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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Homilia Bom Pastor

Jesus é o Bom Pastor, que dá a vida por seu rebanho, que somos nós. A ele devemos nossa salvação. 
Veja a homilia de Mons João Clá Dias clicando na imagem.


sábado, 18 de abril de 2015

Evangelho IV Domingo da Páscoa – Ano B – Jo 10, 11-18

Comentários ao Evangelho 4º Domingo da Páscoa – Ano B – Jo 10, 11-18
Naquele tempo, disse Jesus: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
É por isso que meu Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi de meu Pai”.  (Jo 10, 11-18)
“O SENHOR É MEU PASTOR”
A propósito da cura do cego de nascença, e da polêmica provocada por ela entre os fariseus, Jesus se revelou como o Bom Pastor, que arrisca a vida por suas ovelhas. Foi esta uma das ocasiões nas quais Ele exprimiu de modo mais tocante seu amor infinito por nós.
Deus, na sua inesgotável sabedoria, dispôs em perpétua ordem e harmonia todos os seres, fazendo muitas vezes os inferiores símbolos dos superiores. Assim, no sexto dia de sua obra, criou entre os animais a espécie ovina, com o intuito de, no futuro, o cordeiro servir de título ao Redentor, o Cordeiro de Deus. Conferiu características próprias aos rebanhos de ovelhas, assim como ao relacionamento entre estas e seus pastores, para facilitar a compreensão do amor entre o Fundador da Igreja e seus fiéis.
Na civilização de hoje, demasiadamente industrial e planificada, causa agradável surpresa encontrar pelos campos rebanhos que nos recordam aquela sociedade pastoril dos primeiros séculos da História. Alheios às transformações técnicas e sociais, esses animais continuam a se comportar como outrora. Impressiona observar sua sensibilidade à voz ou assobio de seu guia.
Certa ocasião, estando em um ambiente campestre nas cercanias do Palácio do Escorial, não muito distante de Madri (Espanha), assisti a um “sermão” dirigido por um pastor a seu rebanho. As ovelhas ouviam com atenção exemplar as admoestações sobre os cuidados que deveriam ter durante a permanência naquele local. Terminada a “pregação”, ele as dispersou com um simples bater de palmas. Bem mais tarde, convocou-as todas pela voz — chegando a chamar algumas pelo nome próprio — e as fez retomar a estrada, rumo ao seu redil. O fato me emocionou e me fez lembrar o Evangelho que devemos aqui analisar: “As ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 4).
Pedagogia divina
Entre os vários instintos do homem, o mais forte e importante é o de sociabilidade. Aristóteles afirmava que, por natureza, o ser humano é um animal político, ou seja, sociável. A apetência (e a necessidade) dos homens de se relacionarem uns com os outros leva-os a se unirem, dando sequência ao plano divino da Criação, pois Deus nos deu esse instinto precisamente para estimular a constituição da vida em sociedade. Mas não foi esta a única razão; antes de tudo, tinha Ele em vista seu próprio desejo de entrar em contato com as almas.
Conforme explica o Catecismo da Igreja Católica, Deus “quer comunicar sua própria vida divina aos homens, criados livremente por Ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-Lhe, de conhecê-Lo e de amá-Lo bem além do que seriam capazes por si mesmos” (nº 52). Para levar adiante o “projeto divino da Revelação”, a “pedagogia divina” consistiu, desde os primórdios da humanidade, em preparar o homem por etapas para esse relacionamento com Ele, cujo ápice ocorreria na encarnação, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. idem, nº 53).
Dessa pedagogia fazia parte essencial a linguagem simbólica. Quiçá não tenha Deus escolhido melhor signo para exprimir os vínculos a serem estabelecidos entre Jesus e nós do que a figura do pastor com seu rebanho.
Já nos primórdios do Antigo Testamento, há uma insistência na figura do pastor (cf. Gn 4, 4 e 20), na pessoa de Abraão (Gn 12, 16), de Lot (Gn 13, 5) e do próprio Rei Davi (1 Sam 17, 34-35). Aos poucos, a condução do rebanho vai se tornando símbolo dos guias do povo de Deus, a ponto de a Escritura referir-se a eles com estas palavras: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sabedoria”(Jr 3, 15). Ou como neste trecho: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; dize-lhes, a esses pastores, este oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: ai dos pastores de Israel que só cuidam do seu próprio pasto. Não é seu rebanho que devem pastorear os pastores? Vós bebeis o leite, vestis-vos de lã, matais as reses mais gordas e sacrificais, tudo isso sem nutrir o rebanho. Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las” (Ez 34, 2-6).
Porém, a figura do Pastor toma a plenitude de seu significado no Ser por excelência, o próprio Deus: “Eis o que diz o Senhor Javé: vou castigar esses pastores, vou reclamar deles as minhas ovelhas, vou tirar deles a guarda do rebanho, de modo que não mais possam fartar-se a si mesmos; arrancarei minhas ovelhas da sua goela, de modo que não mais poderão devorá-las. Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar Eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por causa de seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu; Eu o reconduzirei de todos os lugares por onde tinha sido disperso num dia de nuvens e de trevas. Eu as recolherei dentre os povos e as reunirei de diversos países, para reconduzi-las ao seu próprio solo e fazê-las pastar nos montes de Israel, nos vales e nos lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas pastagens, elas serão levadas a gordos campos sobre as montanhas de Israel; elas repousarão sobre as verdes relvas, terão sobre os montes de Israel abundantes pastagens. Sou Eu que apascentarei minhas ovelhas, sou Eu que as farei repousar — oráculo do Senhor Javé. A ovelha perdida, Eu a procurarei; a desgarrada, Eu a reconduzirei; a ferida, Eu a curarei; a doente, Eu a restabelecerei, e velarei sobre a que estiver gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça. (...) E vós, minhas ovelhas, vós sois homens, o rebanho que apascento. E Eu, Eu sou o vosso Deus — oráculo do Senhor Javé” (Ez 34, 10-16; 31).
Jesus, o Bom Pastor
Por fim apareceu nos céus da História o Pastor arquetípico, o Bom Pastor: “Eu irei em socorro de minhas ovelhas para poupá-las de serem atiradas à pilhagem; e julgarei entre ovelha e ovelha: Para pastoreá-las suscitarei um só pastor (...). Será ele quem as conduzirá à pastagem e lhes servirá de pastor” (Ez 34, 22-23).
II – O Pastor por excelência
Jesus é o Pastor que deu a vida por seu rebanho; ademais, sempre disposto a ir atrás da ovelha perdida e, encontrando-a, retornar alegre e feliz com ela sobre os ombros; a tirá-la do valo, ainda que em dia de sábado. Quem de nós pode afirmar nunca ter sido objeto da busca do Bom Pastor, às vezes até em circunstâncias trágicas? Quem alguma vez não se sentiu ovelha desgarrada, mas nos ombros de Jesus, sendo reconduzida ao aprisco?
É nesta perspectiva que se insere o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa
As circunstâncias: a cura do cego de nascença
