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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

UM DOS MAIS BELOS ENCONTROS DA HISTÓRIA

“O semelhante se alegra com seu semelhante”, diz um antigo provérbio latino, e de fato é esse um princípio intrínseco a todos os seres com vida, na medida em que sejam passíveis de felicidade. Deus assim nos criou e fez uns dependerem dos outros, aperfeiçoando-nos com o mais entranhado dos instintos, o de sociabilidade. Se para um pássaro constitui motivo de gáudio o encontrar-se com outro da mesma espécie, para nós, esse fenômeno é mais intenso. Ora, se grande é o júbilo de duas crianças afins ao se encontrarem pela primeira vez no colégio, qual não terá sido a reação dos dois maiores homens de todos os tempos, ao se contemplarem face a face?
Assim se realizou um dos mais belos encontros da História, João Batista diante de Jesus; para melhor compreendê-lo, analisemos as analogias entre um e outro.
Traços de semelhança entre Jesus e João
Apesar de serem duas pessoas infinitamente distantes entre si pela natureza — João é mero homem, Jesus é a Segunda Pessoa da Trindade Santíssima — numerosos traços de semelhança os unem.
Jesus é o alfa e o ômega da História. João é o começo do Evangelho e o fim da antiga Lei (1). Assim o afirma o próprio Nosso Senhor: “Com efeito, todos os profetas e a Lei profetizaram até João” (Mt 11, 13-14).
Segundo Tertuliano, João Batista é uma “figura única na História, adornada em vida de um prestígio sobre-humano, que se levanta misteriosa e solene nos confins de ambos os Testamentos” (2). Dele afirma Jesus: “Na verdade vos digo que entre os nascidos de mulher, não veio ao mundo outro maior que João Batista” (Mt 11, 11).
Além do mais, a concepção de ambos, de Jesus e de João, é precedida pelo anúncio do mesmo embaixador São Gabriel Arcanjo (Lc 1, 11-19 e 26-34). As mensagens não diferem muito, em seus termos, uma da outra. Os nomes de Jesus e de João foram designados por Deus (Lc 1,13 e 31).
No próprio ato de anunciar o nascimento, o Mensageiro celeste profetiza também o futuro tanto do Precursor (Lc 1,13-17) quanto do Messias (Lc 1,31-33).
O perfil do Precursor
Sobre Jesus, se fôssemos analisar as grandezas de suas qualidades e de suas obras, “nem todo o mundo poderia conter os livros que seria preciso escrever” (Jo 21, 25).
No Batista, tudo é sui generis, a começar pela profecia de sua vinda, proferida por Isaías e Malaquias: “Uma voz exclama: Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai na estepe uma pista para nosso Deus” (Is 40, 3); “Vou mandar meu mensageiro para preparar o meu caminho” (Mal 3, 1).
Mais impressionante ainda é a sua santificação no seio materno operada pela Santíssima Virgem: “Porque, logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre” (Lc 1, 44).
A grandeza de sua missão é profetizada pelo próprio pai: “E tu, menino, serás chamado o profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo o conhecimento da salvação” (Lc 1, 76-77).
A rudeza da forma de vida escolhida pelo Batista lhe confere uma aura de austeridade ímpar: “Ora o menino crescia e se fortificava no espírito. E habitou nos desertos até o dia da sua manifestação a Israel” (Lc 1, 80). “Andava João vestido de pêlo de camelo, (...) e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mc 1, 6).
Ao iniciar suas pregações, foi acolhido pela opinião pública da época com enorme prestígio, pois, já ao seu nascimento, “o temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas essas maravilhas por todas as montanhas da Judéia. Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração dizendo: ‘Que virá a ser este menino?’ Porque a mão do Senhor estava com ele” (Lc 1, 65-66). Logo de início, João atraiu multidões: “E iam ter com ele toda a região da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém” (Mc 1, 5), “porque todos tinham a João como verdadeiro profeta” (Mc 11, 32).
Os soldados, os publicanos e as multidões lhe perguntavam “Mestre, que devemos fazer?” (Lc 3, 10-14). O próprio Herodes, querendo matá-lo “teve medo do povo, porque este o considerava como um profeta” (Mt 14, 5). Essa grande fama se estendeu até após sua morte: “porque todos tinham João como um profeta” (Mt 21, 26).
As repercussões sobre sua figura, palavras e obras ecoaram entre os vales e os montes da Terra Prometida, a ponto de o povo chegar a pensar “que talvez João fosse o Cristo” (Lc 3, 15).
Pois bem, fixemos em nossa lembrança essa gloriosa projeção alcançada em vida por São João Batista e abramos um parênteses para considerar a principal de suas virtudes: a da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Considerações sobre o Natal

