Continuação dos comentários ao Evangelho 31º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 19, 1-10
A admiração leva a vencer o
respeito humano
3b “...mas não conseguia
porque era muito baixo. 4 Então, ele correu à frente e subiu numa
figueira para ver Jesus, que devia passar por ali”.
O Mestre entrara em Jericó seguido de uma multidão
alvoroçada pelo estupendo milagre da cura do cego que pedia esmolas
à beira do caminho (cf. Lc 17, 36).6 Segundo o padre Duquesne, as
ruas por onde Jesus haveria de passar mal podiam conter a aglomeração
daqueles que aguardavam sua passagem.7 Debalde procurava Zaqueu uma
brecha naquela turba para satisfazer seu anseio de ver o Senhor.
Não é frequente os Evangelistas descreverem
características físicas de alguém. Assim, por exemplo, não
sabemos ao certo a altura de Pedro nem se João usava barba. Sem
embargo, São Lucas — que inclui em seu relato observações feitas
sob um prisma médico — nos informa ser esse publicano “muito
baixo”, dado fundamental para bem compreendermos o que acontecerá
logo a seguir.
Os pequenos de estatura são, não raras vezes, muito
ágeis e espertos. Além disso, Zaqueu, a julgar pela narração do
Evangelho, parece ser ainda relativamente jovem. À procura de um
posto de observação favorável, corre à frente e sobe numa
figueira, indicando com essa atitude que seu grande empenho em ver
Jesus não resultava de mera curiosidade.
Zaqueu não era um homem tosco. Tinha numerosos
empregados a seu serviço e estava acostumado a fazer cálculos. Uma
pessoa de sua projeção social precisava de um motivo muito forte
para trepar numa árvore “como um camponês qualquer”, observa
acertadamente Willam.8 E, mais ainda, para se expor à vista de um
público cuja hostilidade lhe era manifesta.
O Evangelho não entra no detalhe de quanto tempo
permaneceu ele à espera em cima da figueira. Pode-se, contudo,
conjecturar que foi considerável, pois Nosso Senhor caminhava
lentamente, cercado pela multidão, detendo-Se por vezes para atender
um doente, dar um conselho, responder a alguma pergunta.
Nesse período, a atitude de Zaqueu foi uma verdadeira
demonstração de pertinácia, confiança e combate ao respeito
humano. Com efeito, quantos desaforos e chacotas não teve de
suportar do alto da árvore o chefe dos publicanos! E se o fez foi
porque, conforme comenta o padre Duquesne, “no fundo de seu
coração, alguma esperança sustentava sua coragem, sem ele ter uma
ideia clara a esse respeito. Indubitavelmente, desejava ser notado
pelo Salvador, e queria que Ele conhecesse todas as disposições de
sua alma”.9
A avidez do lucro e o apego ao dinheiro costumam
diminuir e embotar a capacidade de admiração nas pessoas. Ora, ao
que parece, Zaqueu não se deixara dominar completamente pela
ambição, pois, apesar de ser cobrador de impostos e muito rico,
dará provas de possuir um notável desprendimento e espírito
admirativo. Essa ousada atitude de subir na figueira, ele a tomou,
sem dúvida, movido por uma graça de enlevo por Nosso Senhor.
Uma interessante interpretação sobre o aspecto
simbólico do gesto de Zaqueu, nos é dada pelo padre Maldonado ao
comentar que “a turba deste mundo nos impede de reconhecer o
Senhor; precisamos deixá-la e calcá-la aos pés, para nos elevarmos
a uma virtude superior e ver do alto a Cristo”.10
O episódio apresenta ainda outro belo significado, uma
lição para todos: quando nos sentirmos pequenos, devemos procurar
Jesus, sobretudo no Santíssimo Sacramento, exposto no ostensório.
Esse desejo de estar com Ele bastará para movê-Lo a apiedar-Se de
nós e dar-nos aquilo de que nossas almas mais necessitam.
Continua no próximo post.