Essas palavras se prendem a um episódio antecedente, denso de emocionante carga simbólica. Inicia-se ao incidir o olhar de Jesus sobre um cego de nascimento. Era comum julgarem os judeus haver uma relação entre as enfermidades e os pecados cometidos pelo doente, ou por seus parentes. Por isso perguntaram os discípulos ao Senhor: “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9, 2). A resposta firme de Jesus e o desenrolar dos acontecimentos subsequentes deitarão luz para melhor entendermos o Evangelho de hoje: “Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9, 3). Tendo feito essa profética afirmação, tomou a iniciativa de curar o cego.
Como não podia deixar de ser, o portentoso milagre causou comoção entre todos os conhecidos do miraculado, levando-os a desejarem encontrar “aquele homem que se chama Jesus” (Jo 9, 11).
O burburinho popular cresceu a ponto de conduzirem o beneficiado diante dos fariseus. Narrado o ocorrido, constatou-se ter sido realizada a cura em dia de sábado. Isto configurava um grande crime, condenado pelos fariseus. Um violador da lei do sábado — portanto, um pecador — não podia ser de Deus! Eis, finalmente, encontrada uma grave acusação contra aquele Homem que tanto os perturbava. Todavia, esta conclusão entrava em choque frontal com uma pergunta levantada por outros fariseus: como explicar que um tal prodígio pudesse ser praticado por um pecador?
Em meio à dissensão perplexitante, a esperança de acharem uma saída fez os maus se voltarem para o próprio ex-cego. Quiçá pudesse este dizer algo que desabonasse inteiramente Jesus. Entretanto, iludiam-se por completo. Aquela era uma ovelha que conhecia a voz de seu Pastor, e assim não se deixava enganar pelos ladrões e salteadores. Convicto, afirmou ser Nosso Senhor um profeta. Embaraçados, os inquiridores resolveram interrogar os pais daquele homem, na esperança de provarem ter tido sempre vistas normais. Afinal, desqualificar a testemunha é uma saída bem conhecida daqueles que se encontram em apuros. Contudo, mais uma vez não conseguiram seu intento, pois o casal confirmou ser seu filho cego de nascença, e sabiamente evitou quaisquer outros comentários sobre o acontecido: “[Eles] temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo. Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho” (Jo 9, 22-23).
O interrogatório final, em um ambiente de ansiedade e fraude, acabou despertando indignação dos fariseus, por esbarrarem na robustez de fé e honestidade do ex-cego. Havendo eles declarado não saberem de onde era Jesus, “respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada. Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no” (Jo 9, 30-34).
A Igreja é o redil, cuja porta é Cristo
Após essa injusta conclusão de seu inquérito, não tardou o antigo cego a se reencontrar com Jesus. Este, conhecendo desde toda a eternidade aqueles fatos, perguntou-lhe se acreditava no Filho de Deus. Diante de não poucos curiosos, o tal homem não só afirmou sua crença em Nosso Senhor, mas também prosternou-se diante d’Ele e O adorou.
Essa bela e virtuosa atitude deixou emudecido o público presente. O Divino Mestre aproveitou a ocasião para tirar todo o proveito do episódio, e afirmou: “Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9, 39).
A partir desse instante, entrando em contenda aberta com os fariseus, Jesus passa a desenvolver a parábola narrada no Evangelho de hoje. Começa por referir-se a um hábito comum, bastante conhecido entre os judeus: o ladrão não entra pela porta do aprisco, mas “sobe por outro lugar” (Jo 10, 1). O pastor, pelo contrário, utiliza-se tão-só dessa porta, fazendo ouvir sua voz pelas ovelhas.
Não havendo os fariseus entendido essa alegoria, o Divino Mestre declarou ser, Ele mesmo, a porta do aprisco.
Comentando com brilho esse trecho do Evangelho, a Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma: “A Igreja é o redil, cuja porta única e necessária é Cristo. É o rebanho, do qual o próprio Deus anunciou que seria o Pastor, e cujas ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são incessantemente conduzidas às pastagens e alimentadas pelo próprio Cristo, bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu sua vida pelas ovelhas”(LG 6).
Um só rebanho e um só Pastor
Pelos antecedentes e por todo o contexto no qual ocorre, a presente parábola leva-nos a compreender a divina excelência do Bom Pastor. Jesus não só conhece como efetivamente ama suas ovelhas desde toda a eternidade. Ele as criou, uma a uma, e as redimiu com seu próprio sangue, elevando-as a participarem de sua vida. Ademais, deixou-se como alimento na Eucaristia até a consumação dos séculos. Seu trato para com o rebanho atinge extremos inimagináveis até mesmo pelo mais perfeito dos Anjos.
Através da Fé e em virtude da Graça, suas ovelhas, por reciprocidade, conhecem-No, n’Ele esperam e operosamente O amam. Assim, Bom Pastor e ovelhas relacionam-se de maneira semelhante ao convívio existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade, em um só Deus. Essa é a principal razão de seu desejo-profecia: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).
Através da entrega de sua própria vida, sobre a qual Ele tem um poder absoluto, obterá Jesus uma unidade entre Pastor e redil.
Também nós devemos ser pastores...
Dispôs Deus que as figuras do cordeiro, do rebanho e do pastor facilitassem ao homem a compreensão da necessidade do apostolado. Em sua substância simbólica, elas reforçam princípios enunciados ao longo da Sagrada Escritura: “E impôs a cada um deveres para com o próximo” (Ecli 17, 12).
Em relação a Jesus, somos cordeiros; é nossa obrigação moral e religiosa reconhecer-Lhe a voz e seguir-lhe os passos. Mas somos também muitas vezes chamados a representar o papel de pastores para com nossos irmãos, dever de caridade, como nos ensina São Pedro: “Cada um, segundo o que recebeu, comunique-o aos outros, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4, 10). Caso assim não procedamos, seremos julgados como o servo mau e preguiçoso da parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30).
O trecho do Evangelho que acabamos de analisar constitui uma premente conclamação para a participação efetiva, dedicada e entusiasmada de todos os fiéis nas tarefas de apostolado. A obrigação de evangelizar não é exclusiva dos religiosos, mas também de todo batizado. Por este sacramento, cada um de nós é incorporado a uma sociedade espiritual — a Santa Igreja Católica — regida pela Comunhão dos Santos, recebendo uma vocação geral de apostolado e uma missão individual de expandir o Reino de Cristo. Mais especialmente encontram-se concernidas nisto as associações e movimentos católicos.
Para a realização dessa atividade, o campo de trabalho mais indicado é a paróquia. Em outros termos, nada mais louvável e eficiente do que contribuir para o revigoramento de nossas paróquias, esforçando-nos por incluir neste âmbito todos aqueles que estejam a nosso alcance.
Recorramos à Mãe do Bom Pastor
“Maria é a estrela na nova evangelização”, lembra-nos sempre o Papa João Paulo II. Quem quiser ter sucesso nesse sublime empreendimento de atrair seus próximos para o aprisco de Jesus Cristo, não pode deixar de colocar seus trabalhos e sua própria pessoa sob a proteção e a orientação da Mãe do Bom Pastor.
Nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma, pode-se ver, bem-conservada, uma pintura que representa Nosso Senhor como o Bom Pastor. Significativamente, leva Ele aos ombros a ovelha perdida e caminha em direção a sua Mãe, em cujas mãos vai entregá-la.

