Comentários ao Evangelho da Solenidade de Todos os Santos - Mt 5, 1-12a
Naquele tempo, 1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los:
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos
Céus.
4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão
saciados.
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de
Deus.
10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque
deles é o Reino dos Céus!
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e,
mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12a Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”. ( Mt 5, 1-12a)
Comentários à liturgia da Solenidade de Todos os Santos
Mons.
João Clá Dias
A festa dos irmãos celestes
Na Solenidade de
Todos os Santos a Igreja nos convida a ver com esperança nossos irmãos
celestes, como estímulo para percorrermos por inteiro o caminho iniciado com o
Batismo e atingirmos a plena felicidade na glória da visão beatífica.
OS SANTOS, IRMÃOS CELESTES?
Na Solenidade de Todos os
Santos a Igreja celebra todos aqueles que já se encontram na plena posse da
visão beatífica, inclusive os não canonizados. A Antífona da entrada da Missa
nos faz este convite: ‘Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de
Todos os Santos”.’ Sim, alegremo-nos, porque santos são também — no sentido
lato do termo — todos os que fazem parte do Corpo Místico de Cristo: não só os
que conquistaram a glória celeste, como também os que satisfazem a pena
temporal no Purgatório, e os que, ainda na Terra de exílio, vivem na graça de
Deus. Quer estejamos neste mundo como membros da Igreja militante, quer no
Purgatório como Igreja padecente, quer na felicidade eterna, já na Igreja
triunfante, somos uma única e mesma Igreja. E como seus filhos temos irmandade,
conforme diz São Paulo aos Efésios: “já não sois hóspedes nem peregrinos, mas
sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19).
Os Santos intercedem por nós e dão exemplo
É por isso que o Prefácio desta
Solenidade reza: “Festejamos, hoje, a cidade do Céu, a Jerusalém do alto, nossa
mãe, onde nossos irmãos, os Santos, vos cercam e cantam eternamente o vosso
louvor. Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da
fé. Contemplamos, alegres, na vossa luz, tantos membros da Igreja, que nos dais
como exemplo e intercessão”.2
Assim, caminhando “na penumbra da fé”, voltemos a atenção para
os Bem-aventurados — nossos irmãos, se vivermos na graça de Deus —, pois eles
estão mais perto d’Aquele que é Cabeça
desse Corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles são motivo de esperança para os
que padecem nas chamas do Purgatório. E para nós, que possuímos pelo Batismo o
germe dessa glória da qual eles já gozam, são modelo da santidade de vida que
devemos alcançar. Todo nosso empenho será pouco para obter que essa semente se
transforme em árvore frondosa, no pleno desabrochar de suas flores e com
abundância de frutos, isto é, a glória eterna, nossa meta última.
Precisamos avançar, então, rumo
aos que estão na presença de Deus com o mesmo desejo com que procuraríamos
nossa família, caso não a conhecêssemos, pois, entre os membros de uma família
harmônica e bem constituída existe um imbricamento, fruto da consanguinidade,
tão inquebrantável que, por exemplo, se um dos irmãos atinge uma situação de
prestígio, todos os demais se regozijam. Muito maior há de ser a união daqueles
que, pela filiação divina, pertencem à familia de Deus, e maior também a
alegria ao contemplarmos nossos irmãos louvando a Deus no Céu, por todo o
sempre, e intercedendo por nós junto a Ele.
Tais pensamentos nos dão a
clave para analisar o florilégio das leituras que a Santa Igreja separou para
esta Solenidade.
