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sábado, 30 de agosto de 2014

Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20

Comentário ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: 15 Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-las, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a Terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos Céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18, 15-20).
A correção fraterna, uma opção ou um dever?
Quem não corrige seu próximo, causa dano não somente a ele mas também a si próprio. Ver-se-á privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever, e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
I – A correção, grande meio de Salvação
 Santo Afonso Maria de Ligório escreveu uma bela obra intitulada “A oração, grande meio de salvação”. Seu conteúdo é preciosíssimo e irrefutável. Numa de suas páginas, o Santo chega a afirmar que quem reza se salva e quem não reza se condena.
Ao penetrarmos no âmago do Evangelho deste 23º Domingo do Tempo Comum, chegamos a uma conclusão parecida: a correção fraterna é um grande meio de salvação, pois bem pode o destino eterno de alguém depender da aceitação às correções que lhe sejam feitas.
Esta é a matéria que a Liturgia de hoje nos leva a considerar: o dever da correção fraterna e a necessidade de bem recebê-la.
II – Qual é o filho a Quem Seu pai não corrige?
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão”.
É claro o conselho do Divino Mestre, quanto à necessidade de corrigir aqueles que pecam contra nós.
Nas ofensas pessoais, injúrias, ou mesmo nos defeitos que observemos na conduta de outros — sobretudo faltas concernentes à Fé e aos costumes, com risco de produzir algum escândalo — não podemos deixar de advertir nosso próximo, seja por indiferença nossa, seja, pior ainda, por desprezo. E para pôr em prática a norma do Senhor, expressa no versículo acima, nosso zelo deve ser cheio de fervor.
São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem a obrigação de corrigir e não o faz.1 Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-seá, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
O mesmo se passa no campo da botânica, pois quanto mais fértil um terreno, mais se deve trabalhá-lo para evitar que se transforme em bosque e, depois, em mata.
Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.
A obrigação de advertir
A primeira responsabilidade — reconhecer o próprio erro — é de quem o comete. Porém, o zelo, a prudência e o amor a Deus cabem a quem tem a obrigação de advertir. “Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13, 24). Portanto, é falsa ternura deixar de aplicar uma necessária correção, julgando com essa omissão poupar alguma amargura a quem dela necessita. Quem assim se omite, em realidade não só é conivente com a falha praticada, mas demonstra querer mal a quem precisaria do apoio de uma palavra esclarecedora. Esse sentimentalismo, desequilíbrio e equivocada indulgência confirmam em seus vícios os que erram.
É importantíssimo que pais, educadores, etc., cumpram nessa matéria seu dever, pois assim nos ensina o Livro dos Provérbios: “A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará” (22, 15). Aliás, é sinal de muito amor avisar de suas faltas os inferiores; quando um pai assim procede com seu filho, deseja-lhe o bem e a virtude.
A reciprocidade nesse amor deve ser uma característica de quem recebe o aviso ou repreensão: “Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando Ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e acha nele a sua complacência como um pai em seu filho” (Pr 3, 11-12).
Se o superior deixa de advertir os que lhe estão confiados, é claro sinal de que não se sente amado como um pai; ou não ama o inferior como filho, e neste caso não é raro que dele venha até a murmurar. Ao escrever aos hebreus, São Paulo não receia afirmar: “Sede perseverantes sob o castigo. Deus trata-vos como filhos. E qual é o filho a quem seu pai não corrige? Se, porém, estais isentos do castigo, do qual todos são participantes, então sois bastardos e não filhos legítimos” (Hb 12, 7-8). Pois, de fato, o remorso, a dor de nossas faltas, o peso de consciência, constituem um inestimável dom de Deus.
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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Conclusão dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
IV – Esperança na verdadeira vida
A liturgia de hoje nos incentiva a vivermos de acordo com nossa fé, em coerência com os princípios da Religião. A não orientarmos nossa conduta visando obter riquezas, elevada posição social, amizades terrenas ou qualquer outro bem deste mundo, ignorando quão efêmeros são os benefícios que tudo isso proporciona.
A termos sempre em vista que nosso fim último não se cumpre aqui na Terra, e que na eternidade, para a qual nascemos, só valem os méritos espirituais.
Para quem se salva, a verdadeira vida começa depois da morte. Por isso a Igreja celebra a festa de um santo no dia de seu nascimento para o Céu. Devemos portanto, à imitação dos santos, aceitar todos os sofrimentos, repulsas e humilhações que a prática da virtude nos imponha neste vale de lágrimas, certos de que eles se transformarão em glória quando nos encontrarmos na Visão Beatífica.
Em resumo, o Evangelho de hoje nos dá esta lição: o homem vale na medida em que estiver disposto a enfrentar a dor por amor a Deus. A vida na face da Terra está cheia de dificuldades e sofrimentos; se os abraçarmos com amor, eles virão acompanhados de uma suave alegria, nobilitarão nossos corações e nos prepararão para o Céu; se, pelo contrário, nos deixarmos arrastar pelas paixões, nossa alma insatisfeita e degradada terá encetado as vias do inferno.
Portanto, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, abracemos decididamente a nossa cruz e sigamos o Divino Mestre rumo à glória da eternidade, onde não haverá sequer sombra de padecimento, mas só a felicidade total e imperecível: “Per crucem ad lucem”!
Nos períodos de provações, refugiemo-nos junto ao Santíssimo Sacramento, e recorramos a Nossa Senhora, invocando-A por meio da recitação do Rosário, confiantes em que, finda a noite escura, renascerá com maior esplendor o sol da consolação espiritual.
1 TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madri: BAC, 1964, v.II, p.369.
2 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). Madri: BAC, 1956, p.137.
3 A “luz primordial”, segundo a conceitua o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais sua tonalidade particular. Em outras palavras, seria o pórtico pelo qual uma pessoa é chamada a entrar, para depois amar todas as perfeições de Deus.
4 MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madri: BAC, 1950, v.I, p.601.
5 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris: Desclée et Cie, 1931, p.VIII.
6 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. La seconde conversion et les trois voies. 3.ed. Paris: Du Cerf, 1951, p.22-23.
7 Idem, p.42.
8 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite Escura. Ver especialmente l.1, c.814 (noite dos sentidos); l.2 c.5-10 (noite do espírito); l.2, c.7 (noite da vontade).
9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madri: BAC, 1954, v.II, p.802.
10 CIC 1022.

