Continuação dos comentários ao Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 1, 29-39
O papel da virtude da temperança
Para remediar, de
certa forma, a perda do dom de integridade que o homem possuía no Paraíso e os
inevitáveis sofrimentos que desta privação se seguiram, existe uma virtude que,
introduzida na alma com o cortejo de todas as demais que nos são infundidas no
Batismo, se caracteriza como uma das quatro virtudes cardeais: a temperança.
Ela “indica certa moderação ou comedimento imposto pela razão às ações e
paixões humanas ... [E] ocupa-se, prioritariamente, com as paixões tendentes aos
bens sensíveis, a saber, os desejos e os prazeres e, consequentemente, com as
tristezas decorrentes da ausência desses bens”.4
Ela é, pois, a
virtude que equilibra os estados de espírito e dá ao homem o bem-estar e a
felicidade em meio à dor, ou o autocontrole na euforia da alegria. Assim, ela
confere à alma um extraordinário domínio sobre si.
Em meio às dores, Jó busca seu consolo em Deus
Estes ensinamentos
nos preparam para melhor compreendermos a Liturgia do 5Q Domingo do Tempo
Comum, cuja primeira leitura (Jó 7, 1-4.6-7) é um expressivo trecho do Livro de
Jó.
A bela história deste
varão justo nos conta que tendo satanás se apresentado diante do Todo-Poderoso,
perguntou-lhe este último se vira Jó, seu servo, “íntegro, reto, temente a
Deus, afastado do mal” (Jó 1, 8); e o demônio respondeu que aquelas virtudes se
deviam ao fato de Jó não ter sido ainda tentado, O Senhor, então, o autorizou a
tratar Jó como quisesse, fazendo, no entanto, esta ressalva: “poupa-lhe apenas
a vida” (Jó 2, 6). A provação de Jó foi, pois, permitida pelo Altíssimo, mas
promovida diretamente pelo demônio. Em consequência, ele perdeu seus dez
filhos, todas as suas propriedades e animais, e adquiriu uma tremenda “lepra
maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça” (Jó 2, 7). Em situação
tão dolorosa, Jó sentou-se sobre cinza e raspou com um caco de telha suas
múltiplas feridas (cf. Jó 2, 8).
E houve pior: perdeu
o apoio de seus círculos sociais, os amigos interpretaram seu infortúnio como
um castigo, julgando ter-se desviado dos Mandamentos do Senhor, e a própria
esposa, ao invés de ampará-lo, tomou partido contra ele. Completamente isolado,
não podendo abrir sua alma nem sequer com aqueles que o rodeavam, sentia-se
abandonado por Deus, sem saber qual era o motivo. Por isso Jó tem esta exclamação,
recolhida pela primeira leitura: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a
Terra?” (Jó 7, 1). Em seguida, narrou suas dores com imagens vivas, muito
características dos orientais: “tive por ganho meses de decepção, e couberam-me
noites de sofrimento. [...] E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me
encho de sofrimentos até ao anoitecer. Meus dias f...] se consomem sem esperança”
(Jó 7, 3-4.6).
Não obstante, Jó não
caiu no desespero, mas com confiança procurou o seu consolo onde, de fato, o
encontraria: em Deus! “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus
olhos não voltarão a ver a felicidade!” (Jó 7, 7). Se ele invocou o Senhor, foi
porque sua alma dispunha de um recurso para se sustentar: a virtude da
temperança... Ele era temperante.
II - A AÇAO DE JESUS RESTABELECE A ORDEM, O EQUILÍBRIO E A PAZ
No Evangelho de hoje nos
deparamos com Jesus curando primeiramente a sogra de Pedro e, depois, aliviando
de seus males uma multidão que cercara a casa onde Ele Se hospedava. Haverá
nisto uma contradição? Agia assim Nosso Senhor porque achava que a dor deveria
ser eliminada? Analisemos o texto de São Marcos em busca de uma resposta.
Naquele tempo, 29 Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago
e João, para a casa de Simão e André. A
sogra de Simão estava de cama, com febre...
O Divino Mestre começara
havia pouco seu ministério público, e já vemos como este era exaustivo. Indo,
com Tiago e João, da sinagoga para a residência de Simão e André, dir-se-ia que
ali era um lugar onde Ele poderia estar à vontade, retirado do fluxo das
pessoas; mas não, a sogra de Pedro “estava de cama, com febre”, e Jesus, sempre
solícito em fazer o bem a todos, não Se deteve para descansar e logo foi até
ela.
