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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Evangelho XXI domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B

Continuação dos comentários ao Evangelho 21º domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B
Jesus visa repreender ou evitar o escândalo?
62E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?
Pondera Maldonado ser muito difícil bem interpretar o presente versículo, por se tratar de uma frase interrogativa e, ao mesmo tempo, concisa. De duas, uma (sempre segundo Maldonado): ou Jesus queria dizer que, ao verem-No em sua Ascensão, compreenderiam a afirmação feita por Ele de que seu Sangue é verdadeira bebida e sua Carne verdadeira comida; ou que, depois de assistirem à sua subida aos Céus, poderiam se escandalizar ainda mais.
1. Facilitar a assimilação do dogma
Vários autores adotam a primeira dessas hipóteses, mas divergem entre si sobre qual dos dogmas formulados por Jesus em seu discurso Eucarístico adquiriria um grau maior de certeza no público. Uns julgam que, com a Ascensão, tornar-se-ia facilmente assimilável a noção de sua descida do Céu. Segundo outros, ao verem o retorno de Jesus ao Pai, imediatamente se dariam conta de sua divindade e, neste caso, admitiriam a transubstanciação do pão e do vinho realmente na Carne e no Sangue de Deus. Vejamos, a esse respeito, o que nos dizem dois conceituados Padres da Igreja:

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Evangelho XXI domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B

Comentário ao Evangelho 21º domingo do Tempo Comum – Jo 6,60-69 – Ano B
Naquele tempo, 60 muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” 61 Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? 62 E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes? 63 O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. 64 Mas entre vós há alguns que não creem”. Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo.
65 E acrescentou: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. 66 A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. 67 Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?” 68 Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 69 Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.
 “A quem iremos, Senhor...?”
Em um episódio decisivo no anúncio do Reino de Deus, os discípulos se dividiram entre aqueles que se escandalizaram com as palavras de Jesus e aqueles que, mesmo sem entendê-las, aceitaram-nas por um ato de fé.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias
I – Jesus é o pão da vida
A contradição dos judeus
“Como poderá este dar-nos a sua carne para comermos?” (Jo 6, 52) — perguntavam entre si os judeus que ouviram Jesus fazendo referência ao Sacramento da Eucaristia. E Ele lhes respondeu: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53).
Com uma fé insuficiente, como poderiam alcançar o verdadeiro significado das revelações feitas pelo Messias?
Os judeus não queriam admitir que Jesus pudesse se autodenominar “pão da vida”. De fato, Ele o é, tanto pela divindade, como por sua humanidade. Enquanto Deus, Ele cria, sustenta no ser e alimenta todos os viventes. Ao assumir um corpo, sua Carne é vivificante por ser o Verbo de Deus. Da mesma forma que o ferro se torna incandescente ao ser introduzido no fogo, adquirindo a substância e as propriedades deste sem deixar de ser ferro, assim também o Sagrado Corpo de Jesus está unido à natureza divina. Por isso, sem a Eucaristia, o homem pode ter vida natural, mas não a vida eterna.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Evangelho I Domingo do Advento- Lc 21, 25-28.34-36