Peçamos a esse Coração Maternal e Imaculado que nos conduza ao Bom Pastor, e assim possamos cumprir com santidade nossos deveres de apostolado para com nossos irmãos. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
NÃO PERMITAMOS QUE NOS ROUBEM A VIDA!
Nas eloquentes palavras de São Pedro, que a primeira leitura (At 2, 14a.36-41) apresenta à nossa consideração, encontramos uma afirmação intimamente relacionada com o Evangelho de hoje: “Convertei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados. E vós recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para Si” (At 2, 38-39). Convertei-vos! É mister corresponder a este convite!
Ora, não haverá algo que faça o papel de ladrão em nosso dia a dia? Não haverá em nossa vida algo que precisemos cortar? Da mesma forma que se praticava a idolatria e havia desvios na época de Nosso Senhor, não haverá hoje alguma voz que nos confunda e nos desencaminhe, levando-nos a esquecer que a verdadeira Porta é Ele? Naquele tempo eram os fariseus, os saduceus, os herodianos. E hoje? E o momento de nos pormos a questão: internet, televisão, cinema, relacionamentos.., há tantos ladrões, que todo o cuidado será pouco! Devemos ouvir avoz de Deus que sempre nos fala à alma e nesta Liturgia da Palavra nos adverte de que está sendo desdenhada, enquanto os falsos pastores entram, através dos rombos feitos por eles mesmos na cerca do redil, para roubar, matar e destruir.
O Bom Pastor ama até as ovelhas miseráveis
É possível que nosso exame de consciência nos acuse de alguma vez termos aderido aos ladrões. Lembremo-nos, então, de que Jesus ama tanto as suas oveihas que Ele deseja dar-lhes a vida, apesar de miseráveis. E uma vida tão exuberante que ultrapassa a morte merecida pelo pecado de nossos primeiros pais e pelos nossos próprios pecados: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). Se quisermos, pois, ser grandes na santidade, reconheçamos nossa incapacidade para praticar a virtude e, atribuindo a Deus todo o bem que fazemos, ofertemos-Lhe, confiantes, nossa debilidade, porque o Bom Pastor Se utiliza disso para manifestar seu poder, como Ele afirmou a São Paulo: “é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (II Cor 12, 9).
A principal lição a ser guardada deste 4 Domingo da Páscoa é que Jesus tem por nós um carinho que suplanta todos os afetos existentes na face da Terra. Ele é tão supremamente nosso Pastor que escolheu sofrer os tormentos do Calvário para nos salvar. Sinal de que nos ama até um limite inimaginável! Ele almeja a nossa santidade e cuida de nós, tal como dizo Salmo Responsorial (cf. Sl 22, 1.2c): “O Senhor é o Pastor que me conduz, não me falta coisa alguma”. Ele é dono de todos nós, ovelhas que o Pai Lhe entregou e, desde que não queiramos nos desgarrar, não permitirá que sejamos arrancados de suas mãos. Por isso, tenhamos total confiança n’Ele ao nos aproximarmos da Confissão, certos de que Ele perdoará nossos pecados, se estivermos arrependidos. Mas, sobretudo, saibamos buscá-Lo na Eucaristia, onde Ele Se oferece em Corpo, Sangue, Alma e Divindade e nos prepara para recebermos a vida em plenitude. Isto se dará quando passarmos pela Porta do redil e adentrarmos no Céu, onde veremos a Deus face a face. Ali estaremos na alegria do Pai, do Filho e do Espírito Santo, numa gloriosa participação nessa família, que é a Santíssima Trindade, junto com Nossa Senhora, os Anjos e os Bem-aventurados.
1) SAO TOMAS DE AQUINO Super Epistolam Sancti Pauli Apostoli ad Colossenses lectura. C.I, lect.4.
2) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, v.V, 1964, p.1170-1171.
3) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.97, a.1.
4) Idem, q.102, a.4.
5’) Cf. Idem, I-II, q.94, a.2.
6) Cf. Idem, a.6.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
Os ladrões de almas...
8”Todos aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram”.
Neste versículo, Jesus estabelece uma distinção muito clara entre o que Ele faz pelas ovelhas e o modo de agir dos bandidos. Através dos patriarcas e dos profetas, Deus revelara ao povo eleito a Religião verdadeira. No entanto, quando o Redentor veio ao mundo, seus representantes — perdido o desejo de salvar as almas — a desviaram daquele rumo inicial, só se preocupando em manter sua posição de prestígio na sociedade. Tais eram os fariseus, verdadeiros mercenários que, ao invés de proteger o rebanho, o oprimiam, transmitindo-lhe uma doutrina deturpada e egoísta, pela qual exigiam o cumprimento dos atos exteriores e desprezavam “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade” (Mt 23, 23). Ora, o Divino Mestre expunha a verdade e mostrava como deveria ser o autêntico trato entre os ministros de Deus e o povo, contrário ao que os fariseus preconizavam com suas práticas. Cada palavra de Nosso Senhor soava como uma acusação à atitude que eles tomavam, recusando-se a aceitar sua mensagem e a Redenção que lhes oferecia. Assim, os fariseus não só desempenhavam o papel de ladrões, como também fechavam a porta do redil às ovelhas: “Vós fechais aos homens o Reino dos Céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar” (Mt 23, 13).
É possível que também nós nos deparemos com quem se diga pastor, mas na realidade não o seja. São mercenários gananciosos, que vivem à busca de dinheiro, mais preocupados com sua subsistência e com o acúmulo de riqueza do que com o bem das almas. Cabe-nos rezar para estarmos concernidos no exemplo das ovelhas que são dóceis à voz do pastor e não escutam os bandidos. Permaneçamos sempre atentos para saber o que a graça quer de nós, procuremos afastar-nos dos perigos e nunca nos desgarremos da grei de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao mesmo tempo, o demônio e as paixões também agem com relação a nós como um salteador. Todos nascemos com a Lei de Deus gravada no coração, a qual nos impulsiona a buscar a verdade, o bem, o belo, o unum, e a repelir seus opostos.5 Em consequência, para abraçarmos o mal e optarmos pelo erro somos obrigados a deformar a consciência, construindo uma doutrina falsa que justifique nossa escolha. Deste modo, aceitamos sem obstáculos o ladrão — ou seja, o demônio, o pecado — que entra no aprisco, e a ele nos entregamos.
É Cristo que robustece o senso moral
9 “Eu sou a Porta. Quem entrar por Mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem”.
Em sentido contrário ao apontado no versículo anterior, o Divino Mestre Se apresenta como a Porta que dá acesso à pastagem, porque é Ele quem nos leva a robustecer o senso do ser, o senso moral que o pecado enfraquece.6 A voz de Nosso Senhor Jesus Cristo nos convida à inocência, à prática da virtude; nela reconhecemos o timbre da santidade. Ao dizer: “Eu sou a Porta”, Ele Se declara o Messias, o único caminho para a salvação, o único que possui o direito de conduzir o rebanho.
Uma aplicação à Igreja
Esta ideia se coaduna inteiramente com a promessa de imortalidade da Igreja, feita por seu Divino Fundador ao Príncipe dos Apóstolos: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). A voz de Jesus Cristo é inconfundível para as ovelhas que de fato aderiram a Ele, e ninguém as ilude. Por mais que os meios de comunicação ou os inimigos da Igreja tentem desviá-las, fazendo propaganda daquilo que é alheio a Ele, quem segue o Bom Pastor sente no fundo da alma onde está a verdade. E Ele sempre concede ao rebanho graças especiais para dispersar seus adversários.
Deus quer nos dar tudo em abundância
10 O “O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.
Ainda em linguagem parabólica, Ele indica o pecado daqueles que desviam os outros da Religião verdadeira: matam as almas, afastando-as de Nosso Senhor, que é a vida. E a missão d’Ele, ao contrário, é dar aos homens essa vida, a qual é muito superior à que anima a formiga, o colibri, o esquilo, o homem e até mesmo os Anjos, pois é a vida do próprio Deus! Ele a introduz em nossa alma no Batismo e a confirma quando recebemos a Crisma.
Mas... que vida tem Deus? Parece tão simples e nossa inteligência não consegue alcançá-la, porque Ele é eterno, infinito, onipresente, onipotente, onisciente! E é tão rico que o Pai, ao pensar em Si mesmo, gera uma Segunda Pessoa, igual a Si, que é a Palavra d’Ele, o Filho. Os dois Se olham e Se amam tanto, que do encontro desses dois amores procede o Espírito Santo, a Terceira Pessoa, idêntica ao Pai e ao Filho. Eis a vida de Deus: desde toda a eternidade e por toda a eternidade, os três Se contemplam, Se entendem e Se amam mutuamente. A criação do universo foi como um transbordamento do que há em Deus, mais ou menos à maneira de um champagne que extravasa da garrafa e se derrama em taças. Ele quis nos criar para nos tornar partícipes da felicidade d’Ele, e por isso “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Ele Se fez Pastor, Ele Se fez Porta, para que todos nós recebêssemos “da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1, 16), e tivéssemos a vida “em abundância”.

