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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

EVANGELHO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mc 10,2-16 – ANO B

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM –ANO B –  Mc 10,2-16
Naquele tempo, 2alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4Os fariseus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!”
10Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério”.
13Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. 14Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. 16Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos. (Mc 10,2-16)
 A inocência, a eterna Lei...
Depois de restituir ao matrimônio a sua original pureza, o Divino estre ensina que a inocência deve reger o ser humano em qualquer estado de vida.
I – A Origem da instituição Matrimonial
A Liturgia do 27 Domingo do Tempo Comum nos apresenta, em palavras da Revelação, uma perfeita síntese da moral católica a respeito do matrimônio. A primeira leitura (Gn 2, 18-24), extraída do Gênesis, explica claramente por que Deus criou o homem e a mulher. Valendo-se de um recurso literário de extraordinário valor, o Autor Sagrado descreve os fatos de maneira poética e atraente, como se Deus fosse aos poucos dando-Se conta das reações de Adão e agindo em consequência.
Deus criou Adão com instinto de sociabilidade
Ao criar o primogênito do gênero humano, Deus pôs em sua alma o instinto de sociabilidade, que se manifesta pela necessidade de uma companhia e por um desejo inextinguível de amar e de ser amado. Depois de o introduzir no Jardim do Eden, disse Ele: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18a), e fez desfilar diante de Adão todos os animais — que no Paraíso lhe obedeciam’ —, a fim de que lhes desse um nome. Deus assim o fez para que o primeiro homem, extremamente equilibrado, percebesse que, embora possuidores de rica simbologia, nenhum deles era capaz de preencher sua aspiração de amar, nem estava à sua altura, enquanto criatura racional. Terminado, pois, o cortejo da fauna criada por Deus, Adão desencantou-se, porque “não encontrou uma auxiliar semelhante a ele”(Gn 2, 20), e se sentiu só.
Uma vez que chegou a esta conclusão, “Deus fez cair um sono profundo sobre Adão” (Gn 2, 21) — já que era conveniente causar-lhe surpresa — e retirou-lhe uma das costelas, da qual formou Eva. Bem poderia ter modelado outro boneco de barro, mas preferiu tirá-la dele, visando deixar patente que um era feito para o outro. Deste modo, promovia entre ambos uma união completa.2

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

EVANGELHO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B - Mc 10,2-16

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
A Sabedoria Divina desmonta uma armadilha humana
3 Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?”
Nosso Senhor é a Sabedoria Eterna e Encarnada e, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não só conhece tudo, desde toda a eternidade, como também contempla tudo num perpétuo presente, pois para Ele não há passado nem futuro. Enquanto Homem, sua Alma foi criada na visão beatífica, dotada de ciência infusa e, portanto, em constante e plena consonância com sua visão divina. Para Ele, então, não constituía novidade o fato de Lhe apresentarem tal problema. Sabendo qual era o péssimo intuito dos fariseus ao montar aquela armadilha, Jesus responde com inteira naturalidade e de modo peremptório, indo diretamente ao ponto aonde tencionavam levá-Lo. Os interpeladores, uma vez descobertos, tiveram que confessar suas intenções.
A lei positiva deformada pela casuística
4 Os fariseus responderam: Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”.
Com efeito, estava consignado por Moisés que o marido podia despedir sua mulher “por descobrir nela qualquer coisa inconveniente” (Dt 24, 1). Termos muito genéricos, que — como sói acontecer — com o tempo deram margem a numerosas controvérsias entre os estudiosos da Lei. Discutiam eles os casos em que tal concessão seria cabível, mas como não eram dotados de infalibilidade — da qual goza o Papa para não errar em matéria de Fé e de moral —, se desviaram, chegando a extremos inimagináveis nas suas interpretações e multiplicando as casuísticas até o absurdo. Alguns eram rigoristas, partidários das maiores restrições na aplicação do preceito; outros, laxistas, favoráveis a uma dissolubilidade quase sem limites do matrimônio. Estes últimos eram da opinião de que se a mulher deixasse queimar a comida, o marido já tinha motivo suficiente para repudiá-la.4 Além de ser uma insensatez que feria o próprio direito natural, a facilitação do divórcio concorria para desvalorizar cada vez mais a mulher e escravizar o homem às suas próprias paixões.
Ora, isto não condizia com o desígnio de Deus ao criar Eva da costela de Adão. Se fosse da vontade d’Ele “que o homem pudesse deixar uma e tomar outra, depois de criar um só varão teria formado muitas mulheres”,5 pondera São João Crisóstomo. Adão ficou agradado ao contemplar Eva porque viu nela o que não encontrara em nenhum dos animais, isto é, um ser racional, capaz de entrar em consonância com ele para, juntos, subirem até Deus, num mútuo aperfeiçoamento, em que as qualidades fossem “se temperando e se equilibrando umas às outras, e as virtudes comunicando umas às outras nuances harmoniosas” 6
Uma permissão motivada pela dureza de coração
5 Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento”.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

EVANGELHO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B - Mc 10,2-16

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
Naquele tempo, 2alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4Os fariseus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!”
10Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério”.
13Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. 14Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. 16Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos. (Mc 10,2-16)
A inocência, a eterna Lei...
Depois de restituir ao matrimônio a sua original pureza, o Divino estre ensina que a inocência deve reger o ser humano em qualquer estado de vida.
I – A Origem da instituição Matrimonial
A Liturgia do 27 Domingo do Tempo Comum nos apresenta, em palavras da Revelação, uma perfeita síntese da moral católica a respeito do matrimônio. A primeira leitura (Gn 2, 18-24), extraída do Gênesis, explica claramente por que Deus criou o homem e a mulher. Valendo-se de um recurso literário de extraordinário valor, o Autor Sagrado descreve os fatos de maneira poética e atraente, como se Deus fosse aos poucos dando-Se conta das reações de Adão e agindo em consequência.
Deus criou Adão com instinto de sociabilidade
Ao criar o primogênito do gênero humano, Deus pôs em sua alma o instinto de sociabilidade, que se manifesta pela necessidade de uma companhia e por um desejo inextinguível de amar e de ser amado. Depois de o introduzir no Jardim do Eden, disse Ele: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18a), e fez desfilar diante de Adão todos os animais — que no Paraíso lhe obedeciam’ —, a fim de que lhes desse um nome. Deus assim o fez para que o primeiro homem, extremamente equilibrado, percebesse que, embora possuidores de rica simbologia, nenhum deles era capaz de preencher sua aspiração de amar, nem estava à sua altura, enquanto criatura racional. Terminado, pois, o cortejo da fauna criada por Deus, Adão desencantou-se, porque “não encontrou uma auxiliar semelhante a ele”(Gn 2, 20), e se sentiu só.
Uma vez que chegou a esta conclusão, “Deus fez cair um sono profundo sobre Adão” (Gn 2, 21) — já que era conveniente causar-lhe surpresa — e retirou-lhe uma das costelas, da qual formou Eva. Bem poderia ter modelado outro boneco de barro, mas preferiu tirá-la dele, visando deixar patente que um era feito para o outro. Deste modo, promovia entre ambos uma união completa.2

