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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B - Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Comentário ao Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B
Naquele tempo, 1 os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus. 2 Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado. 3 Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 4 Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre. 5 Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” 6 Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo Me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim. 7 De nada adianta o culto que Me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8 Vós abandonais o Mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. 14 Em seguida, Jesus chamou a multidão para perto de Si e disse: “Escutai todos e compreendei: 15 o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. 21 Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, 22 adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. 23 Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (Mc 7, 1-8.14-15.21-23).
 Onde está o meu coração?
Face à hipocrisia farisaica, o Divino Mestre demonstra que o homem não se define pelas exterioridades, mas sim pelas intenções do coração.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Qual o comportamento à altura da vida divina?
Todos nós nascemos em pecado, como inimigos de Deus e objeto de sua ira (cf. Ef 2, 3), mas, chamados a obter a posse da visão beatífica, fomos — ao lado dos Anjos — elevados à vida divina. Vida tão superior à simplesmente natural, que a graça — pela qual dela participamos — pertence ao sexto plano da criação, muito acima dos minerais, dos vegetais, dos animais, dos homens e até mesmo dos Anjos. É o próprio Deus quem toma a iniciativa de introduzi-la em nós pelo milagre extraordinário do Batismo que nos faz filhos d’Ele. Quando o sacerdote derrama água sobre a nossa cabeça e diz “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”, deixamos de ser meros animais racionais para nos tornarmos entes divinos, com as virtudes da fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza, temperança, e todos os dons do Espírito Santo infundidos na alma.
Na Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum encontramos estímulos, convites e esclarecimentos a respeito desta vida, para podermos merecer chegar à sua plenitude, ao passar do tempo à eternidade.
A vida sobrenatural: dom do “Pai das luzes”
Na segunda leitura (Tg 1, 17-18.21b-22.27) insiste São Tiago: “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes” (1, 17a). Não há dádiva mais perfeita do que esta vida sobrenatural! Três são as criaturas que têm “até certo ponto infinita dignidade”,1 pois Deus não podia fazê-las mais excelentes: Jesus Cristo Homem, Maria Santíssima e a visão beatífica; e esta última já a possuímos em germe, neste mundo, através da graça.
O “Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1, 17b) porque é o Ser Absoluto, “de livre vontade nos gerou pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas” (Tg 1, 18). Sim, Ele nos gerou para a vida divina através do seu Verbo, que Se encarnou para que todos tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Por isso nos cabe receber com humildade a Palavra de Deus, que é capaz de salvar nossas almas (cf. Tg 1, 21b).

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B - Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Conclusão dos comentários ao Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B
O espírito do mundo
6 Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo Me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim. 7 De nada adianta o culto que Me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8 Vós abandonais o Mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”.
A resposta de Jesus não significa uma reprovação à praxe de lavar as mãos antes de comer. Isto também nós o fazemos hoje, por higiene, sem nos atermos a uma lei temporal que nos imponha modos de ser mundanos. Se, contudo, houvesse um decreto para assim proceder por amor a Deus, ele seria legítimo.
Aqueles que amam o mundo — como os fariseus — são levados a dar mais atenção aos princípios do convívio social do que à Lei de Deus, porque, na prática, vivem como se Deus não existisse. E, por vezes, certas leis humanas, contrárias à Lei divina, as observam com uma precisão absoluta. Para estas pessoas o fim último da vida se cumpre aqui na Terra e, no fim, a paga que recebem se reduz ao conceito que os demais fizeram a seu respeito.
Nós precisamos cuidar, em nosso cotidiano, de não dar mais importância à opinião dos outros do que à de Deus. Importa-nos, acima de tudo, seu juízo sobre nós! Imensamente séria é sua Lei e transgredi-la acarreta consequências terríveis. Quando alguém infringe uma lei de trânsito é penalizado com uma multa; mas se por infelicidade violar um Mandamento divino, pode ver as portas do Céu se fecharem diante de si e ir para o inferno por toda a eternidade!
O horrível defeito da hipocrisia

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B - Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Continuação dos comentários ao Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B
II – Divinizaram as leis humanas, e humanizaram as leis divinas
Naquele tempo, 1 os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus.
O Evangelista São Marcos é muito positivo, afirmativo e categórico. Enquanto discípulo de São Pedro, e acompanhando-o amiúde, podia comprovar a maldade dos fariseus que, aliás, já conhecia de sobra, porque também ele era judeu. Por isso empenhou-se em transcrever as discussões de Jesus com eles, quer lhe tivessem sido contadas por São Pedro, quer as houvesse testemunhado. Na cena recolhida pela Liturgia de hoje, ele narra como os escribas e fariseus de Jerusalém — ou seja, aqueles que mais frequentavam o Templo — foram até Nosso Senhor. Não era para se encantarem com Ele que O seguiam; vinham com o objetivo de estudar suas ações e encontrar alguma falha pela qual pudessem condená-Lo.
Tradições humanas que desviavam da Lei de Deus
2 Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado. 3 Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 4 Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre.