Se Deus põe à nossa disposição essa vida com tal generosidade, basta pedir que Ele no-la dará. E não aos pouquinhos, porque Deus não é como uma pobre mãe a quem só resta um pouco de farinha e de azeite com que preparar um pão para o filho que quer comer um bolo. Ele possui tudo o que nós precisamos! Não podemos ter horizontes estreitos, ser medíocres na oração, mas devemos ser pessoas de grandes desejos, que imploram coisas ousadas na linha da perfeição. E como todos somos chamados à santidade, se rezarmos com decisão e energia, por meio da Santíssima Virgem, é certo que Ele nos atenderá.
Continua no próximo post

domingo, 4 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
As ovelhas só conhecem a voz do seu pastor
2 “Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. 5 Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”.
Em certa ocasião, o Autor teve oportunidade de assistir a cenas semelhantes a esta, ficando surpreso ao constatar como, de fato, o pastor conversa com suas ovelhas. Ainda que sejam bastante numerosas, ele as identifica pelo nome, sabe qual é o comportamento de cada uma e distingue as que necessitam de maiores cuidados. Porém, o que mais impressiona é ver como as ovelhas conhecem a voz de quem as apascenta. As vezes, basta um assobio ou um mero gesto para todas se juntarem ao seu redor e permanecerem ali quietas, olhando-o atentas como se estivessem entendendo suas palavras. E quando ele nomeia alguma, esta reage, movimentando-se. Se, pelo contrário, é um estranho que tenta imitar o pastor, elas não lhe dão atenção, O ladrão poderá levar uma ou outra ovelha, mas nunca conseguirá roubar o rebanho inteiro, pois este só se move ao comando do pastor.
A situação descrita por Nosso Senhor nestes versículos ocorria a cada manhãs quando o pastor ia buscar os animais no redil. A tal ponto se criava uma como que intimidade entre o pastor e suas ovelhas, que estas adquiriam certo instinto pelo qual o reconheciam com precisão e, saindo do meio das outras, se colocavam diante dele, que as conduzia para fora. Reunido todo o rebanho, iniciava-se a marcha rumo aos campos, com o pastor sempre à frente, para fazer face aos que pretendessem assaltá-lo.
Tal imagem é lindíssima, e muito apropriada para o Divino Mestre ser compreendido. E, ao longo da História, quantos lobos, ladrões e mercenários vêm tornando esta parábola cada vez mais clara!
Mas eles não entenderam...
6 Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que Ele queria dizer.

