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terça-feira, 1 de maio de 2012

Evangelho 5º domingo de Páscoa ano B: a videira e os ramos

Este evangelho será comentado em 4 posts.


Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor



Comenta o Cardeal Isidro Gomá y Tomás: “A belíssima alegoria da vinha mística, assim como a do Bom Pastor, foi-nos conservada apenas por São João. Pode ter servido de sugestão ao Senhor a lembrança do vinho da ceia, do qual disse que não mais beberia. Ou então simplesmente a inventou, por ser ela extremamente apta para exprimir o pensamento, ou melhor, a teoria da união espiritual com Ele”.

Para Israel, a parreira de uva era uma realidade comum e corrente a ponto de, sob o reinado de Salomão, assim se referir a Escritura à paz por ele conquistada com todos os povos vizinhos: “Judá e Israel, desde Dã até Bersabéia, viviam sem temor algum, cada qual debaixo de sua vinha e de sua figueira” (1 Rs 4, 25).

A verdadeira videira
E qual o significado do vocábulo “verdadeira”, empregado pelo Mestre neste versículo? Antes já dissera: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), e João afirmara ser Ele “a luz verdadeira”. Como explicar o uso desses adjetivos?
Em face de heresias de outrora, alguns Padres da Igreja procuravam esclarecer este particular pelos efeitos produzidos pela “videira”, pela “luz” ou pelo “pão” verdadeiros, pois alimentam a fé dos que deles se servem, enquanto os seres materiais correspondentes só servem para a sustentação ou desenvolvimento físico. Nós, porém, somos levados a achar que Deus, na sua infinita e eterna sabedoria, criou esses seres todos (luz, pão, vinha, pastor, caminho, etc.) primordialmente para melhor Se fazer entender pelo homem. Nesse sentido, não contêm eles a verdade inteira, mas apenas a simbolizam. A arquetipia desses seres se encontra no próprio Jesus.
E por que Jesus, nessa ocasião, passa a falar em videira e agricultor? Ouçamos novamente o Cardeal Gomá: “Jesus disse a seus discípulos que vai separar-Se deles, mas essa separação será apenas segundo o corpo. Espiritualmente, deverão permanecer intimamente unidos a Ele para viver a vida divina; morrerão se d’Ele se separarem. Propõe essa doutrina envolta na alegoria da videira. ‘Eu sou a videira verdadeira’, a videira ideal e perfeitíssima, na qual, melhor que nas videiras do campo, verificam-se as condições próprias dessa planta. O cultivador dessa vide espiritual e incorruptível é o Pai: ‘E meu Pai é o agricultor’. Jesus não seria nossa videira se não fosse homem; mas não nos daria a vida de Deus se não fosse Deus. Logo, Jesus é o Messias, Filho de Deus”.
“Meu Pai é o agricultor”
Todo ramo que não der fruto em Mim, Ele o cortará; 2 e todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto.
Jesus afirmou que o Pai é o agricultor e, em consequência, é Ele quem assume a tarefa da poda, da limpeza, dos cuidados. Como já dissemos anteriormente, Deus criou a videira, entre outras razões, para servir de exemplo a esses procedimentos próprios ao Pai, assim como para melhor compreendermos o relacionamento que existe entre os batizados e Cristo. A videira, entre os vegetais, é o mais adequado para se entender a necessidade do corte, ou a da poda. São Paulo é bem explícito em sua apreciação sobre o Agricultor: “De modo que não é nada, nem aquele que planta, nem aquele que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Uma mesma coisa é o que planta e o que rega; cada um receberá sua recompensa segundo seu trabalho. Efetivamente, somos cooperadores de Deus; vós sois cultura de Deus, sois edifício de Deus” (1 Cor 3, 7-9).
Esses ensinamentos de Jesus nos mostram o quanto é pleno de vitalidade seu Corpo Místico. Os “ramos” improdutivos, o Pai os arranca; e os que prometem frutos futuros, Ele os desponta e os acondiciona para mais excelentemente se beneficiarem da seiva.
Não seria diminuto o elenco dos “ramos” infrutíferos, pois muitos sãos os vícios, más inclinações e pecados que bloqueiam o fluxo normal da “seiva” da graça. Em síntese, todos eles têm sua origem no egoísmo humano. O estar voltado sobre si mesmo, submerso em suas próprias conveniências, traz como consequência inevitável um corte com as graças de Deus, pois estas nos são dadas com vistas à caminhada rumo ao Reino. Por outro lado, como afirma São João Crisóstomo, ninguém pode ser verdadeiro cristão sem as boas obras. Ora, o egoísmo não as produz jamais.
Quanto à “poda” dos ramos frutuosos, além das tentações e provações permitidas por Deus, há dons, consolações e estímulos sobrenaturais, ações divinas que visam multiplicar a fertilidade deles. Por este dito de Jesus, vê-se quanto as tentações são úteis para conferir mais virtude e mérito aos bons “ramos”.
Em resumo: “O que se quer dizer aqui é que Cristo, Deus-Homem, influi diretamente, pela graça, nos sarmentos. O Pai, de outro lado, é quem tem o governo e a providência exterior da vinha”.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Tentações de Jesus continuação

Diabólica exploração das revoluções
4 Jesus respondeu-lhe: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus’”.
Jesus poderia ter transformado as pedras em pão, como depois multiplicaria por duas vezes os pães e os peixes. Mas não o fez. Nessa ocasião, não terá querido Ele, além de outros objetivos, ensinar-nos a ilegitimidade das revoltas por ter faltado alimento?
Quantas revoluções foram levadas a cabo, ao longo da História, por uma pura, malévola e — por que não dizer? — diabólica exploração da fome! Nas circunstâncias de penúria, por que não se voltam os homens para o mesmo Deus de Moisés, que não deixou sem alimento o seu povo durante quarenta anos no deserto?
Supremacia da vida espiritual sobre a corporal
Em sua resposta repassada de sabedoria divina, Jesus torna patente, ao demônio e à humanidade, a existência de uma vida muito mais nobre do que a corporal, ou seja, a espiritual. “A palavra de Deus” é constituída pelas ordens divinas, por tudo aquilo que reflete sua soberana vontade, como mais tarde Ele mesmo afirmaria: “Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 4, 34).
É notável a diferença da reação de Jesus diante dessa proposta feita por Satanás, e diante da feita por Maria nas Bodas de Caná: à sua venerável Mãe, Ele atendeu, por saber o quanto era vontade do Pai confirmar o poder impetratório das súplicas de sua Filha bem-amada.
Na frase de Jesus retrucando ao demônio, torna-se claro não ser imprescindível o pão. Deus dispõe incontáveis meios para resolver o problema da fome. Jesus se alimentará como for da vontade do Pai. Se o desígnio d’Este é que a palavra O sustente, qual a necessidade do pão? E se este for indispensável, não tem o Pai o poder de o conceder?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

