-->

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Comentário 1 João 3, 8

Há uma expressão de São Tomás de Aquino encontrada sete vezes na Suma Teológica: Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defecto; o bem procede de uma causa íntegra. O que é o mal? Qualquer defeito é o mal. Então, o bem sempre procede de uma causa íntegra. Quando há um pequeno defeito, uma pequena miséria, essa miséria e esse defeito participam do mal. Que mal? Demônio.
Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio.(1Jo 3,8)
Então, o pecado, em qualquer grau que seja — pode ser um mero defeito, uma pequena arranhura — já participa do mal.
Vamos supor que uma pessoa tenha nascido com a face perfeitamente bem calculada por Deus. Porém, quando era pequena, teve um desastre: a avó era cega e foi indicar onde é que estava uma coisa qualquer; ao fazer um movimento com a mão portando uma tesoura, cortou uma pontazinha do nariz da criança. A face era perfeita, mas essa ponta do nariz ficou cortada. E já ficou com a face defeituosa.
Nós vamos comprar uma caneta. Uma caneta muito bonita, etc., mas tem um arranhão. E dizemos para o homem da loja:
— Eu não quero essa caneta. Ela é bonita, mas eu quero uma que não tenha nenhum arranhão.
Ninguém quer um arranhão num objeto que vai comprar, porque o objeto tem que ser íntegro, tem que ser perfeito.
Imaginem que nós ganhamos um caderno novo para fazer as anotações durante o ano, para fazer estudos. Quando pegamos o caderno e o abrimos, vemos que todas as páginas estão limpas, em ordem; o dorso e a capa são dourados; tudo está novinho em folha. Vem até com plástico em cima para, tirado o plástico, ver-se que está tudo novinho. Ora, se, uma vez tirado o plástico, tiver um risco de alto a baixo, decepção. Ninguém quer esse caderno.
É assim: todo e qualquer defeito participa do defeito total. E o defeito total é aquela postura que tem Satanás: revolta e ódio contra Deus. Então, quem peca, é filho do demônio. Quem comete uma falta, na hora em que comete a falta, é filho do demônio.*


*Trecho adaptado sem conhecimento e/ou revisão do autor.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Filiação divina

Há milênios, a humanidade estava na pior situação possível por causa do pecado de Adão e Eva. Porque, no Paraíso Terrestre, gozavam de uma alegria extraordinária. Era a felicidade da imortalidade, da impassibilidade em relação às doenças, a felicidade de comandar todos os animais, de comandar a própria natureza; era a ciência infusa de Adão, que devia ser um homem cheio de conselhos, de observações e inteligência. Além disso, o dom de integridade, por onde o homem não tinha a menor convulsão interna: as inclinações, tendências, paixões não o levavam para este ou para aquele canto; era tudo inteiramente controlado pela razão e pela Fé. A inteligência entendia e os instintos todos se coordenavam em relação à razão, mas a inteligência também não desviava um só milímetro dos rumos e dos caminhos da Fé.

Pecam e estabelece-se uma desordem colossal na natureza humana. Não é só a morte que entra, mas é pior do que isso: é a morte da alma, o pecado. Começa dentro do homem um caos, porque as leis todas começam a brigar entre si e o homem vive num verdadeiro torvelinho de aflições e de solicitações para o mal. A partir deste momento, o homem torna-se incapaz, por sua natureza, de praticar estavelmente qualquer dos mandamentos.

Depois do pecado original, de si, o homem não tem forças para resistir às más inclinações que existem no âmago de sua alma

Portanto, o homem se torna um pecador. Porque, uma vez que ele não consegue manter-se na prática estável dos mandamentos, torna-se pecador. Ora, enquanto pecador — esta é a pior das desgraças — porque morrer é um mal físico, traz o tormento da separação da alma do corpo, mas não é o pior. Ter doenças também não é o pior; ter angústias, provações: isto não é nada. O pior é viver na escuridão, viver nas trevas do pecado, por onde o homem perde inteiramente o senso das coisas e a capacidade de julgar com segurança, com inerrância, as atitudes e tudo o que faz. A justiça humana fica inteiramente falha.

Isso não tinha solução. Solução de mandar um Anjo para segurar o homem e para o orientar? Mais… Ainda que o homem convivesse com um Anjo, ele, em determinado momento, por mais que o Anjo quisesse segurá-lo, ele cometeria a falta, porque a natureza dele não tem forças para resistir às inclinações que se estabeleceram no âmago da alma humana depois do pecado. E pode ser que ele pratique um ato de virtude, uma, duas, dez vezes, mas, em certo momento, com ou sem a presença do Anjo, ele ofenderia a Deus.

