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sábado, 17 de março de 2012

Jesus expulsa os vendilhões continuação


Reações volúveis e pragmáticas da multidão

23 Estando em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos acreditaram no Seu nome, vendo os milagres que fazia. 24 Mas Jesus não Se fiava neles, porque os conhecia a todos, 25 e não necessitava de que Lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por Si mesmo o que há em cada homem.

Certamente é feita aqui uma referência à primeira Páscoa que Jesus passou em Jerusalém, logo após ter realizado o milagre das Bodas de Caná. E por que não Se fiava naqueles que passaram a crer por causa dos milagres?

Corações volúveis, inconstantes e pragmáticos, num primeiro instante pervadidos de admiração, mas em menos de três anos prefeririam Barrabás aos milagres. No fundo, não amavam a verdade em tese, e menos ainda em substância. Com alguma razão diria um político francês que o povo se vinga dos seus próprios aplausos.

“Qual a causa dessa inconstância que levava Cristo a não Se fiar plenamente neles? Os milagres os deslumbravam e lhes falavam como ‘sinais’ do poder e da dignidade messiânica de Cristo, mas restava neles um fundo, uma atitude de reserva. Provavelmente, mais que falta de Fé, era falta de uma entrega total a Cristo. Talvez tencionassem segui-Lo à maneira de um discípulo dos famosos mestres Hillel ou Shammaí, mas não entregar-se inteiramente a Ele, assumindo as consequências dessa entrega na ordem moral e religiosa (cf. Jo 3, 16.18.21; 6, 28.30). Já ‘desde este primeiro contato com as multidões de Jerusalém, mostram-se eles tal como aparecerão sempre no Evangelho de João: impressionáveis e rapidamente conquistáveis pelos milagres de Jesus, mas superficiais e de adesão precária’”.15

Por outra parte, não poucas vezes, é cego o testemunho dos homens, pois baseia-se nas aparências exteriores. E quão pouca importância devemos atribuir aos discursos, pensamentos e relambórios de outros, a nosso respeito! Quando elogiosos, não nos levem eles à soberba; nem à perturbação, quando críticos e contrários. E, em nosso relacionamento com Jesus, o que Ele deseja é “nosso abandono, de pensamento e vontade, à sua direção; não quer que nos conservemos no egoísmo espiritual de quem regateia pensamento e vontade. Jesus sabe tudo: não precisa do testemunho de homem, porque penetra com seu olhar até o fundo de nosso pensamento e de nosso coração. Não nos escusemos, entreguemo-nos generosamente a suas graças”.16

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Templo de Jerusalém

O Pátio dos Gentios

O conjunto de todos os edifícios que constituíam o Templo formava um quadrilátero de seus quinhentos côvados1 em cada lado, protegido por muralhas. Nele se entrava através de oito enormes portas guarnecidas por torres de defesa. Havia em seu interior três pátios especialmente santos: o dos sacerdotes, onde se encontrava o naos, uma construção também quadrada, em mármore branco revestido de ouro, localizada no ângulo noroeste; mais ao oriente, o pátio dos homens e, em seguida, o das mulheres.
Rodeando esses três pátios, havia um grande espaço delimitado por colunas, denominado Pátio dos Gentios, ou dos Pagãos, a única parte franqueada aos não judeus. Era ali que, por um consentimento tácito das autoridades do Templo, tinham-se instalado bancas de câmbio e um verdadeiro mercado.

Em contraste com os outros três, que eram considerados sagrados, este último pátio assumiu o carácter de uma espécie de bazar oriental. Nele se encontravam à venda sal, azeite, vinho, pombas — que as mulheres ofereciam para purificar- se —, ovelhas e até mesmo bezerros para os sacrifícios de maior porte. Trocavam-se também as moedas estrangeiras — gregas, ou romanas, por exemplo — pela sagrada, com a qual se pagava o imposto fixado pelo Senhor para a manutenção do Templo (cf. Ex 30, 13-16).