CHAMADOS A NOS REUNIRMOS NO CÉU
Na primeira leitura, do
Apocalipse (7, 2-4.9-14), é cheia de beleza e, ao mesmo tempo, difícil de ser
explicada com profundidade, em todos os seus simbolismos. Detenhamo-nos apenas
em dois aspectos que a relacionam especialmente com esta comemoração. “Eu,
João, vi um outro Anjo que subia do lado onde nasce o Sol. Ele trazia a marca
do Deus vivo, e gritava, em alta voz, aos quatro Anjos que tinham recebido o
poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: ‘Não façais mal à terra, nem
ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marca do na fronte os servos do nosso
Deus” (Ap 7, 2-3). Este bonito trecho deixa patente que Deus só promoverá o fim
do mundo quando forem ocupados todos os lugares do Céu e a coorte dos
Bem-aventurados se tenha completado. Vemos como Deus, para além das ofensas
cometidas contra Ele e antes de enviar o castigo à Terra, cuida de seus Santos,
daqueles que Ele escolheu.
Logo em seguida, continua São
João: “Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta
e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel” (Ap 7, 4). Este número
dos que seguem o Cordeiro por toda parte (cf. Ap 14, 4) é simbólico, pois a
quantidade de Santos do Céu é incalculável. Ao criar o Céu Empíreo — que,
segundo São Tomás,3 foi a primeira criatura a sair das mãos de Deus, junto com
os Anjos —, tinha Ele, desde toda a eternidade, o plano de povoá-lo com outros
seres inteligentes que, além dos espíritos angélicos, fossem partícipes da
natureza divina e, portanto, sócios de sua felicidade eterna.
Eis o apelo feito a nós na
Liturgia de hoje: desejar e abraçar a via da santidade para fazer parte destes
cento e quarenta e quatro mil.
O predomínio do mal depois do pecado original
Ora, a partir do pecado
original o homem passou a se interessar de forma intemperante pelas coisas
materiais, e aos poucos se esqueceu de Deus. Estabeleceu-se na face da Terra a
luta entre o bem e o mal, entre as volúpias da carne e o chamado de Deus à
santidade, e no relacionamento humano entrou o mal com uma virulência
extraordinária, pois este é dinâmico, enquanto o bem é apenas difusivo.4 Com
efeito, se não fosse a sustentação da graça, o mal dominaria completamente em
nós e derrotaria o bem.
Desde o primeiro Santo, até Nosso Senhor Jesus Cristo
Isto se faz patente logo após a
saída de Adão e Eva do Jardim do Eden, na história de seus dois primeiros
descendentes, Caim e Abel. Abel era um filho da luz, reto e justo, cujos
Sacrifícios oferecidos a Deus eram aceitos com enorme benevolência (cf. Gn 4,
4). Caim, pelo contrário, nutria em sua alma o nefasto vício da inveja que,
tendo chegado ao auge, levou-o a matar seu irmão, derramando sangue inocente.
Em seguida, tomado de amargura e depressão, em consequência de seu pecado, Caim
quis fugir da face do Senhor, com a ilusão característica do pecador que julga
poder ocultar-se de Deus, assim como se esconde do olhar dos homens (cf. Gn 4,
8.14).
Qual não terá sido o espanto de
Eva ao carregar o cadáver de seu filho nos braços e deparar-se, pela primeira
vez, com o efeito do pecado cometido no Paraíso! A alma de Abel, porém, no
instante em que se destacou do corpo foi para o Limbo dos Justos, à espera da
vinda do Salvador que lhe abriria as portas do Céu. Precedendo os pais, ele
encabeçou o cortejo dos Santos, daqueles que, aos poucos, constituiriam o
número dos que de veriam passar desta vida à eterna bem-aventurança.
A Encarnação do Verbo trouxe ao mundo uma plêiade de Santos
Entretanto, a Encarnação do
Verbo e sua presença visível entre os homens trouxe ao mundo uma plêiade de
Santos: desde os mártires inocentes, até o bom ladrão que, tendo implorado
misericórdia, obteve dos lábios do próprio Deus o prêmio de ser perdoado e
santificado: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Le 23, 43). Quando Jesus expirou
na Cruz, sua Alma desceu ao Limbo, onde, decerto, o primeiro a recebê-Lo foi
São José, que O aguardava havia poucos anos. Mas foi no dia de sua gloriosa
Ascensão que o Redentor levou consigo essa coorte exultante de justos,
introduzindo-os no Céu a fim de começar a povoá-lo. Em certo momento, com
gáudio para os Bem-aventurados, Maria Santíssima subiu em corpo e alma, e foi
coroada como Rainha do universo.