terça-feira, 2 de junho de 2015

EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - ANO B

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - Mc 14, 12-16.22-26
A tibieza dos Apóstolos
6 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa.
São Pedro e São João executaram com toda a presteza a missão que o Mestre lhes confiara. Além de providenciar o cordeiro sem defeito, de um ano — o qual se imolava no Templo, depois do meio-dia, com um rito apropriado à Páscoa —, prepararam também os outros alimentos prescritos pela Lei, tais como os pães ázimos e as ervas amargas, as quais representavam os sofrimentos do povo hebreu durante o cativeiro no Egito.6
Analisemos, nesta passagem, outro aspecto da atitude dos dois Apóstolos. Ao encontrar “tudo como Jesus havia dito”, ambos puderam comprovar quanto suas palavras eram densas de significado e sabedoria. Seria de se esperar que, impressionados por tal constatação — certamente acompanhada de graças especiais —, eles indagassem de Nosso Senhor a razão exata da escolha daquele lugar e o simbolismo do que iria acontecer ali. Nada no Evangelho, todavia, indica esta iniciativa da parte dos Apóstolos, por não estarem habituados a refletir sobre a transcendência do que o Divino Mestre lhes dizia, bem como de seus exemplos, atitudes e gestos. Quão diferente era a postura de Nossa Senhora que, dotada de ciência infusa, conferia todas essas coisas no seu coração (cf. Lc 2, 51)!
E nós? Quantas oportunidades nos são oferecidas para aprofundarmos nossos conhecimentos sobre a doutrina católica, penetrarmos em algum aspecto da Fé ou um ponto da moral, e não manifestamos interesse! Não será isto uma falta? Peçamos hoje perdão a Jesus, por intercessão de sua Mãe Santíssima, por nossas negligências nessa linha.
Por outro lado, qual era o estado de alma dos demais Apóstolos? No trecho do Evangelho selecionado para esta Solenidade omitem-se alguns versículos intermediários, os quais narram o início da Ceia e o momento em que o Salvador revelou aos Doze que um deles O trairia. A pergunta que então Lhe fizeram, um após o outro — “Porventura sou eu?” (Mc 14, 19) —, pode ser interpretada como um sintoma do estado de tibieza no qual se encontravam. As palavras de Jesus tocaram-lhes a alma a fundo, e cada um, cônscio de sua própria falta de fervor, se pôs o problema: “Não será um recado para mim?”. E também um indício desta situação espiritual o fato de não desconfiarem de Judas. Conviviam com ele, sabiam que “era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam” (Jo 12, 6), mas não suspeitaram que ele fosse capaz de infâmia maior.
Em tal atmosfera de entibiamento geral e, pior ainda, com a traição aninhada no coração de um dos Apóstolos, é que Nosso Senhor Jesus Cristo vai instituir o Sacramento do Amor.

