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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Considerações sobre a Eucaristia

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.
Este versículo especifica o tipo de vida dado a quem comer a carne e beber o sangue de Cristo; trata-se nada mais nada menos que da visão beatífica.
Incorporados a Cristo pelo Batismo, necessitamos ser alimentados por seu sangue e por sua carne para desenvolver, rumo à plenitude, nossa vida divina — e, portanto, eterna.
Por sua vez, poderia parecer estar prometendo Jesus a imortalidade para quem comesse sua carne e bebesse seu sangue, e daí o acrescentar: “Eu o ressuscitarei no último dia”.
Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
Vê-se aqui o empenho de São João em evitar a menor dúvida sobre a presença real do corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Sempre imbuído de uma chamejante virtude da fé, desejava ele entregar aos séculos futuros seu inconteste depoimento do que ouvira sobre o mais importante dos Sacramentos. Daí o repetir um conceito já enunciado.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele.
Em nossa vida humana, o alimento é essencial para nosso crescimento, manutenção e saúde. Deus assim o dispôs para, entre outras razões, dar ao nosso entendimento um símbolo dos efeitos da Eucaristia. Produz esta na alma de quem a recebe algo análogo à assimilação do alimento pelo organismo humano. Não através de uma simples permanência física, mas por meio de um relacionamento íntimo e uma união estreitíssima. Ao longo do Evangelho de São João, encontramos várias referências de Jesus a essa permanência mútua.
Assim como o Pai que me enviou vive em mim, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.
O próprio autor e fonte da vida se entrega a nós como alimento para nos sustentar. Seu corpo, sangue, alma e divindade, como verdadeira comida e bebida, desenvolvem em nós a vida sobrenatural começada pelo Batismo. Da mesma maneira pela qual Jesus recebe a vida do Pai, nós a recebemos do Filho como de fonte e princípio.
Ora essa vida nos é concedida pela Graça, e sem a conhecermos não compreenderemos o presente versículo. Procuremos sintetizar em poucas palavras essa realidade infinita:
“O dom da graça excede o poder da natureza criada, porque não é outra coisa senão uma participação da natureza divina, a qual supera qualquer outra natureza. Por conseguinte, é impossível a uma criatura produzir a graça, como é impossível que algo que não seja fogo queime. Portanto, é necessário que somente Deus divinize, comunicando a união da natureza divina por certa participação de semelhança”(São Tomás de Aquino).
Comentando esta passagem de São Tomás de Aquino, assim se exprime o famoso Pe. Royo Marín: “A graça é uma verdadeira qualidade habitual que modifica acidentalmente a alma que a recebe, tornando-a ‘deiforme’, ou seja, semelhante a Deus, ao comunicarlhe uma participação de sua própria natureza divina”.
Nesta mesma obra, o Pe. Royo nos fornece os elementos para melhor compreendermos a pulcritude contida no versículo em questão: “Entre os maravilhosos efeitos que produz em nós a graça santificante, há um que excede infinitamente a própria graça: a inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo (...) A graça, com efeito, nos dá uma participação criada da natureza incriada de Deus. Mas a inabitação divina — absolutamente inseparável da graça santificante — nos dá o mesmíssimo Deus, ou seja, a mesma realidade incriada que constitui a própria essência de Deus”.
Por fim, conclui o grande teólogo dominicano: “No cristão, a inabitação equivale à união hipostática na pessoa de Cristo, embora não seja ela, mas a graça santificante, que nos constitui formalmente filhos adotivos de Deus. A graça santificante penetra e embebe formalmente nossa alma, divinizando-a. Mas a divina inabitação é como a encarnação, em nossas almas, do absolutamente divino: do próprio ser de Deus tal como é em si mesmo, uno em essência e trino em pessoas”.
Essa participação na vida divina se inicia com o Batismo mas atinge sua perfeição com a Eucaristia que não só conserva e aumenta em nós a virtude da caridade, assemelhando-nos a Jesus, mas também nos estimula à prática da mesma: “O efeito deste sacramento é a caridade, não só enquanto hábito, mas também enquanto ato, pois ela é por ele estimulado”.
No amplo firmamento da Igreja, quase não há santo que não tenha se pronunciado sobre os grandiosos efeitos deste Sacramento. Recordemos dois deles:
— Santo Agostinho (Confissões, VIII, 9): “Sou manjar de robustos. Cresce e me receberás e não me mudarás a mim em ti, qual farias com uma comida corporal, senão que tu te mudarás em mim”.
