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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Evangelho Festa do Batismo do senhor - Ano C - 2013 Lc 3,15-16.21-22 -

Continuação dos comentários ao Evangelho Festa do Batismo do senhor - Ano C  2013 - Lc 3,15-16.21-22


Um rito ligado a uma missão
6 Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”.
Querendo orientar as almas para o Salvador, João logo anunciou o verdadeiro sentido do seu batismo e a dádiva incomparavelmente maior que haveria de trazer o Sacramento a ser instituído por Jesus, algum tempo depois. De fato, pregava ele um baptismo que, segundo São Tomás, era um meio caminho entre o que era realizado pelos judeus e o Batismo sacramental.3 Apesar de não haver na Sagrada Escritura nenhum mandato explícito a respeito do batismo de penitência, pois deveria durar pouco tempo, este rito provinha de Deus, que o recomendara a João em uma revelação privada (cf. Jo 1, 33); entretanto, quanto a seu efeito — a purificação do corpo, e não da alma —, nada se realizava nele que não pudesse ser operado pelo homem, razão pela qual era denominado batismo de João.4 De fato, apenas teve um ministro, o Precursor.
Para administrá-lo, escolhera as águas do Jordão. Em primeiro lugar porque, diplomaticamente falando, era o lugar ideal. A região da Pereia pertencia à circunscrição de Herodes Antipas e, se bem que o Sinédrio tivesse a obrigação de zelar pela religião no país inteiro, a distância de Jerusalém dificultava que os chefes dos judeus fizessem algo efetivo contra ele. Contudo, como veremos mais adiante, a escolha do local tinha uma razão muito mais profunda, relacionada com o Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Batismo sobrenatural com efeito psicológico
João pregava a penitência a par de seu batismo, a fim de incitar os homens à virtude. No entanto, esse batismo, de si, não possuía a capacidade de purificar, presente no Sacramento do Batismo;5 não imprimia caráter, não perdoava os pecados nem conferia a graça, pois, embora inspirado por Deus, era simbólico e seu efeito procedia do homem. Por isso, todos aqueles que foram batizados por São João tiveram de ser batizados de novo pelos Apóstolos (cf. At 19, 3-6).
Sem embargo, pode surgir uma pergunta: qual era, então, a necessidade da instituição desse batismo? São Tomás, fazendo brilhar sua inocência magnífica e cheia de sabedoria, responde dando quatro razões. Na primeira, explica ter sido necessário que Jesus fosse batizado por João para consagrar o Batismo; em segundo lugar, para que Ele Se desse a conhecer por ocasião de seu Batismo; como terceira razão, diz que o batismo de penitência preparava os homens para receber, mais adiante, o Batismo sacramental. E, por fim, ao incentivar o povo à penitência, São João criava disposições para que recebesse com o devido respeito o Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.6 Era um batismo que agia à maneira dos sacramentais,7 pois aqueles que entravam no rio e eram nele submersos sentiam misticamente dentro de si seu duplo efeito: uma ação sobrenatural que os encorajava ao arrependimento dos próprios pecados, e outra psicológica que lhes preparava a mentalidade para a futura aceitação do Batismo.
Podemos inferir com segurança que, apesar de alguns fariseus terem aceitado a pregação de João (cf. Mt 3, 7), a maior parte deles confiava muito na própria justiça, ou seja, eles se julgavam sem pecado, dando pouco crédito à voz do profeta e incluindo-se no rol dos que não se deixaram batizar. Ao contrário destes, soldados, publicanos e toda sorte de pecadores acreditavam em São João (cf. Mt 21, 32). Assim se iam dividindo os campos dentro da própria opinião pública judaica, como vieram a confirmar os acontecimentos posteriores.
O conhecimento místico de Jesus revela a vocação João
É quase unânime a opinião dos comentaristas de que São João ainda não tinha se encontrado com Nosso Senhor, o qual tampouco havia visto, com seus olhos humanos, o Precursor. Este último, segundo São João Crisóstomo, antes de se dirigir ao Jordão “conheceu-O quando se achava prestes a batizá-Lo, e isto porque o próprio Pai o revelou”.8 Mesmo sem ter contemplado o rosto do Messias, João possuía a respeito de Jesus um conhecimento místico que lhe dava a capacidade, por exemplo, de manter uma discussão com os fariseus sobre o Salvador, anunciando-O com inegável autoridade (cf. Jo 1, 19-27) e revelando sua própria vocação. Por fim, o ansiado encontro entre o Messias e seu Precursor dar-se-ia no momento auge em que Jesus seria batizado e iniciaria sua missão pública.
Continua no próximo post

3) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.38, a.l, ad 1.
4) Cf. Idem, a.2.
5) Cf. Idem, a.3.
6) Cf. Idem, al.
7) Cf. Idem, ad 1.
8) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XVII, n.3. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 1991, v.1, p.220.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

A verdadeira generosidade
43 “Jesus chamou os discípulos e disse: ‘Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44 Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver’”.
Grande deve ter sido a impressão produzida por essas primeiras palavras do Mestre. Como podia a pobre viúva ter dado “mais do que todos os outros”, se estes despejaram grande quantidade de moedas de ouro, enquanto ela depositou apenas duas moedinhas de valor insignificante?
Para esclarecer seu ensinamento, Jesus explica: a viúva jogou no cofre tudo quanto “possuía para viver”, enquanto os ricos deram do que lhes sobrava. Ao fazer essa comparação, Cristo não visava condenar os ricos, mas elogiar aquela mulher pelo fato de nada ter guardado para si. Com efeito, quando um rico entrega a integridade de seus bens, ele dá mais do que quem faz o mesmo, mas dispõe de pouco. Era o caso, por exemplo, de Lázaro, Marta e Maria, membros de uma abastada família de Israel, os quais se entregaram por inteiro a Nosso Senhor.
Aquela viúva dera tudo, pondo-se nas mãos de Deus. É muito de se crer que o próprio Jesus lhe outorgara a graça de assim proceder, propondo-Se ampará-la. Sem esta o saber, Ele oferecia à pobre mulher um bem superior a qualquer outro: a glória de ser elogiada pelo Verbo Encarnado. Nessa complacência de Nosso Senhor para com ela, entrava uma predestinação para a glória eterna.
No extremo oposto estavam os mestres da Lei: estes “devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações”, motivo pelo qual “receberão a pior condenação” (Mc 12, 40).
Deus conhece as intenções do coração
Nestes versículos, Nosso Senhor contrapõe o episódio das esmolas à denúncia antes feita contra os doutores da Lei. Em ambos os casos, vemos nas atitudes dos personagens a exterioridade, mas não o íntimo. No entanto, “o olhar de Deus não é como o do homem, pois o homem olha para a aparência, enquanto Deus olha para o coração” (I Sm 16, 7). Esse divino olhar sempre nos acompanha, nada lhe escapa. Nossa vida, nossos atos, nosso comportamento, são julgados com uma precisão absoluta pelo olhar de Deus, o qual penetra no interior de todos e analisa o fundo das almas, sabendo perfeitamente o que se passa em cada uma.
Comparando a disposição de espírito dos mestres da Lei com a da viúva, Jesus queria deixar patente a existência de dois extremos: o da generosidade, em contraste com o do egoísmo e do amor desordenado a si mesmo.
O apego, que num rico se distribui entre suas milhares de moedas, no caso do pobre se concentra em umas poucas. Renunciar a elas exige um sacrifício não pequeno, ainda mais se forem só duas. Mas aquela senhora as ofertou generosamente, depositando sua inteira confiança em Deus. É a mesma atitude assumida por outra viúva, esta da cidade de Sarepta na Sidônia, contemplada na primeira leitura deste domingo (I Rs 17, 10-16). Quando recebeu o Profeta Elias em sua casa, tinha ela apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite para fazer um último pão para si e seu filho. No entanto, solicitada pelo homem de Deus, concordou em dar-lhe esse único alimento. Por ter agido assim, o azeite e a farinha se multiplicaram indefinidamente em sua despensa, até voltar a cair a chuva sobre a terra. Assim é a recompensa de Deus para todo aquele que dá com agrado e generosidade.
Continua no próximo post.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cristo Rei II