Para o arrependimento perfeito é preciso um auxílio especial de Deus

Tragédia, porque uma ofensa a Deus significa uma condenação eterna. Quem vai reparar esta falta cometida pelo homem? Então, a humanidade estava toda condenada ao Inferno. Porque, se não há um auxílio por onde o homem pratique estavelmente a virtude, ele, a não ser que tenha um arrependimento perfeito, vai para o Inferno. Ora, para o homem possuir o arrependimento perfeito, é preciso um auxílio especial de Deus, porque, de si, o homem não chega a esta perfeição.

Então, a situação da humanidade era a pior possível segundo a carta de São João:

Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados de filhos de Deus!

Nós passamos da pior situação possível para a melhor situação que possa haver. Porque os Anjos que caíram, estes eram filhos de Deus. Deixaram de ser filhos de Deus e foram parar no fundo do Inferno, sem possibilidade de nenhuma solução. O homem sai do Paraíso e recebe de presente, nada mais nada menos, o amor do Pai. Que amor? De sermos chamados filhos de Deus. Ser filho de Deus! E ele diz: “E realmente o somos!”

terça-feira, 29 de maio de 2012

A via eleita por Deus para a redenção

O orgulho de nossa natureza decaída leva o homem, não poucas vezes, a imaginar-se Deus ou a Ele procurar igualar-se.
Talvez por essa razão, mas, sobretudo, pelas limitações de nosso estado de contingência, se tivéssemos de imaginar um Salvador, este teria de ser glorioso, transcorrendo sua missão de vitória em vitória, e coroada por um esplendoroso triunfo final. Assim O conceberam os filhos de Zebedeu e sua mãe: “Ele disse-lhe: ‘Que queres?’ Ela respondeu: ‘Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda’” (Mt 20, 21). “Eles responderam: ‘Concede-nos que, na tua glória, um de nós se sente à tua direita e outro à tua esquerda’” (Mc 10, 36-37).
Essa mentalidade acompanhou o povo eleito, inclusive os Apóstolos, até a descida do Espírito Santo, conforme nos declara São Lucas nos Atos dos Apóstolos: “Então, os que se tinham congregado interrogavam-No: ‘Senhor, porventura, chegou o tempo em que vais restaurar o reino de Israel?’” (At 1, 6). Jesus já havia declarado que retornaria ao Pai, que seu Reino não era deste mundo, etc. Entretanto, nada disso bastara; os anseios de domínio não os abandonavam um só instante. Eram essas as idéias fixas que tornaram obscura a fé do povo eleito, dificultando-lhe aderir aos dogmas da Encarnação, Paixão e Morte do Cordeiro de Deus.
De fato, o grande mistério de um Homem-Deus padecente e moribundo, pregado numa cruz entre dois ladrões, abandonado por seu povo, desprezado por todos e, mais especialmente, pelas altas autoridades, só é admissível com uma vigorosa fé. Todavia, essa foi a via eleita por Deus para a Redenção.
A glória não esteve ausente na Paixão do Senhor. Muito pelo contrário, é impossível imaginá-la maior ou, até mesmo, acrescível de alguma fímbria, por minúscula que seja. Porém, ela não pode ser vista através de um prisma meramente temporal. Essa glória só é compreensível através dos mirantes da eternidade. Aliás, se bem que nasçamos nos calendários deste mundo, nosso destino post mortem não tem limites no tempo, e é em função dele que devemos pautar nossa existência.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nova Pentecostes

Quanto se fala de paz, hoje em dia, e quanto se vive no extremo oposto dela! O interior dos corações se encontra penetrado de tédio, apreensão, medo, desânimo e frustração, quando não de orgulho, sensualidade e falta de pudor. A instituição da família vai se tornando uma peça de antiquário. A ânsia de obter, não importa por que meio, sem levar em conta o direito alheio, vai caracterizando todas as nações dos últimos tempos. Em síntese, não há paz individual, nem familiar, nem no interior das nações. Eis porque nossos olhos devem voltar-se à Rainha da Paz a fim de rogar sua poderosa intercessão para que seu Divino Filho nos envie uma nova Pentecostes e seja, assim, renovada a face da terra, como melhor solução para o grande caos contemporâneo. 