A febre das paixões
Sabemos que quem está
com febre muito alta, em geral perde o controle de si, isto é, a capacidade de
ter sua “alma nas mãos” — “Anima mea in manibus meis semper” (Sl 119, 109) —,
porque ela lhe tolhe, inclusive, a possibilidade de bem usar a virtude da temperança,
Os Padres da Igreja comentam ser esta febre física da sogra de Pedro um símbolo
das paixões. “Nesta mulher” — escreve Santo Ambrósio — “{...] estava figurada
nossa carne, enferma com as diversas febres dos pecados, e que ardia em
transportes desmesurados de diversas cobiças”.5 São Jerônimo coincide com este
pensamento: “Cada um de nós está acometido de febre. Quando me deixo levar pela
ira, padeço de febre. Quantos vícios há, tanta é a diversidade de febres”.6 E
São Rábano Mauro acrescenta: “Toda alma que vive sob o domínio da
concupiscência da carne encontra-se como
quem padece febre”.7
A febre espiritual
prende à cama o febricitado, tornando-o inútil para o trabalho e incapacitado
de agir, porque todo o seu ser está aplicado na inclinação para o mal, ansioso
de volúpia e, deste modo, falta-lhe o ânimo para servir a Deus e aos outros.
Quantas pessoas passam a ser relapsas em seu apostolado por terem perdido a
noção da grandeza da vocação, enquanto o dinamismo de sua alma está direcionado
numa paixão desenfreada! Sim, pois quando alguém é chamado aos horizontes amplos
e profundos da luta pela derrota do império de satanás na face da Terra e não
corresponde a este apelo, acaba se dedicando às mais ínfimas e desprezíveis ninharias,
e com isto consegue abafar sua consciência...
O Divino Mestre toma a iniciativa
30b ...e eles logo contaram a Jesus. 31a E Ele Se
aproximou...
É de se notar que
Nosso Senhor foi advertido sobre o estado da sogra de Pedro, na esperança de
que operasse um milagre. Não era preciso que Lhe dissessem, pois Ele já sabia
do fato desde toda a eternidade e podia, com sua autoridade absoluta,curá-la à
distância. Mas Ele Se colocou à mercê de uma simples insinuação — uma vez que, para
não importuná-Lo nem sequer formularam o pedido — e não negou. Antes, dado que era
amigo daquela família e pelos vínculos que O uniam a São Pedro, dispôs-Se a
ajudar; ouvindo a notícia, tomou logo a iniciativa. Tal é o convívio social
entre os homens que se estimam.
Naquela época,
conforme as normas judaicas — e até dos povos pagãos —, era um absurdo qualquer
homem entrar no quarto de uma senhora acamada, mesmo sendo ela idosa. Por sua
missão de curar, porém, Nosso Senhor rompeu este severo costume e “Se
aproximou».
Da nossa parte, ao
observarmos alguém com as paixões em ebulição, seguindo por um caminho indevido,
não nos alegremos com o mal alheio! Temos a obrigação de “contar a Jesus” e
Implorar-Lhe que o
cure. Se intercedermos pelos outros, o Senhor Se achegará a eles.
A mão de Jesus está sempre estendida para nos curar
31b ...segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se
Quiçá alguns dos
presentes imaginassem que o Salvador apenas fosse fazer uma visita à doente, a
fim de alentá-la um pouco. Qual não terá sido a grande surpresa de todos quando
a tomou pela mão, e ela, antes ardendo em febre, se sentiu com nova energia e
se levantou! Tocou-a porque queria deixar bem claro ser Ele o Autor desta cura,
e não, por exemplo, um espírito, segundo as superstições que circulavam entre aquela
gente. Se Ele, de longe, se limitasse a ordenar “Levanta-te”, eles talvez
duvidassem.
De igual modo, esta
divina mão que segurou a da sogra de Pedro está sempre estendida à nossa
disposição! Sim, Nosso Jesus Cristo trata com consideração e afeto aqueles que abertura
de alma e não Lhe opõem obstáculos, e está pronto a entrar na casa onde estivermos
prostrados por qualquer enfermidade, para atender a cada um, como se só este
existisse. Quantas misérias, debilidades e caprichos pesam em nosso interior!
Apesar disto Ele não tem repulsa de nós e nunca retira a mão, por pior que seja
nossa situação. Eis a confiança que devemos ter: tudo pode ser resolvido por
Aquele que nos dá a mão!