Continuação dos comentários ao Evangelho 1º Domingo Advento 

28“Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça;  porque a vossa libertação está próxima”. 
As palavras de Jesus neste versículo convidam e elevar o ânimo e ter confiança pois, junto com o anunciado castigo, chegará para aqueles que tiverem permanecido fiéis a hora da libertação. Daí que São Gregório Magno afirme: “Quando as pragas afligirem o mundo, levantai vossas cabeças, isto é, alegrai vossos corações, porque enquanto acaba o mundo, do qual na verdade não sois amigos, aproxima-se vossa redenção, que tanto tendes procurado”.15
A aumentar nossa esperança e alçar nossos corações para o Céu nessa hora, convida também Dom Maurice Landrieux: “Se o dia do Juízo Final deve ser terrível para os réprobos, será, ao contrário, consolador para os eleitos, os quais entrarão de corpo e alma na glória completa, tão desejada. Portanto, quando essas coisas começarem a acontecer, enquanto os pecadores murcharão de terror e serão tomados de desespero, vós, Meus amigos e servidores, levantai a cabeça e olhai; fortalecei vossa fé e vossa esperança, desviai da terra vosso espírito e vosso coração e elevai-os ao Céu; alegrai-vos, pois está próxima a vossa libertação. Essa libertação ou redenção será para os eleitos o fim absoluto de todos os males, a perfeita satisfação da alma e do corpo, o gozo incomparável da eterna bem-aventurança”.16
E conclui com esta exclamação: “Dia de pavor e desespero para os ímpios, os pecadores: dies iræ, dies illa! Mas de indizível esperança para os justos de Deus, para os pequenos e os humildes desconhecidos, desdenhados, rejeitados, execrados, explorados, maltratados, oprimidos de todos os modos nesta terra”.17
Ora, se no fim dos tempos os castigos de Deus contra os maus significam a libertação dos bons, a ponto de Santo Agostinho afirmar que “a vinda do Filho do Homem incute temor só aos incrédulos”,18 bem poderíamos tirar disso uma conclusão para nossa época: por mais que, nos dias atuais, as aflições e apreensões oprimam os bons, estes igualmente não devem temer, pois Deus jamais abandona quem nEle confia.
É o que afirma São Cipriano: “Quem espera a recompensa divina deve reconhecer que em nós não poderá haver medo algum ante as borrascas do mundo, nenhuma vacilação, pois o Senhor predisse e ensinou que isso aconteceria, exortando, instruindo, preparando e fortalecendo os fiéis de Sua Igreja com vistas a suportar os acontecimentos futuros”.19
Preparação dos Corações
34 “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula,  da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós;
35  pois esse dia cairá como uma armadilha  sobre todos os habitantes da terra”. 
“Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis!”. Nesta segunda parte do Evangelho escolhido pela Igreja para este domingo, o Divino Mestre faz referência àquelas almas que, mesmo não negando formalmente a Fé, já não se enlevam, não vibram, nem se comovem com as mais belas doutrinas, cerimônias ou acontecimentos, ficando incapazes de reconhecer neles a voz ou a presença do Salvador.
“Como uma armadilha”, cairá o dia terrível do Juízo Final sobre os habitantes da terra; portanto, para não sermos apanhados de improviso, precisamos estar vigilantes para impedir que nossos corações se tornem insensíveis pelos vícios e pela preocupação com os efêmeros bens deste mundo.
Gula, embriaguez e preocupações da vida
Jesus menciona, em primeiro lugar, a gula. Pecado que, em nossos dias, pode ser considerado inclusive no sentido inverso, ou seja, como a preocupação excessiva com o controle do peso, em prejuízo da própria saúde. O equilíbrio consiste em comer o necessário para manter-se e poder enfrentar as dificuldades da vida.