Ficaram escancaradas as portas da santidade
Ao longo dos vinte séculos de
História da Igreja, as moradas eternas acolheram os mártires, os doutores, os
confessores... pois foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem abriu definitivamente as
portas da santidade a todos os homens, com a superabundância de sua graça e sua
doutrina nova dotada de potência (cf. Lc4, 32; Mc 1, 22).
Sinopse desta doutrina é o
Sermão da Montanha, cujo centro é o Evangelho escolhido para esta Solenidade: a
proclamação das Bem-aventuranças. De fato, elas são o resumo de toda a moral
católica, de toda via de perfeição, de toda a prática da virtude, e se neste
dia comemoramos as miríades de Santos que habitam o Paraíso Celeste, é porque
eles realizaram em sua vida aquilo que o Divino Mestre delineia como causa de
bem-aventurança.
Tendo comentado este Evangelho
em outras ocasiões,5 nos limitaremos agora a dar uma síntese dos ensinamentos
nele contidos, em harmonia com a Solenidade hoje celebrada.
O contraste entre a Antiga e a Nova Lei
Em primeiro lugar, apreciemos o
contraste desta cena do Sermão da Montanha com outro importante discurso da
História Sagrada: a promulgação da Antiga Lei, no Monte Sinai (cf. Ex 19—23).
Parece que Nosso Senhor quis estabelecer de propósito uma contraposição entre
ambos os episódios, a fim de mostrar a beleza existente na Nova Lei que Ele
veio trazer, levando a Lei Antiga a maior perfeição (cf. Mt 5, 17).
No Sinai, Deus permanece no
cume da montanha e Moisés tem de subir até lá para receber as Tábuas da Lei.
Cristo, pelo contrário, desce à meia altura do monte para Se encontrar com o
homem e entregar-lhe, Ele próprio, a Nova Lei. Assim, uma Lei é promulgada no
cimo da montanha, outra na orla. Enquanto no Sinai o homem deve subir até Deus,
na montanha em que Jesus faz seu sermão, Deus desce até o homem.
No Sinai, o Todo-Poderoso Se
apresenta em meio a trovões, relâmpagos, escuridão e som ensurdecedor de trombeta;
na montanha, o Salvador senta-Se entre os homens, num ambiente suave, sereno e
tranquilo, sem especiais manifestações da natureza. No Sinai, o povo tinha
proibição de tocar a base do monte, pois morreria se o fizesse; na montanha, a
multidão está próxima de Jesus e pode tocá-Lo, porque d’Ele emana uma virtude
que cura a todos.
No Sinai, foi dado a Moisés um
código de leis, verdadeiro código penal, com severos castigos para quem o
transgredisse; na montanha, Nosso Senhor mostra, com misericórdia sem limites,
quais os prêmios, os benefícios e as maravilhas concedidas por Deus a quem
pratica a virtude e cumpre a Lei.
No Sinai, Moisés representa a
Lei, servindo de exemplo por seu zelo em cumprir essa mesma Lei; na montanha,
Jesus Cristo é o modelo perfeito da lei da bondade.
No Sinai, para ouvir as
prescrições divinas poderia subir qualquer homem, desde que fosse eleito por
Deus; na montanha, porém, só o Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade Encarnada, podia pronunciar aquele Sermão, pois
unicamente Ele, enquanto Messias, tinha autoridade para aperfeiçoar a Lei
Antiga.
