CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR Lc 23, 1-49 Ano C 2013
Nosso Senhor estava derrotando o mal
Os indiferentes e os tíbios, pretendendo pertencer ao número
dos bons, estavam cegos de alma por sua própria atitude, a ponto de não
perceberem que Nosso Senhor, em sua Via Dolorosa, alcançava o maior dos
triunfos. Também os adversários do bem, com a vista turva de ódio, não se davam
conta de que aceleravam sua própria ruína. “Ó morte onde está a tua vitória? Ó
morte onde está teu aguilhão?” (I Cor 15, 55), indaga desafiante o Apóstolo.
Morrendo na Cruz, o Divino Redentor vencia não só a morte mas também o mal, e
deixava fundada sobre rocha firme uma instituição divina, imortal — a Santa
Igreja Católica, seu Corpo Místico e fonte de todas as graças —, que
enfraqueceu e dificultou a ação da raça da serpente, privando-a do poder
esmagador e ditatorial que exercera sobre o mundo antigo.
Causa-nos júbilo saber que a aparente catástrofe da Paixão e
Morte de Nosso Senhor marca a irremediável e estrondosa derrota de satanás.
Este, insuflando os piores tormentos contra Jesus, iludia-se, julgando que
caminhava para um êxito extraordinário contra o Bem encarnado. Em sua loucura
não percebia como estava contribuindo para a glorificação do Filho de Deus e
para a obra da Redenção.
Que glória, que triunfo, que fastígio atingira Nosso Senhor
Jesus Cristo com sua Paixão! Que humilhação nos infernos, esmagados pelo erro
de ignorar a força invencível do Bem!
A solução para o problema do mal
Na meditação da Liturgia do Domingo de Ramos encontramos o
fiel da balança para o problema da luta entre o bem e o mal. Com a Encarnação,
Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, o mal sofreu sua derrota definitiva,
porque passou a vigorar sobre a face da Terra o regime da graça. Foi este o
meio determinado pela Sabedoria Divina para acabar com a vitalidade e o
dinamismo da linhagem de satanás, o qual, inconformado, tudo faz para se
vingar; por isso a luta entre o bem e o mal continua sem tréguas, hoje mais do
que nunca.
Quanto a nós, católicos, não podemos ignorar tal realidade,
na qual, aliás, estamos envolvidos. E devemos estar muito atentos para um
aspecto de suprema importância: esse embate se trava também dentro de nós. Da
mesma forma como no Paraíso Terrestre existia a serpente, em nosso interior há
serpentes que fazem um trabalho muito mais ladino do que o demônio com Eva. São
nossas más tendências, em virtude do pecado original, sempre de tocaia,
esperando uma oportunidade para nos arrastar para o partido dos tíbios e
indiferentes. Nessa batalha interna cabe-nos manter o mal amordaçado e
humilhado, e dar ao bem toda a liberdade, o que só podemos alcançar com a graça
de Deus.
Certo é que, quanto mais progredirmos na virtude, mais poderá
se levantar contra nós uma acirrada oposição do poder das trevas. Dois mil anos
de História da Igreja nos mostram com que facilidade essa oposição se
transforma em ódio e em perseguição. Não temamos, entretanto, o que nos possa
advir, certos de que, como diz São Paulo, “todas as coisas concorrem para o bem
daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios”
(Rm 8, 28). Avancemos, pois, seguros, com os olhos fixos n’Aquele que “se
manifestou para destruir as obras do demônio” (I Jo 3, 8), pois quem é o diabo
perto de Nosso Senhor?
O mal é limitado, o bem é intinito
Como ensina a filosofia perene, o mal é uma ausência de bem.9
O mal absoluto não existe, ao contrário do que pretendem as correntes
dualistas. Sendo, pois, uma mera negação do bem, por si só não tem força para
derrotá-lo.’10 Deus é o Sumo Bem, o Bem em essência, e quem se unir com
integridade a Ele, portanto, se tornará invencível, como que revestido da
própria onipotência divina.
Destas reflexões, nascidas da Liturgia que abre a Semana Santa,
devemos tirar uma lição para os nossos dias, em que o mal e o pecado campeiam
com arrogância pelo mundo inteiro: da luta entre o bem e o mal resulta necessariamente
a vitória do bem, de mo do que, cedo ou tarde, os justos serão premiados e “farão
brilhar como uma tocha a sua justiça” (Eclo 32, 20). No momento em que uma
parte ponderável da humanidade vira as costas a seu Criador e Redentor, somos
chamados a crer com firme confiança que, como Nosso Senhor triunfou outrora
contra todas as aparências de derrota, triunfará de novo restabelecendo a
verdadeira ordem: “No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra”
(Sl 129, 5).