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sábado, 26 de novembro de 2011

O Advento

As duas vindas de Nosso Senhor
O círculo e o losango são as mais perfeitas figuras geométricas segundo o conceito de São Tomás de Aquino, pois representam o movimento do efeito que retorna à sua causa. Cristo é a mais alta realização dessa simbologia porque, além de ser o princípio de todo o criado, é também o fim último. Daí encontrarmos, tanto no término do ano litúrgico, como em sua abertura, os Evangelhos que transcrevem as revelações de Jesus sobre sua última vinda.
A penitência, na expectativa do Natal
A Igreja não elaborou suas cerimônias através de um planejamento prévio. Organismo sobrenatural como é, nascido do sagrado costado do Redentor e vivificado pelo sopro do Espírito Santo, possui uma vitalidade própria com a qual se desenvolve, cresce e se torna bela, de maneira orgânica. Assim foi-se constituindo o ano litúrgico ao longo dos tempos, em suas mais diversas partes. Em concreto, o Advento surgiu entre os séculos IV e V como uma preparação para o Natal, sintetizando a grande espera dos bons judeus pelo aparecimento do Messias.
À expectativa de um grande acontecimento místico-religioso, corresponde uma atitude penitencial. Por isso os séculos antecedentes ao nascimento do Salvador foram marcados pela dor dos pecados pessoais e do de nossos primeiros pais. Mais marcante ainda se tornou o período anterior à vida pública do Messias: uma voz clamante no deserto convidava todos a pedirem perdão de seus pecados e a se converterem, para que assim fossem endireitados os caminhos do Senhor.
Esperança pervadida pelo desejo de santidade
Desejando criar condições ideais para participarmos das festividades do Nascimento do Salvador — sua primeira vinda —, a Liturgia selecionou textos sagrados relativos à sua segunda vinda: a nota dominante de uma é a misericórdia e a da outra, a justiça. Entretanto, esses dois encontros com Jesus formam um todo harmônico entre o princípio e o fim dos efeitos de uma mesma causa. Os Padres da Igreja comentam largamente o contraste entre uma e outra, mas, segundo eles, devemos ver na Encarnação do Verbo o início de nossa Redenção e na ressurreição dos mortos a sua plenitude.
Para estarmos à altura do grandioso acontecimento natalino, é indispensável colocarmo-nos diante da perspectiva dos últimos acontecimentos que antecederão o Juízo Final. Daí o fato de a Igreja durante muito tempo ter cantado na Missa a sequência “Dies Irae”, a famosa melodia gregoriana. Mais do que simplesmente recordar-nos o fato histórico do Natal, a Igreja quer fazer-nos participar das graças próprias à festividade, tal qual delas gozaram a Santíssima Virgem, São José, os Reis Magos, os Pastores, etc. Ora, uma grande esperança, pervadida pelo desejo de santidade e por uma vida penitencial, sustentava o povo eleito naquelas circunstâncias. E nós devemos imitar seu exemplo e seguir seus passos, em face não só do Natal como também da plenitude de nossa redenção: a gloriosa ressurreição dos filhos de Deus.
Primeira e segunda vindas de Jesus se unem diante de nossos horizontes neste período do Advento, fazendo-nos analisá-las quase numa visão eterna; talvez, melhor dizendo, de dentro dos próprios olhos de Deus, para Quem tudo é presente. Eis algumas razões pelas quais se entende a escolha do roxo para os paramentos litúrgicos, nessas quatro semanas. É tempo de penitência. E por isso o Evangelho de hoje nos fala da vigilância, por não sabermos quando retornará o “senhor da casa”. É indispensável que não sejamos surpreendidos dormindo.
Veio como réu, voltará como Juiz
É preciso considerar que o Senhor não virá como Salvador, mas sim como Juiz, não só enquanto Deus, mas também enquanto Homem, tal como nos explica São Tomás: “Havendo, pois, (Deus) colocado Cristo-Homem como cabeça da Igreja e da humanidade, e havendo-Lhe submetido tudo, concedeu-Lhe também — e com maior direito — o poder judicial” (1). “Cristo mereceu, ademais, esse ofício, por haver lutado pela justiça e haver vencido, ao ser sentenciado injustamente. ‘O que esteve de pé ante um juiz — diz Agostinho — se sentará como juiz, e o que caluniosamente foi chamado réu, condenará os réus autênticos’” (2).
Nosso Senhor Jesus Cristo será o Grande Juiz, em sua humanidade santíssima unida hipostaticamente à Sabedoria divina e eterna. Assim, conhece Ele os segredos de todos os corações, tal qual escreve São Paulo aos Romanos: “No dia em que Deus julgará, por Jesus Cristo, as ações ocultas dos homens” (Rm 2,16). Ele aparecerá em toda a sua glória, pois, em sua primeira vinda, porque se dispunha a ser julgado, revestiu-se de humildade. Portanto, deverá revestir-se de esplendor, ao retornar como Juiz (3). Pondera ainda São Tomás que, ao nascer em Belém, o Filho se encarnou para representar nossa humanidade junto ao Pai, mas, no fim do mundo, Ele virá aplicar a nós a justiça do Pai; por isso deverá demonstrar a glória de embaixador do poder eterno de Deus.
Esse juízo será universal, porque também o foi a própria Redenção. Ouçamos as explicações dadas por Santo Agostinho a respeito das duas vindas de Nosso Senhor: “Cristo, Deus nosso e Filho de Deus, realizou a primeira vinda sem aparato; mas na segunda virá apresentando-Se como Ele é. Quando veio calado, não Se deu a conhecer senão aos seus servos; quando vier manifestamente, mostrar-Se-á a bons e maus. Quando veio incógnito, veio para ser julgado; quando vier com majestade, fá-lo-á para julgar. Quando foi réu, guardou o silêncio anunciado pelo Profeta: ‘Não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante os tosquiadores...’ (Is 57, 7). Mas não haverá de se calar assim, quando tiver de julgar. Na verdade, nem agora está calado para quem gosta de ouvi-Lo; e se diz que não Se calará, Ele o diz porque então deverão ouvi-Lo os que agora O menosprezam” (4).
Consideração benfazeja, tanto para os bons quanto para os maus
Nada será esquecido, os mínimos pensamentos ou desejos serão relembrados com vigor de realidade. Ações e omissões, a respeito de Deus, do próximo e até de nós mesmos. O Divino Juiz não deixará uma só vírgula sem análise, sem ser devidamente pesada. E para cada um proferirá de público uma inapelável e definitiva sentença. Alguns à sua direita, outros à esquerda. Destes últimos, quantos ali estarão por terem procurado um prazer fugaz, ou por terem se recusado a fazer um esforço insignificante? É preciso levar em conta que esse trágico panorama do Juízo Final será uma repetição pública do juízo particular de cada um.
Mas, por outro lado, quanta alegria terão os bons! “Os padecimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há de se manifestar em nós” (Rm 8, 18). Os corpos dos justos estarão livres das fraquezas e enfermidades, serão imortais e espiritualizados, assimilados à luz de Cristo. Ao se verem reunidos em Maria e em Jesus, sentir-se-ão inundados de gozo e alegria, naquele dia de triunfo.
Daqui se conclui o quanto é benfazejo, tanto para os maus como para os bons, considerar de frente essa segunda vinda do Senhor. Para uns talvez lhes comova o temor de Deus, para outros poderá alentá-los, em meio às dores e dramas desta vida, a esperança dessa apoteótica cerimônia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Deus quis se fazer íntimo de nós