Mas existe também uma gula dos olhos: a excessiva curiosidade; ou dos ouvidos: o desejo imoderado de conversar, de querer estar a par de todas as novidades. Para não estender demais a lista dos vícios correlatos à gula, mencionemos apenas mais um, e dos mais perniciosos: o anseio de chamar a atenção sobre si.
Quanto à embriaguez, Orígenes nota quão profunda é a degradação à qual ela conduz, por afetar simultaneamente o corpo e a alma. “Em outros casos pode acontecer que o espírito se fortaleça quando o corpo se debilite, como diz o Apóstolo (cf. II Cor 12, 10); e quando o homem exterior se enfraquece, o interior se renova’ (II Cor 4, 16). Mas na enfermidade da embriaguez deterioram-se ao mesmo tempo o corpo e a alma; o espírito se corrompe como a carne. Debilitam-se os pés e as mãos, embota-se a língua, as trevas lançam um véu sobre os olhos, e o olvido envolve a mente, de modo que o homem não conhece nem sente”.20
Em nossos dias, bem poderia este vício ser tomado como símbolo do inebriamento com as coisas materiais como o automóvel, o computador, o telefone celular, a internet e outros aparelhos que são úteis e até necessários, mas que, usados sem o controle da virtude da temperança, contribuem para tornar o coração insensível às realidades sobrenaturais.
Uma eloquente metáfora do mesmo Orígenes vem muito a propósito para realçar o quanto precisamos tomar em consideração a advertência feita pelo Divino Mestre no Evangelho deste domingo: “Imagine-se que um médico experiente e sábio dê prescrições parecidas a esta, recomendando, por exemplo: ‘Cuide de não tomar em excesso suco de tal erva, pois isso pode causar morte repentina’. Não duvido que, para preservar a própria saúde, todos obedeceriam a essa advertência. Ora, Aquele que é médico das almas e dos corpos, o Senhor, nos ordena tomar cuidado com a erva da embriaguez e da crápula, bem como dos negócios mundanos e dos sucos mortais que é preciso evitar”.21
Assim, não só quem se deixa levar pelos vícios degradantes como a gula e a embriaguez, mas também quem se toma de excessivas preocupações pelos bens terrenos, acaba ficando com o coração insensível, pesado, incapaz de elevar-se até Deus. É novamente Orígenes quem faz esclarecedores comentários: “A última advertência de Jesus, no momento, incide sobre o cuidado que devemos ter com aquelas coisas da vida que — embora não sendo consideradas como pecados graves, mas sim como atividades aparentemente indiferentes — obnubilam entretanto nossa consciência a respeito de Sua volta iminente e da repentina chegada do fim do mundo”.22
A este respeito, recomenda-nos São Basílio: “A curiosidade e os cuidados desta vida, embora não pareçam prejudiciais, devem ser evitados quando não contribuem para o serviço de Deus”.23 E o douto Tito nos alerta: “Tomai cuidado para não se obscurecerem as luzes de vossa inteligência, porque as preocupações desta vida, a crápula e a embriaguez afugentam a paciência, fazem vacilar a fé e provocam o naufrágio”.24
Ao que Dom Landrieux acrescenta: “Prestai muita atenção para não deixar vosso coração apegar-se à terra pelos prazeres grosseiros dos sentidos, pela fruição imoderada dos bens deste mundo, ou por um cuidado excessivo com vossa situação, que vos exporia a ser surpreendido de repente pela morte: et superveniat in vos repentina dies illa. Pelo contrário, vigiai e orai, sede prudentes, recorrei aos meios sobrenaturais para obter que a mão de Deus vos sustente nessas provações, de sorte a poderdes permanecer de pé no dia do Juízo: stare ante filium hominis”.25

