envolta na alegoria da videira. ‘Eu sou a
videira verdadeira’, a videira ideal e perfeitíssima, na qual, melhor que nas
videiras do campo, verificam-se as condições próprias dessa planta. O
cultivador dessa vide espiritual e incorruptível é o Pai: ‘E meu Pai é o
agricultor’. Jesus não seria nossa videira se não fosse homem; mas não nos
daria a vida de Deus se não fosse Deus. Logo, Jesus é o Messias, Filho de
Deus”. 4
“Meu Pai é o agricultor”
Todo ramo que não der fruto em Mim, Ele o cortará; 2 e
todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto.
Jesus afirmou que o
Pai é o agricultor e, em consequência, é Ele quem assume a tarefa da poda, da
limpeza, dos cuidados. Como já dissemos anteriormente, Deus criou a videira,
entre outras razões, para servir de exemplo a esses procedimentos próprios ao
Pai, assim como para melhor compreendermos o relacionamento que existe entre os
batizados e Cristo. A videira, entre os vegetais, é o mais adequado para se
entender a necessidade do corte, ou a da poda. São Paulo é bem explícito em sua
apreciação sobre o Agricultor: “De modo que não é nada, nem aquele que planta,
nem aquele que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Uma mesma coisa é o que
planta e o que rega; cada um receberá sua recompensa segundo seu trabalho.
Efetivamente, somos cooperadores de Deus; vós sois cultura de Deus, sois edifício
de Deus” (1 Cor 3, 7-9).
Esses ensinamentos de
Jesus nos mostram o quanto é pleno de vitalidade seu Corpo Místico. Os “ramos”
improdutivos, o Pai os arranca; e os que prometem frutos futuros, Ele os
desponta e os acondiciona para mais excelentemente se beneficiarem da seiva.
Não seria diminuto o
elenco dos “ramos” infrutíferos, pois muitos sãos os vícios, más inclinações e
pecados que bloqueiam o fluxo normal da “seiva” da graça. Em síntese, todos
eles têm sua origem no egoísmo humano. O estar voltado sobre si mesmo, submerso
em suas próprias conveniências, traz como consequência inevitável um corte com
as graças de Deus, pois estas nos são dadas com vistas à caminhada rumo ao
Reino. Por outro lado, como afirma São João Crisóstomo, ninguém pode ser verdadeiro
cristão sem as boas obras. Ora, o egoísmo não as produz jamais.
Quanto à “poda” dos
ramos frutuosos, além das tentações e provações permitidas por Deus, há dons,
consolações e estímulos sobrenaturais, ações divinas que visam multiplicar a
fertilidade deles. Por este dito de Jesus, vê-se quanto as tentações são úteis
para conferir mais virtude e mérito aos bons “ramos”.
Em resumo: “O que se
quer dizer aqui é que Cristo, Deus-Homem, influi diretamente, pela graça, nos
sarmentos. O Pai, de outro lado, é quem tem o governo e a providência exterior
da vinha”. 5
Os Apóstolos foram purificados pela palavra
3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos
anunciei.
Santo Agostinho, com
suas características inconfundíveis de fé e senso teológico, comenta este
versículo chamando a atenção para a eficácia da palavra. No próprio Sacramento
do Batismo, o puro emprego da água, se bem que pudesse ser útil para lavar o
corpo, nunca purificaria a alma. A eficácia do Sacramento exige também o uso da
palavra com a intenção de operar essa purificação. É por ela que a água, ao
escorrer pela cabeça do batizando, purifica a alma.
Vários Padres da
Igreja são da opinião de que Jesus, nesta passagem, teria feito uma alusão
indireta à apostasia de Judas, o qual se encontrava ausente a fim de perpetrar
sua traição. Antes desse episódio, Jesus respondera a Pedro logo no início do
Lava-pés: “Aquele que tomou banho não tem necessidade de se lavar, pois todo
ele está limpo. Vós estais limpos, mas não todos” (Jo 13, 10-11). Ele bem sabia
que Judas ia entregá-Lo, por isso disse: “Estais limpos, mas não todos”.
Observam outros ainda
que, neste versículo, Jesus declara ter feito a tarefa de “agricultor”, ao
purificar os Apóstolos com a palavra, apesar de pouco antes ter-Se autodenominado
“videira verdadeira”.