Moisés se maravilhou com a sarça que ardia sem se consumir. Aquelas chamas de incomum beleza, mantidas pela ação de um anjo, atraíram-no. Movido por uma forte e sobrenatural curiosidade, ele aproximou-se “para contemplar esse extraordinário espetáculo” e qual não foi sua surpresa ao ouvir de dentro das labaredas a voz de Deus, a adverti-lo de que tirasse suas sandálias por encontrar-se numa “terra santa”.
Ali recebeu a elevada missão de libertar do cativeiro o povo eleito e de conduzi-lo à Terra Prometida. Porém, naqueles alvores de seu profetismo, surgiu uma perplexidade: como apresentar aos outros o Senhor? Dúvida inteiramente compreensível, pois o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó era distante, invisível e de difícil acesso. Mas, a resposta foi extremamente sintética: “Iah Weh”, ou seja: “Eu sou” (Ex 3, 1-15).
Aquele era o mesmo Deus que passeara todas as tardes com Adão no Paraíso (Gn 3, 8)   e que, após o pecado original, fez-Se menos presente entre os homens. A partir daí, quase sempre suas manifestações se deram através da grandeza dos castigos (dilúvio, confusão das línguas, etc.), que incutiam um profundo respeito, temor e admiração no povo. Embora a travessia do Mar Vermelho, o maná e outras ocorrências miraculosas durante o Êxodo lhes dessem um conhecimento experimental da existência de um Ser Supremo que os protegia nos caminhos da vida, a própria entrega das Tábuas da Lei no Sinai tornou-se um símbolo do relacionamento d’Ele com o homem, baseado numa severa justiça. Aquele Ser absoluto se apresentava ao povo eleito como um Legislador intransigente, invisível e intocável.
Esse modo de agir divino passou por uma transformação inimaginável nestes mais de dois mil anos de Novo Testamento, desde que o “Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Aquele mesmo Deus que fez tremer o Sinai e deu grandes poderes ao braço de Sansão e à voz de Elias, pôde ser adorado enquanto bebê na manjedoura, em Belém, e esteve nos braços de Maria, José, Simeão e dos Reis Magos.
Doze anos mais tarde, ainda menino, discutiu com os doutores no Templo, e durante sua juventude, auxiliou seu pai nos trabalhos de carpintaria. E, ao iniciar sua missão pública, fez-Se presente a umas bodas em Caná, realizando ali seu primeiro milagre. Em Jesus, Deus quis Se fazer íntimo de nós. Ele continuou sendo o mesmo “Iah Weh”, mas atribuindo-se títulos diferentes: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10, 11), “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” ( Jo 14, 6), “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12), “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7), “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51). Fazendo menção a essas criaturas todas — inclusive comparando-se à galinha com seus pintainhos, ao chorar sobre Jerusalém —, Ele mostra bem qual seu incomensurável desejo (desejo eterno) de nos fazer participar de sua vida.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ciclo litúrgico