domingo, 31 de maio de 2015

EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - ANO B

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI)
12 No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?”
13 Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: “ide à cidade, Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o  e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’  Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Aí fareis os preparativos para nós!”
16 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. 22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes. dizendo: “Tomai, isto é o meu Corpo”. 23 Em seguida, tomou o cálice, deu graças entregou-lhes e todos beberam dele. 24 Jesus lhes disse: ‘Isto é o meu Sangue, o Sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos.
25 Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus”. 26 Depois de terem cantado o hino, foram para o Monte das Oliveiras (Mc 14, 12-16.22-26).
A justa medida do fervor eucarístico
Considerar a magnitude da generosidade divina manifestada na Eucaristia ajuda a medir qual deve ser nosso ardor por este inigualável Sacramento.
I - O HOMEM-DEUS DÁ-SE EM ALIMENTO AOS HOMENS
A luz da fé e imprescindível para contemplar, ainda que por poucos instantes, a elevação e beleza do mistério da Encarnação do Verbo, pois o entendimento humano, abandonado à sua mera capacidade, não chega a alcançá-lo. Se não fosse o auxílio da graça, jamais seria possível admitir que Deus quis Se manifestar ao mundo desta forma, promovendo a união da natureza divina com a humana na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus é verdadeiramente Homem, com inteligência, vontade e sensibilidade — além de ter assumido um corpo padecente, cuja origem foi miraculosa, mas que se desenvolveu de modo normal, conforme as leis da natureza — e, ao mesmo tempo, Ele é plenamente Deus. Deus reclinado numa manjedoura; Deus a discutir no Templo com os doutores da Lei; Deus que mora com seus pais em Nazaré; Deus que abraça a vida pública; Deus que é crucificado... Quantos atos de adoração e gratidão deveríamos fazer cada vez que consideramos este mistério, e com quanto fervor conviria pedir a Nosso Senhor o aumento de nossa fé n’Ele!
Ora, se tal é nossa admiração ante a grandeza do Verbo que “Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), não menos ardorosa deve ser a nossa atitude perante a Sagrada Eucaristia, o mistério que resume todas as maravilhas realizadas por Deus para a nossa salvação.1 Como bem observa o padre Monsabré, “a Encarnação é a obra-prima de Deus. Mas esta mesma obra-prima, pessoal e viva, Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, não se contenta em proclamar, à maneira das obras-primas humanas, a glória do sublime Artista que a criou. Soberanamente inteligente, bom e poderoso, Ele também quis produzir uma obra capital entre todas aquelas que seu Pai celeste O mandou executar. Esta obra é a Eucaristia”.2
Assim, na Encarnação, o Filho eterno de Deus Se vela na carne; na Eucaristia, Jesus oculta não só sua Pessoa Divina, mas sua humanidade, sob as espécies de pão e vinho. Na Encarnação, Ele passou a viver e a agir como nós, do interior da santidade menada, substancial e infinita de Deus. Na Eucaristia, Ele quer, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, habitar em nosso interior. Na Encarnação, a comunicação e a união foram somente com uma natureza singular, a humanidade santíssima de Cristo; na Eucaristia, Jesus Se une a todo aquele que O recebe, conforme Ele mesmo disse: “Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6, 56). Tal união entre Deus e o homem é a mais íntima que se possa imaginar, inferior apenas à união hipostática. E algo tão grandioso que causa assombro!
O Evangelho de hoje, trazendo à nossa consideração o relato da instituição deste Sacramento, “entre todos o mais importante e o que remata os demais”,3 convida a meditar sobre sua inesgotável riqueza e a crescer na devoção a ele. O próprio Salvador ansiava por este momento, como o manifestou aos discípulos, no início da Santa Ceia: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15).
II - O MISTÉRIO DA FÉ POR EXCELÊNCIA
Encontrava-Se o Divino Mestre a caminho de Jerusalém quando, pela terceira vez, anunciou aos discípulos sua Paixão (cf. Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Mais tarde, já depois do Domingo de Ramos, Ele lhes revelou a data exata deste acontecimento: “Sabeis que daqui a dois dias será a Páscoa, e o Filho do Homem será traído para ser crucificado” (Mt 26, 2).
Entrementes, os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, reunidos na casa de Caifás, conspiravam contra Jesus e deliberavam sobre os meios de O prender com astúcia e O matar. Mas, como temiam provocar tumulto na multidão, decidiram agir só após o término da festa (cf. Mt 26, 4-5). Foi então que Judas Iscariotes foi ter com eles, oferecendo-lhes sua pérfida contribuição para o crime. Prometeram-lhe trinta moedas de prata, “e desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus” (Mt 26, 16).
A Ceia que inaugurou a verdadeira Páscoa
12 No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal os discípulos disseram a Jesus: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’
As comemorações da Páscoa, principal festividade judaica se estendiam ao longo de uma semana, sendo o primeiro dia reservado à ceia solene em que se comia o cordeiro pascal, seguindo as indicações dadas por Deus aos israelitas na época da saída do Egito (cf. Ex 12, 1-14). Como o pão fermentado era proibido durante este período consumiam-se pães sem levedura, e daí a solenidade ser designada também como festa dos Ázimos.
Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Cordeiro Pascal, “o Cordeiro imaculado e sem defeito algum, aquele que foi predestinado antes da criação do mundo” (I Pd 1 1, 19). Portanto, a cerimônia que os Apóstolos se empenhavam em preparar seria o início da realização de tudo o que a Páscoa israelita prefigurava, pois na Santa Ceia daquela noite Ele consagraria “o princípio de seu sacrifício, ou seja, de sua Paixão, entregando-se a seus discípulos nos mistérios de Corpo e Sangue”.4
Um suave convite a Judas
13a Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: “ide à cidade”.
Sendo Judas Iscariotes o responsável pela logística do Colégio Apostólico, cabia-lhe tomar as providências para a celebração. Porém, a narração de outro Evangelista indica terem sido Pedro e João os discípulos que Nosso Senhor encarregou deste trabalho (cf. Lc 22, 8). Com divina delicadeza e bondade, o Mestre deixava transparecer a Judas que tinha conhecimento do crime por ele tramado com os sinedritas. Se houvesse no traidor um resquício de amor a Deus e de bom senso, o proceder de Jesus lhe teria aguilhoado a consciência, levando-o a dar-se conta da imensa gravidade daquele pecado e a desistir de seu intento. Entretanto, nada disso ocorreu, pois seu coração estava completamente endurecido no mal.
Podemos fazer aqui uma aplicação à nossa vida espiritual. As vezes, pessoas com quem convivemos — seja um superior, um colega ou até um inferior — nos dão a entender que percebem em nós um defeito mal combatido ou nos alertam para uma situação má na qual nos encontramos. Em face desses convites, teremos fechado nossa alma, imitando a perversidade de Judas?
O Divino Mestre quis evitar perturbações durante a Ceia
13b “Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o 14 e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’ ‘ Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Aí fareis os preparativos para nós!”
O recinto escolhido pelo Redentor, como cenário do ato de suma importância que iria realizar, era uma ampla sala decorada com distinção e categoria (cf. Le 22, 12). Belos tapetes, tecidos, cortinas e requintada mobília compunham agradavelmente o ambiente. De acordo com o costume do tempo, nos banquetes as mesas eram dispostas em forma de “U” e os comensais não comiam sentados como hoje, mas reclinados em divãs distribuídos no lado externo da mesa. O lado interno ficava livre a fim de permitir o serviço, O lugar de honra — que na ocasião deveria ser ocupado por Nosso Senhor — ficava ao centro.

Judas, ávido por se informar a respeito das circunstâncias e do local da ceia pois julgava ser este um momento oportuno para entregar Nosso Senhor —, decerto ouvia atento estas indicações. Mas Jesus desejava celebrar a Páscoa sem nenhuma interrupção; “não queria ser perturbado por seus inimigos antes que chegasse ‘sua hora’ e, sobretudo, antes da doação e do amoroso legado da Sagrada Eucaristia que queria deixar à sua Igreja”.5 Por isso instruiu os dois Apóstolos de modo a tornar impossível ao traidor descobrir com antecedência onde seria a refeição, demonstrando-lhe ainda, indiretamente e de maneira majestosa, que estava a par de tudo. Ante esta nova lição, Judas mais uma vez recalcitra e sua maldade recrudesce.
Continua no próximo post

sábado, 23 de maio de 2015

EVANGELHO SOLENIDADE DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, I 9-2 3