— São Leão Magno (Sermão 14, da Paixão): “Não faz outra coisa a participação do corpo e do sangue de Cristo, senão transformarnos no que comemos”.
Eis alguns elementos para se entender a afirmação de Jesus: “aquele que come a minha carne viverá por mim”.
Este é o pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.
Insiste o Divino Mestre, devido à dureza de coração daqueles que o rodeavam. Explica, por comparação, a excelsitude do pão eucarístico. Quantos judeus se haviam beneficiado do maná ao longo dos quarenta anos de travessia do deserto e, entretanto, se condenaram eternamente! Jesus promete aos que se alimentarem desse Sacramento, nas condições exigidas, a própria vida eterna, a participação na vida e gozo da Santíssima Trindade.
PAZ E CONSOLAÇÃO PARA OS QUE SOFREM
Considerações sobre a Eucaristia poderiam ser escritas a ponto de tornarem pequenos os espaços de todas as bibliotecas do mundo. Focalizemos apenas mais uma delas: a paz e a consolação oriundas deste tão sublime Sacramento.
São Tomás demonstra o quanto constitui um vício o fato de deixar a tristeza apoderar-se de nossos corações, a ponto de perturbar o uso da razão. Ora, vivendo nesta fase histórica tão penetrada pela angústia, drama e aflição, não erramos em afirmar ser a tristeza a nota tônica de nossos dias. Onde, então, obter o consolo e alegria de coração? Tanto mais que o buscar alívio é um fenômeno natural e espontâneo, uma reação psicológica de toda alma oprimida.
Quem não procura apoiar-se nas criaturas — sejam elas parentes, amigos, diversões — para só falar nas que estão dentro dos limites da liceidade moral? Mas, o apegar-se às criaturas é preparar novas e amargas desilusões.
É no Tabernáculo, na Eucaristia, onde verdadeiramente podemos encontrar o júbilo tão ansiado por nossos corações. Foi Jesus quem afirmou: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e Eu vos aliviarei”. O único conforto está em Deus e é por isso que, sobre nossa vida no Céu, o Apocalipse diz: “Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem mais dor”, porque o próprio Deus enxugará as lágrimas de seu povo.
Aproximemo-nos pois, freqüentemente, da mesa da Comunhão, sempre por meio de Maria, e seremos os entes mais felizes dentre todos.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Eucaristia- verdadeiro alimento

Publicaremos alguns comentários do Mons João Clá Dias a respeito da Eucaristia.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que Eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.

Até o presente versículo, Jesus, em seus sermões e revelações, apresentava os efeitos produzidos por esse “pão” em todos os que dignamente d’Ele viessem a se alimentar. Aqui, entretanto, define a sua substância: não é só o “Pão da Vida” , mas o “Pão Vivo”, ou seja, contém a vida em si próprio. E realmente trata-se do “Pão” que “desceu do céu”, é o Verbo de Deus que “se fez carne e habitou entre nós” para comunicar-nos “a vida que estava n’Ele” “desde o principio”, ou seja, desde toda a eternidade. Há, portanto, uma vida eterna nesse “Pão Vivo”, conferindo, àquele que dele se alimenta, o dom de viver para sempre.
Mas, como ter parte nessa tão preciosa vida?
Nos tempos do Antigo Testamento, o modo de participar de um sacrifício consistia em comer da vítima oferecida. Esta realidade transparece claramente na primeira epístola de São Paulo aos coríntios, na qual, com seu incansável zelo apostólico, não só os adverte a fugirem da idolatria, mas procura incentivá-los a dela se afastarem: “Considerai Israel segundo a carne: os que comem das vítimas, porventura não têm parte no altar? Mas que digo? Digo que o que foi sacrificado aos ídolos é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios e não a Deus. Ora, não quero que tenhais parte com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”.
Em sua infinita sabedoria, aceitou Deus, desde os primórdios da antiguidade, o cerimonial do oferecimento de vítimas e o modo de participar do sacrifício, com o intuito de preparar os homens para receber os benefícios da imolação do Cordeiro de Deus, d’Aquele que tira os pecados do mundo.
E Jesus, com um ano de antecedência, anuncia que dará a Santa Eucaristia, sob as espécies de pão e de vinho, e afirma ser esse pão sua “carne para salvação do mundo”.