Com sabedoria divina e usando de insuperável arte, neste mês de novembro, a Igreja termina um ciclo litúrgico e dá início a outro. A abertura do novo ano será muito semelhante ao fecho do anterior.
Por que usa a Igreja de um método, à primeira vista, repetitivo, sendo seu tesouro insuperavelmente amplo e variado? Qualquer um a quem ocorrer esta pergunta logo perceberá provir ela de uma impressão superficial e errônea. Em realidade, a Encarnação e o Nascimento do Salvador tomam cores mais ricas ao serem focalizados na perspectiva do retorno de Cristo no fim do mundo, pois todos esses acontecimentos referem-se a um mesmo Ser e têm, portanto, profundas analogias entre si. O Natal e o Juízo Final constituem os extremos opostos de um só e imenso arco. Na Manjedoura, encontramos o Menino “que há de vir julgar os vivos e os mortos” (2 Tm 4, 1). No Vale de Josafá, veremos o próprio Inocente nascido na Gruta de Belém “voltar sobre as nuvens com grande poder e glória” (Mc 13, 26).
Ao surgir, Jesus dividiu a História em duas eras e, em seu retorno, finalizará o tempo e abrirá as portas da eternidade: “A Ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno; nunca cessará e seu reino jamais será destruído” (Dn 7, 14). “O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder” (Sl 92, 1).
A Realeza de Cristo
Esta festa foi estabelecida por Pio XI há menos de um século (1925). Entretanto, a consideração dessa divina realeza é tão antiga na piedade dos fiéis quanto a própria Liturgia. Referências a ela transbordam desde o Advento ao Tempo Pascoal, passando pela Natividade, Epifania e Paixão. A Teologia é rica em reflexões sobre essa temática, debaixo dos mais variados aspectos.
Por exemplo, São Tomás, ao discorrer sobre a origem do poder real de Cristo, demonstra-nos que Jesus é Rei por direito de natureza, por sua dignidade de Cabeça de todos os que estão unidos a Ele, pela plenitude da graça habitual, títulos estes gratuitos, ou seja, independentes dos merecimentos alcançados pelo Homem-Deus.

