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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Homilia Mons João Clá Dias

Comentários de Mons João Clá Dias à Leitura do Livro do Profeta Jeremias 31,31-34
31“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; 32 não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão para retirá-los da terra do Egito, e que eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor.

33 Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. 34 Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’; todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES – ANO C – Jo 20, 19-23

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO PENTECOSTES – ANO C – Jo 20, 19-23
19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.
20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.
22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. (Jo 20, 19-23).
"Formamos um só corpo, e todos nós bebemos de um só Espírito" (1 Cor 12, 13). Quem é o Espírito Santo, como foram as circunstâncias e quais as principais graças concedidas a Maria e aos discípulos por ocasião de Pentecostes? Eis os ensinamentos que a Liturgia nos coloca à disposição na festa de hoje, fazendo-nos compreender onde se encontra a verdadeira paz.
I - A IGREJA POR OCASIÃO DE PENTECOSTES
Oração numa atmosfera de harmonia e concórdia
Como outras tantas festas litúrgicas, Pentecostes nos faz recordar um dos grandes mistérios da fundação da Igreja por Jesus. Encontrava-se ela em estado ainda quase embrionário - alegoricamente, poder-se-ia compará-la a uma menina de tenra idade - reunida em torno da Mãe de Cristo. Ali no Cenáculo, conforme nos descrevem os Atos dos Apóstolos na primeira leitura, passaram-se fenômenos místicos de excelsa magnitude, acompanhados de manifestações sensíveis de ordem natural: ruído como de um vento impetuoso, línguas de fogo, os discípulos exprimindo-se em línguas diversas sem tê-las antes aprendido. A alta significação simbólica do conjunto desses acontecimentos, como de cada um em particular, constituiu matéria para inúmeros e substanciosos comentários de exegetas e teólogos de grande valor, como se torna claro por anteriores observações feitas por nós em artigo publicado em 2002 (1). Hoje, cabe-nos ressaltar outros aspectos de não menor importância correlacionados com a narração feita por São Lucas (At 2, 1-11), para assim melhor entender o Evangelho em questão e, portanto, a própria festividade de Pentecostes.
Enquanto figura exponencial, destaca- se Maria Santíssima, predestinada desde toda a eternidade a ser Mãe de Deus. Dir-se-ia que havia atingido a plenitude máxima de todas as graças e dons, entretanto, em Pentecostes, mais e mais Lhe seria concedido. Assim como fora eleita para o insuperável dom da maternidade divina, cabia-Lhe o tornar-se Mãe do Corpo Místico de Cristo e, tal qual se deu na Encarnação do Verbo, desceu sobre Ela o Espírito Santo, por meio de uma nova e riquíssima efusão de graças, a fim de adorná-La com virtudes e dons próprios e proclamá-La "Mãe da Igreja".
Em seguida estão os Apóstolos; constituem eles a primeira escola de arautos do Evangelho. Observavam as condições essenciais para estarem aptos à alta missão que lhes destinara o Divino Mestre, conforme nos relata a Escritura: "Todos estes perseveraram unanimemente em oração, com algumas mulheres e com Maria, Mãe de Jesus, e com os seus irmãos" (At 1, 14).
Essa perseverança na oração se realizou de forma continuada e no silêncio, na solidão e clausura do Cenáculo. A atmosfera era de máxima concórdia, harmonia e união entre todos, de verdadeira caridade fraterna. São Lucas em seu relato faz questão de realçar a presença de Maria, certamente para tornar patente o quanto Ela mesma se alegrava em ser uma fiel participante da Comunidade. Uma nota marcante é a submissão e obediência ao Vigário de Cristo tal qual transparece nos versículos subsequentes, ao relatarem o primeiro ato de governo e jurisdição de São Pedro (At 1, 15-22).

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A justiça e a misericórdia


É sempre bom pensar na justiça de Deus para aqueles que escolhem o caminho do mal, pois quando nos falta o amor a Deus, o temor nos mantem no caminho da virtude.
Ouça a homilia de Mons João Clá Dias.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Provai e vede quão suave é o Senhor

São Paulo nos convida, nesta leitura, a amar o próximo, tornando-nos imitadores de Deus e de sua bondade.

Assista a homilia proferida por Mons João Clá Dias.


sábado, 11 de maio de 2013

EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES Jo 20,19-23 Ano C 2013


Comentários ao Evangelho da Solenidade de Pentecostes Jo 20, 19-23



19 Chegada a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana, e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam juntos, por medo dos judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!” 20 Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor. 21 Ele disse-lhes novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também vos envio a vós”.

22 Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. 23 Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 19-23).