Segundo o acertado ensinamento de Santo Inácio de Loyola, o conjunto dos homens egoístas que vivem, não para Deus, mas para eles mesmos - triste maioria, sobretudo nas épocas de decadência como a nossa pendem - para um destes três objetivos: as delícias, as riquezas ou as honras.
Ora, pelo ensinamento inaciano, na festa do Natal quis Nosso Senhor Jesus Cristo dar aos homens uma tríplice lição, provando-lhes que tais prazeres não valem nada diante do único e autêntico fim para o qual devem tender, isto é, amar a Deus sobre todas as coisas neste mundo, e depois adorá-Lo face a face na bem-aventurança eterna.
Vinda do próprio Homem-Deus, esta lição é infinitamente sábia e verdadeira, e nenhum de nós tem o direito de não aceitá-la. Sensíveis ou não aos princípios religiosos, temos de ouvi-la e aprendê-la.
Nulidade das riquezas
Primeiro, quanto às riquezas mundanas. Sobre estas, o que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina no presépio?
Como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, foi Ele quem criou o Céu e a terra, com tudo o que nesta existe de rico, de maravilhoso, de belo, tudo quanto aqui seja capaz de fundamentar a prosperidade de um homem. Mais. Ele é rico em sua essência, e não apenas criou todas as riquezas existentes, mas tem ainda o poder inesgotável de criar quantas outras queira. E sem o menor esforço, sem o menor empenho, sem a menor aplicação especial. Ele é onipotente e exerce sua onipotência com perfeitíssima facilidade, criando estrelas e universos como criou um grão de areia.
Ora, esse Deus infinitamente rico quis vir à terra como pobre. Quis nascer de um pai carpinteiro, de uma Mãe que executava em casa serviços domésticos; quis vir ao mundo numa manjedoura, lugar o mais modesto e rústico que se possa imaginar. Como aquecimento, quis ter apenas o bafo de alguns animais e as roupinhas que Nossa Senhora Lhe fez. Como asilo, preferiu não uma residência de homens, mas o local onde os bichos iam se abrigar e se alimentar. Foi aí que nasceu o Verbo de Deus!
Quis Ele mostrar, assim, quanto o homem deve ser indiferente às riquezas quando postas em comparação com o serviço do Altíssimo. E como, portanto, deve viver, antes de tudo, não para ser rico, não para ter grandes cabedais, mas para glorificar o Criador, amando-O, louvando-O e servindo-O nesta terra, e depois adorando-O no Céu por toda a eternidade.
Infelizmente, vemos em torno de nós homens que correm debandadamente atrás do dinheiro, que fazem da posse deste a única preocupação de sua vida, que colocam toda sua felicidade na sensação de que possuem grandes finanças, na ilusão de que nunca ficarão pobres e sim cada vez mais ricos. Tais homens são uns perfeitos insensatos. Porque esses bens, por mais que valham, são uma parcela minúscula dos existentes no universo. E, para Deus, o que são senão um pouquinho de poeira e de lama?
Imaginemos o homem mais rico do mundo, um magnata. Imaginemos ainda que a relação de seus bens ocupem um catálogo do tamanho de uma lista telefônica: imóveis, dinheiro, títulos, créditos, objetos de valor, etc., O que é tudo isto em comparação com Deus Nosso Senhor? Nada, absolutamente nada.
Amar as riquezas mais que a Deus é uma completa inversão de valores, é calcar aos pés a lição que Jesus nos deu no presépio. É não compreender que Nosso Senhor, ali, ensinou-nos que ao homem é permitido desejar, adquirir e conservar riquezas, desde que não faça disto o objectivo supremo de sua vida. A preocupação financeira deve ser necessariamente colateral, sob pena de se agir como um verdadeiro demente, por inverter a ordem dos valores, amando mais o que devia amar menos, e amando menos o que devia amar com mais intensidade.