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO SOLENIDADE DE PENTECOSTES
MONS JOÃO CLÁ DIAS
19 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, Pondo-Se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20 Depois dessas palavras, mostrou-Ihes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
21 Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”. 22 E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Epírito Santo. 23 A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados: a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, I 9-2 3).
Pentecostes, esperança para o século XXI
A instantânea e radical mudança dos Apóstolos no dia de Pentecostes, há dois mil anos, deita caudais de luz nas obscuras perspectivas de um século que voltou as costas a Deus
I - UMA EFUSÃO DE FOGO DIVINO NO NASCEDOURO DA IGREJA
Solenidade de Pentecostes, na qual celebramos a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, é uma das festividades mais importantes do calendário litúrgico. Este acontecimento conferiu maturidade à Igreja, pois, até então ela repousava nas mãos da Santíssima Virgem, como criança. E assim como Maria estivera presente no Calvário, aos pés da Cruz, enquanto Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Cenáculo Ela estava como Mãe do Corpo Místico de Cristo. Mãe da Cabeça no Calvário, Mãe do Corpo no Cenáculo, Ela queria que esta Igreja recém-nascida crescesse e se desenvolvesse, a fim de tornar-se apta a exercer sua missão evangelizadora.
Naquele dia Nossa Senhora pôde ver como este amadurecimento se deu num instante, quando Se derramou o Espírito Santo em línguas de fogo, primeiro sobre Ela e, depois, d’Ela para todos os Apóstolos, discípulos e Santas Mulheres que ali se encontravam em grande número. A partir daí a Igreja passou a ter mais efusão de santidade, de dons e de graça, e foi instituída na prática, no que se refere à sua ação externa, potência e expansão. O Cenáculo é o começo do assombroso crescimento da Igreja, uma verdadeira explosão evangelizadora.
Assim comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira este acontecimento: “Apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então fizera pela Igreja, poder-se-ia de algum modo dizer — não quero fazer uma comparação exata — que a Igreja era, antes de Pentecostes, um boneco de barro, que recebeu de Deus um sopro de vida em Pentecostes, com o Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver e tudo passou a pegar fogo no mundo, a contagiar o mundo, até o apogeu dos dias de hoje, em que o Evangelho é pregado a todos os povos”.1
Mudança instantânea e completa

quinta-feira, 21 de maio de 2015

EVANGELHO DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
A mística atualidade da Liturgia
Ora, que relação têm estas reflexões com a Solenidade de Pentecostes? A consideração das festas litúrgicas não deve ser focalizada como um mero exercício de memória, de maneira semelhante a alguém que, chegado o aniversário de falecimento de um parente ou amigo, toma uma fotografia deste e relembra quanto ele era bom, mas depois continua seus afazeres sem dar mais importância ao fato. Se é verdade que na Liturgia cabe, em parte, também a recordação, no entanto há uma atualidade mística que se verifica no momento da Santa Missa, trazendo uma participação real, autêntica e direta nas graças distribuídas naquele dia — hoje, em concreto, a efusão do Espírito Santo —, porque nos congrega em torno de Cristo vivo, e não constitui apenas uma reminiscência do período em que Ele estava na Terra.
Tal é a doutrina da Igreja, conforme ensina o Papa Pio XI na Encíclica Quas primas: “para instruir o povo nas coisas da Fé e atraí-lo por meio delas aos íntimos gozos do espírito, muito maior eficácia têm as festas anuais dos sagra dos mistérios que quais quer ensinamentos, por autorizados que sejam, do Magistério Eclesiástico”.5 E o Papa Pio XII, na Encíclica Mediator Dei sobre a Sagrada Liturgia, afirma: “O Ano Litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos.
É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem (cf. At 10, 38) com o fim de colocar as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos Doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação”.6
A Igreja pede para “agora” as graças concedidas no Cenáculo
Não nos é dado penetrar integralmente em todo o significado e substância do acontecimento de Pentecostes, visto estar ele cheio de mistério. Na verdade, o que se teria passado com a Esposa de Cristo se não descesse o Paráclito sobre os Apóstolos? Não nos esqueçamos de que — digamo-lo com todo o respeito —, durante a Paixão de Nosso Senhor eles foram covardes, O abandonaram, desapareceram, fugiram (cf. Mt 26, 56; Mc 14, 50). Após a Morte e Ressurreição de Jesus tornaram a reunir-se, desejosos de ver a implantação do reino de Israel sobre todos os povos (cf. At 1, 6), e não do Reino dos Céus que o Divino Mestre havia pregado! Esta é a natureza humana... incapaz, por si, de atos sobrenaturais. Quiçá a Providência tivesse permitido que fossem tão pusilânimes para mostrar qual a distância existente entre a nossa condição — da qual às vezes tanto nos orgulhamos — e a força do Espírito Santo. Com efeito, muitas vezes julgamos que os Santos eram pessoas de vontade extraordinária, graças à qual venceram os obstáculos até conquistarem a coroa da justiça. Ora, nenhum homem, por mais hábil que seja, alcança a perfeição por seu esforço pessoal; só praticará as virtudes de forma estável se assistido pelo Espírito Santo. E Ele quem santifica a Igreja inteira, como se deu naquela manhã, quando o vento invadiu toda a casa onde estavam e as línguas de fogo pousaram sobre a cabeça dos Doze e de seus companheiros, como narra a primeira leitura (At 2, 1-11) desta Solenidade: de medrosos que eram, tornaram-se heróis!

