Comentários ao Evangelho Assunção de Nossa Senhora - Lc 1, 39-56 - Ano C- 2013
39Naqueles dias, Maria
partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da
Judeia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a
saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do
Espírito Santo.
Com um grande grito exclamou:
“ Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! Como
posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação
chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe
prometeu."
46Maria disse: “A minha
alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me
chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu
favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em
geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou
os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes.
53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu
Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos
nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria
ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa. (
Lc 1, 39-56)
O OLHAR
HUMANO E O OLHAR DA FÉ
Ensina o Apóstolo que “o justo viverá pela fé” (Gal 3, 11).
Esta afirmação ressalta a natural insuficiência de nossa razão para atingir,
por si mesma, determinadas verdades da Religião Católica. Quando a inteligência
se dissocia de Deus, perde a capacidade de apreender o que a realidade possui
de mais essencial: a presença d’Ele na alma e em todo e universo criado. Basta
recordarmos o testemunho de Santo Agostinho que, após percorrer em vão o mundo
do pensamento à procura do sentido de sua existência, exclamou: “Tu estavas
dentro de mim, mais interior que o meu próprio íntimo e mais elevado que o
ápice do meu ser”.1 Ora, esse conhecimento foi-lhe dado pela fé, pois a vista
humana não alcança a Deus diretamente.2
De igual forma, quando analisamos as Sagradas Escrituras não
é possível acompanhá-las com a pura inteligência. Esta fica aquém da amplitude
sobrenatural dos episódios da História Sagrada, de modo especial dos
Evangelhos, e a partir de certo limite deve se abrir para as inspirações do Espírito
Santo a fim de penetrar em seu sentido divino. Cabe-nos meditar tais fatos
enquanto acontecimentos movidos pela ação direta e eficaz do Criador.
A SANTIDADE,
UM BEM EXPANSIVO
Após o relato da aparição do Anjo a Zacarias, feito por São
Lucas em um diálogo de poucos versículos (cf. Lc 1, 11-20), o Evangelista
detalha que “o povo estava esperando [...] e admirava-se de ele se demorar
tanto tempo no santuário” (Lc 1, 21). Tal pormenor revela que a conversa deve
ter sido mais extensa do que as breves frases registradas pelo texto sagrado.
Se assim aconteceu nessa aparição, que pensar da sucinta narração do encontro
de São Gabriel com a Virgem Santíssima (cf. Lc 1, 26-38)? Podemos supor que o
colóquio não tenha sido tão curto e, por humildade, Maria tenha desejado que
ficasse consignado tão só o necessário para a boa compreensão da embaixada
vinda do Céu. Consideremos o quanto a oportunidade de discorrer com Ela terá
sido um privilégio para o celestial mensageiro, e como terá ele desejado
valer-se da circunstância, tirando o máximo proveito. Da parte d’Ela, quantos
pensamentos elevados não terá exposto a São Gabriel. Quiçá, até deve ter-lhe
pedido conselhos. A grande perfeição da natureza espiritual do Anjo, acrescida
da proximidade com Deus, certamente inspirava em Nossa Senhora uma santa
afinidade com o mundo angélico.
Entre os temas desse colóquio, podemos supor que Ela tenha
incluído o da conveniência de visitar sua prima Santa Isabel, que esperava um
filho havia seis meses, como Lhe comunicara o Anjo. Maria se apressou em
manifestar sua disponibilidade de ir até ela — que, como veremos, era toda
fundada em razões sobrenaturais —, embora fosse provável que antes disso tenha
passado certo período em recolhimento, devido ao extraordinário influxo de
graças então recebido. Ela não Se julgou desobrigada do dever de dedicar-Se ao
próximo, inclinando-Se, com prontidão, a cumprir o caridoso desígnio. É o que
narra o Evangelista.
A ação eficaz
nasce da contemplação
39 Naqueles dias, Maria
partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da
Judeia.