Nessa perspectiva de bondade,
Jesus proclama as Bem-aventuranças, mostrando a que alturas é capaz de se
elevar uma alma pelo florescimento dos dons do Espírito Santo, produzindo atos
de virtude heroica. Tais frutos podem brotar de maneira isolada, mas, em geral,
quando o santo chega à plenitude da união com Deus, todas as bem- aventuranças
se verificam numa única florada. Ser santo, então, significa ser um bem-aventurado
no tempo para depois se-lo na eternidade.
A filiação divina nos conteve uma qualidade
Em que consiste, pois, essa
bem-aventurança? Na segunda leitura (I Jo 3, 1-3) desta Liturgia, um lindíssimo
trecho da Primeira Epístola de São João — o Apóstolo do Amor, exímio
espiritualista, sempre dado a ressaltar a vida sobrenatural — nos dá a
resposta, lembrando o valor da nossa condição de filhos de Deus: “Vede que
grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus. E nós
realmente o somos” (I Jo 3, la). Na verdade, por ocasião do Batismo, embora a
natureza humana continue a mesma, com inteligência, vontade e sensibilidade,
acrescenta-se uma qualidade: a participação na própria natureza divina, que nos
assume por completo. A graça, explica São Boaventura, “é um dom que purifica,
ilumina e aperfeiçoa a alma; que a vivifica, a reforma e consolida; que a
eleva, a assimila e a une a Deus, tornando-a aceitável; pelo que semelhante dom
justamente chama-se graça, pois nos faz gratos, isto é, graça gratificante”.6
Sendo um bem do espírito, não
pode ser vista com os olhos materiais pois estes captam só o que é sensível,
mas comprovamos, isto sim, seus efeitos. Santa Catarina de Sena, a quem Nosso
Senhor concedera a graça de contemplar o estado das almas, chegou a afirmar a
seu confessor: “Meu pai, se vísseis o fascínio de uma alma racional, não duvido
que daríeis cem vezes a vida pela sua salvação, porque neste mundo nada há que
se lhe possa igualar em beleza”.7
Certas imagens podem servir para
termos uma ideia, ainda que pálida, das maravilhas operadas pela graça nas
almas. Imaginemos um vitral esplendoroso, com uma perfeita combinação de cores,
fabricado com vidro da melhor qualidade, contendo até ouro na sua composição.
Uma vez posto na janela, se não é iluminado, que valor terá peça tão
espetacular? Entretanto, a partir do momento em que os raios de luz sobre ele
incidem, brilhará com extraordinários matizes, desdobrando-se em mil reflexos
multicoloridos.
Outra comparação que também nos
aproxima da realidade sobrenatural é a de um litro de álcool no qual são
derramadas algumas gotas de fabulosa essência, finíssima e de requintado aroma.
Sem deixar de ser álcool, o líquido torna-se perfume, pois é assumido pela
essência.
Da mesma forma como a luz
ilumina o vitral e a essência assume o álcool — e ainda poderíamos encontrar na
natureza outras imagens ilustrativas —, também a graça confere nova qualidade à
alma humana, que é, por assim dizer, submersa na natureza divina, como comenta
Scheeben: “Se dentre todos os homens e todos os Anjos escolhesse Deus uma só
alma, para comunicar-lhe o esplendor de tão inesperada dignidade, [...]
deixaria estupefatos não só os mortais, mas ainda os mesmos Anjos, que se
sentiriam quase tentados a adorá-la, como se fora Deus em pessoa”.8 Tal é a
excelência da filiação divina!
Uma semente da glória futura
Filhos de Deus... “nós o somos!
Se o mundo não nos conhece é porque não conheceu o Pai. Caríssimos, desde já
somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos” (I Jo 3,
lb-2a). De fato, enquanto permanecemos neste mundo, em estado de prova, temos a
graça santificante, recebida no Batismo, e as graças atuais, que Deus derrama
sobre nós ao longo da nossa existência. Todavia, estamos apenas no começo do caminho,
pois, só quando contemplarmos a Deus face a face, esta graça se transformará em
glória e chegaremos ao “estado de homem feito, a estatura própria da maturidade
de Cristo” (Ef 4, 13).