sábado, 26 de maio de 2012

Evangelho Pentecostes ano B

Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”.
Na festa de hoje se comemora a descida do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos a qual se encontra tão bem narrada na primeira leitura (At 2, 1-11). Esse acontecimento deu-se depois da subida de Jesus ao Céu e talvez daí decorre o fato de alguns negarem a realidade do grande mistério operado por Ele na ocasião, narrada no versículo em análise. Esse erro, mais explícito no começo do séc. VI, foi solenemente condenado pela Igreja no V Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 552: “Se alguém defende o ímpio Teodoro de Mopsuestia, que disse (...) que depois da Ressurreição, quando o Senhor insuflou sobre os discípulos e lhes disse ‘Recebei o Espírito Santo’ (Jo 20, 22), não lhes deu o Espírito Santo, senão que tão-só o deu figurativamente (...), seja anátema” (8).
O Espírito Santo não procede somente do Pai, mas também do Filho. Ele é o Amor entre ambos. E como definir o amor? É muito mais fácil senti-lo do que defini-lo. Dois amigos que muito se querem, ao se encontrarem depois de longo período de separação, se abraçam fortemente e cheios de alegria. O que significa esse gesto tão espontâneo e efusivo, senão a manifestação de um amor recíproco? Os dois quase desejam, nessa hora, uma fusão de seus seres. O interior das mães se desfaz, suas entranhas parecem estar sendo arrancadas ao verem seus filhos partirem. Os que se amam querem estar juntos e se olhar. E quanto mais robusto é o amor, maior será a inclinação de se unirem.
Ora, quando os dois seres que se amam são infinitos e eternos, jamais esse impulso de união poderá manterse dentro dos estreitos limites de uma mera tendência emocional, como muitas vezes se passa entre nós homens. Entre o Pai e o Filho, esse Amor é tão vigoroso que faz proceder uma Terceira Pessoa, o Espírito Santo.
Nossos amores, em não raras circunstâncias, são volúveis. Deus, muito pelo contrário, porque se contempla a Si próprio, Bom, Verdadeiro e Belo, eterna e irresistivelmente, Se ama desde todo o sempre e para sempre, e, tal qual assevera Santo Agostinho, desse amor faz proceder uma Terceira Pessoa infinita, santa e eterna, o Divino Espírito Santo. O amor é eminentemente difusivo e por isso tende a comunicar-se, a entregar-se.
Curiosa é a diferença de forma empregada por uma e outra Pessoa para se comunicar com os homens.
O Filho veio a este mundo assumindo nossa natureza em humildade e apagamento. Pelo contrário, o Espírito Santo, sem assumir outra natureza, marca sua presença com símbolos de estrépito e majestade. A face da terra será renovada por Ele, daí a manifestação do esplendor, força e rapidez dos fenômenos físicos que acompanharam sua infusão de graças nos que se encontravam reunidos no Cenáculo (conforme a 1ª leitura de hoje, At 2, 1-11), porque eles deveriam ser Apóstolos e testemunhas. Era preciso que fossem iluminados e protegidos, e soubessem ensinar.
No Evangelho de João, essa doação do Espírito Santo tem em vista a faculdade de perdoar os pecados:
 “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes serlhes-ão retidos.”
Que grande dom concedido aos mortais por meio dos sacerdotes: o perdão dos pecados! Por outro lado, que imensa responsabilidade a de um Ministro de Deus! Dele diz São João Crisóstomo: “Se o sacerdote tiver conduzido bem sua própria vida, mas não tiver cuidado com diligência da dos outros, condenar-se-á com os réprobos” (9).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Evangelho Pentecostes Jo 20 19-23 ano B

Continuação do post anterior


Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor.


Por esta atitude do Senhor podemos bem avaliar o quanto o pavor havia penetrado na alma de todos, apesar de ouvirem a voz do Divino Mestre desejando-lhes a paz.


Por isso tornou-se indispensável mostrar-lhes aquelas mãos que tanto haviam curado cegos, surdos, leprosos e inúmeras outras enfermidades, mãos que talvez eles mesmos tivessem, a seu tempo, osculado. Sim aquelas mãos que, havia pouco, tinham sido transpassadas por terríveis cravos. Era preciso comprovarem tratar-se do Redentor, vendo seu lado perfurado pela lança de Longinus.


Naquele momento sentiram a alegria pervadir suas almas, pois constataram não estar diante deles um fantasma, mas sim o próprio Jesus em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Cumpria-se assim sua promessa: “Hei de ver-vos de novo, e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo 16, 22).