11 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.87, a.1, resp.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Continuação dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
A hora da generosidade
Ausente a sensibilidade, é chegada a hora da generosidade, que só se concretiza se houver uma vida interior séria, profunda, regada com muita oração, porque essa entrega nos custa enormemente.
Há, segundo São João da Cruz, uma tríplice noite escura — dos sentidos, da inteligência e da vontade — pela qual passam todos aqueles que buscam a perfeição.8 Nessa fase da vida espiritual, renunciar a si mesmo consiste em manter-se na fidelidade aos bons propósitos, purificando-se assim de seus apegos terrenos e preparando-se para o Céu. Porque, com o sofrimento, a alma abre-se para o sobrenatural.
Durante os períodos de aridez, costuma vir-nos a tentação de ceder neste ou naquele ponto, de justificar com racionalizações as transgressões aos Mandamentos de Deus, às quais nos impele a concupiscência, bem como de buscar um meio termo espúrio entre as vias do mundo e as da virtude. Experimentando em nosso interior a lei dos sentidos, do pragmatismo e do egoísmo, somos tentados a procurar um modus vivendi com nossos defeitos, em lugar de combatê-los.
Deus nos pede uma entrega completa
25 “Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la”.
A “vida” aqui pode significar não apenas a existência física, mas também algo a que costumamos ter mais apego ainda: o juízo alheio a nosso respeito. Quantas vezes nos tornamos escravos da opinião pública a ponto de não ousarmos dissentir dela mesmo quando a isso nos obriguem a moral e a reta consciência. Tal é a força do instinto de sociabilidade, por certo mais arraigado na alma humana do que o de conservação.
 “Renunciar-se a si mesmo” exige de nós renegar tudo quanto nos liga ao mundo, ao demônio e à carne, e nos afasta de Deus. Ele nos pede uma entrega completa, sem meios termos.
O caminho da verdadeira felicidade
26 “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”.
Realmente, de que nos valeria conquistar todas as riquezas, todas as honras e todo o poder do mundo se, no final, nos condenássemos ao inferno por toda a eternidade?
Além do mais, se abandonarmos os prazeres mundanos e abraçarmos a cruz de Nosso Senhor, encontraremos já nesta Terra a verdadeira felicidade e desfrutaremos a autêntica alegria possível neste vale de lágrimas. Por essa razão recomenda-nos São Francisco de Sales: “Ponde em vosso coração Jesus Cristo crucificado e vereis que todas as cruzes do mundo se convertem em flores”.9
O Juízo Final
27 “Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com sua conduta”.
Ninguém consegue subtrair-se ao julgamento divino, adverte-nos o Divino Mestre. No momento da morte, cada homem passa pelo Juízo Particular “que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do Céu, seja para condenar-se de imediato para sempre”.10 Além desse, há o Juízo Final, universal, porque nossas faltas — como também nossos atos de virtude — têm consequências na ordem da Criação, uma vez que estamos nela inseridos.