continuação
A REALEZA ABSOLUTA DE CRISTO
A Realeza de Cristo é bem outra. Ele de fato é Rei do Universo e, de maneira muito especial, de nossos corações. Ele possui uma autoridade absoluta sobre todas as criaturas e já muito antes de sua Encarnação, quando se encontrava no seio do Padre Eterno, ouviu estas palavras:
“Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede- me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo, tu governarás com cetro de ferro” (Sl 2, 7-9).
Rei por direito de herança
Ele é o unigênito Filho de Deus e por Este foi constituído como herdeiro universal, recebendo o poder sobre toda a criação, no mesmo dia em que foi engendrado (1).
Rei por ser Homem-Deus
Por outro lado, Jesus Cristo é Deus e, assim sendo, tudo foi feito por ele, o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Senhor absoluto de toda existência, do Céu, da terra, do sol, das estrelas, das tempestades, das bonanças. Seu poder é capaz de acalmar as mais terríveis ferocidades dos animais bravios e as procelas dos mares encapelados. Os acontecimentos, as forças físicas e morais, a guerra e a paz, a pobreza e a fartura, a humilhação e a glória, o revés e o sucesso, as pestes, os flagelos, a doença e a saúde, a morte e a vida, estão todos ao dispor de um simples ato de sua vontade. Aí está um Governo incomparável, superior a ninguém ou nada poderá se subtrair.
O título de Rei Lhe cabe mais apropriadamente do que às outras duas Pessoas da Trindade Santíssima, por ser o Homem-Deus, conforme comenta Santo Agostinho: “Apesar de que o Filho é Deus e o Pai é Deus e não são mais que um só Deus, e se o perguntássemos ao Espírito Santo, Ele nos responderia que também o é...; entretanto, as Sagradas Escrituras costumam chamar de rei, ao Filho” (2).
De fato, o título de Rei, quando aplicado ao Pai, é usado de forma alegórica para indicar seu domínio supremo. E se quisermos atribuí-lo ao Espírito Santo, faltará exatidão jurídica, por tratar-se Ele de Deus não-encarnado, pois, para ser Rei dos homens é indispensável ser Homem. Deus não encarnado é Senhor, Deus feito homem é o Rei.
Rei por direito de conquista
Jesus Cristo é nosso Rei também por direito de conquista, por nos ter resgatado da escravidão a Satanás.
Ao adquirirmos um objeto às custas de nosso dinheiro, ele nos pertence por direito. Mais ainda se o obtivermos através de duras penas, pelos esforços de nosso trabalho, e muito mais, se for conseguido pelo alto preço de nosso sangue. E não fomos nós comprados pelo trabalho, sofrimentos e pela própria morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? É São Paulo quem nos assevera: “Porque fostes comprados por um grande preço!” (I Cor 6, 20).
Rei por aclamação
Cristo é nosso Rei por aclamação. Antes mesmo das purificadoras águas do Batismo serem derramadas sobre nossa cabeça, nós O elegemos para ser o regente de nossos corações e de nossas almas, através dos lábios de nossos padrinhos. Por ocasião do Crisma e a cada Páscoa, de viva voz nós renovamos essa eleição, sempre de um modo solene.
Rei do interior dos homens e de todas as exterioridades
Não houve, nem jamais haverá um só monarca dotado da capacidade de governar o interior dos homens, além de bem conduzi-los na harmonia de suas relações sociais, seus empreendimentos, etc. O único Rei pleníssimo de todos os poderes é Cristo Jesus.
Exteriormente, pelo seu insuperável e arrebatador exemplo — além de suas máximas, revelações e conselhos — Ele governa os povos de todos os tempos, tendo marcado profundamente a História com sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Por meio do Evangelho e sobretudo ao erigir a Santa Igreja, Mestra infalível da verdade teológica e moral, Jesus perpetua até o fim dos tempos o imorredouro tesouro doutrinário da fé. Através dessa magna instituição Ele orienta, ampara e santifica todos os que nela ingressam, e vai em busca das ovelhas desgarradas.
Aqui precisamente se encontra o principal de seu governo neste mundo: o Reino Sobrenatural que é realizado, na sua essência, através da graça e da santidade.
Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto a “videira verdadeira” é a causa da vitalidade dos ramos. A seiva que por eles circula, alimentando flores e frutos, tem sua origem n’Aquele Unigênito do Pai (Jo 15, 1-8). Ele é a Luz do Mundo (Jo 1, 9; 3, 19; 8, 12; 9, 5) para auxiliar e dar vida aos que dela quiserem se servir para evitar as trevas eternas. Jesus — segundo a leitura de hoje — é “a cabeça do corpo que é a Igreja, é o Princípio, o Primogênito entre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas, porque foi do agrado do Pai que residisse n’Ele toda a plenitude e que por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, pacificando pelo Sangue da sua Cruz, tanto as coisas da terra, como as do Céu” (Col 1, 18-20).
O Reinado de Cristo, em nosso interior, se estabelece pela participação na vida de Jesus Cristo. Só no Homem-Deus se encontra a plenitude da graça, enquanto essência, virtude, excelência e extensão de todos os seus efeitos. Os outros membros do Corpo Místico participam das graças que têm sua origem em Jesus, a cabeça que vivifica todo o organismo. Quem de maneira privilegiadíssima tem parte em grau de plenitude nessa mesma graça, é a Santíssima Virgem.
Dada a desordem estabelecida em nós após o pecado original, acrescida pelas nossas faltas atuais, nossa natureza necessita do auxílio sobrenatural para atingir a perfeição. Sem o sopro da graça, é impossível aceitar a Lei, obedecer aos preceitos morais, não elaborar razões falsas para justificar nossas más inclinações e conhecer, amar e praticar a boa doutrina de forma estável e progressiva. Ela refreia nossas paixões e as equilibra nos gonzos da santidade, orienta nosso espírito, modera nossa língua, tempera nosso apetite, purifica nosso olhar, gestos e costumes. É através da graça que nossa alma se transforma num verdadeiro trono e, ao mesmo tempo, cetro de Nosso Senhor Jesus Cristo. E é nessa paz e harmonia que se encontra nossa autêntica felicidade, e esse é o Reino de Cristo em nosso interior.
E qual o principal adversário contra esse Reino de Cristo sobre as almas? O pecado! Por isso mesmo, se alguém tem a desgraça de o cometer, nada fará de melhor do que procurar um confessionário e com arrependimento ali declará-lo a fim de ver-se livre da inimizade de Deus. É impossível gozar de alegria com a consciência atravessada pelo aguilhão de uma culpa. Nessa consciência não reinará Cristo; e se ela não se reconciliar com Deus, aqui na terra, tampouco reinará com Ele na glória eterna.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tudo se obtém pela fé! (fim)