A energia para servir a Deus vem d’Ele
31c Então a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
Depois de ser curada,
logo a sogra de Pedro “começou a servi-los”. Ora, tal era o desprezo pela
mulher naqueles antigos tempos, que jamais eia poderia servir à mesa dos
hóspedes.8 Esta função estava reservada aos escravos ou empregados. Nosso Senhor,
contudo, permite ser assistido por esta senhora, para dar a entender que trazia
costumes sociais inéditos. Homem-Deus, Ele vinha marchando contra a corrente e
invertendo a mentalidade arrogante e vexatória que reinava, não só em Israel,
mas também entre os gregos, romanos e demais povos.
Tão instantânea foi a
cura, que parecia não ter a sogra de Pedro padecido o menor incômodo. O mesmo
acontece quando alguém, atormentado pela febre de suas paixões, “segura a mão”
de Jesus: a inanição e o abatimento vão desaparecendo e o ânimo lhe é
infundido. Isto mostra também como a energia para o exercício de uma missão
sobrenatural ou para defender uma causa justa provém de Deus. Portanto, nunca
nos assalte a insegurança; se nossos objetivos estiverem voltados para a eternidade,
teremos a força, o impulso e a sustentação que nos levará adiante, até o fim.
Grande vantagem
haverá se evitarmos pensar na vida passada. O Evangelho não refere nenhuma
palavra da miraculada sobre o período em que ficara de cama. Não, o Mestre
estava ali e ela pôs-se a trabalhar! Já não se importava com a febre nem com a
doença, tudo fora esquecido.
Procuremos o tabernáculo!
32 À tarde, depois do pôr do Sol, levaram a Jesus todos
os doentes e os possuídos pelo demônio.
A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34a Jesus curou muitas
pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios.
Se São Marcos — tão
sintético e até um tanto minimalista — escreveu “a cidade inteira”, é prova de
que foi assim. Grandes comentaristas 9 são concordes em que a expressão
“muitos”, usada por ele, significa que Nosso Senhor atendeu a todos.
A fama de Jesus se
espalhara e cada um queria ter um contato com Ele para receber algum benefício.
Bem podemos imaginar a cena do povo gritando e implorando o auxílio do Divino Taumaturgo.
E Ele, calmo e sublime, devolvia a saúde a numerosos cegos, coxos, paralíticos,
leprosos, febris, sem ignorar um só...
Quanto aos possessos,
lembremo-nos de que são aqueles cujo corpo está tomado pelo demônio — ou, em
certos casos, por grande número destes —, de maneira que perdem o domínio de
si. Impossibilitados de se governarem, como na metáfora usada no precedente
comentário ao Evangelho do 4º Domingo do Tempo Comum, assemelham-se a um
automóvel controlado por um assaltante, enquanto o chofer — isto é, a alma — é
empurrado para um canto do veículo. Os possessos se encontram, por conseguinte,
num estado de desequilíbrio e desordem. Também a eles o Senhor libertou e não
restou sequer um demônio a ser expulso.
Quantas vezes nós, em
lugar de circundar a casa onde está Jesus, como fizeram os habitantes de
Cafarnaum, nos fechamos em nós mesmos, dando ao demônio oportunidade de
dialogar conosco todo o tempo que lhe aprouver. Se, pelo contrário, procurarmos
Jesus no tabernáculo, o tentador se manterá à distância e obteremos aí a
solução para nossas dificuldades.
Tal é o legado que
nos deixam os Santos. São Tomás de Aquino, por exemplo, quando, em meio à
composição de suas obras. precisava resolver um problema especialmente árduo,
interrompia o trabalho, punha a cabeça junto à parede do sacrário e ali
permanecia até elucidar a questão Ele mesmo — homem inteligentíssimo, que
citava de memória as Sagradas Escrituras – assegurava ter aprendido muito mais
na adoração ao Santíssimo Sacramento ou aos pés do Crucifixo do que em todos os
estudos realizados ao longo da vida.11
O demônio não pôde anunciar oEvangelho
34b E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam
quem Ele era.
