COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA FESTA DA DEDICAÇÃO DA
BASÍLICA DO LATRÃO — 9 DE NOVEMBRO —
13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a
Jerusalém. 14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os
cambistas que estavam aí sentados.
15 Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do
Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas
dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais
da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17 Seus discípulos lembraram-se, mais
tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18 Então os
judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” 19 Ele
respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”.
20 Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram
precisos para a construção deste Santuário e Tu o levantarás em três dias?” 21
Mas Jesus estava falando do Templo seu Corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os
discípulos lembraram-se do que Ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na
palavra d’Ele (Jo 2, 13-22).
Senhor, purificai este templo!
Ao comemorar a dedicação da Catedral do Papa, a Igreja
lembra que cada batizado é também um templo que deve ser devolvido a Deus na
plenitude de sua beleza.
I - A CABEÇA E MÃE DE TODAS AS IGREJAS
Igreja celebra com esplendor
a festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão, que ostenta o título honorífico
de “Omnium urbis et orbis ecclesjarum mater et caput”, ou seja, “Mãe e cabeça
de todas as igrejas da cidade [de Roma] e do mundo”. E eia a Catedral do Papa,
ao contrário do que se costuma pensar devido ao papel hoje desempenhado pela
Basílica de São Pedro, a qual, na verdade, é apenas uma das quatro basílicas
papais da Cidade Eterna.
Até o exílio dos
Papas em Avignon, no século XIV, viviam eles no Palácio de Latrão, antiga
propriedade da família Laterano, nome pelo qual ficou conhecido, O cônsul
romano Pláucio Laterano, por suspeita de conspiração, foi morto pelo infame Nero
que lhe confiscou os bens, dentre os quais esse edifício, na mesma época em que
movia a perseguição aos cristãos.1 Não imaginava o tirano que, anos mais tarde,
tudo aquilo seria doado à Igreja pelo Imperador Constantino, e tornar-se-ia
residência dos sucessores de Pedro e primeira Basílica da Cristandade. O Papa
São Silvestre dedicou-a no ano 324.2
Nesta Basílica
encontramos não só vestígios de variados estilos artísticos, graças às obras de
embelezamento e ampliação realizadas ao longo dos séculos, mas também numerosas
e valiosíssimas relíquias. Dentre as principais contam-se a mesa onde foi
celebrada a Santa Ceia (cf. Mt 26, 20-28; Mc 14, 18-24; Lc 22, 14-17), parte do
tecido purpúreo com que os soldados revestiram o Divino Redentor na Paixão (cf.
Mc 15, 17; Jo 19, 2), as cabeças de São Pedro e de São Paulo, e a taça na qual
São João Evangelista, segundo uma antiga tradição, foi obrigado a tomar um
veneno que, por milagre, não lhe fez mal.
Um elo entre o Céu e a Terra
Por ser a Catedral de
Roma, São João de Latrão possui um estreito vínculo com a pessoa do Sumo
Pontífice, elo entre nós e a eternidade: “tudo o que ligares na Terra será
ligado nos Céus, e tudo o desligares na Terra será desligado nos Céus” (Mt 16,
19). Devido a esta prerrogativa a Basílica passou a ser um símbolo da unidade
da Igreja.
Convém ainda levarmos
em consideração que, em sua sabedoria, a Santa Igreja estabelece o Ciclo
Litúrgico, dentre outras razões, com o intuito de prolongar pelos séculos afora
as graças concedidas no momento histórico comemorado. E assim como ao celebrar
cada Natal com verdadeira piedade somos favorecidos com as bênçãos dadas a
Nossa Senhora, São José e aos pastores no Presépio, na festa de hoje somos
convidados a participar das graças e da alegria sobrenatural dos católicos de Roma
quando o Papa tomou posse de sua sede episcopal oficialmente, podendo gozar de
plena liberdade religiosa.
Nascida sob o signo da perseguição
Para melhor
compreendermos a importância desta data, lembremo-nos de que a Santa Igreja
Católica nasceu sob o signo da perseguição, em circunstâncias por vezes tão
violentas que obrigavam os primeiros cristãos a se refugiar nas catacumbas — os
cemitérios cristãos — para praticar o culto.3 Era costume na Roma Antiga
escavar extensas galerias subterrâneas, verdadeiros labirintos, nas quais
sepultavam os mortos. Transitar por elas era perigoso, pois quem o fizesse podia
se perder com facilidade, sem ter como retornar. Nas épocas de perseguição, os
irmãos que nos precederam com o sinal da Fé precisavam embrenhar-se nessas profundezas
— naquele tempo sem dispor de luz elétrica —, com grande risco de serem
denunciados, presos e supliciados. No Coliseu e no Circo Máximo grande número
de cristãos manifestaram sua adesão à Fé com a própria vida, ao serem mortos
pelas feras na arena diante do público ou em meio a terríveis tormentos.
Nas catacumbas também
se comemorava devotamente o aniversário do martírio dos que tinham derramado o
sangue para dar testemunho de Cristo, junto a seus restos mortais lá conservados,
costume que deu início à veneração das relíquias dos Santos. Três séculos de
fidelidade nessa situação nos mostram, sem dúvida, a extraordinária força da
Igreja em seu nascedouro!
A liberdade de culto
outorgada por Constantino com a promulgação do Edito de Milão, em 313, por
influência de sua mãe Santa Helena, e o consequente pulular de incontáveis
igrejas por todo o império — dentre as quais a Basílica de Latrão ocupa um posto
proeminente — representaram para os fiéis indescritível alívio e alegria.