UM DOS MAIS BELOS ENCONTROS DA HISTÓRIA

“O semelhante se alegra com seu semelhante”, diz um antigo provérbio latino, e de fato é esse um princípio intrínseco a todos os seres com vida, na medida em que sejam passíveis de felicidade. Deus assim nos criou e fez uns dependerem dos outros, aperfeiçoando-nos com o mais entranhado dos instintos, o de sociabilidade. Se para um pássaro constitui motivo de gáudio o encontrar-se com outro da mesma espécie, para nós, esse fenômeno é mais intenso. Ora, se grande é o júbilo de duas crianças afins ao se encontrarem pela primeira vez no colégio, qual não terá sido a reação dos dois maiores homens de todos os tempos, ao se contemplarem face a face?
Assim se realizou um dos mais belos encontros da História, João Batista diante de Jesus; para melhor compreendê-lo, analisemos as analogias entre um e outro.
Traços de semelhança entre Jesus e João
Apesar de serem duas pessoas infinitamente distantes entre si pela natureza — João é mero homem, Jesus é a Segunda Pessoa da Trindade Santíssima — numerosos traços de semelhança os unem.
Jesus é o alfa e o ômega da História. João é o começo do Evangelho e o fim da antiga Lei (1). Assim o afirma o próprio Nosso Senhor: “Com efeito, todos os profetas e a Lei profetizaram até João” (Mt 11, 13-14).
Segundo Tertuliano, João Batista é uma “figura única na História, adornada em vida de um prestígio sobre-humano, que se levanta misteriosa e solene nos confins de ambos os Testamentos” (2). Dele afirma Jesus: “Na verdade vos digo que entre os nascidos de mulher, não veio ao mundo outro maior que João Batista” (Mt 11, 11).
Além do mais, a concepção de ambos, de Jesus e de João, é precedida pelo anúncio do mesmo embaixador São Gabriel Arcanjo (Lc 1, 11-19 e 26-34). As mensagens não diferem muito, em seus termos, uma da outra. Os nomes de Jesus e de João foram designados por Deus (Lc 1,13 e 31).
No próprio ato de anunciar o nascimento, o Mensageiro celeste profetiza também o futuro tanto do Precursor (Lc 1,13-17) quanto do Messias (Lc 1,31-33).
O perfil do Precursor
Sobre Jesus, se fôssemos analisar as grandezas de suas qualidades e de suas obras, “nem todo o mundo poderia conter os livros que seria preciso escrever” (Jo 21, 25).
No Batista, tudo é sui generis, a começar pela profecia de sua vinda, proferida por Isaías e Malaquias: “Uma voz exclama: Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai na estepe uma pista para nosso Deus” (Is 40, 3); “Vou mandar meu mensageiro para preparar o meu caminho” (Mal 3, 1).
Mais impressionante ainda é a sua santificação no seio materno operada pela Santíssima Virgem: “Porque, logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre” (Lc 1, 44).
A grandeza de sua missão é profetizada pelo próprio pai: “E tu, menino, serás chamado o profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo o conhecimento da salvação” (Lc 1, 76-77).
A rudeza da forma de vida escolhida pelo Batista lhe confere uma aura de austeridade ímpar: “Ora o menino crescia e se fortificava no espírito. E habitou nos desertos até o dia da sua manifestação a Israel” (Lc 1, 80). “Andava João vestido de pêlo de camelo, (...) e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mc 1, 6).
Ao iniciar suas pregações, foi acolhido pela opinião pública da época com enorme prestígio, pois, já ao seu nascimento, “o temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas essas maravilhas por todas as montanhas da Judéia. Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração dizendo: ‘Que virá a ser este menino?’ Porque a mão do Senhor estava com ele” (Lc 1, 65-66). Logo de início, João atraiu multidões: “E iam ter com ele toda a região da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém” (Mc 1, 5), “porque todos tinham a João como verdadeiro profeta” (Mc 11, 32).
Os soldados, os publicanos e as multidões lhe perguntavam “Mestre, que devemos fazer?” (Lc 3, 10-14). O próprio Herodes, querendo matá-lo “teve medo do povo, porque este o considerava como um profeta” (Mt 14, 5). Essa grande fama se estendeu até após sua morte: “porque todos tinham João como um profeta” (Mt 21, 26).
As repercussões sobre sua figura, palavras e obras ecoaram entre os vales e os montes da Terra Prometida, a ponto de o povo chegar a pensar “que talvez João fosse o Cristo” (Lc 3, 15).
Pois bem, fixemos em nossa lembrança essa gloriosa projeção alcançada em vida por São João Batista e abramos um parênteses para considerar a principal de suas virtudes: a da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A conversa noturna com Nicodemos II

Continuação
A discreta fidelidade de Nicodemos
De dentro dessa moldura sócio-psico-religiosa, surge a figura de Nicodemos. Segundo São João, trata-se de um fariseu, príncipe dos judeus, que receando comprometer sua reputação no meio de seus companheiros, procurou encontrar-se com Jesus de maneira oculta.
De fato, era tal a sanha de indignação dos fariseus contra o Divino Mestre que, se Nicodemos assim não procedesse, sofreria terríveis perseguições. Os Evangelhos são ricos em pormenores a esse respeito, mas bastaria relembrar o dito dos fariseus quando se indignaram contra os agentes que deveriam ter prendido Jesus: “Houve, porventura, alguém dentre os chefes do povo ou dos fariseus que acreditasse n’Ele? Quanto a esta plebe que não conhece a Lei, é maldita” (Jo 7, 48-49). Essa é a razão pela qual Nicodemos, como José de Arimatéia, embora sempre fiel, manteve grande discrição até o fim (1). Apesar disso, é digna de nota a imperfeição da fé de Nicodemos no Homem-Deus; chama-O de Mestre por causa de seus milagres, mas O vê apenas como um grande homem auxiliado pelo poder de Deus.
O Redentor aproveitou a circunstância de sua visita para ilustrar e fortalecer a fé desse seu novo e secreto discípulo (2), preparando-o para aceitar sua divindade, fazendo-o conhecer algo sobre o Batismo e a Encarnação. E acaba por lhe declarar o objetivo último de sua vinda a esta terra: a salvação dos homens através de sua morte, e morte de cruz. Esta é a temática da Liturgia de hoje.
A Serpente de bronze Símbolo do filho do homem
E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do homem, 15 a fim de que todo o que crê n’Ele tenha a vida eterna.
São Cirilo de Alexandria faz uma aproximação entre o Batismo, anteriormente enunciado por Jesus, e a figura da serpente de bronze. Segundo ele, pelo fato de Nicodemos talvez não ter alcançado o significado dos aspectos sobrenaturais desse Sacramento, o Mestre resolveu recordar-lhe esse episódio tão conhecido de todo o povo israelita, a fortiori de quem era fariseu, como seu visitante.
O episódio do Antigo Testamento
Tendo partido do Monte Hor na direção do Mar Vermelho, o povo judeu se revoltara contra Moisés, e até mesmo diretamente contra Deus, devido ao cansaço, ao enfaramento e à falta de pão, água e de outro alimento que não o maná. Por castigo, Deus enviou serpentes cujas picadas produziam inflamação, febre e, finalmente, a morte; daí seu nome: “de fogo”. Imploraram então os judeus a intercessão de Moisés junto a Deus. Este não eliminou o mal, mas concedeu-lhes um remédio: todo aquele que fosse atacado pelo mortífero animal, ficaria imediatamente curado se olhasse para uma serpente de bronze a qual, por ordem divina, o Profeta havia fixado sobre um poste (3).
Esse objeto foi tomado pelo povo como um símbolo da cura que lhes era concedida por Deus.
Nicodemos devia conhecer a interpretação exata desse milagre, constante no Livro da Sabedoria: “E tiveram logo um sinal de salvação (...) Porque aquele que se voltava para o referido sinal não era curado porque o via, mas sim por Ti, que és o Salvador de todos os homens” (16, 5-7).
Continua no próximo post