domingo, 23 de agosto de 2015

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B - Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Comentário ao Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B
Naquele tempo, 1 os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus. 2 Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado. 3 Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 
4 Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre. 5 Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” 
6 Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo Me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim. 7 De nada adianta o culto que Me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8 Vós abandonais o Mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. 
14 Em seguida, Jesus chamou a multidão para perto de Si e disse: “Escutai todos e compreendei: 15 o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. 21 Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, 22 adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. 23 Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (Mc 7, 1-8.14-15.21-23).
Onde está o meu coração?
Face à hipocrisia farisaica, o Divino Mestre demonstra que o homem não se define pelas exterioridades, mas sim pelas intenções do coração.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Qual o comportamento à altura da vida divina?
Todos nós nascemos em pecado, como inimigos de Deus e objeto de sua ira (cf. Ef 2, 3), mas, chamados a obter a posse da visão beatífica, fomos — ao lado dos Anjos — elevados à vida divina. Vida tão superior à simplesmente natural, que a graça — pela qual dela participamos — pertence ao sexto plano da criação, muito acima dos minerais, dos vegetais, dos animais, dos homens e até mesmo dos Anjos. É o próprio Deus quem toma a iniciativa de introduzi-la em nós pelo milagre extraordinário do Batismo que nos faz filhos d’Ele. Quando o sacerdote derrama água sobre a nossa cabeça e diz “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”, deixamos de ser meros animais racionais para nos tornarmos entes divinos, com as virtudes da fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza, temperança, e todos os dons do Espírito Santo infundidos na alma.
Na Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum encontramos estímulos, convites e esclarecimentos a respeito desta vida, para podermos merecer chegar à sua plenitude, ao passar do tempo à eternidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ódio dos fariseus contra o Divino Mestre

