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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Comentário ao Evangelho –  Mt 6, 1-6.16-18 quarta-feira de cinzas

 Comentário ao Evangelho –  Mt 6, 1-6.16-18 quarta-feira de cinzas
1 “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2 Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 3 Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará.
5 Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa.
16 Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa” (Mt 6, 1-6.16-18).
Comentário ao Evangelho – Quarta-Feira de Cinzas
O centro deve estar sempre ocupado por Deus
No jejum, na oração ou na prática de qualquer boa obra, não se pode erigir como fim último o benefício que daí possa nos advir, mas sim a glória d’Aquele que nos criou. Pois tudo quanto é nosso — exceção feita das imperfeições, misérias e pecados — pertence a Deus.
Tempo de penitência e reconciliação
Por meio do Ciclo Litúrgico, com sabedoria e didática, rememora a Igreja ao longo do ano os mais importantes episódios da existência terrena do Verbo Encarnado. As solenidades da Anunciação e do Natal, as comemorações do Tríduo Pascal e da Ascensão de Nosso Senhor aos Céus, entre outras, compõem um variado caleidoscópio, apresentando à piedade dos fiéis diferentes aspectos da infinita perfeição de nosso Redentor. As graças dispensadas pela Providência em cada um desses momentos históricos revivem, de certo modo, e se derramam sobre aqueles que devotamente participam dessas festividades.
Precedendo as solenidades mais importantes — o Nascimento do Salvador e sua Paixão, Morte e Ressurreição — a Igreja destina dois períodos de preparação: o Advento e a Quaresma, pois convém que, para celebrar tão elevados e sublimes mistérios, os fiéis purifiquem suas almas das misérias e apegos, tornando-as mais aptas a receber as dádivas celestes.
Na Quarta-Feira de Cinzas têm início os quarenta dias que antecedem a Semana Santa. As três leituras desse dia — uma passagem do Profeta Joel, um trecho de uma epístola de São Paulo e outro do Evangelho — nos falam da necessidade do jejum e da penitência como meios de melhor combater os vícios, pela mortificação do corpo, e propiciar a elevação da mente a Deus. Pois, segundo nos ensina o Papa São Leão Magno, “nós nos mortificamos para extinguir em nós a concupiscência. E o resultado da mortificação deve ser o abandono das ações desonestas e dos desejos injustos”.1
Como mais adiante veremos, os textos litúrgicos em questão fazem referência, sobretudo, a um tipo de penitência que agrada especialmente a Deus e que é essencial para nossa vida espiritual. Trata-se de evitar os exageros do amor próprio, procurando não atrair as atenções dos outros sobre si mesmo, de maneira que a alma, limpa e ornada da virtude da humildade, ofereça ao Senhor um sacrifício de agradável perfume.
“Lembra-te, homem, de que és pó”
De forma cogente, a liturgia da Quarta-Feira de Cinzas recorda-nos também nossa condição de mortais: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris — Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó hás de voltar”, diz, de modo categórico, uma das duas fórmulas usadas pela Igreja para a imposição das cinzas.2 Após a cerimônia, a fronte dos fiéis fica marcada por um traço escuro cujo aspecto trágico e carente de beleza parece proclamar: “De uma hora para outra, podemos ser levados pela morte, retornando ao pó!”.
A consideração da árdua passagem desta vida para a eternidade muitas vezes nos inquieta. Entretanto, tal pensamento é altamente benfazejo para compenetrar-nos da necessidade de evitar o pecado que, sem o arrependimento e o imerecido perdão, poderá fechar-nos, para sempre, as portas do Céu: “Lembra-te de teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40). A esse propósito, com propriedade, Dom Próspero Gueranger recomenda: “Se quisermos perseverar no bem, onde a graça de Deus nos restabeleceu, sejamos humildes, aceitemos a sentença, e não consideremos a vida senão como uma caminhada mais ou menos longa que termina no túmulo”.3
“Deixai-vos reconciliar com Deus”
Na própria primeira leitura de hoje, incentiva-nos São Paulo a vivermos na graça de Deus: “Em nome de Cristo, vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!” (II Cor, 5, 20). E com toda razão, pois o pecado nos afasta de Deus, tornando necessária a reconciliação. A Doutrina Católica nos ensina que nem mesmo os incomensuráveis méritos de Nossa Senhora somados aos dos Anjos e dos Bemaventurados, e aos de todos aqueles que poderiam ter sido criados e não o foram, seriam suficientes para reparar a ofensa de um só pecado venial. Quanto mais em se tratando de uma falta grave!
Só mesmo o Adorabilíssimo Sangue de Deus teria mérito infinito para redimir as ofensas cometidas pelos homens, desde Adão e Eva, como, com a elevação de linguagem de sempre, mostra-nos São Paulo: “Aquele que não conheceu o pecado, Deus O fez pecado por nós, para que n’Ele nós nos tornássemos justiça de Deus” (II Cor 5, 21). A Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, com sua Paixão e Morte na cruz, foi o meio escolhido para restituir à humanidade transviada a plena amizade com Deus. E, por serem insuperáveis as operações divinas, tal foi a superabundância de graça conquistada pelo sacrifício do Calvário que, mesmo a soma de todas as possíveis faltas dos homens jamais tornará insuficientes os méritos infinitos do Preciosíssimo Sangue de Cristo.4
Se Jesus não tivesse assumido sobre Si a dívida contraída por nossos primeiros pais, por meio da oblação de seu Corpo, impossível seria nossa reconciliação com Deus 5 e teríamos para sempre fechadas as portas do Céu.
Amor próprio, oração e jejum
Na passagem do Evangelho que hoje analisamos, vemos o Divino Mestre tomar como exemplo didático uma cena característica daqueles tempos. Sob uma perspectiva histórica, Ele censura uma atitude corrente, sobretudo entre os fariseus. Mas, sendo eterna a palavra de Deus, contém ela uma lição para os homens de todos os séculos.
O principal sorvedouro por onde se escoam os méritos
1“Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus”.
Difícil era fariseus serem alheios à hipocrisia. Levados por um supino orgulho, voltavam-se para si mesmos a ponto de se esquecer de Deus, fazendo suas boas obras com o intuito de angariar prestígio “diante dos homens”.
O defeito apontado por Nosso Senhor neste versículo era comum entre eles, e infelizmente não é raro também em nossos dias. Trasbordam das Sagradas Escrituras conselhos sobre esse pecado capital, raiz de muitos vícios, principalmente no livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2). É essa a preocupação do Divino Mestre.
A respeito dos atos humanos podemos afirmar que alguns são neutros, como por exemplo, cantar ou pintar. A substância e o mérito lhes advêm da intenção e da finalidade com as quais os executamos. Outros são bons de per se, por estarem ordenados pela razão a um objetivo honesto. Mas, segundo o Doutor Angélico, “pode acontecer que um ato em si mesmo virtuoso se torne, eventualmente, vicioso, devido a certas circunstâncias”.6
Ora, a vaidade macula muitas vezes nossos atos de virtude e nos rouba os méritos. Pois, como sublinha o Cardeal Gomá, ela é “um perniciosíssimo inimigo das boas obras: praticá-las com o escopo de ser visto e admirado pelos outros, é perder a recompensa que lhes corresponde quando são feitas com reta intenção”.7
Afirmam os mestres da vida espiritual ser a vaidade um vício tão arraigado no homem que, por assim dizer, somente o abandona meia hora depois de sua morte. Para vencêlo, requer-se muita oração, paciência e esforço. Oração, porque por meio dela se obtêm as graças para combatê-lo. Paciência e esforço, porque devemos lutar contra ele dia e noite, impedindo-o de instalar-se em nossa alma, como recomenda São João Crisóstomo: “É necessário prestar muita atenção em sua entrada, do mesmo modo como alguém põe-se em guarda contra uma fera prestes a atacar quem não está vigilante”.8
Poderíamos, então, usar uma expressão forte, mas muito verdadeira: a vaidade é o principal sorvedouro por onde se escoam os méritos das nossas orações e boas obras. Ela é também um veneno para a alma, porque a deixa desprovida de forças para enfrentar as tentações e, portanto, exposta a toda espécie de fraquezas e capitulações.