Acresce-se a isso que o Pátio dos Gentios facilitava o acesso aos demais, pois quem não o utilizava como atalho, via-se na contingência de dar a volta na esquina do Templo. Assim, um espaço que deveria ter certo ar de sagrado, transformou-se num dissipado e agitado “covil de ladrões”.

O Templo era o ponto de referência mais denso de simbolismo religioso, e até mesmo nacional, de Israel. Não havia em toda a nação algo mais santo. Aquele local fora escolhido pelo próprio Deus para conviver com o Povo Eleito. Por essas e outras razões, nenhum judeu se consolaria caso visse chegar a hora de sua morte sem ter passado por seus pórticos, corredores e edifícios para rezar e oferecer sacrifícios. E ainda nos dias atuais, o grande sonho dos israelitas consiste em poder se encontrar diante daquelas ruínas para tocá-las, osculá-las, e banhá-las com suas lágrimas e, por esse meio, robustecer suas esperanças.

Cruzando o limiar de uma das oito portas exteriores, penetrava-se no imenso Pátio dos Gentios, aberto a todos: judeus ou pagãos, ortodoxos ou hereges, purificados ou impuros. A partir dele, para ingressar no pátio exclusivo dos judeus, havia treze portas e diante de cada uma delas uma coluna com inscrições, proibindo, sob pena de morte, o acesso a pessoas indignas.

É nesses pátios que muitas das cenas da vida pública de Nosso Senhor se passaram. 