Quem ouvia esta pregação de Nosso Senhor? Os fariseus, que não queriam admitir o recente milagre da cura de um cego de nascença (cf. Jo 9, 1-41). Em meio à celeuma provocada, Jesus iniciou este discurso procurando explicar-lhes o porquê de seu divino empenho em fazer o bem. Ele narra a parábola de um modo diferente do que Lhe era habitual, pois, à medida que a compõe, vai aplicando-a a Si. Contudo, para entendê-la era preciso ter fé e o coração aberto à ação do Espírito Santo, o que faltava aos fariseus. Como eram “guias espirituais de Israel, não podiam suspeitar que eles mesmos fossem ‘assaltantes’ espirituais do rebanho”.2
Jesus é a única Porta
7 Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade digo. Eu sou a Porta das ovelhas’.
Embora a figura do pastor seja a mais conhecida desta parábola, Jesus primeiro Se apresenta como Porta do redil. Qual o seu simbolismo? Deus criou Adão em graça e, ao introduzi-lo no Paraíso, sujeitou-o a uma prova: “não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás” (Gn 2, 17). Bastava ter obedecido ao mandado divino que o homem nunca experimentaria a morte, pois sua alma inocente “possuía uma força dada sobrenaturalmente por Deus, graças à qual podia preservar o corpo de toda corrupção”.3 Sua existência transcorreria feliz naquele local de delícias, “durante todo o tempo de sua vida animal, para ser transferido depois disso ao Céu, quando tivesse obtido a vida espiritual”.4 Em determinado momento a alma passaria a gozar da visão beatífica — em virtude da qual o seu corpo se tornaria glorioso —, dando início ao eterno convívio com Deus. No entanto, com o pecado original o Céu se fechou para toda a humanidade e ninguém entraria jamais nele se não nos tivesse sido outra vez aberto por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro imolado, o Bom Pastor e a Porta do redil, nossa Páscoa, ou seja, passagem deste mundo para a bem-aventurança. Só aqueles que O aceitarem habitarão nessa sublime morada, porque Ele é o caminho seguro para atingir a perfeição. Sem Ele não há santidade, sem Ele não há salvação.
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sábado, 3 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
EVANGELHO Jo 10, 1 - 10
Naquele tempo, disse Jesus: “verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. 2 Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”.
6 Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que Ele queria dizer Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, Eu sou a Porta das ovelhas. 8 Todos aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a Porta. Quem entrar por Mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. 10 O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 1 - 10).
O redil só tem uma Porta
O Céu, fechado para a humanidade depois do Pecado original, nos foi aberto para sempre por Aquele que é o Cordeiro, o Bom Pastor e a Porta do redil.
OS GRAUS DE PERFEIÇÃO NA OBRA DA CRIAÇÃO
Quem contempla a natureza criada percebe facilmente uma gradação em que verdade, bondade e beleza se tornam mais intensas e nobres à medida que se sobe na escala dessa magnífica obra de Deus.
Basta observar, por exemplo, no reino animal, uma formiga transportando alimento para o formigueiro. Manifesta ela tal tenacidade e retidão no cumprimento de seu objetivo, que se fosse tomada como modelo de disposicão para o trabatho levaria qualquer país à prosperidade Ou, então, um colibri quando paira no ar e bate as asas com encantadora elegância, de modo tão rápido que nem  é possível distingui-las com nitidez, Ou ainda o esquilo, animal tão ordenado que, além de ser monogâmico, é dotado de certo instinto de propriedade pelo qual defende energicamente seu terreno, não permitindo que ninguém o invada.
No reino humano, por sua vez, existe a hierarquia das diferentes qualidades individuais, e, ultrapassando os limites da mera natureza, destacam-se figuras extraordinárias, como a de São Pedro ou de São Pio X, representantes de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra. No ápice do universo está o próprio Jesus, com duas naturezas, a humana e a divina. E o Criador unido à criação. Portanto, tudo quanto há de verdadeiro, bom e belo nas criaturas encontra n’Ele sua arquetipia. Em Cristo “foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas Visíveis e as invisíveis” (Col 1, 16). A esse respeito, São Tomás propõe uma interessante comparação: “O artesão produz sua obra segundo uma forma por ele concebida interiormente revestindoa, de alguma maneira, de uma matéria exterior; do mesmo modo, o arquiteto constrói a casa conforme o modelo por ele idealizado. E é assim que dizemos de Deus: que Ele tudo fez em sua sabedoria, porque a sabedoria divina com relação às criaturas é como a arte do construtor em relação ao edifício. Ora, esta forma e esta Sabedoria é o Verbo”.1 Eis a razão pela qual podemos vislumbrar reflexos das sublimes perfeições do Homem-Deus em todos os seres criados. Tal pressuposto nos ajudará a entender o Evangelho deste domingo, o qual recolhe a primeira parte do discurso do Bom Pastor.
A PORTA DO VERDADEIRO REDIL
Devemos compreender a presente parábola dentro do quadro político-social e econômico de Israel na época de Nosso Senhor, o que corresponde a uma realidade bem diferente da civilização industrial e globalizada em que vivemos. O pastoreio do qual poucos terão uma noção exata em nossos dias constituiu uma das principais atividades do povo eleito no Antigo Testamento, tendo penetrado profundamente na psicologia, na cultura e nos costumes judaicos. Por conseguinte, as imagens tiradas do cotidiano pastoril eram muito acessíveis aos ouvintes do Divino Mestre. Ele as empregou para referir-se a algo tão elevado que é impossível de ser traduzido a não ser por símbolos: Deus feito Homem cuida com toda a perfeição de cada um de nós, como de uma ovelha muito querida. Nosso Senhor Jesus Cristo Se sente representado por um Pastor ideal, zeloso e dedicado. Em consequência, a figura heroica do pastor adquiriu um cunho sagrado e, com o tempo, passou a adornar paredes de catacumbas, objetos litúrgicos, túmulos, monumentos sacros, entre outros, como designação corrente d’Aquele que veio ao mundo para salvar suas ovelhas.
O redil, exigência do cuidado do rebanho
Naquele tempo, disse Jesus: l “Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”.
Muitas vezes os pastores tinham de arriscar a própria vida para defender as ovelhas, pois, além de não existirem armas eficazes como as atuais, em geral eles eram pessoas pobres, dispondo apenas de um cajado para enfrentar os lobos e os ladrões. Tão frequentes eram os assaltos aos rebanhos, que os pastores costumavam se congregar para terem maior segurança e, à noite, recolhiam todas as ovelhas num grande redil. Um deles ficava de vigília, à entrada, e se revezavam ao longo das horas. Esta era a única passagem para entrar e sair do aprisco, sendo usada tanto pelos animais quanto pelos donos.

Os ladrões, entretanto, nunca transpunham a porta para realizar seus intentos, mas faziam um rombo na cerca, por onde penetravam e levavam as ovelhas.
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Evangelho – 4º domingo da Páscoa - Ano - C 2013 - Jo, 27-30


Continuação dos comentários ao Evangelho – IV domingo da Páscoa - Bom Pastor Jo, 27-30 - Ano - C 2013

Jesus afirma sua divindade e é rejeitado pelos fariseus
30 Eu e o Pai somos um.
Ouçamos o Pe. Manuel de Tuya, OP, comentando este versículo: “Por fim, Cristo, como garantia desse poder salvífico que tem para suas ovelhas, proclama sua divindade, dizendo: ‘Eu e o Pai somos uma só coisa’. Essa unidade entre o Pai e o Filho se expressa diretamente no poder. Os poderes divinos do Pai são os do Filho. Não no sentido de que a voz ou o anúncio de um profeta é a voz ou o anúncio de Deus. Precisamente os profetas de modo explícito falavam em nome de Deus, e isso não causava estranheza a ninguém. Mas no presente caso a afirmação é absolutamente transcendente na comunicação de poderes. E, se existe essa comunidade ou identidade de poderes, pressupõe isso uma unidade e identidade de natureza. Daí deixar-se ver o mistério divino de Cristo.
“Essa expressão encontra sua explicação na ‘Oração sacerdotal’, na qual Cristo pede ao Pai que O glorifique com ‘a glória que tive junto de Ti, antes que o mundo fosse criado’ (Jo 17, 5), do mesmo modo como no Prólogo, no qual se ensina abertamente que o Verbo, que vai Se encarnar, ‘era Deus’” (12).
Essa é a mais ousada, profunda e misteriosa afirmação feita por Jesus a respeito da comunidade de essência entre Ele e Deus: trata-se de uma união metafísica insondável.
Os fariseus que ali estavam deviam ter-se mostrado fiéis intérpretes dos profetas, humildemente abandonando seus egolátricos preconceitos nacionalistas e suas exóticas práticas religiosas. Se eles não endurecessem seus corações, mas se deixassem penetrar pelas maravilhosas revelações do esperado Messias — comprovadas pelos numerosos e convincentes milagres por Ele operados —, pelo dom da fé compreenderiam e amariam aquele Deus feito Homem e O seguiriam. Seriam ovelhas de seu rebanho.
O que dizer a respeito do mundo atual, que não antepõe a lei escrita à Lei do Espírito — como o faziam os maus judeus de outrora —, mas coloca a lei do gozo e da carne, a lei do relativismo contra a Lei de Cristo, consagrada por Ele com sua vida e ressurreição, e por sua Santa Igreja?...
Muito opostamente à boa posição, quiseram os fariseus colher pedras para matar Jesus por tantos e insuperáveis dons que lhes oferecia (cf. Jo 10, 31). O que fará o mundo de hoje contra Cristo e sua Santa Igreja em face das dádivas que, através d’Eles, lhes promete Deus? 
1) Cf. São Tomás de Aquino, Contra Gentiles., II, 19. 2 ) Denzinger 1803. 3 ) Suma Teológica, I, q. 44, a. 3. 4 ) Cf. Suma Teológica, I, q. 15, a. 2-3. 5 ) A esse respeito, nada mais claro do que o ensinamento de São Paulo em Rom 1, 18-23. ) São Tomás de Aquino, Catena Aurea, in Joannem. 7 ) São Tomás, Comentario in Io., 10, lec. Iª, 3 - Marietti, p. 280. 8 ) Juan de Maldonado SJ, Comentarios a los Cuatro Evangelios, in Jo. 9 ) Id. ibid. 10 ) Id. ibid. 11 ) Id. ibid. 12 ) Biblia Comentada, BAC, 1964, V. II, pp. 1181-1182.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Evangelho – 4º domingo da Páscoa - Ano - C 2013 - Jo, 27-30