Convém notar, de outro lado, que ao dizernos: “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, não nos convida o Mestre a sempre nos ocultarmos para fazer o bem, pois praticar a justiça diante dos homens pode ser motivo de edificação para o próximo e de glória para o Criador, como sublinha o grande Bossuet: “Ele não nos proíbe de praticar a justiça cristã em todas as oportunidades, para edificação do próximo; pelo contrário, disse Ele: ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’. [...] Edificai o próximo, por vossas ações externas, e tudo em vós, até mesmo um piscar de olhos, seja ordenado, mas tudo se faça com naturalidade e simplicidade, visando dar glória a Deus”.9
Dar esmola visando o aplauso
2 “Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Não tendo recebido ainda a seiva regeneradora do Cristianismo, na humanidade daquela época imperava de tal modo o egoísmo, que o dar esmola era prática incomum. Quem o fazia, julgava-se merecedor do aplauso dos demais, por sua pretensa bondade. Daí ser costume dar esmola “com muita ostentação”.10
Mais ainda: “Parece que, para excitar a generosidade, estabeleceu-se o hábito de proclamar o nome dos doadores [...] e chegava-se mesmo a honrá-los, oferecendo-lhes os primeiros lugares na sinagoga”.11
Ora, ensina Nosso Senhor, nesta passagem do Evangelho, que quem dá esmola para obter a aprovação dos outros pode considerar-se bem pago pelos elogios assim obtidos. Não lhe cabe esperar um prêmio sobrenatural, pois, conforme acentua o padre Tuya, “Deus recompensa em justiça sobrenatural somente aquilo que se faz sobrenaturalmente por amor a Ele, assim como repugna-Lhe esse censurável procedimento que é a hipocrisia farisaica”.12
Quem, entretanto, dá esmola discretamente, apenas diante de Deus e por amor a Deus, este sim, d’Ele receberá a recompensa.
O prêmio, devemos esperá-lo apenas de Deus
3 “Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará”.
 No versículo anterior, Nosso Senhor recrimina aqueles que visam a vanglória na prática da esmola; neste, censura-nos o comprazimento vaidoso ao realizarmos as boas obras. Para combater esse defeito, precisamos esforçar-nos para não deter nossa atenção naquilo que fazemos de bom. “Se fosse possível — comenta Bossuet —, seria necessário esconder de vós mesmos o bem que fazeis; procurai ocultar a vossos olhos pelo menos o seu mérito; [...] empenhai-vos na prática da boa obra a ponto de jamais vos preocupar com o que dela vos resultará: deixai tudo por conta de Deus, assim só Ele vos verá, vos ocultareis de vós mesmos”.13
Na mesma linha opina o Cardeal Gomá: “Se possível fosse, até nós deveríamos ignorar nossas esmolas. A recompensa, devemos esperá-la somente de Deus”.14
Complementando essas afirmações, esclarece Maldonado: “Não há culpa em ser visto pelos outros quando se faz o bem, mas sim em desejar ser visto. Também não há culpa em querer ser visto, desde que não seja para conseguir o elogio dos homens. ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’”.15
É vã a oração de quem visa as exterioridades
5 “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Naquela época, era dever de todo varão judeu rezar três vezes por dia: de manhã, coincidindo com o sacrifício matutino, ao meio-dia e na hora do sacrifício vespertino. As preces eram feitas geralmente de pé, com os braços erguidos para o Céu, como a simbolizar o dom que se esperava receber.16
As pessoas costumavam orar no interior das próprias casas. Os fariseus, porém, escolhiam para tal os lugares mais visíveis nas sinagogas ou nas praças públicas. Ali gesticulavam e repetiam de cor grande número de orações, de forma a impressionar quem por lá passava. Inútil dizer que eram vãs essas preces, pois eles já tinham obtido o que almejavam: o aplauso dos transeuntes.
Não caiamos, entretanto, no erro de pensar que Nosso Senhor condena toda oração feita em público. O Divino Mestre recrimina neste versículo apenas a preocupação com as exterioridades, tão frequente nos homens daquele tempo, e a atitude genérica das pessoas que rezam com ostentação ou procurando unicamente o louvor dos semelhantes.
Na nossa vida de piedade, devemos procurar ser discretos
6 “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa”.
A essência da oração, ensina o Catecismo, é a “elevação da mente a Deus”.17 Assim, é possível a qualquer um permanecer em oração inclusive durante os atos comuns da vida, realizando-os com o espírito voltado para o Céu.
Portanto, para rezar não é preciso tomar a atitude espalhafatosa dos fariseus. Devemos, pelo contrário, ser discretos nas manifestações externas de nossa piedade particular, evitando gestos ou palavras que ponham em realce nossa própria pessoa.
Mas se, apesar disso, nossa devoção for notada pelos outros, não devemos nos perturbar, tranquilizemo-nos com este ensinamento de Santo Agostinho: “Não há pecado em ser visto pelos homens, mas sim em proceder com a finalidade de por eles ser visto”.18
O jejum transformado em um ato de caráter social
16 “Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
O espírito oriental, em sua riqueza de expressividade, é propenso a atitudes dramáticas, por vezes bonitas, mas que, nas práticas religiosas, podem extrapolar os padrões normais. Assim acontecia com os fariseus que, ao jejuar, colocavam cinza na cabeça, não penteavam a barba e até pintavam o rosto para dar ideia de tristeza, ostentando uma fisionomia de tragédia.19 Tinham transformado o jejum em um ato de caráter social, uma encenação, para convencer os outros de sua pretendida virtude. E não receavam recorrer a todos os meios disponíveis para atingir esse objetivo.
Uma vez mais, Nosso Senhor os reprova por se servirem da aparência de justiça para impressionar os outros, e afirma terem sido já recompensados pelo seu jejum.
A propósito deste versículo, cabe uma aplicação a nós: ao fazermos algo difícil, nunca procuremos atrair a atenção dos demais, mendigando alguns elogios. Assim procediam muitos santos que, ao praticar severos jejuns, mortificações e austeridades assustadoras, apresentavam-se, por meio de uma santa dissimulação, com uma aparência exterior alegre e jovial.
Alegria e asseio ao praticar a virtude
17 “Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa”.
Além de tornar claro o quanto todas as nossas ações devem ser realizadas em função de Deus, Jesus ressalta aqui a fundamental importância da limpeza para a criatura humana. Devemos primar pelo asseio corporal como reflexo da pureza que desejamos para nosso espírito. E aliando uma apresentação impecável às boas ações, ajudaremos a manifestar que a verdadeira felicidade se encontra na prática da virtude.
Quanto ao conselho de ungir a cabeça, explica São Jerônimo: “Trata-se aqui do costume que havia na Palestina, de se ungir a cabeça nos dias de festa”. E acrescenta que assim, “o Senhor nos ordena que nos manifestemos contentes e alegres quando jejuarmos”.20
A Quaresma nos convida a crescer em humildade
O Evangelho da Quarta-Feira de Cinzas nos apresenta o espírito com que se deve viver a Quaresma: não fazer boas obras com vistas a obter a aprovação dos outros, não ceder ao orgulho nem à vaidade, mas procurar em tudo agradar somente a Deus.
No jejum, na oração ou na prática de qualquer boa obra, não se pode erigir como fim último o benefício que daí possa nos advir, mas sim a glória d’Aquele que nos criou. Pois tudo quanto é nosso — exceção feita das imperfeições, misérias e pecados — pertence a Deus. E também nossos méritos, pois é o próprio Jesus quem afirma: “Sem Mim, nada podeis fazer”! (Jo 15, 5).
Assim, se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. “Quem se gloria, glorie-se no Senhor” (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo.