O grande prêmio da Fé humilde e sem rancor
Sem embargo, não podemos nos esquecer de que ali estava o melhor de todos os senhores, o mais bondoso de todos os pais, e não deixavam de ser humilhantes aquelas palavras. Porém em nada ofenderam a mulher prostrada a seus pés. A humildade autêntica não se ofende com nada. Em contrapartida, o orgulho e a soberba são causas das piores cegueiras. Pelo instinto materno e pela perspicácia própria às almas realmente humildes, percebendo o expediente que Jesus colocava à sua disposição, com todo o respeito ela replicou:
27 “Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”.
Nesta declaração, humildade e Fé se abraçam e se osculam. Manifestando quanto é cândida sua alma, a Cananéia aceita com inteira cordura as incisivas palavras de Jesus. Ela continua a chamá-lO de Senhor, mostrando disposições de adoração, e argumenta dentro de uma lógica impecável em favor de suas necessidades.
28 Então Jesus disse-lhe: “Ó mulher, grande é a tua Fé! Seja-te feito como queres”. E, desde aquela hora, a filha dela ficou curada.
Eis quanto mais valem a Fé, a perseverança e a humildade do que a própria intercessão dos santos. O que nem os Apóstolos conseguiram, ela arrancou de Nosso Senhor e até mesmo aparentemente contra a vontade d’Ele. E, além do mais, o favor obtido vinha acompanhado de um belo elogio.
CONCLUSÃO
A Cananéia não teve medo de ser importuna, nem esmoreceu um só momento em seu ânimo e em sua Fé. O que realmente desejava era obter a cura de sua filha. Havia uma inteira correspondência entre seu anseio e seu pedido. Aqui se encontra uma condição essencial de uma boa oração: querer de fato aquilo que se pede. Inúmeras vezes não conseguimos atingir nossos objetivos porque não é autêntica nossa súplica.
Outro ensinamento que podemos extrair do Evangelho de hoje é a necessidade de nos instruirmos sobre a verdadeira e boa doutrina. A Cananéia ouviu e se informou a respeito dos atos e das pregações de Jesus. Isso lhe foi fundamental para crer. Um grande mal de nossos dias, a ignorância religiosa, talvez seja a principal causa dos dramas atuais, conforme nos afirma a Escritura: “Ouvi a palavra do Senhor, filhos de Israel! Porque o Senhor está em litígio com os habitantes da terra. Não há verdade nem misericórdia nem conhecimento de Deus na terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio. (...) Porque meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os 4,1-6).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tudo se obtém pela fé! (continuação)

Silêncio desconcertante
23 Ele, porém, não lhe respondeu palavra. Aproximando-se seus discípulos, pediram-Lhe: “Despede-a, porque vem gritando atrás de nós” .
Misterioso silêncio do Salvador, o que inflamava mais ainda o coração da angustiada mãe. Várias são as opiniões dos autores sobre este particular. A primeira impressão que se tem é a de que Jesus não desejava chamar atenção sobre Si, pelo fato de estar buscando isolamento, descanso e refúgio. Por outro lado, como Ele mesmo recomendara não utilizar os caminhos dos gentios, talvez fosse melhor não dar motivos para incompreensões ou calúnias.
Porém, a Glosa acentua um aspecto de suma importância sobre a causa dessa atitude do Divino Mestre: “Com essa dilação e falta de resposta, revela-nos o Senhor a paciência e a perseverança da mulher”. Melhor ainda se exprime a esse respeito Maldonado: “Parece-me que também por duas outras razões [Jesus] se calou: para provar a Fé e a constância da mulher ou para mostrar aos outros, como diz Crisóstomo, que ela teve Fé grande e especial, pois, desprezada e sem ouvir uma resposta, perseverou na súplica. Finalmente, quis Cristo fazer ver que, não por sua vontade, mas forçado e premido pelos importunos rogos da mulher, concedia a graça dos milagres aos gentios, embora não tenha sido enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
O alto grau de dramaticidade da cena impeliu os discípulos a intercederem por ela. Na interpretação desse pormenor os Padres e demais comentaristas são inteiramente unânimes.
De fato, à medida que ela externava sua aflição por seus clamores ao longo do caminho, certamente seu empenho em obter aquele favor crescia pela Fé que se robustecia a cada grito. Jesus e os seus devem ter resolvido entrar na casa dela, a fim de evitar o escândalo que, com sua atitude, ela promovia pelas ruas. Assim se entende melhor quanto é apenas aparente a contradição a propósito deste detalhe, entre as narrações de Marcos (7,24-30) e a de Mateus. Estando já, portanto, na casa da Cananéia, e antes de ela arrojar-se aos pés do Divino Taumaturgo, os Apóstolos rogam por ela e obtêm-lhe uma resposta. Até então, Jesus nem sequer a olhara, opondo ao seu fervor uma indiferença própria a desanimar qualquer pessoa. Mas as palavras de Jesus talvez fossem ainda mais duras que o silêncio anterior. Difícil teste para a humildade daquela mãe
24 Ele respondeu: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
Difícil é, à primeira vista, a compreensão dessa dura afirmação do Divino Mestre, mas, percorrendo-se os vários comentaristas, percebe-se a bela lógica da resposta, como, por exemplo, nestas palavras de São Jerônimo: “Não diz isso porque não houvesse sido enviado às demais nações, mas para indicar que fora primeiramente enviado a Israel e que, após ter este povo renegado o Evangelho, o Evangelho passaria com justiça aos gentios”.
Porém, não estava ao alcance da Cananéia essa explicação. Pode-se imaginar qual deve ter sido sua perplexidade ao ouvir aquela resposta. Sua natureza feminina, por si só já tendente à fragilidade, a inclinaria a perder o ânimo, sobretudo depois de um longo silêncio daquele Grande Senhor. Quantas mães, a essa altura, não teriam se retirado para chorar a sós ou em companhia de sua pobre filha, em meio a uma terrível depressão!
Para nós mesmos que ora consideramos essa cena, talvez não fosse necessário tanto para desistirmos de nosso intento. Não foi o que se passou com a Cananéia...
25 Ela, porém, veio e prostrou-se diante d’Ele, dizendo: “Senhor, valei-me”.
Quantas e quão boas virtudes demonstra possuir essa alma fervorosa! Se nós soubéssemos rezar com essa confiança e persistência, não obteríamos tudo o que pedimos? Quantas vezes deixamos de ser atendidos em nossas orações, pela falta de perseverança...
26 Ele respondeu: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.
Parece-nos que, pari passu com o crescimento na Fé da Cananéia, mais duras se tornam as palavras do Salvador. Elas nos causam uma certa incompreensão e não serão raros os que com elas possam ficar chocados, sobretudo entre nós, ocidentais.
Sobre este versículo assim se expressa Fillion: “Fazem notar os comentaristas — e com razão — que Jesus emprega um diminutivo que significa não os animais vulgares, sem dono, semi-selvagens, que andam errantes pelas ruas dos povoados orientais, alimentando- se de vis desperdícios, senão dos ‘cachorrinhos’ domésticos, cuidados em casa e que participam dos jogos das crianças” (12) Como Marcos escrevia para um público étnico-cristão, acrescenta à narração dessa mesma passagem uma forte atenuante (7, 27). Por isso continua Fillion: “Ademais, ao dizer o Divino Mestre: ‘Deixa primeiro fartarem-se os filhos’, afirmava, sim, o direito de prioridade dos judeus no tocante aos benefícios do Messias; mas declarava também que não lhes era exclusivo e que um dia alcançaria os gentios”.

( continua no próximo post)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tudo se obtém pela fé!