terça-feira, 19 de maio de 2015

EVANGELHO DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23


COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
II - PENTECOSTES NO SÉCULO XXI
Como criaturas humanas que somos, habituados às coisas sensíveis, ou seja, ao que vemos, ouvimos ou apalpamos, vivemos muito mais voltados para a matéria do que propriamente para o espírito; por isso tendemos a crer apenas naquilo que é concreto, como o Apóstolo São Tomé que, ao receber a notícia da Ressurreição de Nosso Senhor, disse: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20, 25). Assim somos nós: queremos comprovar para acreditar. Esquecemos, todavia, que uma vez demonstrado um fato, a razão conclui ante as evidências e torna-se desnecessária a crença; pelo contrário, a fé é justamente uma virtude que nos leva a aceitar aquilo que ultrapassa a nossa constatação, segundo lemos na Escritura: “A fé é [...] uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).
Deus é todo-poderoso
Custa-nos, neste sentido, compenetrarmos-nos de um ponto, que é o da onipotência de Deus, embora sempre proclamemos no início do Credo: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”. Até os Apóstolos se defrontavam com esta dificuldade, como se infere daquela passagem do Evangelho na qual, tendo o moço rico resolvido conservar seus bens e não seguir o Mestre, Ele disse: “E mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). Surpresos, os discípulos perguntaram: “Quem então poderá salvar-se?’. Respondeu Jesus: ‘O que é impossível aos homens é possível a Deus” (Lc 18, 26-27).
Devemos, portanto, colocarmo-nos diante desta perspectiva: Deus é todo-poderoso! Ele tirou do nada o universo, uma multidão de criaturas! Se, por exemplo, temos oportunidade de observar as formiguinhas que se preparam para o inverno, levando folhas e alimento para o formigueiro, tomamos isto com naturalidade e não refletimos que é o Criador quem as sustenta, bem como a todos os demais seres: pedregulhos, árvores, insetos.., tudo! Nós mesmos existimos, estamos cheios de vitalidade e somos capazes de ler este texto, porque Deus mantém a cada um.
Com seu poder absoluto Ele formou um boneco de barro que artista nenhum conseguiria imitar; depois, soprou-lhe nas narinas e a figura adquiriu vida (cf. Gn 2, 7), gozando de inteligência, vontade e sensibilidade, num corpo perfeito. Mais ainda, além de ser dotado de uma alma espiritual, o homem possuía o estado de graça, com todos os dons sobrenaturais acrescidos dos preternaturais, como o dom de integridade, que o impedia de apetecer o mal, a não ser que “se rompesse previamente a harmonia resultante da sujeição de sua razão superior a Deus”;4 o dom de imortalidade, mediante o qual não morreria, mas passaria desta vida para a outra, no Céu, sem a dolorosa separação da alma e do corpo; o dom de ciência infusa que, na qualidade de rei da criação, lhe conferia o conhecimento de todas as coisas e das razões pelas quais Deus as fez. Quando os animais se enfileiraram diante de Adão para que lhes desse nome (cf. Gn 2, 19-20), ele os designou com o título correspondente àquilo que compreendia da essência de cada um: leão, tigre, avestruz, formiga... Todas estas maravilhas o primeiro homem as recebeu através de um sopro divino! Por quê? Porque Deus é todo-poderoso!
Um plano manchado pelo pecado
Não obstante, o plano concebido por Deus, ao dar a existência ao homem, foi desfeito pelo pecado. Em consequência, Adão perdeu o dom de integridade, a imortalidade, a ciência infusa e... sobretudo, a graça! A partir dele toda a sua posteridade nasceu com a mancha da culpa original e se foi multiplicando uma descendência, com algumas exceções, terrivelmente criminosa. Sobreveio o dilúvio, a Torre de Babel, e horrores sem conta acumularam-se ao longo de milênios de História, em que a decadência se fazia sentir a cada passo. Por fim, na plenitude dos tempos, a humanidade foi redimida pelo Sangue preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, apesar desta restauração, as gerações que se sucederam após a vinda do Messias, em sua maioria, voltaram as costas para os méritos infinitos da Paixão e afundaram novamente no vício; “o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 10-11). A própria natureza humana vai se deteriorando: enquanto no Antigo Testamento as pessoas possuíam uma grande resistência física, que lhes permitia viver centenas de anos — como aconteceu a nossos pais, Adão e Eva, ou a Matusalém (cf. Gn 5, 5.27) —, no presente, a expectativa de vida do homem está entre 70 e 75 anos.

Além disso, a força de vontade e a constituição psíquica sofreram significativa degradação. Na sociedade antiga, muito mais orgânica que a de hoje, o equilíbrio nervoso e mental era mantido com mais firmeza; em nossos tempos, em meio à agitação da vida, diminuiu a estabilidade. Em síntese, a virtude vai desaparecendo da face da Terra, o belo está se despedindo do gênero humano. Assim, encontramo-nos numa situação dramática, talvez pior do que quando o Verbo Se encarnou para pregar o Evangelho e morrer na Cruz.
Continua no próximo post

segunda-feira, 18 de maio de 2015

EVANGELHO SOLENIDADE DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
Mons João Clá Dias
19 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, Pondo-Se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20 Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
21 Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”. 22 E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Epírito Santo. 23 A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados: a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, 19-23).
Pentecostes, esperança para o século XXI
A instantânea e radical mudança dos Apóstolos no dia de Pentecostes, há dois mil anos, deita caudais de luz nas obscuras perspectivas de um século que voltou as costas a Deus
I - UMA EFUSÃO DE FOGO DIVINO NO NASCEDOURO DA IGREJA
Solenidade de Pentecostes, na qual celebramos a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, é uma das festividades mais importantes do calendário litúrgico. Este acontecimento conferiu maturidade à Igreja, pois, até então ela repousava nas mãos da Santíssima Virgem, como criança. E assim como Maria estivera presente no Calvário, aos pés da Cruz, enquanto Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Cenáculo Ela estava como Mãe do Corpo Místico de Cristo. Mãe da Cabeça no Calvário, Mãe do Corpo no Cenáculo, Ela queria que esta Igreja recém-nascida crescesse e se desenvolvesse, a fim de tornar-se apta a exercer sua missão evangelizadora.
Naquele dia Nossa Senhora pôde ver como este amadurecimento se deu num instante, quando Se derramou o Espírito Santo em línguas de fogo, primeiro sobre Ela e, depois, d’Ela para todos os Apóstolos, discípulos e Santas Mulheres que ali se encontravam em grande número. A partir daí a Igreja passou a ter mais efusão de santidade, de dons e de graça, e foi instituída na prática, no que se refere à sua ação externa, potência e expansão. O Cenáculo é o começo do assombroso crescimento da Igreja, uma verdadeira explosão evangelizadora.
Assim comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira este acontecimento: “Apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então fizera pela Igreja, poder-se-ia de algum modo dizer — não quero fazer uma comparação exata — que a Igreja era, antes de Pentecostes, um boneco de barro, que recebeu de Deus um sopro de vida em Pentecostes, com o Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver e tudo passou a pegar fogo no mundo, a contagiar o mundo, até o apogeu dos dias de hoje, em que o Evangelho é pregado a todos os povos”.1