O demônio, ente de natureza angélica, foi criado por Deus na verdade. Nesta ele se conduzia em seu estado de prova, que consistia em restituir ao Criador o ser, os dons e as qualidades d’Ele recebidos, prestando- Lhe um justo culto de latria. Foi exactamente o caminho que, a certa altura, esse anjo de luz resolveu abandonar por livre vontade, penetrando nas trevas da morte, do pecado e da mentira. Foi ele o primeiro a abrir o passo na ruptura com a ordem do universo e, sobretudo, com o próprio Deus, liderando a oposição contra o Supremo Legislador. Revoltou-se e rejeitou o convite a ser luz em Deus, para ser mentira em si mesmo; por pura presunção, quis ser deus por si próprio, deixando de sê-lo por participação; preferiu a adoração de sua natureza tirada do nada, para assim obter o eterno desprezo de Deus.
Esse é o diabo! E os fariseus são seus filhos, segundo a voz infalível do Divino Mestre.
Antagonismo entre Jesus e os fariseus
Os Evangelhos se encontram embebidos de ponta a ponta de uma radical oposição entre Jesus e os fariseus. Esse antagonismo tem seu início já com o Precursor, tão procurado pelos judeus por sua fama de santidade e de profetismo. Assim tratou João Batista os fariseus (como também os saduceus), antes mesmo do aparecimento do Messias: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir à ira que vos ameaça? Não vos justifiqueis interiormente, dizendo: Temos Abraão por pai!” (Mt 3, 7.9).
De sua parte, o próprio Jesus — ao declarar os parâmetros, doutrinas e metas apostólicas da ação a ser por Ele desenvolvida — tornou patente a impossibilidade de uma aproximação ou harmonia com os fariseus. O sermão das bem-aventuranças coloca em equilíbrio claro e definido os princípios ético-morais adotados por Jesus, em sua maioria em contraposição aos dos fariseus. Seria ingenuidade imaginarmos ter sido a inveja a causa do ódio deicida dos fariseus contra nosso Redentor. Bem poderá ter concorrido, como um dos componentes da sanha demolidora, esse vício capital, mas a dissensão teve como base duas concepções diferentes, e até excludentes, de caráter religioso-político.
Ególatras e aproveitadores, os fariseus rejeitam a Deus
Os fariseus haviam reduzido a religião a uma escrupulosa observância de micro-preceitos, em detrimento da prática da verdadeira Lei: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezais os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade! (...) Guias cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo!” (Mt 23, 23-24). E isso se dava, entre outras razões, devido à grande presunção na qual estavam submersos, como é fácil de notar na parábola do fariseu e do publicano, elaborada pelo Divino Mestre a respeito de “uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (cf. Lc 18, 9-14). A eles não era alheia tampouco a avareza. Para fazermos uma ideia aproximada desse fundo de maldade, basta relembrarmos a parábola do administrador infiel, ao fim da qual relata-nos o Evangelista: “Ora, os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam todas estas coisas e troçavam d’Ele. Jesus disse-lhes: ‘Vós sois aqueles que pretendeis passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; o que é excelente segundo os homens é abominação diante de Deus’” (Lc 16, 14-15). Por terem se constituído como centro de suas próprias preocupações, por serem ególatras e, portanto, por terem dado as costas a Deus, abusavam dos poderes espirituais, deles se aproveitando para entesourar bens materiais.
Essa rejeição a Deus, que é tão recriminada por Jesus, constitui um dos grandes pecados dos fariseus: “Sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai, e vós não Me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, recebê-lo-eis” (Jo 5, 42-43). E por não praticarem o amor a Deus, também não o praticam em relação ao próximo: “Se vós soubésseis o que quer dizer: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’, jamais condenaríeis inocentes” (Mt 12, 7). Mais ainda transparece essa carência de bondade dos fariseus na parábola do bom samaritano, na qual o levita e o sacerdote são condenados pela falta de misericórdia com seu irmão, enquanto o samaritano foi apontado como modelo a seguir: “Vai e faze o mesmo” (Lc 10, 30-37).
Invectivas de Jesus
As discussões de Jesus com os fariseus foram se tornando cada vez mais tensas e increpantes. Ao longo delas, Ele os desqualificava de forma violenta, chamando-os de filhos do diabo e imitadores de seu pai, homicidas e ladrões, víboras, e várias vezes de hipócritas. Sobre este último qualificativo, e mais especificamente a respeito das recriminações transcritas no capítulo 23 de Mateus, alguns exegetas chegam a classificá-lo como o sermão das oito maldições, em contraposição ao das oito bem-aventuranças. Segundo esses exegetas, com um sermão Mateus abre, no seu Evangelho, a narração da vida pública de Jesus, e com o outro o encerra.
A cada passo, Jesus os vai colocando em contradição com eles mesmos a propósito de suas atitudes e doutrinas. Aliás, sempre que Deus deixa de constituir o centro das preocupações, pensamentos e ações de alguém, ou de um grupo social, pouco tardará para surgirem as contradições, pois quando falha a premissa maior, comprometida está a substância do silogismo. Seria por demais extenso recordar os triunfos de Jesus sobre os fariseus, um a um. É suficiente trazer à tona o caso da cura de um hidrópico em dia de sábado, na residência de um fariseu. Nosso Senhor os invectiva: “Qual de vós, se o seu filho ou seu boi cair num poço, não o tirará imediatamente ainda que seja em dia de sábado?” (Lc 14, 5).
Essas atitudes tão categóricas e peremptórias de Jesus contra os fariseus têm inteiro fundamento, pois eram eles verdadeiros lobos revestidos de pastores. Não se cansavam de caluniar o Divino Mestre, devotando-Lhe uma forte antipatia. Acusavam-nO de estar possuído pelo demônio, de se deixar envolver por pessoas de má vida, de quebrar a lei do sábado, etc. Ademais, não poupavam esforços para deturpar os fatos e as palavras proferidas pelo Divino Mestre, como, por exemplo, no caso da expulsão do demónio que tornava surdo e mudo um pobre homem. Caluniavam-nO, afirmando que o exorcizara e o curara em virtude do poder de Belzebu.
Fúria dos fariseus
Essa oposição, sorrateira a princípio, foi paulatinamente se tornando cada vez mais patente, categórica e pública, a ponto de produzir uma cisão na opinião geral do povo judeu. Por um lado, a maioria se perguntava se de fato não era Jesus o Messias, julgando impossível alguém ser capaz de realizar mais milagres do que Ele. Por outra parte, esse crescente murmúrio levou os fariseus a apoiarem os príncipes dos sacerdotes quando estes decretaram a prisão do Salvador. Entretanto, os próprios guardas afirmavam: “Nunca homem algum falou como este homem “, e não quiseram prendê-lO (Jo 7,46).
Se o ódio dos fariseus contra Jesus se manifesta tão radical no fim do capítulo sétimo do Evangelho de São João, o término do oitavo é ainda mais carregado: “Então pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas Jesus ocultou-Se e saiu do templo” (Jo 8, 59). No capítulo seguinte, depois da cura de um cego, os fariseus enfurecidos lançam este último fora da sinagoga, aos insultos, acusando-o de ser discípulo de Jesus. O capítulo 10 nos relata uma nova tentativa frustrada de prender o Divino Mestre. O auge dessa cólera se verifica após a ressurreição de Lázaro: “Desde aquele dia tomaram a resolução de O matar” (Jo 11, 53)
Dir-se-ia que, ao crucificarem Jesus, estariam satisfeitos. Esse não foi o resultado. Príncipes dos sacerdotes e fariseus exigiram de Pilatos uma vigilância cerrada junto ao túmulo, a fim de que fosse evitado o roubo do corpo de Jesus, e em seguida selaram a pedra do sepulcro, deixando ali dois guardas.
Em seus traços gerais, esta é a realidade do ódio dos fariseus contra o Divino Mestre.

domingo, 22 de maio de 2011

DAR A CÉSAR, OU DAR A DEUS?

O homem foi criado por Deus para viver em sociedade, sob duas autoridades: a temporal e a espiritual. Qual deve ser sua atitude ante uma e outra?
Não há situação estática na vida moral
Nossa vida moral se encontra sempre em movimento. Em outras palavras, na escala de valores entre o extremo do bem e o extremo do mal, ninguém fica parado num grau determinado. Todos estamos de algum modo caminhando, ainda que muito devagar e imperceptivelmente, em direção a um dos pólos, ou embaraçados num vaivém contínuo. Há, também, acelerações para uma direção ou outra, resultantes de um grande ato de virtude ou de um gravíssimo pecado. Nessa escala, portanto, o movimento é constante, como acentuam inúmeros teólogos.
Ora, diante do Filho do Homem, esse fenômeno passou-se de forma intensa no coração de todos os que tiveram a graça de O conhecer, e, mais ainda, de com Ele conviver. Maria Santíssima não fez senão ascender a cada instante na sua já tão alta união com Deus. Em contrapartida, os adversários de Jesus cresceram de modo contínuo no ódio a Ele.