Condição para permanecer em Cristo
4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo
não pode por si mesmo dar fruto se não
permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Uma vez que se esteja
limpo, é preciso perseverar nesse estado. Para tal, é indispensável cumprir os
Mandamentos, pois “nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos
Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus” (Mt 7, 21).
Frei Manuel de Tuya
OP diz a respeito deste versículo algo digno de nota: “O verbo que emprega —
permanecer — é um termo técnico próprio de João. Ele o usa 40 vezes em seu
Evangelho e 23 em sua primeira Epístola. E aqui, com esse verbo, formula a
íntima, permanente e vital união dos fiéis com Cristo”.
Com sua habitual
clareza, Maldonado explica que essa permanência nossa em Jesus é como se Ele
dissesse:
“‘Se quiserdes dar
frutos e evitar que o Pai os arranque, permanecei em Mim. De minha parte, já
fiz o que devia — comenta Teofilato —, ao limpar-vos com minha doutrina; agora
fazei o que deveis. Permanecei, perseverai nessa limpeza que Eu vos obtive.
Isso é, permanecei em Mim’. Leôncio e Cirilo observam: ‘Manda-lhes permanecer
n’Ele, não só pela fé, mas principalmente pela caridade, dado que pela fé são
muitos os que permanecem n’Ele sem, contudo, dar fruto algum’. Cristo
referia-se àquela permanência em Si mesmo que produz frutos, o que é impossível
sem a caridade. Às vezes vemos na videira muitos sarmentos secos, mortos,
infrutíferos, porque não participam da seiva da raiz. Esses são os que aderem a
Cristo só pela fé. São sarmentos, permanecem na videira, mas estão mortos e
secos, porque não sorvem o líquido da graça de Cristo, da qual não se pode
participar sem a caridade, que é vida da alma”. 7
A permanência de Deus
em nós
Nossa vida em Cristo
é um tema muito comentado e conhecido, porém, fala-se menos da permanência
d’Ele em nós. Ora, esta é uma realidade sobrenatural de fundamental importância
e sobre ela devemos nos deter para bem compreendê-la.
Antes da presente
passagem do Evangelho, que a Liturgia recolheu para este domingo, encontramos
esta afirmação de Jesus: “Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai
o amará, e viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14, 23). Portanto,
não se trata da permanência da Segunda Pessoa somente, mas também da Primeira,
ou seja, do Pai. E São Paulo dirá mais tarde: “Não sabeis que sois templo de
Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3, 16). Trata-se, pois, da
inabitação da Santíssima Trindade, ou, por outra, Deus habita na alma em estado
de graça.
Deixemos de lado as
considerações sobre o modo pelo qual se realiza esse habitar de Deus em nós,
por ser um assunto que tem sido muito debatido pelos especialistas ao longo dos
séculos, multiplicando-se as opiniões sem resolver de maneira satisfatória esse
grande mistério. Para nossa formação espiritual, mais importa o fato desse
habitar de Deus em nós, e, felizmente, nessa temática há inteira unanimidade
entre os teólogos.
Deus está presente em todas as criaturas
Comecemos por
focalizar a presença divina em Jesus. A presença de Deus n’Ele não se dá como
num templo. Devido à união hipostática, Ele não tem personalidade humana, mas
só divina. Esta é a mais alta presença possível de Deus em uma criatura.
A segunda presença
mais importante é a Eucarística. De modo direto e imediato, esta diz respeito
unicamente ao Corpo de Cristo, mas de maneira indireta se relaciona com as três
inseparáveis Pessoas da Trindade Santa, pelo fato de ter o Verbo uma intrínseca
união pessoal com a humanidade santíssima de Cristo.
Se bem que não seja
visto, Deus está presente em todas as criaturas, conforme explica São Tomás:
“Deus está presente em todas as coisas e no mais íntimo delas”. 8 E mais
adiante:
“Deus está presente
em todas as coisas por potência, porque tudo está submetido ao seu poder. Está
em tudo por presença, porque tudo está descoberto e à mostra de seus olhos. E
está em tudo por essência, porque está presente em todas as coisas como causa
do ser de todas elas”. 9
A permanência divina
em nós, de que nos fala o Evangelho de hoje, é inferior às duas primeiras, mas
especial em relação à última, embora a pressuponha.