sábado, 18 de abril de 2015

Evangelho IV Domingo da Páscoa – Ano B – Jo 10, 11-18

Comentários ao Evangelho 4º Domingo da Páscoa – Ano B – Jo 10, 11-18
Naquele tempo, disse Jesus: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
É por isso que meu Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi de meu Pai”.  (Jo 10, 11-18)
“O SENHOR É MEU PASTOR”
A propósito da cura do cego de nascença, e da polêmica provocada por ela entre os fariseus, Jesus se revelou como o Bom Pastor, que arrisca a vida por suas ovelhas. Foi esta uma das ocasiões nas quais Ele exprimiu de modo mais tocante seu amor infinito por nós.
Deus, na sua inesgotável sabedoria, dispôs em perpétua ordem e harmonia todos os seres, fazendo muitas vezes os inferiores símbolos dos superiores. Assim, no sexto dia de sua obra, criou entre os animais a espécie ovina, com o intuito de, no futuro, o cordeiro servir de título ao Redentor, o Cordeiro de Deus. Conferiu características próprias aos rebanhos de ovelhas, assim como ao relacionamento entre estas e seus pastores, para facilitar a compreensão do amor entre o Fundador da Igreja e seus fiéis.
Na civilização de hoje, demasiadamente industrial e planificada, causa agradável surpresa encontrar pelos campos rebanhos que nos recordam aquela sociedade pastoril dos primeiros séculos da História. Alheios às transformações técnicas e sociais, esses animais continuam a se comportar como outrora. Impressiona observar sua sensibilidade à voz ou assobio de seu guia.
Certa ocasião, estando em um ambiente campestre nas cercanias do Palácio do Escorial, não muito distante de Madri (Espanha), assisti a um “sermão” dirigido por um pastor a seu rebanho. As ovelhas ouviam com atenção exemplar as admoestações sobre os cuidados que deveriam ter durante a permanência naquele local. Terminada a “pregação”, ele as dispersou com um simples bater de palmas. Bem mais tarde, convocou-as todas pela voz — chegando a chamar algumas pelo nome próprio — e as fez retomar a estrada, rumo ao seu redil. O fato me emocionou e me fez lembrar o Evangelho que devemos aqui analisar: “As ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 4).
Pedagogia divina
Entre os vários instintos do homem, o mais forte e importante é o de sociabilidade. Aristóteles afirmava que, por natureza, o ser humano é um animal político, ou seja, sociável. A apetência (e a necessidade) dos homens de se relacionarem uns com os outros leva-os a se unirem, dando sequência ao plano divino da Criação, pois Deus nos deu esse instinto precisamente para estimular a constituição da vida em sociedade. Mas não foi esta a única razão; antes de tudo, tinha Ele em vista seu próprio desejo de entrar em contato com as almas.
Conforme explica o Catecismo da Igreja Católica, Deus “quer comunicar sua própria vida divina aos homens, criados livremente por Ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-Lhe, de conhecê-Lo e de amá-Lo bem além do que seriam capazes por si mesmos” (nº 52). Para levar adiante o “projeto divino da Revelação”, a “pedagogia divina” consistiu, desde os primórdios da humanidade, em preparar o homem por etapas para esse relacionamento com Ele, cujo ápice ocorreria na encarnação, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. idem, nº 53).
Dessa pedagogia fazia parte essencial a linguagem simbólica. Quiçá não tenha Deus escolhido melhor signo para exprimir os vínculos a serem estabelecidos entre Jesus e nós do que a figura do pastor com seu rebanho.
Já nos primórdios do Antigo Testamento, há uma insistência na figura do pastor (cf. Gn 4, 4 e 20), na pessoa de Abraão (Gn 12, 16), de Lot (Gn 13, 5) e do próprio Rei Davi (1 Sam 17, 34-35). Aos poucos, a condução do rebanho vai se tornando símbolo dos guias do povo de Deus, a ponto de a Escritura referir-se a eles com estas palavras: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sabedoria”(Jr 3, 15). Ou como neste trecho: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; dize-lhes, a esses pastores, este oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: ai dos pastores de Israel que só cuidam do seu próprio pasto. Não é seu rebanho que devem pastorear os pastores? Vós bebeis o leite, vestis-vos de lã, matais as reses mais gordas e sacrificais, tudo isso sem nutrir o rebanho. Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las” (Ez 34, 2-6).
Porém, a figura do Pastor toma a plenitude de seu significado no Ser por excelência, o próprio Deus: “Eis o que diz o Senhor Javé: vou castigar esses pastores, vou reclamar deles as minhas ovelhas, vou tirar deles a guarda do rebanho, de modo que não mais possam fartar-se a si mesmos; arrancarei minhas ovelhas da sua goela, de modo que não mais poderão devorá-las. Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar Eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por causa de seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu; Eu o reconduzirei de todos os lugares por onde tinha sido disperso num dia de nuvens e de trevas. Eu as recolherei dentre os povos e as reunirei de diversos países, para reconduzi-las ao seu próprio solo e fazê-las pastar nos montes de Israel, nos vales e nos lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas pastagens, elas serão levadas a gordos campos sobre as montanhas de Israel; elas repousarão sobre as verdes relvas, terão sobre os montes de Israel abundantes pastagens. Sou Eu que apascentarei minhas ovelhas, sou Eu que as farei repousar — oráculo do Senhor Javé. A ovelha perdida, Eu a procurarei; a desgarrada, Eu a reconduzirei; a ferida, Eu a curarei; a doente, Eu a restabelecerei, e velarei sobre a que estiver gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça. (...) E vós, minhas ovelhas, vós sois homens, o rebanho que apascento. E Eu, Eu sou o vosso Deus — oráculo do Senhor Javé” (Ez 34, 10-16; 31).
Jesus, o Bom Pastor
Por fim apareceu nos céus da História o Pastor arquetípico, o Bom Pastor: “Eu irei em socorro de minhas ovelhas para poupá-las de serem atiradas à pilhagem; e julgarei entre ovelha e ovelha: Para pastoreá-las suscitarei um só pastor (...). Será ele quem as conduzirá à pastagem e lhes servirá de pastor” (Ez 34, 22-23).
II – O Pastor por excelência
Jesus é o Pastor que deu a vida por seu rebanho; ademais, sempre disposto a ir atrás da ovelha perdida e, encontrando-a, retornar alegre e feliz com ela sobre os ombros; a tirá-la do valo, ainda que em dia de sábado. Quem de nós pode afirmar nunca ter sido objeto da busca do Bom Pastor, às vezes até em circunstâncias trágicas? Quem alguma vez não se sentiu ovelha desgarrada, mas nos ombros de Jesus, sendo reconduzida ao aprisco?
É nesta perspectiva que se insere o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa
As circunstâncias: a cura do cego de nascença
Essas palavras se prendem a um episódio antecedente, denso de emocionante carga simbólica. Inicia-se ao incidir o olhar de Jesus sobre um cego de nascimento. Era comum julgarem os judeus haver uma relação entre as enfermidades e os pecados cometidos pelo doente, ou por seus parentes. Por isso perguntaram os discípulos ao Senhor: “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9, 2). A resposta firme de Jesus e o desenrolar dos acontecimentos subsequentes deitarão luz para melhor entendermos o Evangelho de hoje: “Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9, 3). Tendo feito essa profética afirmação, tomou a iniciativa de curar o cego.