Os fariseus chegaram a um grande grau de indignação ao ouvir dos lábios do Divino Mestre parábolas ao mesmo tempo severíssimas e de clara aplicação a eles, como a dos vinhateiros homicidas, e a da festa de núpcias, como conta o Evangelho:
“Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava. E procuravam prendê-lo; mas temeram o povo, que o tinha por um profeta” (Mt 21, 45-46).
Foi essa a circunstância que os levou a se reunirem urgentemente em conselho. Esse mesmo episódio é mencionado em outros termos por São Marcos (Mc. 12, 12-13).
Tanto pela narração de um, quanto pela do outro evangelista, fica patente o dilema no qual se encontravam os fariseus. De um lado, desejavam prender Jesus para matá-Lo. De outro lado, era lhes impossível agir neste sentido, pois os milagres, as palavras e a própria figura do Divino Mestre arrebatavam o povo, que não O abandonava um instante sequer. Como realizar esse horroroso crime contra alguém constantemente rodeado de fiéis? Agarrá-Lo na calada da noite, de forma inesperada, seria o ideal, mas impossível também, uma vez que o Redentor jamais lhes dava a oportunidade de saber onde Ele estaria após o cair do sol.
Uma cilada para Nosso Senhor
Desse modo, não havia para eles outra alternativa senão armar uma cilada ao Divino Mestre, tentando desacreditá-Lo diante da opinião pública. Abandonado por seus seguidores, Ele se tornaria uma presa fácil. Melhor ainda se conseguissem arrancar d’Ele uma afirmação de rebeldia contra o poder romano...
Longe ia o tempo em que o povo judeu dependia da proteção dos romanos para fazer face aos adversários. Desaparecido o perigo, tornava-se difícil compreender as vantagens do pagamento de um tributo ao Imperador.
Precisamente naquela época acentuava-se entre os judeus o cansaço por se encontrarem, havia séculos, dependentes do poder estrangeiro, ao que se somava uma ânsia pela vinda de um Messias, considerado como o instaurador do poder israelita sobre todas as nações. As conversas e debates sobre tais questões, fortemente entrelaçadas com outras, de ordem moral, estavam na ordem do dia em todos os rincões de Israel.
O modo de ação do mal
Nesse episódio, merece igualmente nossa atenção a maneira de agirem os maus.
Quando deseja armar ciladas aos bons, o mal, antes de apresentar-se de forma declarada, costuma preparar sua ação por um longo processo. Assim agiram os fariseus com Nosso Senhor. Inicialmente usaram a astúcia da serpente para, depois, se insurgir contra Ele de forma pública e agressiva. Aqui vemo-los no decurso da primeira operação, desejando surpreender Jesus em flagrante, a fim de lançarem contra Ele a opinião pública.
Em nossa própria vida privada, quantas e quantas vezes da mesma maneira não somos nós surpreendidos pelo mesmo método farisaico, utilizado pelo mal para perseguir os que se esforçam em seguir os passos de Jesus? Imitemos a sabedoria do Divino Mestre, não nos deixemos surpreender...
A respeito das tais táticas farisaicas, consta mais este detalhe no Evangelho: “Enviaram seus discípulos com os herodianos...” (v. 16).
É outra demonstração de sua maldosa astúcia: escolheram alguns jovens, alunos de escolas rabínicas, para causar a impressão de autenticidade, como se tivessem real interesse em aprender. E os instruíram a se aproximar do Divino Mestre com demonstrações de respeito.
Mesmo quando estão em campos opostos, é incrível a capacidade dos maus de se unirem contra o Bem. Os fariseus anelavam a independência e supremacia de Israel, e odiavam os romanos; os herodianos apoiavam a família de Herodes, que recebeu seu poder dos romanos.
 Assim, embora encarniçados adversários, fariseus e herodianos encontram-se irmanados neste episódio, em busca de um fim comum: o deicídio.
Da astúcia da serpente faz parte a adulação insidiosa: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens”.
Com tais palavras, os fariseus condenam-se eles mesmos. Com efeito, não eram sinceros e viviam preocupados com a opinião alheia a respeito de si próprios, só cuidando das aparências.
“Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?”
Se Jesus optasse pela obrigação moral de pagar o imposto exigido pelos romanos, prontas já estavam as tubas dos adversários para sublevar os israelitas contra Ele, pois não era admissível um Messias que se manifestasse a favor da submissão ao estrangeiro gentio. De outro lado, se Jesus negasse a liceidade do tributo, seria denunciado às autoridades romanas, que por certo o condenariam à morte.
Aqui fica claro o papel dos herodianos nesse episódio. “Como adeptos do governo de Roma, seriam acusadores e testemunhas, se a resposta de Jesus lhes parecesse contrária aos interesses do Império”, comenta Fillion.