Pelo sacerdócio comum a todos os batizados,21 cada fiel é chamado, em determinadas circunstâncias, a atuar como mediador das graças que vêm de Deus para benefício dos outros, e dos louvores que deles se elevam ao trono do Altíssimo. Nessa ocasião, cuidemos de não nos apropriarmos de nada, pois tudo quanto possuímos de virtude, bondade ou beleza — tanto as faculdades da alma quanto as qualidades corporais e o desenvolvimento de nosso ser físico, intelectual e moral —, tudo isso provém de Deus.
Santa Teresa de Jesus assim define a humildade: “Deus é a suma verdade, e a humildade consiste em andar na verdade, pois de grande importância é não ver coisa boa em si mesmo, mas sim a miséria e o nada”.22
Reconheçamos os benefícios que Deus nos dá e por eles rendamos-Lhe graças, não nos colocando jamais como objeto desse louvor, julgando sermos nós a fonte de qualquer virtude ou qualidade.
Neste início de Quaresma, procuremos, mais ainda do que a mortificação corporal, aceitar o convite que a Liturgia sabiamente nos faz, combatendo o amor próprio com todas as nossas forças. “Procurai o mérito, procurai a causa, procurai a justiça; e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus”.23
Só estarão à direita de Nosso Senhor Jesus Cristo, no dia do Juízo Final, aqueles que tiverem vencido o orgulho e o egocentrismo, reconhecendo que “todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto” (Tg 1, 17). Pois o homem tem diante de si apenas dois caminhos: ou amar a Deus sobre todas as coisas, até o esquecimento de si; ou amar-se a si próprio sobre todas as coisas, até o esquecimento de Deus.24 Não existe um terceiro amor.
Saibamos, portanto, aproveitar este Tempo da Quaresma para crescermos na humildade e tomarmos consciência clara da nossa limitação, uma vez que “o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do Céu” (Jo 3, 27).
Sirvam-nos de estímulo estas confortadoras palavras de um célebre guia espiritual, o padre Reginald Garrigou-Lagrange, OP: “Quanto mais nossa alma progredir na vida divina da graça, mais ela será uma imagem viva da Santíssima Trindade. No início de nossa existência, o egoísmo nos faz pensar especialmente em nós e a nos amarmos, atribuindo tudo a nós. Se, porém, formos dóceis às inspirações do Alto, chegará o dia em que pensaremos sobretudo, não em nós mesmos, mas em Deus, e em que, a propósito de todas as coisas, agradáveis ou penosas, O amaremos mais do que a nós e quereremos constantemente levar as almas para Ele”25.
16 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.129. Muito interessante é a proposta que fazem os professores de Salamanca, de traduzir a palavra grega hestótes por “com pose” (em lugar de “de pé”), observando, acertadamente, que “com pose” estaria mais de acordo com o contexto desta passagem.
17 Catecismo da Igreja Católica, n.2559.
18 SANTO AGOSTINHO. De sermone Domini, 2, 3.
19 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.151152; GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.191.
20 SÃO JERONIMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
22 Cf. SANTA TERESA DE JESUS. Las Moradas. Morada sexta, c.10, § 6-7.
23 SANTO AGOSTINHO. Sermo 185: PL 38,999. In: Liturgia das Horas I. Segunda Leitura do dia 24 de dezembro.
24 SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei, XIV, 28: “Dois amores geraram duas cidades: a terrena, o amor de si até ao desprezo de Deus; a celeste, o amor de Deus até ao desprezo de si”.
25 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Reginald. La Sainte Trinité et le don de soi. In: Vie Spirituelle n.265, maio, 1942.





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Conclusão dos comentários ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Jesus completa a obra mandando aos sacerdotes a prova
“E o ameaçou, e logo o mandou retirar-se; e disse-lhe: ‘Guarda-te de o dizer a alguém, mas, vai, mostra-te ao príncipe dos sacerdotes, e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhe servir de testemunho’”.
A caridade também possui um como que santo pudor, semelhante ao da virtude da castidade, e por isso procura cobrir-se de véus aos olhares alheios. A este propósito, comenta São João Crisóstomo: “Deste modo, [Jesus] nos ensina a não procurar, como retribuição por nossas obras, honras humanas. [...] O Salvador o envia ao sacerdote para prova da cura, e para que ele não tivesse de ficar fora do Templo, mas pudesse rezar nele com os demais. Enviou-o também para cumprir o preceito da Lei, e para aplacar a maledicência dos judeus. Assim, pois, completou a obra mandando-lhes a prova de sua realização”.8
Estes versículos nos mostram o grande empenho de Jesus em que a Lei fosse observada. O miraculado queria seguir a Nosso Senhor e não mais abandoná-Lo, mas Ele lhe fala em tom severo e ameaçador, obrigando-o a apresentar-se ao sacerdote antes de tudo. Quando obtida uma cura tão brilhante e de uma doença que conduziria à morte, compreensível era que o beneficiado não quisesse se afastar, ainda que fosse para cumprir umas tantas prescrições legais, mas Jesus não desejava escandalizar ninguém, e por isso evitava causar a impressão de que suas ações eram contrárias às determinações de Moisés.
Ora, a Lei dispunha que neste caso o miraculado deveria oferecer três sacrifícios: um de culpabilidade, outro de expiação e um terceiro de holocausto (cf. Lv 14, 10-13). Os ricos ofertavam cordeiros, e os pobres, aves. Essas providências deveriam ser cumpridas com urgência; além do mais, no caso concreto, era apostólico para com os que serviam no Templo, o fato de tomarem logo conhecimento do milagre. Assim, uma vez constatado este, confeririam oficialidade ao mesmo, reintroduzindo o ex-leproso na sociedade, e de nada poderiam acusar o verdadeiro Messias, caso fossem acometidos pela costumeira inveja. Daí entender-se melhor a severidade com que o Divino Mestre Se dirige ao miraculado: “E o ameaçou e logo o mandou retirar-se...”.
Ainda quanto à necessidade exigida por Lei de apresentar-se ao sacerdote, podemos ver nela uma certa aproximação com a obrigatoriedade de buscar a Confissão, quando alguém é atingido pela lepra do pecado. Deve-se, entretanto, sublinhar a enorme superioridade do sacramento da Reconciliação sobre o antigo rito, pois restabelece a amizade da alma com Deus e consigo mesma, obriga à restituição dos bens quando mal obtidos, força o homem a conhecer-se melhor, etc. Quanto aos dois sacerdócios, há também vultosas diferenças. Na Antiga Lei, o sacerdote apenas constatava e registrava a cura corporal. No Novo Testamento, o Padre não só constata a cura, mas oferece sua laringe a Jesus para que Ele realmente a opere.
O Divino Mestre ficava nos lugares desertos
“Ele, porém, retirando-se, começou a contar e a publicar o sucedido, de sorte que (Jesus) já não podia entrar descobertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos; e de todas as partes iam ter com Ele”.
Por mais que o comovido miraculado pudesse ter comprovado a severidade do Divino Mestre, esta não conseguiu frear a exuberância de sua alegria. Saiu ele por todos os cantos a proclamar a maravilha de que tinha sido objeto da parte do Salvador.
Por isso, não mais foi possível a Jesus mostrar-Se nas cidades. Viu-Se Ele na contingência de recolher-Se aos campos desertos, longe das gentes que O aclamavam logo ao encontrá-Lo. Teve, dessa forma, de abandonar por certo tempo Seu intenso apostolado, porém, dedicando-Se à pura contemplação tão amada por Ele. Essa contemplação, como sabemos, é causa dos bons frutos da ação, tal como comenta São Beda: “Depois de fazer o milagre na cidade, o Senhor se retira ao deserto, para manifestar que prefere a vida tranquila e separada das preocupações do século, e que por essa preferência Se consagra ao cuidado de sanar os corpos”.9
III – Considerações finais
Somos concebidos e nascemos sob os estigmas do pecado original; pelo pecado nos transformamos em inimigos de Deus.10 E se a lepra física enfeia o corpo, a da alma — o pecado —, a torna horrorosa aos olhos de Deus, dos Anjos e dos Bem-Aventurados. Essa “lepra” da alma traz consequências até mesmo para o corpo, pois, como diz Nosso Senhor, “o pecador se torna escravo do pecado” (Jo 8, 34), prejudicando, assim, até sua saúde física.