Dir-se-ia convir a
Nosso Senhor que os demônios fizessem propaganda d’Ele, pois contribuiriam para
incrementar sua fama. Entretanto, Ele os impedia de falar
por duas razões: primeiro, porque não queria o demônio no papel de apóstolo,
uma vez que este último tem de ser santo e viver o que prega, enquanto os
espíritos maus devem ser lançados fora, sem tardança; segundo, porque visava
preparar as multidões para sua futura Paixão. Com efeito, mandando calar os
demônios sobre “quem Ele era”, os presentes se perguntariam por que dava tal
ordem e logo perceberiam que era por haver gente odienta, desejosa de matá-Lo. Isto
os dispunha para compreender o martírio da Cruz.
Uma lição de desapego e seriedade em face da própria missão
35 De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus Se
levantou e foi rezar num lugar deserto, 36 Simão e seus companheiros foram à
procura de Jesus, Quando O encontraram,
disseram: “Todos estão Te procurando”, 38a Jesus respondeu: “Vamos a outros
lugares, às aldeias da redondeza!”
Segundo o conceito de
quem é vaidoso, aquela seria a hora de sorver todo o sucesso do dia anterior.
Mas Jesus, levantando-Se de madrugada, foi até um lugar solitário para rezar,
porque Ele, em sua humanidade justíssima, não Se blasonava nem Se deixava
dominar por nenhuma paixão.
Os Apóstolos, logo
que acordaram, saíram a buscá-Lo, numa atitude própria a servir de modelo para
nós: sempre procurar Cristo onde Ele estiver. Todavia, suas palavras, ao encontrá-Lo
refletem o anseio de tirar proveito da situação e seus sonhos de conquista. Eles
estavam deslumbrados por uma miragem criada a propósito dos milagres operados
pelo Mestre e, depois do primeiro flash vocacional e religioso, haviam passado
a vê-Lo por um prisma político. Ante o êxito alcançado em Cafarnaum, cidade muito
central, cheia de animação e comércio, queriam “industrializar” a Nosso Senhor
e pretendiam organizar um grande movimento de Opinião pública para tomar conta
do poder, restaurar a supremacia dos judeus sobre os outros povos e mudar a história
de Israel. Mas, contrariamente a seus anelos, e para além de toda previsão — de
maneira a não ser controlado por aqueles discípulos por demais terrenos —, Jesus
decidiu partir
Da populosa Cafarnaum
para os arrabaldes. Deste modo os educava a aceitarem ir qualquer parte, sem se
demorar para sugar os triunfos. Que lição de desapego e de governo das paixões!
Como lhes era difícil conformar-se a estas novas perspectivas!
Além disso, tendo já
cumprido ali seu ministério Jesus ansiava por estar em contato com todos, pois
para todos viera, mostrando, neste detalhe, a responsabilidade e a seriedade
com as quais cada um deve encarar sua missão específica.
Uma açâo sumamente temperante
38b “Devo pregar também ali, pois foi para isso que Eu
vim”. 39 E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando
os demônios.
Nos episódios
narrados neste Evangelho vemos Nosso Senhor Jesus Cristo — a Temperança e a
Santidade em essência — exercer uma ação sumamente temperante através da cura e
do exorcismo, restabelecendo nas almas aflitas a ordem, o equilíbrio e a paz. E
pelo instrumento de sua divina palavra transmitia a verdade da Revelação, punha
de manifesto o valor da virtude da temperança e promovia a sua prática.
A palavra, quando bem
empregada e proferida segundo o sopro do Espírito Santo, possui uma força
exorcística extraordinária para harmonizar o espírito com Deus. Por exemplo,
sempre que alguém faz
um juízo errado a respeito de si ou dos outros, seja superestimando-se seja
recriminando-se de forma autodestrutiva — ambos grandes e perigosos desatinos —,
o conselho de um companheiro ou de um superior, que analisa de fora e com maior
rapidez e precisão, poderá conferir estabilidade à alma. Deus assim dispôs para
que nosso instinto de sociabilidade sinta mais estímulo para se aplicar na
ajuda ao próximo e haja mais facilidade no convívio.
Um exemplo de prática desta virtude cardeal
A temperança é a
virtude que mais caracteriza os Santos. Abandonados às mãos de Deus, aceitam
que sua vontade se faça neles em tudo: se lhes sobrevém um tormento, como o de
Jó, abraçam-no; se uma excelente notícia cheia de alegria lhes é anunciada, recebem-na
sem nenhuma euforia desenfreada ou febricitada
Neste sentido, o
Autor destas linhas teve, em certo momento de sua existência, a oportunidade de
conhecer a virtude da temperança, vivida com brilho e com facetas pouco comuns,
na pessoa do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Diante de uma informação grave,
ele era capaz de tomar providências urgentes e, depois, sentar-se para jantar,
evitando qualquer conversa a respeito do caso previamente tratado, discorrendo
então com toda a calma sobre temas doutrinários, atinentes à consideração das
realidades mais elevadas e sublimes. Terminada a refeição, bem como suas
orações, interessando-se pela matéria que antes o preocupava, logo retornava às
atividades cotidianas e, se necessário fosse, as prolongava até altas horas da
madrugada. Por fim, ao concluí-las, conciliava o sono com a mais completa tranquilidade.