É o que nos ensina o Doutor Angélico: “Ora, como o pecado é um ato desordenado, é claro que todo aquele que peca age contra uma ordem. É por isso que consequentemente é reprimido pela própria ordem. […] Com efeito, a natureza humana é primeiramente subordinada à ordem da própria razão. Segundo, está subordinada à ordem daqueles que exteriormente governam […]. Terceiro, está submetida à ordem universal do governo divino. Ora, todas estas ordens são pervertidas pelo pecado. Pois aquele que peca age contra a razão, contra a lei humana e contra a lei divina”.11
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Continuação dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
Pergunta feita com divina didática
Depois de ter convivido alguns anos com os Apóstolos, durante os quais atestara sua divindade por meio de inumeráveis milagres, pergunta-lhes Jesus: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?” (Mt 16, 13). Embora soubesse a resposta desde toda a eternidade, desejava formar seus discípulos, fazendo-os deduzir por si mesmos o cumprimento das profecias a respeito do Messias.
A essa pergunta, cada qual relata o que ouvira dizer. Para alguns, seria Ele João Batista ressuscitado, como suspeitara até o próprio Herodes. Hipótese, aliás, absurda, pois muitos haviam testemunhado o encontro de Jesus com o Batista, às margens do Jordão. Julgavam outros ser Elias, conforme a crença muito arraigada entre os judeus, de uma vinda do Tesbita precedendo o Messias. Outros, enfim, opinavam tratar-se de Jeremias ou algum dos numerosos profetas enviados pelo Senhor ao povo eleito. De qualquer forma, vê-se pelo teor das respostas ser Ele considerado um homem extraordinário pelos judeus, dos maiores que Israel jamais conhecera.
Em seguida, o Divino Mestre inquire o parecer dos Apóstolos, visando fazer partir deles próprios o reconhecimento da sua divindade e vincando assim sua separação do resto do povo hebreu descrente. O próprio tom da pergunta — “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15) — convida-os a formarem “uma opinião mais elevada a respeito d’Ele, sem se rebaixarem a seguir o julgamento da multidão”.2
Essa divina didática deu ocasião à proclamação de Fé de Pedro, representando todos os Apóstolos, de maneira a aprofundar neles a convicção de ser Jesus, de fato, o Messias prometido. Precisavam eles ter essa certeza bem arraigada na alma, à vista das provações que deveriam enfrentar em breve.
O prêmio da proclamação de Fé feita por Pedro
Ao afirmar ser Nosso Senhor o Filho de Deus vivo (cf. Mt 16, 16), recebeu Simão, o filho de Jonas, esta admirável resposta: “Não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus” (Mt 16, 17). Pois é impossível ao homem, por si, chegar ao conhecimento do maravilhoso mistério da união hipostática.
O prêmio dessa proclamação de Fé foi a solene consagração recebida: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Ficou assim constituído Príncipe dos Apóstolos, o Chefe e a pedra basilar da Igreja de Cristo.
É esse mesmo Pedro, o único Papa nomeado diretamente por Cristo, quem vai protagonizar o episódio do Evangelho hoje comentado.
II – Anúncio da Paixão e reação dos Apóstolos
“Naquele tempo 21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.
Aproximava-se a Páscoa. Conviviam os apóstolos havia alguns anos com um Taumaturgo extraordinário que ensinava uma doutrina nova, oposta às ideias correntes tanto nos povos pagãos quanto entre a maior parte dos judeus, e em tudo manifestava uma superioridade ao mesmo tempo atraente e intrigante, cercada de misteriosa aura.
Com o tempo, foram os olhos dos discípulos gradualmente se abrindo, à medida que se aprofundavam no conhecimento e cresciam na admiração ao Mestre, até o dia em que a graça lhes mostrou tratar-se do próprio Deus encarnado. Provavelmente essa realidade foi se tornando clara para cada um em distintas ocasiões, de modo talvez relacionado com a respectiva luz primordial.3 Ora tal milagre, ora tal palavra ou tal gesto de Jesus representava para este ou aquele a gota que fazia o coração transbordar de amor.

A proclamação de Pedro, bem podemos conjecturar, viera acompanhada de inusitadas graças sensíveis, criando entre os discípulos um ambiente de muita alegria e consolação espiritual, fazendo-os compreender o sublime momento que viviam. E Nosso Senhor aproveita a oportunidade para anunciar-lhes de modo explícito a sua Paixão: em Jerusalém Ele sofreria muito “da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei”, seria morto, mas ressuscitaria ao terceiro dia.
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