1 Cerca de 250 metros.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor e castigo se excluem?

“Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (Jo 2, 13).
O episódio se passou no início da vida pública do Senhor, pouco depois de seu primeiro milagre em Caná da Galiléia.
Pela Lei, os israelitas de todas as nações eram obrigados a se dirigir ao Templo por ocasião da Páscoa, o que levava uma grande multidão a se concentrar na Cidade Santa. Para lá seguiu também o Divino Mestre, sempre cioso em dar o exemplo de perfeita obediência à Lei, embora a ela não estivesse submetido.
Deplorável situação do Templo
Ao chegar ao Templo, Jesus deparou-se com um quadro desolador. Não constituiu uma surpresa para Ele o estado de desordem e profanação instalado na Casa de seu Pai. Havia muito que nela se praticavam abusos, e não era por falta de uma legislação clara. Na verdade, existiam proibições formais sobre o uso indevido do edifício sagrado, como, por exemplo, não poder-se atravessar o Templo para encurtar o caminho, usando-o como simples atalho.
As piores transgressões, porém, eram resultado do espírito de ganância. Recordemos as “justificativas” para a situação. Segundo as determinações mosaicas (Lv 5, 7; 15, 14-29; 17, 3; etc.), por ocasião da Páscoa, além dos sacrifícios votivos, os pobres deveriam ofertar uma pomba e os ricos, um boi ou uma ovelha. Ademais, todo judeu maior de 20 anos devia pagar anualmente meio siclo (Ne 10, 33-35; Mt 17, 23 e 24), na moeda em uso no Templo (Ex 30,13). Ora, a grande maioria dos peregrinos chegava de boa distância, sendo-lhes, portanto, muito incômodo transportar na viagem as oferendas, e por isso preferiam comprá-las em Jerusalém. Lucrando não pouco com esse comércio, os sacerdotes o permitiram, baseados em razões práticas.
“Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas” (Jo 2, 14).
Ocupando o pátio do Templo, aqueles variados rebanhos misturavam a cacofonia de seus mugidos e balidos às discussões, vozerio e gritaria dos comerciantes e fregueses. Eis, em síntese, a triste cena presenciada por Jesus ao entrar na Casa de Deus, convertida, assim, em um verdadeiro mercado oriental.
Divino açoite
“Fez ele um chicote de cordas” (Jo 2, 15).
O Homem-Deus — Aquele a cuja voz os mares e os ventos obedeceriam, pela qual a lepra, a cegueira, a surdez, a paralisia desapareceriam; Aquele que com o brado: “Lázaro, saia fora!”, ressuscitaria um morto de quatro dias; Aquele que veio nos trazer a Vida — põe-se a tecer um chicote de cordas.
Um simples ato de sua vontade onipotente seria suficiente para aniquilar todas aquelas criaturas: homens, animais e dinheiro. Por que desejou Ele empunhar um látego?
Como somos compostos de corpo e alma, não nos bastam as abstrações do raciocínio. Nossos sentidos corporais pedem figuras palpáveis, que nos auxiliem a compreender a verdade de modo profundo. Temos necessidade das asas dos símbolos para voar até Deus.
Um chicote saído das mãos de Jesus!
Na sua vida pública — recém-iniciada —, quantas vezes não dirá Ele aos pecadores arrependidos: “Vai, teus pecados estão perdoados!” Sua misericórdia constituirá um enorme escândalo para os fariseus.
Mas agora, aquelas divinas mãos sedentas de abençoar, curar, perdoar e salvar teceram um flagelo... para castigar os infratores da Lei.
Movido por um zelo ardente
“... expulsou todos do templo” (Jo 2, 15).
A ação de Jesus com o açoite em punho se inseria entre outras atitudes motivadas por seu zelo ardente pela santidade da Casa de Deus. Por um trecho de São Marcos, podemos ver a preocupação do Senhor em conservar, até nas minúcias, a sacralidade daquele lugar santo: “Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo” (Mc 11, 16). Este versículo é prova cabal de que a dramática expulsão dos vendilhões não foi uma atitude intempestiva. Reforçando esta idéia, o evangelista acrescenta: “[Jesus] ensinava-lhes nestes termos: ‘Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações’ (Is 56, 7)? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões” (Mc 11, 17).
Quem ama, corrige e castiga
Não bastaria o mero ensinamento para inculcar nas mentes a maneira digna de se portar no Templo? Ainda mais se levarmos em consideração que o Mestre era o próprio Deus? Por que aplicar uma correção tão forte?
São perguntas que facilmente surgem devido ao definhamento, na sociedade atual, da noção de um prêmio e de um castigo por nossa conduta moral. Como lamentável conseqüência disso, vem se esvaecendo a compreensão dos benefícios da correção. Sim, lamentável, como se pode deduzir desta afirmação do livro dos Provérbios: “Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura” (5, 23).
Quanto se prega hoje em dia contra a disciplina, a ponto de se deformar o verdadeiro conceito de liberdade! Uma concepção errada, baseada nas idéias de Rousseau — de que todo homem é bom, e por isso deve ser deixado entregue à sua natureza — penetrou em muitos ambientes, inculcando uma máxima que poderia ser expressa assim: “Todo homem é bom, a correção é que o torna mau.”
Entretanto, o ensinamento da Escritura não deixa margem a dúvida. Os autores sagrados discordam desse ponto de vista tão comum em nossos dias, como por exemplo, nesta passagem: “A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará” (Pv 22, 15). E mais adiante: “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá, castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos” (Pv 29, 13-14). E ainda: “Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho, mas o que o ama, corrige-o continuamente” (Pv 13, 24).
