Comentários ao Evangelho 30º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013
Mons João Clá Dias
Evangelho - Lc 18, 9-14
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Oração do publicano |
9 Disse também esta
parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem
justos, e desprezavam os outros: “Subiram dois homens ao templo a
fazer oração: um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé,
orava no seu interior desta forma: Graças Te dou, ó Deus porque não
sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros; nem como
este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo
o que possuo. O publicano, porém, conservando-se à distância, não
ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito
dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, pecador. Digo-vos que este
voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se
exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”
(Lc 18, 9-14).
Quando é inútil rezar?
Se quisermos ter certeza de que nossa oração é
atendida por Deus, devemos imitar o modo de rezar do publicano,
humilhando-nos diante dEle e pedindo perdão por nossos pecados.
O orgulho: causa de todos os
vícios
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Oração do fariseu |
“Serpentes! Raça de víboras!” Eis alguns dos
títulos saídos dos divinos lábios de Jesus para designar os
fariseus. Nesse mesmo capítulo (23) de Mateus, estão agrupadas as
principais recriminações de que foram objeto: eram “hipócritas”,
despojavam as viúvas, fechavam as portas do Reino do Céu,
transformavam seus prosélitos em filhos do inferno, eram “insensatos
guias de cegos”, “sepulcros caiados”, herdeiros da maldição
pelo “sangue inocente derramado sobre a terra”.
Na realidade, foram eles os mais ferrenhos opositores ao
Reino de Deus, trazido pelo Messias. E apesar de as provas a respeito
do Reino serem numerosas e evidentes, eles não só as rejeitavam
como, se lhes era possível, silenciavam-nas ou ofereciam malévolas
interpretações às mesmas.
Em suas almas, onde estaria fixada a raiz desse terrível
pecado contra o Espírito Santo?
A mais perigosa das vaidades
Os fariseus tiveram uma origem virtuosa, quando
procuraram se separar daqueles que se deixavam influenciar pelo
mundano relativismo propagado pela Grécia, por volta de duzentos
anos antes de Cristo. Porém, por falta de vigilância e ascese, como
não raras vezes acontece, caíram numa das mais perigosas vaidades:
a que se junta ao desejo de perfeição.
Ao abraçar as vias da santidade, é indispensável ao
cristão colocar o interesse de Deus acima de toda a criação, como
também, devotar aos interesses do próximo uma atenção maior do
que aos seus, de ordem pessoal, e estes, confiá-los à Providência
Divina, tal como ensina o salmista: “Não a nós, Senhor, não a
nós, mas ao vosso nome dai glória” (Sl 113, 1).
Esqueceram-se os fariseus ser necessário pôr um freio
em seu ânimo, para evitar sua imoderada exacerbação, praticando,
assim, a essencial virtude da humildade, tal como a define São Tomás
de Aquino: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque
grandezas além da reta razão” 1. “Importa que conheçamos o que
nos falta, em comparação com o que excede nossa capacidade. É
próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite,
conhecer as próprias deficiências” 2.
Na ausência da virtude da humildade, lento mas profundo
e fatal foi o processo de uma separação dos demais, em princípio
boa e até necessária, para metamorfosear-se numa supervalorização
de suas autênticas ou supostas qualidades morais. É suficientemente
ilustrativo desse estado de alma, ouvir estas palavras, saídas dos
lábios de um rabino, e recolhidas pelo Talmud: “Dizia R. Jeremias,
chamado Simão, filho de Jochai: Eu posso compensar os pecados do
mundo todo, desde o dia em que nasci até hoje; e se meu filho
Eleazar morresse, poderia livrar todos os homens que existiram no
mundo, desde a sua criação até hoje. E se estivesse conosco Jotan,
filho de Uzias, poderíamos fazer isso de todos os pecados, desde a
criação do mundo até o seu final [...]. Via os filhos do banquete
divino, e eram poucos. Se fossem mil, meu filho e eu estaríamos
entre eles; se fossem apenas dois, seríamos meu filho e eu” 3.
Quem se deixa levar pelo
orgulho não respeita limites
Uma vez perdida a humildade, pela vã complacência
consigo, o orgulho nos fariseus — como em qualquer caso — não
mais respeitou nenhum limite. Ensoberbecido, colocou-se no centro do
universo, exaltando as próprias qualidades. Não só desprezava as
do próximo, como buscava exagerar os defeitos deste, sendo que às
vezes o fariseu os possuía em maior grau.
Devido à sua incontida jactância, ele invariavelmente
tinha razão em suas opiniões. Os fracassos sempre se davam pelo
fato de não o terem procurado para consulta. Se muitos discordavam
do fariseu, no fundo era porque — segundo ele — a sabedoria
pertence a uma minoria seleta. Se todos eram unânimes com ele,
sentia-se o dirigente. Se houvesse uma autoridade à qual ele devesse
submissão, procuraria dominá-la, porém, como na maioria das vezes
isto não era fácil, partia ele para a censura, a crítica e a
sabotagem, acabando por ingressar pelas vias da desobediência.
