Comentário ao Evangelho 24º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 15, 1-32 - Continuação
A ovelha
desgarrada
3 “Então Jesus
contou-lhes esta parábola: 4 ‘Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não
deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até
encontrá-la?’”.
O pastor e o rebanho, realidades tão comuns na sociedade
judaica daquela época, adquirem nesta parábola seu mais elevado simbolismo.
Embora tal imagem já houvesse sido utilizada no Antigo Testamento para
representar o zelo de Deus por seu povo (cf. Ez 34), sua força de
expressividade é sublimada pelos detalhes acrescentados pelo Divino Mestre, a
fim de fazê-la significar o mistério da Redenção.
Em primeiro lugar, ao mencionar a quantidade exata de
ovelhas, Nosso Senhor “refere-se a toda a multidão de criaturas racionais que
Lhe estão subordinadas, porque o número cem, composto de dez dezenas, é
perfeito. Mas destas, perdeu-se uma, que é o gênero humano”,3 explica São
Cirilo. Na vida cotidiana o pastor toma-se de aflição ao notar a falta de uma
ovelha e, deixando de lado o rebanho, não mede esforços para recuperar a
desgarrada, nela concentrando toda a sua atenção. Análoga é a atitude de Deus
na Redenção: ao Se encarnar, o Filho deixou no Céu “inumeráveis rebanhos de
Anjos, Arcanjos, Dominações, Potestades, Tronos”,4 para, na Terra, resgatar a
humanidade, perdida pelo pecado.
A alegria do
pastor ao encontrar a ovelha
5 “Quando a encontra,
coloca-a nos ombros com alegria, 6 e, chegando a casa, reúne os amigos e
vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava
perdida!’”.
Além de não castigar a tresmalhada quando a encontra, o
pastor a trata com extremo carinho e a carrega aos ombros, com um cuidado que
ele não teve com nenhuma das ovelhas obedientes. Tal desvelo representa os
afagos do perdão restaurador de Deus destinado aos pecadores arrependidos: ao
invés de puni-los pelas ofensas recebidas e assim satisfazer os clamores da
justiça, Ele prefere manifestar sua onipotência atendendo aos apelos da
misericórdia. É o infinito desejo de salvar, que suplanta inclusive a maldade
humana, como aponta São Gregório Magno: “Separamo-nos d’Ele, mas Ele não Se
separa de nós. […] Demos as costas ao nosso Criador, e Ele ainda nos tolera;
afastamo-nos d’Ele com soberba, mas Ele nos chama com suma benignidade e,
podendo nos castigar, ainda promete prêmios para que voltemos”.5
Contudo, nossa primeira atenção, ao considerar esta parábola,
deve se centrar na efusiva alegria do pastor ao recuperar a ovelha, convidando
outros a regozijarem-se com ele. É este o principal pormenor da narração, com o
qual Nosso Senhor quer significar o agrado de Deus ao encontrar uma alma dócil
à ação da graça e, apesar de se ter desviado das sendas da virtude, abandona-se
aos cuidados do Bom Pastor e se deixa reconduzir por Ele. Tal flexibilidade é a
única exigência para perdoar e restaurar o pecador. Com isso a alma é tomada
pela felicidade de se ver novamente em ordem com Deus e em paz com sua
consciência, dando-Lhe a alegria de poder manifestar sua misericórdia. E, por
conseguinte, participarão desse contentamento todos aqueles que O amam de
verdade.
7 “Eu vos digo: Assim
haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por
noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
O pecador e os noventa e nove justos simbolizam, segundo
alguns, a humanidade e os Anjos, pois apenas estes últimos são “justos que não
precisam de conversão”. Ao ressaltar a desproporção entre uns e outros, o
Mestre nos dá um precioso ensinamento acerca da superioridade numérica do mundo
angélico, o qual “excede o restrito campo de nossos números físicos”.6
Por outro lado, vê-se a força do perdão: seus efeitos
repercutem entre os Anjos, causando-lhes maior júbilo do que sua própria
perseverança. É um incentivo para nunca nos desesperarmos quando percebermos,
arrependidos, que nos afastamos do rebanho, seguindo nossas más inclinações. No
Sacramento da Penitência, o próprio Jesus nos aguarda, disposto a nos levar aos
ombros com todas as nossas misérias.
Um exemplo
para o público feminino
8 “E se uma mulher tem
dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a
procura cuidadosamente, até encontrá-la?. 9 Quando a encontra, reúne as amigas
e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’.
10 Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só
pecador que se converte”.
Sem dúvida, considerável era o contingente feminino no
público presente à pregação de Nosso Senhor. Por isso, Ele compõe uma segunda
parábola, adaptando o enredo anterior a uma situação na qual a protagonista é
uma dona de casa, responsável pela administração das economias domésticas,
segundo os costumes judaicos. Empregando tais energias para reaver a moeda
perdida, esta mulher é apresentada por Jesus como imagem do incansável empenho
de Deus em fazer com que “todos os homens se salvem e cheguem ao pleno conhecimento
da verdade” (I Tim 2, 4). Tendo sofrido a Paixão e Morte na Cruz para redimir a
humanidade, Cristo ama a cada um de nós individualmente. Uma alma, mesmo que
pareça insignificante ao lado dos inesgotáveis tesouros de sua onipotência, é
uma “moedinha” de valor infinito, porque vale o preço de seu Preciosíssimo
Sangue. Mais uma vez, o Salvador salienta o júbilo causado entre os Anjos pela
conversão de “um só pecador”.
Narradas pelo Divino Mestre, tais cenas corriqueiras da vida
pastoril e doméstica tornam mais acessível à nossa compreensão o sublime
mistério do amor de um Deus que, fazendo-Se homem, “veio procurar e salvar o
que estava perdido” (Lc 19, 10).
Continua no próximo post.
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