Essas palavras talvez sejam duras para os ouvidos de hoje, todavia foram inspiradas pelo próprio Espírito Santo e devem ser recebidas com amor.
Mas, e a bondade?
A bondade do Homem-Deus é infinita, e portanto inesgotável. Mas Jesus não é exclusivamente Bondade. Ele é também Justiça. Apesar de serem extremos opostos, castigo e bondade constituem contrários harmônicos. Por esse motivo, numa educação sábia e virtuosa, assim como jamais podem faltar a bondade, o afeto, a misericórdia, também não pode ser desprezada a disciplina: “A vara e a correção dão sabedoria; o menino, porém, abandonado à sua vontade é a vergonha de sua mãe” (Pv 29, 15). Nesta matéria tão delicada, nota-se uma perfeita continuidade entre o ensinamento moral do Antigo e o do Novo Testamento.
Benéficos efeitos da correção
O Apóstolo, ele próprio objeto de uma repreensão e castigo do Senhor, após ter sido derrubado do cavalo e ter ouvido uma voz de timbre a um tempo ameaçador e bondoso, inquirindo-o por sua injusta perseguição, não tardou em exclamar: “Senhor, o que queres que eu faça?” Converteu-se no mesmo ato. Foi ele quem anos mais tarde escreveria aos hebreus estas belas palavras: “Estais esquecidos da palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3, 11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de paz. Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos (Is 35, 3). Dirigi os vossos passos pelo caminho certo. Os que claudicam tornem ao bom caminho e não se desviem” (Hb 12, 5-13).
Torna-se assim evidente quanto o castigo nos auxilia a crescer no temor a Deus, que é o princípio da Sabedoria (Sl 110, 10), faz-nos abençoados por Deus (Sl 113, 13), torna ouvidas nossas orações e assegura nossa salvação (Sl 144, 19).
“Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68, 10)” (Jo 2, 17). Este é um dos efeitos do castigo sobre os bons: produz uma admiração amorosa e faz desabrochar a estima pela Sabedoria.
Os maus detestam ser corrigidos
Mas fixemos agora nossa atenção na atitude dos maus.
“Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?” (Jo 2, 18).
O homem mau não aceita a correção, porque não ama a lei de Deus. Ao contrário do homem sábio, que ama quem o repreende (Pv 9, 9), eles detestavam a correção, por não buscarem a Sabedoria; sentiam horror ao castigo, por não quererem emendar-se de suas faltas.
 “Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias” (Jo 2, 19).
 Jesus não põe em dúvida o direito de os sacerdotes exigirem uma prova de sua autoridade. Por ser a Sabedoria Eterna, aceitou o desafio, fazendo-lhes uma proposta enigmática. Eles, interpretando-a literalmente, como se Jesus estivesse se referindo ao edifício material, responderam ironicamente: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!” Mas o evangelista acrescenta: Jesus se referia ao “templo de seu corpo”, santuário vivo da divindade, que Ele ressuscitaria três dias após a crucifixão no Calvário. Jesus costumava exprimir-se assim, de modo velado, quando se encontrava diante de um público hostil.
Como reagiu Jerusalém em face de Jesus
“Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia” (Jo 2 ,23).
Esse trecho do Evangelho nos coloca em alerta contra um defeito muito perigoso. Nosso Senhor, enquanto a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, discerne o mais íntimo de suas criaturas desde toda a eternidade. Assim, sabe Ele avaliar tanto a devoção desinteressada de uma alma nobre quanto a sanha apropriativa daqueles que se entregam aos pendores do pecado original: “Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2, 24-25).
O Divino Mestre, penetrando naqueles corações, notava que apenas queriam d’Ele se servir. Sim, não é suficiente impressionar-nos com milagres e, por isso, crer no nome de Jesus. Nosso Redentor deseja de nós um amor feito de reciprocidade. “A fé sem as obras é morta”, diz São Tiago (2, 26). Diante do Homem-Deus é necessário deixar-se arrebatar de enlevo e veneração, entregar a alma sem obstáculos nem reservas, e pautar a própria vida por seus ensinamentos.
                                                                                                                                                                                      
Duas lições podem ser tiradas do Evangelho narrado por São João. Ele nos exorta a extrair de nossos corações o pragmatismo, o egoísmo de querermos nos servir de Jesus, das graças e da Religião apenas para nosso proveito pessoal, crendo em seu nome, mas não mudando de vida e de costumes. É correto conservarmos nossa maneira de viver e nossos costumes, desde que não sejam ilícitos. Indispensável é, porém, ter a alma enlevada e submissa à Moral e Religião ensinadas por Nosso Senhor, adorando-O em todos os aspectos de suas virtudes. Entusiasmados por sua Misericórdia e também por sua Justiça, como Jesus mostrou no episódio dos vendilhões do Templo. Ele quer ser adorado por nós e adorado na sua totalidade.

 Elejamos Maria — insuperável modelo desse amor a Jesus na sua integridade — como nossa mestra e guia da entrega sem limites que devemos fazer a Ele, adorando-O na harmonia de suas virtudes aparentemente contraditórias.