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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Grão de mostarda

24 O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo.
À primeira vista — e com fundamento — somos levados a crer que se trata de um homem rico, tanto mais quanto ele possuía servos. Qual a razão pela qual ele não os envia para semear e, pelo contrário, trabalha o campo com suas próprias mãos? Alguns autores chegam a manifestar essa perplexidade. Entretanto, conforme mais adiante veremos, é cheia de sentido a figura proposta pelo Divino Mestre.
Convém também deixar claro que, ao afirmar Jesus ser o Reino dos Céus “semelhante a um homem”, não quis delimitar-se exclusivamente a uma pessoa, mas à cena toda na qual esse homem desempenha um papel, conforme assevera o teólogo jesuíta Pe. Juan de Maldonado, com quem estão de acordo os comentaristas atuais.
Repare-se também tratar-se da “boa semente”, pois, caso contrário, os frutos não seriam bons. A terra se caracteriza por sua fidelidade, ou seja, ela retorna o que a ela foi dado. Se a semente é de má qualidade, do mesmo teor será a colheita.
Versar sobre a semeadura da boa semente não é o objetivo principal da parábola, mas sim sobre a atividade do inimigo, segundo veremos.
25 Porém, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo e semeou joio no meio do trigo, e foi-se.
Não se trata de um inimigo qualquer, mas “do inimigo”, o principal. Seu gesto não poderia ser mais maldoso. Uma péssima ação como a sua só poderia ser movida por um grande ódio ou uma grande inveja.
Entretanto, segundo relatos muito antigos, de pessoas que viveram em Jerusalém, vinganças como essa, de cortar uma árvore frutífera (oliveira, figueira, vinha, etc.) eram pecados próprios daquela região. Não falava apenas hipoteticamente o Senhor. O público não estranhou a menção a isso na parábola, e nem sequer ao caso da cizânia.
Muito conhecida é essa erva por aqueles que cultivam o trigo. Ao desenvolver- se a plantação, o joio — cujo nome científico é Lolium temulentum — até chegar à fase das espigas, assemelhase muitíssimo ao trigo, de onde resulta interessante sua utilização metafórica.
Aí estão algumas razões pelas quais o v. 25 não insiste na nocividade do joio que entrelaça suas raízes às do trigo.
Seu objetivo é apenas ressaltar a presença dessa erva daninha na plantação. Ademais, chama a atenção para o fato de ele ter sido ali espalhado pelo inimigo de forma clandestina, à noite, enquanto todos dormiam.
Comentando este versículo, São João Crisóstomo assim se expressa: “Com essas palavras nos faz ver que o erro vem depois da verdade, fato demonstrado pela experiência. (...) Tal é a malícia do diabo: semeia quando nasceram as sementes, para dessa maneira causar mais danos aos interesses do agricultor”.
Deus, em sua infinita sabedoria, criou os seres inteligentes em estado de prova, a fim de receberem meritoriamente o prêmio da glória eterna. E, por essa mesma razão, permitiu que os homens fossem tentados. Daí a necessidade da preciosa virtude da vigilância.
É patente a ação do inimigo: “semeou joio no meio do trigo, e foi-se”. Ora, ele aproveitou o sono de seus adversários para praticar sua má ação. E neste particular o Evangelho de hoje reafirma o preceito do Senhor: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).
Nós semeamos no entusiasmo; é a fase de “fervor de noviço” durante a qual não há obstáculo que faça esmorecer nossas decisões. A própria virtude da prudência parece-nos um empecilho nesses momentos, e, de fato, sentimos viver um tempo mais de ousadia que de ponderação, no qual comprovamos quanta razão tinha Santa Teresinha do Menino Jesus ao dizer: “Para o amor nada é impossível”. Aliás, referindo- se à situação oposta, São Bernardo costumava afirmar que “é impossível ao noviço prudente perseverar na vocação”.
Com ou sem culpa de nossa parte, há um momento em que essa sensibilidade diminui, não mais sentimos aquele impulso fervoroso, e nos vemos na contingência de nos apoiar somente na razão (iluminada pela fé, é verdade), e no esforço de nossa vontade. É o cair da “noite escura”, segundo a linguagem de São João da Cruz. Durante esse período, o demônio, o mundo e a carne encontram em nossa alma terra fértil para lançar o joio.
Aqui se entende melhor a figura do sono: quando a sensibilidade se evanesce, é chegado o momento da vigilância, tal como nos aconselha Santa Teresinha de Lisieux, que dizia às noviças: “Vós vos entregais com excesso às coisas que fazeis; vossos afazeres vos preocupam demasiado. Há algum tempo, eu li que os israelitas construíam os muros de Jerusalém trabalhando com uma das mãos, enquanto que na outra mantinham sua espada. Eis aí a imagem do que temos de fazer: trabalhar com uma das mãos; a outra, devemos usá-la para defender nossas almas dos perigos que possam impedir a união com Deus”.
Poderíamos dar ainda outra aplicação à parábola: há uma “semente de joio” que levamos em nosso interior em estado latente, a da concupiscência.
O Senhor semeou o bom trigo no Paraíso, ao criar nossos primeiros pais, Adão e Eva, concedendo-lhes a graça e dons que constituíam o estado de justiça original. Por seu lado, o demônio semeou a cizânia do pecado e, com este, o homem perdeu o dom de integridade.
Daí a concupiscência, que não é senão a inclinação natural do apetite aos bens sensíveis contrários à razão e à Lei de Deus.