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Evangelho: Os discípulos de Emaús I

No mesmo dia, caminhavam dois deles para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. 14 Iam falando sobre tudo o que se tinha passado.
Pelo seu estilo e delicadeza de narração, este é um dos mais belos relatos do terceiro Evangelho. De outro lado, contém ele uma excelente prova da ressurreição de Jesus. Quanto à cidadezinha de Emaús, há uma dezena de hipóteses sobre sua real localização, e não se têm elementos para saber qual a verdadeira. Retenhamos apenas a distância de sessenta estádios que equivale a 11,5 km.
Provavelmente esses dois discípulos, como também outros israelitas, haviam se deslocado para Jerusalém a fim de cumprir os primeiros ritos pascais e, depois de visitarem os Apóstolos, retornavam à sua cidade de origem, no próprio dia da Ressurreição do Senhor.
Alguns Padres da Igreja levantam a hipótese de ser o próprio São Lucas um dos dois, e assim se entenderia melhor o motivo pelo qual ele não quis mencionar o nome do segundo discípulo.
Sucedeu que, quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-Se deles o próprio Jesus e caminhou com eles.
O Divino Mestre havia prometido, em vida, estar presente quando dois ou mais estivessem reunidos em seu nome (1), eis aqui o cumprimento de suas palavras. Foi a conversa entre ambos o fator que atraiu o Redentor a se agregar a eles.
É interessante notar o agrado de Jesus junto aos dois, assim como o recíproco intuito apostólico de lado a lado. Um dos intentos do Divino Mestre era o de robustecer a fé de seus discípulos. Por isso, operando de maneira oculta, “aproximou-Se e caminhou com eles”.
Os seus olhos, porém, estavam como que fechados, de modo que não O reconheceram.
São Lucas nos fornece a hipótese de estarem os olhos dos dois discípulos impedidos de reconhecer o Salvador devido a uma virtude sobrenatural semelhante àquela que havia agido sobre Santa Maria Madalena no Sepulcro (2).
Entretanto, São Marcos afirma que Jesus “apareceu sob outra forma” (Mc 16, 12), ou seja, com fisionomia e talvez até roupas diferentes das que costumava usar. Estas duas versões parecem ser contraditórias à primeira vista e se prestaram durante muito tempo a duas interpretações diferentes.
Hoje, porém, os exegetas são unânimes em atribuir a um efeito do corpo glorioso de Jesus o fato de — tanto nesses dois casos quanto no da aparição aos Apóstolos junto ao Mar de Tiberíades (3) — Ele não ter sido reconhecido.
E por quê? Detenhamo-nos um pouco sobre este particular para melhor entender o que realmente se passou.
“A glória do corpo não é mais do que uma conseqüência e redundância da glória da alma”, diz-nos o grande teólogo Pe. Antonio Royo Marin, OP (4). Em Jesus, esta lei ficou misteriosamente suspensa até o momento da Ressurreição, pois queria Ele ter padecente seu corpo, a fim de poder sofrer.
Desde sua criação, a alma do Salvador sempre esteve na visão beatífica e, portanto, também seu Corpo Sagrado deveria encontrar-se no estado de glória. Ele criou a lei e impediu que se Lhe fosse aplicada. Ora, ao ressurgir dentre os mortos, Ele assumiu seu Corpo glorioso.
É essencial ao homem, a fim de gozar a bem-aventurança eterna, que tanto a alma quanto o corpo sejam glorificados. E assim como nesse novo e último estágio a alma se torna ainda mais semelhante a Deus, o corpo adquire as características da alma.
Ele será impassível, ou seja, não terá a menor enfermidade, dor ou incômodo, nem sequer do mais abrasador dos fogos, ou do mais rigoroso frio, ou até mesmo em meio à impetuosidade das águas; será, portanto, imortal (5). Gozará de sutileza, obedecendo sem resistência aos mínimos anseios da alma, sem sentir o próprio peso nem sofrer a ação da gravidade. Terá agilidade, deslocando-se com a velocidade da imaginação. Por fim, o dom que mais especialmente nos interessa para compreender este versículo, a claridade, devida aos efeitos resplandecentes da suprema felicidade da alma sobre o corpo: “Os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai” (Mt 13, 43).
Ora, como a alma exercerá um domínio absoluto sobre o corpo, suspenderá segundo seu desejo a manifestação deste ao exterior de modo que possa ser visto ou não, tocado ou não, segundo ela determine (6).
Eis aí as razões pelas quais os dois discípulos não reconheceram Jesus ao longo de todo o percurso. “Alguns autores pensam que uma ação sobrenatural era que lhes impedia reconhecer Cristo. Mas a frase do Evangelho [“seus olhos, porém, estavam como que fechados”], não exige que tenha se dado uma ação desse gênero. Aconteceu simplesmente que Cristo ressuscitado apareceu-lhes em corpo glorioso, sob uma forma não mais comum e corrente” (7). Ou então, segundo o comentário de Teófilo: “Apesar de ser o mesmo corpo que havia padecido, já não era visível para todos, senão unicamente para aqueles que Ele quisesse que o vissem; e para que não duvidassem que doravante já não viveria entre a gente, porque seu modo de vida depois da ressurreição já não era humano, mas mais bem divino, uma pré-figura da futura ressurreição, na qual viveremos como anjos e filhos de Deus” (8).