sábado, 19 de novembro de 2011

Comentário do Evangelho Jo 16,5-7

Agora vou para aquele que me enviou, e ninguém de vós me pergunta: Para onde vais? (Jo 16,5)
São João coloca aqui, no Evangelho, que Nosso Senhor Se queixa porque eles não perguntam: “Para onde vais?”
O que quer dizer essa afirmação feita por Nosso Senhor?
Quer dizer o seguinte: é que eles estavam com as vistas tão postas na matéria, eles estavam com as vistas tão postas no que se passava em torno deles e eles estavam, portanto, tão feitos para considerar os aspectos humanos de Nosso Senhor, que eles não tinham a preocupação de qual era o objetivo último de Nosso Senhor, de onde Ele veio e para onde Ele vai. Mas queriam saber de gozar da presença d’Ele de forma humana.
Ele está querendo chamar, sacudir os Apóstolos. Porque os Apóstolos estavam preocupados com o acontecimento humano.
Ora, dali a pouco Nosso Senhor ia ser morto e Ele precisava sacudi-los para que não prestassem atenção nos episódios que vinham imediatamente, mas que tivessem bem claro o fim.
Nosso Senhor nos dá uma lição aqui: desde que nós tenhamos bem claro o nosso fim, todo o resto fica ajustado. Por isso Ele diz em outro trecho:
Procurai o reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo.
Ele o que está dizendo aqui? É que eles não prestavam atenção no fim, eles estavam com os olhos postos no meio. Nós não devemos prestar atenção no meio? Sim. Mas subjugado ao fim, sempre a ideia do fim deve estar clara em nossa cabeça.
“Mas porque vos falei assim, a tristeza encheu o vosso coração”.(Jo 16,6)
Os apóstolos estavam preocupados com os acontecimentos daquele momento, preocupados e atormentados pelos acontecimentos imediatos.
Ora, Nosso Senhor já lhes deveria ter revelado a Igreja que Ele ia fundar, que  Ele ia ressuscitar, que a obra d’Ele se espalharia pelo mundo inteiro. Entretanto, eles tinham uma ideia mundana e julgavam que Nosso Senhor tinha dito isso de forma humana. E Nosso Senhor está querendo chamar a atenção deles para todo o aspecto sobrenatural.
Por que foi Nosso Senhor? Por que Nosso Senhor se foi?
Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei. (Jo 16,7)
São Tomás, Santo Agostinho, os doutores afirmam que para entrar em cena o Espírito Santo, Nosso Senhor precisava retirar-se; que o Espírito Santo procede do amor do Pai e do Filho e que era preciso, uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem, tendo dado origem à Igreja, do costado de Nosso Senhor Homem tivesse saído a Igreja, era preciso que Nosso Senhor Homem fosse ao trono do Pai Celeste e ali, enquanto Homem e enquanto Deus, adorasse na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a Deus e para que daí, o Espírito Santo que procedeu desde toda a eternidade do amor dos Dois, também procedesse dessa forma para a Igreja e aí transformasse a Igreja.

Um outro argumento: os Apóstolos tinham uma ideia muito humana de Nosso Senhor e estavam com a vista turvada pela humanidade de Nosso Senhor. E era preciso que a humanidade de Nosso Senhor desaparecesse diante deles para que eles então, vindo o Espírito Santo, tivessem uma ideia exata de quem era Nosso Senhor.