Transparece nessa atitude seu profundo intuito apologético, ao fazê-los ver suas santas chagas, ao contrário de como procedera com Santa Maria Madalena, ou até mesmo com os discípulos de Emaús.


Outra nota de bondade consiste no fato de Ele ter velado o esplendor de seu Corpo glorioso, caso contrário a natureza humana dos Apóstolos não teria suportado o fulgor da majestade do Homem-Deus ressurrecto.



Ele disse-lhes novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também vos envio a vós”.

Novamente Jesus lhes deseja a paz, e deixa assim entrever quão importante é a tranquilidade da ordem. Como objetivo imediato, visava Jesus proporcionar-lhes a indispensável serenidade de espírito face às desavenças e mortais perseguições que lhes moveriam os judeus. Por outro lado, Jesus se dirige aos séculos futuros e, portanto, à própria era na qual vivemos. Também a nós Ele nos repete o mesmo desejo de paz formulado aos Apóstolos naquele momento. Sim, especialmente à nossa civilização que tem suas raízes em Cristo — Rei, Profeta e Sacerdote — cuja entrada neste mundo fez-se sob o belo cântico dos Anjos: “Paz na terra” (Lc 2, 14). Não foi outro o dom por Ele oferecido antes de morrer na Cruz, ao despedir-se: “Dou-vos a paz, deixo-vos minha paz” (Jo 14, 27). Entretanto, a humanidade hoje se suicida em guerras, terrorismos e revoluções. E qual a causa? Não queremos aceitar a paz de Cristo.

Tal qual a caridade, a paz começa na própria casa. Antes de tudo, é preciso construí-la dentro de nós mesmos, dando à razão iluminada pela Fé o governo de nossas paixões. Sem essa disciplina, entramos na desordem. Ora, vai se tornando cada vez mais raro encontrar-se um ser humano no qual esse equilíbrio é procurado com base no esforço e na graça. O espontaneísmo domina despoticamente em todos os rincões. Vivemos os axiomas da Sorbonne de 1968: “É proibido proibir” — “A imaginação tomou conta do poder” — “Nada reivindicar, nada pedir, mas tomar, invadir”. Eles pareciam ser para a humanidade uma pedra filosofal de felicidade, sucesso e prazer... Que desilusão!

A paz deve ser a condição normal e corrente para o bom relacionamento social, sobretudo na célula mater da sociedade, a família. Eis um dos grandes males de nossos dias: a autoridade paterna se autodestruiu, a sujeição amorosa da mãe se evanesceu e a obediência dos filhos foi carcomida pelo capricho, desrespeito e revolta. Essas enfermidades morais, transpostas para a vida da sociedade, redundam em luta civil, de classes e até mesmo entre os povos.

A humanidade sofre essas e muitas outras consequências do pecado de ter repudiado a paz de Cristo e abraçado a paz do mundo, ou seja, o consumismo, o igualitarismo, o laicismo, a adoração da máquina, etc.

Sentencia a Escritura: “Não há paz — diz Javé — não há paz para os ímpios” (Is 57, 20). “Curavam as chagas da filha do meu povo com ignomínia, dizendo: Paz, paz; quando não havia paz” (Jer 6,14). Os milênios transcorreram e nos encontramos novamente na mesma perspectiva de outrora, com uma agravante: corruptio optimi pessima (a corrupção do ótimo resulta no péssimo). Sim, a rejeição da paz verdadeira trazida pelo Verbo Encarnado é muito pior do que a impiedade antiga, e de conseqüências ainda mais drásticas.

A ordem fundamental do edifício da paz deriva essencialmente do Evangelho e do Decálogo, ou seja, do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Ele (7). Daí floresce a paz interior do homem e a harmonia com todos os outros, amados por ele com real caridade. Esse é o melhor remédio para todos os males atuais, desde a “epidemia” das depressões — enfermidade paradigmática de nosso século — até o terrorismo. É indispensável reconhecermos em Deus nosso Legislador e Senhor, pois, se ao longo da vida não existir a moral individual nem a familiar, haverá menos ainda o verdadeiro equilíbrio social e internacional. O caos de nossos dias no-lo demonstra em demasia.

Sendo a paz fruto do Espírito Santo, fora do estado de graça, e da prática da caridade, não nos é dado encontrá-la. Por isso quem se torna empedernido no pecado não pode gozar da paz: “Mas os malvados são um mar proceloso que não pode aquietar-se e cujas ondas revolvem lodo e lama. Não há paz — diz Javé — para os ímpios” (Is 57, 20).