Loucura de fazer das delícias a principal finalidade da vida
As delícias terrenas. Nosso Senhor Jesus Cristo, caso desejasse, teria ordenado aos anjos reunir no presépio as melhores e as mais deliciosas sedas, os mais agradáveis perfumes, teria mandado os Anjos tocarem e cantarem músicas as mais deleitáveis, pois se o fizeram para os pastores, com quanto maior gáudio não o fariam para o Menino Jesus?!
O Divino Infante poderia ainda dispor de agasalhos super-eficazes, ser nutrido desde o começo com as melhores comidas. Numa palavra, poderia ter-se enchido de delícias logo no primeiro momento de sua vida terrena.
O que fez Ele? O contrário. Quis nascer deitado na palha, material cujo contato nenhum regalo dá ao corpo; quis estar numa manjedoura cujo odor não devia ser dos mais agradáveis; quis tiritar de frio, escolhendo para surgir no mundo à meia-noite de um mês de inverno. Como música, quis ter apenas o mugido dos animais. Em última análise, quis o oposto de uma situação de delícias. E quis assim mostrar aos homens o quanto é loucura fazer delas a principal finalidade da vida. A lição que Ele veio trazer é, pois, esta: desde que seja para o bem das almas, desde que seja para a glória de Deus, devemos desfazer-nos de todas as delícias, procurando apenas o bem da causa católica e a salvação de nossa alma, embora nos custe muito sacrifício e muita renúncia.
Insensatez de procurar as honras como meta da vida
No que diz respeito às honras, devemos entendê-las como sendo a aspiração do indivíduo de ver-se objeto de reverências por achar-se, a qualquer título, superior aos outros: mais inteligente ou mais jeitoso; mais engraçado ou mais diplomático; mais interessante ou mais simpático; mais qualquer coisa que tenha ou imagine ter, pela qual se julga no direito de uma atenção especial.
Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis nascer despido de tudo aquilo que pode trazer vaidade. Não obstante fosse Ele um príncipe da Casa Real de David, apareceu para o mundo como filho de pais modestos, numa época em que a sua linhagem régia havia perdido seu poder político, seu prestígio social e seu dinheiro. Ele, portanto, não era absolutamente nada na ordem terrena das coisas.
Além disso, quis nascer como um pária, fora da cidade, porque nela ninguém deu acolhida a seus pais. Nasceu na gruta dos pastores, para provar aos homens como são loucos aqueles que fazem do aparecer uma ideia fixa, em vez de procurarem servir a Deus e à Igreja, a insensatez daqueles que procuram ser mais, ser mais, e que fazem desta vaidade a meta de sua vida.
*
Se fizermos desses valores terrenos a finalidade de nossa existência, estaremos roubando aquilo que devemos unicamente a Deus. Cumpre, portanto, preocupar-nos antes de tudo com a dedicação inteira de nossas almas a Nosso Senhor, a Nossa Senhora e à Santa Igreja Católica.
Tenhamos, dia e noite, diante dos olhos esta lição do Natal, e procuremos eliminar de nossos corações, com a energia de quem arranca uma erva daninha, as falsas idéias mundanas que nos levam a adorar o dinheiro, os prazeres e as honras.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O apostolado de São João Batista