Para entender bem o conteúdo deste versículo, devemos nos lembrar que, segundo o conceito judaico daqueles tempos, carne e sangue designavam o homem completo; ora, de qual carne se trata aqui? Da carne de Cristo, carne crucificada e imolada para “salvação do mundo”. Eis o caráter sacrifical da Eucaristia subentendido nessa afirmação de Jesus.
 Naquela atmosfera semítica — e até mesmo greco-romana — comia- se a vítima oferecida em sacrifício e dessa forma se participava do mesmo. Pois este é o objetivo essencial de São João no presente versículo, ou seja, o de acentuar o efeito redentor e universal da morte de Jesus, em benefício do mundo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpus Christi



Corpus Christi
“LOUVA, SIÃO, O SALVADOR”
Um dos pontos culminantes do ano litúrgico, a festa do Corpo de Cristo comemora o dom inigualável do Santíssimo Sacramento.
Aquele mesmo Jesus que pelas, pelas praças e por todo outro lugar por onde passava, curava, perdoava e fazia o bem, encontra-se à nossa disposição na Eucaristia.
Como nasceu a comemoração de “Corpus Christi”
A festa litúrgica em louvor ao Santíssimo Sacramento foi instituída em 1264 por Urbano IV. Ela deveria marcar os tempos futuros da Igreja, tendo como finalidade cantar a Jesus Eucarístico, agradecendo-Lhe solenemente por ter querido ficar conosco até o fim dos séculos sob as espécies de pão e vinho. Nada mais adequado do que a Igreja comemorar esse dom incomparável.
 Logo nos primeiros séculos, a Quinta-feira Santa tinha o caráter eucarístico, segundo mostram documentos que chegaram até nós. A Eucaristia já era o centro e coração da vida sobrenatural da Igreja. Todavia, fora da Missa não se prestava culto público a esse sacramento. O pão consagrado costumava ficar guardado numa espécie de sacristia, e mais tarde lhe foi reservado um nicho num ângulo obscuro do templo, onde se punha um cibório em forma de pomba, suspenso sobre o altar, sempre tendo em vista a eventual necessidade de atender a algum enfermo.
 Mas durante a Idade Média, os fiéis foram sendo cada vez mais atraídos pela sagrada humanidade do Salvador. A espiritualidade passou a considerar de modo especial os episódios da Paixão. Criou-se por isso um clima propício para que se desenvolvesse a devoção à Sagrada Eucaristia.
O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao arcediago de Liège, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV.
Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do ano litúrgico em toda a Cristandade.
O “Lauda Sion”
A seqüência da Missa de Corpus Christi é constituída por um belíssimo hino gregoriano, intitulado Lauda Sion. Belíssimo por sua variada e suave melodia, e muito mais pela letra, ele canta a excelsitude do dom de Deus para conosco e a presença real de Jesus, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, no pão e no vinho consagrados.
Urbano IV encontrava-se em Orvieto, quando decidiu estabelecer a comemoração de Corpus Christi. Estavam coincidentemente naquela cidade dois dos mais renomados teólogos de todos os tempos, São Boaventura e São Tomás de Aquino. O Papa os convocou, assim como a outros teólogos, encomendando-lhes um hino para a seqüência da Missa dessa festa.
Conta-se que, terminada a tarefa, apresentaram-se todos diante do Papa e cada um devia ler sua composição.
O primeiro a fazê-lo foi  São Tomás de Aquino, que apresentou então os versos do Lauda Sion.
São Boaventura, ato contínuo àquela leitura, queimou seu próprio pergaminho, não sem causar espanto em São Tomás, que perguntou “por quê?”. O santo franciscano, com toda a humildade, explicou-lhe que sua consciência não o deixaria em paz se ele causasse qualquer empecilho, por mínimo que fosse, à rápida difusão de tão magnífica Seqüência escrita pelo dominicano.
Síntese teológica, em forma de poesia
Aquilo que São Tomás ensinou em seus tratados de Teologia a respeito da Sagrada Eucaristia, ele o expôs magistralmente em forma de poesia no Lauda Sion.
Trata-se de verdadeira peça de literatura, que brilha pela profundidade do conteúdo e pela beleza da forma, elevação da doutrina, acurada precisão teológica e intensidade do sentimento.
Repassemos alguns trechos desse célebre cântico.
