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terça-feira, 7 de junho de 2011

Estavam os apóstolos preparados para sua sublime vocação?

Qual a situação espiritual dos apóstolos? Era de supor que, após três anos de convívio diário com Nosso Senhor Jesus Cristo, estivessem preparados para a missão que lhes cabia, de firmar e expandir a Santa Igreja. Contudo, não o estavam. Em várias passagens do Evangelho, vemo-los repletos de fragilidades.
Logo após episódios, sermões e milagres impressionantes, não se punham a fazer comentários sobre a grandeza das palavras ou dos gestos do Mestre, mas sim a discutir a respeito de quem seria o primeiro-ministro num suposto reino temporal que, acreditavam, Cristo iria fundar...
Quando Jesus lhes dizia que estavam para se cumprir as profecias a respeito de sua Paixão, Morte e Ressurreição, eles nada entendiam (Lc 18, 31-43), voltando a disputar sobre quem seria o maior (Mc 9, 31-35). A mãe de João e Tiago aproximou-se um dia de Jesus, acompanhada pelos dois filhos, para Lhe pedir que reservasse para eles os dois primeiros cargos do futuro reino (Mt 20, 2028).
No fim da Santa Ceia, logo após a saída de Judas, houve um diálogo revelador. Depois de Pedro dizer que estava disposto a dar a vida pelo Mestre — declaração que Jesus não aceitou, profetizandolhe a tríplice negação —, Tomé manifestou sua cegueira sobre os acontecimentos iminentes, e Filipe demonstrou não estar plenamente consciente da divindade de Jesus, pedindo-lhe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta”. Ao que Nosso Senhor replicou: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai... Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 2-10).
Esta era a situação daqueles que Jesus Cristo convocara para serem as colunas de sua Igreja. Não O compreendiam. Por quê? Entre as várias explicações possíveis, três parecem de maior peso.
Em primeiro lugar, o ser humano, debilitado após o pecado original, não tem apetência de elevar as vistas para as verdades superiores. Seu gosto está em voltar-se para cogitações meramente práticas, concretas, atraído pelos aspectos medíocres da vida. Por isso não se dá conta daquilo de grandioso para o qual é chamado. Este problema se coloca de forma mais aguda para quem tem vocação incomum, como ocorreu com os apóstolos: não percebiam que lhes cabia a maior missão da história.
Outra explicação é de natureza psicológica. A sociedade de Israel era bem hierarquizada, tendo no topo a raça dos sacerdotes, e depois toda uma coorte de pessoas vinculadas com o sacerdócio ou a realeza, como os escribas, os fariseus e a classe mais abastada. De outro lado, a Galiléia era uma região desprezada, considerada “bárbara” e ignorante. Ora, os apóstolos eram quase todos galileus e pescadores. Sentiam-se, portanto, em certa inferioridade. Agora lhes aparecia a oportunidade de subirem aos primeiros cargos do novo reino...
Por fim, faltava-lhes um amor ardoroso por Nosso Senhor. Se o tivessem, todo o resto se resolveria. Não adiantava assimilarem a doutrina, nem mesmo ter fé e esperança, pois essas virtudes de nada valem se não são acompanhadas pela caridade.
Nem após a Ressurreição de Nosso Senhor desapareceram essas fragilidades. A incredulidade de São Tomé é exemplo característico. Passou o Senhor entre eles mais quarenta dias, e fez lhes revelações e deu ensinamentos. Não adiantou. Com o que continuavam preocupados? Com a restauração do reino de Israel...
Ainda no momento da Ascensão, quando o Divino Mestre lhes fala da vinda próxima do Espírito Santo, eis como reagem: “Então os que se tinham congregado, interrogavam-No dizendo: Senhor, porventura chegou o tempo em que restabelecereis o reino de Israel?” (At 1, 6).

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Apóstolos viram Jesus ressurrecto

“Mostrou-lhes as mãos e o lado”
1)      Como foi possível aos Apóstolos contemplar a glória de Jesus ressurrecto, sendo que, no Tabor, três deles não haviam suportado vê-Lo em sua transfiguração?
A isso responde Santo Agostinho: “É de crer-se que a claridade com a qual, como o sol, resplandecerão os justos em sua ressurreição, foi velada no corpo de Cristo ressurrecto aos olhos dos discípulos, porque a debilidade do olhar humano não a teria podido suportar, e era necessário que eles O reconhecessem e ouvissem” (6).
2)      Sendo as cicatrizes um defeito produzido por ferimentos, como puderam se conservar no Sagrado Corpo do Senhor?
Das mais variadas formas se expressam os autores a esse respeito, mas são concordes em observar que se trata de cicatrizes de triunfo e, portanto, gloriosas e não defectivas. No Céu, todos os mártires trarão à mostra suas cicatrizes como símbolo triunfante de seu testemunho, tal qual na terra o fazem os militares vencedores em suas batalhas.

3)      Os Apóstolos apenas viram as chagas, ou também as tocaram? Tomé terá sido o único a apalpar as cicatrizes do Senhor?
O Evangelista João afirma apenas que Jesus mostrou suas chagas. Lucas vai mais longe: “Apalpai e vede, porque um espírito não tem carne nem osso” (24, 39).
Entretanto, o dito de São João em sua primeira Epístola: “O que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, o que tocamos com as nossas mãos relativamente ao Verbo da Vida” (1, 1), e a condição posta por São Tomé para dar sua adesão de fé: “Se não vir nas suas mãos ... se não meter a minha mão” (v. 25), levam os autores à conclusão de que, de fato, não só Tomé, mas também os outros tocaram nas Santas Chagas de Jesus.
Qual não deve ter sido a consolação dos Apóstolos ao tocarem no Sagrado Corpo do Salvador? Nós hoje temos a graça, não de tocá-Lo, mas, muito mais, de recebê-Lo em comunhão.
Oh! sacrossantas chagas, manancial de toda santidade, quantos dons receberam os Apóstolos ao tocá-las!
Sem embargo, o fato de Jesus as haver mostrado nessa ocasião não significa que Ele deva sempre ostentar os sinais de sua Paixão. Apareceu como um peregrino aos discípulos de Emaús, e, para a fé robusta de Madalena, não só Se apresentou sem as chagas, como não lhe permitiu que O tocasse, para não diminuir os seus méritos. Aos Apóstolos, convida-os a apalparem-nas por razões didáticas. A forma de apresentar-Se depende de sua vontade e conveniência.
A alegria que sentiram eles, nessa ocasião, era o cumprimento da promessa do próprio Salvador: “Outra vez vos verei e alegrar-se-á vosso coração” (Jo 16, 22).