Continuação dos comentários ao Evangelho – IV domingo da Páscoa - Bom Pastor Jo, 27-30 - Ano - C 2013


O Pastor ama e conhece profundamente suas ovelhas
 27 As minhas ovelhas ouvem a  minha voz, Eu as conheço, e  elas Me seguem.
Das metáforas relacionadas com a pesca, lidas no anterior domingo, passamos agora às do pastoreio. A Sabedoria infinita de Deus nelas pensou desde toda a eternidade, para assim melhor Se fazer entender pelos homens no relacionamento entre Criador e criatura. A própria natureza da Judéia facilitava as características desta simbologia usada pelo Divino Mestre. A terra naquelas regiões não era fértil para a plantação, devido aos seus consideráveis trechos pedregosos e um tanto áridos. O pastoreio ali se adaptava mais comodamente do que a agricultura e, assim mesmo, exigia do rebanho um grande número de deslocamentos. Essa situação redundava na necessidade de vigilância e aplicação mais esmeradas do pastor. As circunstâncias tornavam mais nítidas as diferenças entre o autêntico pastor e o mercenário. Deus quis o nascimento da figura do pastoreio e a colocou com destaque na pluma dos literatos. Até os poetas pouco dados a compreenderem a excelsitude da castidade são levados a realçar a pureza virginal do zelo caridoso dos pastores, em geral, por suas ovelhas.
A vida do pastor nos leva a considerar seu amor casto, inocente, governando sem decretos, muito pelo contrário, baseado num relacionamento íntimo, fortemente paternal — talvez melhor se diria maternal — através do qual atende todas as conveniências e necessidades de suas ovelhas. Ele sabe entretê-las, defendê-las, ampará-las, levá-las a pastar e até mesmo agradá-las com seus cantos ou com as melodias de sua flauta. “Ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes” (Jo 10, 3). São Tomás de Aquino ressalta a grande familiaridade existente nesse relacionamento, pois chamar pelo nome significa ter íntima amizade. Ao revertermos os símbolos aos simbolizados, a realidade e a significação se tornam incomparavelmente mais profundas. Cristo conhece a natureza e o ser de cada uma de suas ovelhas, e também o objetivo imediato, tanto quanto o último, para o qual foram criadas, assim como o que são e o que poderão vir a ser com o auxílio de sua graça. Por isso o Doutor Angélico julga ver nesse “chamar pelo nome” (nominatim) “a eterna predestinação, pela qual Deus conhece cada ovelha, cada homem” (7).
O homem, o mais elevado ser percebido por nossos sentidos, não é criado em série. Deus aplica seu poder criador sobre cada pessoa, uma a uma, e por isso não há homens iguais, nem moral nem fisicamente, nem sequer no referente às circunstâncias da vida individual e menos ainda no que tange à vocação pessoal. Daí a profundidade insondável desse conhecimento dispensado por Jesus a cada um de nós, a ponto de compará-lo ao existente entre o Pai e o Filho (Jo 10, 15), ato eterno tão absoluto que, através dele, uma Pessoa divina é gerada pela outra. O conhecimento que o Pai tem do Filho, portanto, não é uma imagem intelectual acidental, como acontece em nós, ao fazermos uso de nossa razão. O conhecimento do Pai é substancial e amoroso, através do qual, por geração, Ele dá sua própria essência ao Filho. Este, por sua vez, com amor substancial e infinito também, restitui ao Pai o que d’Ele recebe; e tão rico é esse amor mútuo que dele procede o Espírito Santo. Ora, aí está o padrão do conhecimento de Jesus a cada um de nós. Por isso nada de nosso exterior ou interior — seja-nos nocivo ou útil, nossas enfermidades físicas ou espirituais, seus remédios, etc. — nada foge à sua onisciência. Não há em Jesus uma fímbria sequer de frieza nesse conhecimento em relação a nós, como Ele mesmo disse e realizou na figura do Bom Pastor, aquele que dá a vida por suas ovelhas.
Por outro lado, as ovelhas seguem o Pastor. Pela sua graça, conhecem as maravilhas que estão n’Ele, sua doutrina dotada de potência, sua vida, sua misericórdia, sua sabedoria, numa palavra, sua humanidade e divindade. E, por isso, ao ouvirem sua voz, elas O seguem, como Saulo no caminho de Damasco (At 9, 5-9) ou como Madalena ao ser chamada pelo nome, junto ao Sepulcro do Senhor (Jo 20, 16). Portanto, ao conhecê-Lo, seguem-No no cumprimento de seus desígnios: “Aquele que diz conhecê-Lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele” (1 Jo 2, 4). Quando ouvem sua voz, enchem-se de amor pelo Pastor, a ponto de estarem dispostas a entregar suas vidas por Ele, e ardem do desejo de que Ele inabite em suas almas.
A palavra de São Paulo
“A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade. Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o lêem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis” (Rom 1, 18-23).
Ninguém consegue arrebatar alguma ovelha ao Bom Pastor
28 Eu lhes dou a vida eterna;  elas jamais hão de perecer, e  ninguém as roubará de minha  mão.
Aqui, Jesus passa a Se representar, já não só como o Pastor, mas também como o pasto, pois confere às ovelhas sua própria vida. Levemos em conta que até mesmo a vida física delas é alimentada por um “pasto”, criatura sua, pois nada existe que não tenha tido n’Ele sua origem. Ademais, elas são nutridas espiritualmente através de sua palavra, dado que, conforme Ele mesmo diz, “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). E, acima de tudo, pela graça (semente da glória eterna), em função da qual a própria vida de Cristo se introduz em suas almas e é alimentada pelos sacramentos, em especial pela Eucaristia. Assim, a espiritualidade delas vai-se robustecendo e sendo vivificada n’Ele. Sua própria carne, sangue, alma e divindade constituem o insuperável alimento da vida de suas ovelhas. E na eternidade, a graça se transformará em glória, recebendo d’Ele sua própria vida.
Que terão entendido os fariseus de todo esse universo de extraordinária riqueza? Não é difícil conjeturar, pois quem não possui a vida eterna conferida pelo Pastor, como poderá compreender algo desses esplendores? Ora, ao afirmar que dá a vida eterna às suas ovelhas, Ele deixa entrever que não entrega essa vida àquelas que não são de seu redil; ao mesmo tempo, declara novamente sua essência divina, uma vez que nenhuma criatura, por mais excelente que possa ser — incluindo os anjos —, jamais terá o poder de conferir tão insuperável dom. Entrar na vida eterna significa estar livre de todos os tormentos e paixões: ambições, invejas, ódios, dores, etc., como também ter sido perdoado de todos os pecados e desvarios. Entretanto — Oh, mistério da iniquidade  —, os fariseus não queriam se beneficiar desses dons que, como a todas as pessoas, lhes era oferecido.
Mas essa é também a situação das ovelhas pertencentes ao rebanho de Jesus quando O rejeitam. “Cristo, naquilo que Lhe cabe, dá a vida eterna a suas ovelhas, e nenhuma delas perecerá por culpa do pastor; aquela que se perder, será por sua própria culpa. Também a graça que Cristo dá nesta vida a suas ovelhas é suficiente, por sua natureza, para levá-las à vida eterna, e se algumas não chegam lá é por culpa de si próprias, por não quererem seguir a Cristo” (8).
As ovelhas de Jesus estão em sua posse; nem os homens, nem os demônios conseguem, quer seja por força, quer por subterfúgios, arrancá-las de suas mãos onipotentes. “Se perecerem será pela própria vontade delas, não por falta de poder d’Ele” (9). Na afirmação de Cristo que aqui analisamos, Ele se manifesta “suficientemente forte e poderoso para que suas ovelhas possam entrar, graças a Ele, na vida eterna, livrando-as antes de qualquer perigo” (10).
29 Meu Pai, que mas deu, é maior que todas as coisas; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.
Dissentem entre si autores de grande peso a propósito das traduções latina e grega deste versículo. A primeira se concentra nas coisas concedidas pelo Pai a seu Unigênito: “Meu Pai, o que me deu é maior que todas as coisas, e ninguém as pode arrebatar de minhas mãos.”. A outra coloca o Pai como sendo o objeto da comparação feita por Jesus (vide formulação acima). Uma vez que não há unanimidade de interpretação, preferimos a formulação latina: “todas as coisas”, ou seja, “a Igreja, que Ele Me entregou para que Eu a regesse. As ovelhas que Me deu para que as apascentasse. É maior, isto é, mais caro, mais digno de apreço que qualquer outra coisa” (11). Assim, uma alma que se entrega a Jesus pela virtude da fé, amando-O sobre todas as coisas e sendo perseverantemente fiel, deve estar convicta de que tudo lhe vem do Pai, pelos méritos do Filho.
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sábado, 13 de abril de 2013