A ideia da felicidade eterna
Esta é a felicidade absoluta da
qual nossos irmãos, os Santos, já gozam em plenitude na eternidade e com a qual
nenhuma consolação desta vida é comparável. Nossa ideia a propósito da
felicidade é tão humana, que julgamos, muitas vezes, possuí-la em grau máximo
ao obter algo que muito desejamos. A mera inteligência do homem não alcança a
compreensão da felicidade do Céu, pois em relação a Deus somos como formigas
que, andando pela terra, levantassem a cabeça para olhar o voo de uma águia no
céu. A diferença entre uma formiga e uma águia é ridícula perto da infinitude
existente entre a razão humana e a inteligência divina. E ainda que, dotados de
uma capacidade incomum, passássemos trezentos bilhões de anos estudando, nosso
verbo continuaria falho e não encontraríamos termos para nos expressarmos devidamente
a respeito de Deus.
A essência divina é definida
pela teologia como o Ser subsistente por Si mesmo,9 que Se conhece, Se entende
e Se ama por inteiro, tal qual é.10 Desde toda a eternidade, isto é, sem haver
princípio, Deus, contemplando-Se, Se compreende inteiramente enquanto Ser
incriado, necessário e superexcelente, que não depende de ninguém, que Se
basta; e nisto consiste sua felicidade absoluta. Contudo, seu próprio
conhecimento é tão rico que gera uma Segunda Pessoa, o Filho, idêntico a Ele e
tão feliz como Ele. Ambos Se amam, e deste mútuo amor entre Pai e Filho procede
uma Terceira Pessoa, também feliz: o Espírito Santo. Assim, há três Pessoas,
num só Deus, a Se conhecerem, Se entenderem e Se amarem, numa perpétua alegria,
sem origem no tempo e sem fim, eternamente!
Um empréstimo da inteligência divina
Pois bem, em seu infinito amor,
Deus quis dar às criaturas inteligentes, Anjos e homens, um empréstimo de sua
luz intelectual, o lumen gloriæ, para
que possam nela entendê-Lo tal qual Ele Se entende — guardadas as proporções
entre criatura e Criador —, já que, segundo explica São Tomás, “a capacidade
natural do intelecto criado não basta para ver a essência de Deus” sem ser
aumentada pela “graça divina”.” E por mais que seccione sua luz, Ele sempre
permanecerá imutável e em nada será diminuído, pois é infinito.
O eminente dominicano padre
Santiago Ramírez define o lumen gloriæ como “um hábito intelectual operativo,
infuso per se, pelo qual o entendimento criado se faz deiforme e torna-se
imediatamente disposto à união inteligível com a própria essência divina, e se
torna capaz de realizar o ato da visão beatífica”.12
Esse “fazer-se deiforme”
significa que quem entra na bem-aventurança e contempla a Deus face a face se
torna semelhante a Ele, como afirma São João na continuação de sua Epístola:
“Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O
veremos tal como Ele é” (I Jo 3, 2b). Só no Céu veremos a Nosso Senhor Jesus
Cristo de fato, uma vez que enquanto viveu na Terra ninguém O viu tal qual Ele
é. Nem mesmo na Transfiguração, quando tomou, enquanto qualidade passageira, a
claridade inerente ao corpo glorioso 13 — como tivemos oportunidade de analisar
em comentários anteriores —, São Pedro, São Tiago e São João chegaram a contemplar
a essência de sua divindade, pois, do contrário, a alma deles ter-se-ia
destacado do corpo.