Como não podia deixar de ser, o portentoso milagre causou comoção entre todos os conhecidos do miraculado, levando-os a desejarem encontrar “aquele homem que se chama Jesus” (Jo 9, 11).
O burburinho popular cresceu a ponto de conduzirem o beneficiado diante dos fariseus. Narrado o ocorrido, constatou-se ter sido realizada a cura em dia de sábado. Isto configurava um grande crime, condenado pelos fariseus. Um violador da lei do sábado — portanto, um pecador — não podia ser de Deus! Eis, finalmente, encontrada uma grave acusação contra aquele Homem que tanto os perturbava. Todavia, esta conclusão entrava em choque frontal com uma pergunta levantada por outros fariseus: como explicar que um tal prodígio pudesse ser praticado por um pecador?
Em meio à dissensão perplexitante, a esperança de acharem uma saída fez os maus se voltarem para o próprio ex-cego. Quiçá pudesse este dizer algo que desabonasse inteiramente Jesus. Entretanto, iludiam-se por completo. Aquela era uma ovelha que conhecia a voz de seu Pastor, e assim não se deixava enganar pelos ladrões e salteadores. Convicto, afirmou ser Nosso Senhor um profeta. Embaraçados, os inquiridores resolveram interrogar os pais daquele homem, na esperança de provarem ter tido sempre vistas normais. Afinal, desqualificar a testemunha é uma saída bem conhecida daqueles que se encontram em apuros. Contudo, mais uma vez não conseguiram seu intento, pois o casal confirmou ser seu filho cego de nascença, e sabiamente evitou quaisquer outros comentários sobre o acontecido: “[Eles] temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo. Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho” (Jo 9, 22-23).
O interrogatório final, em um ambiente de ansiedade e fraude, acabou despertando indignação dos fariseus, por esbarrarem na robustez de fé e honestidade do ex-cego. Havendo eles declarado não saberem de onde era Jesus, “respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada. Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no” (Jo 9, 30-34).
A Igreja é o redil, cuja porta é Cristo
Após essa injusta conclusão de seu inquérito, não tardou o antigo cego a se reencontrar com Jesus. Este, conhecendo desde toda a eternidade aqueles fatos, perguntou-lhe se acreditava no Filho de Deus. Diante de não poucos curiosos, o tal homem não só afirmou sua crença em Nosso Senhor, mas também prosternou-se diante d’Ele e O adorou.
Essa bela e virtuosa atitude deixou emudecido o público presente. O Divino Mestre aproveitou a ocasião para tirar todo o proveito do episódio, e afirmou: “Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9, 39).
A partir desse instante, entrando em contenda aberta com os fariseus, Jesus passa a desenvolver a parábola narrada no Evangelho de hoje. Começa por referir-se a um hábito comum, bastante conhecido entre os judeus: o ladrão não entra pela porta do aprisco, mas “sobe por outro lugar” (Jo 10, 1). O pastor, pelo contrário, utiliza-se tão-só dessa porta, fazendo ouvir sua voz pelas ovelhas.
Não havendo os fariseus entendido essa alegoria, o Divino Mestre declarou ser, Ele mesmo, a porta do aprisco.
Comentando com brilho esse trecho do Evangelho, a Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma: “A Igreja é o redil, cuja porta única e necessária é Cristo. É o rebanho, do qual o próprio Deus anunciou que seria o Pastor, e cujas ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são incessantemente conduzidas às pastagens e alimentadas pelo próprio Cristo, bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu sua vida pelas ovelhas”(LG 6).
Um só rebanho e um só Pastor
Pelos antecedentes e por todo o contexto no qual ocorre, a presente parábola leva-nos a compreender a divina excelência do Bom Pastor. Jesus não só conhece como efetivamente ama suas ovelhas desde toda a eternidade. Ele as criou, uma a uma, e as redimiu com seu próprio sangue, elevando-as a participarem de sua vida. Ademais, deixou-se como alimento na Eucaristia até a consumação dos séculos. Seu trato para com o rebanho atinge extremos inimagináveis até mesmo pelo mais perfeito dos Anjos.
Através da Fé e em virtude da Graça, suas ovelhas, por reciprocidade, conhecem-No, n’Ele esperam e operosamente O amam. Assim, Bom Pastor e ovelhas relacionam-se de maneira semelhante ao convívio existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade, em um só Deus. Essa é a principal razão de seu desejo-profecia: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).
Através da entrega de sua própria vida, sobre a qual Ele tem um poder absoluto, obterá Jesus uma unidade entre Pastor e redil.
Também nós devemos ser pastores...
Dispôs Deus que as figuras do cordeiro, do rebanho e do pastor facilitassem ao homem a compreensão da necessidade do apostolado. Em sua substância simbólica, elas reforçam princípios enunciados ao longo da Sagrada Escritura: “E impôs a cada um deveres para com o próximo” (Ecli 17, 12).
Em relação a Jesus, somos cordeiros; é nossa obrigação moral e religiosa reconhecer-Lhe a voz e seguir-lhe os passos. Mas somos também muitas vezes chamados a representar o papel de pastores para com nossos irmãos, dever de caridade, como nos ensina São Pedro: “Cada um, segundo o que recebeu, comunique-o aos outros, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4, 10). Caso assim não procedamos, seremos julgados como o servo mau e preguiçoso da parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30).
O trecho do Evangelho que acabamos de analisar constitui uma premente conclamação para a participação efetiva, dedicada e entusiasmada de todos os fiéis nas tarefas de apostolado. A obrigação de evangelizar não é exclusiva dos religiosos, mas também de todo batizado. Por este sacramento, cada um de nós é incorporado a uma sociedade espiritual — a Santa Igreja Católica — regida pela Comunhão dos Santos, recebendo uma vocação geral de apostolado e uma missão individual de expandir o Reino de Cristo. Mais especialmente encontram-se concernidas nisto as associações e movimentos católicos.
Para a realização dessa atividade, o campo de trabalho mais indicado é a paróquia. Em outros termos, nada mais louvável e eficiente do que contribuir para o revigoramento de nossas paróquias, esforçando-nos por incluir neste âmbito todos aqueles que estejam a nosso alcance.
Recorramos à Mãe do Bom Pastor
“Maria é a estrela na nova evangelização”, lembra-nos sempre o Papa João Paulo II. Quem quiser ter sucesso nesse sublime empreendimento de atrair seus próximos para o aprisco de Jesus Cristo, não pode deixar de colocar seus trabalhos e sua própria pessoa sob a proteção e a orientação da Mãe do Bom Pastor.
Nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma, pode-se ver, bem-conservada, uma pintura que representa Nosso Senhor como o Bom Pastor. Significativamente, leva Ele aos ombros a ovelha perdida e caminha em direção a sua Mãe, em cujas mãos vai entregá-la.

