Continuação dos Comentários ao Evangelho – VI Domingo de Páscoa – Jo 15, 9-17 – Ano B
II – A substância do amor de Nosso Senhor por nós
Encontra-se Nosso
Senhor no Cenáculo, dando as últimas recomendações aos discípulos, antes de
seguir para o Horto das Oliveiras, onde se daria a sua prisão.
É a despedida. “O amor
àqueles pobres discípulos, destinados a serem os executores de seu pensamento,
os continuadores de sua obra salvadora, abrasava seu Coração, mais entranhável
do que nunca; mas por enquanto — embora cheios de boa vontade —, desorientados,
consternados, trêmulos, eles nada compreendiam de seu pensamento. Todos esses
sentimentos palpitam nas declarações feitas por Jesus durante o Sermão”.3
O relacionamento entre duas Pessoas Divinas
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9a Como
meu Pai Me amou...”
Nosso Senhor acabara
de exortar os discípulos: “Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós” (Jo 15,
4). E agora Ele faz esta afirmação, simples à primeira vista — “Como meu Pai me
amou” —, mas que, considerada em sua profundidade, muito nos ajudará a ter uma ideia
mais precisa do que vem depois.
O amor do Pai pelo
Filho existe desde toda a eternidade e é inexprimível em termos humanos, porque
Ele se dá entre duas Pessoas Divinas e idênticas. “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo
14, 9), disse Jesus. Reconhecendo-Se inteiramente projetado no Filho e
comprovando o quanto Ele é idêntico a Si, o Pai só pode amá-Lo como Ele mesmo
Se ama: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti ponho todas as minhas
complacências” (Mc 1, 11).
Uma imagem humana
pode nos ajudar a compreender esse amor de identidade: a mãe quer o seu filho
porque vê nele uma imagem, um prolongamento de si mesma, e o filho quer sua mãe
por ver nela a fonte da qual proveio. Ora, o profundo vínculo natural entre mãe
e filho não passa de pálida figura do existente entre o Pai e o Filho, por ele
gerado desde toda a eternidade. Pois do relacionamento puríssimo entre duas
Pessoas Divinas que se amam reciprocamente por serem idênticas procede uma
terceira: o Espírito Santo.
A Santíssima
Trindade, mistério central da nossa fé e da vida cristã, supera por completo
nossa capacidade de compreensão. “O Pai ama seu Filho. Ele é tão belo! É sua
própria luz, seu próprio esplendor, sua glória, sua imagem, seu Verbo… O Filho
ama o Pai. Ele é tão bom e dá-Se-Lhe íntegra e totalmente, no ato gerador, com
tão amável e completa plenitude! E esses dois imensos amores do Pai e do Filho
não se expressam no Céu por meio de palavras, cantos, gritos… porque o amor,
chegando ao grau máximo, não fala, não canta, não grita; ele se expande num
alento, num sopro, que entre o Pai e Filho se torna, como Eles, real,
substancial, pessoal, divino: o Espírito Santo”.4