Evangelho 24º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 15, 1-32
“Naquele tempo, 1 os
publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para O escutar. 2 Os fariseus,
porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. ‘Este homem acolhe os pecadores e
faz refeição com eles’.
3 Então Jesus
contou-lhes esta parábola: 4 ‘Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não
deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até
encontrá-la? 5 Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, 6 e,
chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo!
Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’. 7 Eu vos digo: Assim haverá no
céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove
justos que não precisam de conversão. 8 E se uma mulher tem dez moedas de prata
e perde uma, não acende uma lâmpada, varrea casa e a procura cuidadosamente,
até encontrá-la? 9 Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz:
‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’. 10 Por isso, eu vos
digo, haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se converte’.
11 E Jesus continuou:
‘Um homem tinha dois filhos. 12 O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a
parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. 13 Poucos
dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar
distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada.
14 Quando tinha gasto
tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a
passar necessidade. 15 Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o
mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16 O rapaz queria matar a fome com a
comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.
17 Então caiu em si e
disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo
de fome. 18 Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei
contra Deus e contra ti; 19 já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como
a um dos teus empregados’.
20 Então ele partiu e
voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu
compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21 O filho,
então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser
chamado teu filho’.
22 Mas o pai disse aos
empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai
um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23 Trazei um novilho gordo e matai-o.
Vamos fazer um banquete. 24 Porque este meu filho estava morto e tornou a
viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.
25 O filho mais velho
estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança.
26 Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27 O
criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou um novilho gordo, porque
o recuperou com saúde’.
28 Mas ele ficou com
raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29 Ele, porém,
respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a
qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus
amigos. 30 Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com
prostitutas, matas para ele o novilho cevado’.
31 Então o pai lhe
disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas era
preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a
viver; estava perdido, e foi encontrado’” (Lc 15, 1-32).
UMA CONCEPÇÃO
ERRADA DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA
Os homens costumam julgar as atitudes alheias, em geral, com
o seguinte critério: Agiu bem? Merece prêmio e estima. Agiu mal? Merece castigo
e repulsa. Tal mentalidade, além de conspurcar a pureza de intenção das boas
obras, levando a pessoa a fazer o bem pelo simples interesse de receber uma
recompensa, cria na alma condições favoráveis ao desenvolvimento de toda sorte
de vícios, semeados pelo amor-próprio ferido, tais como a vingança, o
ressentimento e o rancor. No relacionamento com Deus, em consequência, muitos
se baseiam na mesma concepção e O imaginam como um intransigente legislador, a
quem a menor infração encoleriza e faz desfechar sobre o faltoso, de imediato,
o merecido castigo. Ainda de acordo com esse critério, a benevolência divina
apenas incide, em forma de bênçãos, consolações e demais favores sobrenaturais,
sobre aqueles que, tendo cumprido de modo exímio os Mandamentos, merecem ser
recompensados.
Ora, essa visão da perfeição infinita de Deus é muito
deformada, pois Lhe atribui uma justiça conforme os limitados critérios humanos
e ignora sua misericórdia. E tal atributo é n’Ele tão vigoroso que chega a
vencer a própria justiça. Uma prova da insuperável força de sua compaixão são
as palavras dirigidas aos nossos primeiros pais, logo após o pecado original:
antes de sentenciar os sofrimentos aos quais a natureza humana estaria sujeita
na terra de exílio, Ele lhes prometeu a vinda de um Salvador, nascido da
descendência de Adão (cf. Gn 3, 15). Mal o homem havia pecado, o Senhor
garantiu-lhe o perdão. Por isso, poderíamos parafrasear a afirmação de São João
e dizer que, no “fiat!” de Maria Santíssima, o perdão de Deus se fez carne e
habitou entre nós (cf. Jo 1, 14).
Durante sua vida mortal, Jesus manifestou com largueza o
desejo de salvar, acolhendo com indulgência os pecadores arrependidos que a Ele
acorriam, confiantes de ali encontrar o perdão. Entretanto, a mesma
misericórdia que tanto atraía uns, despertava acirrada indignação em outros...
A
MISERICÓRDIA POSTA EM PARÁBOLAS
“Naquele tempo, 1 os
publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para O escutar. 2 Os fariseus,
porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. ‘Este homem acolhe os pecadores e
faz refeição com eles’”.
Para entendermos a fundo o motivo de tal objeção, basta
considerar que os fariseus e mestres da Lei exemplificam de modo cabal a
mentalidade deformada à qual nos referimos. Para eles “Deus é, sobretudo, Lei;
julgam-se em relação jurídica com Deus e, sob este aspecto, quites com Ele”,1
comenta o Papa Bento XVI. Era também segundo o mesmo critério que avaliavam os
outros, discriminando como pecadores — e, enquanto tais, objeto da ira divina e
do desprezo dos homens — todos os judeus negligentes no cumprimento das
prescrições legais relativas à pureza ritual ou alimentar. Na mesma categoria
incluíam os publicanos, pois, além de colaborarem com o domínio pagão exercido
por Roma, muitas vezes eram desonestos ao arrecadar os impostos, cometendo
extorsões em benefício próprio. Todavia, o principal alvo de repulsa eram os
pagãos, devido à errônea ideia, muito difundida entre os judeus, de que a
eleição divina do povo hebreu era sinônimo da condenação eterna de todas as
outras nações. Desta forma, se para os israelitas não observantes da Lei e para
os cobradores de impostos havia ainda uma longínqua possibilidade de salvação,
caso se arrependessem e se reconciliassem com Deus, tal hipótese não se
aplicava a um estrangeiro, pelo simples fato de não ser beneficiário das
promessas feitas aos patriarcas.
Nada poderia contundir de modo tão veemente essa mentalidade
quanto o modo de Nosso Senhor proceder. A cura do servo do centurião romano
(cf. Lc 7, 1-10; Mt 8, 5-13), a pecadora perdoada na casa de Simão, o fariseu
(cf. Lc 7, 36-50), e a incorporação de um coletor de impostos ao Colégio
Apostólico, com o chamamento de Levi (cf. Mt 9, 9-17; Mc 2, 13-22; Lc 5,
27-39), são alguns exemplos de atitudes escandalizantes para os fariseus, a
cujos ouvidos soavam como blasfêmias as palavras: “Não vim chamar os justos,
mas sim os pecadores” (Lc 5, 32).
Por esta razão, a todo momento procuravam mostrar sua
ferrenha oposição a Ele, conforme nos narra o início do Evangelho deste
domingo.2
No entanto, como Jesus desejava salvar a todos — inclusive os
fariseus e mestres da Lei —, sua resposta a tais objeções foi uma tríade de
parábolas, registradas por São Lucas à maneira de um mesmo argumento
apresentado sucessivamente, sob diferentes invólucros. Em cada uma delas, Nosso
Senhor visava não só incentivar os pecadores que O ouviam a confiarem no
perdão, como também convencer os opositores acerca da necessidade da
misericórdia, sem a qual ninguém pode se salvar.
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