De volta do cativeiro na Babilônia, o povo judeu levou mais de um século para se reinstalar na Palestina (de 538 a.C. a 398 a.C.). Em certo período (aprox. em 458 a.C.), um segundo núcleo de retornados contou no seu meio com uma figura exponencial: Esdras. Entre suas várias iniciativas estava a de revigorar os costumes e preceitos prescritos por Moisés, de maneira muito especial os relativos aos casamentos mistos. Nessa ocasião foram excluídas de entre o povo judeu todas as mulheres cananéias, com seus respectivos filhos. Ademais, outro profeta, Neemias, tomado de santo zelo, em período posterior expulsou de Jerusalém os comerciantes da cidade de Tiro, assim como tomou severas medidas para separar o povo eleito dos estrangeiros.
COMENTÁRIO AO EVANGELHO
21 Partindo dali, Jesus retirou-Se para a região de Tiro e de Sidônia.
Os cananeus eram, portanto, um povo que de modo algum podia ser procurado pelos judeus, daí a perplexidade de alguns comentaristas, que buscam uma explicação mais cômoda para o conteúdo deste versículo. Maior é a perplexidade se lembrarmos que o próprio Jesus havia proibido a seus discípulos qualquer incursão em territórios dos gentios.
Na realidade o Divino Mestre penetrou naquelas terras para ocultar-Se e não para pregar. Porém, pelo fato de Ele permanecer ali várias semanas e, sobretudo, por ter se difundido amplamente sua fama, não demorou para que sua presença fosse percebida. Conforme nos relatam Marcos (3, 8) e Lucas (6, 17), alguns habitantes daquela região já haviam assistido à pregação de Jesus na Palestina. Além disso, é indispensável recordarmos o quanto o porte e grandeza do Homem-Deus tornavam-nO uma Pessoa que chamava possantemente a atenção logo num primeiro olhar. Daí a cena que veremos em seguida.
Uma mulher que rompe com os padrões errados vigentes
22 E eis que uma mulher Cananéia, que viera daqueles arredores, gritou: “Senhor, Filho de David, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada pelo demônio”.
Os comentaristas sublinham o carácter inesperado do aparecimento dessa senhora, como também seu profundo respeito pelo Mestre. Por que Mateus quis acentuar ser ela uma “cananéia”? Responde-nos Maldonado: “Crisóstomo notou que o Evangelista precisamente disse que aquela mulher era cananéia para que aparecesse mais admirável sua Fé, dado que os cananeus, na opinião dos judeus, eram os mais ímpios entre os gentios”.
Sobre a virtude dessa mulher, diz a Glosa: “Grande Fé se nota nessas palavras da Cananéia: ela crê na divindade de Cristo quando O chama de ‘Senhor’; e em sua humanidade quando Lhe diz: ‘Filho de Davi’” (7).
Alguns exegetas, tomados de admiração por essa proclamação da Cananéia, chegam a levantar a hipótese de que — nessa altura — ela já tivesse renunciado ao culto idolátrico tão difundido em Tiro e Sidônia. Filha de pais pagãos, rodeada de deuses falsos, quando seus relacionamentos sociais lhe impunham uma visualização errada sobre a religião, ela rompe com todos e abraça a verdadeira Fé. É heróica sua virtude, em meio à corrupção do mundo; seu coração é sincero e reto, isento de maldade e cheio de fervor. Que glória para essa mulher e que lição para os dias de hoje!
Vivemos submersos num pavoroso relativismo, conforme afirmou na Missa Pro Eligendo Romano Pontífice nosso Papa Bento XVI, gloriosamente reinante: “Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento!… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi, não raro, agitada por essas ondas, lançada dum extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até o ponto de chegar à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro. Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.
O mundo atual vem fazendo há muito um caminho contrário ao da Cananéia, ou seja, cada vez mais se paganiza e foge do Salvador. No fundo, estamos atravessando a pior crise de Fé já ocorrida na História, mergulhados num laicismo avassalador, verdadeira ameaça e desafio para a Igreja. Começou-se por levar uma vida em oposição ao que se acreditava, para aos poucos ir abolindo inteiramente a própria crença religiosa. Ora, a preciosa virtude da Fé necessita ser manifestada nos atos comuns e frequentes da vida, pois só exercitando-se ela pode se tornar robusta; caso contrário, tende a definhar. E não basta fazê-la consistir apenas em alguns atos e orações.
Esse é o exemplo que nos dá hoje a Cananéia. O foco de seu carinho, afeto e esperança era sua filha, que vinha sofrendo “cruelmente”, fazia tempo, o tormento de uma possessão diabólica. Seu instinto materno se tornava cada dia ainda mais intenso, ao considerar os padecimentos daquela que era carne de sua carne. Uma só era a dor dessas duas criaturas. Por isso, encontrando-se diante do Divino Taumaturgo, ela implora por si e pela filha.
Se ela estivesse influenciada pela mentalidade atéia e materialista de nosso tempo, decerto procuraria exclusivamente meios humanos para solucionar seu problema. Contudo, por sua grande Fé, agiu de forma bem diferente. Já ouvira falar do Filho de Davi o qual, percorrendo a Galiléia, curava todos os enfermos à sua passagem. Até os demônios eram expulsos por Ele. Inúmeras vezes penetrara sua alma o anseio de levar sua pobre filha à presença desse Senhor, ou até mesmo o desejo de ir sozinha à procura d’Ele. Mas a viagem lhe seria em extremo penosa, e talvez impossível, ainda que não levasse a filha consigo. Neste último caso, como deixá-la sem assistência durante um longo período? Impedida pelas circunstâncias de realizar seu sonho, não deixava, porém, de crer no poder do Filho de Davi, crescendo assim na Fé a cada instante. Ele seria o Senhor que concederia à sua filha a felicidade roubada pelo demônio. Ardia no seu coração o desejo de encontrá- lO e por isso rezava a fim de ter essa oportunidade.
Jesus se pusera ao alcance da Cananéia
Por seu lado, Jesus caminhava por aquelas plagas de maneira oculta. Não queria fosse pública sua presença, sobretudo em se tratando de domínios da gentilidade. Entretanto, Ele é a Bondade, e assim como está sempre pronto para ir em busca da ovelha desgarrada, assim também jamais foge de quem Lhe corre atrás. Não terá o Salvador resolvido penetrar nessa região para se colocar ao alcance dessa mulher tão valente na Fé?
Vemos um proceder muito característico de Jesus nesta cena. Retira-se do meio do povo eleito para tranquilizá-lo, tal qual o faz em muitas ocasiões com as almas preguiçosas, tíbias ou indiferentes. Em contrapartida, passa diante das almas fervorosas e atentas para que elas O descubram e assim se fixem na Fé, tomando-O como guia. Sim, de maneira inopinada e inimaginável, Jesus estava de passagem por regiões proibidas para os judeus. Só uma Fé incomum seria capaz de descobrir aquele Deus escondido, indo prostrar-se a seus pés e gritar por clemência.
Outro exemplo nos dá a Cananéia: com que sofreguidão se põe em busca do Filho de Davi, assim que ouve um minúsculo boato a respeito de sua presença ali. Bem diferente pode ser nossa Fé. Será que não nos custa abandonar nossas comodidades para ir ao encontro de Jesus, seja numa Celebração Eucarística, seja diante de um Tabernáculo? Não teremos recebido convites interiores de conversão e deixado passar as oportunidades por causa de injustificáveis e maléficas dilações? Quantos de nós, bem ao contrário da Cananéia, chegamos até a hora da morte inteiramente escravizados ao demônio, correndo o risco de permanecer eternamente no inferno!
Eram muito freqüentes, tanto entre os judeus como no meio dos pagãos, os casos de possessão diabólica, sendo as vítimas torturadas, não raras vezes, com terríveis e violentas convulsões. Daí ter a Cananéia se referido a sua filha empregando a expressão: “cruelmente atormentada”. O fato de intervir aos gritos e com insistência é próprio ao modo de ser oriental, além de demonstrar quanto o sofrimento da filha era agudo, constituindo um só com sua própria angústia.

