Comentário ao Evangelho – V domingo da Páscoa Jo 13, 31-33a.34-35
31 Depois que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus:
“Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. 32 Se
Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o
glorificará logo.
33a Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. 34
Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim
também vós deveis amar-vos uns aos outros. 35 Nisto todos conhecerão que sois
meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 31-33a.34-35).
No sofrimento, a raiz da glória
Embora constatemos a instintiva repugnância de
nossa natureza em relação a todo sofrimento, é nele que se encontra a porta da
autêntica felicidade. E no amor ao próximo o sinal característico do cristão.
A harmonia da natureza humana no Paraíso
Nossa vida na face da Terra
pode ser definida como uma grande prova, pois viemos a este mundo para
enfrentar uma existência tisnada pelo pecado, repleta de dificuldades, e só se
formos fiéis às graças recebidas obteremos o prêmio da eterna bem-aventurança.
A prova é posta pelo Criador no caminho de todos os seres inteligentes, e nem
sequer os Anjos foram chamados à visão beatífica sem passar por ela.1 Adão e Eva, nossos primeiros
pais, tinham sido introduzidos no Paraíso, em graça, também para serem experimentados
e não foram fiéis. Ao romper a obediência e comer o fruto proibido, foram
expulsos do Éden e privados de muitos dos privilégios concedidos por Deus
quando viviam em estado de justiça, dentre os quais a ciência infusa, que dava
o conhecimento dos segredos da natureza, a impassibilidade, pela qual não
adoeciam, e o magnífico dom de integridade.
O dom de integridade
Esse dom especialíssimo fazia
com que todas as inclinações das paixões e os impulsos da natureza estivessem
em harmonia com a lei divina.2
A sensibilidade e a vontade eram governadas pela razão perfeitamente
equilibrada, e esta se submetia com docilidade às determinações de Deus. A
ordenação do homem antes do pecado poderia ser comparada a um motor afinado,
sem nenhum parafuso frouxo, ou a um crochê muito bem feito, sem nenhum ponto
solto; em todos os movimentos de alma e de corpo reinava o mais completo
equilíbrio, sem nenhum esforço. Com o dom de integridade jamais derramaríamos
uma lágrima, não teríamos dores ou sofrimentos de qualquer tipo, e o drama não
se apresentaria em nossas vidas, pois tudo seria conforme a ordem estabelecida
pelo Criador.
Só conhecendo de perto Nosso
Senhor e Nossa Senhora poderíamos ter uma ideia exata de tal privilégio, já que
ambos o possuíram desde o primeiro instante da concepção, por não haver passado
por Eles nem sequer a sombra da mancha do pecado. Em Jesus encontramos esse dom
em grau infinito, pois n’Ele todas as ações humanas são reflexo das divinas, em
consequência da união indestrutível entre ambas as naturezas. Esta graça de
união faz com que Ele, mesmo enquanto Homem, seja intrínseca e absolutamente
impecável, e que todo o seu Corpo e até o menor de seus movimentos sejam santos
de maneira infinita.3 No
caso de Nossa Senhora, pura criatura humana divinizada pela graça, reconhecemos
esse dom por não haver n’Ela nenhum movimento desordenado.
Onde está a origem da
necessidade do dom de integridade para o homem? No fato de ser ele um
microcosmo, contando em sua natureza com elementos do reino mineral, vegetal,
animal e espiritual, aos quais se acrescenta uma participação na vida divina,
pela graça. Estes elementos trazem leis contraditórias que, devido ao pecado,
se entrechocam em nosso interior. Por exemplo, se por um lado o elemento
espiritual pede uma dedicação cada vez maior aos impalpáveis e ao sobrenatural,
a lei animal se esquiva dessa tendência, chamando nossa atenção para o que é
concreto e material. Enquanto o Mandamento de Deus ordena não cobiçar as coisas
alheias, nossos instintos nos induzem à apropriação daquilo que nos agrada,
embora não nos pertença. Os exemplos poderiam ser indefinidamente
multiplicados, pois há uma luta constante entre as várias leis que originam as
dificuldades desta vida e causam tormento, perplexidade e dor. Eis a razão de
São Paulo afirmar: “No meu íntimo, eu amo a Lei de Deus; mas percebo em meus
membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo
da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7, 22-23). É o preceito de Deus
a exigir do Apóstolo um determinado comportamento, enquanto o instinto o leva a
tomar atitudes em sentido oposto. Esse é o drama do ser humano na face da
Terra.
Por isso, querer programar uma
vida sem sofrimento é algo impossível, pois não há ninguém livre de
contrariedades. Não obstante, é factível compensar a ausência desse dom,
fazendo com que, de alguma maneira, seus efeitos se operem em nossas almas?
Regressar às vias do dom de integridade
A solução se encontra em um
fator a respeito do qual houve quem ousasse aproximá-lo ao gênero dos
sacramentos,4 quiçá um
“oitavo sacramento” — acrescentando de forma analógica um novo componente ao
definitivo septenário que a doutrina católica nos ensina —, e este é o
sofrimento. Há na alma humana, de fato, uma aptidão que o Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira designava como “sofritiva”, que consiste em “uma como que
capacidade e necessidade de sofrer”.5 Da mesma forma que os nossos músculos precisam ser exercitados
para não definhar, assim também nós — uma vez expulsos do Paraíso e perdido o
dom de integridade — precisamos passar pelo exercício do sofrimento para que
este equilibre nossa natureza desordenada. E quando nossa faculdade de sofrer
“não se esgota pelo sofrimento efetivo, acaba determinando uma frustração maior
que faz sofrer mais do que o sofrimento. O modo menos sofrível de levar a vida
consiste em sofrer. Uma das razões profundas dos desequilíbrios modernos é que
as pessoas não sofrem, porque acabam estabelecendo a ideia de que é possível
levar uma vida sem sofrimento”.6
Numa palavra, é a dor que faz do homem uma criatura ditosa nesta vida de estado
de prova. Tal doutrina parece muito difícil de ser admitida, pois nossa
natureza não pode rejeitar a felicidade e está a cada instante à sua procura.
No entanto, já os filósofos pagãos intuíram, pelo simples recurso à razão e à
lógica, o papel da dor na vida humana. “Julgo-te um desgraçado se nunca o
foste: passaste a vida sem ter contrariedade; ninguém (nem mesmo tu) conhecerá
até onde alcançam tuas forças”,7
chegou a afirmar Sêneca.
Deus, que nos criou ávidos de
encontrar a felicidade, também colocou em nossa alma a capacidade de sofrer.
Qual a razão para este divino modo de agir? É o que nos ensina com grande
profundidade a Liturgia do 5º Domingo da Páscoa.
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