Continua no próximo post

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O INSTINTO DE SOCIABILIDADE

Jesus, exemplo do equilíbrio dos instintos
Desde o primeiro instante de nossa criação, Deus dotou-nos de instintos. Eram eles ordenados sob os influxos do dom de integridade até o momento em que Adão e Eva pecaram. A partir de então, só com auxílio da graça nos é possível utilizar cada um deles de acordo com a Lei de Deus, de maneira estável.
Um dos mais excelentes entre todos é o instinto de sociabilidade, e talvez até, por isso mesmo, um dos mais perigosos fora da atmosfera sobrenatural. Daí ter afirmado Sêneca: “Quanto mais vezes estive entre os homens, menos homem retornei” ; e Thomas Hobes: “O homem é um lobo para outro homem”. Sim, o extremo de horrores a que podem chegar os homens no seu relacionamento à base do egoísmo é simplesmente inimaginável e assustador.
Mas, se mal conduzido esse instinto, os resultados podem vir a ser catastróficos, no extremo oposto assistimos às maravilhas da graça atuando sobre o convívio humano e enriquecendo qualquer hagiografia, a começar pela do Varão por excelência, o Filho do Homem.
Por sua sociabilidade divinizada, desde o primeiro instante de sua existência desejou reparar os pecados cometidos por seus irmãos e, para salvá-los, entregou-se à morte de cruz. Assim teria procedido se fosse para redimir um só pecado e salvar uma só alma. E como se isso não bastasse, deixou-se em Corpo, Sangue, Alma e Divindade até o fim do mundo, como alimento nosso sob as Espécies Eucarísticas. N’Ele encontramos o perfeitíssimo exemplo e, ao mesmo tempo, o próprio equilíbrio de todos os nossos instintos.
Foi d’Ele que nasceram os hospitais, os orfanatos, os asilos, as universidades, etc. Quando os homens se resolvem a colaborar com sua graça, daí nascem os esplendores de realizações capazes de tornar fulgurante toda uma era histórica. Pelo contrário, ao se fecharem ao seu apelo, os crimes, os roubos, a desonra, a mentira, os suicídios, as calúnias etc., proliferam como praga por toda parte.
Sociabilidade virtuosa dos discípulos de Emaús
É com vistas a nos ensinar quão benéficos são os efeitos da hospitalidade — qualidade de alma própria àquele que ordenadamente usa de seu instinto de sociabilidade — que a Liturgia nos propõe considerar a beleza da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús. Nesta narração, ambos deixam entrever o quanto possuem um coração afetuoso, caritativo e generoso para com um desconhecido que os alcança pelo caminho. Eles não têm a menor fímbria de respeito humano em explicar ao forasteiro os principais aspectos da vida, paixão e morte de Jesus, como o próprio desaparecimento de seu Sagrado Corpo, sempre levados por uma sociabilidade virtuosa tão rara nos dias de hoje e tão indispensável para um convívio agradável.
Consideremos o grande respeito usado pelos três entre si nesse episódio, como também a elevação do tema por eles tratado e o tônus da conversa. Como seria altamente formativo o poder-se reconstituir tal qual se deu esse convívio dos dois com o Divino Mestre ressurrecto! De imediato, configurarse-ia diante de nossos olhos o grande contraste com os encontros tão comuns e correntes na atualidade. Quanto teríamos a aprender desse sacrum convivium!
Continua no próximo post: Os discípulos de Emaus

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Primeiro Domingo Advento ano B II

Visões prejudiciais para o bem comum da sociedade
E ainda mais recentemente, nosso tão querido João Paulo II se exprimia de maneira clara e lúcida sobre a mesma questão:
“Esses mesmos meios de comunicação possuem a capacidade de causar prejuízos graves às famílias, apresentando uma visão inadequada e mesmo deformada da vida, da família, da religião e da moral. Esse poder, tanto para reforçar como para desprezar os valores tradicionais, como a religião, a cultura e a família, foi compreendido com clareza pelo Concílio Vaticano II, que ensinou que, ‘para o reto uso desses meios, é absolutamente necessário que todos os que se servem deles conheçam e ponham em prática, nesse campo, as normas da ordem moral’ (Inter mirifica, 4).”
E mais adiante:
“A família e a vida familiar são também, com muita freqüência, descritas de maneira inoportuna pelos meios de comunicação.
“A infidelidade, a atividade sexual fora do matrimônio e a ausência de uma visão moral e espiritual do vínculo matrimonial são descritas de maneira não crítica, enquanto às vezes se apresentam de modo positivo o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade. Essas visões, promovendo as causas contrárias ao matrimônio e à família, são prejudiciais para o bem comum da sociedade” (14).
Bento XVI, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, já advertia para o efeito nefasto que os meios de comunicação social podem ter para a fé e a moral.
Em 1992 publicou normas canônicas numa “Instrução sobre alguns aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social na promoção da doutrina da fé”:
“Idéias errôneas se difundem cada vez mais através dos meios de comunicação social em geral e, de maneira específica, através de livros. (...) As normas canônicas constituem uma garantia para a liberdade de todos: seja dos fiéis individualmente, que possuem o direito de receber a mensagem do Evangelho na sua pureza e integridade; seja das pessoas empenhadas na pastoral, dos teólogos e de todos os católicos engajados no jornalismo, que têm o direito de comunicar o seu pensamento, sempre dentro da integridade da fé e do ensinamento da Igreja sobre a moral e no respeito aos Pastores” (15).
Campo de batalha para mestres e confessores
É um convite, pois, para que todos nós sejamos vigilantes no tocante à imprensa, aos livros e revistas provocativas, à televisão, à rádio, à internet, etc.
E nunca é demais sublinhar o que foi dito por Pio XI, citado logo atrás, a respeito dos malefícios causados ao próprio uso das faculdades da alma (produzindo, por exemplo, a decadência intelectual), quando esses veículos de comunicação são mal empregados.
Esse é um grande campo de batalha para os confessores, os diretores de consciência, os pais, os mestres, os formadores, os apóstolos, etc.: “Estai alerta! Vigiai...” Tanto mais que não se sabe “quando será o momento”.
Continua no próximo post.