Como opera em nós a concupiscência? Nosso conhecimento natural se realiza através dos cinco sentidos, como afirma a Escolástica: “Nada há em nosso intelecto que não tenha antes passado pelos sentidos”. Ora, antes mesmo de a razão ter emitido seu juízo sobre a liceidade ou não de qualquer bem sensível, nosso apetite já se sentiu inclinado a ele. Mais ainda, sobretudo quando fortemente impressionado pela atração do bem sensível, nosso apetite continuará agindo sobre a razão, depois de esta ter baixado sua sentença proibitiva, procurando arrastá- la. Daí, ou há uma férrea força de vontade — que só pela graça de Deus se obtém — para se opor às febricitações da sensibilidade, ou buscaremos uma justificativa para nosso comportamento ilícito.

domingo, 17 de julho de 2011

“Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito.”

Ao criar a alma humana, Deus infundiu-lhe um forte anseio de felicidade. Daí o não ter havido, e nem haverá, quem nunca a tenha procurado.
Sobretudo em épocas como a nossa, tão atravessada por dramáticas crises, apreensões e sofrimentos, torna-se ainda mais aguda essa veemente apetência.
Onde, porém, encontrá-la com inteira segurança? Deus nada cria senão para Si. Por esta razão, fora d’Ele os seres inteligentes — anjos ou homens — não obtêm verdadeira felicidade a não ser cumprindo com a finalidade última para a qual foram criados. É sobre esta relação entre o homem e Deus que incide a grande promessa feita por Jesus: a de sermos bem-aventurados nesta terra e post-mortem, por toda a eternidade, no Céu.
“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação”
Nós cristãos, enquanto batizados, temos a obrigação de não perder o estado de graça. Se, por fraqueza ou maldade, dele nos vejamos privados, com diligência devemos procurar recuperá-lo. Essa é a chamada perfeição mínima.
No Sermão da Montanha, Jesus não nos impõe a obrigação de sermos perfeitos. Porém, manifesta o desejo de que o aspirar a esse estado constitua um dos pontos essenciais da nossa existência. Além disso, tantos foram os tesouros por Ele deixados à humanidade — o Batismo a Confirmação, a Eucaristia, etc. — que, só por gratidão a tão imensos benefícios, já seria uma obrigação da nossa parte nos colocarmos a campo para atingir a meta enunciada por Jesus.
Com muita razão, a respeito da universalidade desse dever de santidade, assim se expressa João Paulo II: “É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado ‘Vocação Universal à Santidade’. (...) O dom [de santidade concedido à Igreja] gera, por sua vez, um dever que há de moldar a existência cristã inteira: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação’ (1 Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade’ (...) Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho extraordinário, percorrível apenas por algum ‘gênio’ da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um”.
São Paulo é incansável em frisar a necessidade da perfeição sem limites, como substância da vocação do cristão: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual do Céu em Cristo, assim como n’Ele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante d’Ele ...” (Ef 1, 3-4).
É comum, ao longo de suas Epístolas, encontrarmos uma verdadeira sinonímia entre os termos “cristão” e “santo”, tal era o seu empenho neste particular.
Deus é infinito. Portanto, quem é chamado a amá-Lo tem por fim último um Ser ilimitado. O amor nosso é uma potência criada com aspiração por Deus, e por isso diz Santo Agostinho: “Nossos corações foram criados para Vós e só em Vós repousam”, ou seja, a própria potência do amor em si mesma visa o infinito. Por isso afirma São Francisco de Sales: “A medida de amar a Deus, consiste em amá-Lo sem medida”.
O próprio Jesus, com divina radicalidade, assim reforça o Mandamento dado a Moisés: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mc 12, 30). Daí se conclui termos o dever de buscar o fim em toda a sua amplitude, e de empregar para atingi-lo, todos os meios ao nosso alcance.
Ademais, toda vida, também a sobrenatural, é suscetível de progresso, e tem em si uma força dinâmica que busca seu desenvolvimento. No que diz respeito ao nosso corpo, esse processo se verifica instintiva e prazeirosamente.
Quanto ao espírito, porém, é indispensável a aplicação de nossa inteligência e de nossa vontade, a fim de cooperarmos com a graça de Deus.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os surdos ouvem, os mudos falam

 O surdo de Deus
Ouvir a voz de Deus é tomar a atitude de Samuel: “Falai, Senhor; vosso servo escuta!”, ou a de São Paulo no caminho de Damasco, ou a de tantos outros. Em sentido oposto, o pecador, devido à zoeira de suas paixões, acaba por tornar-se surdo aos apelos de Deus, chegando até mesmo a esquecer-se das mensagens sobrenaturais recebidas no passado. A surdez simboliza toda a insensibilidades da alma no seu relacionamento com o Criador.
Inúmeros são os meios pelos quais Deus procura entrar em contato conosco. Antes de tudo pela própria ordem da criação visível; em seguida, através dos fatos palpáveis e tangíveis produzidos pela providência natural e sobrenatural, sobre os quais o Livro da Sabedoria nos ensina maravilhosamente.
Deus fala aos homens através do Magistério infalível da Santa Igreja, como também por toques sensíveis da graça, e até mesmo pela voz da consciência. A Sabedoria, segundo declara a Escritura, “antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.” Ou seja, Deus está continuamente nos chamando para participarmos de sua glória e felicidade eternas.
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, — disse Jesus — e Eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão”. Eis o sinal inconfundível para se saber quem é de Deus e quem não o é: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus”, disse Nosso Senhor, depois de ter afirmado serem os fariseus, filhos do demônio. É mais sensível a Deus quem O ama intensamente, tal como encontramos em São João: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra”.