“Louva Sião, o Salvador, louva o Guia e Pastor com hinos e cânticos”
As palavras do subtítulo acima constituem o primeiro verso do Lauda Sion. É a expansão do coração de um santo, tomado pela graça mística de encanto pelo Santíssimo Sacramento, que pede a Sião, quer dizer, ao povo eleito do Novo Testamento, que passe a louvar o Salvador. Ele, o maior teólogo da história da Igreja — “o mais sábio dos santos, e o mais santo dos sábios” —, era tão fervoroso devoto de Jesus Eucarístico que, nas horas em que sentia dificuldade nos seus estudos, colocava a cabeça dentro de um sacrário à procura de ser iluminado pelo próprio Deus, e não a retirava enquanto não encontrasse a solução.
Desse primeiro verso até o final da quinta estrofe, São Tomás condensa todo o infinito louvor ao Santíssimo Sacramento do Altar. Ele continua a conclamar os fiéis a “louvar o guia e pastor com hinos e cânticos”. Mas, como louvar adequadamente esse santo sacramento? Como louvar de modo suficiente o próprio Deus? É o sacramento mais elevado e substancioso entre todos, pois nele está presente o próprio Homem-Deus, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Não há palavras, não há gestos, não há nada a ser oferecido que esteja à altura d’Ele.
Por isso São Tomás quase geme ao dizer: “Tanto quanto possas, ouses tu louvá-Lo, porque está acima de todo o louvor e nunca O louvarás condignamente”.
E explica ser essa a tarefa que recebeu do Papa: “É- nos hoje proposto um tema especial de louvor, o pão vivo que dá a vida”.
“É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma”.
O santo se preocupa em incentivar em nossa alma um louvor, o mais perfeito de que sejamos capazes, para assim nos aproximarmos do Santíssimo Sacramento e adorar a Jesus, que ali se encontra por detrás do “véu” do pão e do vinho.
“Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete”
A partir deste verso, até a décima estrofe, São Tomás passa a apontar as razões para se comemorar a instituição da Eucaristia na festa litúrgica estabelecida pelo Papa.
“Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga”. O rito da Igreja Católica Apostólica Romana encerrara o da Antiga Lei, que era uma prefigura dele. Por isso completa São Tomás:
“O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite”.
Sim, uma vez tendo vindo ao mundo o simbolizado, não faz sentido celebrar o símbolo. O culto da Sinagoga no Antigo Testamento era todo voltado para a espera do Salvador, e seus ritos simbolizavam-No. No novo rito, na celebração Eucarística, Nosso Senhor Jesus Cristo se imola Ele próprio. Ora, estando presente o simbolizado, para que o símbolo? Qual o sentido de imolar um cordeiro? O rito novo rejeita o velho...
“O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua”.
Aqui São Tomás recorda as palavras de Jesus na Ceia da Quinta-feira Santa: “fazei isto em memória de Mim”.
“E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação”.
São Tomás, sacerdote, podia dizer com toda a propriedade: “instruídos por suas ordens sagradas”. É uma referência ao Sacramento da Ordem, que dá àquele que o recebe a grande glória de poder emprestar sua laringe e suas mãos ao Divino Mestre, para que, sobre o altar, se opere um dos maiores milagres — e o mais freqüente deles — da História da humanidade: a transubstanciação. Quer dizer, a substância pão e a substância vinho cedem lugar à substância Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador”
A partir deste ponto, em dez estrofes, o autor dá em detalhe, numa maravilhosa síntese, a doutrina católica sobre o Sacramento do Altar. Ele continua:
“O que não compreendes nem vês, uma fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural”.
De fato, pela nossa inteligência, jamais chegaríamos a penetrar neste mistério tão sagrado. Nem sequer os demônios, que, embora decaídos, são de natureza angélica, e portanto superior à nossa, conseguem discernir nas aparências do pão e do vinho o Homem-Deus. Só mesmo a fé nos faz penetrar neste mistério sagrado.
“Debaixo de espécies diferentes, aparência e não realidades, ocultamse realidades sublimes”.
São Tomás volta a insistir na idéia de que os “véus” do vinho e do pão ocultam realidades divinas.
“A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente”.
Esta é uma verdade de fé, que a Teologia nos explica. Olhando para o vinho e para a hóstia consagrados, poderíamos ser levados a imaginar que a carne está só na eucaristia pão, e o sangue só na eucaristia vinho. Entretanto, a doutrina nos diz e a nossa fé assimila que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo encontram-se plenamente tanto na hóstia como no vinho consagrados.
“E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro”.
Outra das impressões equivocadas que podem transpassar uma alma é esta: ao ver o ministro dividindo uma hóstia, pensar que Nosso Senhor já não se encontra inteiro em cada uma das partículas. Não é verdade. Por um mistério sagrado, Nosso Senhor Jesus Cristo se encontra de modo integral em todas as frações que sejam visíveis.
“Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-O podem consumi-Lo”.
Outra verdade de fé: se um milhão de pessoas comungarem ao mesmo tempo, como já aconteceu em algumas Missas presididas pelo Santo Padre em suas viagens pelo mundo, todos estarão recebendo um só e o mesmo Jesus, sem qualquer fracionamento de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Todos O recebem no seu todo. E eis mais um mistério: ao receber Nosso Senhor Jesus Cristo, não podemos consumi-Lo, pois, quando se desfazem as espécies sagradas em nosso organismo, Ele deixa o nosso corpo sem tocá-lo, santificando nossa alma e dando-nos vigor até na saúde.
“Recebem-No os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para morte. Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento”.
Quem comunga em estado de graça, recebe um influxo de vida e de força espiritual, e até corporal. Entretanto, ai daqueles que se aproximam desse Sacramento em estado de pecado mortal! O odor da morte se assenhoreia ainda mais da alma, e do próprio organismo. Quanto cuidado devemos tomar para não nos aproximarmos da Eucaristia sem estarmos inteiramente preparados. Procuremos antes o confessionário, que se encontra à nossa disposição, e saibamos ajoelhar-nos com humildade e pedir perdão de nossas faltas.
“Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira. Nenhuma divisão pode violar a substância: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alterados.”
São Tomás retoma aqui o que já ensinara mais acima, para solidificar nas almas a doutrina católica a respeito da Eucaristia.
“Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos”
O santo recorda nestas frases que o Sacramento do Altar é a realização de antigos signos: “Verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães. As figuras o simbolizam, é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais”.
As últimas estrofes louvam o Bom Pastor que nos alimenta e guarda e nos faz futuramente participantes do Banquete Celestial. Nesse trecho final, letra e melodia se unem numa suprema beleza, de irresistível doçura:
“Bom Pastor, pão verdadeiro, Jesus, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.
“Ó Vós que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa. Amém. Aleluia.”




LOUVA SIÃO - sequência
1. Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.
2. Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.
3. É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.
4. É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.
5. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.
6. Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.
7. Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.
8. O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.
9. O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.
10. E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.
11. É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.
12. O que não compreendes nem vês, uma fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.
13. Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.
14. A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.
15. E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.
16. Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.
17. Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.
18. Morte para os maus e vida para os bons: vêde como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.
19. Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.
20. Nenhuma divisão pode violar a substância: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alterados.
21. Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.
22. As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.
23. Bom Pastor, pão verdadeiro, Jesus, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.
24. Ó Vós que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa. Amém. Aleluia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O PAI NOSSO

Estando Ele a fazer oração em certo lugar, quando acabou, um dos seus discípulos disse-Lhe: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos”.
Tal qual afirma São Cirilo (4), Jesus demonstra o quanto Lhe é própria a oração e com isso nos ensina como não devemos exercitá-la com preguiça, mas sim com toda piedade e atenção. Entre os discípulos de Jesus, estavam alguns que o haviam sido também de João. Por esta narração de São Lucas, percebe-se o grande valor atribuído por eles às ações do Mestre, reforçado pelo comportamento de seu Precursor a esse respeito. Fundamental é o papel do exemplo. Da admiração a um e a outro nasceu na alma dos discípulos o desejo de bem rezar. Quão grande é a responsabilidade dos que ensinam! Mais eficaz se torna a palavra saída dos lábios de quem é modelo vivo de sua própria didática, pois não basta saber explicar, sobretudo é preciso ser.
Ele respondeu-lhes: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino.
São Mateus nos transmite uma forma mais extensa para esta oração dominical (Mt 6, 9-13), criando para alguns autores um problema de critério: seriam duas maneiras diferentes de rezá-la ou uma só? Para uns, a original é a de Lucas e, neste caso, Mateus a teria ampliado. Para outros, ter-se-ia dado o inverso, ou seja, Lucas julgou melhor sintetizá-la. Analise-se como quiser, é compreensível que, por seu caráter pedagógico, muito provavelmente Jesus a tivesse repetido várias vezes, sobretudo por ter querido deixarnos um modelo perfeito de oração.