sábado, 26 de novembro de 2011

O Advento

As duas vindas de Nosso Senhor
O círculo e o losango são as mais perfeitas figuras geométricas segundo o conceito de São Tomás de Aquino, pois representam o movimento do efeito que retorna à sua causa. Cristo é a mais alta realização dessa simbologia porque, além de ser o princípio de todo o criado, é também o fim último. Daí encontrarmos, tanto no término do ano litúrgico, como em sua abertura, os Evangelhos que transcrevem as revelações de Jesus sobre sua última vinda.
A penitência, na expectativa do Natal
A Igreja não elaborou suas cerimônias através de um planejamento prévio. Organismo sobrenatural como é, nascido do sagrado costado do Redentor e vivificado pelo sopro do Espírito Santo, possui uma vitalidade própria com a qual se desenvolve, cresce e se torna bela, de maneira orgânica. Assim foi-se constituindo o ano litúrgico ao longo dos tempos, em suas mais diversas partes. Em concreto, o Advento surgiu entre os séculos IV e V como uma preparação para o Natal, sintetizando a grande espera dos bons judeus pelo aparecimento do Messias.
À expectativa de um grande acontecimento místico-religioso, corresponde uma atitude penitencial. Por isso os séculos antecedentes ao nascimento do Salvador foram marcados pela dor dos pecados pessoais e do de nossos primeiros pais. Mais marcante ainda se tornou o período anterior à vida pública do Messias: uma voz clamante no deserto convidava todos a pedirem perdão de seus pecados e a se converterem, para que assim fossem endireitados os caminhos do Senhor.
Esperança pervadida pelo desejo de santidade
Desejando criar condições ideais para participarmos das festividades do Nascimento do Salvador — sua primeira vinda —, a Liturgia selecionou textos sagrados relativos à sua segunda vinda: a nota dominante de uma é a misericórdia e a da outra, a justiça. Entretanto, esses dois encontros com Jesus formam um todo harmônico entre o princípio e o fim dos efeitos de uma mesma causa. Os Padres da Igreja comentam largamente o contraste entre uma e outra, mas, segundo eles, devemos ver na Encarnação do Verbo o início de nossa Redenção e na ressurreição dos mortos a sua plenitude.
Para estarmos à altura do grandioso acontecimento natalino, é indispensável colocarmo-nos diante da perspectiva dos últimos acontecimentos que antecederão o Juízo Final. Daí o fato de a Igreja durante muito tempo ter cantado na Missa a sequência “Dies Irae”, a famosa melodia gregoriana. Mais do que simplesmente recordar-nos o fato histórico do Natal, a Igreja quer fazer-nos participar das graças próprias à festividade, tal qual delas gozaram a Santíssima Virgem, São José, os Reis Magos, os Pastores, etc. Ora, uma grande esperança, pervadida pelo desejo de santidade e por uma vida penitencial, sustentava o povo eleito naquelas circunstâncias. E nós devemos imitar seu exemplo e seguir seus passos, em face não só do Natal como também da plenitude de nossa redenção: a gloriosa ressurreição dos filhos de Deus.
Primeira e segunda vindas de Jesus se unem diante de nossos horizontes neste período do Advento, fazendo-nos analisá-las quase numa visão eterna; talvez, melhor dizendo, de dentro dos próprios olhos de Deus, para Quem tudo é presente. Eis algumas razões pelas quais se entende a escolha do roxo para os paramentos litúrgicos, nessas quatro semanas. É tempo de penitência. E por isso o Evangelho de hoje nos fala da vigilância, por não sabermos quando retornará o “senhor da casa”. É indispensável que não sejamos surpreendidos dormindo.
Veio como réu, voltará como Juiz
É preciso considerar que o Senhor não virá como Salvador, mas sim como Juiz, não só enquanto Deus, mas também enquanto Homem, tal como nos explica São Tomás: “Havendo, pois, (Deus) colocado Cristo-Homem como cabeça da Igreja e da humanidade, e havendo-Lhe submetido tudo, concedeu-Lhe também — e com maior direito — o poder judicial” (1). “Cristo mereceu, ademais, esse ofício, por haver lutado pela justiça e haver vencido, ao ser sentenciado injustamente. ‘O que esteve de pé ante um juiz — diz Agostinho — se sentará como juiz, e o que caluniosamente foi chamado réu, condenará os réus autênticos’” (2).
Nosso Senhor Jesus Cristo será o Grande Juiz, em sua humanidade santíssima unida hipostaticamente à Sabedoria divina e eterna. Assim, conhece Ele os segredos de todos os corações, tal qual escreve São Paulo aos Romanos: “No dia em que Deus julgará, por Jesus Cristo, as ações ocultas dos homens” (Rm 2,16). Ele aparecerá em toda a sua glória, pois, em sua primeira vinda, porque se dispunha a ser julgado, revestiu-se de humildade. Portanto, deverá revestir-se de esplendor, ao retornar como Juiz (3). Pondera ainda São Tomás que, ao nascer em Belém, o Filho se encarnou para representar nossa humanidade junto ao Pai, mas, no fim do mundo, Ele virá aplicar a nós a justiça do Pai; por isso deverá demonstrar a glória de embaixador do poder eterno de Deus.
Esse juízo será universal, porque também o foi a própria Redenção. Ouçamos as explicações dadas por Santo Agostinho a respeito das duas vindas de Nosso Senhor: “Cristo, Deus nosso e Filho de Deus, realizou a primeira vinda sem aparato; mas na segunda virá apresentando-Se como Ele é. Quando veio calado, não Se deu a conhecer senão aos seus servos; quando vier manifestamente, mostrar-Se-á a bons e maus. Quando veio incógnito, veio para ser julgado; quando vier com majestade, fá-lo-á para julgar. Quando foi réu, guardou o silêncio anunciado pelo Profeta: ‘Não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante os tosquiadores...’ (Is 57, 7). Mas não haverá de se calar assim, quando tiver de julgar. Na verdade, nem agora está calado para quem gosta de ouvi-Lo; e se diz que não Se calará, Ele o diz porque então deverão ouvi-Lo os que agora O menosprezam” (4).
Consideração benfazeja, tanto para os bons quanto para os maus
Nada será esquecido, os mínimos pensamentos ou desejos serão relembrados com vigor de realidade. Ações e omissões, a respeito de Deus, do próximo e até de nós mesmos. O Divino Juiz não deixará uma só vírgula sem análise, sem ser devidamente pesada. E para cada um proferirá de público uma inapelável e definitiva sentença. Alguns à sua direita, outros à esquerda. Destes últimos, quantos ali estarão por terem procurado um prazer fugaz, ou por terem se recusado a fazer um esforço insignificante? É preciso levar em conta que esse trágico panorama do Juízo Final será uma repetição pública do juízo particular de cada um.
Mas, por outro lado, quanta alegria terão os bons! “Os padecimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há de se manifestar em nós” (Rm 8, 18). Os corpos dos justos estarão livres das fraquezas e enfermidades, serão imortais e espiritualizados, assimilados à luz de Cristo. Ao se verem reunidos em Maria e em Jesus, sentir-se-ão inundados de gozo e alegria, naquele dia de triunfo.
Daqui se conclui o quanto é benfazejo, tanto para os maus como para os bons, considerar de frente essa segunda vinda do Senhor. Para uns talvez lhes comova o temor de Deus, para outros poderá alentá-los, em meio às dores e dramas desta vida, a esperança dessa apoteótica cerimônia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Deus quis se fazer íntimo de nós

Moisés se maravilhou com a sarça que ardia sem se consumir. Aquelas chamas de incomum beleza, mantidas pela ação de um anjo, atraíram-no. Movido por uma forte e sobrenatural curiosidade, ele aproximou-se “para contemplar esse extraordinário espetáculo” e qual não foi sua surpresa ao ouvir de dentro das labaredas a voz de Deus, a adverti-lo de que tirasse suas sandálias por encontrar-se numa “terra santa”.
Ali recebeu a elevada missão de libertar do cativeiro o povo eleito e de conduzi-lo à Terra Prometida. Porém, naqueles alvores de seu profetismo, surgiu uma perplexidade: como apresentar aos outros o Senhor? Dúvida inteiramente compreensível, pois o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó era distante, invisível e de difícil acesso. Mas, a resposta foi extremamente sintética: “Iah Weh”, ou seja: “Eu sou” (Ex 3, 1-15).
Aquele era o mesmo Deus que passeara todas as tardes com Adão no Paraíso (Gn 3, 8)   e que, após o pecado original, fez-Se menos presente entre os homens. A partir daí, quase sempre suas manifestações se deram através da grandeza dos castigos (dilúvio, confusão das línguas, etc.), que incutiam um profundo respeito, temor e admiração no povo. Embora a travessia do Mar Vermelho, o maná e outras ocorrências miraculosas durante o Êxodo lhes dessem um conhecimento experimental da existência de um Ser Supremo que os protegia nos caminhos da vida, a própria entrega das Tábuas da Lei no Sinai tornou-se um símbolo do relacionamento d’Ele com o homem, baseado numa severa justiça. Aquele Ser absoluto se apresentava ao povo eleito como um Legislador intransigente, invisível e intocável.
Esse modo de agir divino passou por uma transformação inimaginável nestes mais de dois mil anos de Novo Testamento, desde que o “Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Aquele mesmo Deus que fez tremer o Sinai e deu grandes poderes ao braço de Sansão e à voz de Elias, pôde ser adorado enquanto bebê na manjedoura, em Belém, e esteve nos braços de Maria, José, Simeão e dos Reis Magos.
Doze anos mais tarde, ainda menino, discutiu com os doutores no Templo, e durante sua juventude, auxiliou seu pai nos trabalhos de carpintaria. E, ao iniciar sua missão pública, fez-Se presente a umas bodas em Caná, realizando ali seu primeiro milagre. Em Jesus, Deus quis Se fazer íntimo de nós. Ele continuou sendo o mesmo “Iah Weh”, mas atribuindo-se títulos diferentes: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10, 11), “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” ( Jo 14, 6), “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12), “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7), “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51). Fazendo menção a essas criaturas todas — inclusive comparando-se à galinha com seus pintainhos, ao chorar sobre Jerusalém —, Ele mostra bem qual seu incomensurável desejo (desejo eterno) de nos fazer participar de sua vida.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ciclo litúrgico