Ele permanece em nós como Pai e como Amigo
A presença geral,
denominada presença de imensidão, é comum a todo ser criado, quer se trate de
uma gota de água, de um anjo ou de um réprobo caído no inferno. Sem ela, a
criatura retornaria ao nada. Entretanto, no versículo em questão, Jesus nos
fala de uma permanência toda ela peculiar. Como sabemos, a paternidade só se
verifica quando o pai transmite sua natureza ao filho; assim, por mais que uma
estátua possa se parecer com a figura do filho de seu escultor, um será filho
enquanto a outra será mera imagem, sem natureza humana. Jesus é realmente Filho
de Deus, porque possui a natureza divina em sua plenitude; e nós, os batizados,
também o somos por uma adoção intrínseca através da graça santificante que nos
dá uma misteriosa participação nessa divina natureza. A partir do Batismo, Deus
— que já Se encontrava em nós por sermos criaturas, como acima vimos — passa a
permanecer em nossa alma, como Pai e a tratá-la como autêntica filha sua. Essa
permanência é exclusiva e própria dos filhos de Deus.
Conforme nos ensina
São Tomás, a caridade estabelece uma profunda e mútua amizade entre Deus e os
homens. Por isso, pela caridade sobrenatural infundida na alma juntamente com o
cortejo de todas as outras virtudes e dons, Deus passa a permanecer nela com
uma realidade diferente, não mais como puro Criador, mas também como Pai e,
além disso, como Amigo. Por isso é que se atribui ao Espírito Santo de modo
especial essa inabitação da Santíssima Trindade, por ser Ele o Amor incriado.
10
A permanência de Deus nos diviniza
Segundo os teólogos,
essa permanência é o primeiro e o maior de todos os dons que possamos receber,
pois nos dá a real e verdadeira posse de Deus. E assim como uma criança em
gestação se alimenta permanentemente da vida da mãe, essa permanência de Deus
na alma confere-lhe de forma ininterrupta a própria Vida divina. Aqui se
entende melhor a frase de Nosso Senhor: “Eu vim para que tenham vida, e a
tenham abundantemente” (Jo 10, 10). É por isso que a Igreja denomina o Espírito
Santo “o doce hóspede da alma” (dulcis hospes animae). Ele não entra em nossas
almas para uma rápida visita, pelo contrário, nela permanece. Ele não só dilata
nossas almas para as verdades da fé, como nos torna íntimos de seus mistérios,
fazendo-nos conhecê-los de maneira repentina ou progressiva. Como consolador e
médico, cura nossas enfermidades, robustece-nos em nossas debilidades,
ensina-nos a rezar. 11 Conhece bem o caminho que devemos trilhar e com suas suaves
— e tantas vezes, eficazes — moções, por ele nos conduz.
Essa maravilhosa
permanência da Santíssima Trindade em nós proporciona a nossas almas a plena
posse e o gozo fruitivo d’Ela, conforme nos ensina o próprio São Tomás: “Assim
também se diz que possuímos somente aquilo de que podemos livremente usar e
usufruir. Ora, só se pode fruir de uma Pessoa divina pela graça santificante.
(...) O dom da graça santificante aperfeiçoa a criatura racional para que com
liberdade não somente use o dom criado, mas ainda frua da própria Pessoa
divina”. 12
Em síntese, essa
permanência de Deus em nós, prometida por Jesus neste versículo, contanto que
n’Ele permaneçamos, transforma-nos em Deus, guardadas as devidas proporções
entre Criador e criatura. Essa realidade foi magnificamente expressa pelo Pe.
Ramière:
“É verdade que no
ferro abrasado está a semelhança do fogo, mas não tal que o mais hábil pintor
possa reproduzi-la servindo-se das mais vivas cores; ela não pode resultar
senão da presença e ação do fogo. A presença do fogo e a combustão do ferro são
duas coisas distintas, pois esta é uma maneira de ser do ferro, e aquela uma
relação dele com uma substância estranha. Mas as duas coisas, por mais
diferentes que sejam, são inseparáveis uma da outra: o fogo não pode estar
unido ao ferro sem abrasá-lo, e a combustão do ferro não pode resultar senão de
sua união com o fogo.
