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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Evangelho XXI domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B

Continuação dos comentários ao Evangelho 21º domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B
Jesus visa repreender ou evitar o escândalo?
62E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?
Pondera Maldonado ser muito difícil bem interpretar o presente versículo, por se tratar de uma frase interrogativa e, ao mesmo tempo, concisa. De duas, uma (sempre segundo Maldonado): ou Jesus queria dizer que, ao verem-No em sua Ascensão, compreenderiam a afirmação feita por Ele de que seu Sangue é verdadeira bebida e sua Carne verdadeira comida; ou que, depois de assistirem à sua subida aos Céus, poderiam se escandalizar ainda mais.
1. Facilitar a assimilação do dogma
Vários autores adotam a primeira dessas hipóteses, mas divergem entre si sobre qual dos dogmas formulados por Jesus em seu discurso Eucarístico adquiriria um grau maior de certeza no público. Uns julgam que, com a Ascensão, tornar-se-ia facilmente assimilável a noção de sua descida do Céu. Segundo outros, ao verem o retorno de Jesus ao Pai, imediatamente se dariam conta de sua divindade e, neste caso, admitiriam a transubstanciação do pão e do vinho realmente na Carne e no Sangue de Deus. Vejamos, a esse respeito, o que nos dizem dois conceituados Padres da Igreja:
“S. João Crisóstomo: Se Ele lhes tivesse dito simplesmente que desceu do Céu, sem acrescentar mais nada, teria escandalizado ainda mais os discípulos. Ele escolheu, pois, outro caminho: declarou que sua carne é a vida do mundo, e que assim como tinha sido enviado pelo Pai vivo, assim também vive pelo Pai. E então acrescentou que Ele tinha descido do Céu, dissipando toda e qualquer dúvida. Ele não se exprimiu assim, pois, com o intuito de escandalizar seus discípulos, mas, pelo contrário, para evitar o escândalo provocado por suas palavras. Enquanto O vissem apenas como filho de José, suas palavras naõ teriam para eles autoridade alguma; mas os que acreditassem que havia descido do Céu e que para lá voltaria, esses compreenderiam mais facilmente o que lhes era dito.
“Santo Agostinho: Assim desfez as dúvidas que os agitavam, porque eles tinham pensado que o Salvador haveria de destruir o seu próprio corpo; mas Ele lhes disse que haveria de subir ao Céu com o corpo íntegro; por isso lhes diz: ‘Quando virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes’. Com certeza vereis então como não se destruiu o seu corpo, conforme vós pensáveis” (6).
2. Repreensão aos judeus
Maldonado contesta essas várias suposições, manifestando-se favorável à hipótese de esse versículo constituir uma repreensão aos judeus, e não um mero ensinamento ou o oferecimento de uma prova. Segundo ele, o procedimento habitual do Divino Mestre com os incrédulos, que não aceitavam pontos minúsculos da Fé, era de sempre fazer-lhes uma interrogação: “Se não Me acreditais quando vos falo das coisas da terra, como Me acreditareis se vos falar das coisas do Céu?” (Jo 3, 12).
No versículo que aqui comentamos, Jesus Se denomina Filho do Homem, para tornar clara a existência da união das duas naturezas, a divina e a humana, em sua Pessoa, pois dos céus desceu como Deus e para lá retornaria, como homem.
III – O alimento que vivifica
63O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida.
Ao longo dos séculos multiplicaram-se, entre os comentaristas, várias interpretações sobre este versículo. A melhor delas nos parece ser a do Bispo de Hipona:
“Que sentido tem esta afirmação: a carne para nada aproveita? Para nada aproveita no sentido em que os judeus a entenderam. Entenderam ‘carne’ no sentido em que se toma, quando é cortada no cadáver, ou vendida no talho, e não enquanto a carne tem vida, que lhe é comunicada pelo espírito. (...)
“Assim sucede com a expressão: a carne para nada aproveita, a carne tomada isoladamente. Junte-se o espírito à carne, como se junta a caridade à ciência, e a carne aproveita de um modo extraordinário.
“Se a carne para nada aproveitasse, o Verbo não Se faria carne para habitar entre nós. Se Cristo nos aproveitou muito por meio da carne, como pode dizer-se que a carne para nada aproveita?
“Mas o espírito fez alguma coisa em ordem à nossa salvação, por meio da carne. A carne foi um vaso. Atende ao que o vaso encerrava, e não à natureza do mesmo vaso” (7).
Alimento espiritual e material
Não é exagero julgar que o alimento material foi criado para o desenvolvimento e sustento orgânico do homem, com vistas também a servir de símbolo para a instituição da Eucaristia. Há, entretanto, uma distinção entre o alimento material e o espiritual. O primeiro produz em nós seus efeitos, convertendo-se em substância de nosso organismo, ao ser por ele assimilado. Com o segundo se passa exatamente o contrário: nós somos assumidos por ele, como diz Santo Agostinho, “o qual narra ter como que ouvido a voz de Cristo lhe dizendo: Não serás tu que Me mudarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas és tu que te transformarás em Mim” (8). “A virtude própria deste alimento divino é uma força de união que nos vincula ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros, a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos” (9).

Pela Eucaristia passamos a ser outros Cristos
Pela Eucaristia, participamos não só da própria vida de Jesus como também de todo o tesouro de seu Sagrado Coração, dos méritos de sua oração, sacrifício, etc. Essa realidade mística arranca surtos de entusiasmo das almas dos bem-aventurados: “Para vir ao mundo a fim de nos redimir, Deus Se fez homem. Quando tu vais ao altar e O recebes, és tu que te transformas n’Ele. E se dissesse que te fazes Cristo, não mentiria” (10).
Por outro lado, ao comungarmos, passamos a ser parte de Cristo: “Quando comungas, passas a ser membro do Corpo de Cristo; assim como a mão é parte do corpo, vive e se sustenta dele, assim fazes parte de Cristo, vives e te sustentas d’Ele, incorporando-te pela comunhão em Cristo, como o membro no corpo” (11).
Ora, se a Eucaristia, por assim dizer, transforma-nos em Cristo, nossa vida moral também será participativa da santidade de Jesus. Não é sem fundamento que se afirma: “Christianus alter Christus” (12), pois, realmente, pelo Batismo passamos a ser outros Cristos, e a Eucaristia vai paulatinamente reproduzindo em nós os mesmos sentimentos e virtudes próprias ao Homem-Deus. Com o tempo, e pela assídua frequência a esse Sacramento, pensaremos, amaremos e agiremos tal como Ele próprio. Nossa caridade, humildade, obediência e demais virtudes serão semelhantes às d’Ele.

Antídoto contra o pecado e fortaleza para a luta
Continua...

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