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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Evangelho Vigília Pentecostes - Jo 7, 37-39 - Ano A

Comentários ao Evangelho da Missa Vigília Pentecostes - Jo 7, 37-39
37 No último dia da festa, o dia mais solene, Jesus, em pé, proclamou em voz alta: Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. 38 Aquele que crê em Mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior”. 39 Jesus falava do Espírito, que deviam receber os que tivessem fé n’Ele; pois ainda não tinha sido dado o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado (Jo 7, 37-39).
Jesus glorioso nos precede!
A restauração da humanidade corrompida pelo orgulho só é possível por uma generosa efusão do Espírito Santo.
A Paixão e consequente glorificação do Homem-Deus a conquistaram para nós.
I - JESUS E MARIA, CENTRO DA CRIAÇÃO
Jesus é a Verdade, a Bondade e a Beleza absolutas e, portanto, a Perfeição. Ele visa, ao agir, o mais elevado e excelente em tudo. Desta forma, o universo — essa magnífica obra dos seis dias preferida por Ele dentre os infinitos mundos possíveis — “não pode ser melhor do que é, se o supomos como constituído pelas coisas atuais, em razão da ordem muito apropriada atribuída às coisas por Deus e em que consiste o bem do universo”,1 comenta São Tomás de Aquino.
Na criação, Nosso Senhor Jesus Cristo é a pedra angular, rejeitada pelos construtores, mas centro da atenção do próprio Deus (cf. I Pd 2, 4-5); pedra em função da qual tudo se estrutura. Com efeito, desde toda a eternidade, na mente divina esteve em primeiro lugar a figura majestosa e insuperável de Cristo, Deus feito Homem e, inseparável dela, a da Santíssima Virgem. Pois, tal é a relação existente entre ambos, que a maioria dos teólogos defende a tese de terem sido Jesus e Maria predestinados num único e mesmo decreto divino.2 Eles são o ponto de referência essencial para a criação de todo o universo. Por isso, pode-se afirmar que tanto um quanto outro estão, em algo, representados em todas as criaturas.
A glória das demais criaturas se fará em função de seus modelos
Por conseguinte, antes destas serem libertadas “do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8, 21), antes de nós recebermos um extraordinário surto de nova vida, isto é, “a adoção filial e a libertação para o nosso corpo” (Rm 8, 23) — como ressalta a segunda leitura de hoje (Rm 8, 22-27) —, era indispensável que primeiro fossem glorificados Jesus e Maria, modelos de toda a criação.
A Liturgia da Vigília desta Solenidade de Pentecostes nos ilustra tal verdade e nos prepara não só para assimilá-la intelectivamente, como também para bem acolhermos a ação do Espírito Santo.
O orgulho leva a querer destronar a Deus
Construção da Torre de Babel
por Bruno Spinello Museo dell’Opera del Duomo, Pisa (Itália)
A primeira leitura (Gn 11, 1-9) relata o episódio, tão repleto de simbolismo, da Torre de Babel, no qual vemos os homens se organizando para um grande empreendimento. Tomados, sem dúvida, pelo prazer de produzir — constante tendência humana no decorrer da História —, aprenderam a fabricar tijolos e se perguntaram que proveito tirar desta nova invenção: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus” (Gn 11, 4).
Mas “o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo” (Gn 11, 5). Estas palavras são figurativas — pela necessidade que tem a natureza humana de tornar mais próximo de si um Deus infinito e compreender melhor suas ações —, porque Ele não precisa inclinar-Se para conhecer os acontecimentos: desde sempre Deus tudo sabe! Significa isso que o Onipotente analisa o coração dos orgulhosos, conforme está escrito: “seu olhar perscruta os soberbos” (Si 137, 6). Disse, pois, o Senhor: “Eis que eles são um só povo e falam uma só língua. E isso é apenas o começo dos seus empreendimentos” (Gn 11, 6a). Desponta ali a sofreguidão do homem pelo progresso egoísta, a volúpia e o afã da realização pessoal, os quais, uma vez desatados, não mais se detêm. Primeiro será um tijolo, depois muitos outros tijolos, a seguir uma cidade, por fim uma torre que atinja o céu... até, em certo momento, a ambição de querer derrubar Deus do seu trono.
O Criador, para formar Adão, fez um boneco de barro e soprou em suas narinas. Não só converteu o barro em carne, ossos, sangue e lhe infundiu a vida humana (cf. Gn 2, 7), como também lhe outorgou a participação na vida divina, pela graça. Em contraposição, o homem experimenta a colossal tentação de utilizar-se desse mesmo barro para se equiparar a Deus.
“O orgulho” — escreve o piedoso padre Beaudenom — “tende a privar Deus de sua glória, isto é, de seu próprio papel. Ele ocupa seu lugar, se não intencionalmente — o que seria monstruoso —, ao menos na prática, o que já é bastante detestável”.3 O fim do orgulho é sempre este; e embora queiramos insistir com o presunçoso mostrando-lhe as consequências de seus atos, se não houver um especial auxílio da graça nada o demoverá, como sublinha o texto bíblico: “Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuseram” (Gn 11, 6b).
Deus não permite a realização do orgulhoso
Por tal razão, Deus determinou: “Desçamos e confundamos a sua língua, de modo que não se entendam uns aos outros” (Gn 11, 7). Além de ocasionar os piores desastres na vida particular e no relacionamento com os demais, o orgulho traz, sobretudo, a confusão; é uma terrível ferrugem que corrói as verdades sobrenaturais, pois o orgulhoso passa a não mais acatá-las, preferindo discuti-las com raciocínios estranhos a Deus, e a fé vai se esvaindo, por vezes até desaparecer. Eis a tragédia da natureza humana concebida no pecado original.
“A estima de si” — continua Beaudenom — “[...] tende a obscurecer a noção da necessidade de Deus, do recurso a Deus, e mais do que um erro, mais do que uma simples falta, é um imenso perigo, porque esta atitude implica na negação implícita da graça. Sob a influência desta disposição, o orgulhoso não pensa em consultar a Deus e em implorar seu socorro tão necessário. [...] Esse extravio, que nasce de um sentimento viciado, é responsável pelos desastres que às vezes acarreta” .

“E o Senhor os dispersou daquele lugar por toda a Superfície da Terra, e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi chamada Babel, porque foi aí que o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo, e daí dispersou os homens por toda a Terra” (Gn 11, 8-9). Vemos como aqueles que abraçaram a impiedade na planície de Senaar, querendo dar à Terra um caráter paradisíaco, divorciado de Deus, foram humilhados, segundo a palavra do Salvador: “todo o que se exaltar será humilhado” (Lc 18, 14). Não obstante, o castigo enviado ainda foi uma graça, pois, se lograssem executar seu intento, seria para sua perdição.
II - A PROMESSA DA ÁGUA VIVA
Ora, a solução para o problema do orgulho só a encontraremos na promessa feita por Nosso Senhor no Evangelho escolhido para esta Liturgia.
Continua no próximo post

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