Se bem não haja o menor inconveniente em nos utilizarmos de longas orações, quis Jesus conceder-nos uma fórmula breve e universal, contendo logo de início um louvor a Deus que d’Ele aproxima quem reza, a fim de tornar solícita a audição das petições a serem feitas. Pela introdução da Oração Dominical nos é fácil perceber o quanto Deus é também sensível a uma “diplomacia” religiosa. Desejar a santificação do nome de Deus, não é senão querer que todos os homens O conheçam, adorem e sirvam com perfeição. E trata-se aqui de um nome sobre todos os nomes: “Pai”.
É de se notar a diferença de significado desta palavra “Pai”, entre o Antigo e o Novo Testamento. Até então, a referência à paternidade de Deus era um tanto metafórica, considerando-O como o Criador e com vistas a realçar sua providência sobre o povo judeu. A partir da Encarnação, esse termo revestiu-se de uma realidade profundíssima, quer pela natureza humana de Jesus, quer pela divina. E também no que toca a nós, batizados, pois, como afirma São João, somos filhos de Deus, “e realmente o somos” (1 Jo 3, 1). Por isso Nosso Senhor usava a expressão “meu Pai” — nesta oração, somente “Pai” na versão de São Lucas, ou “Pai nosso”, segundo São Mateus — com relação à verdadeira paternidade de Deus e filiação divina de todos os batizados. E o próprio Jesus nos advertiu: “ ninguém chameis A pai sobre a terra, porque um só é o vosso Pai, Aquele que está nos Céus” (Mt 23, 9).
Ora, o Batismo não só imprime em nossas almas o caráter de cristão e nos faz reais filhos de Deus pela graça, mas também nos introduz no reino de Deus, cuja plena participação de corpo e alma gloriosos se dará após o Juízo Final: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo” (Mt 25, 34). Assim, o que era metáfora no Antigo Testamento tornou-se realidade com a Redenção.
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
Muitos autores do passado, em especial os Padres da Igreja, consideravam ser esta petição relativa à Eucaristia; hoje, porém, sem negar essa interpretação, admite-se ser ela mais especialmente voltada para se obter o alimento material.
perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todos os que nos ofendem; e não nos deixes cair em tentação.”
Comentando este versículo, São João Crisóstomo nos põe diante de uma situação inegável: “Conhecendo nós isto, devemos dar graças a nossos devedores, porque são para nós (se sabemos conhecê-lo assim) a causa de nosso maior perdão, e dando pouco, alcançamos muito; porque nós temos muitas e grandes dívidas para com Deus, e estaríamos perdidos se Ele nos pedisse uma pequena parte delas”.
Sobre as tentações, pondera Orígenes: “Deus não quer impor o bem, Ele quer seres livres.
.. Para alguma coisa a tentação serve. Todos, com exceção de Deus, ignoram o que nossa alma recebeu de Deus, até nós mesmos. Mas a tentação o manifesta, para nos ensinar a conhecer-nos e, com isso, descobrir-nos na miséria e nos obrigar a dar graças pelos bens que a tentação nos manifestou”.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A ORAÇÃO DE JESUS

Jesus ora ao Pai enquanto homem
Um grande mistério e divino exemplo eram as orações de Jesus ao Pai. Como explicar a atitude do Homem-Deus rogando ao Pai por tantas intenções, se Ele mesmo é onipotente e, sobretudo, sendo Eles iguais entre Si? Não parece um tanto contraditório Deus pedir a Deus um auxílio para Si próprio? Não seria mais adequado Ele diretamente tornar efetivos seus anseios, ao invés de orar?
Essas dúvidas e muitas outras se desfarão se meditarmos sobre um comentário feito pelo santo Patriarca Hesíquio de Jerusalém (1). Diz-nos este autor que, desde toda eternidade, o Filho desejava poder dirigir-se ao Pai enquanto inferior, mas era-Lhe impossível realizá-lo, pois, segundo nos explica a Teologia com base na Revelação, as Pessoas da Santíssima Trindade são iguais entre Si. Por sua vez, também o Pai desejava doar algo ao Filho, mas através de que meio, se Eles são idênticos?
Maria resolveu essa questão com o seu “fiat”, permitindo ao Filho fazer-Se Homem. Era de dentro de sua natureza humana que Jesus elevava sua mente a Deus e exprimia os desejos de seu Sagrado Coração, rogando fossem eles concretizados. Ou seja, nunca Jesus rezou enquanto Deus — e nem teria sentido, aliás, Ele assim proceder — mas sempre o fez como homem, pois sabia que certas graças não seriam jamais obtidas senão por meio de seus pedidos, por isso “Ele andava retirado pelas solidões e a orar” (Lc 5, 16).