 A IGREJA POR OCASIÃO DE PENTECOSTES
Oração numa atmosfera de harmonia e concórdia
Como outras tantas festas litúrgicas, Pentecostes nos faz recordar um dos grandes mistérios da fundação da Igreja por Jesus. Encontrava-se ela em estado ainda quase embrionário — alegoricamente, poder-se-ia compará-la a uma menina de tenra idade — reunida em torno da Mãe de Cristo. Ali no Cenáculo, conforme nos descrevem os Atos dos Apóstolos na primeira leitura, passaram-se fenômenos místicos de excelsa magnitude, acompanhados de manifestações sensíveis de ordem natural: ruído como de um vento impetuoso, línguas de fogo, os discípulos exprimindo-se em línguas diversas sem tê-las antes aprendido.
Enquanto figura exponencial, destaca-se Maria Santíssima, predestinada desde toda a eternidade a ser Mãe de Deus. Dir-se-ia que havia atingido a plenitude máxima de todas as graças e dons, entretanto, em Pentecostes, mais e mais Lhe seria concedido. Assim como fora eleita para o insuperável dom da maternidade divina, cabia-Lhe agora o tornar-se Mãe do Corpo Místico de Cristo e, tal qual se deu na Encarnação do Verbo, desceu sobre Ela o Espírito Santo, por meio de uma nova e riquíssima efusão de graças, a fim de adorná-La com virtudes e dons próprios e proclamá-La “Mãe da Igreja”.
Em seguida estão os Apóstolos; constituem eles a primeira escola de arautos do Evangelho. Observavam as condições essenciais para estarem aptos à alta missão que lhes destinara o Divino Mestre, conforme nos relata a Escritura: “Todos estes perseveraram unanimemente em oração, com algumas mulheres e com Maria, Mãe de Jesus, e com os seus irmãos” (At 1, 14). Essa perseverança na oração se realizou de forma continuada e no silêncio, na solidão e clausura do Cenáculo. A atmosfera era de máxima concórdia, harmonia e união entre todos, de verdadeira caridade fraterna. São Lucas em seu relato faz questão de realçar a presença de Maria, certamente para tornar patente o quanto Ela mesma se alegrava em ser uma fiel participante da Comunidade. Uma nota marcante é a submissão e obediência ao Vigário de Cristo tal qual transparece nos versículos subsequentes, ao relatarem o primeiro ato de governo e jurisdição de São Pedro (At 1, 15-22).
Em síntese, a verdadeira eficácia do apostolado está aí evidenciada, sob o manto da Santíssima Virgem, na união efetiva e afetiva de todos com a Pedra sobre a qual Cristo edificou sua Igreja.
A eficácia da ação encontra-se na contemplação
Esse grande acontecimento foi precedido não só dos dez dias de oração contínua, mas também de muitos outros momentos de recolhimento. O trauma havido por ocasião da dramática Paixão do Salvador exigia horas e horas de isolamento e reflexão. Ademais, o temor de novas perseguições e traições impunha-lhes prudência, além do abandono das atividades comuns do apostolado anterior.
Curiosamente, em geral, Cristo Ressurrecto escolhia oportunidades como essas — de reflexão e compenetração da parte de todos — para lhes aparecer, assim como o Espírito Santo para lhes infundir seus dons. Esta é uma importante lição que a Liturgia de hoje nos oferece: a verdadeira eficácia da ação encontra-se na contemplação. O próprio Apóstolo por excelência, que chegou a exclamar: Vae enim mihi est, si non evangelizavero! — “Ai de mim se eu não evangelizar!” (I Cor 9, 16), passou um longo período de oração no deserto a fim de preparar-se para a pregação.
Quem toma o trabalho de analisar passo a passo as atividades de um varão zeloso e apostólico pode vir a equivocar-se julgando serem elas puro fruto de sua personalidade empreendedora, ou de seu caráter dinâmico, ou até mesmo de sua constituição psicofísica. São numerosos os homens operantes e profícuos que arrancam de seu ser o inimaginável. Onde se encontram, de fato, as energias empregadas por esses leões da fé e da eficiência? Mais ainda poderíamos nos perguntar: como conseguem eles, em meio à avalanche de atividades, conservar um coração brando e suave no trato com os outros?
Lembremo-nos do conselho dado por São Bernardo de Claraval ao papa da época, Eugênio III: “Temo que em meio de tuas inumeráveis ocupações te desesperes de não poder levá-las a cabo e se endureça tua alma. Obrarias com cordura abandonando-as por algum tempo para que elas não te dominem nem te arrastem para onde não quiseras chegar. Talvez me perguntes: ‘Aonde?’ (...) Ao endurecimento do coração. Aí vês para onde te podem arrastar essas ocupações malditas se continuas entregando-te a elas totalmente, como até agora, sem reservar nada para ti” (2).
Trata-se de um Doutor da Igreja aconselhando o Doce Cristo na terra daqueles tempos, no exercício da mais alta função: o governo dessa instituição divina. Pois bem, segundo seu parecer, tão elevadas ocupações, sem o auxílio da vida interior, são malditas. Essa sempre foi a postura de alma dos santos, espiritualistas e Padres da Igreja. Santo Agostinho afirma, por exemplo: “Todo apóstolo, antes de soltar a língua, deve elevar a Deus com avidez sua alma, para exalar o que deva, e distribuir sua plenitude".
Continua no próximo post

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

Continuação dos comentários ao Evangelho  Mc 12, 38-44

Os dois polos
Também nós devemos ser generosos para com Deus, tanto quanto Ele é generoso para conosco. Temos de entregar-Lhe tudo! Entretanto, isto não pode ser interpretado como uma obrigação de nos desfazermos de tudo quanto nos pertence e passarmos a viver de esmolas. Algumas poucas pessoas recebem essa sublime vocação. Trata-se, isto sim, de compreender que todos os nossos bens — e inclusive nós mesmos — são propriedade de Deus.
A Liturgia de hoje nos apresenta uma opção entre dois polos: o da generosidade total ou o do egoísmo total. Ou escolhemos um e odiamos o outro, ou vice-versa. Ou somos de Deus inteiramente, ou somos inteiramente de nós mesmos. No meio termo ninguém fica.
Se temos uma vocação de vida consagrada, precisamos estar a cada momento dispostos a dar tudo, não apenas por causa de um compromisso assumido numa cerimônia, mas pela convicção de que nossa vida está confiscada por Deus.
No entanto, como aplicar esse princípio à vida de quem é chamado a constituir família e tem, portanto, o dever de estado de prover da melhor maneira possível os seus? A resposta é simples. Esse “dar tudo” não significa desfazer-se literalmente das próprias posses, mas sim ter em relação a elas uma atitude de tal desprendimento que elas não se constituam em amarras que impeçam a elevação de nossas almas até as coisas celestes. Se não for assim, acaba-se por cair no desvio dos doutores da Lei, denunciado por Nosso Senhor neste trecho do Evangelho de São Marcos.
Na generosidade, a perfeita alegria
O exemplo supremo do dar, dar de si e dar-se por inteiro, nós o encontramos na segunda leitura deste domingo, tirada da epístola de São Paulo aos Hebreus (Hb 9, 24-28). O Pai tinha um Filho unigênito, gerado desde toda eternidade, e não criado. O amor d’Ele ao Filho e do Filho a Ele é tão intenso que d’Eles procede uma Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo.
Apesar desse amor entranhado, o Pai resolveu entregar seu Filho para resgatar a natureza humana, extraviada pelo pecado. E o Filho, que deveria encarnar-Se na glória, uma vez que sua alma está na visão beatífica, suspendeu essa lei para assumir uma natureza mortal.5 Ele queria dar, dar de Si e dar-Se por inteiro, e, por amor a nós, assumiu um corpo padecente, sujeito a todas as dificuldades da vida nesta Terra. “Uma vez por todas, Ele Se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (Hb 9, 24-26).
Eis o exemplo divino, convidando cada um de nós a, segundo nossos deveres e possibilidades, dar não só daquilo que nos sobra, mas dar tudo. Foi Deus quem nos criou e redimiu, e por isso a Ele pertencemos. Tudo é d’Ele e deve voltar para Ele.
E assim como o Sol, a água ou as árvores, se fossem passíveis de felicidade, estariam completamente felizes pelo dom generoso de si, também nós encontraremos nossa perfeita alegria no dar, dar de nós e dar-nos por inteiro.
Remédio para nossas misérias e amparo contra as tentações
Quando alguém dá de si, seu egoísmo acaba sendo sufocado em benefício do serviço aos outros. Servir — quer seja dando um bom exemplo, um bom conselho, ou prestando algum auxílio — repara as nossas faltas e ao mesmo tempo nos afasta do pecado. Assim, um modo de adquirirmos forças para enfrentar as tentações é fazer o dom de nós mesmos.
Pelo contrário, quem se fecha em seu egoísmo, desprepara-se para o momento sempre presente da tentação, pois basta-nos existir para sermos um foco de solicitações para o pecado, como diz São Pedro: “Sede sóbrios e vigiai. O vosso adversário, o diabo, ronda como leão a rugir, procurando a quem devorar” (I Pd, 5, 8).
Procuremos a felicidade onde ela se encontra
Nada traz mais felicidade a uma alma do que devolver a Deus aquilo que Lhe pertence. A justiça consiste em “dar a cada um o seu direito”.6 Ora, se vêm de Deus todas as coisas que foram criadas e estão à disposição do homem, este é devedor de tudo quanto d’Ele recebeu. O empréstimo faz parte dos acordos entre os homens. Quem empresta fica à espera da devolução do bem emprestado; e quem o tomou de empréstimo tem obrigação de devolvê-lo ao dono. Ora, se isto é assim no relacionamento humano, não podemos nos esquecer: tudo o que temos não é senão um empréstimo de Deus! Desde nossa vida, até nossas capacidades e qualidades, passando por todos os nossos bens.
Assim seremos livres, pois só é realmente livre quem é justo, e põe nas mãos de Deus tudo o que d’Ele recebeu.
Daria indícios de loucura quem, tendo perdido alguma coisa dentro de um teatro, fosse procurá-la do lado de fora, alegando que a rua está mais iluminada. E o que faz o mundo hodierno? Por ter-se afundado no egoísmo, corre atrás da felicidade onde ela não se encontra. Proclamando que a liberdade consiste em entregar-se à sanha das paixões e das más inclinações, vai à procura da felicidade no vício, no pecado e em quantas loucuras, onde encontra, não a felicidade, mas a frustração, a depressão e, por vezes, as doenças. Dessa maneira, o egoísmo, fustigado por Nosso Senhor no Evangelho de hoje, já é castigado aqui na Terra, sendo ainda merecedor da pena eterna.
A verdadeira alegria está na generosidade virtuosa, pois é nela que o homem cumpre inteiramente sua finalidade de “conhecer, servir e amar a Deus” neste mundo, de modo a “ser elevado à vida com Deus no Céu”.7
1Cf. LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: J. Gabalda et Fils, 1929, p.328.
2TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.499-500.
3Idem, p.710.
4Idem, p.710-711.
5Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.14, a.1, ad 2.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.58, a.1.
7Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n.67.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho — 24º domingo do Tempo comum - Mc 8, 27-35