35 No dia seguinte, João lá estava novamente com dois dos seus discípulos. 36 Vendo Jesus que passava, disse: “Eis o Cordeiro de Deus”.
São João Batista — valoroso exemplo de apóstolo desapegado — jamais permitiu a entrada, em sua grande alma, do menor resquício de ciúmes de seus seguidores, sobretudo em relação a Jesus. E embora fosse parente próximo do Salvador, afirmava: “Eu não sou digno de desatar-Lhe as correias das sandálias” (Jo 1, 27). Expressão forte para aqueles tempos, pois competia aos servos lavar os pés dos visitantes de grande categoria, tirando-lhes antes o calçado. Abraçava, dessa forma, a condição de escravo em face d’Aquele seu sucessor. Essa era uma das razões de sua capacidade de comover as almas e de incentivá-las à penitência rumo à “metanóia”(mudança de mentalidade). Sua humildade arquetípica, e tão transparente na autenticidade de sua pregação, conferia um caráter de confiabilidade insuperável à pessoa do Precursor. Aqui se encontra outra qualidade essencial do verdadeiro apóstolo: a despretensão.
Pouco adiante, afirmou ele: “Este é Aquele de Quem eu disse...” (Jo 1, 30). Esta afirmação é claramente indicativa do quanto Jesus deveria ser a substância de sua pregação. Talvez fosse essa uma das principais razões para ter escolhido um terreno menos arriscado para desenvolver seu apostolado. Estando longe de Jerusalém e, portanto, do raio de ação dos escribas e fariseus, podia livremente referir-se Àquele que se constituiria como verdadeira “pedra de escândalo”. O cerne de sua fala era “o Cordeiro de Deus” em Quem depositava a plenitude de sua fé.
Evangelizador desapegado e atraente
O Evangelista descreve o Batista com ricas e belas cores, atestando quanto seu primeiro mestre lhe marcara a alma agradável e indelevelmente. Ademais, com arte e poucas palavras, retrata a enorme perplexidade levantada por seus discursos. Que escola ou quais mestres o haviam formado para ensinar com tanta segurança? Sacerdotes e levitas de Jerusalém, enviados pelos judeus curiosos, indagavam: quem é esse que batiza dizendo não ser o Cristo, nem Elias e nem sequer o profeta? Todos — quer os instruídos e formados, quer as simples pessoas do povo — percebiam em João um homem inspirado por Deus. Sua aura de profecia, mistério e santidade crescia a cada dia, encantando as multidões e incutindo temor e inveja nos grandes.
De dentro de seu total desprendimento, sua única preocupação era a de preparar os caminhos do Senhor, arrebanhando em torno de si alguns discípulos, com vistas a entregá-los ao Cordeiro de Deus. Exemplo para nós também, especialmente debaixo desse prisma, pois assim devemos proceder em nosso apostolado, conduzindo as vocações para o seio da Igreja, para a vida eclesial.
Emerge desses episódios mais uma das qualidades do Batista, e esta pouco ressaltada: a de um apóstolo arquetípico. Sua atratividade era irresistível, tornando difícil a despedida. Daí se entende por que os dois discípulos permaneciam enlevados pelo fervor das palavras e pela figura do mestre, apesar de já declinar o dia! Por outro lado, eles não faziam ideia da extraordinária graça que os aguardava. A Providência Divina jamais deixa sem prêmio os verdadeiros devotos. Mais dia, ou menos dia, Ela lhes paga em superabundância. A constância, amor e entusiasmo desses dois discípulos lhes fariam merecer a graça de serem os primeiros a serem chamados para o discipulado de Jesus Cristo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Primeiro Domingo Advento ano B II