Após dar seu livre consentimento e tornar efetiva a
Encarnação por um ato de máxima fidelidade à vontade de Deus (cf. Lc 1, 38),
Nossa Senhora não abandonou a vida em sociedade, como o demonstra a visita que
fez à sua prima. Quem, ao saber que está gestando o próprio Filho de Deus,
tornando-se Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, pensaria numa prima?
Uma alma egoísta, após ter recebido a embaixada do Anjo, quereria abraçar uma
mal-entendida vida de contemplação, a fim de beneficiar-se das vantagens dessa
prerrogativa e gozar das consolações do convívio com o Menino Jesus. Maria fez
o oposto: pôs-se a caminho logo, “naqueles dias”, pois os inocentes se
interessam mais pelos outros do que por si próprios.
Jerusalém situava-se no alto de uma montanha de
aproximadamente 800 metros de altitude e a cidade onde vivia Zacarias Am Karim,
segundo uma antiga tradição — ficava num vale, a sete quilômetros ao sudoeste
da Cidade Santa. Já Nazaré localizava-se a uma boa distância — cerca de 130 km
—, a qual, para ser percorrida, levava de três a cinco dias de viagem, por um
caminho penoso e solitário através dos vales da Samaria e das regiões
montanhosas da Judeia.3 Nossa Senhora transpôs com ânimo resoluto tais
obstáculos para chegar ao vilarejo. Contudo, estaríamos longe de compreender
sua impostação de espírito neste trajeto, se não relacionássemos a presteza com
que realizou o percurso à sua intensa vida interior.
Sendo uma alma meditativa, imbuída de forte esprito de
oração, Ela nos mostra que a boa contemplação redunda na ação bem feita, dá
glória a Deus e edifica o próximo. Devemos nos compenetrar de que os espritos
fervorosos são aqueles que exercem sua missão com maior êxito, porque agem ao
sopro do Espírito Santo. Nesse caso, Maria “é impulsionada por um movimento
divino, pelo Verbo que traz em seu seio. Este divino fardo, longe de atrasá-La,
A eleva, A faz voar, A transporta para o alto das montanhas”.4
A pressa,
manifestação de fervor
Cumpre ressaltar outro aspecto relacionado com uma palavra do
Evangelista: “apressadamente”. Por que teve Ela o desejo de partir o quanto
antes a fim de estar com a prima? Após a Anunciação, a Virgem Santíssima foi
favorecida com nova plenitude do Espírito Santo e estava exultante de alegria.
Como o bem é difusivo,5 Nossa Senhora, que não tinha nenhum resquício de pecado
e n’Ela tudo era santidade e virtude, logo desejou partilhar os tesouros
recebidos. Com São José não tinha a possibilidade de Se expandir, pois os fatos
posteriores nos indicam que a Providência agiu com ele de maneira diversa,
exigindo-lhe grande confiança em meio a acontecimentos que apenas aos poucos
lhe foram sendo esclarecidos. Por isso Ela preferiu deixar nas mãos de Deus
qualquer comunicação a ser feita ao esposo. No entanto, como o Anjo havia dito que
Santa Isabel já estava no sexto mês de uma concepção miraculosa, Maria julgou
ser a ocasião ideal para se encontrar com ela, intuindo, também, não haver
junto à prima quem a ajudas se adequadamente.