“Todo o que espera n’Ele
purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (I Jo 3, 3). Quanto mais
aumenta em nós a esperança desse encontro e dessa visão, e, portanto, quanto
mais crescemos no desejo de nos entregarmos a Deus e de Lhe pertencermos por
inteiro na caridade, mais nos purificamos do amor-próprio e do egoísmo
profundamente enraizados em nossa natureza. Devemos ter bem presente que não
existem três amores, mas apenas dois: o amor a Deus levado até o esquecimento
de si mesmo ou o amor a si levado até o esquecimento de Deus.14
SIGAMOS O EXEMPLO DAQUELES QUE NOS PRECEDERAM NA GRAÇA E NOS ESPERAM
NA GLÓRIA!
O homem, ainda quando privado
da graça, tem uma apetência de infinito que não descansa enquanto não for
saciada pela união com Deus. E o que revela Santo Agostinho, em suas
Confissões: “E eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e fora Te procurava;
e, disforme como era, lançava-me sobre as coisas belas que criaste. Tu estavas
comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de Ti aquelas coisas que,
se não estivessem em Ti, não existiriam”.15 Essa felicidade imensa e
indescritível, para a qual todos nós somos criados, só a atingiremos seguindo
os passos daqueles que nos precederam com o sinal da Fé e que já gozam dela,
por sua fidelidade a tal chamado.
Peçamos que essa
bem-aventurança eterna seja também para nós um privilégio, pelos méritos de
Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora e da intercessão de
todos os Santos que hoje comemoramos, a fim de um dia nos encontrarmos em sua
companhia no Céu. Enquanto lá não chegarmos, podemos nos relacionar com essa
enorme plêiade de irmãos celestes, membros do mesmo Corpo, por um canal direto
muito mais eficiente do que qualquer meio de comunicação moderno: a oração, o
amor a Deus e o amor a eles enquanto unidos a Deus. Tenhamos a certeza de que,
do alto, eles nos olham com benevolência, rogam por nós e nos protegem.
1 SOLENIDADE DE TODOS OS
SANTOS. Antífona da entrada. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição
típica para o Brasil’ realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados
pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.691.
2) Idem, Prefácio, p.692.
3) cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Suma Teológica. I, q.61, a.4.
4) cf. Idem, q.5, a.4, ad
2.
5) Cf. CLÁ DIAS, EP, João
Scognamiglio. Radical mudança de padrões no relacionamento divino e humano. In:
Arautos do Evangelho. São Paulo. N.109 (Jan., 2011); p.10-16; Comentário ao
Evangelho do IV Domingo do Tempo Comum — Ano A,no Volume II desta coleção.
6) SÃO BOAVENTURA.
Breviloquio. PV, c.1, n.2. In: Obras. 3.ed. Madrid:
BAC. 1968, v.1, p.324.
7) BEATO RAIMUNDO DE
CÁPUA. Santa Caterina da Siena. 5.ed. Siena: Cantagalli,
1994, p.149.
8) SCHEEBEN, Matthias Joseph. As maravilhas da graça divina. Petrópolis:
Vozes, 1952, p.29.
9) Cf. ROYO MARÍN, OP,
Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.47-49.
10) cf. SAO TOMAS DE
AQUINO, op. cit., q.14, a.2-4; q.20, al.
11) Idem, q.12, a.5.
12) RAMÍREZ, OP,
Santiago. De hominis beatitudine. In I-Il Summæ Theologice Divi
Thomæ commentaria (QQ. 1-y). II P., Q.II, Sect.III, n.298. Madrid: Instituto de Filosofía
Luis Vives, 1972, t.IV, p.342.
13) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO, op. cit., III, q.45, a.2.
14) Cf. SANTO AGOSTINHO.
De Civitate Dei. L.XIV, c.28. In: Obras. Madrid: BAC,
1958, v.XVI-XVII, p.984.
15) SANTO AGOSTINHO.
Confessionum. L.X, c.27, n.38. In: Obras. 6.ed. Madrid:
BAC, 1974, v.11, p.424.
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