Com sabedoria divina e usando de insuperável arte, neste mês de novembro, a Igreja termina um ciclo litúrgico e dá início a outro. A abertura do novo ano será muito semelhante ao fecho do anterior.
Por que usa a Igreja de um método, à primeira vista, repetitivo, sendo seu tesouro insuperavelmente amplo e variado? Qualquer um a quem ocorrer esta pergunta logo perceberá provir ela de uma impressão superficial e errônea. Em realidade, a Encarnação e o Nascimento do Salvador tomam cores mais ricas ao serem focalizados na perspectiva do retorno de Cristo no fim do mundo, pois todos esses acontecimentos referem-se a um mesmo Ser e têm, portanto, profundas analogias entre si. O Natal e o Juízo Final constituem os extremos opostos de um só e imenso arco. Na Manjedoura, encontramos o Menino “que há de vir julgar os vivos e os mortos” (2 Tm 4, 1). No Vale de Josafá, veremos o próprio Inocente nascido na Gruta de Belém “voltar sobre as nuvens com grande poder e glória” (Mc 13, 26).
Ao surgir, Jesus dividiu a História em duas eras e, em seu retorno, finalizará o tempo e abrirá as portas da eternidade: “A Ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno; nunca cessará e seu reino jamais será destruído” (Dn 7, 14). “O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder” (Sl 92, 1).
A Realeza de Cristo
Esta festa foi estabelecida por Pio XI há menos de um século (1925). Entretanto, a consideração dessa divina realeza é tão antiga na piedade dos fiéis quanto a própria Liturgia. Referências a ela transbordam desde o Advento ao Tempo Pascoal, passando pela Natividade, Epifania e Paixão. A Teologia é rica em reflexões sobre essa temática, debaixo dos mais variados aspectos.
Por exemplo, São Tomás, ao discorrer sobre a origem do poder real de Cristo, demonstra-nos que Jesus é Rei por direito de natureza, por sua dignidade de Cabeça de todos os que estão unidos a Ele, pela plenitude da graça habitual, títulos estes gratuitos, ou seja, independentes dos merecimentos alcançados pelo Homem-Deus.

sábado, 19 de novembro de 2011

Comentário do Evangelho Jo 16,5-7

Agora vou para aquele que me enviou, e ninguém de vós me pergunta: Para onde vais? (Jo 16,5)
São João coloca aqui, no Evangelho, que Nosso Senhor Se queixa porque eles não perguntam: “Para onde vais?”
O que quer dizer essa afirmação feita por Nosso Senhor?
Quer dizer o seguinte: é que eles estavam com as vistas tão postas na matéria, eles estavam com as vistas tão postas no que se passava em torno deles e eles estavam, portanto, tão feitos para considerar os aspectos humanos de Nosso Senhor, que eles não tinham a preocupação de qual era o objetivo último de Nosso Senhor, de onde Ele veio e para onde Ele vai. Mas queriam saber de gozar da presença d’Ele de forma humana.
Ele está querendo chamar, sacudir os Apóstolos. Porque os Apóstolos estavam preocupados com o acontecimento humano.
Ora, dali a pouco Nosso Senhor ia ser morto e Ele precisava sacudi-los para que não prestassem atenção nos episódios que vinham imediatamente, mas que tivessem bem claro o fim.
Nosso Senhor nos dá uma lição aqui: desde que nós tenhamos bem claro o nosso fim, todo o resto fica ajustado. Por isso Ele diz em outro trecho:
– Procurai o reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo.
Ele o que está dizendo aqui? É que eles não prestavam atenção no fim, eles estavam com os olhos postos no meio. Nós não devemos prestar atenção no meio? Sim. Mas subjugado ao fim, sempre a ideia do fim deve estar clara em nossa cabeça.
“Mas porque vos falei assim, a tristeza encheu o vosso coração”.(Jo 16,6)
Os apóstolos estavam preocupados com os acontecimentos daquele momento, preocupados e atormentados pelos acontecimentos imediatos.
Ora, Nosso Senhor já lhes deveria ter revelado a Igreja que Ele ia fundar, que  Ele ia ressuscitar, que a obra d’Ele se espalharia pelo mundo inteiro. Entretanto, eles tinham uma ideia mundana e julgavam que Nosso Senhor tinha dito isso de forma humana. E Nosso Senhor está querendo chamar a atenção deles para todo o aspecto sobrenatural.
Por que foi Nosso Senhor? Por que Nosso Senhor se foi?
Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei. (Jo 16,7)
São Tomás, Santo Agostinho, os doutores afirmam que para entrar em cena o Espírito Santo, Nosso Senhor precisava retirar-se; que o Espírito Santo procede do amor do Pai e do Filho e que era preciso, uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem, tendo dado origem à Igreja, do costado de Nosso Senhor Homem tivesse saído a Igreja, era preciso que Nosso Senhor Homem fosse ao trono do Pai Celeste e ali, enquanto Homem e enquanto Deus, adorasse na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a Deus e para que daí, o Espírito Santo que procedeu desde toda a eternidade do amor dos Dois, também procedesse dessa forma para a Igreja e aí transformasse a Igreja.

Um outro argumento: os Apóstolos tinham uma ideia muito humana de Nosso Senhor e estavam com a vista turvada pela humanidade de Nosso Senhor. E era preciso que a humanidade de Nosso Senhor desaparecesse diante deles para que eles então, vindo o Espírito Santo, tivessem uma ideia exata de quem era Nosso Senhor.

Trecho adaptado para linguagem escrita, sem conhecimento e/ou revisão do autor

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Evangelho: Cura de um paralítico (final)