Jesus inverte os papéis
Na seqüência do episódio evangélico, Nosso Senhor quiçá haja surpreendido seus adversários pela veemência da resposta:
“Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas?”.
Que grande diferença entre os métodos empregados respectivamente pelo mal e pelo bem! Os fariseus adulam para perder, Jesus increpa para salvar.
Não podiam os fariseus se queixar por receberem essa severa recriminação. Jesus, a Sabedoria Eterna e Encarnada, respondia em primeiro lugar à intenção oculta deles: tentar com hipocrisia. “Não lhes responde suavemente”, comenta São João Crisóstomo, “de acordo com as palavras pacíficas que Lhe haviam dirigido, mas com aspereza, segundo suas más intenções; porque Deus responde aos pensamentos e não às palavras” (apud Catena Aurea). E os desmascarava diante do público. Jesus continuou:
“Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário”.
Os romanos permitiam que moedas de cobre fossem cunhadas pelas autoridades do povo local. Nelas eram impressas figuras tiradas dos reinos vegetal e animal. O denário, entretanto, moeda de prata para uso em todo o Império, era monopólio de Roma. Com ele se pagava o imposto e tinha gravada a efígie do imperador, cingida de uma coroa de louros, com esta inscrição: “Tibério César, sublime filho do divino Augusto”.
Ao fazer os fariseus lhe mostrarem uma dessas moedas, Jesus acabava de inverter os papéis. Deixava evidente que, embora em teoria rejeitassem o imperador como senhor do país, na prática o aceitavam, utilizando-se de seu dinheiro. Eles, de seu lado, perceberam para onde caminharia a resposta. Contudo, em sua maldade e cegueira, iludiam-se, esperando ainda uma possível falha de Nosso Senhor. Podemos imaginar a atmosfera de suspense formada nesse instante:
“Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição?”.
Método de suprema sabedoria em responder: obrigar o adversário a tirar a conclusão da própria afirmação que fez. Os inquiridos passaram a ser os fariseus:
“De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
Eis a resposta que se gravou para sempre nos céus da História. Quem utilizava o dinheiro de César, que lhe pagasse o imposto devido, ainda mais tendo em vista os benefícios proporcionados à Palestina pela administração romana.
Em se tratando de uma nação essencialmente teocrática, como era a judaica, compreende-se a perplexidade na qual muitos podiam se encontrar. Porém, havia uma situação de fato da qual não se podia prescindir.
O ensinamento de Jesus sobre a harmonia entre a ordem espiritual e a temporal
As coisas de Deus e as coisas da terra não devem ser antagônicas. Pelo contrário, entre elas deve haver colaboração. Na harmonia entre ambas as esferas, a temporal e a espiritual, está o segredo do progresso. E a História nos mostra que nada pode haver de mais excelente do que seguir o conselho de Nosso Senhor: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Lc 12, 31).
Seja dito de passagem, nessa conjugação e colaboração entre o espiritual e o temporal é que, segundo o seu carisma, esforçam-se os Arautos do Evangelho: em atuar procurando a “consecratio mundi”, a sacralização da ordem temporal, enquanto leigos, e sendo filhos amorosos da Igreja, fiéis ao Papa, como instrumentos da Nova Evangelização.
Harmonia dentro de nós
Pode-se dizer que há uma espécie de convívio entre as duas esferas dentro do homem, uma vez que temos para conosco deveres referentes à nossa vida espiritual e às necessidades de nosso corpo. A tal respeito, comenta São Tomás de Aquino na Catena Aurea:
“Também podemos entender essa passagem [do Evangelho] no sentido moral, porque devemos dar ao corpo algumas coisas, como o tributo a César, isto é, o necessário; mas tudo o que corresponde à natureza das almas, isto é, o que se refere à virtude, devemos oferecer ao Senhor. Os que ensinam a lei de modo exagerado e ordenam que não cuidemos em absoluto das coisas devidas ao corpo .... são fariseus, que proíbem pagar o tributo a César; e os que dizem que devemos conceder ao corpo mais do que devemos, são herodianos. Nosso Salvador quer que a virtude não seja desprezada, quando prestamos atenção demasiada ao corpo; nem que seja oprimida a natureza, quando nos dedicamos com excesso à prática da virtude.”
 Concluamos, seguindo o conselho de Santo Agostinho: se nos preocupamos com as moedas nas quais está gravada a efígie de César, muito mais devemos nos preocupar com nossas almas, nas quais Deus gravou sua própria imagem. Se a perda de um bem terreno nos entristece, muito mais nos deve contristar o causar dano à nossa alma pelo pecado.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O fermento farisáico