Ela partiu logo, pois a vida sobrenatural não comporta
delongas, preguiça nem desvios. E preciso observar que o fato de estar
apressada não significa estar perturbada por qualquer agitação, já que Ela ia,
sem dúvida, com todo equilíbrio e calma interior. A pressa vinha do anseio de
comunicar as maravilhas que levava em Si, e ainda que tivesse toda a
disponibilidade para auxiliar também nas necessidades práticas, essa não era a
razão mais importante. A consideração pela prima dava-Lhe a certeza de não
haver ninguém melhor para ser sua interlocutora, uma vez que Isabel “estava de
certo modo envolvida nos mistérios da Redenção”.6 E por amor ao Divino Filho
que engendrava, lançou-Se logo pelos caminhos, como comenta Santo Ambrósio:
“Pressurosa por causa do gáudio, dirigiu-se à montanha. Estando cheia de Deus,
poderia não elevar-se até às alturas? Os cálculos lentos são alheios à graça do
Espírito Santo”.7
Além disso, houve um motivo mais significativo que determinou
a viagem, relacionado com a pessoa e a missão de São João Batista. Por
revelação do Anjo, sem dúvida a Virgem Santíssima sabia que o filho que Santa
Isabel estava para dar à luz era o Precursor e, por esta razão, tinha certeza
de que ele estava associado de maneira particular ao plano da salvação. Ora,
Ela queria colaborar para que a glória de seu Divino Filho fosse a maior
possível, num desejo correspondente ao elevado grau de perfeição e santidade de
sua alma. Por tal motivo, correu com o intuito de santificar o quanto antes o
Precursor, pois a ideia de que este varão pudesse nascer tisnado pelo pecado contundia
seus anseios.
Nossa Senhora foi apressadamente, então, para transmitir com
exclusividade a Boa-nova a Santa Isabel e a São João Batista, tornando-Se a
primeira Arauto do Evangelho da História. Nesse sentido ressalta Monsabré: “Ela
não teme nem as dificuldades nem as fadigas da viagem, pois porta a graça de
Deus, e a graça é um dom tão grande que devemos estar dispostos a todos os
sacrifícios para levá-lo àqueles a quem está destinado”.8
Os efeitos de
uma visita de Maria
40 Entrou na casa de
Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando
Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou
cheia do Espírito Santo.
Quanto gostaríamos de saber como Maria cumprimentou Isabel
nessa ocasião! São Lucas, porém, não registrou tal pormenor. Tudo indica que
Ela, em sua suprema humildade, chegou com discrição, sem chamar a atenção sobre
Si. Ao ver a prima, saudou-a, chamando-a pelo nome, e o Espírito Santo agiu de
maneira sensível.
Deus é tão delicado — é a própria Delicadeza — que, ao se
aproximarem as duas almas eleitas, inundou Santa Isabel de graças,
comunicando-lhe que a plenitude dos tempos havia chegado e o Messias estava ali
presente no seio virginal de Nossa Senhora. Esta, por sua vez, deu-Se conta de
não ser necessário explicar nada à prima.
Bem podemos imaginar a unção e o poder da voz da Mãe de Deus
em função de seus frutos. Qualquer música da Terra, por mais bela e perfeita
que seja, não pode ser-lhe comparada. Aquela voz tem força e penetração e é
extraordinariamente eficaz! Ao dizer Isabel, Maria o fez com tanto amor que a
entonação era carregada de sentido sobrenatural doçura e sublimidade, pois “a boca
fala do que transborda do coração” (Mt 12, 34).
Sinal disto é o fato de São João Batista ter saltado no
ventre de Santa Isabel. A tradição teológica reconhece ter sido nesse momento
que o pecado original foi extirpado do menino, tal como se ele houvesse sido
batizado.9 Embora uma criança com seis meses de gestação ainda não tenha
capacidade de compreender, ele foi objeto de um altíssimo fenômeno místico que,
segundo afirmam certos autores, deu-lhe um lampejo de conhecimento racional;
contudo, parece mais conforme à fé que a vida divina, existente em Maria em
plenitude e superabundância,10 lhe tenha sido transmitida pelo timbre daquela
voz virginal e santificadora: a graça penetrou nele e deu-se um verdadeiro
Batismo, o qual lhe infundiu as virtudes e os dons, enchendo-o do Espírito
Santo.