Trecho adaptado para linguagem escrita, sem conhecimento e/ou revisão do autor

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Evangelho: Cura de um paralítico (final)

Jesus prova, com o milagre, seu poder de perdoar
9 O que é mais fácil dizer ao paralítico: ‘São-te perdoados os pecados’, ou dizer: ‘Levanta-te, toma o teu leito e anda’?
Em substância, é incomparavelmente mais difícil perdoar os pecados do que curar uma paralisia. Entretanto, o dizer “os teus pecados te são perdoados” não põe em risco, nem à prova, a eficácia destas palavras, pois não há elementos para atestar se de fato os pecados foram ou não perdoados. O contrário se passa com a ordem de levantar-se. Neste caso, a comprovação é imediata. Pode-se bem imaginar o que aconteceria se, depois de proferida a ordem, o paralítico não se movesse de sua maca...
Afinal, como os judeus acreditavam haver um vínculo entre pecado e enfermidade, curada a paralisia, forçosamente o enfermo estaria isento de seus pecados.
10 Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados, (disse ao paralítico) 11 Eu te ordeno: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”.
Sobre estes versículos, pululam os comentários dos mais variados matizes. Maldonado, porém, parece ser melhor inspirado em suas observações. Nota o exegeta que Jesus não Se chamou a Si próprio “Filho de Deus”, mas sim “Filho do Homem”, para tornar claro, ademais, que o poder de perdoar pecados, Ele o possuía também como homem. “Ele prova que é Deus, não com argumentos, mas com a obra, quando lhes revela o que estão pensando; e que perdoa enquanto homem”. Não se referiu a esse poder enquanto seu detentor no Céu — pois o possui desde toda a eternidade — mas “sobre a terra”, “demonstrando que também como homem perdoa pecados”.
Mais adiante concluirá o próprio Maldonado: “Do mesmo modo pelo qual o poder de perdoar os pecados foi comunicado à humanidade de Cristo por sua divindade, assim também de Cristo cabeça derivou para os membros que Ele quis, isto é, para os sacerdotes”.
O resto da cena tem algo de necessariamente teatral para demonstrar ad nauseam a grandeza dos milagres ali operados por Jesus. Daí as três ordens consecutivas dadas por Ele: “Levanta-te”, ou seja, o paralítico a executou por si próprio, sem o auxílio de ninguém, para assim tornar patente o quanto Cristo lhe havia devolvido suas forças; “toma o teu leito”, é outro grande prodígio, pois, além de pôr-se em pé, aquele que só descera do teto pela ajuda de quatro outros também deve recolher o seu leito; “e vai para a tua casa”. Imagine-se o espanto daquela multidão, agora ainda mais apinhada, vendo-se na contingência de abrir para o ex-paralítico a passagem que lhe fora negada à entrada, para ele — com sua cama — buscar o caminho da rua...
12 Imediatamente ele se levantou e, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, de maneira que se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos coisa semelhante”.
A atitude da multidão é oposta à dos escribas. Aquelas pessoas sentem-se pervadidas de admiração, pois, com toda facilidade, dos efeitos remontam à causa e retribuem a Deus em louvores aquilo que Lhe é devido, reconhecendo o insólito do ocorrido. Crescem assim, nas virtudes teologais, enchem-se de alegria, recebem uma infusão de energia e também progridem no temor de Deus.
Bem diferente deve ter sido o retorno dos escribas às suas casas, trespassados pelas angústias da blasfémia não-reparada. 
Conclusão
Não devemos jamais tomar uma atitude análoga à dos escribas, fechando- nos diante do divino poder de Jesus de perdoar nossos pecados, e assim negligenciar a eficácia, grandeza e necessidade do Sacramento da Confissão. A Liturgia de hoje nos ensina as maravilhas desse poder, que Ele próprio conferiu aos seus sacerdotes.
A fim de alimentar nossa piedade em matéria tão importante, transcrevemos abaixo um belo fato ocorrido com Santa Margarida de Cortona: Vendo a fervorosíssima conversão de Margarida, o Redentor começou a instruí-la e agraciá-la de muitas maneiras, e, mostrando-Se a ela todo cheio de piedade e de amor, chamava-a frequentemente pelo nome de ‘pobrezinha’.
Um dia, a Santa, repleta daquela confiança que é tão própria ao amor filial, disse-Lhe:
— Senhor, Vós sempre me chamais de “pobrezinha”. Quando chegará o dia no qual eu possa ouvir de vossa divina boca o belo título de “filhinha”?
— Ainda não és digna. Antes de receber o nome e tratamento de filha, convém que purifiques melhor tua alma com uma confissão geral de todas as tuas culpas.
Tendo ouvido isso, Margarida fez um minucioso exame de seus pecados e, durante oito dias contínuos, os expôs ao confessor, mais com lágrimas do que com palavras. Acabada a confissão, tirou o véu que lhe cobria a fronte, pôs uma corda ao pescoço e, nessa humilde postura, foi receber o Corpo Santíssimo do Redentor. Mal acabara de comungar, sentiu ressoar no mais íntimo de sua alma as palavras: “Minha filha”.
Ouvindo essa voz tão doce, pela qual tanto havia suspirado, perdeu todos os sentidos e ficou absorta em um mar de gozo e alegria. Voltando logo a si desse êxtase, começou a repetir, atônita de admiração:
— Oh! doce palavra: “minha filha”! Oh! doce voz! Oh! palavra cheia de júbilo! Oh! voz cheia de segurança: “minha filha”!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Evangelho: cura do paralítico IV