Efeitos da lepra do corpo e da “lepra” da alma
Se de um lado o leproso se torna um pária da sociedade, condenado ao isolamento e ao abandono, por outro lado, o pecado não só faz perder a inabitação da Santíssima Trindade na alma do pecador, como o exclui da sociedade dos eleitos e dos santos.
Além disso, a “lepra” da alma é mais contagiosa do que a física. A propagação da primeira se faz até à distância, por palavras, conversas, pensamentos, escândalos, maus exemplos, influência, maledicência, etc., e muitas vezes de maneira tal que não se consegue reparar os males oriundos de sua difusão.
Também não devemos olvidar que o fato de se comunicarem entre si os que sofrem dessa enfermidade física, e nem sequer com os que por ela não foram atingidos, não faz crescer sua desgraça. O mesmo não se dá com a “lepra” do pecado: ao sermos causa de contágio, aumentamos nossa culpa.
Por mais que a lepra conduza a miseráveis condições que, sem tratamento, só terminam com a morte, o pecado é muito pior, pois arranca da alma a paz de consciência, torna amarga a vida e prepara a morte eterna.
Consideremos ainda a grande superioridade da alma sobre o corpo. Aquela é criada à imagem da Santíssima Trindade e, enquanto obra-prima das mãos de Deus, leva ademais, sobre si, o infinito preço do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo, os males da alma sempre são mais graves que os do corpo. E, sendo físicos os estigmas do mal de Hansen, são fáceis de serem reconhecidos pela vítima. Em sentido contrário, o pecador, quanto mais avança nas tortuosas vias do pecado, menos se dá conta do abismo no qual rola. Nesta perspectiva, como poderá ele obter a cura?
Terrível é ainda considerar que os sofrimentos do leproso abandonado à própria sorte terminam com seu falecimento e, se os aceitou com resignação e amor a Deus, abrirá seus olhos para a eternidade feliz. Os do pecador não só se perpetuam na eternidade, como se tornam incomparavelmente mais atrozes após a morte.
Não deixemos passar um dia sem receber a Jesus Eucarístico
E como curar a “lepra” do pecado?
Muitas são as vias que conduzem à cura total, isto é, à santidade plena. Há uma, entretanto, que se sobressai entre todas, e esta nos é indicada pelo Evangelho de hoje, quando afirma que o leproso “foi ter com Ele...”, ou seja, foi buscar Jesus.
Não se trata de esperar que Jesus vá ao pecador; é preciso que este vá em busca de Jesus. E, quanto mais avançado for o estado de sua “lepra”, mais confiança deverá ter de ser bem recebido por Ele. Jamais deve permitir qualquer fímbria de desânimo ou, pior ainda, de desconfiança.
E onde encontrá-Lo?
Jesus não está entre nós de passagem, como aconteceu na vida do leproso do Evangelho, mas de forma permanente: “Estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Sim! Cristo se encontra constantemente na Eucaristia em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. E será na Comunhão frequente — melhor ainda na diária — que Ele irá assumindo interiormente os que em sua graça O recebem, para dessa forma torná-los cada vez mais semelhantes à Sua santidade.
Aquelas divinas e sagradas mãos, cujas carícias encantavam os pequeninos, e ao aproximarem-se dos enfermos, curavam a todos; aquelas mesmas mãos onipotentes que acalmavam os ventos e os mares, restituíam a vida aos cadáveres e perdoavam os pecados, estarão no interior do ser de quem receber Jesus na Comunhão Eucarística, para santificá-lo.
É de altíssima conveniência aceitar o convite que a Igreja faz a todos os batizados no sentido de que não deixem passar um só dia sem receber a Jesus Eucarístico; mas a ação d'Ele será ainda mais eficaz nas almas que o fizerem por meio d'Aquela que O trouxe à Encarnação: Sua e nossa Mãe, Maria Santíssima.
1 Cf. Suma Teológica I, q. 25, a. 2 e 3.
2 Cf. Suma Teológica III, q. 13, a. 1, ad 1.
3 Cf. Suma Teológica III, q. 13, a. 1c e 2c.
4 Suma Teológica III, q. 43, a. 1 resp.
5 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
6 ORIGENES, Commentarium in evangelium Matthaei, 2, 2-3.
7 CHRYSOSTOMI, Joannis. Homiliæ in Matthæum, 25, 2 (PG 57, 329).
8 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.

9 Cf. DENZINGER HÜNERMANN, 1528.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Continuação dos comentários ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Cura do leproso
“E foi ter com Ele um leproso, fazendo-Lhe suas súplicas, e, pondo-se de joelhos, disse-Lhe: ‘Se queres, podes limpar-me’”.
A lepra sempre foi uma enfermidade dramática, com inenarráveis sofrimentos físicos e graves consequências sociais. Naqueles tempos era, ademais, na maior parte das vezes incurável.
A mais temida das doenças
Pequenas manchas brancas, insensíveis, em qualquer parte da epiderme — as quais, com o tempo, degeneram em úlceras e se espalham por todo o corpo — podem ser indício desse mal. No seu auge, pés e mãos se tornam edemaciados, as carnes se rasgam, as unhas caem e, em seguida, também os dedos e artelhos. A face se torna monstruosa e a voz enrouquece. Das narinas — já à mostra pela degenerescência de seu exterior, pois o nariz acaba por se descarnar — escorre um líquido purulento que se soma a uma terrível fetidez do hálito. Esses efeitos acabam por produzir na vítima, além das dores físicas, um abatimento de ânimo tão grande que facilmente o leva ao desespero, e, por fim, à morte. Se, pelo contrário, obtém a cura, uma assombrosa alvura lhe reveste o corpo de alto a baixo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Comentário ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Naquele tempo, 40 um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. 41 Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!” 42 No mesmo instante, a lepra desapareceu, e ele ficou curado. 43 Então Jesus o mandou logo embora, 44 falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!” 45 Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-Lo.
Qual a pior das lepras?
A “lepra” da alma é mais contagiosa e terrível do que o mal de Hansen. Ela arranca a paz da consciência, torna amarga a vida e prepara a morte eterna. Se fosse tão visível quanto a lepra física, quão mais repulsiva seria aos nossos olhos!
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Onipotência do verbo
Jesus Cristo fez notar Sua humanidade nascendo numa gruta em Belém, em sua fome, sede ou cansaço, e até mesmo quando dormiu na barca. Por outro lado, manifestou Sua divindade através dos incontáveis milagres realizados, por exemplo, quando acalmou os ventos e os mares pelo império de Sua voz, ou quando ressuscitou Lázaro. Enquanto Ser infinito, Ele é todo-poderoso,1 e por isso, excluído o que seja contraditório, todos os possíveis são objeto do Seu poder. “Onipotente” é o nome próprio de Deus (cf. Gn 17, 1), pois Sua Palavra é suficiente, em si, para produzir todas as criaturas (cf. Gn 1, 3-30).
Os milagres de Jesus são prova de Sua divindade
Ora, segundo nos ensina São Tomás, pelo fato de Sua natureza humana estar unida à divina, Jesus recebeu enquanto Homem a mesma onipotência que o Filho de Deus tem desde toda eternidade, pois ambas as naturezas possuem hipostaticamente uma só e única Pessoa.2 A própria alma adorável de Cristo, enquanto instrumento do Verbo — e não por si só — tem todo poder.3 Essa é a razão pela qual Cristo Jesus dominava qualquer enfermidade (cf. Mt 8, 8), perdoava os pecados (cf. Mt 9, 6; Mc 2, 9-11), expulsava os demônios (cf. Mc 3, 15), etc. Daí ter podido Ele afirmar: “Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra” (Mt 28, 18); e mais tarde, São Paulo insistir nesse ponto fundamental de nossa fé: “Para nós, é força de Deus” (I Cor 1, 18); “Cristo é força de Deus e sabedoria de Deus” (I Cor 1, 24); e mais adiante: “também nos ressuscitará a nós com o Seu poder” (I Cor 6, 14).