Acompanhe os comentários ao Evangelho Mc 8, 27-35 neste blog
Saiu Jesus com os seus discípulos pelas aldeias de Cesaréia de Filipe. Pelo caminho, interrogou os discípulos: “Quem dizem os homens que Eu sou?” 28 Eles responderam-Lhe: “Uns dizem que João Batista, outros que Elias, e outros que algum dos profetas”. 29 Então perguntou-lhes: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”. 30 Então Jesus ordenou-lhes severamente que não dissessem isto d’Ele a ninguém.
31 E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem padecesse muito, que fosse rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que ressuscitasse depois de três dias. 32 E falava destas coisas claramente. Pedro, tomando-O à parte, começou a repreendê-Lo. 33 Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os seus discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: “Retira-te daqui, Satanás, que não aprecias as coisas de Deus, mas sim as dos homens”.
34 Depois, chamando a Si o povo com os seus discípulos, disse-lhes: “Se alguém quer seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35 Porque quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a vida por amor de Mim e do Evangelho, salva-la-á” (Mc 8, 27-35).
 A via eleita por Deus para a redenção
O orgulho de nossa natureza decaída leva o homem, não poucas vezes, a imaginar-se Deus ou a Ele procurar igualar-se.
Talvez por essa razão, mas, sobretudo, pelas limitações de nosso estado de contingência, se tivéssemos de imaginar um Salvador, este teria de ser glorioso, transcorrendo sua missão de vitória em vitória, e coroada por um esplendoroso triunfo final. Assim O conceberam os filhos de Zebedeu e sua mãe: “Ele disse-lhe: ‘Que queres?’ Ela respondeu: ‘Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda’” (Mt 20, 21). “Eles responderam: ‘Concede-nos que, na tua glória, um de nós se sente à tua direita e outro à tua esquerda’” (Mc 10, 36-37).
Essa mentalidade acompanhou o povo eleito, inclusive os Apóstolos, até a descida do Espírito Santo, conforme nos declara São Lucas nos Atos dos Apóstolos: “Então, os que se tinham congregado interrogavam-No: ‘Senhor, porventura, chegou o tempo em que vais restaurar o reino de Israel?’” (At 1, 6). Jesus já havia declarado que retornaria ao Pai, que seu Reino não era deste mundo, etc. Entretanto, nada disso bastara; os anseios de domínio não os abandonavam um só instante. Eram essas as ideias fixas que tornaram obscura a fé do povo eleito, dificultando-lhe aderir aos dogmas da Encarnação, Paixão e Morte do Cordeiro de Deus.
De fato, o grande mistério de um Homem-Deus padecente e moribundo, pregado numa cruz entre dois ladrões, abandonado por seu povo, desprezado por todos e, mais especialmente, pelas altas autoridades, só é admissível com uma vigorosa fé. Todavia, essa foi a via eleita por Deus para a Redenção.
A glória não esteve ausente na Paixão do Senhor. Muito pelo contrário, é impossível imaginá-la maior ou, até mesmo, acrescível de alguma fímbria, por minúscula que seja. Porém, ela não pode ser vista através de um prisma meramente temporal. Essa glória só é compreensível através dos mirantes da eternidade. Aliás, se bem que nasçamos nos calendários deste mundo, nosso destino post mortem não tem limites no tempo, e é em função dele que devemos pautar nossa existência.
Esse é o fundo de quadro no qual se desenrola a Liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum.
A síntese do presente Evangelho se concentra em dois extremos harmônicos. De um lado, recebem os Apóstolos a revelação da divindade de Jesus e, de outro, da Paixão do Senhor. Como anexos a esse quadro de enorme paradoxo, há a reação de Pedro e, por fim, a declaração de Jesus sobre a condição para segui-Lo: “Tome a sua cruz”.