Evangelho – 4º domingo da Páscoa - Ano - C 2013 - Jo, 27-30


Continuação dos comentários ao Evangelho – IV domingo da Páscoa - Bom Pastor Jo, 27-30 - Ano - C 2013

O pensamento de Platão

É interessante notar que Platão — em quem a Escolástica sorveu muitos ensinamentos, purificando-os do que havia de panteísmo —, ao desenvolver seu pensamento sobre a dialética do amor, diz que esta chega à sua plenitude ao contemplar “essa beleza isenta de acréscimo e de diminuição, beleza que não é bela numa parte e feia noutra, bela só em tal tempo e não em tal outro, bela em certo sentido e feia em tal outro, bela num lugar e feia noutro, bela para uns e feia para outros… Beleza que não reside num ser diferente de si mesma, num animal, por exemplo, ou na terra ou no céu ou em qualquer outra coisa, mas que existe eterna e absolutamente por si mesma e em si mesma; da qual participam todas as demais belezas, sem que o nascimento ou a destruição delas lhe ocasione a menor diminuição ou o menor acréscimo, nem a modifique em coisa alguma” (Banquete, 211 C).
Ambientação da Cena de hoje
Antes de entrarmos na análise dos quatro versículos que constituem o Evangelho deste quarto Domingo da Páscoa, relembremos em rápidos traços o contexto histórico de onde eles surgem.
Anualmente, cerca de dois meses após o término da festa dos Tabernáculos, por volta do fim de dezembro do nosso calendário, os judeus celebravam outra festa, a da Dedicação. Desde o ano 165 a.C. havia sido ela estabelecida, a partir da purificação do Templo levada a cabo por Judas Macabeu, após as profanações promovidas por Antíoco Epifanes (cf. 1 Mac 4, 36-59).
Nessa época, o Salvador contava seus trinta e dois anos de idade. Estaria Ele portanto, ingressando no último período de sua vida pública. Era uma manhã de inverno e já bem cedo Se encontrava Ele no Pórtico de Salomão, edificado com alvíssimas pedras. Nessa parte exterior do Templo, na face oriental, Jesus estava à espera de constituir-se uma assembleia de ouvintes. Em pouco tempo juntou-se em torno d’Ele uma grande multidão. Desta não podiam estar ausentes seus inimigos.
A fama de Jesus se espalhara rapidamente, sobretudo por causa dos numerosos milagres e da magnitude deles. Talvez pelo fato de, bem naqueles dias, ter Ele curado dez leprosos, os fariseus imploravam uma declaração taxativa sobre sua identidade: era ou não o Messias? À primeira vista, o pedido deles parece, não só razoável, mas até mesmo afetuoso. Entretanto, a Jesus ninguém engana. Quantas vezes, ao longo da História da Igreja, ímpios e hereges se serviram dos mesmos pretextos daqueles fariseus! Não era de clareza nem de evidência que necessitavam, mas, sim, de boa fé, docilidade e humildade.
Os fariseus se obstinavam na rejeição a Jesus
Temos tornado claro, em anteriores comentários, o quanto os judeus — especialmente os fariseus — concebiam o Messias de forma equivocada. Viam-No como um conquistador político e militar, um libertador do domínio, até mesmo sob o aspecto financeiro, do Império ao qual estavam subjugados; ademais, deveria Ele conferir aos seus co-nacionais toda a glória e a supremacia universal. Os que consideravam no Messias a exclusividade dos aspectos religiosos, d’Ele esperavam a força para obrigar à conversão e à prática da Lei (na qual, segundo seus fanáticos critérios, encontrava-se a mais alta santidade) todas as outras nações.
Ora, Jesus era, sim, o Messias esperado, mas muito diferente dessa distorcida concepção. Ele é o Filho Unigênito do Pai, Deus e Homem verdadeiro; seu Reino não é deste mundo... “Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 11). Exceção feita da Samaritana (Jo 4, 26) e de seus discípulos, ninguém ouvira Jesus atribuir-Se esse título, mas, na festa dos Tabernáculos, Ele não poderia ter sido mais explícito sobre sua origem, sua natureza e até mesmo sua missão (cf. Jo 7). Por isso Jesus afirmou já Se ter pronunciado sobre sua identidade e, apesar disso, não Lhe terem crido (cf. Jo 10, 24-26). Os fariseus não O entenderam, porque não se entregaram ao Messias como Ele realmente é; pelo contrário, desejavam que o Messias Se entregasse a eles como eram, com seus caprichos e fantasias.
De nada adiantaram todos os milagres, pregações, nem mesmo a manifestação das virtudes de Jesus para dissolver o egoísmo pétreo e incrédulo daqueles fariseus. Para eles só havia uma e exclusiva infalibilidade: a de suas ideias político-religiosas. Essa obstinação não é novidade para nós neste século XXI: a História, os fatos, o Papa, a Igreja, Nossa Senhora em Fátima, o universo, falam a uma só voz, mas, à exceção de poucos, ninguém quer entender, ou crer...
Essa é a muralha de aço que a Verdade tem sempre diante de si. Em geral, a Verdade de Deus exige de nós uma renúncia feita de dor; é preciso arrepender-se e fazer penitência, como proclamava João Batista, aspirar à perfeição, amar o bem e admirar o belo. Em uma palavra, é indispensável ser do número das ovelhas de Jesus. E os fariseus não o eram, por isso Ele procura ensinar-lhes não só com palavras, mas com fatos, pois não há como negá-los. Jesus, em resposta à pergunta se Ele era o Cristo, simbolicamente os exclui de seu Reino, pelo menos naquele momento, devido ao vício do orgulho tão penetrado nas almas deles (cf. Jo 10, 24-26). Sentença terrível que caberá eternamente àqueles recalcitrantes, obstinados e empedernidos na incredulidade de seu orgulho. Essa é a opinião de Santo Agostinho: “Disse-lhes isso porque os via predestinados à morte eterna, e não à vida eterna que Ele lhes havia conquistado com seu sangue. As ovelhas nada mais fazem do que crer no seu pastor e segui-Lo” (6).
Significado das palavras de Jesus
Entremos agora na análise do Evangelho deste quarto Domingo da Páscoa.
Continua no próximo post.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Evangelho – 4º domingo da Páscoa - Ano - C 2013 - Jo, 27-30