Infelizmente, a surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas históricas. Inclusive entre os próprios batizados.
Um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à palavra de Deus, quer seja por falta de formação, quer pela pobreza da oração.
Quantos são os ateus práticos que nunca rezam! Entretanto, para receber alguma comunicação oriunda da eternidade, basta colocar-se em estado de contemplação.
Quem assim não procede, dificilmente discernirá, em meio à zoeira e às aflições do mundo moderno, a voz da graça. E é preciso não esquecermos o conselho da Escritura: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações”
 O mutismo espiritual
Ser mudo na ordem do espírito, segundo a Patrologia, consiste no silêncio de quem teria obrigação de glorificar a Deus. Terrível é este mal — e quase sempre conseqüência do anterior — pois, ainda que não tivéssemos sido elevados à ordem sobrenatural, pelo simples fato de sermos criaturas de Deus, teríamos o dever de reportar a Ele toda honra e glória, tal qual nos diz Davi: “Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”.
Porém nós, enquanto batizados, somos filhos de Deus, e não meras criaturas, e por isso compete-nos o encargo de dar público testemunho da grandeza de nossa religião e de Cristo Jesus em especial, pois tem Ele o direito de ver seu esplendor manifestado diariamente. É este um dos meios fundamentais para atrair aqueles que ainda não O conhecem e afervorar os que já abraçaram suas vias.
Esta obrigação é tão grave que se tivéssemos de escolher entre morrer ou renegar a Cristo, seria indispensável optar pelo martírio. Por que somos nós tão valentes em defender nossos interesses pessoais e tão covardes em relação aos de Deus? “Onde está teu tesouro, aí está teu coração”, esta é a principal razão do mutismo de espírito, ou seja, a falta do amor a Deus. “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro”. Se nosso amor a Jesus por meio de Maria for pleníssimo a ponto de substituir nosso egoísmo, jamais seremos mudos para glorificá-Lo.
“TOMOU-O À PARTE” RECOLHIMENTO
Certas enfermidades, sobretudo as mais graves, exigem tratamento hospitalar. De maneira análoga, assim também se passa com o processo de cura dos portadores de alguns vícios espirituais, ou seja, é necessário afastá-los da multidão, retirá-los do bulício e da agitação.
O esfriamento de nossa vida de oração, o abandono da prática da religião vão dando rédeas soltas às nossas paixões desregradas, os maus hábitos invadem nossa inteligência e nossa vontade, a Lei de Deus acaba por tornar-se cada vez mais pesada, e, por fim, terminamos sendo surdos de Deus, e mudos para sua glória. Será útil, e talvez até indispensável, nessas circunstâncias, tomar distância, recolher-se de alguma forma, para entregar- se nas mãos de Jesus e ser por Ele miraculado.
Os grandes pregadores de outrora, ao comentar este trecho do Evangelho, com freqüência faziam uma aproximação entre as enfermidades físicas e as espirituais, convidando os fiéis de forma veemente à conversão.
Santo Agostinho se destaca entre todos, usando ao longo de suas obras, muitas vezes, a expressão “Surdos para ouvir a verdade e mudos para glorificar a Deus”.
A metáfora é ainda mais aplicável ao nosso mundo hodierno. Uma grande maioria das pessoas tem, na atualidade, os ouvidos abertos e sensíveis a quase tudo o que não seja de Deus: imoralidades, blasfêmias, ateísmo, escândalos, etc.; e muitas vezes fechados ou endurecidos para os avisos, exemplos e conselhos rumo à santidade. E o que pensar do uso da língua neste começo de milênio? Não poucas vezes consiste em proferir pecados, iniqüidades, blasfêmias, difamações, calúnias, mentiras, etc., quando na realidade recebemos de Deus o dom da fala para proclamar sua grandeza, honra e glória!
A humanidade se encontra mais surda e mais muda do que todos os estropiados de fala e audição existentes nos dias da vida pública de Nosso Senhor. Quão necessária é a intercessão de Maria para obter de Jesus o retorno da audição e da expressividade dos áureos tempos da História, nos quais os homens cantavam as glórias de Deus não só pelas palavras, gestos e atitudes, mas também através de melodias e de todas as artes!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quem é o meu próximo?

 O principal objeto do pensamento, ontem e hoje
“Falhou o motor do carro, acabou a energia elétrica, os bancos entraram em greve, foi lançado um novo tipo de software, afinal a ciência encontrou a substância preventiva contra o câncer”... e, se tempo e espaço houvesse, poderíamos encher páginas e páginas com os assuntos que no mundo atual absorvem exageradamente a atenção da humanidade. Deus deixou de ser a preocupação principal de quase todas as pessoas para dar lugar a um desenfreado egocentrismo. A agitação passou a ser a nota tônica do dia-a-dia em toda a face da terra, o relacionamento humano e a própria estrutura da vida social já não mais facilitam a elevação do pensamento a Deus.
A esse respeito, a situação do gênero humano era bem diversa na época da Jesus; apesar da grande decadência na qual estava ele mergulhado, o empenho em conhecer idéias era mais notório. No povo judeu, em concreto, a apetência por explicitações doutrinárias, sobretudo quando estreitamente ligadas com a religião, era robusta e contagiante. Um exemplo característico deste estado de espírito ocorre com o legista que se levanta para fazer uma pergunta a Nosso Senhor. Por mais que seu intento não fosse inteiramente isento de segundas intenções, o questionamento exposto por ele deixa transparecer qual era o teor dos assuntos tratados nas conversas comuns daquele período histórico.