Visões prejudiciais para o bem comum da sociedade
E ainda mais recentemente, nosso tão querido João Paulo II se exprimia de maneira clara e lúcida sobre a mesma questão:
“Esses mesmos meios de comunicação possuem a capacidade de causar prejuízos graves às famílias, apresentando uma visão inadequada e mesmo deformada da vida, da família, da religião e da moral. Esse poder, tanto para reforçar como para desprezar os valores tradicionais, como a religião, a cultura e a família, foi compreendido com clareza pelo Concílio Vaticano II, que ensinou que, ‘para o reto uso desses meios, é absolutamente necessário que todos os que se servem deles conheçam e ponham em prática, nesse campo, as normas da ordem moral’ (Inter mirifica, 4).”
E mais adiante:
“A família e a vida familiar são também, com muita freqüência, descritas de maneira inoportuna pelos meios de comunicação.
“A infidelidade, a atividade sexual fora do matrimônio e a ausência de uma visão moral e espiritual do vínculo matrimonial são descritas de maneira não crítica, enquanto às vezes se apresentam de modo positivo o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade. Essas visões, promovendo as causas contrárias ao matrimônio e à família, são prejudiciais para o bem comum da sociedade” (14).
Bento XVI, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, já advertia para o efeito nefasto que os meios de comunicação social podem ter para a fé e a moral.
Em 1992 publicou normas canônicas numa “Instrução sobre alguns aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social na promoção da doutrina da fé”:
“Idéias errôneas se difundem cada vez mais através dos meios de comunicação social em geral e, de maneira específica, através de livros. (...) As normas canônicas constituem uma garantia para a liberdade de todos: seja dos fiéis individualmente, que possuem o direito de receber a mensagem do Evangelho na sua pureza e integridade; seja das pessoas empenhadas na pastoral, dos teólogos e de todos os católicos engajados no jornalismo, que têm o direito de comunicar o seu pensamento, sempre dentro da integridade da fé e do ensinamento da Igreja sobre a moral e no respeito aos Pastores” (15).
Campo de batalha para mestres e confessores
É um convite, pois, para que todos nós sejamos vigilantes no tocante à imprensa, aos livros e revistas provocativas, à televisão, à rádio, à internet, etc.
E nunca é demais sublinhar o que foi dito por Pio XI, citado logo atrás, a respeito dos malefícios causados ao próprio uso das faculdades da alma (produzindo, por exemplo, a decadência intelectual), quando esses veículos de comunicação são mal empregados.
Esse é um grande campo de batalha para os confessores, os diretores de consciência, os pais, os mestres, os formadores, os apóstolos, etc.: “Estai alerta! Vigiai...” Tanto mais que não se sabe “quando será o momento”.
Continua no próximo post.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O prêmio dos bemaventurados