Continua no próximo post


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52


Continuação dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B Mc 10, 46-52,



46 Chegaram a Jericó. Ao sair Jesus de Jericó, com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, mendigo cego, filho de Timeu, estava sentado junto ao caminho. 47 Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”
Segundo a narração de São Marcos, Jesus encontra-se em viagem rumo a Jerusalém, deixando atrás de si Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia. Como nunca perdia um só segundo nem oportunidade, Ele aproveitará esse percurso para ir instruindo seus discípulos, a fim de torná-los aptos à grande missão que lhes caberá, uma vez fundada a Igreja. Ao iniciar-se essa caminhada, uma grande multidão se junta aos discípulos, sempre desejosa de assistir a mais algum milagre, ou de ouvir as maravilhas transbordantes dos lábios do Mestre. Como primeiro ato desse trajeto, está a cura de um cego. São Mateus (20, 29-34) narra o fato como tendo se passado com dois cegos, e não somente um. São Marcos diz-lhe o nome: Bartimeu, ou seja, “filho de Timeu”. Ademais, à diferença de São Mateus, acrescenta outros dados muito interessantes: o empenho das pessoas do povo em estimular o pobre cego a se aproximar de Jesus, logo após terem ouvido que o chamava. Como também a prontidão deste, ao lançar fora seu manto e saltar procurando acercar-se de Jesus. Mateus, por sua vez, afirma ter-se dado a cura quando Jesus tocou os olhos do cego, e Lucas (18, 35-43) menciona uma forma imperiosa empregada por Ele.
A conjugação das três narrativas nos dá um quadro minucioso do acontecido. O título de “Filho de Davi”, segundo bons autores, deve-se ao fato de já, a essa altura, estar difundida entre todos a noção — e da parte de alguns até a crença — de que Jesus era, verdadeiramente, o Messias. Descarta-se, portanto, a hipótese de que o cego (ou, segundo Mateus, os dois cegos), usando essa expressão, desejasse captar a benevolência de Jesus em favor de sua cura.
Há quem levante a hipótese de serem três os milagres efetuados por Jesus naquela ocasião, inteiramente distintos, cada um deles narrado por um desses três Evangelistas. Outros, porém — e é a quase a totalidade — julgam que os dados em comum idênticos tornam impossível não se tratar de um mesmo e único milagre.
E por que Marcos e Lucas fazem referência a um só cego? Uma boa maioria dos exegetas opina ser provável que os cegos eram dois, conforme Mateus indica, mas um deles devia ser muito conhecido, a ponto de Marcos tê-lo posto em cena com seu nome próprio.
Quanto ao lugar onde se teria dado o milagre, as explicações, se bem que diversas, visam fazer uma aproximação entre os Evangelistas, concluindo em favor de um único acontecimento.
48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele cada vez gritava mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim
Quase nunca faltam a essas cenas evangélicas os aspectos carregados de cores, característicos do Oriente. Os costumes, marcados por um temperamento borbulhante e nada retraído, se refletem tanto na atitude do cego Bartimeu como na reação da multidão contra os gritos dele. É interessante percorrer os comentários tecidos a esse respeito pelos santos e padres da Igreja, como São Beda, São Jerônimo, São João Crisóstomo e outros. Este último, por exemplo, assim se exprime: “Permitia Cristo que o repreendessem para que o desejo dele se acendesse mais. Daí podemos concluir que, qualquer que seja a forma de desprezo que caia sobre nós, podemos alcançar o que pedimos, desde que nos aproximemos de Cristo com autêntico desejo” (6).
Seja como for, essa disputa entre os acompanhantes de Jesus e o cego tem um lado pitoresco, muito próprio a uma sociedade orgânica, na qual nem se chegara a sonhar com um mundo dominado pela máquina. Nela, o relacionamento humano é não só intenso, mas constitui até a essência da vida comum e quotidiana. Todos querem tirar partido da presença de um homem incomum, transbordante de sabedoria e que multiplica bondosamente os milagres por onde passa. A multidão não deseja perder a menor oportunidade de vê-lo e ouvi-lo. A comitiva, ao se deslocar, evita ao máximo os empecilhos, para apanhar todos os comentários do Mestre, e a gritaria de um cego torna difícil seguir o fio das exposições. Contudo, para Bartimeu, era a única e exclusiva chance de sua vida. Assim, enquanto uns o repreendem, mais alto ainda ele grita.
Jesus, parando, disse: “Chamai-o”. Chamaram o cego, dizendo-lhe: “Tem confiança, levanta-te, Ele te chama.” Ele, lançando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.
A certa altura, o Salvador interrompe a marcha e manda chamar o cego. Segundo Mateus, Ele mesmo toma sobre si a iniciativa de fazê-lo aproximar-se. Marcos é mais preciso: Jesus, dando ordem à multidão, ao mesmo tempo impede, implicitamente, que continuem repreendendo o pobre Bartimeu. Com tais e tantos gritos, era evidente que Cristo já o ouvira, porém agradava-Lhe aquela insistência. É bem exatamente o que se passa conosco em nossas orações. Deus quer nossa constância. A determinação de Jesus criou uma expectativa na multidão, e essa reação psicológica transformou a anterior acidez em empenho de estimular o cego a encher-se de ânimo. Este — como sói acontecer com quem perde o sentido da visão — por instinto discerniu onde estava Aquele que tinha o poder de curá-lo e, num salto, a Ele se dirigiu, pouco se importando com seu próprio manto, lançando-o de lado.
Continua no próximo post