Malévolas intenções dos doutores da lei e dos fariseus
Então, levantou-se um doutor da Lei, que Lhe disse para O experimentar: “Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?”
A pergunta feita pelo doutor da Lei é praticamente a mesma relatada tanto por São Mateus (22, 35), como por São Marcos (12, 28). Porém, ao lermos os três Evangelhos, damo-nos conta de serem cenas diferentes. Esta de São Lucas deve ter-se passado em Jericó e, levando em conta o consagrado costume durante as exposições e pregações realizadas nas sinagogas — ou seja, todos os assistentes participavam sentados e, ao surgir uma pergunta, esta deveria ser pronunciada de pé — tudo indica ter-se dado no interior desse ambiente.
O anseio mal-disfarçado desse doutor da Lei de apanhar Jesus em algum lapso, transparece na essência e na forma da pergunta. Se alcançasse êxito em seu intento, teria satisfeito seu amor próprio. Provavelmente se tratava de um fariseu ainda não penetrado das malévolas intenções daqueles que, mais tarde, procurariam pretexto para matá-Lo.
O objetivo desse doutor da Lei era de pôr à prova os conhecimentos de Jesus e estabelecer com Ele uma polêmica da qual, sendo doutor, sairia triunfante. Esta suposição se deduz da segunda pergunta feita pelo mesmo personagem a Jesus. O fato de este encaminhar a conversa para um ponto muito discutido entre os rabinos deixa claro esse seu intuito.
Até os fariseus se preocupavam com a vida eterna... E hoje?
Jesus respondeu-lhe: “O que é que está escrito na Lei? Como lês tu?”  Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo.”
Em Marcos encontramos idêntica pergunta feita pelo moço rico, à qual Jesus responde com um elenco sintético das virtudes obrigatórias para todos (cf. 10, 17ss). No caso presente, o doutor da Lei não obtém d’Ele senão uma outra interrogação como resposta. O Divino Mestre lhe propicia a prática da virtude da humildade, remetendo-o ao primeiro Mandamento da Lei de Deus, fato desagradável para um teólogo de fama: o ter de retornar ao Catecismo. Esse procedimento de Jesus não poderia ser melhor, pois desse modo facilitava ao seu interlocutor um passo a mais na sua vida espiritual: o ver-se na contingência de repetir a frase que todo judeu recitava duas vezes ao dia: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). E como não lhe ficaria bem dizer tão pouco, ele resolve acrescentar um complemento para, talvez, fazer assim notar diante dos outros sua erudição: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 15, 18). Com sabedoria comenta este versículo o famoso Maldonado: “Com admirável prudência, Cristo remete para a Lei aquele doutor que fingia ignorância e pretendia explorar sua doutrina.
Costumava assim proceder quando Lhe faziam perguntas capciosas, para atenuar o efeito desagradável de sua resposta. Remetia, pois, para a Lei, e era esta que condenava quem dela se vangloriava”.
Se fôssemos nos deter na consideração de cada uma das palavras do Deuteronômio (6, 5) espaço não haveria. Basta-nos saber que o verbo empregado nas versões latinas, não é amare mas diligere. Este termo diz respeito ao amor sentido que resulta da soma da vontade espiritual e do sentimento.
Apesar do lamentável estado moral e espiritual do povo naquelas circunstâncias históricas, as pessoas se colocavam diante da problemática da salvação eterna: “... que devo fazer para possuir a vida eterna?” Muito diferentemente de nossos dias, pois quem hoje se preocupa com seu destino após a morte? Atualmente, o empenho por conservar não só a saúde, como também a beleza, uma bem sucedida situação financeira, etc., absorve todas as atenções; o nosso futuro após ultrapassarmos as barreiras do tempo é matéria de total desinteresse. Assim, os patrões não zelam pela formação espiritual de seus empregados; os pais, pela de seus filhos; os professores, pela de seus alunos; etc. Rompem com o gravíssimo dever imposto a eles por Deus de serem mestres junto a outros...
São Basílio, atendendo às aspirações dos fiéis de seu tempo, deixou-nos uma belíssima interpretação a respeito do amor a Deus: “Se alguém nos perguntar como se pode adquirir o amor divino, responderemos que não se aprende este amor.
Não aprendemos de outrem a nos alegrarmos com a presença da luz, nem a amar a vida, nem a amar nossos pais ou nossos amigos; nem, muito menos, podemos aprender as regras do amor divino; mas há em nós um sentimento íntimo, o qual tem suas causas intrínsecas e nos predispõe a amar a Deus. E quem obedece a esse sentimento põe em prática a doutrina dos preceitos divinos e atinge a perfeição da divina graça. Amamos naturalmente o bem; amamos também nossos próximos e parentes; ademais, damos espontaneamente aos benfeitores todo o nosso afeto. Se, pois, o Senhor é bom, e todos desejam o bom, aquilo que se aperfeiçoa por nossa vontade reside naturalmente em nós. A Ele, embora não O conheçamos por sua bondade, no simples fato de que d’Ele procedemos, temos obrigação de amá-Lo sobre todas as coisas, como sendo o nosso princípio. É também maior benfeitor do que todos os que se amam naturalmente. Por conseguinte, o primeiro e principal mandamento é o de amar a Deus” (3).
Quem mais próximo do que Jesus?
Jesus disse-lhe: “Respondeste bem: faze isso e viverás.”  Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”
O pobre doutor da Lei se via numa situação de inferioridade — muito útil, aliás, para a sua vida espiritual — e procurou justificar-se, pois nada pior do que o silêncio diante do público que o circundava. Qualquer bobagem cairia melhor. O próprio Pilatos, em circunstâncias análogas, também optou por perguntar : “O que é a verdade?”