“O mistério da Visitação foi uma imensa efusão de graças. A
graça se esparge sobre o Precursor, santifica-lhe a vida, ilumina-lhe a
inteligência, inaugura-lhe e consagra-lhe a carreira, pois esse estremecimento
era precisamente a claríssima indicação da presença do Verbo”.’10 No instante
da purificação de São João Batista, Santa Isabel foi arrebatada pelo Espírito
Santo. Através de quem lhe veio esta graça? Qual foi o caminho escolhido pelo
Divino Paráclito para cumulá-la de tais benefícios? Serviu-Se do que
transbordava de sua Esposa, que era mais do que suficiente para elevar Isabel
ao auge da perfeição. Maria, ao longo de toda a sua vida, sempre esteve ornada
de um extraordinário influxo de graças, o qual recebeu um constante aumento até
o instante de sua partida para a eternidade.
Conhecer o efeito da voz da Santíssima Virgem constitui,
portanto, um magnífico ensinamento para nós. Se as águas foram escolhidas por
Deus para a instituição do Batismo e, como sinal sacramental após a invocação
do Espírito Santo, têm o poder de lavar o pecado, quão mais poderosa é a voz de
Maria, a ponto de santificar São João no ventre materno! Ela ainda não fora
coroada Rainha dos Céus e da Terra e, entretanto, já atuava como Intercessora.
Bastou sua voz e seu desejo para a criança ficar limpa do pecado original,
dando um salto de alegria.
Vemos, pois, como toda transformação ou progresso espiritual
é possível quando Nossa Senhora toma a iniciativa de Se debruçar sobre uma
alma. Como ensina São Tomás, o amor que desce é eficaz12 e, vindo de Deus e de
Nossa Senhora, santifica. Nesse sentido, portanto, observamos uma relevante
verdade: em relação aos superiores na linha do espírito, mais importante é ser
amado do que amar.
Louvores de
uma alma cheia do Espírito Santo
42 Com um grande grito
exclamou: “Bendita és tu entre as muheres e bendito é o fruto do teu ventre!’
A expressividade de Santa Isabel deve ser considerada como a
reação de uma alma tomada pelo Espírito Santo. Seus gestos e suas palavras são
dignos de apreciação. O texto afirma que a prima de Nossa Senhora prorrompeu
num “grande grito”, proclamando com força, entusiasmo e encanto o que lhe
passava no fundo do coração nesse momento, por divina revelação. Seu clamor nos
ensina que, quando uma realidade sobrenatural nos é descoberta, não podemos nos
calar, sendo nossa obrigação exteriorizar o júbilo que nos invade e tornar
manifesto o reconhecimento pela dádiva recebida. Se assim não procedermos,
incorreremos em omissão e nos tornaremos merecedores de uma repreensão
semelhante àquela feita aos fariseus inconformados com a glorificação do
Salvador: “Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras” (Lc 19, 40).
Nossa atenção é atraída aqui ainda por outro pormenor de
grande importância. Santa Isabel poderia ter formulado a frase numa ordem
diferente: “Bendito é o fruto do teu ventre e bendita és tu entre as
mulheres!”; mas, ao contrário, ela primeiro elogiou Nossa Senhora. Agindo desta
maneira, reconhecia que o melhor modo de chegar a Deus é pela Virgem
Santíssima. Quem está cheio do Espírito Santo apreende com facilidade esta
verdade, enquanto as almas afastadas da luz divina mostram-se reticentes em
relação à intercessão de Maria, levantando objeções infundadas a respeito.
Nessa passagem, o próprio Espírito nos mostra que a forma mais rápida, segura e
certeira para chegar a Nosso Senhor Jesus Cristo é fazê-lo através de sua Mãe.
Humildade e
alegria, sinais da presença de Deus
“Como posso merecer que
a mãe do meu Senhor me venha visitar?
Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de
alegria no meu ventre”.