Continua no próximo post

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B

Continuação

O surdo de Deus
Ouvir a voz de Deus é tomar a atitude de Samuel: “Falai, Senhor; vosso servo escuta!” (11), ou a de São Paulo no caminho de Damasco (12), ou a de tantos outros. Em sentido oposto, o pecador, devido à zoeira de suas paixões, acaba por tornar-se surdo aos apelos de Deus, chegando até mesmo a esquecer-se das mensagens sobrenaturais recebidas no passado. A surdez simboliza toda a insensibilidade da alma no seu relacionamento com o Criador.
Inúmeros são os meios pelos quais Deus procura entrar em contato conosco. Antes de tudo pela própria ordem da criação visível (13); em seguida, através dos fatos palpáveis e tangíveis produzidos pela providência natural e sobrenatural, sobre os quais o Livro da Sabedoria nos ensina maravilhosamente (14). Deus fala aos homens através do Magistério infalível da Santa Igreja, como também por toques sensíveis da graça, e até mesmo pela voz da consciência. A Sabedoria, segundo declara a Escritura, “antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.” (15) Ou seja, Deus está continuamente nos chamando para participarmos de sua glória e felicidade eternas.
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, — disse Jesus —e Eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (16). Eis o sinal inconfundível para se saber quem é de Deus e quem não o é: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus” (17), disse Nosso Senhor, depois de ter afirmado serem os fariseus, filhos do demônio (18). É mais sensível a Deus quem O ama intensamente, tal como encontramos em São João: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (19).
Infelizmente, a surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas históricas. Inclusive entre os próprios batizados. Um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à palavra de Deus, quer seja por falta de formação, quer pela pobreza da oração. Quantos são os ateus práticos que nunca rezam! Entretanto, para receber alguma comunicação oriunda da eternidade, basta colocar-se em estado de contemplação. Quem assim não procede, dificilmente discernirá, em meio à zoeira e às aflições do mundo moderno, a voz da graça. E é preciso não esquecermos o conselho da Escritura: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações” (20)
O mutismo espiritual
Ser mudo na ordem do espírito, segundo a Patrologia, consiste no silêncio de quem teria obrigação de glorificar a Deus. Terrível é este mal — e quase sempre consequência do anterior — pois, ainda que não tivéssemos sido elevados à ordem sobrenatural, pelo simples fato de sermos criaturas de Deus, teríamos o dever de reportar a Ele toda honra e glória, tal qual nos diz Davi: “Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (21).
Porém nós, enquanto batizados, somos filhos de Deus, e não meras criaturas, e por isso compete-nos o encargo de dar público testemunho da grandeza de nossa religião e de Cristo Jesus em especial, pois tem Ele o direito de ver seu esplendor manifestado diariamente. É este um dos meios fundamentais para atrair aqueles que ainda não O conhecem e afervorar os que já abraçaram suas vias.
Esta obrigação é tão grave que se tivéssemos de escolher entre morrer ou renegar a Cristo, seria indispensável optar pelo martírio. Por que somos nós tão valentes em defender nossos interesses pessoais e tão covardes em relação aos de Deus? “Onde está teu tesouro, aí está teu coração” (22), esta é a principal razão do mutismo de espírito, ou seja, a falta do amor a Deus. “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro” (23). Se nosso amor a Jesus por meio de Maria for pleníssimo a ponto de substituir nosso egoísmo, jamais seremos mudos para glorificá-Lo.

Os comentários ao evangelho Mc 7, 31-37 continuam no próximo post.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Evangelho 23º Domingo do Tempo comum Ano B - Mc 7, 31-37

Continuação

 “Apresentaram-Lhe…”
O apostolado leigo
Se o tal surdo-mudo não tivesse sido levado por outros para junto de Jesus, provavelmente não teria recuperado a fala e a audição. É comovedor encontrar no Evangelho — e com frequência — menção à solicitude do povo judeu para com os necessitados, às vezes incapazes de se locomoverem por suas próprias forças. Chegavam a introduzi-los pelo telhado, ao interior da casa onde estava Jesus (6); ou lançavam aos seus divinos pés grande quantidade de coxos, cegos, mudos, estropiados, etc. (7); ou, em casos extremos, os conduziam em macas e os colocavam nas praças para que pudessem tocar nas vestimentas do Messias, pois assim se curariam (8). Se não tivesse havido esse apostolado colateral, Jesus não teria operado aqueles milagres...
O Senhor quer o apostolado exercido pela Hierarquia e foi assim constituída sua Igreja. Mas, não só aprova como até mesmo deseja que os movimentos leigos atuem em colaboração com a autoridade eclesiástica. Não eram os Apóstolos e nem sequer os discípulos os instrumentos utilizados para levar os necessitados até Jesus. Nesse episódio transparece o verdadeiro papel dos movimentos leigos que nosso atual Papa tanto faz para estruturar, proteger e promover, e dos quais chegou a afirmar serem “a resposta, suscitada pelo Espírito Santo, a este dramático desafio do final de milênio” (9).
Nós, os leigos, jamais devemos nos esquecer da essência, da força e do objetivo de nosso apostolado: conduzir todos a se aproximarem de Jesus, para tocá-Lo ou pelo menos vê-Lo. Ele é Quem dá o crescimento “De modo que não é nada, nem aquele que planta, nem aquele que rega, mas Deus que dá o crescimento” (10). Será estéril todo apostolado que não levar os demais a terem um contato com Jesus, pois é somente d’Ele que procede a virtude saneadora e salvadora. Por essa razão, nosso labor apostólico será eficaz se levarmos para a vida sacramental quantos a Providência coloque em nosso caminho. Essa altíssima tarefa pode ser exercida através da oração, da palavra, do exemplo e da ação direta.
E o melhor meio para isso é fazer tudo através de Nossa Senhora, segundo nos ensinam a Igreja e tantos santos, em especial, São Luís Maria Grignion de Montfort.
“UM SURDO-MUDO”
Percebe-se, pela narração, tratar-se de uma enfermidade contraída, e não congênita, pois, ao soltar-se a língua, passou a falar “perfeitamente”; portanto, aprendera a conversar desde a infância. Apesar de ser raro, esse trauma do impedimento da normal locução às vezes se estabelece nestes ou naqueles, constituindo um tormento para suas vítimas. Neste caso concreto do Evangelho, além do mais, o pobre homem era surdo e, segundo muitos exegetas, esses dois problemas tiveram uma só origem e surgiram concomitantes após uma infecção ou qualquer outra doença.
As Escrituras Sagradas possuem, além do sentido literal, incontáveis outros espirituais. Isso ocorre também neste milagre narrado por São Marcos. Enquanto fato concreto, ele representa um elemento a mais para fortalecer os fundamentos de nossa fé em Nosso Senhor. Mas, sob um prisma simbólico, conforme interpretam os Santos Padres, a surdez representa o endurecimento da alma que já não mais ouve a voz da graça, o chamado de Cristo; e a mudez, o esquecimento ou o relaxamento em louvar a Deus. Não poucas vezes, o próprio Salvador chegou a queixar-se dos judeus que, tendo uma audição normal, não ouviam.
O surdo de Deus
Ouvir a voz de Deus é tomar a atitude de Samuel: “Falai, Senhor; vosso servo escuta!” (11), ou a de São Paulo no caminho de Damasco (12), ou a de tantos outros. Em sentido oposto, o pecador, devido à zoeira de suas paixões, acaba por tornar-se surdo aos apelos de Deus, chegando até mesmo a esquecer-se das mensagens sobrenaturais recebidas no passado. A surdez simboliza toda a insensibilidade da alma no seu relacionamento com o Criador.
Inúmeros são os meios pelos quais Deus procura entrar em contato conosco. Antes de tudo pela própria ordem da criação visível (13); em seguida, através dos fatos palpáveis e tangíveis produzidos pela providência natural e sobrenatural, sobre os quais o Livro da Sabedoria nos ensina maravilhosamente (14). Deus fala aos homens através do Magistério infalível da Santa Igreja, como também por toques sensíveis da graça, e até mesmo pela voz da consciência. A Sabedoria, segundo declara a Escritura, “antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.” (15) Ou seja, Deus está continuamente nos chamando para participarmos de sua glória e felicidade eternas.
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, — disse Jesus —e Eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (16). Eis o sinal inconfundível para se saber quem é de Deus e quem não o é: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus” (17), disse Nosso Senhor, depois de ter afirmado serem os fariseus, filhos do demônio (18). É mais sensível a Deus quem O ama intensamente, tal como encontramos em São João: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (19).
Infelizmente, a surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas históricas. Inclusive entre os próprios batizados. Um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à palavra de Deus, quer seja por falta de formação, quer pela pobreza da oração. Quantos são os ateus práticos que nunca rezam! Entretanto, para receber alguma comunicação oriunda da eternidade, basta colocar-se em estado de contemplação. Quem assim não procede, dificilmente discernirá, em meio à zoeira e às aflições do mundo moderno, a voz da graça. E é preciso não esquecermos o conselho da Escritura: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações” (20)