Continuando a meditação sobre o dia do Juízo Final, ouçamos a palavra de Deus:

“Então o Rei dirá aos que estão à direita: — Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo”.
 A essência do prêmio será a visão beatífica, quer dizer, a contemplação de Deus face a face. Pela força da graça nos será possível contemplar a própria essência de Deus, em vez de apenas discerni-Lo por seu reflexo nas criaturas: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (1 Cor 13,12).
Por nossa natureza, temos uma sede insaciável de felicidade, de um amor sem medida que nenhuma criatura conseguirá aplacar e só pode ser atendida pelo próprio Deus. O famoso teólogo Réginald Garrigou Lagrange, O.P., na obra La vie éternelle et la profondeur de l’âme, explica: “A profundidade de nossa vontade é tal, que só Deus pode preenchê-la e atraí-la irresistivelmente.”
A este propósito, exclama Santo Agostinho: “Infeliz quem conhece todas essas coisas [terrenas] e não Vos conhece, ó meu Deus! Feliz quem Vos conhece, embora ignore todo o resto. Quanto a quem Vos conhece e conhece também as coisas terrenas, não é mais feliz por conhecê-las, mas é unicamente o conhecimento que tem de Vós que o faz feliz, contanto que, conhecendo-Vos como Deus, glorifique-Vos também como Deus e Vos dê graças por vossos dons, e não se perca na vaidade de seus próprios pensamentos.”
Assim, após a morte, livre de tudo aquilo que a cercava na terra, a alma tem uma avidez veemente de voar para Deus, a fim de contemplá-lo face a face, conforme escreve o mesmo santo: “Fizestes-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto até que repouse em Vós”(Confissões, 1.1).
Além da visão de Deus, os bem-aventurados receberão no Céu outros prêmios, infinitamente menores, mas mesmo assim valiosíssimos e incomparáveis com as coisas da terra.
Em primeiro lugar, terão corpos gloriosos. Lemos na primeira Epístola aos Coríntios: “Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (1 Cor 15,42-44).
Ademais terão a inimaginável alegria de poderem contemplar Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora e os Santos, bem como as maravilhas do mundo já então renovado. Sim, pois o universo passará por uma inteira renovação, pela qual conservará apenas aquilo de mais belo que contiver, e será livre de toda matéria corruptível ou vulgar.
Como se não bastasse, os bemaventurados terão como morada o Céu empíreo, a respeito do qual escreve Garrigou-Lagrange:
“O Céu é o lugar e, melhor ainda, o estado da suprema bem-aventurança. Se Deus não tivesse criado nenhum corpo, mas apenas puros espíritos, o Céu não seria um lugar, porém tão-só o estado dos anjos que gozam da posse de Deus. Mas o Céu é também um lugar, no qual estão a Humanidade de Jesus, a Bem-Aventurada Virgem Maria, os anjos e as almas dos Santos. Embora não possamos dizer com certeza onde se encontra esse lugar em relação ao conjunto do Universo, a Revelação não permite duvidar de sua existência.”
Grandes teólogos católicos afirmam ser o Céu empíreo um lugar concreto, entre eles o célebre jesuíta flamengo Cornélio a Lapide. Para este, o Céu é constituído de materiais nobres, com “palácios construídos de pérolas e pedras preciosas, como também prados, jardins e bosques ameníssimos”. Levado uma vez até ali, São Paulo viu algo tão esplendoroso que não encontrou palavras para o descrever, limitandose a exclamar: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9).
O castigo dos condenados
Lancemos, agora, nosso olhar para aquela porção da humanidade que deverá ouvir a terrível sentença:
“Afastai-vos de mim, malditos!”.
O próprio Criador rejeita, para sempre, seres que Ele criou. Que castigo espantoso! Trata-se da chamada pena de “dano”, palavra derivada do latim damnum, “perda”, pois esse tormento consiste na perda da posse de Deus, nosso fim último.
Enquanto está na vida presente, a alma não consegue avaliar a imensidão dessa perda. Os bens sensíveis não param de lhe atrair a atenção; a todo momento recebe notícias domésticas ou profissionais, ou dos fatos nacionais e internacionais; tem preocupações e necessidades de alimentação, asseio, saúde, lazer; entrega-se a prazeres; acaricia ambições e projetos para a carreira e para a família, e está cercado de parentes, amigos, enfim, de tudo o que constitui seu mundo.
Mas quando a alma se separa do corpo, todo esse ruído cessa de repente, todos os interesses que a prendem na terra perdem seu valor. Ela se vê completamente só, e então aí... “toma consciência de sua profundidade sem medida, que só Deus, visto face a face, pode satisfazer; e vê também que esse vazio jamais será preenchido... [Se tiver morrido em pecado] ela se vê na noite do vazio, expulsa, repudiada, maldita” (GarrigouLagrange).
Por ser infinitamente verdadeiro, bom e belo, Deus é infinitamente atraente. Os condenados, por sua natureza, são atraídos por essa Beleza suprema, única capaz de satisfazer sua necessidade insaciável de amor. Mas Deus os repele por completo, e eles, em delírios de furor infernal, não fazem senão detestá-Lo, maldizê-Lo, blasfemar contra Ele. É o tormento de um coração apaixonado e roído de ódio. É o sofrimento atroz do amor contrariado, desprezado, transformado em fúria, posto continuamente num extremo de ódio e desespero.
“Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos!”.
 Comparada com o horror da pena de dano, a pena dos sentidos pode até parecer suave... Contudo, por si só é tremenda.
O agente desse castigo é o fogo: “Qual de vós poderá habitar em um fogo devorador?” — pergunta com pavor o profeta Isaías (33,14). O Inferno é um abismo de fogo, um “tanque ardente de fogo e enxofre” (Ap 21,8). E não nos iludamos, pensando que a expressão “fogo do Inferno” seja apenas uma metáfora, uma imagem para se referir ao remorso da consciência.
É doutrina universalmente aceita na Igreja, baseada na Sagrada Escritura e no consenso dos Padres, que se trata de um fogo real, eterno e inextinguível, que tortura os espíritos e queimará os corpos sem os destruir.
Uma resolução inadiável
Ao nos revelar esse mistério, Jesus demonstra sua infinita bondade para conosco. Seu objetivo, ao nos alertar de modo tão veemente, é evitar para nós a desgraça eterna, e levar-nos para junto d’Ele, na felicidade do Paraíso.
Profundamente gratos, tomemos sem demora a firme resolução de Lhe rogar as graças necessárias para reprimirmos nossas más paixões, evitar o pecado e praticar a virtude. De tal modo que possamos ouvir de seus lábios adoráveis este celestial convite: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo”. !