A fé nessa onipotência de Deus permite-nos admitir mais facilmente as outras verdades e, de maneira especial, as ações que ultrapassam a ordem natural. A um Deus todopoderoso, são proporcionadas as obras excelentes e admiráveis: “Porque a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).
Diz-nos São Tomás de Aquino: “Pelo poder divino é concedido ao homem fazer milagres por duas razões: primeiro, e principalmente, para confirmar a verdade que alguém ensina. As coisas que pertencem à fé são superiores à razão humana e por isso não se podem provar com razões humanas; é preciso que se provem com demonstrações de poder divino. Deste modo, quando a pessoa realiza obras que só Deus pode realizar, pode-se crer que o que diz vem de Deus; como quando alguém apresenta um documento com o sigilo do rei, pode-se crer que o que no documento está contido provém da vontade do rei. Em segundo lugar, para mostrar a presença de Deus no homem pela graça do Espírito Santo. Quando a pessoa faz as obras de Deus, pode-se crer que Deus nela habita pela graça. Diz-se na Carta aos Gálatas: ‘Aquele que vos dá o Espírito e realiza milagres entre vós’ (Gl 3, 5).
Ora, em Cristo, uma e outra coisa era preciso demonstrar, a saber, que Deus nEle estava pela graça, não de adoção, mas de união; e que seu ensinamento sobrenatural provinha de Deus. Por isso, era de todo conveniente que Cristo fizesse milagres.
Ele próprio afirmou: ‘Se não quereis crer em Mim, crede em minhas obras’ (Jo 10, 38). E também: ‘As obras que meu Pai Me concedeu realizar, são elas que dão testemunho de Mim’ (Jo 5, 36)”.4 Esses são os motivos que levaram os Apóstolos a crer em Jesus depois do milagre por Ele operado nas Bodas de Caná da Galiléia (cf. Jo 2, 11); e muitos outros foram levados a crer, após a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-44).
Jesus mesmo chega a citar Suas obras como prova de Sua divindade: “Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres” (Mt 11, 4-5). “As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de Mim. Se Eu não faço as obras de meu Pai, não Me creiais; mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim, e Eu no Pai” (Jo 10, 25.37-38).
A Igreja: um milagre permanentemente renovado
Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo, tal qual afirmou Pedro em Cesareia de Filipe (cf. Mt 16, 16), e portanto, onipotente tanto quanto o Pai. Mas, entre a multidão de Seus milagres, qual teria sido o mais extraordinário? Difícil dizê-lo com plena segurança. Entretanto, uma hipótese não deixa de ter considerável substância e grande aparência de ser a mais provável.
A Santa Igreja passou por inúmeros dramas ao longo de seus vinte séculos de existência; dramas esses capazes de fazer desaparecer qualquer estado ou governo. Já em seus primórdios, teve ela de enfrentar o “fixismo” religioso do povo judeu.
A Redenção se operou no âmbito dessa nação: as primeiras ações, organizações, proselitismo foram efetuados por judeus — o próprio Fundador, os Apóstolos, etc. — e exclusivamente sobre os israelitas. Contudo, em se tratando de uma mentalidade blindada em suas próprias concepções, era de se temer que a Igreja viesse a ser sufocada no seu nascedouro. Quem poderia prever as decisões do primeiro concílio, o de Jerusalém, que recusa o judaísmo e se abre aos gentios? Se o Espírito Santo não tivesse inspirado os Apóstolos nesse sentido, quantos anos de vida teriam sido concedidos à Igreja?
Pari passu, surgiu a heresia da Gnose que comprazia às más inclinações daqueles tempos. Diziam seus adeptos terem recebido a missão de explicar e resolver o problema da existência do mal no mundo. Foi um grande perigo para a Igreja naquela quadra histórica.
Seria um não mais acabar, se procurássemos enumerar todos os ataques sofridos pela Igreja ao longo de seus dois milênios. Basta-nos recordar as perseguições romanas, a invasão dos bárbaros, o arianismo, os cátaros e albigenses, Avignon, o Renascimento, protestantismo e humanismo, a Revolução Francesa, o comunismo. Ou seja, a Santa Igreja vem recebendo os mais violentos ataques que a História tenha conhecido, quer externa quer internamente.
Porém, nunca se pôde dizer ter chegado o fim. Isto só se dará quando se cumprir a profecia de Jesus: “Será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo, em testemunho a todas as gentes; e então chegará o fim” (Mt 24, 14). Foi em função dessa profecia que Ele mandou os Doze irem ao mundo inteiro, para pregar e batizar, até mesmo em meio às perseguições, mas sempre convencidos de que “as portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18).
Afirmou ainda, categoricamente, o Redentor: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. [...] Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 18.20). Vemos, nestes dois versículos, o quanto a Igreja existiu, existe e existirá sempre por um milagre permanentemente renovado pelas divinas e adoráveis mãos de seu Fundador.

É na consideração da onipotência divina, tão claramente comprovada pelos milagres do Homem Deus, Jesus Cristo, de maneira especial o da imortalidade da Santa Igreja, que se deve compreender a cura do leproso narrada no Evangelho deste 6º Domingo do Tempo Comum.
Continua no próximo post

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Evangelho V Domingo Tempo Comum - Ano B - Mc 1, 29-39

Continuação dos comentários ao Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 1, 29-39
O papel da virtude da temperança
Para remediar, de certa forma, a perda do dom de integridade que o homem possuía no Paraíso e os inevitáveis sofrimentos que desta privação se seguiram, existe uma virtude que, introduzida na alma com o cortejo de todas as demais que nos são infundidas no Batismo, se caracteriza como uma das quatro virtudes cardeais: a temperança. Ela “indica certa moderação ou comedimento imposto pela razão às ações e paixões humanas ... [E] ocupa-se, prioritariamente, com as paixões tendentes aos bens sensíveis, a saber, os desejos e os prazeres e, consequentemente, com as tristezas decorrentes da ausência desses bens”.4
Ela é, pois, a virtude que equilibra os estados de espírito e dá ao homem o bem-estar e a felicidade em meio à dor, ou o autocontrole na euforia da alegria. Assim, ela confere à alma um extraordinário domínio sobre si.
Em meio às dores, Jó busca seu consolo em Deus
Estes ensinamentos nos preparam para melhor compreendermos a Liturgia do 5Q Domingo do Tempo Comum, cuja primeira leitura (Jó 7, 1-4.6-7) é um expressivo trecho do Livro de Jó.
A bela história deste varão justo nos conta que tendo satanás se apresentado diante do Todo-Poderoso, perguntou-lhe este último se vira Jó, seu servo, “íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal” (Jó 1, 8); e o demônio respondeu que aquelas virtudes se deviam ao fato de Jó não ter sido ainda tentado, O Senhor, então, o autorizou a tratar Jó como quisesse, fazendo, no entanto, esta ressalva: “poupa-lhe apenas a vida” (Jó 2, 6). A provação de Jó foi, pois, permitida pelo Altíssimo, mas promovida diretamente pelo demônio. Em consequência, ele perdeu seus dez filhos, todas as suas propriedades e animais, e adquiriu uma tremenda “lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça” (Jó 2, 7). Em situação tão dolorosa, Jó sentou-se sobre cinza e raspou com um caco de telha suas múltiplas feridas (cf. Jó 2, 8).
E houve pior: perdeu o apoio de seus círculos sociais, os amigos interpretaram seu infortúnio como um castigo, julgando ter-se desviado dos Mandamentos do Senhor, e a própria esposa, ao invés de ampará-lo, tomou partido contra ele. Completamente isolado, não podendo abrir sua alma nem sequer com aqueles que o rodeavam, sentia-se abandonado por Deus, sem saber qual era o motivo. Por isso Jó tem esta exclamação, recolhida pela primeira leitura: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a Terra?” (Jó 7, 1). Em seguida, narrou suas dores com imagens vivas, muito características dos orientais: “tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimento. [...] E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até ao anoitecer. Meus dias f...] se consomem sem esperança” (Jó 7, 3-4.6).