Exemplo insuperável de oração
Jesus foi para nós um exemplo insuperável da realização de seu próprio conselho: Oportet semper orare et non deficere — “Importa orar sempre e não deixar de o fazer” (Lc 18, 1). É preciso rezar como se respira, e portanto, em nenhum momento perder o fôlego nem o ânimo. A oração unida à de Jesus e feita por sua intercessão, é infalível: “Em verdade, em verdade vos digo que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23).
Se assim é, pode nossa oração ser realizada sempre de maneira incondicional? Não, os bens temporais, na medida de sua utilidade para nossa salvação, devem ser pedidos segundo a vontade de Deus. Nosso Senhor também a esse respeito nos deu exemplo, ao rogar: “Meu Pai, se é possível, que se afaste de Mim este cálice! Todavia, não se faça como Eu quero, mas sim como Tu queres” (Mt 26, 39). Ele havia por diversas vezes anunciado sua própria morte e até mesmo a forma de suplício pela qual passaria, e claramente sabia também que seu pedido não seria atendido. Entretanto, com toda antecedência, Ele externou esse anseio para deixarnos claro o quanto é legítimo exprimirmos nossa dor, manifestando o desejo de que ela termine, mas sempre em conformidade com a vontade de Deus.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A descida do Espírito Santo

Pentecostes era uma das festas tradicionais judaicas. Nela se ofereciam a Deus as primícias das colheitas do campo. Tratava-se de uma das três grandes festas chamadas da “peregrinação”, pois nelas os israelitas deviam peregrinar até Jerusalém para adorar a Deus no Templo. Os judeus da diáspora (residentes no estrangeiro) designavam-na pela palavra grega pentecosté (qüinquagésimo), por ser celebrada 50 dias depois da Páscoa.
“Estavam todos” presentes no cenáculo, diz São Lucas nos Atos. Era toda a Igreja nascente: cerca de 120 pessoas, entre as quais os 12 apóstolos, os 72 discípulos e as santas mulheres. Encontravam-se absortos na oração quando se fez ouvir um ruído estrondoso e um vento impetuoso. Em seguida, aparecem pequenas chamas. Segundo uma piedosa e antiga tradição, a primeira língua de fogo — a mais rica — pousou sobre a cabeça de Nossa Senhora, e a partir dela se multiplicou para os outros.
Por que essas manifestações exteriores? Deus quis tornar visível a plenitude que entregava, o ímpeto de amor, a grandeza do dom que descia.
O “vento impetuoso” pode ser visto como a chegada da torrente de graças que estavam sendo derramadas sobre todos os presentes. Eram graças místicas eficazes e superabundantes que “invadiram” o cenáculo.
Além do fenômeno auditivo, e talvez sensitivo, terá havido um certo perfume? A idéia nos parece plausível.
O fogo, feito de luz e calor, era o melhor elemento para simbolizar o ardor próprio à ação restauradora e entusiasmante do Espírito Santo. Ao pairarem sobre as cabeças de Maria e dos demais presentes, as chamas se apresentavam sob a forma de línguas de fogo. Nelas podemos ver simbolizadas as labaredas que a pregação daqueles varões suscitaria.
“... ficaram todos cheios do Espírito Santo”. De Maria a Igreja exclama: “cheia de graça”, e de fato Ela o foi desde o primeiro instante de sua Imaculada Conceição. No cenáculo recebe uma plenitude ainda maior. Nessa passagem dos Atos vemos também os apóstolos, de acordo com suas respectivas missões, serem inundados dos mais especiais dons. Lembraram-se, então, com amor e compreensão, de tudo o que o Mestre lhes ensinara, estando prontos para percorrer o mundo pregando a Boa Nova.
A graça do Espírito Santo muda todos
Conta São Lucas que naqueles dias Jerusalém estava repleta de judeus e gentios vindos de todas as partes da terra. Como o ruído da ventania fora ouvido por toda a cidade, reuniu-se diante do cenáculo “muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: ‘Não são, porventura, galileus todos estes que falam? Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?’ (…) Estavam, pois, todos atônitos e, sem saber o que pensar, perguntavam uns aos outros: ‘Que significam estas coisas?’ Outros, porém, escarnecendo, diziam: ‘Estão todos embriagados de vinho doce’.” (At 2, 5-13)
Neste trecho se diz que os apóstolos (como os discípulos e as santas mulheres) começaram a falar várias línguas (At 2, 4) e, mais adiante, que cada um os ouvia falar na sua própria língua (At 2, 6). Não fica claro se falavam uma língua e todos os entendiam, ou se falavam várias. Os exegetas não são concordes a tal respeito. Uma expressão no versículo anterior, “conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”, favorece a segunda hipótese.