Gostam de ter os primeiros lugares nos banquetes, e as primeiras  cadeiras nas sinagogas,
Jesus ama e deseja a existência de uma hierarquia, quer seja na esfera civil, quer na eclesiástica. Não é a ela, portanto, que Ele dirige sua crítica, mas sim ao gosto vaidoso e nada feito de amor a Deus em busca de boas posições. No fundo, condena o mundanismo, defeito característico daqueles que fazem consistir nos bens desta terra o fim último de suas próprias ações.

Novamente não condena Jesus as saudações públicas e nem sequer o título de “mestre”, mas tão-somente o vício de querer colocar-se no centro das atenções de todos. Jesus denunciava também a presunção no modo de rezar do fariseu, como na parábola narrada por Lucas (8), na qual o faz figurar ao lado do publicano.
Mas vós não vos façais chamar  rabis, porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos.
Um só Homem poderia dizer de si próprio: “Eu sou a Verdade”, porque só Ele é Deus. Todo outro que ensina, age por participação. Ora, os escribas e fariseus julgavam-se a fonte de toda verdade. Ademais, adoravam-se a si próprios, por se considerarem geradores de outros nas vias da perfeição, segundo o equivocado conceito de auto-estima de que estavam embebidos. Ora, nossa procedência sobrenatural é única; temos um só Pai e por isso somos todos irmãos. Daí continuar Jesus:
A ninguém chameis pai sobre a  terra, porque um só é o vosso Pai,  O que está nos Céus. 10 Nem façais  que vos chamem mestres, porque  um só é o vosso Mestre, Cristo. Quem entre vós for o maior, seja  vosso servo.
A essa virtude nos convida o Eclesiástico: “Quanto maior fores, mais te humilhes e encontrarás graça diante de Deus” (Eclo 3, 20). Os santos nos dão maravilhosos exemplos dessa virtude e por isso conseguem magistralmente aliar uma extraordinária humildade a seu extremo oposto, a magnanimidade. Seguem eles o conselho de Tiago: “Humilhai-vos na presença do Senhor, e Ele vos exaltará” (Tg 4, 10)
Por isso comentam os santos Doutores que Jesus, nessa passagem, não só anatematiza o desejo egoísta de ocupar os primeiros postos, mas incentiva a se buscarem os últimos lugares. E assim se exprime São Remígio a este propósito: “Todo aquele que se exalta por seus próprios méritos, será humilhado diante de Deus; mas o que se exalta em virtude dos benefícios recebidos de Deus, será exaltado diante d’Ele” (9). Tal qual diz o último versículo do Evangelho de hoje:
Aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será  exaltado.
Exemplo nesse particular, insuperável, é o próprio Cristo, que de Si mesmo pôde afirmar: “Eu não procuro a minha glória” (Jo 8, 50). “Se Eu Me glorifico a Mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é que Me glorifica, Aquele que vós dizeis que é vosso Deus” (Jo 8, 54).
O farisaísmo: mal de todas as eras
O início do capítulo 23 de São Mateus é um mero preâmbulo da grande e grave condenação que se estende pelos versículos subseqüentes. Para quem não viveu aqueles dias, uma interrogação se levanta: por que tanta incompatibilidade entre Jesus e os fariseus? Além do mais, chama fortemente a atenção o fato de terem os Evangelistas dedicado bons trechos de suas narrações a essa contenda, apesar de a síntese ser o costume da escrita de então. Sabemos por experiência e pela História que um partido político-religioso é fadado a desaparecer com o tempo; portanto, o farisaísmo tinha seus dias contados. Por isso, mais ainda se acentua a pergunta: por que essa implacabilidade de ambas as partes?
Basta-nos afirmar, por ora, que o farisaísmo é um mal de todas as eras. Jesus, o Divino Profeta, discerniu quanto seria funesta a presença atuante e dinâmica do fermento farisaico junto aos seus fiéis batizados. Falemos em “fermento” porque, embora o fariseu clássico de há dois mil anos não mais exista, Jesus nos aconselha: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” (Mt 16,6). Disse isto dirigindo-se aos Apóstolos, para preveni-los do risco desse perigoso contágio.
Em se tratando de um mal de todas as eras, surge uma outra pergunta: como caracterizar o fermento farisaico em nossos dias? Haverá atualmente católicos que demonstram uma acurada e escrupulosa consciência a propósito de um determinado Mandamento e, de outra parte, um grande relativismo em matérias mais graves? Haverá ainda hoje aqueles que facilmente se escandalizam com banalidades e logo emitem um juízo temerário e malicioso, descuidando-se “da justiça, da misericórdia e da fidelidade”? (Mt 23, 23) Haverá os que manifestam desprezo pelos outros, como se fossem piores do que eles próprios? Haverá o mesmo mundanismo de outrora, tão vituperado pelo Divino Mestre?
Quantas outras perguntas poderíamos fazer para melhor analisar nossa atual quadra histórica e assim sabermos onde se concentra o fermento farisaico!
Em síntese, o farisaísmo poderia ser definido como a soma de todos os pecados, pois, assim como a santidade é a verdade e contém todas as virtudes, a mentira e o vazio farisaicos contêm todos os vícios, e a eles conduzem.




sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor e castigo se excluem?

“Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (Jo 2, 13).
O episódio se passou no início da vida pública do Senhor, pouco depois de seu primeiro milagre em Caná da Galiléia.
Pela Lei, os israelitas de todas as nações eram obrigados a se dirigir ao Templo por ocasião da Páscoa, o que levava uma grande multidão a se concentrar na Cidade Santa. Para lá seguiu também o Divino Mestre, sempre cioso em dar o exemplo de perfeita obediência à Lei, embora a ela não estivesse submetido.
Deplorável situação do Templo
Ao chegar ao Templo, Jesus deparou-se com um quadro desolador. Não constituiu uma surpresa para Ele o estado de desordem e profanação instalado na Casa de seu Pai. Havia muito que nela se praticavam abusos, e não era por falta de uma legislação clara. Na verdade, existiam proibições formais sobre o uso indevido do edifício sagrado, como, por exemplo, não poder-se atravessar o Templo para encurtar o caminho, usando-o como simples atalho.
As piores transgressões, porém, eram resultado do espírito de ganância. Recordemos as “justificativas” para a situação. Segundo as determinações mosaicas (Lv 5, 7; 15, 14-29; 17, 3; etc.), por ocasião da Páscoa, além dos sacrifícios votivos, os pobres deveriam ofertar uma pomba e os ricos, um boi ou uma ovelha. Ademais, todo judeu maior de 20 anos devia pagar anualmente meio siclo (Ne 10, 33-35; Mt 17, 23 e 24), na moeda em uso no Templo (Ex 30,13). Ora, a grande maioria dos peregrinos chegava de boa distância, sendo-lhes, portanto, muito incômodo transportar na viagem as oferendas, e por isso preferiam comprá-las em Jerusalém. Lucrando não pouco com esse comércio, os sacerdotes o permitiram, baseados em razões práticas.
“Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas” (Jo 2, 14).
Ocupando o pátio do Templo, aqueles variados rebanhos misturavam a cacofonia de seus mugidos e balidos às discussões, vozerio e gritaria dos comerciantes e fregueses. Eis, em síntese, a triste cena presenciada por Jesus ao entrar na Casa de Deus, convertida, assim, em um verdadeiro mercado oriental.
Divino açoite
“Fez ele um chicote de cordas” (Jo 2, 15).
O Homem-Deus — Aquele a cuja voz os mares e os ventos obedeceriam, pela qual a lepra, a cegueira, a surdez, a paralisia desapareceriam; Aquele que com o brado: “Lázaro, saia fora!”, ressuscitaria um morto de quatro dias; Aquele que veio nos trazer a Vida — põe-se a tecer um chicote de cordas.
Um simples ato de sua vontade onipotente seria suficiente para aniquilar todas aquelas criaturas: homens, animais e dinheiro. Por que desejou Ele empunhar um látego?
Como somos compostos de corpo e alma, não nos bastam as abstrações do raciocínio. Nossos sentidos corporais pedem figuras palpáveis, que nos auxiliem a compreender a verdade de modo profundo. Temos necessidade das asas dos símbolos para voar até Deus.
Um chicote saído das mãos de Jesus!
Na sua vida pública — recém-iniciada —, quantas vezes não dirá Ele aos pecadores arrependidos: “Vai, teus pecados estão perdoados!” Sua misericórdia constituirá um enorme escândalo para os fariseus.
Mas agora, aquelas divinas mãos sedentas de abençoar, curar, perdoar e salvar teceram um flagelo... para castigar os infratores da Lei.
Movido por um zelo ardente
“... expulsou todos do templo” (Jo 2, 15).
A ação de Jesus com o açoite em punho se inseria entre outras atitudes motivadas por seu zelo ardente pela santidade da Casa de Deus. Por um trecho de São Marcos, podemos ver a preocupação do Senhor em conservar, até nas minúcias, a sacralidade daquele lugar santo: “Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo” (Mc 11, 16). Este versículo é prova cabal de que a dramática expulsão dos vendilhões não foi uma atitude intempestiva. Reforçando esta idéia, o evangelista acrescenta: “[Jesus] ensinava-lhes nestes termos: ‘Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações’ (Is 56, 7)? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões” (Mc 11, 17).
Quem ama, corrige e castiga
Não bastaria o mero ensinamento para inculcar nas mentes a maneira digna de se portar no Templo? Ainda mais se levarmos em consideração que o Mestre era o próprio Deus? Por que aplicar uma correção tão forte?
São perguntas que facilmente surgem devido ao definhamento, na sociedade atual, da noção de um prêmio e de um castigo por nossa conduta moral. Como lamentável conseqüência disso, vem se esvaecendo a compreensão dos benefícios da correção. Sim, lamentável, como se pode deduzir desta afirmação do livro dos Provérbios: “Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura” (5, 23).
Quanto se prega hoje em dia contra a disciplina, a ponto de se deformar o verdadeiro conceito de liberdade! Uma concepção errada, baseada nas idéias de Rousseau — de que todo homem é bom, e por isso deve ser deixado entregue à sua natureza — penetrou em muitos ambientes, inculcando uma máxima que poderia ser expressa assim: “Todo homem é bom, a correção é que o torna mau.”
Entretanto, o ensinamento da Escritura não deixa margem a dúvida. Os autores sagrados discordam desse ponto de vista tão comum em nossos dias, como por exemplo, nesta passagem: “A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará” (Pv 22, 15). E mais adiante: “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá, castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos” (Pv 29, 13-14). E ainda: “Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho, mas o que o ama, corrige-o continuamente” (Pv 13, 24).