A cada instante, no dia a dia, se podia observar esta mesma nota tônica de
placidez que lhe dava a faculdade de passar dos assuntos mais dramáticos a outros
suaves e serenos, sem o menor sobressalto, com inteiro domínio de si próprio.
III – ONDE ENCONTRAR O VERDADEIRO REMÉDIO PARA A DOR?
Os pensamentos que a Liturgia
nos sugere, neste dia, encontram a clave num dos versículos do Salmo Responsorial:
“O Senhor Deus é o amparo dos humildes” (Sl 146, 6). De fato, aos humildes,
àqueles que praticam a temperança — virtude alheia aos orgulhosos — e se
submetem à correção, à mortificação e à dor, cedo ou tarde Deus os haverá de atender
e amparar.
Quando permitiu ao
demônio atormentar Jó, Deus queria que aquele varão justo crescesse ainda mais
na temperança e, portanto, na santidade, para, em seguida, cumulá-lo de méritos
e outorgar-lhe em maior grau a participação na vida divina. Entendemos, então,
quanto as tribulações que nos atingem são, no fundo, permitidas por Deus, em vista
de uma razão superior Ele não pode promover o mal para a nossa alma, e assim
age porque nos ama e deseja dar-nos muito mais do que já deu. E porque é bom ao
mesmo tempo que consente as adversidades. Ele nos conforta, como sublinham mais
alguns versículos do Salmo Responsorial: “Louvai o Senhor Deus, porque Ele é
bom, […] Ele conforta os corações despedaçados, Ele enfaixa suas feridas e as
cura (Sl 146, 1.3)
Ao Se debruçar sobre
a sogra de Pedro e fazer-lhe desaparecer a febre, ou ao sanar a multidão
afligida por enfermidades e tormentos, Nosso Senhor não visava ensinar que a
dor deva ser eliminada. Pelo contrário, tanto a considerava um benefício para o
homem, que Ele mesmo abraçou a via dolorosa e a escolheu também para sua Mãe.
Nestes milagres — como em incontáveis outros operados durante sua atuação
pública — Ele devolveu a saúde para deixar uma lição aos Apóstolos, aos
circunstantes e aos próprios enfermos: a luz está n’Ele, a vida está n’Ele, a
solução da dor provém d’Ele! Mais adiante, na iminência de ressuscitar Lázaro,
Ele dirá: “Eu sou a Ressurreição e a Vida!” (Jo 11,25).
Abracemos a dor com os olhos fixos na Cruz de Cristo
Hoje somos convidados
a aceitar a dor como uma necessidade, e a compreendê-la como um elemento
fundamental para o equilíbrio da alma, a fim de ela não mais se apegar às
criaturas e chegar à plena união com Deus. Se nos sentirmos inclinados a pedir-Lhe
que faça cessar alguma dor, rezemos com confiança, certos de sermos ouvidos;
porém, se recebermos a inspiração de suportar com resignação a adversidade —
seja eia uma doença, uma provação ou uma simples dificuldade , roguemos a Ele que
nos dê as forças imprescindíveis para viver com alegria, da qual Ele mesmo deu
exemplo, juntamente com sua Santíssima Mãe. Sobretudo, não cedamos à má
tristeza, aquela que produz o desânimo, e mantenhamos no fundo da alma a determinação
de cumprir a vontade de Deus; aí, sim, virá a paz.
Em certa ocasião,
estava o Autor à espera de ser atendido numa sala de hospital, por se encontrar
em situação de grave risco de vida, quando chegou uma pobre mulher gritando e
se lamentando, provavelmente acometida de forte indisposição. Então lhe disse:
“Senhora, pense um pouco, ambos estamos sofrendo; mas o que são nossas
amarguras em comparação com a de Nosso Senhor Jesus Cristo? Por amor a nós Ele
Se deixou matar como um cordeiro e não soltou sequer um gemido no alto da Cruz!