“Assim, a alma justa
possui em si mesma uma santidade distinta do Espírito Santo, mas ela é
inseparável da presença do Espírito Santo nessa alma, e, portanto, é
infinitamente superior à mais elevada santidade que pudesse ser alcançada por
uma alma na qual não morasse o Espírito Santo. Esta última alma só poderia ser
divinizada moralmente, pela semelhança de suas disposições com as de Deus. O
cristão, pelo contrário, é divinizado fisicamente, e, em certo sentido,
substancialmente, dado que, sem se converter em uma mesma substância e em uma
mesma pessoa com Deus, possui em si a substância de Deus e recebe a comunicação
de sua vida”. 13
Nossa absoluta dependência da graça
5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em
Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer.
Este é um dos mais
categóricos versículos sobre a nossa absoluta dependência da graça para
operarmos qualquer ato sobrenaturalmente meritório. Já no II Concílio
Milevitano (416) e no XVI Cartaginês (418) foi sublinhada essa afirmação de
Jesus, fazendo-se notar que Ele não disse ser difícil fazer algo sem seu
concurso, mas sim ser impossível: “Sem Mim, nada podeis fazer”.
6 Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como
o ramo, e secará; depois recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá.
Santo Agostinho, de
forma sintética, deita luz sobre este versículo:
“A lenha da videira é
tanto mais desprezível se não permanecer na videira, quanto mais gloriosa se
permanecer. Dela diz o Senhor, pelo Profeta Ezequiel, que, quando cortada, não
serve para nenhum uso do agricultor, nem com ela se podem fabricar trabalhos de
marcenaria (Ez 15, 5). Só lhe compete um destes dois destinos: a videira, ou o
fogo. Se não estiver na videira, estará no fogo. Para que não esteja no fogo,
deve, pois, conservar-se na videira”. 14
7 Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras
permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
Essa promessa de
Jesus é comovedora, pois, como bem assevera o Cardeal Gomá, Deus, de certo
modo, obedecerá aos pedidos que se Lhe façam, como fruto dessa permanência em
Cristo. É necessário, porém, guardar suas palavras com amor e reflexão e
colocá-las em prática, a exemplo de Maria, que “conservava todas estas coisas,
meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19).
Observadas as
condições enunciadas neste versículo, a consequência será a de uma plena união
com Cristo. Assim sendo, os pedidos serão infalivelmente formulados de acordo
com os desejos d’Ele e, portanto, sempre atendidos.
O mais alto louvor que se possa dar a Deus
8 Nisto é glorificado meu Pai: em que vós deis muito
fruto e sejais meus discípulos.
A verdade contida
neste versículo leva-nos a concluir que o próprio Deus também lucra — ad extra,
é claro — nessa permanência mútua. Ad intra, a glória de Deus é intrinsecamente
absoluta, mas aqui está realizada a finalidade das criaturas inteligentes,
anjos e homens, ou seja, tributar-Lhe a glória formal extrínseca. O mais alto
louvor que se possa dar a Deus encontra-se nas boas obras. Ademais, ao serem
conhecidas pelos outros, elas incitam à imitação. E essa glória consiste não só
na multiplicidade dos bons frutos, mas também na nossa qualidade de discípulos
de Cristo — como o foram os Apóstolos e muitos outros ao longo de dois milénios
—, ou seja, em sermos verdadeiros arautos do Evangelho pela palavra e pelo
exemplo.
1) Cf. Ex 3, 1-15.
2) Cf. Gn 3, 8.
3) El Evangelio
Explicado, Acervo, 1967, v. II, p. 519.
4) Idem ibidem.
5) Pe. Manuel de Tuya
OP, Biblia Comentada, BAC, Madrid, 1964, vol. II, p. 1.242.
6) Op. cit. p. 1.243.
7) P. Juan de Maldonado, SJ, Comentarios a los
cuatro Evangelios, BAC, 1954, v. III, pp. 821-822.
8) Suma Teológica, I,
q. 8, a. 1.
9) Idem, q. 8, a. 3.
10) Cf. Suma
Teológica II-II, q 23, a. 1.
11) Cf. Rm 8, 26.
12) Suma Teológica I,
q. 43, a. 3.
13) Enrique Ramière, SJ, El Corazón de Jesús y la
divinización del cristiano, Bilbao, 1936, pp. 229-230.
14) Evangelho de São
João comentado por Santo Agostinho, Coimbra, 1952, v. IV, p. 186.