Essas palavras talvez sejam duras para os ouvidos de hoje, todavia foram inspiradas pelo próprio Espírito Santo e devem ser recebidas com amor.
Mas, e a bondade?
A bondade do Homem-Deus é infinita, e portanto inesgotável. Mas Jesus não é exclusivamente Bondade. Ele é também Justiça. Apesar de serem extremos opostos, castigo e bondade constituem contrários harmônicos. Por esse motivo, numa educação sábia e virtuosa, assim como jamais podem faltar a bondade, o afeto, a misericórdia, também não pode ser desprezada a disciplina: “A vara e a correção dão sabedoria; o menino, porém, abandonado à sua vontade é a vergonha de sua mãe” (Pv 29, 15). Nesta matéria tão delicada, nota-se uma perfeita continuidade entre o ensinamento moral do Antigo e o do Novo Testamento.
Benéficos efeitos da correção
O Apóstolo, ele próprio objeto de uma repreensão e castigo do Senhor, após ter sido derrubado do cavalo e ter ouvido uma voz de timbre a um tempo ameaçador e bondoso, inquirindo-o por sua injusta perseguição, não tardou em exclamar: “Senhor, o que queres que eu faça?” Converteu-se no mesmo ato. Foi ele quem anos mais tarde escreveria aos hebreus estas belas palavras: “Estais esquecidos da palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3, 11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de paz. Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos (Is 35, 3). Dirigi os vossos passos pelo caminho certo. Os que claudicam tornem ao bom caminho e não se desviem” (Hb 12, 5-13).
Torna-se assim evidente quanto o castigo nos auxilia a crescer no temor a Deus, que é o princípio da Sabedoria (Sl 110, 10), faz-nos abençoados por Deus (Sl 113, 13), torna ouvidas nossas orações e assegura nossa salvação (Sl 144, 19).
“Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68, 10)” (Jo 2, 17). Este é um dos efeitos do castigo sobre os bons: produz uma admiração amorosa e faz desabrochar a estima pela Sabedoria.
Os maus detestam ser corrigidos
Mas fixemos agora nossa atenção na atitude dos maus.
“Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?” (Jo 2, 18).
O homem mau não aceita a correção, porque não ama a lei de Deus. Ao contrário do homem sábio, que ama quem o repreende (Pv 9, 9), eles detestavam a correção, por não buscarem a Sabedoria; sentiam horror ao castigo, por não quererem emendar-se de suas faltas.
 “Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias” (Jo 2, 19).
 Jesus não põe em dúvida o direito de os sacerdotes exigirem uma prova de sua autoridade. Por ser a Sabedoria Eterna, aceitou o desafio, fazendo-lhes uma proposta enigmática. Eles, interpretando-a literalmente, como se Jesus estivesse se referindo ao edifício material, responderam ironicamente: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!” Mas o evangelista acrescenta: Jesus se referia ao “templo de seu corpo”, santuário vivo da divindade, que Ele ressuscitaria três dias após a crucifixão no Calvário. Jesus costumava exprimir-se assim, de modo velado, quando se encontrava diante de um público hostil.
Como reagiu Jerusalém em face de Jesus
“Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia” (Jo 2 ,23).
Esse trecho do Evangelho nos coloca em alerta contra um defeito muito perigoso. Nosso Senhor, enquanto a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, discerne o mais íntimo de suas criaturas desde toda a eternidade. Assim, sabe Ele avaliar tanto a devoção desinteressada de uma alma nobre quanto a sanha apropriativa daqueles que se entregam aos pendores do pecado original: “Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2, 24-25).
O Divino Mestre, penetrando naqueles corações, notava que apenas queriam d’Ele se servir. Sim, não é suficiente impressionar-nos com milagres e, por isso, crer no nome de Jesus. Nosso Redentor deseja de nós um amor feito de reciprocidade. “A fé sem as obras é morta”, diz São Tiago (2, 26). Diante do Homem-Deus é necessário deixar-se arrebatar de enlevo e veneração, entregar a alma sem obstáculos nem reservas, e pautar a própria vida por seus ensinamentos.
                                                                                                                                                                                      
Duas lições podem ser tiradas do Evangelho narrado por São João. Ele nos exorta a extrair de nossos corações o pragmatismo, o egoísmo de querermos nos servir de Jesus, das graças e da Religião apenas para nosso proveito pessoal, crendo em seu nome, mas não mudando de vida e de costumes. É correto conservarmos nossa maneira de viver e nossos costumes, desde que não sejam ilícitos. Indispensável é, porém, ter a alma enlevada e submissa à Moral e Religião ensinadas por Nosso Senhor, adorando-O em todos os aspectos de suas virtudes. Entusiasmados por sua Misericórdia e também por sua Justiça, como Jesus mostrou no episódio dos vendilhões do Templo. Ele quer ser adorado por nós e adorado na sua totalidade.

 Elejamos Maria — insuperável modelo desse amor a Jesus na sua integridade — como nossa mestra e guia da entrega sem limites que devemos fazer a Ele, adorando-O na harmonia de suas virtudes aparentemente contraditórias.