Façamos companhia a Ele nesta nossa tribulação e ofereçamos nossas dores para
consolá-Lo”. Ela fechou os olhos, conteve as lágrimas e recuperou a calma. A
lembrança dos sofrimentos do Redentor ao longo da Paixão é um lenitivo extraordinário
para as nossas dores.
O Inocente, Aquele
cuja natureza humana está unida à natureza divina na Pessoa do Verbo, chegou a
exclamar antes de expirar: “Eli, Eli lammá sabactáni — o que quer dizer: Meu Deus,
meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46). Misteriosamente — de maneira
que nossa razão não alcança —, Ele padeceu em sua Alma aquele sentimento do
abandono, “pela carência de toda classe de alegria e consolo que mitigasse as amargas
penas e a tristeza da Paixão”.12 Por quê? Porque o Pai queria para Ele toda a
glória!
A via que Deus traçou
para Maria Santíssima, a Mater Dolorosa — criatura puríssima, sem mancha alguma
de pecado original —, foi também a da dor, como já afirmamos. Ao apresentar o
Menino Jesus no Templo, Ela ouviu dos lábios de Simeão uma profecia, segundo a
qual uma espada traspassaria sua alma (cf. Lc 2, 35); em seguida, tendo de
fugir com o Divino Infante para o Egito, e, mais tarde, ao perdê-Lo durante
três dias em Jerusalém, suas angústias foram se prolongando até culminarem no
Calvário. E mesmo após as alegrias da Ressurreição, Ela permaneceu ainda quinze
anos aqui na Terra na ausência de seu Filho... Sofrimento contínuo, que fez
d’Ela a Corredentora, pois, enquanto para todos nós o consolo em meio às
aflições consiste em considerar Cristo na Cruz, para Ela — segundo afirma com muito
acerto Santo Afonso de Ligório13 —, a contemplação da Paixão não Lhe trazia
alívio algum, por ter sido esta a própria fonte de suas dores.
Peçamos a Nosso
Senhor Jesus Cristo, que todos os dias Se imola de forma incruenta no Santo
Sacrifício do Altar, que derrame, por intermédio de Nossa Senhora, torrentes de
graças sobre nós, a fim de nos convencermos dos benefícios da dor e, assim, a
enfrentarmos com elevação de espírito e olhos fixos na sua Cruz.
1 Cf. PIO XI.
Miserentissimus Redemptor, n.5; LYONNARD, SJ, Jean. El apostolado dei
sufrimiento o ias víctimas voluntarias para ias necesidades actuales de la
Iglesia. Madrid: Viuda e Hijo de Aguado, 1887, p.7.
2 CCE 1500-1501.
3 CCE 1435.
4 SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Suma Teológica. II-IT, q.14l, a.2; a.3.
5 SANTO AMBRÓSIO Tratado sobre el Evangelio de San
Lucas. L.IV n.63. In:
Obras. Madrid:
BAC, 1966, v.1, p.221.
6 SÃO JERÔNIMO.
Tratado sobre el Evangelio de San Marcos. Homilía 11(1,13-31). In: Obras
Completas. Obras Homiléticas. Madrid: BAC, 1999, v.1, p.849.
7 SÃO RÁBANO MAURO.
Commentariorum in Matthceum. LIII, c.8: ML 107, 861.
8) Cf. WILLAM, Franz Michel. A
vida de Jesus no país e no povo de Israel. Petrópolis: Vozes, 1939. p.134.
9) Cf. TUYA, OP
Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V. p.635;
LAGRANGE OP, Marie-Joseph. Evangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: Lecoffre; J. Gabalda, 1929,
p.26.
10 Cf PETITOT, OP, L. H. La vida integral de Santo
Tomás de Aquino. Buenos Aires: Cepa. 1941. p.147; GOMA Y TOMAS, Isidro. Santo
Tomás de Aquino: época, personalidad. espíritu. Barcelona: Rafael Casulleras,
1924, p.79.
11 Cf. JOYAU. OP, Charles-Anatole. Saint Thomas
d’Aquin. Tournai: Desclée; Lefebvre et Ci’. 1886, p.162-163.
12) SUÁREZ, SJ, Francisco. Disp.38, sec.2, n.5. In:
Misterios de la Vida de Cristo. Madrid: BAC, 1950, v.11, p.154.
13) Cf. SANTO AFONSO
MARIA DE LIGORIO. Glórias de Maria. 2.ed, Aparecida: Santuário, 1987,
p.364-365.