Continua no próximo post.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A PARÁBOLA DO FERMENTO

33 Disse-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha até que tudo esteja fermentado”.
Certos antigos e conceituados comentaristas julgaram, erroneamente, tratar-se esta parábola de uma repetição da parábola do grão de mostarda. Elas possuem muita afinidade entre si, mas aqui Jesus tem outro objetivo: “até que tudo esteja fermentado”. Não se trata, portanto, da mera união da farinha com o fermento, mas da força e do vigor na capacidade de ação do elemento menor sobre o maior. Do mesmo modo o Reino dos Céus tem essa intensidade de penetração e transformação das almas, fermentando-as com os ensinamentos evangélicos.
A anterior parábola retrata a capacidade de expansão universal do Reino dos Céus. Esta última mostra o vigor interno que ele possui para influenciar as almas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Não temais os que matam o corpo

26 Não tenhais medo deles
Jesus envia seus discípulos em missão e profetiza as perseguições que por causa d’Ele sofrerão, conforme relatam os versículos anteriores. Por isso recomenda-lhes confiarem em seus conselhos, como por exemplo, o de serem perseverantes e destemidos na pregação do Evangelho, pois serão amparados e protegidos pelo Pai que está nos Céus, sobretudo no tocante à salvação eterna. Esta será a constante das outras passagens.
27 O que Eu vos digo às escuras, dizei-o às claras e o que vos é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados
Para melhor entendermos este versículo, devemos nos reportar aos costumes da época.
Aos sábados, dia reservado ao Senhor, todos se reuniam na sinagoga para ouvir a Palavra de Deus. Ao contrário do que se imaginaria, o leitor não apenas lia em voz baixa, como também não se dirigia aos assistentes, mas falava a um intermediário perto dele, o qual, por sua vez, proclamava em alta voz o que ouvia.
Outro costume tinha lugar às sextas-feiras à tarde. O ministro da sinagoga subia ao mais alto teto de uma das casas da cidade e tocava fortemente uma trombeta, advertindo todos os trabalhadores de que era hora de retornarem aos seus lares, pois aproximava-se o repouso sabatino religioso.
O Divino Mestre usou essas figuras da vida comum e corrente naqueles tempos para ilustrar qual devia ser a disposição de alma dos discípulos, ao exercerem o ministério de arautos do Evangelho. E, havendo-as mencionado, torna Jesus a incentivá-los à confiança.
28 Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar a alma e o corpo na Geena.
Os judeus ortodoxos, contrariamente aos saduceus, acreditavam na imortalidade da alma, e por isso comenta São João Crisóstomo: “Observemos que (Jesus) não lhes promete livrá-los da morte, mas lhes aconselha a desprezá-la, o que é muito mais que livrá-los da morte, e lhes insinua o dogma da imortalidade” (4). Em seguida lhes apresenta duas significativas metáforas, relacionadas com a Providência Divina.
29 Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse? E, todavia, nem um só deles cairá no chão sem a permissão de vosso Pai.
O “asse” era a menor moeda usada pelos romanos. Cunhada em bronze, valia a décima sexta parte de um denário. Portanto, além de não ser judaica, tinha valor real insignificante. Dois passarinhos valiam tão pouco que eram vendidos por esse preço irrisório e, no entanto, necessitavam do consentimento do Pai para serem mortos.
30Até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados. 31 Não temais, pois. Vós valeis mais que muitos passarinhos.
O objetivo dessas duas comparações feitas por Jesus é ressaltar o grande carinho e cuidado da Providência Divina para com suas criaturas. Se passarinhos e cabelos são tratados com esse cuidado por Deus, quanto mais se preocupará Ele em proteger seus discípulos que estão sendo enviados para pregar sobre o Reino!
Não há razão para temerem as injustiças e perseguições que lhes sobrevierem, conforme exclama Jeremias na primeira leitura de hoje: “O Senhor, porém, está comigo, qual poderoso guerreiro. Por isso, longe de triunfar, serão esmagados meus perseguidores. Sua queda os mergulhará na confusão. Será, então, a vergonha eterna, inesquecível” (Jer 20, 11).
A essa altura, a Liturgia de hoje se encerra trazendo à baila os dois versículos seguintes, a fim de frisar a importância e o valor absoluto do Tribunal do Pai em relação ao dos homens.
32 Todo aquele, portanto, que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de meu Pai que está nos Céus. Porém, quem Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de meu Pai que está nos Céus.
São bem conclusivas estas duas promessas de Nosso Senhor, em face da glória futura ou do castigo. Realmente, vale a pena sofrer como São Paulo: “Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo” (2 Cor 11, 24-25). Muitos outros riscos e dramas são narrados por ele nessa Epístola. E mais adiante relata que ele “foi arrebatado ao Paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é lícito a um homem repetir” (2 Cor 12, 4).
III – CONCLUSÃO
Nesse panorama futuro e eterno devem estar fixados os nossos olhos, e não nas delícias fátuas e passageiras desta vida, ainda quando legítimas. Nem falemos do pecado, porque ele terá como consequência imediata a frustração, e o fogo do inferno após a morte.
As dores, angústias e dramas pelos quais passamos durante nossa existência terrena nada são em comparação com o prêmio dos justos, conforme garante São Paulo: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).
Resta-nos lembrar o indispensável papel de Maria na nossa salvação. Pois assim como Jesus veio a nós por Maria, é também por meio d’Ela que obteremos as graças necessárias para sermos outros Cristos e alcançarmos a vida eterna.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Juízo