Santa Isabel prossegue seu elogio, colocando-se numa postura
de humildade. Não podemos nos esquecer de que Nossa Senhora era ainda muito
jovem — tinha por volta de quinze anos , enquanto a prima era uma anciã. Ao
comprovar a superioridade da virginal donzela, a esposa de Zacarias se submete
comovida, e não duvida em recebê-La com júbilo, embora se considerando indigna
de semelhante graça. Portanto, sua reacção é análoga à de Maria diante do Anjo,
quando disse: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38). Pelo teor da
exclamação de Isabel podemos concluir que ela, por uma magnífica iluminação
interior, soube estar ali Aquela que gestava quem seu filho apontaria,
anunciando: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1, 29). Assim, teve conhecimento da
Encarnação do Verbo antes mesmo de ser transmitida a notícia a São José, como
fruto, sem dúvida, de uma humildade que já lhe habitava a alma desde muito
tempo. Por aí podemos medir a importância e o prêmio que nos espera se também
nós reconhecermos nossa insuficiência.
Na nova referência ao salto de São João Batista no ventre de
Santa Isabel, a mãe caracteriza essa reação como um estremecimento “de
alegria”. Quando recebemos a graça santificante, do mesmo modo nos enchemos de
júbilo e, se correspondemos a ela, encontramos a verdadeira felicidade. No
mundo existem alegrias aparentes que trazem satisfações momentâneas, ao passo
que a prática da virtude nos proporciona um contentamento de fundo de alma que
predispõe para grandes atos de heroísmo e se prolongará por toda a eternidade.
Este é mais um alentador benefício da proximidade de Nossa Senhora — a Mãe da
divina graça —, a qual devemos procurar com todo empenho e ardor.
Sem fé não há
bem-aventurança
“Bem-aventurada aquela
que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”.
É interessante analisarmos o elogio de Isabel a Maria, ao
reconhecê-La como “Aquela que acreditou”. Vinha ela padecendo havia seis meses
as consequências da incredulidade de seu esposo que, por duvidar do anúncio
angélico sobre o nascimento de São João Batista, ficara mudo. Assim, Isabel
pôde meditar durante longo tempo sobre a extraordinária importância da virtude
da fé. E com isso melhor admirar a virginal e inocente fé de Maria Santíssima,
que, por acreditar plenamente no Anjo, mereceu o prêmio: “Será cumprido o que o
Senhor Lhe prometeu”.
Crer é seguir o exemplo de Nossa Senhora, que não exigiu
explicações nem procurou condicionar o anúncio do Anjo àquilo que, segundo os
seus critérios, poderia ser oportuno. Pelo contrário, consentiu com docilidade
em tudo o que São Gabriel predisse, tornando claro que mais importante do que
ser Mãe do Redentor — de si mesma uma graça insuperável — é conformar-se por
inteiro com os desígnios de Deus.13 Nos futuros anos da vida pública de Jesus,
quando Lhe anunciarem a presença de sua Mãe, Ele responderá: “Minha mãe e meus
irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 8, 21); e,
mais adiante, ao ouvir um elogio feito a Nossa Senhora pelo dom da maternidade
divina, dirá ainda: ‘Antes, bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a
põem em prática” (Lc 11, 28). Com tais afirmações, o Mestre deixaria patente
que prezava mais a fidelidade de Maria Santíssima à sua Palavra do que o
incomparável privilégio de gerá-Lo no tempo.
Por que
morreu a Mãe da Vida?
Transcorrida sua vida nesta terra, o que aconteceria com
nossa Mãe? Ela, que havia dado à luz, alimentado e protegido o Menino-Deus, e
recebido em seus braços virginais o Corpo dilacerado de seu Filho e Redentor,
estava prestes a exalar o último suspiro. Como poderia passar pelo transe da
morte aquela Virgem Imaculada, nunca tocada pela mais leve sombra de qualquer
falta?