domingo, 22 de julho de 2012

Evangelho 16º Domingo do Tempo comum - ano B Mc 6, 30-34

Final


Deus se faz ouvir no silêncio, na serenidade e na calma


Quão misterioso e fundamental é o silêncio! Deus mais nos visita no recolhimento do que nas atividades externas. Em geral, nossa vida sobrenatural dá passos mais firmes e decididos no silêncio do que em meio às ações. Os Sacramentos também produzem a graça em nossas almas sob o manto do silêncio. Este nos ensina a falar, como afirmava Sêneca: “Quem não sabe calar, não sabe falar”.
Importantes, também, são a serenidade e a calma no relacionamento humano ou na contemplação. Jesus, no Evangelho, nunca dá a impressão de estar asfixiado pela pressa. Às vezes até “perde tempo”: todos O procuram e Ele não Se deixa encontrar, tão absorto está na oração. Jesus convida seus discípulos a “perderem tempo” com Ele: “Vinde à parte, a um lugar solitário, e descansai um pouco”. Recomenda freqüentemente não se agitar. Quantos benefícios recebe nossa saúde da “lentidão”!
A esse respeito, observa com acerto o Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa: “Se a lentidão tem conotações evangélicas, é importante dar valor às ocasiões de descanso ou de demora que estão distribuídas ao longo da sucessão dos dias. O domingo, as festas, se são bem utilizadas, dão a possibilidade de cortar o ritmo de vida demasiado excitante e de estabelecer uma relação mais harmônica com as coisas, as pessoas e, sobretudo, consigo próprio e com Deus”.
Os Apóstolos deviam estar exaustos depois de tantas atividades e por isso — comenta o Pe. Manuel de Tuya OP —, terminadas as narrações das viagens, “Cristo quer proporcionar-lhes uns dias de descanso, levando-os a um ‘lugar solitário’, que estava ‘perto de Betsaida’ (Lc 9, 10). A causa era que nem mesmo depois de seu trabalho missionário, particularmente intenso, deixavam-nos sozinhos: as pessoas afluíam para Cristo. Marcos descreve esse assédio das turbas com sua linguagem realista: ‘Porque eram muitos os que iam e vinham, e nem tinham tempo para comer’. Talvez essas multidões que vêm, nessa ocasião, possam ser um indício do fruto dessa ‘missão’ apostólica”.
Fugir da agitação para se encontrar com Deus
Entrando, pois, numa barca, retiraram-se à parte, a um lugar solitário.
Conta-nos São Jerônimo que Davi, em sua infância, fugia da agitação da cidade e buscava a solidão dos desertos. Ali vencia os ursos e os leões. E as Escrituras nos contam que Judite tinha, na parte mais elevada de sua casa, um quarto recolhido onde permanecia enclausurada com suas fiéis servas (Jt 8, 5). Os homens contemplativos, sempre que possível, abandonam o bulício do mundo e abraçam o isolamento para viver de Deus, com Ele para Ele. Também para Jesus e os Apóstolos tornava-se impossível o repouso em Cafarnaum, onde eram muito conhecidos.
“À agitação ordinária, decorrente da pregação e das curas — escreve Cardeal Goma y Tomás —, acrescentava-se a proximidade da Páscoa, que transformava a cidade marítima em centro de confluência das caravanas que subiam para Jerusalém. ‘Porque eram muitos os que iam e vinham, e nem tinham tempo para comer’. Por isso se dirigiram à praia e, entrando numa barca. ‘retiraram-se à parte, a um lugar solitário’ do território de Betsaida. Havia duas cidades com este nome: uma na parte ocidental do lago, pátria de Pedro e André, e a outra na parte oriental, em direção ao norte, junto à foz do Jordão. Recebera o nome de Betsaida Júlias, porque o tetrarca Filipe, que a tinha embelezado, quis quese chamasse Júlias, em homenagem à filha de César Augusto. A barquinha que conduzia Jesus e os Apóstolos aportou no outro lado do mar da Galiléia, ou seja, de Tiberíades, junto à planície solitária que se abre ao sul de Betsaida. João escreve para os fiéis da Ásia, que desconheciam a topografia da Palestina, indicando-lhes a localização do mar pelo nome da cidade que lhe dá origem ao nome”.
A caridade pode ser definada como a própria vida de Deus em nós. Ora, Deus é ao mesmo tempo contemplação e ação. Por outro lado, a virtude é eminentemente difusiva. Por isso afirma São Tiago ser morta a fé quando não frutifica em obras (Tg2,17). De onde decorre ser a vida mista, segundo São Tomás de Aquino, a mais perfeita, por conjugar ação e contemplação.
Assim, no Evangelho de hoje, Jesus nos ensina quanto devemos ser perfeitos no convívio com Deus, quer no isolamento, quer no relacionamento com os outros.