“Por justo juízo de Deus, fui condenado!”
O juízo é um assunto tão rico que mesmo uma vasta biblioteca não conseguiria abarcar todas as obras necessárias para abordá-lo de maneira exaustiva. Contudo, para efeitos do presente artigo, vale a pena ilustrá-lo considerando um fato preservado pela tradição da Ordem dos Cartuxos.
Conta a história que seu fundador, São Bruno, resolveu abandonar o mundo e tornar-se monge ao testemunhar espantoso acontecimento passado com um então célebre personagem da Paris do século XI, Raymond Diocrés, doutor em Teologia, professor e considerado pessoa muito virtuosa.
Faleceu ele no ano de 1082. Uma multidão, com destaque para seus alunos, acorrera para velar seu corpo, colocado, conforme o costume da época, num majestoso leito e coberto com um suave véu.
Sob o olhar atento dos presentes, deu-se início ao Ofício de defuntos. Ora, a certa altura, na leitura de uma das lições, é proclamada a pergunta:
“Responde-me: Quão grandes e numerosas são tuas iniqüidades?”
Qual não foi o espanto de todos, ao ouvirem uma voz sepulcral, mas clara, saída de baixo do véu mortuário dizendo:
— Por justo juízo de Deus, fui ACUSADO!
Interrompem o Ofício e levantam o véu, e ali estava o morto gelado e enrijecido, sem o menor sinal de vida.
Recomeçam o Ofício e novamente, ao chegar-se à pergunta acima mencionada, “responde-me”, espanto muito maior: o corpo, antes rígido, desta vez se levanta à vista de todos e, com voz mais sonora e forte, afirma:
— Por justo juízo de Deus, fui JULGADO.
E, logo a seguir, cai sobre o leito.
Numa atmosfera de terror generalizado, os médicos analisaram o cadáver, atestando cuidadosamente a inexistência do menor sopro de vida, inclusive por estarem rígidas as articulações. Não houve clima psicológico para retornarem às orações oficiais, que foram transferidas para o dia seguinte.
A cidade de Paris ferveu de comentários e discussões sobre o caso: uns defendiam a tese de que aquele homem havia sido condenado, e era assim indigno das bênçãos da Igreja; outros afirmavam que todos nós seremos ACUSADOS, e depois, JULGADOS.
O próprio Bispo oficiante foi partidário desta opinião e por isso reiniciou, no dia seguinte, a mesma cerimônia, desta vez ainda mais concorrida, com um público pervadido de extrema apreensão e curiosidade.
Na mesma passagem da quarta leitura de Matinas, o Bispo proclamou:
“Responde-me...” Em meio ao grande suspense, o falecido Raymond Diocrés se levantou e, numa voz aterradora, exclamou:
— Por justo juízo de Deus fui CONDENADO!
E tornou a cair imóvel.
Não havia dúvida, estava desfeito o enorme equívoco sobre sua imerecida reputação e falsa glória. Por ordem das autoridades eclesiásticas, o corpo foi despojado de suas insígnias e lançado em vala comum.
O episódio marcou profundamente aqueles anos e foi esta a razão pela qual Bruno e seus primeiros quatro companheiros, testemunhas oculares do fato, resolveram abandonar o mundo e abraçar a vida religiosa, resultando daí a fundação da Ordem dos Cartuxos.
Dies irae, dies illa...
Por esse ilustrativo acontecimento podemos fazer idéia de quão numerosos serão os equívocos sobre a realidade das consciências e dos juízos de Deus. E só por essa narração já se entenderia melhor a necessidade de um juízo universal.
Em sua sóbria mas eloqüente majestade, a Santa Igreja canta os aspectos terríveis daquele dia, na Seqüência da Missa de “Réquiem”: o “Dies Irae”. Mozart dizia estar disposto a trocar a honra que todas as suas obras lhe granjearam, pela autoria desse único moteto gregoriano.
“O dia da ira, aquele que reduzirá tudo a cinzas... Que terror, quando o Juiz vier para tudo examinar rigorosamente!... Será apresentado o livro que contém tudo pelo qual será julgado o mundo. Quando o Juiz estiver sentado, tudo quanto está oculto será revelado, nada restará impune ...”
Naquele dia, saber-se-á a razão das perseguições, das heresias, dos martírios, das calúnias, das invejas, etc. Será o dia do triunfo da justiça divina, cada um receberá à vista de todos aquilo que merece. Porém, não será um dia marcado por vinte e quatro horas, mas sim eterno. Pelos séculos dos séculos, sem fim, as minúcias do comportamento de cada um dos seres humanos ficará na lembrança dos santos e dos condenados.
Assim, não devemos descuidar de nossa salvação eterna, tal qual nos recomendam doutores e espiritualistas, como Monsabré, de quem encontramos esta cogente advertência: “Comparecereis muito em breve diante do trono de vosso grande Juiz. Ouvireis sair de sua boca uma bênção ou uma maldição? Eu o ignoro. Tudo quanto posso dizer é que necessitais tomar vossas garantias seguindo este conselho do Apóstolo: ‘Com temor e tremor trabalhai por vossa salvação’ (Fil 2,12)”

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quem é o meu próximo?