“Finge, pois, o doutor que não está perguntando uma coisa tão vulgar e conhecida de todos, mas sim um ponto difícil e discutido entre os mais insígnes doutores (...). Por outro lado, Santo Ambrósio, Teofilaro, Eutímio e (segundo São Tomás) São Cirilo opinam que ele propôs formalmente essa questão por pensar que próximos eram só os justos com respeito a ele, que se considerava justo” (4).
Em síntese, o seu desejo de demonstrar ter inteiro cabimento sua primeira pergunta o leva a enunciar esta outra que, nos dias atuais, com facilidade qualquer criança de Catecismo responderia. Entretanto, naquela quadra histórica constituía uma questão inextricável. As origens familiares, as classes sociais, o regionalismo, a nacionalidade, a raça, eram fatores de separações estanques. Não nos esqueçamos de mencionar a terrível discriminação da escravidão, consagrada em todas as legislações da época. Ora, o povo mais afetado por esse espírito de separatismo era o judeu. Basta correr os olhos pelo Talmud para comprovar os extremos a que chegou contra os goyim, ou seja, todos os não judeus. Muito comum era o juízo de que só os do povo eleito eram chamados à salvação eterna. Ademais, baseados no Levítico: “não guardarás rancor contra os filhos de teu povo” (Lv 19,18), não concebiam que a amizade pudesse transpor os limites da nacionalidade.
Porém, “daí não se segue que ele tenha feito a pergunta com sinceridade e desejo de aprender, porque, embora ignorando, estava convencido de que sabia” e a tal ponto que a Escritura não deixava margem a dúvida de como tratar ao não-judeu: “Se algum estrangeiro habitar na vossa terra, e morar entre vós, não o impropereis; mas esteja entre vós como um natural; e amai-o como a vós mesmos; porque também vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Lv 19. 33-34).
Por outro lado, vemos esse doutor numa situação paradoxal: “Naquele mesmo instante se encontrava um próximo extraordinariamente especial ou seja, o próprio Deus! Por isso, ao fazer essa pergunta, deixa claro (...) que não conhecia seu próximo, porque não acreditava em Cristo, e quem não conhece Cristo desconhece a Lei; porque, ignorando a verdade, como pode conhecer a Lei que anuncia a verdade?”
Talvez a isso o tivesse levado seu orgulho pouco ou nada combatido.
“Elogiado pelo Salvador, por ter respondido bem, o doutor da Lei encheu-se de soberba, não acreditando existir alguém que pudesse ser seu próximo, como se não houvesse quem fosse capaz de equiparar-se a ele em justiça. Por isso diz: ‘Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?’ Assediavam-no, por assim dizer, alternativamente, os vícios: após a falácia com que fizera a pergunta, tentando, cai na arrogância. Ao perguntar: ‘Quem é o meu próximo?’, já se mostra vazio do amor ao próximo e, em conseqüência, revela-se vazio do amor divino, pois, não amando o irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê” .
Os escribas e fariseus — que alimentavam entre si, dia-a-dia, sua indignação contra os gentios, como até mesmo à própria plebe judaica — iriam ouvir do Mestre uma clara e irrefutável lição, cheia de calor, de como se deve tratar o próximo...
A parábola: Quem é, afinal, o meu próximo?
Jesus, retomando a palavra, disse: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto.”
Quantas escolas e cursos de didática se multiplicam por todo o orbe! Entretanto, é impossível superar aquela empregada pelo Divino Mestre em sua vida pública. A criação da figura do Bom Samaritano é simplesmente genial. A própria descrição das circunstâncias geográficas nas quais o caso se verifica é de um colorido tão real que por pouco não julgamos tratar-se de um fato histórico.
Jerusalém dista de Jericó, aproximadamente, trinta quilômetros e, entretanto, a diferença de altitude entre uma e outra cidade quase atinge seus mil metros. Ao empreender-se o caminho partindo de Jerusalém, depois de percorrer uns três quilômetros, chega-se a Betânia, após a qual termina a vegetação e uma região bem rochosa se evidencia por longa extensão. A certa altura, nos dias de hoje, encontra-se uma hospedaria com o nome de “Bom Samaritano”, ao que parece, para fazer jus à parábola. Tudo leva a crer que de fato deve ter sido esse o local descrito pelo Senhor, pois ao longo dos séculos multiplicaram-se ali os assaltos, e não só à noite, mas em plena luz do dia. Ademais, existem ainda, não muito distante desse albergue, as ruínas de uma fortaleza, prova evidente do quanto devia ser perigoso o local.
O Evangelho sempre procura ser sintético, motivo pelo qual muitos aspectos, talvez secundários, de suas narrações não passam para a História. Por isso, não é exagero imaginarmos o quanto os detalhes psicológicos e geográficos foram cuidadosamente elaborados pelo Senhor.
Por esse caminho descia supostamente um judeu, pois, não tendo sido mencionada sua raça, por exclusão só podia tratar-se de um co-nacional do levita e do sacerdote que o sucederiam após o assalto. Entretanto, como veremos, essa imprecisão tem sua razão de ser. Das cavernas, ou de trás das rochas, surgem uns assaltantes que despojam o pobre homem e, certamente por ter ele reagido, aplicam-lhe severos golpes, abandonando-o quase sem vida em meio ao seu próprio sangue, impedido, portanto, de seguir seu curso normal.