O Senhor que esquadrinha os corações
6 Estavam ali sentados alguns escribas que diziam nos seus corações: 7 “Como é que Ele fala assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar senão Deus?”
Enquanto doutores da Lei, conheciam aqueles escribas que só a Deus cabe perdoar os pecados, conforme se encontra na Escritura: “Sou Eu, sou Eu que por amor a Mim apago os teus pecados e não Me recordo mais de tuas rebeldias” (Is 43, 25). Sabiam eles que nenhum juiz poderia arrogar-se a faculdade de perdoar qualquer pecado, pois este consiste numa ofensa feita a um Ser infinito, eterno, etc., e quem o comete contrai uma culpa também infinita.
Quem afirmasse de público ser capaz de perdoar os pecados proferiria uma blasfêmia, por querer praticamente usurpar o trono de Deus. Ora, segundo a Lei mosaica, o blasfemador era réu de morte por apedrejamento, e as testemunhas deveriam começar por rasgar as vestes. Com esse pensamento, os escribas evidentemente precipitariam a condenação de Jesus à pena capital. Não podemos nos esquecer de que talvez esses fariseus fossem aqueles que haviam presenciado a proclamação do Precursor: “Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).
8 Jesus, conhecendo logo no seu espírito que eles pensavam desta maneira dentro de si, disse-lhes: “Por que pensais isto nos vossos corações?”
Aqui está mais uma prova da divindade de Jesus Cristo. As Escrituras são ricas de afirmações a respeito de quanto “o Senhor sonda todos os corações e penetra todos os pensamentos do espírito” (1 Cr 28, 9). Diz Deus a Jeremias: “Eu sou o Senhor que esquadrinho o coração, que sondo os afetos” (17, 10).
Conforme narra o Evangelista, os fariseus nada haviam dito nessa ocasião, tratava-se de puros pensamentos. Só o fato de vê-Lo discernir com tanta precisão o interior das almas, já lhes teria sido suficiente para crerem na divindade do Messias.
Segundo São João Crisóstomo, esse foi o primeiro milagre realizado por Jesus nessa noite, antes mesmo da cura do paralítico. Aqui se percebe o quanto a blasfêmia cabia exclusivamente aos fariseus, e jamais a Jesus.
Muito consoladora é para nós esta passagem, pois ela nos demonstra como nossos pensamentos, desejos e aflições são acompanhados por nosso Redentor a cada instante. Esse poder de Jesus incentiva nossa piedade, fortalece nossa confiança e nos convida à honestidade. Por outro lado, faz crescer nosso temor a Deus e põe freio à nossa negligência.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Evangelho: cura do paralítico III