Jesus prova, com o milagre, seu poder de perdoar
9 O que é mais fácil dizer ao paralítico: ‘São-te perdoados os pecados’, ou dizer: ‘Levanta-te, toma o teu leito e anda’?
Em substância, é incomparavelmente mais difícil perdoar os pecados do que curar uma paralisia. Entretanto, o dizer “os teus pecados te são perdoados” não põe em risco, nem à prova, a eficácia destas palavras, pois não há elementos para atestar se de fato os pecados foram ou não perdoados. O contrário se passa com a ordem de levantar-se. Neste caso, a comprovação é imediata. Pode-se bem imaginar o que aconteceria se, depois de proferida a ordem, o paralítico não se movesse de sua maca...
Afinal, como os judeus acreditavam haver um vínculo entre pecado e enfermidade, curada a paralisia, forçosamente o enfermo estaria isento de seus pecados.
10 Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados, (disse ao paralítico) 11 Eu te ordeno: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”.
Sobre estes versículos, pululam os comentários dos mais variados matizes. Maldonado, porém, parece ser melhor inspirado em suas observações. Nota o exegeta que Jesus não Se chamou a Si próprio “Filho de Deus”, mas sim “Filho do Homem”, para tornar claro, ademais, que o poder de perdoar pecados, Ele o possuía também como homem. “Ele prova que é Deus, não com argumentos, mas com a obra, quando lhes revela o que estão pensando; e que perdoa enquanto homem”. Não se referiu a esse poder enquanto seu detentor no Céu — pois o possui desde toda a eternidade — mas “sobre a terra”, “demonstrando que também como homem perdoa pecados”.
Mais adiante concluirá o próprio Maldonado: “Do mesmo modo pelo qual o poder de perdoar os pecados foi comunicado à humanidade de Cristo por sua divindade, assim também de Cristo cabeça derivou para os membros que Ele quis, isto é, para os sacerdotes”.
O resto da cena tem algo de necessariamente teatral para demonstrar ad nauseam a grandeza dos milagres ali operados por Jesus. Daí as três ordens consecutivas dadas por Ele: “Levanta-te”, ou seja, o paralítico a executou por si próprio, sem o auxílio de ninguém, para assim tornar patente o quanto Cristo lhe havia devolvido suas forças; “toma o teu leito”, é outro grande prodígio, pois, além de pôr-se em pé, aquele que só descera do teto pela ajuda de quatro outros também deve recolher o seu leito; “e vai para a tua casa”. Imagine-se o espanto daquela multidão, agora ainda mais apinhada, vendo-se na contingência de abrir para o ex-paralítico a passagem que lhe fora negada à entrada, para ele — com sua cama — buscar o caminho da rua...
12 Imediatamente ele se levantou e, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, de maneira que se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos coisa semelhante”.
A atitude da multidão é oposta à dos escribas. Aquelas pessoas sentem-se pervadidas de admiração, pois, com toda facilidade, dos efeitos remontam à causa e retribuem a Deus em louvores aquilo que Lhe é devido, reconhecendo o insólito do ocorrido. Crescem assim, nas virtudes teologais, enchem-se de alegria, recebem uma infusão de energia e também progridem no temor de Deus.
Bem diferente deve ter sido o retorno dos escribas às suas casas, trespassados pelas angústias da blasfémia não-reparada. 
Conclusão
Não devemos jamais tomar uma atitude análoga à dos escribas, fechando- nos diante do divino poder de Jesus de perdoar nossos pecados, e assim negligenciar a eficácia, grandeza e necessidade do Sacramento da Confissão. A Liturgia de hoje nos ensina as maravilhas desse poder, que Ele próprio conferiu aos seus sacerdotes.
A fim de alimentar nossa piedade em matéria tão importante, transcrevemos abaixo um belo fato ocorrido com Santa Margarida de Cortona: Vendo a fervorosíssima conversão de Margarida, o Redentor começou a instruí-la e agraciá-la de muitas maneiras, e, mostrando-Se a ela todo cheio de piedade e de amor, chamava-a frequentemente pelo nome de ‘pobrezinha’.
Um dia, a Santa, repleta daquela confiança que é tão própria ao amor filial, disse-Lhe:
— Senhor, Vós sempre me chamais de “pobrezinha”. Quando chegará o dia no qual eu possa ouvir de vossa divina boca o belo título de “filhinha”?
— Ainda não és digna. Antes de receber o nome e tratamento de filha, convém que purifiques melhor tua alma com uma confissão geral de todas as tuas culpas.
Tendo ouvido isso, Margarida fez um minucioso exame de seus pecados e, durante oito dias contínuos, os expôs ao confessor, mais com lágrimas do que com palavras. Acabada a confissão, tirou o véu que lhe cobria a fronte, pôs uma corda ao pescoço e, nessa humilde postura, foi receber o Corpo Santíssimo do Redentor. Mal acabara de comungar, sentiu ressoar no mais íntimo de sua alma as palavras: “Minha filha”.
Ouvindo essa voz tão doce, pela qual tanto havia suspirado, perdeu todos os sentidos e ficou absorta em um mar de gozo e alegria. Voltando logo a si desse êxtase, começou a repetir, atônita de admiração:
— Oh! doce palavra: “minha filha”! Oh! doce voz! Oh! palavra cheia de júbilo! Oh! voz cheia de segurança: “minha filha”!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Evangelho: cura do paralítico IV

O Senhor que esquadrinha os corações
6 Estavam ali sentados alguns escribas que diziam nos seus corações: 7 “Como é que Ele fala assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar senão Deus?”
Enquanto doutores da Lei, conheciam aqueles escribas que só a Deus cabe perdoar os pecados, conforme se encontra na Escritura: “Sou Eu, sou Eu que por amor a Mim apago os teus pecados e não Me recordo mais de tuas rebeldias” (Is 43, 25). Sabiam eles que nenhum juiz poderia arrogar-se a faculdade de perdoar qualquer pecado, pois este consiste numa ofensa feita a um Ser infinito, eterno, etc., e quem o comete contrai uma culpa também infinita.
Quem afirmasse de público ser capaz de perdoar os pecados proferiria uma blasfêmia, por querer praticamente usurpar o trono de Deus. Ora, segundo a Lei mosaica, o blasfemador era réu de morte por apedrejamento, e as testemunhas deveriam começar por rasgar as vestes. Com esse pensamento, os escribas evidentemente precipitariam a condenação de Jesus à pena capital. Não podemos nos esquecer de que talvez esses fariseus fossem aqueles que haviam presenciado a proclamação do Precursor: “Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).
8 Jesus, conhecendo logo no seu espírito que eles pensavam desta maneira dentro de si, disse-lhes: “Por que pensais isto nos vossos corações?”
Aqui está mais uma prova da divindade de Jesus Cristo. As Escrituras são ricas de afirmações a respeito de quanto “o Senhor sonda todos os corações e penetra todos os pensamentos do espírito” (1 Cr 28, 9). Diz Deus a Jeremias: “Eu sou o Senhor que esquadrinho o coração, que sondo os afetos” (17, 10).
Conforme narra o Evangelista, os fariseus nada haviam dito nessa ocasião, tratava-se de puros pensamentos. Só o fato de vê-Lo discernir com tanta precisão o interior das almas, já lhes teria sido suficiente para crerem na divindade do Messias.
Segundo São João Crisóstomo, esse foi o primeiro milagre realizado por Jesus nessa noite, antes mesmo da cura do paralítico. Aqui se percebe o quanto a blasfêmia cabia exclusivamente aos fariseus, e jamais a Jesus.
Muito consoladora é para nós esta passagem, pois ela nos demonstra como nossos pensamentos, desejos e aflições são acompanhados por nosso Redentor a cada instante. Esse poder de Jesus incentiva nossa piedade, fortalece nossa confiança e nos convida à honestidade. Por outro lado, faz crescer nosso temor a Deus e põe freio à nossa negligência.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Evangelho: cura do paralítico III