Jesus nos governa com doçura
33 Porém, viram-nos partir, e muitos perceberam para onde iam e acorreram lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram primeiro que eles.
Não sabemos se, devido ao vento, o barco terá dado suas voltas em sentido contrário, ou se resolveram retardar o deslocamento pelo fato de a conversa ter atingido uma aprazível atração. O certo é que um grande público os precedeu naquela distância de 12 quilômetros (12). Homens, mulheres, crianças — vários dos quais enfermos — atravessaram o Jordão num verdadeiro testemunho de fé e de devoção a Jesus. “Assim também, não devemos esperar que Cristo nos chame, mas devemos nos antecipar para ir até Ele”, conforme pondera Teófilo (13).
É para nós, esta passagem, um excelente incentivo e convite para procurarmos um convívio mais intenso e prolongado com nosso Salvador. Há quanto tempo não nos aguarda Ele, debaixo das Sagradas Espécies, nos tabernáculos de todas as igrejas?
Ovelhas sem pastor – compaixão de Jesus
34 Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.
A primeira Leitura deste 16º Domingo do Tempo Comum nos traz esta Lamentação de Jeremias: “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho miúdo de minha pastagem! (...) Reunirei o que restar das minhas ovelhas (...) e as trarei para as pastagens em que se hão de multiplicar” (23, 1-3). São os gemidos do próprio Deus em vista de suas almas fiéis em situação de abandono.
Também Ezequiel, por inspiração divina, condena dura e severamente em seu capítulo 34 os maus pastores de Israel e anuncia que Deus enviará às suas ovelhas um Bom Pastor, e este “será príncipe no meio delas” (v. 24). De fato, aqui é Ele contemplado no versículo que estamos comentando.
Deus demonstrou verdadeiro amor divino ao criar a função de pastor entre os homens, pois desejava servir-Se dela para melhor simbolizar seu insuperável zelo por todos nós. Não sem razão, enviou seus Anjos a convidar os pastores da região de Belém para serem os primeiros a adorá-Lo no presépio. E Ele Se apresenta como o Pastor Perfeito, pois é Aquele que dá a vida por suas ovelhas (Cf. Jo 10,11), conforme maravilhosamente comenta São Gregório Magno em sua Homilia nº 14.
Ao descer da barca, Jesus se compadece daquelas ovelhas sem pastor e passa a ensiná-las. Não as instruía, porém, só com palavras. Muito mais! Sobretudo se levarmos em conta seu cuidado pela alimentação de toda aquela multidão, tal como transparecerá no milagre da multiplicação dos pães e peixes, narrado nos versículos seguintes. Jesus comunicava sua graça, sua vida, seu amor. Quão inefável devia ser o desvelo d’Ele ao ensinar suas ovelhas, pois, mais do que dar a vida por elas, desejava ser a própria vida delas! Ele vive em cada uma das ovelhas que se deixam perpassar por sua graça, e está sempre pronto a auxiliá-las e oferecer-lhes os Sacramentos.
O governo pastoral
Neste mesmo versículo, Jesus se torna excelente exemplo para todo tipo de governo, quer seja familiar,  quer civil ou eclesiástico. Mas deste último, de maneira especial, pela forma toda paternal — quase se poderia dizer “maternal” — com que deve ser exercido: com enorme doçura e suavidade, grande empenho e dedicação.
Por isso, o governo eclesiástico é chamado “pastoral”, seus documentos são denominados “pastorais”, etc.
Belíssimas são as palavras de São Pedro a esse respeito: “Apascentai o rebanho de Deus que vos está confiado, tende cuidado dele, não à força, mas de boa vontade, segundo Deus; não por amor de lucro vil, mas por dedicação; não como tiranos daqueles que vos foram confiados, mas fazendo-vos modelo do rebanho. Quando o Príncipe dos Pastores aparecer, recebereis a coroa de glória que jamais murchará” (1 Pd 5, 2-4).
1) Confissões Livro 1, n. 31.
2) Suma Teológica I-II, q. 2, a.8.
3) In III Politicorum lect. 5, n. 387.
4) J. M. L. Brandão, “Diversidade de dons e um só Senhor”, in Arautos do Evangelho nº 50, fev. 2006, p. 32.
5) Cf. Suma Teológica, II-II, q.26, a. 13.
6) Juan de Maldonado SJ, Comentarios a los cuatro Evangelios, BAC, Madrid, 1951, v. II, p. 124.
7) Obras Completas, BAC, Madrid, 1946, p. 1200.
8) Echad las redes – Reflexiones sobre los Evangelios ciclo B, Edicep, 2003, p. 259.
9) Biblia Comentada, BAC, Madrid, 1964, v. II, p. 675.
10) Cf. Imitação de Cristo, Liv. I, c. 20, m.1.
11) El Evangelio Explicado, Ed. Acervo, Barcelona, 1966, vol. I, p. 664.
12 ) Cf. Pe. Andrés Fernández Truyols SJ, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, BAC, Madrid, 1956, v. III, p. 335.
13) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea, in Mc.