“Para o amor, nada é impossível!”
4 Como não pudessem levá-lo junto d’Ele por causa da multidão, descobriram o teto na parte debaixo da qual estava Jesus e, tendo feito uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico.
Os condutores do paralítico usam de tal radicalidade que a cena adquire um caráter dramático. Imaginem-se as tentativas, feitas por eles e talvez até pelos acompanhantes, familiares e amigos do doente, de convencerem as pessoas a abrirem caminho no meio da impenetrável multidão aglomerada. O temperamento oriental, muito dado à tragédia, deve ter se evidenciado de maneira viva nessa ocasião. Uns fazendo pressão teatral para ultrapassar a barreira humana e outros resmungando, à medida que se espremem ainda mais. Intuitivos como são aqueles povos, os condutores e acompanhantes concluíram serem inúteis suas artes diplomáticas. Desistiram de usar as vias normais de entrada e lançaram-se numa aventura, também muito característica daquelas terras.
As casas judias dos tempos messiânicos eram térreas, com um terraço fazendo o papel de telhado, ou uma cobertura construída de uma mescla de barro e fibras vegetais suficiente para resistir às intempéries e permitir seu uso pela família numa noite de verão. Seu acesso se fazia por uma das laterais da casa, através de uma escada fixa. Ao que tudo indica, sem maior risco para os que se encontravam na sala, os portadores da maca do paralítico afastaram os ramos da argamassa, abrindo um buraco no teto.
Esse belo e ousado gesto nos faz entender a realidade do axioma de Santa Teresinha: “Para o amor, nada é impossível!” De fato, ali estava simbolizado o verdadeiro zelo apostólico. Assim devem ser nossa fé e nosso empenho no cuidado pelas almas, não se deixando vencer por obstáculo algum. Por outro lado, o mesmo episódio nos mostra o quanto Jesus deseja que a salvação de uns seja operada pelo auxílio de outros. É bem a imagem da importância do apostolado colateral.
Podemos fazer ideia do espanto dos circunstantes, apinhados em torno de Nosso Senhor, ao se darem conta de que o teto se abria. Poeira, ruído, surpresa! De repente, uma padiola começa a descer através de cordas e, por fim, o pobre paralítico aterrissa, obrigando-os a se afastarem e se espremerem.
5 Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: “Filho, são-te perdoados os pecados”.
Em vista da fama dos inúmeros milagres realizados por Jesus, evidentemente todos os presentes aguardavam a cura imediata daquele paralítico. É de se crer que ele tenha descido do teto com fisionomia de súplica e causadora de pena. Bastaria a presença ali de algumas senhoras, dotadas do admirável instinto materno, para estar criado um clima de comiserado “suspense”. Se qualquer uma delas fosse taumaturga, faria o paralítico levantar-se imediatamente.
A perplexidade suscitada em uns e outros pelas palavras do Divino Mestre foi intencional, e por várias razões. Jesus deixa claro quanto os problemas da alma são mais importantes que os do corpo. Ademais, como anteriormente dissemos, havia uma forte crença entre os judeus de serem as doenças fruto dos pecados próprios ou dos pecados dos antepassados. Outras situações houve nas quais Jesus, após o milagre, recomendou aos beneficiados: “Não tornes a pecar”, a fim de não lhes vir a acontecer males piores. É de se perguntar se, no caso concreto desse paralítico, haveria alguma relação entre seu estado físico e problemas morais, mas nos é possível responder nem afirmativa nem negativamente. Entretanto, pecados ele os deveria ter, pois a frase de Nosso Senhor é inequívoca. É até admissível que estivesse profundamente arrependido, como se comprova pelo afetuoso tratamento a ele dispensado: “Filho, confia”.
Muito interessante é a opinião de Maldonado sobre “a fé daqueles homens”:
“Provavelmente, esse paralítico não teria menor fé que aqueles que o levavam. Mas, segundo está dito, Cristo lhe perdoou os pecados pela fé de seus portadores. Jesus apreciou tanto a fé daqueles bons homens que, mesmo se o paralítico não a tivesse de modo conveniente, Ele lhe teria perdoado, por causa da fé de seus portadores”.
Há também quem — como São João Crisóstomo — levante a hipótese de ter querido Jesus dar oportunidade a uma reação dos fariseus, servindo-se desse pretexto para tornar patente sua divindade.
Continua...