Ademais, sempre se manifestava ingrato, pois qualquer benefício que
se lhe fizesse seria um ato de pura justiça e, por isso, nunca
agradecia.
Como todo orgulhoso, o fariseu, ao se constituir o foco
das atenções, não tolerava quem não girasse ao seu redor e,
tomado de inveja, fomentava discórdias sempre que as circunstâncias
as exigissem, lançando mão, inescrupulosamente, de detrações,
calúnias, etc.
Nos fariseus, a hipocrisia se
soma ao orgulho
Em essência, ele era um ególatra, mas, por sua
refinada hipocrisia, apresentava-se respeitoso diante de Deus e justo
em relação aos homens. Como nem sempre conseguia ocultar alguns de
seus vícios evidentes, negava que assim o fossem.
Pobre fariseu! Não se dava conta dos males que
despencavam sobre ele, pelo fato de procurar a glória onde não
existia. Não percebia ele, o quanto o vício da soberba é o
primeiro, não só em se manifestar exteriormente, como também em
ser discernido por todos, com rapidez. Ele morreria, talvez, sem
tê-lo explicitado, mas aqueles que com ele conviviam já o haviam
catalogado.
Como poderia corrigir-se o fariseu desse defeito, uma
vez que não queria reconhecer-se vítima de tão grave mal? Já se
tinha por santo... Era-lhe muito difícil converter-se, pois tal como
diz Santa Teresa, a humildade é a verdade 4.
Ser-lhe-ia indispensável que se visse, e até se
sentisse, tal qual era; que discernisse claramente a procedência dos
lados bons e maus de sua alma. Se assim fosse, reconheceria o bem que
havia nele, para de imediato atribuí-lo a Deus. Da mesma forma, ao
constatar sua maldade própria, suas faltas e seus pecados,
atribui-los-ia à sua vontade deteriorada e perversa. Impostando
assim, seu espírito, com flexibilidade admitiria que sem o auxílio
da graça, o cristão não só deixa de cumprir de modo estável os
Mandamentos da Lei de Deus, como até mesmo, é incapaz de pronunciar
uma palavra boa. Ele jamais falaria de si próprio ou de suas
virtudes e, se por razões de força maior, fosse obrigado a fazê-lo,
imitaria São Paulo: “Gratia Dei sum id quod sum” — “Pela
graça de Deus, sou o que sou” (1 Cor 15, 10).
Se entrasse por essas vias, seu “interior seria
luminoso” porque seu olho seria limpo (cf. Mt 6, 22); já não mais
teria vendadas suas vistas pelo amor próprio. Discerniria a presença
de Deus a cada passo, em todas as circunstâncias de sua vida e, por
outro lado, não faria ilusões sobre a debilidade, as inclinações
e a malícia da criatura humana.
Faltava ao fariseu aprender com Santa Teresa o quanto é
necessário andar na verdade: “Certa vez eu estava considerando a
razão pela qual Nosso Senhor era tão amigo dessa virtude da
humildade, e ocorreu-me — na minha opinião, sem ponderações, mas
de repente — o seguinte: é porque Deus é a suprema Verdade, e a
humildade consiste em andar na verdade; e é uma verdade muito grande
saber que em nós nada há de bom, mas só miséria e nada; e quem
assim não entenda, anda na mentira. E quem mais assim entenda agrada
mais à suprema Verdade, porque nela anda” 5.
Se esse caminho trilhasse o fariseu, jamais poria sua
confiança em si próprio, mas só em Deus, submetendo-se em tudo à
Sua santíssima vontade. Teria para com os outros uma real caridade,
como recomenda São Tomás de Aquino: “Devemos não só reverenciar
a Deus em Si mesmo, mas também o que é de Deus, em toda e qualquer
pessoa” 6 . “Pode alguém, sem falsidade, ‘reconhecer-se e
mostrar-se como o mais indigno de todos’, levando em conta os
defeitos ocultos que traz em si mesmo e os dons de Deus ocultos nos
outros. Por isso, Agostinho diz: Estimai, interiormente, superiores
os que vos são, exteriormente, inferiores. Do mesmo modo, sem
fingimento, pode alguém se confessar e se acreditar indigno e inútil
para tudo, pelas forças próprias, atribuindo a Deus toda a sua
capacidade, conforme se diz: ‘Não é por causa de uma capacidade
pessoal, que poderíamos atribuir a nós mesmos, que somos capazes de
pensar; é de Deus que vem a nossa capacidade’” 7. Por isso
mesmo, o fariseu, ao constatar os progressos espirituais realizados
por auxílio da graça, na prática da virtude, deveria considerá-los
como relativos, e reconhecer o quanto poderia ter correspondido mais
aos dons de Deus.