Sem embargo, como o suave declinar do sol num magnífico
entardecer, a Mãe da Vida rendia sua alma. Por que morria Maria? Tendo Ela
participado de todas as dores da Paixão de Jesus, não quis deixar de passar
pela morte, para em tudo imitar seu Deus e Senhor.
De que morreu
Maria?
À alma santíssima de Maria, concebida sem pecado original e
cheia de graça desde o primeiro instante de sua existência, correspondia,
portanto, um organismo humano perfeitíssimo, sem o menor desequilíbrio.
Em consequência de sua virginal natureza, Nossa Senhora foi
imune a qualquer doença, e jamais esteve sujeita à degenerescência do corpo
causada pela idade .
De que morreu, pois, a Mãe de Deus?
O termo da existência terrena de Maria deveu-se à “força do
divino amor e ao veemente desejo de contemplação das coisas celestiais, que
consumiam seu coração” (3).
A Santíssima Virgem morreu de amor!
“Finalmente, após tantos vôos espirituais, tantos
arrebatamentos e tantos êxtases, aquele castelo santo de pureza e humildade
rendeu-se ao último assalto do amor, depois de haver resistido a tantos. O amor
A venceu, e consigo levou sua benditíssima alma” (4).
Essa morte de Maria, suave e bendita como um lindo
entardecer, a Igreja a designa
pelo sugestivo nome de “dormição”, para significar que seu corpo não sofreu a
corrupção.
A verdade desta glorificação única e completa da Santíssima
Virgem foi definida solenemente como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, no dia 1º
de novembro de 1950, com estas belas palavras:
“Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de
termos invocado a luz do Espírito de verdade, para a glória de Deus onipotente
que à Virgem Maria concedeu sua especial benevolência, para a honra de seu
Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento
da glória de sua augusta Mãe e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a
autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro
e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos que: A
Imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida
terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial. ( Revista Arautos do Evangelho Agosto 2004)
1) SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.III,
c.7, nil. In: Obras. 6.ed. Madrid: BAC, 1974, v.11, p.142.
2) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.12,
al; 3.
3) Cf. GOMA
Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Introducción, Infancia y vida oculta
de Jesús. Preparación de su ministerio público. Barcelona: Rafael
Casulleras,n1930, v.1, p.318; TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, vV,
p.759; FERNANDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Madrid:
BAC, 1954, p.22-24.
4) NICOLAS,
Auguste. La Vierge Marie d’après l’Évangile. Paris: Auguste Vaton, 1857, vII, p.222.
5) Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO, op. cit.,
q.5, a.4, ad 2.
6) WILLAM, Francisco Miguel. Vida de
Maria, Mãe de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1940, p.85.
7) SANTO AMBROSIO. Tratado sobre el Evangelio de San
Lucas. L.II,
n.19. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, v.1,
p.96.
8) MONSABRE,
OP. Jacques-Marie-Louis. Petites méditations pour la récitation du Sainte
Rosaire. 20.ed. Paris: Lethielleux, 1924,
p.90.
9) Cf. SANTO AMBRÓSIO, op. cit., n.23,
p.97; CAMPANA, Émue. Marie dans le Dogme Catholique. Montréjeau: J.-M. Soubiron, 1913, t.III,
p.91; NICOLAS, op. cit., p.228; CASCIARO, José María et al. (Org.). Notas. In: NUEVO TESTAMENTO. 2.ed. Pamplona:
Eunsa, 2008, p.382; MARQUES, José A. Comentário a Le 1, 44. In: SANTOS
EVANGELHOS. Braga: Theologica, 1994, p.718.
10) Cf. GARRIGOU-LAGR4NGE, OP, Réginald. La Mère du Sauveur et
notre vie intérieure. Paris: Du Cerf 1954, p.34-35.
11) CAMPANA,
Emile. Marie dans le Dogme Catholique. Montréjeau: J.-M. Soubiron, 1912, t.I,
p.296.
12) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit.,
q.20, a.2.