 O principal objeto do pensamento, ontem e hoje
“Falhou o motor do carro, acabou a energia elétrica, os bancos entraram em greve, foi lançado um novo tipo de software, afinal a ciência encontrou a substância preventiva contra o câncer”... e, se tempo e espaço houvesse, poderíamos encher páginas e páginas com os assuntos que no mundo atual absorvem exageradamente a atenção da humanidade. Deus deixou de ser a preocupação principal de quase todas as pessoas para dar lugar a um desenfreado egocentrismo. A agitação passou a ser a nota tônica do dia-a-dia em toda a face da terra, o relacionamento humano e a própria estrutura da vida social já não mais facilitam a elevação do pensamento a Deus.
A esse respeito, a situação do gênero humano era bem diversa na época da Jesus; apesar da grande decadência na qual estava ele mergulhado, o empenho em conhecer idéias era mais notório. No povo judeu, em concreto, a apetência por explicitações doutrinárias, sobretudo quando estreitamente ligadas com a religião, era robusta e contagiante. Um exemplo característico deste estado de espírito ocorre com o legista que se levanta para fazer uma pergunta a Nosso Senhor. Por mais que seu intento não fosse inteiramente isento de segundas intenções, o questionamento exposto por ele deixa transparecer qual era o teor dos assuntos tratados nas conversas comuns daquele período histórico.
Malévolas intenções dos doutores da lei e dos fariseus
Então, levantou-se um doutor da Lei, que Lhe disse para O experimentar: “Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?”
A pergunta feita pelo doutor da Lei é praticamente a mesma relatada tanto por São Mateus (22, 35), como por São Marcos (12, 28). Porém, ao lermos os três Evangelhos, damo-nos conta de serem cenas diferentes. Esta de São Lucas deve ter-se passado em Jericó e, levando em conta o consagrado costume durante as exposições e pregações realizadas nas sinagogas — ou seja, todos os assistentes participavam sentados e, ao surgir uma pergunta, esta deveria ser pronunciada de pé — tudo indica ter-se dado no interior desse ambiente.
O anseio mal-disfarçado desse doutor da Lei de apanhar Jesus em algum lapso, transparece na essência e na forma da pergunta. Se alcançasse êxito em seu intento, teria satisfeito seu amor próprio. Provavelmente se tratava de um fariseu ainda não penetrado das malévolas intenções daqueles que, mais tarde, procurariam pretexto para matá-Lo.
O objetivo desse doutor da Lei era de pôr à prova os conhecimentos de Jesus e estabelecer com Ele uma polêmica da qual, sendo doutor, sairia triunfante. Esta suposição se deduz da segunda pergunta feita pelo mesmo personagem a Jesus. O fato de este encaminhar a conversa para um ponto muito discutido entre os rabinos deixa claro esse seu intuito.
Até os fariseus se preocupavam com a vida eterna... E hoje?
Jesus respondeu-lhe: “O que é que está escrito na Lei? Como lês tu?”  Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo.”
Em Marcos encontramos idêntica pergunta feita pelo moço rico, à qual Jesus responde com um elenco sintético das virtudes obrigatórias para todos (cf. 10, 17ss). No caso presente, o doutor da Lei não obtém d’Ele senão uma outra interrogação como resposta. O Divino Mestre lhe propicia a prática da virtude da humildade, remetendo-o ao primeiro Mandamento da Lei de Deus, fato desagradável para um teólogo de fama: o ter de retornar ao Catecismo. Esse procedimento de Jesus não poderia ser melhor, pois desse modo facilitava ao seu interlocutor um passo a mais na sua vida espiritual: o ver-se na contingência de repetir a frase que todo judeu recitava duas vezes ao dia: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). E como não lhe ficaria bem dizer tão pouco, ele resolve acrescentar um complemento para, talvez, fazer assim notar diante dos outros sua erudição: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 15, 18). Com sabedoria comenta este versículo o famoso Maldonado: “Com admirável prudência, Cristo remete para a Lei aquele doutor que fingia ignorância e pretendia explorar sua doutrina.
Costumava assim proceder quando Lhe faziam perguntas capciosas, para atenuar o efeito desagradável de sua resposta. Remetia, pois, para a Lei, e era esta que condenava quem dela se vangloriava”.
Se fôssemos nos deter na consideração de cada uma das palavras do Deuteronômio (6, 5) espaço não haveria. Basta-nos saber que o verbo empregado nas versões latinas, não é amare mas diligere. Este termo diz respeito ao amor sentido que resulta da soma da vontade espiritual e do sentimento.
Apesar do lamentável estado moral e espiritual do povo naquelas circunstâncias históricas, as pessoas se colocavam diante da problemática da salvação eterna: “... que devo fazer para possuir a vida eterna?” Muito diferentemente de nossos dias, pois quem hoje se preocupa com seu destino após a morte? Atualmente, o empenho por conservar não só a saúde, como também a beleza, uma bem sucedida situação financeira, etc., absorve todas as atenções; o nosso futuro após ultrapassarmos as barreiras do tempo é matéria de total desinteresse. Assim, os patrões não zelam pela formação espiritual de seus empregados; os pais, pela de seus filhos; os professores, pela de seus alunos; etc. Rompem com o gravíssimo dever imposto a eles por Deus de serem mestres junto a outros...
São Basílio, atendendo às aspirações dos fiéis de seu tempo, deixou-nos uma belíssima interpretação a respeito do amor a Deus: “Se alguém nos perguntar como se pode adquirir o amor divino, responderemos que não se aprende este amor.
Não aprendemos de outrem a nos alegrarmos com a presença da luz, nem a amar a vida, nem a amar nossos pais ou nossos amigos; nem, muito menos, podemos aprender as regras do amor divino; mas há em nós um sentimento íntimo, o qual tem suas causas intrínsecas e nos predispõe a amar a Deus. E quem obedece a esse sentimento põe em prática a doutrina dos preceitos divinos e atinge a perfeição da divina graça. Amamos naturalmente o bem; amamos também nossos próximos e parentes; ademais, damos espontaneamente aos benfeitores todo o nosso afeto. Se, pois, o Senhor é bom, e todos desejam o bom, aquilo que se aperfeiçoa por nossa vontade reside naturalmente em nós. A Ele, embora não O conheçamos por sua bondade, no simples fato de que d’Ele procedemos, temos obrigação de amá-Lo sobre todas as coisas, como sendo o nosso princípio. É também maior benfeitor do que todos os que se amam naturalmente. Por conseguinte, o primeiro e principal mandamento é o de amar a Deus” (3).
Quem mais próximo do que Jesus?
Jesus disse-lhe: “Respondeste bem: faze isso e viverás.”  Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”
O pobre doutor da Lei se via numa situação de inferioridade — muito útil, aliás, para a sua vida espiritual — e procurou justificar-se, pois nada pior do que o silêncio diante do público que o circundava. Qualquer bobagem cairia melhor. O próprio Pilatos, em circunstâncias análogas, também optou por perguntar : “O que é a verdade?”
“Finge, pois, o doutor que não está perguntando uma coisa tão vulgar e conhecida de todos, mas sim um ponto difícil e discutido entre os mais insígnes doutores (...). Por outro lado, Santo Ambrósio, Teofilaro, Eutímio e (segundo São Tomás) São Cirilo opinam que ele propôs formalmente essa questão por pensar que próximos eram só os justos com respeito a ele, que se considerava justo” (4).
Em síntese, o seu desejo de demonstrar ter inteiro cabimento sua primeira pergunta o leva a enunciar esta outra que, nos dias atuais, com facilidade qualquer criança de Catecismo responderia. Entretanto, naquela quadra histórica constituía uma questão inextricável. As origens familiares, as classes sociais, o regionalismo, a nacionalidade, a raça, eram fatores de separações estanques. Não nos esqueçamos de mencionar a terrível discriminação da escravidão, consagrada em todas as legislações da época. Ora, o povo mais afetado por esse espírito de separatismo era o judeu. Basta correr os olhos pelo Talmud para comprovar os extremos a que chegou contra os goyim, ou seja, todos os não judeus. Muito comum era o juízo de que só os do povo eleito eram chamados à salvação eterna. Ademais, baseados no Levítico: “não guardarás rancor contra os filhos de teu povo” (Lv 19,18), não concebiam que a amizade pudesse transpor os limites da nacionalidade.
Porém, “daí não se segue que ele tenha feito a pergunta com sinceridade e desejo de aprender, porque, embora ignorando, estava convencido de que sabia” e a tal ponto que a Escritura não deixava margem a dúvida de como tratar ao não-judeu: “Se algum estrangeiro habitar na vossa terra, e morar entre vós, não o impropereis; mas esteja entre vós como um natural; e amai-o como a vós mesmos; porque também vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Lv 19. 33-34).
Por outro lado, vemos esse doutor numa situação paradoxal: “Naquele mesmo instante se encontrava um próximo extraordinariamente especial ou seja, o próprio Deus! Por isso, ao fazer essa pergunta, deixa claro (...) que não conhecia seu próximo, porque não acreditava em Cristo, e quem não conhece Cristo desconhece a Lei; porque, ignorando a verdade, como pode conhecer a Lei que anuncia a verdade?”
Talvez a isso o tivesse levado seu orgulho pouco ou nada combatido.
“Elogiado pelo Salvador, por ter respondido bem, o doutor da Lei encheu-se de soberba, não acreditando existir alguém que pudesse ser seu próximo, como se não houvesse quem fosse capaz de equiparar-se a ele em justiça. Por isso diz: ‘Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?’ Assediavam-no, por assim dizer, alternativamente, os vícios: após a falácia com que fizera a pergunta, tentando, cai na arrogância. Ao perguntar: ‘Quem é o meu próximo?’, já se mostra vazio do amor ao próximo e, em conseqüência, revela-se vazio do amor divino, pois, não amando o irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê” .
Os escribas e fariseus — que alimentavam entre si, dia-a-dia, sua indignação contra os gentios, como até mesmo à própria plebe judaica — iriam ouvir do Mestre uma clara e irrefutável lição, cheia de calor, de como se deve tratar o próximo...
A parábola: Quem é, afinal, o meu próximo?