Não obstante, Jó não caiu no desespero, mas com confiança procurou o seu consolo onde, de fato, o encontraria: em Deus! “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” (Jó 7, 7). Se ele invocou o Senhor, foi porque sua alma dispunha de um recurso para se sustentar: a virtude da temperança... Ele era temperante.
II - A AÇAO DE JESUS RESTABELECE A ORDEM, O EQUILÍBRIO E A PAZ
No Evangelho de hoje nos deparamos com Jesus curando primeiramente a sogra de Pedro e, depois, aliviando de seus males uma multidão que cercara a casa onde Ele Se hospedava. Haverá nisto uma contradição? Agia assim Nosso Senhor porque achava que a dor deveria ser eliminada? Analisemos o texto de São Marcos em busca de uma resposta.
Naquele tempo, 29 Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André.  A sogra de Simão estava de cama, com febre...
O Divino Mestre começara havia pouco seu ministério público, e já vemos como este era exaustivo. Indo, com Tiago e João, da sinagoga para a residência de Simão e André, dir-se-ia que ali era um lugar onde Ele poderia estar à vontade, retirado do fluxo das pessoas; mas não, a sogra de Pedro “estava de cama, com febre”, e Jesus, sempre solícito em fazer o bem a todos, não Se deteve para descansar e logo foi até ela.
A febre das paixões
Sabemos que quem está com febre muito alta, em geral perde o controle de si, isto é, a capacidade de ter sua “alma nas mãos” — “Anima mea in manibus meis semper” (Sl 119, 109) —, porque ela lhe tolhe, inclusive, a possibilidade de bem usar a virtude da temperança, Os Padres da Igreja comentam ser esta febre física da sogra de Pedro um símbolo das paixões. “Nesta mulher” — escreve Santo Ambrósio — “{...] estava figurada nossa carne, enferma com as diversas febres dos pecados, e que ardia em transportes desmesurados de diversas cobiças”.5 São Jerônimo coincide com este pensamento: “Cada um de nós está acometido de febre. Quando me deixo levar pela ira, padeço de febre. Quantos vícios há, tanta é a diversidade de febres”.6 E São Rábano Mauro acrescenta: “Toda alma que vive sob o domínio da concupiscência da carne  encontra-se como quem padece febre”.7
A febre espiritual prende à cama o febricitado, tornando-o inútil para o trabalho e incapacitado de agir, porque todo o seu ser está aplicado na inclinação para o mal, ansioso de volúpia e, deste modo, falta-lhe o ânimo para servir a Deus e aos outros. Quantas pessoas passam a ser relapsas em seu apostolado por terem perdido a noção da grandeza da vocação, enquanto o dinamismo de sua alma está direcionado numa paixão desenfreada! Sim, pois quando alguém é chamado aos horizontes amplos e profundos da luta pela derrota do império de satanás na face da Terra e não corresponde a este apelo, acaba se dedicando às mais ínfimas e desprezíveis ninharias, e com isto consegue abafar sua consciência...
O Divino Mestre toma a iniciativa
30b ...e eles logo contaram a Jesus. 31a E Ele Se aproximou...
É de se notar que Nosso Senhor foi advertido sobre o estado da sogra de Pedro, na esperança de que operasse um milagre. Não era preciso que Lhe dissessem, pois Ele já sabia do fato desde toda a eternidade e podia, com sua autoridade absoluta,curá-la à distância. Mas Ele Se colocou à mercê de uma simples insinuação — uma vez que, para não importuná-Lo nem sequer formularam o pedido — e não negou. Antes, dado que era amigo daquela família e pelos vínculos que O uniam a São Pedro, dispôs-Se a ajudar; ouvindo a notícia, tomou logo a iniciativa. Tal é o convívio social entre os homens que se estimam.
Naquela época, conforme as normas judaicas — e até dos povos pagãos —, era um absurdo qualquer homem entrar no quarto de uma senhora acamada, mesmo sendo ela idosa. Por sua missão de curar, porém, Nosso Senhor rompeu este severo costume e “Se aproximou».
Da nossa parte, ao observarmos alguém com as paixões em ebulição, seguindo por um caminho indevido, não nos alegremos com o mal alheio! Temos a obrigação de “contar a Jesus” e
Implorar-Lhe que o cure. Se intercedermos pelos outros, o Senhor Se achegará a eles.
A mão de Jesus está sempre estendida para nos curar
31b ...segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se
Quiçá alguns dos presentes imaginassem que o Salvador apenas fosse fazer uma visita à doente, a fim de alentá-la um pouco. Qual não terá sido a grande surpresa de todos quando a tomou pela mão, e ela, antes ardendo em febre, se sentiu com nova energia e se levantou! Tocou-a porque queria deixar bem claro ser Ele o Autor desta cura, e não, por exemplo, um espírito, segundo as superstições que circulavam entre aquela gente. Se Ele, de longe, se limitasse a ordenar “Levanta-te”, eles talvez duvidassem.
De igual modo, esta divina mão que segurou a da sogra de Pedro está sempre estendida à nossa disposição! Sim, Nosso Jesus Cristo trata com consideração e afeto aqueles que abertura de alma e não Lhe opõem obstáculos, e está pronto a entrar na casa onde estivermos prostrados por qualquer enfermidade, para atender a cada um, como se só este existisse. Quantas misérias, debilidades e caprichos pesam em nosso interior! Apesar disto Ele não tem repulsa de nós e nunca retira a mão, por pior que seja nossa situação. Eis a confiança que devemos ter: tudo pode ser resolvido por Aquele que nos dá a mão!
A energia para servir a Deus vem d’Ele
31c Então a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
Depois de ser curada, logo a sogra de Pedro “começou a servi-los”. Ora, tal era o desprezo pela mulher naqueles antigos tempos, que jamais eia poderia servir à mesa dos hóspedes.8 Esta função estava reservada aos escravos ou empregados. Nosso Senhor, contudo, permite ser assistido por esta senhora, para dar a entender que trazia costumes sociais inéditos. Homem-Deus, Ele vinha marchando contra a corrente e invertendo a mentalidade arrogante e vexatória que reinava, não só em Israel, mas também entre os gregos, romanos e demais povos.
Tão instantânea foi a cura, que parecia não ter a sogra de Pedro padecido o menor incômodo. O mesmo acontece quando alguém, atormentado pela febre de suas paixões, “segura a mão” de Jesus: a inanição e o abatimento vão desaparecendo e o ânimo lhe é infundido. Isto mostra também como a energia para o exercício de uma missão sobrenatural ou para defender uma causa justa provém de Deus. Portanto, nunca nos assalte a insegurança; se nossos objetivos estiverem voltados para a eternidade, teremos a força, o impulso e a sustentação que nos levará adiante, até o fim.
Grande vantagem haverá se evitarmos pensar na vida passada. O Evangelho não refere nenhuma palavra da miraculada sobre o período em que ficara de cama. Não, o Mestre estava ali e ela pôs-se a trabalhar! Já não se importava com a febre nem com a doença, tudo fora esquecido.
Procuremos o tabernáculo!
32 À tarde, depois do pôr do Sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio.  A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34a Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios.
Se São Marcos — tão sintético e até um tanto minimalista — escreveu “a cidade inteira”, é prova de que foi assim. Grandes comentaristas 9 são concordes em que a expressão “muitos”, usada por ele, significa que Nosso Senhor atendeu a todos.
A fama de Jesus se espalhara e cada um queria ter um contato com Ele para receber algum benefício. Bem podemos imaginar a cena do povo gritando e implorando o auxílio do Divino Taumaturgo. E Ele, calmo e sublime, devolvia a saúde a numerosos cegos, coxos, paralíticos, leprosos, febris, sem ignorar um só...