Continua no próximo post

6) Lc 5, 17-20
7) Mt 15, 30
8) Mc 6, 55-56
9) Discurso aos participantes do
Congresso Mundial dos Movimentos
Eclesiais, 27/5/1998
10) I Cor 3, 7
11) 1 Sm 3, 10
12) At 9, 6
13) Rom 1, 20
14) Cf. do cap. 10 em diante
15) Sb 6, 14
16) Jo 10, 27-28
17) Jo 8, 47
18) Cf. Jo 8, 44
19) Jo 14, 23
20) Hb 3, 7-8

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Jo 6, 60-69

Continuação dos posts anteriores-  Fim

65 Depois acrescentou: “Por isso Eu vos disse que ninguém pode vir a Mim se não lhe for concedido por meu Pai”. 66 Desde então, muitos dos seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele.
Quem, com precisão e síntese, comenta estes dois versículos é Frei Manuel de Tuya, OP: “Mas esses ensinamentos de Cristo não encontraram em ‘muitos’ de seus discípulos a atitude de fé e submissão requeridas. E as palavras que eles qualificaram de ‘duras’ lhes endureceram a vida. E não ‘creram’ n’Ele. Abandonaram Cristo ‘desde então’ — seja no sentido causal (Jo 19, 12), seja no temporal (Jo 19, 27), embora ambos os sentidos aqui se unam, porque, sendo ‘então’ ou ‘desde então’, foi precisamente ‘por causa disto’. Num instante romperam com Ele, retrocederam, e já ‘não O seguiam’” (19).
Jesus põe à prova os Apóstolos
67 Por isso Jesus disse aos doze: “Também vós quereis retirar-vos?”
Há um determinado momento da caminhada para o Reino em que se torna necessário, de nossa parte, uma adesão consciente e explícita.
Jesus, com uma delicadeza divina, coloca ante seus Apóstolos o problema. Compreendia Ele o quanto agrada ao homem o apoio de suas amizades, mas discernia, de outro lado, a firme decisão previamente tomada por eles de O seguirem, o que Lhe permitia fazer essa pergunta para lhes tornar explícita a adesão à sua Pessoa.
A resposta de Pedro
68 Simão Pedro respondeu-Lhe: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna”.
Uma vez mais, São Pedro toma a palavra para, interpretando o desejo de todos, responder ao Divino Mestre. Tertuliano afirmará mais tarde: “Anima humana naturaliter christiana”. De fato, consciente ou inconscientemente, quando procuramos obter bens que nos trarão felicidade, é a Cristo que nós buscamos. Ninguém, como Ele, tem palavras de vida eterna. A esse propósito comenta Santo Agostinho que, de forma implícita, Pedro pede a Jesus para lhes conceder outro Ele mesmo, no caso de mandá-los embora.
Belo exemplo para nós, segundo São João Crisóstomo, ao vermos nossos irmãos abandonarem a Fé. Ainda que restemos poucos ou fiquemos até mesmo sozinhos, devemos permanecer na plena fidelidade, pois quem ou o que nos dará felicidade fora de Cristo?
69 E nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus.
Santo Agostinho ressalta que Pedro, primeiramente, manifesta sua crença (“acredita”), para, em seguida, dizer que, por causa dela, entende (“sabe”). Segundo o Bispo de Hipona, se fosse ao contrário, não conheceria e nem acreditaria (20).
Essa declaração de Pedro é uma síntese de nossa Fé: “Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo” e, evidentemente, aceitando-se o que Ele ensina, chega-se à plenitude dessa virtude.
A virtude da obediência
Sendo Deus o Senhor de toda a Criação, os seres inteligentes — anjos e homens — têm a obrigação de reconhecer, amar e servir esse senhorio. Os inanimados assim procedem fisicamente, e os irracionais, de forma instintiva. Ele é Senhor de todas as nossas faculdades e, sobretudo, de nosso entendimento e vontade. Daí ter afirmado São João da Cruz que no entardecer desta vida seremos julgados segundo o amor, pois estamos obrigados a querer o que Deus deseja que queiramos (21).
Ora, na ordem do universo está incluída a vontade do homem a qual, livremente, deve estar em harmonia com a de Deus através da virtude da obediência (22). Esta última não é uma virtude superior às teologais: Fé, Esperança e Caridade. Entretanto, é um meio veloz para unirmo-nos a Deus e sermos agradabilíssimos a Ele. Através dela fazemos uma entrega em suas adoráveis mãos com mais valor do que se fizéssemos qualquer sacrifício (23): “Aquele que diz conhecê-Lo e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso (...) Mas quem guarda sua palavra, neste o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. Nem sofrer o martírio, nem distribuir aos pobres todos os bens, têm mérito algum, se não se ordenam ao cumprimento da vontade divina” (24).
Aí está bem focalizado o convite à prática da obediência que nos é feito na Liturgia deste 21º Domingo do Tempo Comum: na primeira Leitura, com as palavras de Josué: “Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24, 15), obtendo do povo a resposta: “Nós também serviremos ao Senhor, porque Ele é nosso Deus” (24,18); também na epístola de Paulo: “Submetei-vos uns aos outros, no temor de Cristo (...) Cristo também é a cabeça da Igreja, seu Corpo (...) como a Igreja se submete a Cristo (...) como Cristo também amou a Igreja e Se entregou por ela” (Ef 5, 21-25); e, sobretudo, no Evangelho, a propósito da fé, causando-nos perplexidade aquela apostasia de “muitos discípulos”, que se recusaram a crer e, em conseqüência, a obedecer.
Excelente ocasião de um exame de consciência para quem vive em nossa época, que deve se perguntar: qual o grau de fé e de submissão a Deus, à Igreja e ao Evangelho, do homem dos tempos presentes? ²