São Pedro levantou a voz e disse ao povo: “Homens judeus e vós todos os que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e com ouvidos atentos ouvi as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós cuidais, sendo a hora terceira do dia” (At 2, 14-15).
Ninguém se embriaga às nove da manhã (a hora terceira). Estavam “ébrios”, mas de uma embriaguez divina, e proclamavam a doutrina do Divino Mestre, pronunciando palavras de sabedoria, acerto, glória e repreensão.
“Mas cumpre-se o que foi dito pelo profeta Joel: Acontecerá nos últimos dias...” (At 2, 14).
São Pedro recordou as profecias sobre Cristo. O povo as conhecia e se impressionou, abrindo os corações à conversão. O príncipe dos apóstolos finalizou suas palavras, dizendo:
“A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas. Exaltado pela direita de Deus, havendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, derramou-o como vós vedes e ouvis. Pois Davi pessoalmente não subiu ao céu, todavia diz: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés (Sl 109, 1). Que toda a casa de Israel saiba, portanto, com a maior certeza de que este Jesus, que vós crucificastes, Deus o constituiu Senhor e Cristo.”
São Pedro faz aqui, como Papa, a primeira proclamação de um dogma na história: o da divindade de Nosso Senhor.
“Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: ‘Que devemos fazer, irmãos?’ Pedro lhes respondeu: ‘Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que ouvirem de longe o apelo do Senhor, nosso Deus’” (At 2, 37-39).
Terá se convertido a maior parte dos que ouviram São Pedro? Os Atos dos Apóstolos não nos dão elementos para saber. Mencionam, todavia, os que “escarnecendo, diziam: Estão todos embriagados de vinho doce” (At 2, 13). Assim, a mesma graça que convertia a muitos, acabava sendo rejeitada por outros. Também não devem ter sido boas as reações dos fariseus, ao saberem desses prodígios e do início da glorificação pública d’Aquele que haviam feito crucificar.
Foram batizadas três mil pessoas. Em poucas horas, a Igreja passava a contar com pelo menos 3.120 membros. Era o início do apostolado em sistema de “avalanche”, que se multiplicaria quando os apóstolos começassem a fazer milagres. Em breve iam estender a evangelização por todo o mundo antigo, e chegaria um momento em que o Império Romano inteiro estaria cristianizado.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A preparação para Pentecostes

Imediatamente antes da Ascensão, Jesus havia ordenado aos apóstolos que não se afastassem de Jerusalém, pois dentro de poucos dias seriam batizados no Espírito Santo. Voltaram, então, para a Cidade Santa, e subiram ao andar superior do cenáculo: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele”.
Conta a Sagrada Escritura que em certo momento São Pedro propôs que se escolhesse alguém para substituir Judas, e “deitaram sortes e caiu a sorte em Matias” (At 1, 26). Nesta passagem temos um dos pontos que é oportuno reter: a posição de São Pedro, que já claramente age como Papa.
Vemos também como os apóstolos conheciam o valor da oração. Por meio dela se preparavam para receber o Espírito Santo. E “perseveraram unanimemente”, ou seja, estavam concordes, e além disso estavam juntos, porque a oração de vários unidos pelo amor de Jesus Cristo e em função d’Ele tem esta promessa: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18, 19).
Estavam recolhidos, modo excelente de preparação para grandes acontecimentos. O próprio Jesus passara 40 dias no deserto, antes de iniciar sua vida pública. Embora não se possa dizer que os apóstolos estivessem melhores do que antes, haviam tomado, assim, uma atitude sapiencial. A graça de Pentecostes será, de algum modo, o desabrochar de uma flor, cuja semente vinha germinando em suas almas. Quer dizer, apesar de essa graça ter sido gratuita, uma iniciativa de Deus, eles, em certa medida, prepararam o caminho para ela.
Por fim chegamos a um ponto fundamental: oravam com Maria. Eis a condição indispensável para receber as graças do Espírito Santo. Como esposa d’Ele, Nossa Senhora deve Lhe ter pedido que descesse sobre os apóstolos. Reunindo-se com a Santíssima Virgem, os apóstolos obtiveram graças que liberaram suas almas dos últimos obstáculos para se beneficiarem com Pentecostes.