Comentário ao Evangelho – IV domingo da Páscoa - Ano - C 2013

Evangelho  Bom Pastor Jo, 27-30
27As minhas ovelhas ouvem a minha voz, Eu as conheço, e elas Me seguem. 28 Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de  minha mão. 29 Meu Pai, que Mas deu, é maior que todas as coisas; e ninguém pode arrebata-las da mão de meu Pai. 30 Eu e o Pai somos um (Jo 10, 27-30).
Somos todos ovelhas de Jesus?
Assim como outrora Jesus, o Bom Pastor, procurou atrair todos para seu Rebanho, sua voz continua hoje a ressoar nos corações, apelando para que nos deixemos apascentar por Ele. Os fariseus O recusaram decididamente. Que atitude tomará este nosso mundo?
O simbolismo na obra da Criação
Do nada, Deus criou todas as coisas, e de forma instantânea; não transformou seres pré-existentes, mas agiu por um ato exclusivo de sua onipotência, incomunicável a qualquer outro ser, mesmo por milagre (1). Ele tornou realidade o universo tendo em vista sua própria glória: “Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória por toda a eternidade!” (Rm 11, 36). O Concílio Vaticano I é categórico neste particular: “Se alguém negar que o mundo foi criado para a glória de Deus, seja anátema” (2).
Deus é modelo de todos seres criados
 Poucos dogmas de nossa fé tiveram tão numerosos adversários como o da criação do mundo, claramente afirmado na primeira frase do Gênesis: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1, 1). A variedade de objeções e heresias contra essa verdade que atribui a Deus a causa eficiente da origem do universo é grande. Por outro lado, embora a doutrina de que Deus é causa exemplar de todos os seres de sua obra dos seis dias quase não levante inimigos frontais e explícitos, são muito difundidos costumes, modos de ser, gostos, etc., pervadidos de erros larvados a esse respeito.
Na quarta via das provas da existência de Deus, explicitadas por São Tomás de Aquino, encontramos também, além do Criador como o Pulchrum (o Belo) por essência, todas as belezas esparsas pelo universo como participações e decorrências dessa fonte infinita. Mais claramente, em sua Suma Teológica, o Doutor Angélico define Deus enquanto modelo de todos os seres criados: “Deus é a primeira causa exemplar de todas as coisas (…); existem na sabedoria divina as razões de todas as coisas, às quais chamamos ‘ideias’, ou seja, ‘formas exemplares’ existentes na mente divina. Essas ideias (…) não são, contudo, algo realmente distinto da essência divina (…) Assim, pois, Deus é o primeiro exemplar de todas as coisas” (3).
Uma nota de altíssima beleza na Criação
A mente divina é infinitamente rica de seres possíveis e, se bem que Deus os possa criar todos, somente alguns Ele torna realidade. Assim, cada um de nós existiu como um possível na consideração de Deus, desde toda a eternidade (4). Apesar d’Ele não ter querido criar todos os seres possíveis, é enorme a quantidade de criaturas vindas à existência pelo seu poder divino. Essa superabundância, como ocorre com todos os atos de Deus, foi intencional; entre outras razões, procedeu Ele dessa forma para evitar a sensação de monotonia que poderia facilmente se produzir na alma humana. Nessa imensa obra que O levou a descansar no sétimo dia, o Criador quis colocar uma nota de altíssima beleza: o simbolismo.
Claro está que a beleza estética pura e simples tem grande valor, mas a intelecção desse valor não atingirá sua plenitude enquanto não remeta, de alguma forma, através de seu simbolismo, para o próprio Deus. A beleza simbólica tem uma categoria muito superior à estritamente física. Daí o terrível castigo de Deus aos que se negam a conhecê-Lo através dos símbolos e, em consequência, a adorá-Lo (5).
A rica simbologia do relacionamento entre o pastor e as ovelhas
Portanto, para nós, é uma obrigação moral ascender a Deus, e para isso nos servem as criaturas. No cumprimento desse dever através delas, encontraremos uma verdadeira hierarquia, pois umas nos serão mais ricas de conteúdo simbólico e, outras, menos. Por exemplo, no relacionamento com seus pais, uma criança, praticamente no todo de seu ser, sentir-se-á apoiada, compreendida e até afagada pela simples presença deles. Bastará vê-los afastar-se para julgar-se naufragando. Esse fenômeno, apesar de guardar características próprias, também se verifica entre adultos, pois todos necessitamos de receber as influências de nossos semelhantes, devido aos impulsos de nosso instinto de sociabilidade. Ora, o homem tem maior adesão às influências recebidas da parte daqueles que se constituem em seus modelos. Por isso, deixar-se enlevar, influenciar e mesmo formar pelos modelos que nos aproximam de Deus e a Ele nos assemelham não é um defeito, mas, muito pelo contrário, uma grande virtude e até obrigação.
Por outro lado, às vezes entende-se mais facilmente o protótipo de uma certa categoria analisando-se as relações entre seres inferiores a ela. Por exemplo, para nós nunca houve nem haverá modelo igual e, menos ainda, superior a Jesus Cristo; porém, comove-nos até a última fímbria de nossa sensibilidade vê-Lo refletido na figura do Bom Pastor que cuida carinhosamente de suas ovelhas. De fato, como anteriormente vimos, o universo existe, entre outros motivos, para nos auxiliar a melhor compreender a Deus, e nessa perspectiva está uma substanciosa condição para a prática do primeiro Mandamento. Amar a Deus sobre todas as coisas, como uma de suas vias, consiste em conhecê-Lo através de todas as coisas, para assim poder adorá-Lo e entregar-se inteiramente a Ele.
É na rica simbologia do relacionamento entre pastor e ovelhas que se situa a perspectiva do Evangelho deste domingo.

Continua no próximo post.