Uma vez delineada a dramática situação desse homem e a fuga dos bandidos, a cena se enriquece com três personagens mais: um sacerdote, um levita e o samaritano.
O sacerdote e o levita violam a Lei, por terem o coração endurecido
Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote que, quando o viu, passou de largo. Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar e vendo-o, passou adiante.
A nacionalidade judaica e a respectiva religião eram os mais elevados pressupostos de honra de todo o povo eleito. Ora, aquele ferido possuía essas características essenciais, e vê-se claramente qual foi a intenção do Divino Mestre ao ideá-lo como vítima, pois o sacerdote ao se aproximar apenas o verá e passará adiante. Deduz-se que ele havia terminado seu serviço no Templo e retornava a Jericó onde residiam muitos dos de sua categoria. Não podia ser mais providencial esse encontro fortuito. A Lei determinava como obrigação grave socorrer qualquer acidentado, sobretudo em estado pré-agônico.
Religião, nacionalidade, desamparo, nada moveu aquele duro coração de um ministro de Deus chamado ao heroísmo da caridade. Não é difícil imaginarmos os raciocínios que provavelmente elaborou a partir de então e ao longo do caminho, para tranqüilizar sua atormentada consciência: “É um homem qualquer! Um desconhecido, sem títulos. É melhor nem me deter, para não rebaixar minha condição”. Eram as razões ditadas pelo orgulho mal-combatido, e não tão raro, naqueles que tinham por vocação a missão de extirpar esse mesmo vício nos outros e em si próprios. Ademais, se a humildade fosse sua companheira, nada lhe custaria, ainda que por puras palavras, procurar confortar aquele pobre hebreu. Um pequeno desvio, sem muito deter-se, foi todo o seu esforço. “Assueta vilescunt”, diz-se em latim; ele estava calcinado por uma rotina entibiada de suas funções litúrgicas no Templo, como também intoxicado pela hipocrisia dos escribas e fariseus.
Não lhe devia ser estranho um certo cálculo dos gastos a serem efetuados, caso ele se propusesse socorrer aquela vítima roubada, despojada e ensangüentada. Nem sequer poderia contar com uma recompensa e, menos ainda, com a recuperação do dinheiro empregado. Nada poderia esperar em retribuição aquele ministro pela perda de tempo, incomodidade, prejuízo, etc. Manifestou-se robusto seu caráter interesseiro de um vil pragmatismo diante daquele drama.
No extremo oposto da bondade, encontramos ao longo da História corações duros, cruéis e difíceis de se deixarem enternecer pelos necessitados. Nada os move à compaixão. Ali “por acaso, descia” um exemplo vivo dessa empedernida insensibilidade.
Aquela cena, entrecortada por gemidos que imploravam socorro e misericórdia, mais inspirava repulsa e náusea do que pena, naquele coração pervadido de amor-próprio.
Porém, a Lei era explicitamente contrária aos seus sentimentos de egoísmo (cf. Ex 23, 5), e ele não podia ter abandonado seu irmão, sobretudo naquelas circunstâncias.
As mesmas considerações serviriam para caracterizar a atitude idêntica do levita que, logo a seguir, também passou por ali. Ambos provavelmente haviam deixado o Templo após o término de seu expediente e desciam para Jericó, cidade que abrigava a metade dos servidores religiosos.
Misericórdia do samaritano
Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto dele e, quando o viu, encheuse de compaixão. Aproximou-se dele, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse-lhe: “Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”.
Bem diferente foi a reação do samaritano. Sem levar em conta o ódio racial que violentamente os separava, apesar de se tratar de um inimigo seu, sua religiosa incompatibilidade se transformou, no mesmo instante, em comiseração. O Evangelho recolhe os maravilhosos detalhes da divina parábola elaborada por Jesus para o doutor da Lei: o samaritano se manifesta um herói da caridade desde o descer de sua montaria, aplicando in loco todos os cuidados cabíveis naqueles tempos, conduzindo a vítima a uma pousada, até o contrair uma dívida com o estalajadeiro, a fim de que este dispensasse todos os cuidados ao pobre judeu. Percebe-se, pelo contrato proposto e aceito, ser ele um mercador de confiança e muito estimado pelo dono da estalagem.
Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? 37 Ele respondeu: “O que usou de misericórdia com ele.” Então Jesus disse-lhe: “Vai e faze tu o mesmo.”
Novamente, Jesus responde ao doutor da Lei com outra pergunta, parecendo à primeira vista desejoso de desviar-se um tanto da substância da temática proposta pelo consulente. Esse aparente desvio da questão, intencionalmente levado a cabo pelo Divino Mestre, é uma quimera que atrai a atenção da maioria dos comentaristas, dando-lhes ocasião para levantar as mais variadas hipóteses. Trazemos à tona a mais sábia e lúcida delas:
“No meu entender, Cristo pretende demonstrar de modo geral que todo homem é nosso próximo; mas o faz de modo adaptado àquele doutor com quem estava tratando. Pensava este que só os justos, ou só os amigos, ou ao menos só os judeus, eram seus próximos. E das próprias palavras da Lei teve ocasião de errar, porque no hebraico próximo significa o mesmo que amigo e companheiro. Quis, pois, Cristo tirá-lo desse erro e obrigá-lo a reconhecer e confessar que próximo não era só o judeu para o judeu, mas também o samaritano para o judeu, isto é, o inimigo para o inimigo. E se o próprio inimigo era próximo para o inimigo, todo homem deve se considerar próximo em relação ao outro. Demonstrou isso com a melhor e mais eficaz argumentação, ou seja, pelo efeito, fazendo ver que o inimigo tinha sido próximo para o inimigo, isto é, o samaritano para o judeu, pois fez o que é característico do próximo, que é ajudar. Por isso Cristo propôs a parábola com o exemplo de um samaritano”.