Jesus, retomando a palavra, disse: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto.”
Quantas escolas e cursos de didática se multiplicam por todo o orbe! Entretanto, é impossível superar aquela empregada pelo Divino Mestre em sua vida pública. A criação da figura do Bom Samaritano é simplesmente genial. A própria descrição das circunstâncias geográficas nas quais o caso se verifica é de um colorido tão real que por pouco não julgamos tratar-se de um fato histórico.
Jerusalém dista de Jericó, aproximadamente, trinta quilômetros e, entretanto, a diferença de altitude entre uma e outra cidade quase atinge seus mil metros. Ao empreender-se o caminho partindo de Jerusalém, depois de percorrer uns três quilômetros, chega-se a Betânia, após a qual termina a vegetação e uma região bem rochosa se evidencia por longa extensão. A certa altura, nos dias de hoje, encontra-se uma hospedaria com o nome de “Bom Samaritano”, ao que parece, para fazer jus à parábola. Tudo leva a crer que de fato deve ter sido esse o local descrito pelo Senhor, pois ao longo dos séculos multiplicaram-se ali os assaltos, e não só à noite, mas em plena luz do dia. Ademais, existem ainda, não muito distante desse albergue, as ruínas de uma fortaleza, prova evidente do quanto devia ser perigoso o local.
O Evangelho sempre procura ser sintético, motivo pelo qual muitos aspectos, talvez secundários, de suas narrações não passam para a História. Por isso, não é exagero imaginarmos o quanto os detalhes psicológicos e geográficos foram cuidadosamente elaborados pelo Senhor.
Por esse caminho descia supostamente um judeu, pois, não tendo sido mencionada sua raça, por exclusão só podia tratar-se de um co-nacional do levita e do sacerdote que o sucederiam após o assalto. Entretanto, como veremos, essa imprecisão tem sua razão de ser. Das cavernas, ou de trás das rochas, surgem uns assaltantes que despojam o pobre homem e, certamente por ter ele reagido, aplicam-lhe severos golpes, abandonando-o quase sem vida em meio ao seu próprio sangue, impedido, portanto, de seguir seu curso normal.
Uma vez delineada a dramática situação desse homem e a fuga dos bandidos, a cena se enriquece com três personagens mais: um sacerdote, um levita e o samaritano.
O sacerdote e o levita violam a Lei, por terem o coração endurecido
Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote que, quando o viu, passou de largo. Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar e vendo-o, passou adiante.
A nacionalidade judaica e a respectiva religião eram os mais elevados pressupostos de honra de todo o povo eleito. Ora, aquele ferido possuía essas características essenciais, e vê-se claramente qual foi a intenção do Divino Mestre ao ideá-lo como vítima, pois o sacerdote ao se aproximar apenas o verá e passará adiante. Deduz-se que ele havia terminado seu serviço no Templo e retornava a Jericó onde residiam muitos dos de sua categoria. Não podia ser mais providencial esse encontro fortuito. A Lei determinava como obrigação grave socorrer qualquer acidentado, sobretudo em estado pré-agônico.
Religião, nacionalidade, desamparo, nada moveu aquele duro coração de um ministro de Deus chamado ao heroísmo da caridade. Não é difícil imaginarmos os raciocínios que provavelmente elaborou a partir de então e ao longo do caminho, para tranqüilizar sua atormentada consciência: “É um homem qualquer! Um desconhecido, sem títulos. É melhor nem me deter, para não rebaixar minha condição”. Eram as razões ditadas pelo orgulho mal-combatido, e não tão raro, naqueles que tinham por vocação a missão de extirpar esse mesmo vício nos outros e em si próprios. Ademais, se a humildade fosse sua companheira, nada lhe custaria, ainda que por puras palavras, procurar confortar aquele pobre hebreu. Um pequeno desvio, sem muito deter-se, foi todo o seu esforço. “Assueta vilescunt”, diz-se em latim; ele estava calcinado por uma rotina entibiada de suas funções litúrgicas no Templo, como também intoxicado pela hipocrisia dos escribas e fariseus.
Não lhe devia ser estranho um certo cálculo dos gastos a serem efetuados, caso ele se propusesse socorrer aquela vítima roubada, despojada e ensangüentada. Nem sequer poderia contar com uma recompensa e, menos ainda, com a recuperação do dinheiro empregado. Nada poderia esperar em retribuição aquele ministro pela perda de tempo, incomodidade, prejuízo, etc. Manifestou-se robusto seu caráter interesseiro de um vil pragmatismo diante daquele drama.
No extremo oposto da bondade, encontramos ao longo da História corações duros, cruéis e difíceis de se deixarem enternecer pelos necessitados. Nada os move à compaixão. Ali “por acaso, descia” um exemplo vivo dessa empedernida insensibilidade.
Aquela cena, entrecortada por gemidos que imploravam socorro e misericórdia, mais inspirava repulsa e náusea do que pena, naquele coração pervadido de amor-próprio.
Porém, a Lei era explicitamente contrária aos seus sentimentos de egoísmo (cf. Ex 23, 5), e ele não podia ter abandonado seu irmão, sobretudo naquelas circunstâncias.
As mesmas considerações serviriam para caracterizar a atitude idêntica do levita que, logo a seguir, também passou por ali. Ambos provavelmente haviam deixado o Templo após o término de seu expediente e desciam para Jericó, cidade que abrigava a metade dos servidores religiosos.
Misericórdia do samaritano
Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto dele e, quando o viu, encheuse de compaixão. Aproximou-se dele, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse-lhe: “Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”.
Bem diferente foi a reação do samaritano. Sem levar em conta o ódio racial que violentamente os separava, apesar de se tratar de um inimigo seu, sua religiosa incompatibilidade se transformou, no mesmo instante, em comiseração. O Evangelho recolhe os maravilhosos detalhes da divina parábola elaborada por Jesus para o doutor da Lei: o samaritano se manifesta um herói da caridade desde o descer de sua montaria, aplicando in loco todos os cuidados cabíveis naqueles tempos, conduzindo a vítima a uma pousada, até o contrair uma dívida com o estalajadeiro, a fim de que este dispensasse todos os cuidados ao pobre judeu. Percebe-se, pelo contrato proposto e aceito, ser ele um mercador de confiança e muito estimado pelo dono da estalagem.
Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? 37 Ele respondeu: “O que usou de misericórdia com ele.” Então Jesus disse-lhe: “Vai e faze tu o mesmo.”
Novamente, Jesus responde ao doutor da Lei com outra pergunta, parecendo à primeira vista desejoso de desviar-se um tanto da substância da temática proposta pelo consulente. Esse aparente desvio da questão, intencionalmente levado a cabo pelo Divino Mestre, é uma quimera que atrai a atenção da maioria dos comentaristas, dando-lhes ocasião para levantar as mais variadas hipóteses. Trazemos à tona a mais sábia e lúcida delas:
“No meu entender, Cristo pretende demonstrar de modo geral que todo homem é nosso próximo; mas o faz de modo adaptado àquele doutor com quem estava tratando. Pensava este que só os justos, ou só os amigos, ou ao menos só os judeus, eram seus próximos. E das próprias palavras da Lei teve ocasião de errar, porque no hebraico próximo significa o mesmo que amigo e companheiro. Quis, pois, Cristo tirá-lo desse erro e obrigá-lo a reconhecer e confessar que próximo não era só o judeu para o judeu, mas também o samaritano para o judeu, isto é, o inimigo para o inimigo. E se o próprio inimigo era próximo para o inimigo, todo homem deve se considerar próximo em relação ao outro. Demonstrou isso com a melhor e mais eficaz argumentação, ou seja, pelo efeito, fazendo ver que o inimigo tinha sido próximo para o inimigo, isto é, o samaritano para o judeu, pois fez o que é característico do próximo, que é ajudar. Por isso Cristo propôs a parábola com o exemplo de um samaritano”.
No mesmo sentido, opina um conhecido comentarista moderno:
A pergunta de Cristo foi feita com intenção especiaL. Perguntou-Lhe o doutor da Lei quem era o próximo para ele. E Cristo [por sua vez], perguntou: Quem agiu como próximo? Desse modo, com um exemplo prático, fez ver que cada homem é próximo para todos os homens. Motivo pelo qual deve estar próximo a ele em todas as suas necessidades. É o paradoxo oriental servindo de máxima pedagogia. Tal foi a lição magisterial de Cristo”.
Tem toda razão Maldonado ao expressar essa análise, pois não era tão explícito para um judeu o conceito de próximo, por várias razões. Por sua história e por sua lei, antes de tudo. Sempre que os judeus se misturavam com outros povos, acabavam caindo na idolatria. Por outro lado, basta considerar o quanto a Terrra Prometida se localizava entre mar, desertos e montanhas, separando o povo judeu, geograficamente, dos demais. Daí ser muito restrito para eles o verdadeiro significado de “próximo”. E entre si julgavam-se irmãos, mas, com os outros, viviam numa antipatia instintiva levada, não raras vezes, até ao ódio.
Por cima dessas circunstâncias, o povo judeu possuía uma missão universal. A ele havia sido confiado o tesouro espiritual do qual deveria ser alimentada toda a humanidade.
Assim se explica essa belissima parábola composta pelo Divino Mestre, que foge um tanto da morfologia das outras, nas quais o simbolismo se espraia por todos os substantivos e adjetivos. Ela constitui um exemplo efetivo e afetivo de amor a Deus, sem o qual não existe Religião, e de amor ao próximo, sem o qual não há amor a Deus.
Quem diz amar a Deus, mas não ama seu próximo, além de mentir, desobedece à Lei divina e se esquece de seu Preciosíssimo Sangue derramado no Calvário.
Esse amor deve ser universal e não podemos nos apoiar em pretextos, aparentemente legitimos, para não praticá-lo, como o fizeram o sacerdote e o levita da parábola. Eles certamente estavam encarregados de missões boas e delas retornavam para suas casas, entretanto, procederam mal com o necessitado.
Não poucos autores aplicam a parábola ao próprio Jesus Cristo, com muita piedade. Não será de mau gosto fazermos urna aplicação a nós, perguntando-nos quais têm sido, em geral, nossas atitudes e reações face aos necessitados de qualquer espécie.