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

“Por que Jesus, sendo o próprio Deus e, portanto, tendo conhecimento de tudo, perguntou três vezes a Pedro: ‘Tu me amas?’”


Jesus manifestou-se aos seus discípulos e, depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tudo me amas?” Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”.[1]



Assim nos responde o Mons. João Clá, em sua homilia de 2 de junho de 2006, para um auditório de jovens Arautos do Evangelho:


[2]Por que razão Nosso Senhor está perguntando? Ele sabe isso desde toda a eternidade enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade! Ele viu São Pedro desde todo o sempre e viu São Pedro nesta hora, nesta fase de vida espiritual. Nosso Senhor sabia perfeitamente que São Pedro teria essa disposição de alma, Ele sabia que São Pedro amava a Ele mais do que todos os outros. Por que pergunta? E pergunta três vezes!
Todos os comentaristas dizem que era para reparar as três negações que São Pedro faria. Portanto, Jesus perguntava três vezes para dar oportunidade a São Pedro de reafirmar o amor que tinha a Nosso Senhor e, com isso, reparar as três negações.




Mas há ainda outra razão. Por que outro motivo Nosso Senhor pergunta? Para Ele saber, não é. Se Ele pergunta, é para benefício dos outros, para benefício da História e para benefício de Pedro.


Ora, o amor precisa ser explicitado. Para que o amor possa deitar raízes, para que tenha valor e seja autêntico, ele precisa ser explícito, não basta ficar no fundo do coração, precisa manifestar-se. Quando o amor é autêntico, quando o amor é forte, quando o amor é firme, ele se manifesta.



Nesse trecho do Evangelho, Nosso Senhor já está em corpo glorioso. Isso criava um ambiente de um respeito único, e esse amor não se manifestava exteriormente. O amor podia até crescer interiormente, mas não se punha em termos. Era preciso, então, que Nosso Senhor desse essa chance a São Pedro e deixasse claro diante dos outros que Pedro era o que mais amava. E o próprio São Pedro também tinha que tomar consciência de que ele era o que mais amava.


Por que foi dado a Pedro mais amor? Não imaginemos que foi um esforço de São Pedro: “Bom, eu agora vou fazer um exercício e vou ultrapassar todo mundo em matéria de amor!” Não, o amor é um dom de Deus, o amor é o Espírito Santo! Para quê São Pedro tinha recebido mais amor? Não era para se deliciar e se fechar em si mesmo, porque Nosso Senhor vai dizer: “Apascenta as minhas ovelhas”. Por que foi dado a este mais amor que aos outros? Para apascentar e apoiar os demais.


Portanto, estes dons que a Providência dá a estas e àquelas pessoas, são dados com objetivo de servir, são dados com objetivo de apoiar, com objetivo de fazer apostolado. É por isso que Nosso Senhor recomenda a Pedro que apascente as ovelhas, porque ele amava mais. Quanto mais amor se tem, mais capacidade se tem de apascentar.


E nós vemos uma correlação que existe entre o amor e o apostolado. É preciso amar para fazer apostolado, pois há uma correlação enorme entre amar a Deus e fazer bem aos outros.


Apostolado não é um método. Se fosse um puro método, fazia-se uma escola: “Escola de Apostolado”, e a pessoa podia levar uma vida relativista em matéria moral e depois aplicar os métodos. Não é assim! O próprio Pe. Garrigou-Lagrange, falando sobre apostolado, cita o livro “A alma de todo apostolado”, de Dom Chautard, e mostra que há uma inteira correlação entre o apostolado e a vida interior. Sem vida interior, não há apostolado! Essa é uma tese não só de Dom Chautard, é uma tese da Igreja.


E aqui está a prova: primeiro é preciso crescer no amor, como está dito aqui por Nosso Senhor a São Pedro, para depois, então, dar aos outros. Quem mais ama, mais cuida; quem mais ama, mais faz apostolado. Antes de tudo, é preciso crescer no amor. Apostolado sem amor não existe!

[1] Liturgia Diária, Paulus, junho de 2006.
[2] Trecho adaptado para a linguagem escrita, sem revisão e conhecimento do autor.