No mesmo sentido, opina um conhecido comentarista moderno:
A pergunta de Cristo foi feita com intenção especiaL. Perguntou-Lhe o doutor da Lei quem era o próximo para ele. E Cristo [por sua vez], perguntou: Quem agiu como próximo? Desse modo, com um exemplo prático, fez ver que cada homem é próximo para todos os homens. Motivo pelo qual deve estar próximo a ele em todas as suas necessidades. É o paradoxo oriental servindo de máxima pedagogia. Tal foi a lição magisterial de Cristo”.
Tem toda razão Maldonado ao expressar essa análise, pois não era tão explícito para um judeu o conceito de próximo, por várias razões. Por sua história e por sua lei, antes de tudo. Sempre que os judeus se misturavam com outros povos, acabavam caindo na idolatria. Por outro lado, basta considerar o quanto a Terrra Prometida se localizava entre mar, desertos e montanhas, separando o povo judeu, geograficamente, dos demais. Daí ser muito restrito para eles o verdadeiro significado de “próximo”. E entre si julgavam-se irmãos, mas, com os outros, viviam numa antipatia instintiva levada, não raras vezes, até ao ódio.
Por cima dessas circunstâncias, o povo judeu possuía uma missão universal. A ele havia sido confiado o tesouro espiritual do qual deveria ser alimentada toda a humanidade.
Assim se explica essa belissima parábola composta pelo Divino Mestre, que foge um tanto da morfologia das outras, nas quais o simbolismo se espraia por todos os substantivos e adjetivos. Ela constitui um exemplo efetivo e afetivo de amor a Deus, sem o qual não existe Religião, e de amor ao próximo, sem o qual não há amor a Deus.
Quem diz amar a Deus, mas não ama seu próximo, além de mentir, desobedece à Lei divina e se esquece de seu Preciosíssimo Sangue derramado no Calvário.
Esse amor deve ser universal e não podemos nos apoiar em pretextos, aparentemente legitimos, para não praticá-lo, como o fizeram o sacerdote e o levita da parábola. Eles certamente estavam encarregados de missões boas e delas retornavam para suas casas, entretanto, procederam mal com o necessitado.
Não poucos autores aplicam a parábola ao próprio Jesus Cristo, com muita piedade. Não será de mau gosto fazermos urna aplicação a nós, perguntando-nos quais têm sido, em geral, nossas atitudes e reações face aos necessitados de qualquer espécie.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Considerações sobre a Eucaristia

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.
Este versículo especifica o tipo de vida dado a quem comer a carne e beber o sangue de Cristo; trata-se nada mais nada menos que da visão beatífica.
Incorporados a Cristo pelo Batismo, necessitamos ser alimentados por seu sangue e por sua carne para desenvolver, rumo à plenitude, nossa vida divina — e, portanto, eterna.
Por sua vez, poderia parecer estar prometendo Jesus a imortalidade para quem comesse sua carne e bebesse seu sangue, e daí o acrescentar: “Eu o ressuscitarei no último dia”.
Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
Vê-se aqui o empenho de São João em evitar a menor dúvida sobre a presença real do corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Sempre imbuído de uma chamejante virtude da fé, desejava ele entregar aos séculos futuros seu inconteste depoimento do que ouvira sobre o mais importante dos Sacramentos. Daí o repetir um conceito já enunciado.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele.
Em nossa vida humana, o alimento é essencial para nosso crescimento, manutenção e saúde. Deus assim o dispôs para, entre outras razões, dar ao nosso entendimento um símbolo dos efeitos da Eucaristia. Produz esta na alma de quem a recebe algo análogo à assimilação do alimento pelo organismo humano. Não através de uma simples permanência física, mas por meio de um relacionamento íntimo e uma união estreitíssima. Ao longo do Evangelho de São João, encontramos várias referências de Jesus a essa permanência mútua.
Assim como o Pai que me enviou vive em mim, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.
O próprio autor e fonte da vida se entrega a nós como alimento para nos sustentar. Seu corpo, sangue, alma e divindade, como verdadeira comida e bebida, desenvolvem em nós a vida sobrenatural começada pelo Batismo. Da mesma maneira pela qual Jesus recebe a vida do Pai, nós a recebemos do Filho como de fonte e princípio.
Ora essa vida nos é concedida pela Graça, e sem a conhecermos não compreenderemos o presente versículo. Procuremos sintetizar em poucas palavras essa realidade infinita:
“O dom da graça excede o poder da natureza criada, porque não é outra coisa senão uma participação da natureza divina, a qual supera qualquer outra natureza. Por conseguinte, é impossível a uma criatura produzir a graça, como é impossível que algo que não seja fogo queime. Portanto, é necessário que somente Deus divinize, comunicando a união da natureza divina por certa participação de semelhança”(São Tomás de Aquino).
Comentando esta passagem de São Tomás de Aquino, assim se exprime o famoso Pe. Royo Marín: “A graça é uma verdadeira qualidade habitual que modifica acidentalmente a alma que a recebe, tornando-a ‘deiforme’, ou seja, semelhante a Deus, ao comunicarlhe uma participação de sua própria natureza divina”.