1) Suma Teológica III, q. 75, a. 1.
2) Idem, a. 4.
3 ) Id. ibid.
4 ) Cfr. Suma Teológica III, q. 76, a. 4.
5 ) Id., a. 1.
6 ) Apud São Tomás de Aquino, Catena Áurea.
7 ) Evangelho de São João comentado por Santo Agostinho, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1954, pp. 266267.
8) Suma Teológica III, q. 73 a.3 ad 2.
9 ) CIC, n. 2.837.
10 ) Serm. 58, en la oct. del Corp., in Obras del Beato Avila, BAC, Madrid, t. 2, p. 921.
11) Id. p. 922.
12) “O cristão é um outro Cristo”.
13 ) Cfr. Suma Teológica, III, q. 79, art. 1 a 6.
14 ) “Operando por si mesmo”.
15 ) Suma Teológica, II-II, q. 123.
16 ) S. João Crisóstomo, apud S. Tomás de Aquino, Catena Aurea.
17 ) Cfr. Evangelho de São João comentado por Santo Agostinho, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1954, vol. II, p. 269.
18) Op. cit. p. 449.
19) Bíblia Comentada, BAC, Madrid, 1964, v. II, pp. 1.116-1.117.
20 ) Cfr. op. cit. p. 272.
21 ) Cfr. Suma Teológica II-II, q. 104 a.4 ad 3.
22 ) Id. a. 1 e 4.
23 ) Id. a. 3 ad 1.
24 ) Id.. a. 3.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum - Jo 6, 60-69

Continuação dos posts anteriores
Santo Agostinho
O alimento que vivifica
63 É o Espírito que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Ao longo dos séculos multiplicaram-se, entre os comentaristas, várias interpretações sobre este versículo. A melhor delas nos parece ser a do Bispo de Hipona:
“Que sentido tem esta afirmação: a carne para nada aproveita? Para nada aproveita no sentido em que os judeus a entenderam. Entenderam ‘carne’ no sentido em que se toma, quando é cortada no cadáver, ou vendida no talho, e não enquanto a carne tem vida, que lhe é comunicada pelo espírito. (...)
“Assim sucede com a expressão: a carne para nada aproveita, a carne tomada isoladamente. Junte-se o espírito à carne, como se junta a caridade à ciência, e a carne aproveita de um modo extraordinário.
“Se a carne para nada aproveitasse, o Verbo não Se faria carne para habitar entre nós. Se Cristo nos aproveitou muito por meio da carne, como pode dizer-se que a carne para nada aproveita?
“Mas o espírito fez alguma coisa em ordem à nossa salvação, por meio da carne. A carne foi um vaso. Atende ao que o vaso encerrava, e não à natureza do mesmo vaso” (7).
Alimento espiritual e material
Não é exagero julgar que o alimento material foi criado para o desenvolvimento e sustento orgânico do homem, com vistas também a servir de símbolo para a instituição da Eucaristia. Há, entretanto, uma distinção entre o alimento material e o espiritual. O primeiro produz em nós seus efeitos, convertendo-se em substância de nosso organismo, ao ser por ele assimilado. Com o segundo se passa exatamente o contrário: nós somos assumidos por ele, como diz Santo Agostinho, “o qual narra ter como que ouvido a voz de Cristo lhe dizendo: Não serás tu que Me mudarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas és tu que te transformarás em Mim” (8). “A virtude própria deste alimento divino é uma força de união que nos vincula ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros, a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos” (9).
Pela Eucaristia passamos a ser outros Cristos
Pela Eucaristia, participamos não só da própria vida de Jesus como também de todo o tesouro de seu Sagrado Coração, dos méritos de sua oração, sacrifício, etc. Essa realidade mística arranca surtos de entusiasmo das almas dos bem-aventurados: “Para vir ao mundo a fim de nos redimir, Deus Se fez homem. Quando tu vais ao altar e O recebes, és tu que te transformas n’Ele. E se dissesse que te fazes Cristo, não mentiria” (10).
Por outro lado, ao comungarmos, passamos a ser parte de Cristo: “Quando comungas, passas a ser membro do Corpo de Cristo; assim como a mão é parte do corpo, vive e se sustenta dele, assim fazes parte de Cristo, vives e te sustentas d’Ele, incorporando-te pela comunhão em Cristo, como o membro no corpo” (11).
Ora, se a Eucaristia, por assim dizer, transforma-nos em Cristo, nossa vida moral também será participativa da santidade de Jesus. Não é sem fundamento que se afirma: “Christianus alter Christus” (12), pois, realmente, pelo Batismo passamos a ser outros Cristos, e a Eucaristia vai paulatinamente reproduzindo em nós os mesmos sentimentos e virtudes próprias ao Homem-Deus. Com o tempo, e pela assídua freqüência a esse Sacramento, pensaremos, amaremos e agiremos tal como Ele próprio. Nossa caridade, humildade, obediência e demais virtudes serão semelhantes às d’Ele.
Continua

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum - Jo 6, 60-69

60 Muitos dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: “Dura é esta linguagem! Quem a pode ouvir?” 61 Jesus, conhecendo em Si mesmo que seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: “Isto vos escandaliza? 62 Que será quando virdes subir o Filho do Homem para onde estava antes? 63 É o Espírito que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. 64 Mas há alguns de vós que não crêem”. Com efeito, Jesus sabia desde o princípio quais eram os que não acreditavam, e quem havia de O entregar. 65 Depois acrescentou: “Por isso Eu vos disse que ninguém pode vir a Mim se não lhe for concedido por meu Pai”. 66 Desde então muitos dos seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele. 67 Por isso Jesus disse aos doze: “Também vós quereis retirar-vos?” 68 Simão Pedro respondeu-Lhe: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna. 69 E nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus”. (Jo 6, 60-69)
Acompanhe nos próximos posts os comentários de Mons João Clá Dias ao Evangelho do 21º Domingo Tempo comum  ano B

