Continuação dos comentários ao Evangelho – IV domingo da Páscoa - Bom Pastor Jo, 27-30 - Ano - C 2013
O
pensamento de Platão
É interessante notar que Platão — em quem a
Escolástica sorveu muitos ensinamentos, purificando-os do que havia de
panteísmo —, ao desenvolver seu pensamento sobre a dialética do amor, diz que
esta chega à sua plenitude ao contemplar “essa beleza isenta de acréscimo e de diminuição,
beleza que não é bela numa parte e feia noutra, bela só em tal tempo e não em
tal outro, bela em certo sentido e feia em tal outro, bela num lugar e feia
noutro, bela para uns e feia para outros… Beleza que não reside num ser
diferente de si mesma, num animal, por exemplo, ou na terra ou no céu ou em
qualquer outra coisa, mas que existe eterna e absolutamente por si mesma e em
si mesma; da qual participam todas as demais belezas, sem que o nascimento ou a
destruição delas lhe ocasione a menor diminuição ou o menor acréscimo, nem a
modifique em coisa alguma” (Banquete, 211 C).
Ambientação da Cena de hoje
Antes de entrarmos na análise
dos quatro versículos que constituem o Evangelho deste quarto Domingo da
Páscoa, relembremos em rápidos traços o contexto histórico de onde eles surgem.
Anualmente, cerca de dois meses
após o término da festa dos Tabernáculos, por volta do fim de dezembro do nosso
calendário, os judeus celebravam outra festa, a da Dedicação. Desde o ano 165
a.C. havia sido ela estabelecida, a partir da purificação do Templo levada a
cabo por Judas Macabeu, após as profanações promovidas por Antíoco Epifanes
(cf. 1 Mac 4, 36-59).
Nessa época, o Salvador contava
seus trinta e dois anos de idade. Estaria Ele portanto, ingressando no último
período de sua vida pública. Era uma manhã de inverno e já bem cedo Se
encontrava Ele no Pórtico de Salomão, edificado com alvíssimas pedras. Nessa
parte exterior do Templo, na face oriental, Jesus estava à espera de
constituir-se uma assembleia de ouvintes. Em pouco tempo juntou-se em torno
d’Ele uma grande multidão. Desta não podiam estar ausentes seus inimigos.
A fama de Jesus se espalhara
rapidamente, sobretudo por causa dos numerosos milagres e da magnitude deles.
Talvez pelo fato de, bem naqueles dias, ter Ele curado dez leprosos, os
fariseus imploravam uma declaração taxativa sobre sua identidade: era ou não o
Messias? À primeira vista, o pedido deles parece, não só razoável, mas até
mesmo afetuoso. Entretanto, a Jesus ninguém engana. Quantas vezes, ao longo da
História da Igreja, ímpios e hereges se serviram dos mesmos pretextos daqueles
fariseus! Não era de clareza nem de evidência que necessitavam, mas, sim, de
boa fé, docilidade e humildade.
Os fariseus se obstinavam na rejeição a Jesus
Temos tornado claro, em
anteriores comentários, o quanto os judeus — especialmente os fariseus — concebiam
o Messias de forma equivocada. Viam-No como um conquistador político e militar,
um libertador do domínio, até mesmo sob o aspecto financeiro, do Império ao
qual estavam subjugados; ademais, deveria Ele conferir aos seus co-nacionais
toda a glória e a supremacia universal. Os que consideravam no Messias a
exclusividade dos aspectos religiosos, d’Ele esperavam a força para obrigar à
conversão e à prática da Lei (na qual, segundo seus fanáticos critérios,
encontrava-se a mais alta santidade) todas as outras nações.
Ora, Jesus era, sim, o Messias
esperado, mas muito diferente dessa distorcida concepção. Ele é o Filho
Unigênito do Pai, Deus e Homem verdadeiro; seu Reino não é deste mundo... “Veio
para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 11). Exceção feita da
Samaritana (Jo 4, 26) e de seus discípulos, ninguém ouvira Jesus atribuir-Se
esse título, mas, na festa dos Tabernáculos, Ele não poderia ter sido mais
explícito sobre sua origem, sua natureza e até mesmo sua missão (cf. Jo 7). Por
isso Jesus afirmou já Se ter pronunciado sobre sua identidade e, apesar disso,
não Lhe terem crido (cf. Jo 10, 24-26). Os fariseus não O entenderam, porque
não se entregaram ao Messias como Ele realmente é; pelo contrário, desejavam
que o Messias Se entregasse a eles como eram, com seus caprichos e fantasias.
De nada adiantaram todos os
milagres, pregações, nem mesmo a manifestação das virtudes de Jesus para
dissolver o egoísmo pétreo e incrédulo daqueles fariseus. Para eles só havia uma
e exclusiva infalibilidade: a de suas ideias político-religiosas. Essa
obstinação não é novidade para nós neste século XXI: a História, os fatos, o
Papa, a Igreja, Nossa Senhora em Fátima, o universo, falam a uma só voz, mas, à
exceção de poucos, ninguém quer entender, ou crer...
Essa é a muralha de aço que a
Verdade tem sempre diante de si. Em geral, a Verdade de Deus exige de nós uma
renúncia feita de dor; é preciso arrepender-se e fazer penitência, como
proclamava João Batista, aspirar à perfeição, amar o bem e admirar o belo. Em uma
palavra, é indispensável ser do número das ovelhas de Jesus. E os fariseus não
o eram, por isso Ele procura ensinar-lhes não só com palavras, mas com fatos,
pois não há como negá-los. Jesus, em resposta à pergunta se Ele era o Cristo,
simbolicamente os exclui de seu Reino, pelo menos naquele momento, devido ao
vício do orgulho tão penetrado nas almas deles (cf. Jo 10, 24-26). Sentença
terrível que caberá eternamente àqueles recalcitrantes, obstinados e
empedernidos na incredulidade de seu orgulho. Essa é a opinião de Santo
Agostinho: “Disse-lhes isso porque os via predestinados à morte eterna, e não à
vida eterna que Ele lhes havia conquistado com seu sangue. As ovelhas nada mais
fazem do que crer no seu pastor e segui-Lo” (6).
Significado das palavras de Jesus
Entremos agora na análise do
Evangelho deste quarto Domingo da Páscoa.
Continua no próximo post.