Quanto aos possessos, lembremo-nos de que são aqueles cujo corpo está tomado pelo demônio — ou, em certos casos, por grande número destes —, de maneira que perdem o domínio de si. Impossibilitados de se governarem, como na metáfora usada no precedente comentário ao Evangelho do 4º Domingo do Tempo Comum, assemelham-se a um automóvel controlado por um assaltante, enquanto o chofer — isto é, a alma — é empurrado para um canto do veículo. Os possessos se encontram, por conseguinte, num estado de desequilíbrio e desordem. Também a eles o Senhor libertou e não restou sequer um demônio a ser expulso.
Quantas vezes nós, em lugar de circundar a casa onde está Jesus, como fizeram os habitantes de Cafarnaum, nos fechamos em nós mesmos, dando ao demônio oportunidade de dialogar conosco todo o tempo que lhe aprouver. Se, pelo contrário, procurarmos Jesus no tabernáculo, o tentador se manterá à distância e obteremos aí a solução para nossas dificuldades.
Tal é o legado que nos deixam os Santos. São Tomás de Aquino, por exemplo, quando, em meio à composição de suas obras. precisava resolver um problema especialmente árduo, interrompia o trabalho, punha a cabeça junto à parede do sacrário e ali permanecia até elucidar a questão Ele mesmo — homem inteligentíssimo, que citava de memória as Sagradas Escrituras – assegurava ter aprendido muito mais na adoração ao Santíssimo Sacramento ou aos pés do Crucifixo do que em todos os estudos realizados ao longo da vida.11
O demônio não pôde anunciar oEvangelho
34b E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem Ele era.
Dir-se-ia convir a Nosso Senhor que os demônios fizessem propaganda d’Ele, pois contribuiriam para incrementar sua fama. Entretanto, Ele os impedia de falar por duas razões: primeiro, porque não queria o demônio no papel de apóstolo, uma vez que este último tem de ser santo e viver o que prega, enquanto os espíritos maus devem ser lançados fora, sem tardança; segundo, porque visava preparar as multidões para sua futura Paixão. Com efeito, mandando calar os demônios sobre “quem Ele era”, os presentes se perguntariam por que dava tal ordem e logo perceberiam que era por haver gente odienta, desejosa de matá-Lo. Isto os dispunha para compreender o martírio da Cruz.
Uma lição de desapego e seriedade em face da própria missão
35 De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus Se levantou e foi rezar num lugar deserto, 36 Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus,  Quando O encontraram, disseram: “Todos estão Te procurando”, 38a Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza!”
Segundo o conceito de quem é vaidoso, aquela seria a hora de sorver todo o sucesso do dia anterior. Mas Jesus, levantando-Se de madrugada, foi até um lugar solitário para rezar, porque Ele, em sua humanidade justíssima, não Se blasonava nem Se deixava dominar por nenhuma paixão.
Os Apóstolos, logo que acordaram, saíram a buscá-Lo, numa atitude própria a servir de modelo para nós: sempre procurar Cristo onde Ele estiver. Todavia, suas palavras, ao encontrá-Lo refletem o anseio de tirar proveito da situação e seus sonhos de conquista. Eles estavam deslumbrados por uma miragem criada a propósito dos milagres operados pelo Mestre e, depois do primeiro flash vocacional e religioso, haviam passado a vê-Lo por um prisma político. Ante o êxito alcançado em Cafarnaum, cidade muito central, cheia de animação e comércio, queriam “industrializar” a Nosso Senhor e pretendiam organizar um grande movimento de Opinião pública para tomar conta do poder, restaurar a supremacia dos judeus sobre os outros povos e mudar a história de Israel. Mas, contrariamente a seus anelos, e para além de toda previsão — de maneira a não ser controlado por aqueles discípulos por demais terrenos —, Jesus decidiu partir
Da populosa Cafarnaum para os arrabaldes. Deste modo os educava a aceitarem ir qualquer parte, sem se demorar para sugar os triunfos. Que lição de desapego e de governo das paixões! Como lhes era difícil conformar-se a estas novas perspectivas!
Além disso, tendo já cumprido ali seu ministério Jesus ansiava por estar em contato com todos, pois para todos viera, mostrando, neste detalhe, a responsabilidade e a seriedade com as quais cada um deve encarar sua missão específica.
Uma açâo sumamente temperante
38b “Devo pregar também ali, pois foi para isso que Eu vim”. 39 E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
Nos episódios narrados neste Evangelho vemos Nosso Senhor Jesus Cristo — a Temperança e a Santidade em essência — exercer uma ação sumamente temperante através da cura e do exorcismo, restabelecendo nas almas aflitas a ordem, o equilíbrio e a paz. E pelo instrumento de sua divina palavra transmitia a verdade da Revelação, punha de manifesto o valor da virtude da temperança e promovia a sua prática.
A palavra, quando bem empregada e proferida segundo o sopro do Espírito Santo, possui uma força exorcística extraordinária para harmonizar o espírito com Deus. Por exemplo,  sempre que alguém faz um juízo errado a respeito de si ou dos outros, seja superestimando-se seja recriminando-se de forma autodestrutiva — ambos grandes e perigosos desatinos —, o conselho de um companheiro ou de um superior, que analisa de fora e com maior rapidez e precisão, poderá conferir estabilidade à alma. Deus assim dispôs para que nosso instinto de sociabilidade sinta mais estímulo para se aplicar na ajuda ao próximo e haja mais facilidade no convívio.
Um exemplo de prática desta virtude cardeal
A temperança é a virtude que mais caracteriza os Santos. Abandonados às mãos de Deus, aceitam que sua vontade se faça neles em tudo: se lhes sobrevém um tormento, como o de Jó, abraçam-no; se uma excelente notícia cheia de alegria lhes é anunciada, recebem-na sem nenhuma euforia desenfreada ou febricitada
Neste sentido, o Autor destas linhas teve, em certo momento de sua existência, a oportunidade de conhecer a virtude da temperança, vivida com brilho e com facetas pouco comuns, na pessoa do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Diante de uma informação grave, ele era capaz de tomar providências urgentes e, depois, sentar-se para jantar, evitando qualquer conversa a respeito do caso previamente tratado, discorrendo então com toda a calma sobre temas doutrinários, atinentes à consideração das realidades mais elevadas e sublimes. Terminada a refeição, bem como suas orações, interessando-se pela matéria que antes o preocupava, logo retornava às atividades cotidianas e, se necessário fosse, as prolongava até altas horas da madrugada. Por fim, ao concluí-las, conciliava o sono com a mais completa tranquilidade. A cada instante, no dia a dia, se podia observar esta mesma nota tônica de placidez que lhe dava a faculdade de passar dos assuntos mais dramáticos a outros suaves e serenos, sem o menor sobressalto, com inteiro domínio de si próprio.
III – ONDE ENCONTRAR O VERDADEIRO REMÉDIO PARA A DOR?
Os pensamentos que a Liturgia nos sugere, neste dia, encontram a clave num dos versículos do Salmo Responsorial: “O Senhor Deus é o amparo dos humildes” (Sl 146, 6). De fato, aos humildes, àqueles que praticam a temperança — virtude alheia aos orgulhosos — e se submetem à correção, à mortificação e à dor, cedo ou tarde Deus os haverá de atender e amparar.
Quando permitiu ao demônio atormentar Jó, Deus queria que aquele varão justo crescesse ainda mais na temperança e, portanto, na santidade, para, em seguida, cumulá-lo de méritos e outorgar-lhe em maior grau a participação na vida divina. Entendemos, então, quanto as tribulações que nos atingem são, no fundo, permitidas por Deus, em vista de uma razão superior Ele não pode promover o mal para a nossa alma, e assim age porque nos ama e deseja dar-nos muito mais do que já deu. E porque é bom ao mesmo tempo que consente as adversidades. Ele nos conforta, como sublinham mais alguns versículos do Salmo Responsorial: “Louvai o Senhor Deus, porque Ele é bom, […] Ele conforta os corações despedaçados, Ele enfaixa suas feridas e as cura (Sl 146, 1.3)
Ao Se debruçar sobre a sogra de Pedro e fazer-lhe desaparecer a febre, ou ao sanar a multidão afligida por enfermidades e tormentos, Nosso Senhor não visava ensinar que a dor deva ser eliminada. Pelo contrário, tanto a considerava um benefício para o homem, que Ele mesmo abraçou a via dolorosa e a escolheu também para sua Mãe. Nestes milagres — como em incontáveis outros operados durante sua atuação pública — Ele devolveu a saúde para deixar uma lição aos Apóstolos, aos circunstantes e aos próprios enfermos: a luz está n’Ele, a vida está n’Ele, a solução da dor provém d’Ele! Mais adiante, na iminência de ressuscitar Lázaro, Ele dirá: “Eu sou a Ressurreição e a Vida!” (Jo 11,25).