“Para o amor, nada é impossível!”
4 Como não pudessem levá-lo junto d’Ele por causa da multidão, descobriram o teto na parte debaixo da qual estava Jesus e, tendo feito uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico.
Os condutores do paralítico usam de tal radicalidade que a cena adquire um caráter dramático. Imaginem-se as tentativas, feitas por eles e talvez até pelos acompanhantes, familiares e amigos do doente, de convencerem as pessoas a abrirem caminho no meio da impenetrável multidão aglomerada. O temperamento oriental, muito dado à tragédia, deve ter se evidenciado de maneira viva nessa ocasião. Uns fazendo pressão teatral para ultrapassar a barreira humana e outros resmungando, à medida que se espremem ainda mais. Intuitivos como são aqueles povos, os condutores e acompanhantes concluíram serem inúteis suas artes diplomáticas. Desistiram de usar as vias normais de entrada e lançaram-se numa aventura, também muito característica daquelas terras.
As casas judias dos tempos messiânicos eram térreas, com um terraço fazendo o papel de telhado, ou uma cobertura construída de uma mescla de barro e fibras vegetais suficiente para resistir às intempéries e permitir seu uso pela família numa noite de verão. Seu acesso se fazia por uma das laterais da casa, através de uma escada fixa. Ao que tudo indica, sem maior risco para os que se encontravam na sala, os portadores da maca do paralítico afastaram os ramos da argamassa, abrindo um buraco no teto.
Esse belo e ousado gesto nos faz entender a realidade do axioma de Santa Teresinha: “Para o amor, nada é impossível!” De fato, ali estava simbolizado o verdadeiro zelo apostólico. Assim devem ser nossa fé e nosso empenho no cuidado pelas almas, não se deixando vencer por obstáculo algum. Por outro lado, o mesmo episódio nos mostra o quanto Jesus deseja que a salvação de uns seja operada pelo auxílio de outros. É bem a imagem da importância do apostolado colateral.
Podemos fazer ideia do espanto dos circunstantes, apinhados em torno de Nosso Senhor, ao se darem conta de que o teto se abria. Poeira, ruído, surpresa! De repente, uma padiola começa a descer através de cordas e, por fim, o pobre paralítico aterrissa, obrigando-os a se afastarem e se espremerem.
5 Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: “Filho, são-te perdoados os pecados”.
Em vista da fama dos inúmeros milagres realizados por Jesus, evidentemente todos os presentes aguardavam a cura imediata daquele paralítico. É de se crer que ele tenha descido do teto com fisionomia de súplica e causadora de pena. Bastaria a presença ali de algumas senhoras, dotadas do admirável instinto materno, para estar criado um clima de comiserado “suspense”. Se qualquer uma delas fosse taumaturga, faria o paralítico levantar-se imediatamente.
A perplexidade suscitada em uns e outros pelas palavras do Divino Mestre foi intencional, e por várias razões. Jesus deixa claro quanto os problemas da alma são mais importantes que os do corpo. Ademais, como anteriormente dissemos, havia uma forte crença entre os judeus de serem as doenças fruto dos pecados próprios ou dos pecados dos antepassados. Outras situações houve nas quais Jesus, após o milagre, recomendou aos beneficiados: “Não tornes a pecar”, a fim de não lhes vir a acontecer males piores. É de se perguntar se, no caso concreto desse paralítico, haveria alguma relação entre seu estado físico e problemas morais, mas nos é possível responder nem afirmativa nem negativamente. Entretanto, pecados ele os deveria ter, pois a frase de Nosso Senhor é inequívoca. É até admissível que estivesse profundamente arrependido, como se comprova pelo afetuoso tratamento a ele dispensado: “Filho, confia”.
Muito interessante é a opinião de Maldonado sobre “a fé daqueles homens”:
“Provavelmente, esse paralítico não teria menor fé que aqueles que o levavam. Mas, segundo está dito, Cristo lhe perdoou os pecados pela fé de seus portadores. Jesus apreciou tanto a fé daqueles bons homens que, mesmo se o paralítico não a tivesse de modo conveniente, Ele lhe teria perdoado, por causa da fé de seus portadores”.
Há também quem — como São João Crisóstomo — levante a hipótese de ter querido Jesus dar oportunidade a uma reação dos fariseus, servindo-se desse pretexto para tornar patente sua divindade.
Continua...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Evangelho: cura de um paralítico II

1 Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum, e souberam que Ele estava em casa.
Maldonado opina que Jesus deve ter entrado na cidade à noite e de maneira muito discreta, sabendo-o somente os discípulos e mais ninguém, a fim de poder descansar. Logrado foi seu intento, pois a notícia de sua chegada correu pela cidade.
Provavelmente tratava-se da casa de Pedro, e não se pode descartar a hipótese de a notícia ter sido espalhada através de algum amigo, ou até mesmo de um parente seu. Não é fácil fazer passar despercebida a presença de Jesus, uma vez que a própria virtude participada — a dos santos —, ninguém consegue abafá-la.
O período de ausência de Cafarnaum não deve ter sido apenas de “alguns dias”, e sim de semanas, pois deduz-se que Ele pregou aos sábados em várias sinagogas, antes de retornar à casa de Pedro.
2 Reuniu-se tanta gente que não cabia mais ninguém, nem mesmo junto à porta. E Ele pregava-lhes a Palavra.
Era tal a quantidade de pessoas, que estas obstruíam a passagem de quem quer que fosse. É comum em todos os tempos verificar-se a curiosidade, penetrada de egoísmo, da multidão que se apinha e se trata a cotoveladas. Ademais, não devia ser pequeno o número dos representantes de todos os lugares. Ali deviam estar também os fariseus da Judeia e da própria Jerusalém, ansiosos por fazerem de Jesus um dos seus, ou, então, levá-Lo ao Calvário.
Em suma, transparecem neste versículo, numa síntese elegante, a pressa e o empenho um tanto agitados em acercar-se d’Ele, da parte de todos.
O paralítico, símbolo das almas tíbias
3 Nisto chegaram alguns conduzindo um paralítico que era transportado por quatro homens.
Alguns autores — como é o caso de Maldonado — são partidários da hipótese de que se tratava de um paralítico de certa posse e por isso provavelmente se fizesse acompanhar de seus familiares e até mesmo de amigos.
Quanto ao número “quatro”, notado por São Marcos, há uma divergência entre os comentaristas. Alguns, como São Beda, atribuem uma certa alegoria ao fato, aproximando-os dos quatro Evangelistas ou das quatro virtudes que nos conduzem a Cristo. Outros — entre os quais novamente se encontra Maldonado — interpretam como resultado da preocupação de São Marcos em ressaltar o caráter dramático da paralisia do enfermo. Sua capacidade de locomoção era tão restrita que necessitava ser carregado por quatro pessoas. Essa peculiaridade dará ao milagre maior grandiosidade.
Há também quem faça um paralelo entre a paralisia física e a tibieza espiritual, pois a tendência do tíbio é esfriar-se na prática da virtude, estancar-se em seu progresso. Por não tomar a sério o pecado venial, sua vontade se debilita, conduzindo-o a um paulatino e progressivo abandono da oração e, por fim, à queda no pecado grave. Esse mal é recriminado pelo Senhor: “Conheço as tuas obras, sei que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas, porque és morno, nem frio nem quente, começarei a vomitar-te de minha boca” (Ap 3, 15-16).
A considerar como válida essa interpretação, o Evangelho de hoje nos aponta uma solução para a paralisia espiritual: buscar Jesus, ainda que seja através do auxílio de outros. Onde poderá melhor encontrá-Lo uma alma tíbia? Na confissão frequente, feita com amor e seriedade; nela, além do benefício do nosso arrependimento, operará em nós a própria força de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem aplicar assim esse método jamais será apanhado por uma terrível enfermidade.
Continua no próximo post.