O mesmo Isaías nos proclama a prodigalidade e a grandeza da bondade de Deus para com os justos: “Porque assim diz Javé: Vou derramar sobre ela (Jerusalém) a paz como um rio, e a glória das nações como torrentes transbordantes” (Is 66, 12).

Essa é a razão mais específica do fato de Jesus ter desejado uma segunda vez a paz a seus discípulos. É Ele o autor da graça e, portanto, o autor da paz: “Cristo é a nossa paz” (Ef 2, 14). “A graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo” (Jo 1, 17).

Após esse segundo voto de paz, Jesus envia seus discípulos à ação, tornando claro o quanto é necessário jamais se deixar tomar pelo afã dos afazeres, perdendo a serenidade. Um dos elementos essenciais para o apostolado bem sucedido é a paz de alma de quem o faz.

Outro importante aspecto a considerar neste versículo é a afirmação do princípio da mediação tão do agrado de Deus. Jesus se apresenta aqui como o Mediador Supremo junto ao Pai e, ao mesmo tempo, constitui os Apóstolos como mediadores entre o povo e Ele. Aqui podemos medir quanto são enganosas as máximas igualitárias ao procurarem destruir o senso de hierarquia.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

19 Chegada a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana, e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam juntos, por medo dos judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”
A prova pela qual haviam passado os Apóstolos excedia as forças da frágil natureza humana e, apesar do testemunho entusiasmado de Maria Madalena, não lhes era fácil crer na Ressurreição; talvez seu abatimento fosse o resultado de não se julgarem dignos de receber uma aparição do Senhor, segundo pondera São João Crisóstomo, devido ao horroroso abandono no qual deixaram o Mestre em sua agonia.
Na sua bondade infinita, Jesus não deixou transcorrer muito tempo para se manifestar também a eles. Escolheu uma excelente oportunidade para tal: no entardecer e estando as portas fechadas, para tornar ainda mais patente a grandeza do milagre de sua Ressurreição.
A chegada da noite é o momento em que a apreensão cresce no interior de todos os temerosos. Por outro lado, penetrar num recinto com portas e janelas fechadas, só mesmo em corpo glorioso poderia alguém realizar tamanho prodígio.
Qual seria o lugar onde estavam reunidos, não se sabe com exatidão. A hipótese mais provável recai sobre o Cenáculo.
Outro particular interessante é a posição escolhida por Cristo para lhes dirigir a palavra. Ele poderia ter preferido saudá-los logo à entrada, entretanto caminhou entre eles e foi colocar-Se bem ao centro. Esse deve ser sempre o posto de Jesus em todas as nossas atividades, preocupações e necessidades. O deixá-Lo de lado, além de ser falta de respeito e consideração, é condenar ao fracasso qualquer iniciativa, por melhor que seja.
Sua saudação também nos chama especialmente a atenção: “A paz esteja convosco”.
À primeira vista seríamos levados a julgar compreensível que Ele desejasse acalmá-los das perturbações que os acometiam desde a prisão no Horto das Oliveiras. E de fato, esse bem poderia ser um de seus intentos, mas o significado mais profundo não reside nessa interpretação. Para melhor o entendermos, perguntemo-nos o que é paz.
“Paz é a tranquilidade da ordem”, diz Santo Agostinho (4), ou seja, uma ordem permanentemente tranquila. E São Tomás demonstra ser a paz efeito próprio e específico da caridade, pois todo aquele que está em união com Deus vive na perfeita ordem, ao harmonizar todas as suas potências, sentidos e faculdades à sua causa eficiente e final (5). Essa união faz brotar na alma que a possui um profundo repouso interior e nem sequer os inimigos externos a perturbam, porque nada lhe interessa a não ser Deus: “Se Deus está conosco, quem será contra nós?” (Rom. 8, 31).
Ora, sabemos pela Teologia que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade e procede do Pai e do Filho por via do Amor. N’Ele está a raiz, ou semente, da qual nasce o fruto da caridade. Ao amarmos a Deus e ao próximo, a alegria e o consolo penetram em nosso interior. Desse amor e gozo, procede a paz (6).
Jesus, desejando-lhes a paz, oferecia-lhes um dos principais frutos desse Amor infinito que é o Espírito Santo.
Continua...