Expressivo é o testemunho de Eusébio de Cesareia ao retratar o exultar do povo
cristão com o advento dessa nova era da História da Igreja: “um dia
esplendoroso e radiante, sem nuvem alguma que lhe fizesse sombra, ia iluminando
com seus raios de luz celestial as igrejas de Cristo pelo universo inteiro,
[...1 transbordávamos de indizível gozo, e para todos florescia uma alegria
divina em todos os lugares que pouco antes se encontravam em ruínas pela
impiedade dos tiranos, como se revivessem, depois de uma longa e mortífera
devastação. E os templos surgiam de novo desde os fundamentos até uma altura
imprevista, e recebiam uma beleza muito superior à dos que anteriormente haviam
sido destruídos”.4
Por isso a festa da
Dedicação da Basílica do Latrão foiinstituída em Roma, expandindo-se mais
tarde, e hoje consideramos com júbilo esse templo grandioso, que até nossos
dias impressiona por seu esplendor.
II - LEITURAS ALTAMENTE SIMBÓLICAS
Para a Missa desta
festa foram escolhidas leituras altamente simbólicas, sendo a primeira delas
extraída da Profecia de Ezequiel (47, 1-2.8-9.12), belíssima e rica em
significado. Narra ele a visão em que é levado ao Templo de Jerusalém, de onde
manam águas que vão se tornando cada vez mais caudalosas a ponto de ser
impossível transpô-las. Trata-se de uma imagem da fundação da Igreja Católica.
Por sua influência benéfica,
rios de graça são derramados sobre o mundo, fecundando suas margens e fazendo
nascer árvores pródigas em frutos: as virtudes, os dons de Deus, o bom exemplo
e a santidade que ela promove e alimenta. De seus ramos brotam folhas com
propriedades curativas, pois se uma alma adquire um vício, sofre uma queda ou
apresenta qualquer fraqueza, junto a ela está a Igreja com os remédios para
saná-la: a Penitência e os demais Sacramentos, a direção espiritual e a oração.
As figuras — tomadas
de elementos da natureza — empregadas nesta passagem mostram a força do Corpo
Místico de Cristo, que não só goza de imortalidade, mas está em contínuo
desenvolvimento, comparável a um rio já impetuoso em suas origens, que se vai
alargando, fertiliza, transforma e dá vida a tudo. Essa é a Igreja!
Outro importante
aspecto desta leitura é a sua harmoniosa conjugação com o Evangelho, dando o
tonus de como este deve ser analisado.
A polêmica marca o início da vida pública de Jesus
13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a
Jerusalém.
A magnífica cena da
expulsão dos vendilhões do Templo, descrita por São João, ocorreu durante a
primeira Páscoa da vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele já havia
convertido a água em vinho nas Bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-12), e subiu com seus
primeiros discípulos a Jerusalém, sem dúvida acompanhado por Nossa Senhora e
outras pessoas mais próximas.
Cumpre ressaltar que,
segundo consta nos outros Evangelhos, Jesus tomou semelhante atitude nesse
recinto sagrado ao menos duas vezes.5 Uma foi no início de sua pregação,
narrada neste trecho, e outra alguns dias antes da Paixão (cf. Mt 21, 12-13; Mc
11, 15-19; Lc 19, 45-48). Em ambas as situações encontramos Nosso Senhor
manifestando um aspecto de sua divina personalidade que desconheceríamos se não
fosse a circunstância referida pelo texto sagrado: a cólera do próprio Deus, a
indignação do Onipotente, vista através dos véus da natureza humana.
Intolerável profanação do lugar santo
14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas
e os cambistas que estavam aí sentados.
Por ocasião da
Páscoa, reuniam-se em Jerusalém judeus vindos de toda a parte para cumprir o
preceito de visitar o Templo. A Lei prescrevia o oferecimento de vítimas em
holocausto — bois, cordeiros, pombos e rolas —, mas, como é compreensível,
quase ninguém trazia de longe os animais para esse fim. Os peregrinos também
deviam pagar o imposto anual do Templo em moeda judaica. Como na época havia
israelitas dispersos por inúmeras nações, cada qual com a moeda própria, ao
chegarem de viagem eram obrigados a procurar negociantes que efetuassem o
câmbio.6 As moedas estrangeiras, sobretudo a romana, circulavam livremente pela
Judeia. Quando os príncipes dos sacerdotes e os escribas puseram Nosso Senhor à
prova, a propósito da liceidade de se pagar imposto a Roma, Ele respondeu apontando
para a efígie de César gravada no denário que Lhe fora mostrado por eles (cf.
Le 20, 20-26). 0 pormenor nos permite concluir que levavam consigo dinheiro
romano além do hebraico, pois o primeiro lhes possibilitaria comerciar com
todos, enquanto o segundo só entre os compatriotas.
As necessidades do
culto acima descritas deram margem ao estabelecimento de um verdadeiro comércio
de animais e de uma praça de cambistas no átrio do Templo, chamado Pátio dos Gentios,
onde o acesso aos estrangeiros ainda era permitido. Ali a movimentação se
assemelhava à de um mercado ou de uma feira cheia de vida dos dias de hoje,
acrescida de manifestações do temperamento oriental, muito comunicativo e
afeito a cânticos e discussões. A soma de todos esses elementos resultava num
tumulto inadmissível naquele recinto incomparavelmente sagrado, a ponto de a
simples lembrança desses fatos nos dar a impressão de um Templo profanado.
Podemos fazer ideia da inconveniência do ambiente se imaginarmos o interior de
uma das nossas atuais igrejas ocupado por comerciantes que vendem produtos e se
comunicam aos gritos, perturbando a paz. Quando Nosso Senhor entrou no Templo e
constatou esse quadro de agitação, visto por Ele enquanto Deus desde toda a
eternidade, resolveu utilizar a força.
Continua no próximo post
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