Jesus é o pão da vida
A contradição dos judeus
“Como poderá este dar-nos a sua carne para comermos?” (Jo 6, 52) — perguntavam entre si os judeus que ouviram Jesus fazendo referência ao Sacramento da Eucaristia. E Ele lhes respondeu: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53).
Com uma fé insuficiente, como poderiam alcançar o verdadeiro significado das revelações feitas pelo Messias?
Os judeus não queriam admitir que Jesus pudesse se autodenominar “pão da vida”. De fato, Ele o é, tanto pela divindade, como por sua humanidade. Enquanto Deus, Ele cria, sustenta no ser e alimenta todos os viventes. Ao assumir um corpo, sua Carne é vivificante por ser o Verbo de Deus. Da mesma forma que o ferro se torna incandescente ao ser introduzido no fogo, adquirindo a substância e as propriedades deste sem deixar de ser ferro, assim também o Sagrado Corpo de Jesus está unido à natureza divina. Por isso, sem a Eucaristia, o homem pode ter vida natural, mas não a vida eterna.
Hoje nos damos conta de quanto a rejeição dos judeus ao precioso convite de Nosso Senhor é inexplicável. Os seus antepassados haviam adorado não poucos deuses falsos, além de terem admitido as mais absurdas doutrinas. Ao se apresentar o verdadeiro Deus, oferecendo-Se como alimento de imortalidade, a reação deles foi de repulsa.
Quando Moisés subiu ao Monte Sinai para receber as Tábuas da Lei, os israelitas permaneceram a sua espera no sopé da montanha. Como tardasse muito a descer e o povo estivesse já cansado, Aarão foi instado a fazer-lhes um deus visível que eles pudessem seguir, indo-lhes adiante nos deslocamentos (Ex 32, 1). No fundo queriam ter um Deus — um ELOIM, o Deus verdadeiro que criou o céu e a terra — sob espécie visível. Ora, o que Jesus lhes oferecia nesse discurso Eucarístico do capítulo sexto de São João é exatamente isso: “Eu sou o pão da vida (...) o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente” (Jo 6, 48.51).
É um paradoxo: o que os judeus pediram a Aarão, recebemos nós. Sim, na Eucaristia está o ELOIM sob espécies visíveis. Com uma grande diferença: os judeus julgaram ser possível operar essa maravilha por mãos humanas e nós cremos, com toda a fé, que isso se realiza por exclusiva autoridade divina: “Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 19). O curioso é que, apesar de os judeus acreditarem ser possível realizar esse grande mistério através de forças naturais e humanas, não creram que Deus onipotente fosse capaz de concretizá-lo.
Mistério da fé
Nas próprias palavras de Cristo se encontra um grandioso mistério: Caro mea vere est cibus, et sanguis meus vere est potus — “Minha Carne é verdadeiramente comida e o meu Sangue é verdadeiramente bebida” (Jo 6, 56).
Ouçamos São Tomás: “Que o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estejam no sacramento, não se pode apreender pelo sentido, mas somente pela fé, que se apóia na autoridade divina” (1).
O problema se centra em que “toda transformação que acontece segundo as leis da natureza é formal” (2). Ora, no caso da Eucaristia devemos considerar que a ação de Deus “abarca toda a natureza do ser. Portanto, Ele pode realizar não só a conversão formal (...), mas também a conversão de todo o ser, de modo que toda a sua substância se converta em toda substância de outro ser. E, nesse sacramento, isso se realiza pelo poder divino. Com efeito, toda a substância do pão se converte em toda a substância do Corpo de Cristo, e toda a substância do vinho, em toda a substância do Sangue de Cristo. Por isso, essa conversão não é formal, mas substancial. (...) pode-se chamar apropriadamente com o nome de transubstanciação” (3).
Ademais, devemos considerar que as dimensões da Hóstia consagrada não correspondem às do Corpo de Cristo. Ela continua com as mesmas medidas que lhe eram próprias, quando n’Ela se encontrava a substância pão (4). Porém “é indispensável confessar, de acordo com a fé católica, que Cristo está, todo Ele, nesse sacramento” (5).