Peçamos a esse Coração Maternal e Imaculado que nos conduza ao Bom Pastor, e assim possamos cumprir com santidade nossos deveres de apostolado para com nossos irmãos. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Evangelho IV Domingo da Quaresma – Ano B – Jo 3, 14-21

Conclusão dos comentários ao Evangelho IV Domingo da Quaresma – Ano B
17 De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.
Algumas traduções usam o verbo “julgar” e não “condenar”. Realmente, no latim encontramos ut iudicet mundum. Ora, para os judeus — conforme nos explica Maldonado — os dois verbos têm o mesmo significado de “castigar”. Dada a manifestação do grande poder de Jesus através de seus numerosos milagres (10), Nicodemos se aproxima d’Ele tomado de forte temor reverencial. De fato, Jesus devia produzir em seus circunstantes um misto de atração e de temor. Por ser a Grandeza, Ele arrebata e ao mesmo tempo impõe respeito. Para um espírito culto e inteligente como Nicodemos, a compreensão da magna figura do Mestre — sobretudo depois das revelações que Ele fez, sintetizadas nos versículos anteriores — fê-lo imaginar o castigo de que um tal Profeta seria portador. Daí essas afirmações de Nosso Senhor contidas nos versículos 16 a 21, tornando claro quanto Ele traz a salvação, sob a condição da fé e das boas obras.

terça-feira, 10 de março de 2015

Evangelho IV Domingo da Quaresma – Ano B – Jo 3, 14-21

Continuação dos comentários ao Evangelho IV Domingo da Quaresma – Ano B

Pré-figura da Crucifixão
Entretanto, está também figurada a Crucifixão, como ressaltam todos os comentaristas; por exemplo, Santo Agostinho:
“Que significa a serpente levantada? A morte do Senhor na cruz. A morte proveniente da serpente foi representada pela imagem da serpente. A mordedura mortal da serpente representa a morte vital do Senhor. Olha-se para a serpente a fim de que a serpente não mate. Que significa isso? Olha-se para a morte, para o Senhor morto, para que a morte não mate. Mas para a morte de quem? Para a morte da Vida, se assim se pode dizer. (...) Cristo não é a Vida? Todavia, foi suspenso na cruz. (...) Mas a morte foi morta na morte de Cristo, porque a Vida que foi morta matou a morte.
“Assim como os que olhavam para a serpente de bronze não morriam com as mordeduras das serpentes, assim os que olham com fé para a morte de Cristo são curados das mordeduras dos pecados. Mas aqueles eram livres da morte no tocante à vida temporal, enquanto estes têm a vida eterna. Aqui está a diferença entre a figura e a realidade. A figura dava a vida temporal, e a realidade dá a vida eterna” (4).
Jesus prepara as mentalidades para a aceitação do dogma
Resta dizer uma palavra sobre a expressão “o Filho do Homem”, que aparece 82 vezes ao longo dos Evangelhos, quase sempre saída dos adoráveis lábios de Jesus e, ademais, exclusivamente aplicada a Ele. O Antigo Testamento traz à tona essa mesma expressão, ora referindo-se a um simples homem, ora a um ser sobrenatural superior a um homem comum (5).
No Cristo nós encontramos a misteriosa união de duas naturezas— a divina e a humana — numa só Pessoa. Era indispensável ir preparando as mentalidades para a aceitação, com base na fé, desse altíssimo dogma. Hoje — depois de dois milênios, com toda a tradição e o grande desenvolvimento doutrinário da Teologia — temos mais facilidade para abraçar essa fundamental verdade revelada. Contrariamente, naqueles tempos, a cultura religiosa prognosticava uma figura messiânica muito diferente. O Messias deveria ser um grande condestável de nacionalidade judaica que daria ao seu povo a supremacia sobre todas as outras nações, libertando-o de qualquer ônus, submissão ou tributo. Sobretudo naquele momento em que os judeus estavam subjugados política e tributariamente ao Império Romano, o termo “Messias”, lançado ao ar, colocava em movimento uma dinâmica cadeia de sentimentos nacionalistas.