Abracemos a dor com os olhos fixos na Cruz de Cristo
Hoje somos convidados a aceitar a dor como uma necessidade, e a compreendê-la como um elemento fundamental para o equilíbrio da alma, a fim de ela não mais se apegar às criaturas e chegar à plena união com Deus. Se nos sentirmos inclinados a pedir-Lhe que faça cessar alguma dor, rezemos com confiança, certos de sermos ouvidos; porém, se recebermos a inspiração de suportar com resignação a adversidade — seja eia uma doença, uma provação ou uma simples dificuldade , roguemos a Ele que nos dê as forças imprescindíveis para viver com alegria, da qual Ele mesmo deu exemplo, juntamente com sua Santíssima Mãe. Sobretudo, não cedamos à má tristeza, aquela que produz o desânimo, e mantenhamos no fundo da alma a determinação de cumprir a vontade de Deus; aí, sim, virá a paz.
Em certa ocasião, estava o Autor à espera de ser atendido numa sala de hospital, por se encontrar em situação de grave risco de vida, quando chegou uma pobre mulher gritando e se lamentando, provavelmente acometida de forte indisposição. Então lhe disse: “Senhora, pense um pouco, ambos estamos sofrendo; mas o que são nossas amarguras em comparação com a de Nosso Senhor Jesus Cristo? Por amor a nós Ele Se deixou matar como um cordeiro e não soltou sequer um gemido no alto da Cruz! Façamos companhia a Ele nesta nossa tribulação e ofereçamos nossas dores para consolá-Lo”. Ela fechou os olhos, conteve as lágrimas e recuperou a calma. A lembrança dos sofrimentos do Redentor ao longo da Paixão é um lenitivo extraordinário para as nossas dores.
O Inocente, Aquele cuja natureza humana está unida à natureza divina na Pessoa do Verbo, chegou a exclamar antes de expirar: “Eli, Eli lammá sabactáni — o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46). Misteriosamente — de maneira que nossa razão não alcança —, Ele padeceu em sua Alma aquele sentimento do abandono, “pela carência de toda classe de alegria e consolo que mitigasse as amargas penas e a tristeza da Paixão”.12 Por quê? Porque o Pai queria para Ele toda a glória!
A via que Deus traçou para Maria Santíssima, a Mater Dolorosa — criatura puríssima, sem mancha alguma de pecado original —, foi também a da dor, como já afirmamos. Ao apresentar o Menino Jesus no Templo, Ela ouviu dos lábios de Simeão uma profecia, segundo a qual uma espada traspassaria sua alma (cf. Lc 2, 35); em seguida, tendo de fugir com o Divino Infante para o Egito, e, mais tarde, ao perdê-Lo durante três dias em Jerusalém, suas angústias foram se prolongando até culminarem no Calvário. E mesmo após as alegrias da Ressurreição, Ela permaneceu ainda quinze anos aqui na Terra na ausência de seu Filho... Sofrimento contínuo, que fez d’Ela a Corredentora, pois, enquanto para todos nós o consolo em meio às aflições consiste em considerar Cristo na Cruz, para Ela — segundo afirma com muito acerto Santo Afonso de Ligório13 —, a contemplação da Paixão não Lhe trazia alívio algum, por ter sido esta a própria fonte de suas dores.
Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos os dias Se imola de forma incruenta no Santo Sacrifício do Altar, que derrame, por intermédio de Nossa Senhora, torrentes de graças sobre nós, a fim de nos convencermos dos benefícios da dor e, assim, a enfrentarmos com elevação de espírito e olhos fixos na sua Cruz.

1 Cf. PIO XI. Miserentissimus Redemptor, n.5; LYONNARD, SJ, Jean. El apostolado dei sufrimiento o ias víctimas voluntarias para ias necesidades actuales de la Iglesia. Madrid: Viuda e Hijo de Aguado, 1887, p.7.
2 CCE 1500-1501.
3 CCE 1435.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-IT, q.14l, a.2; a.3.
5 SANTO AMBRÓSIO Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. L.IV n.63. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, v.1, p.221.
6 SÃO JERÔNIMO. Tratado sobre el Evangelio de San Marcos. Homilía 11(1,13-31). In: Obras Completas. Obras Homiléticas. Madrid: BAC, 1999, v.1, p.849.
7 SÃO RÁBANO MAURO. Commentariorum in Matthceum. LIII, c.8: ML 107, 861.
8) Cf. WILLAM, Franz Michel. A vida de Jesus no país e no povo de Israel. Petrópolis: Vozes, 1939. p.134.
9) Cf. TUYA, OP Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V. p.635; LAGRANGE OP, Marie-Joseph. Evangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: Lecoffre; J. Gabalda, 1929, p.26.
10 Cf PETITOT, OP, L. H. La vida integral de Santo Tomás de Aquino. Buenos Aires: Cepa. 1941. p.147; GOMA Y TOMAS, Isidro. Santo Tomás de Aquino: época, personalidad. espíritu. Barcelona: Rafael Casulleras, 1924, p.79.
11 Cf. JOYAU. OP, Charles-Anatole. Saint Thomas d’Aquin. Tournai: Desclée; Lefebvre et Ci’. 1886, p.162-163.
12) SUÁREZ, SJ, Francisco. Disp.38, sec.2, n.5. In: Misterios de la Vida de Cristo. Madrid: BAC, 1950, v.11, p.154.

13) Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGORIO. Glórias de Maria. 2.ed, Aparecida: Santuário, 1987, p.364-365.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Evangelho V Domingo Tempo Comum - Ano B - Mc 1, 29-39

Comentários ao Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 1, 29-39
Naquele tempo: 29 Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. 30 A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus.
31 E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. 32 É tarde, depois do pôr-do-sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33 A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34 Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.
35 De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36 Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37 Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. 38 Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. 39 E andava por toda a Galiléia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios. Mc 1, 29-39
Jesus, fonte a temperança
A dor, este mal inevitável que acompanha todo homem, só encontra remédio na ação sumamente temperante do Divino Mestre.
I - O MISTÉRIO DA DOR
A medicina alcançou, em nossos dias, um sucesso extraordinário, curando doenças antigamente consideradas mortais. Outrora era impensável um transplante de órgãos — coração, fígado, rins —, como hoje é feito com relativa  frequência e facilidade. Quantas maravilhas a ciência realizou!  Entretanto, eliminar por inteiro as enfermidades e a dor é impossível.
Se não é factível a extirpação dos males físicos, o mesmo acontece, e muito mais, com os espirituais: vemo-nos amiúde rodeados de decepções, dramas, aflições, incertezas, perplexidades, brigas, discórdias que destroçam as famílias... A vida está cheia de contrariedades e não nos é dado fugir totalmente delas, nem há dinheiro que compre uma completa satisfação nesta Terra. Como reagir, pois, em face da dor?
O homem tem necessidade de sofrer
Pensemos na felicidade do homem no Paraíso. Lá, onde vegetais e os seres inanimados estavam sob o seu domínio, e animais lhe obedeciam; admiravelmente equilibrado, ele desfrutava de um prazer enorme, inefável, pleníssimo, porque não existia nada que o fizesse sofrer, mas só motivos de alegria. Não havia tempestades, o clima era sempre ameno, favorecido por brisas suaves e serenas, e a tranquilidade da natureza era imagem da calma temperamental do homem, adornado pelo dom de integridade, graças ao qual estava livre de todo movimento desordenado de seus apetites sensíveis. Portanto, não conhecia a dor.