sábado, 18 de agosto de 2012

Evangelho 20º Domingo do tempo Comum

São Paulo
53Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos.
Diante do fervilhar da disputa, Jesus, ao invés de atenuar sua afirmação, a reforça, utilizando-se de um como que juramento — “em verdade” — a fim de torná-la ainda mais clara e contundente. Para possuir essa vida, é indispensável “comer a carne” e “beber o sangue” de Cristo.
A condição não poderia ser expressa com maior clareza, não cabendo de maneira alguma qualquer interpretação metafórica. Trata-se de uma descrição inteiramente objetiva. Tanto mais que São João escreveu seu Evangelho por volta da década de 90, quando a Eucaristia era o cerne da vida da Igreja, participada por todos os fiéis que constituíam o objetivo primordial de sua narração. Já no ano 56, São Paulo, ao se dirigir aos Coríntios, deixara um precioso documento de quanto estava assente entre todos a realidade da presença de Cristo no Sacramento do Altar: “Falo como a pessoas sensatas; julgai vós mesmos o que eu digo. Porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é comunhão do corpo do Senhor?” (12). O realismo eucarístico desse versículo encontra-se bem enunciado por São João Crisóstomo: “E como diziam que isto era impossível, isto é, que desse a comer sua própria carne, deu-lhes a entender que não só não era impossível, senão muito necessário; por isto continua: ‘em verdade, em verdade vos digo que se não comerdes a carne...’, etc. Como que dizendo: de que modo se dá, e como deve comer-se este pão, vós não o sabeis; mas se não o comerdes, não tereis Vida em vós” (13).
54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.
Este versículo especifica o tipo de vida dado a quem comer a carne e beber o sangue de Cristo; trata-se nada mais nada menos que da visão beatífica.
Incorporados a Cristo pelo Batismo, necessitamos ser alimentados por seu sangue e por sua carne para desenvolver, rumo à plenitude, nossa vida divina — e, portanto, eterna.
Por sua vez, poderia parecer estar prometendo Jesus a imortalidade para quem comesse sua carne e bebesse seu sangue, e daí o acrescentar: “Eu o ressuscitarei no último dia”.
55 Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
Vê-se aqui o empenho de São João em evitar a menor dúvida sobre a presença real do corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Sempre imbuído de uma chamejante virtude da fé, desejava ele entregar aos séculos futuros seu inconteste depoimento do que ouvira sobre o mais importante dos Sacramentos. Daí o repetir um conceito já enunciado.
São João Evangelista
56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele.
Em nossa vida humana, o alimento é essencial para nosso crescimento, manutenção e saúde. Deus assim o dispôs para, entre outras razões, dar ao nosso entendimento um símbolo dos efeitos da Eucaristia. Produz esta na alma de quem a recebe algo análogo à assimilação do alimento pelo organismo humano. Não através de uma simples permanência física, mas por meio de um relacionamento íntimo e uma união estreitíssima. Ao longo do Evangelho de São João, encontramos várias referências de Jesus a essa permanência mútua (14).
57 Assim como o Pai que me enviou vive em mim, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.
O próprio autor e fonte da vida se entrega a nós como alimento para nos sustentar. Seu corpo, sangue, alma e divindade, como verdadeira comida e bebida, desenvolvem em nós a vida sobrenatural começada pelo Batismo (15). Da mesma maneira pela qual Jesus recebe a vida do Pai, nós a recebemos do Filho como de fonte e princípio.
Ora essa vida nos é concedida pela Graça, e sem a conhecermos não compreenderemos o presente versículo. Procuremos sintetizar em poucas palavras essa realidade infinita:
“O dom da graça excede o poder da natureza criada, porque não é outra coisa senão uma participação da natureza divina, a qual supera qualquer outra natureza. Por conseguinte, é impossível a uma criatura produzir a graça, como é impossível que algo que não seja fogo queime. Portanto, é necessário que somente Deus divinize, comunicando a união da natureza divina por certa participação de semelhança” (16).
Comentando esta passagem de São Tomás de Aquino, assim se exprime o famoso Pe. Royo Marín: “A graça é uma verdadeira qualidade habitual que modifica acidentalmente a alma que a recebe, tornando-a ‘deiforme’, ou seja, semelhante a Deus, ao comunicar-lhe uma participação de sua própria natureza divina” (17).
Nesta mesma obra, o Pe. Royo nos fornece os elementos para melhor compreendermos a pulcritude contida no versículo em questão: “Entre os maravilhosos efeitos que produz em nós a graça santificante, há um que excede infinitamente a própria graça: a inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo (...) A graça, com efeito, nos dá uma participação criada da natureza incriada de Deus. Mas a inabitação divina — absolutamente inseparável da graça santificante — nos dá o mesmíssimo Deus, ou seja, a mesma realidade incriada que constitui a própria essência de Deus” (18).
Por fim, conclui o grande teólogo dominicano: “No cristão, a inabitação equivale à união hipostática na pessoa de Cristo, embora não seja ela, mas a graça santificante, que nos constitui formalmente filhos adotivos de Deus. A graça santificante penetra e embebe formalmente nossa alma, divinizando-a. Mas a divina inabitação é como a encarnação, em nossas almas, do absolutamente divino: do próprio ser de Deus tal como é em si mesmo, uno em essência e trino em pessoas” (19).
Essa participação na vida divina se inicia com o Batismo mas atinge sua perfeição com a Eucaristia que não só conserva e aumenta em nós a virtude da caridade, assemelhando-nos a Jesus, mas também nos estimula à prática da mesma: “O efeito deste sacramento é a caridade, não só enquanto hábito, mas também enquanto ato, pois ela é por ele estimulado” (20).
No amplo firmamento da Igreja, quase não há santo que não tenha se pronunciado sobre os grandiosos efeitos deste Sacramento. Recordemos dois deles:
— Santo Agostinho (Confissões, VIII, 9): “Sou manjar de robustos. Cresce e me receberás e não me mudarás a mim em ti, qual farias com uma comida corporal, senão que tu te mudarás em mim”.
— São Leão Magno (Sermão 14, da Paixão): “Não faz outra coisa a participação do corpo e do sangue de Cristo, senão transformarnos no que comemos”.
Eis alguns elementos para se entender a afirmação de Jesus: “aquele que come a minha carne viverá por mim”.
58 Este é o pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.
Insiste o Divino Mestre, devido à dureza de coração daqueles que o rodeavam. Explica, por comparação, a excelsitude do pão eucarístico. Quantos judeus se haviam beneficiado do maná ao longo dos quarenta anos de travessia do deserto e, entretanto, se condenaram eternamente! Jesus promete aos que se alimentarem desse Sacramento, nas condições exigidas, a própria vida eterna, a participação na vida e gozo da Santíssima Trindade.
PAZ E CONSOLAÇÃO PARA OS QUE SOFREM
Considerações sobre a Eucaristia poderiam ser escritas a ponto de tornarem pequenos os espaços de todas as bibliotecas do mundo. Focalizemos apenas mais uma delas: a paz e a consolação oriundas deste tão sublime Sacramento.
São Tomás demonstra o quanto constitui um vício o fato de deixar a tristeza apoderar-se de nossos corações, a ponto de perturbar o uso da razão. Ora, vivendo nesta fase histórica tão penetrada pela angústia, drama e aflição, não erramos em afirmar ser a tristeza a nota tônica de nossos dias. Onde, então, obter o consolo e alegria de coração? Tanto mais que o buscar alívio é um fenômeno natural e espontâneo, uma reação psicológica de toda alma oprimida.
Quem não procura apoiar-se nas criaturas — sejam elas parentes, amigos, diversões — para só falar nas que estão dentro dos limites da liceidade moral? Mas, o apegar-se às criaturas é preparar novas e amargas desilusões.
É no Tabernáculo, na Eucaristia, onde verdadeiramente podemos encontrar o júbilo tão ansiado por nossos corações. Foi Jesus quem afirmou: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e Eu vos aliviarei” (21). O único conforto está em Deus e é por isso que, sobre nossa vida no Céu, o Apocalipse diz: “Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem mais dor” (22), porque o próprio Deus enxugará as lágrimas de seu povo.
Aproximemo-nos pois, freqüentemente, da mesa da Comunhão, sempre por meio de Maria, e seremos os entes mais felizes dentre todos.
1) De 15 de agosto de 1910.
2) De 20 de dezembro de 1905 e de 7 de dezembro de 1906.
3) Ecclesia de Eucharistia, 17 de abril de 2003, 22 e 53.
4) Jo 6, 48.
5) Jo 6, 51.
6) Jo 1, 14.
7) Jo 1, 4.
8) Jo 1, 1.
9) Assim se exprime o Doutor Angélico sobre essa importante matéria: “Todo aquele que oferece um sacrifício deve dele participar, porque o sacrifício que se oferece exteriormente é sinal do sacrifício interior, pelo qual a própria pessoa se entrega a Deus, como diz Santo Agostinho. Assim, quem participa do sacrifício exterior demonstra que oferece também o sacrifício interior.Além disto, quem distribui aos fiéis o sacrifício manifesta-se como dispensador das coisas divinas ao povo. Ele, porém, deve recebê-lo primeiro, como diz São Dionísio: (...) ‘Que sacrifício será aquele do qual não seja participante o sacrificador?’ Faz-se participante quando dele come, conforme diz o Apóstolo (1 Cor 10, 18): ‘Não são porventura partícipes do altar aqueles que comem as vítimas?’” (Suma Teológica III, q 82, a 4c).
10) I Cor 10, 18-21.
11) Cf. Jo 6, 41.
12) I Cor 10, 15 e 16.
13) Homilias sobre o Evangelho de São João, 47, apud Catena Áurea.
14) Cf. Jo 14, 20; 15, 4-5; 17, 21; etc.
15) O Batismo nos confere a Graça, enquanto que “é ofício da Eucaristia santificar a alma e o corpo” (São Clemente de Alexandria, Paidagogos II 2).
16) Suma Teológica, I-II, 112, 1.
17) Fr. Antônio Royo Marín OP, Somos hijos de Dios, BAC, Madrid, 1977, p. 14.
18) Idem, p. 42.
19) Idem, p. 48.
20) Summa Theologica, III, q. 79, a. 4.
21) Mt 11, 28.
22) Ap 21, 4.