Nesta mesma obra, o Pe. Royo nos fornece os elementos para melhor compreendermos a pulcritude contida no versículo em questão: “Entre os maravilhosos efeitos que produz em nós a graça santificante, há um que excede infinitamente a própria graça: a inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo (...) A graça, com efeito, nos dá uma participação criada da natureza incriada de Deus. Mas a inabitação divina — absolutamente inseparável da graça santificante — nos dá o mesmíssimo Deus, ou seja, a mesma realidade incriada que constitui a própria essência de Deus”.
Por fim, conclui o grande teólogo dominicano: “No cristão, a inabitação equivale à união hipostática na pessoa de Cristo, embora não seja ela, mas a graça santificante, que nos constitui formalmente filhos adotivos de Deus. A graça santificante penetra e embebe formalmente nossa alma, divinizando-a. Mas a divina inabitação é como a encarnação, em nossas almas, do absolutamente divino: do próprio ser de Deus tal como é em si mesmo, uno em essência e trino em pessoas”.
Essa participação na vida divina se inicia com o Batismo mas atinge sua perfeição com a Eucaristia que não só conserva e aumenta em nós a virtude da caridade, assemelhando-nos a Jesus, mas também nos estimula à prática da mesma: “O efeito deste sacramento é a caridade, não só enquanto hábito, mas também enquanto ato, pois ela é por ele estimulado”.
No amplo firmamento da Igreja, quase não há santo que não tenha se pronunciado sobre os grandiosos efeitos deste Sacramento. Recordemos dois deles:
— Santo Agostinho (Confissões, VIII, 9): “Sou manjar de robustos. Cresce e me receberás e não me mudarás a mim em ti, qual farias com uma comida corporal, senão que tu te mudarás em mim”.
— São Leão Magno (Sermão 14, da Paixão): “Não faz outra coisa a participação do corpo e do sangue de Cristo, senão transformarnos no que comemos”.
Eis alguns elementos para se entender a afirmação de Jesus: “aquele que come a minha carne viverá por mim”.
Este é o pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.
Insiste o Divino Mestre, devido à dureza de coração daqueles que o rodeavam. Explica, por comparação, a excelsitude do pão eucarístico. Quantos judeus se haviam beneficiado do maná ao longo dos quarenta anos de travessia do deserto e, entretanto, se condenaram eternamente! Jesus promete aos que se alimentarem desse Sacramento, nas condições exigidas, a própria vida eterna, a participação na vida e gozo da Santíssima Trindade.
PAZ E CONSOLAÇÃO PARA OS QUE SOFREM
Considerações sobre a Eucaristia poderiam ser escritas a ponto de tornarem pequenos os espaços de todas as bibliotecas do mundo. Focalizemos apenas mais uma delas: a paz e a consolação oriundas deste tão sublime Sacramento.
São Tomás demonstra o quanto constitui um vício o fato de deixar a tristeza apoderar-se de nossos corações, a ponto de perturbar o uso da razão. Ora, vivendo nesta fase histórica tão penetrada pela angústia, drama e aflição, não erramos em afirmar ser a tristeza a nota tônica de nossos dias. Onde, então, obter o consolo e alegria de coração? Tanto mais que o buscar alívio é um fenômeno natural e espontâneo, uma reação psicológica de toda alma oprimida.
Quem não procura apoiar-se nas criaturas — sejam elas parentes, amigos, diversões — para só falar nas que estão dentro dos limites da liceidade moral? Mas, o apegar-se às criaturas é preparar novas e amargas desilusões.
É no Tabernáculo, na Eucaristia, onde verdadeiramente podemos encontrar o júbilo tão ansiado por nossos corações. Foi Jesus quem afirmou: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e Eu vos aliviarei”. O único conforto está em Deus e é por isso que, sobre nossa vida no Céu, o Apocalipse diz: “Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem mais dor”, porque o próprio Deus enxugará as lágrimas de seu povo.
Aproximemo-nos pois, freqüentemente, da mesa da Comunhão, sempre por meio de Maria, e seremos os entes mais felizes dentre todos.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Eucaristia- verdadeiro alimento

Publicaremos alguns comentários do Mons João Clá Dias a respeito da Eucaristia.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que Eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.

Até o presente versículo, Jesus, em seus sermões e revelações, apresentava os efeitos produzidos por esse “pão” em todos os que dignamente d’Ele viessem a se alimentar. Aqui, entretanto, define a sua substância: não é só o “Pão da Vida” , mas o “Pão Vivo”, ou seja, contém a vida em si próprio. E realmente trata-se do “Pão” que “desceu do céu”, é o Verbo de Deus que “se fez carne e habitou entre nós” para comunicar-nos “a vida que estava n’Ele” “desde o principio”, ou seja, desde toda a eternidade. Há, portanto, uma vida eterna nesse “Pão Vivo”, conferindo, àquele que dele se alimenta, o dom de viver para sempre.
Mas, como ter parte nessa tão preciosa vida?
Nos tempos do Antigo Testamento, o modo de participar de um sacrifício consistia em comer da vítima oferecida. Esta realidade transparece claramente na primeira epístola de São Paulo aos coríntios, na qual, com seu incansável zelo apostólico, não só os adverte a fugirem da idolatria, mas procura incentivá-los a dela se afastarem: “Considerai Israel segundo a carne: os que comem das vítimas, porventura não têm parte no altar? Mas que digo? Digo que o que foi sacrificado aos ídolos é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios e não a Deus. Ora, não quero que tenhais parte com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”.
Em sua infinita sabedoria, aceitou Deus, desde os primórdios da antiguidade, o cerimonial do oferecimento de vítimas e o modo de participar do sacrifício, com o intuito de preparar os homens para receber os benefícios da imolação do Cordeiro de Deus, d’Aquele que tira os pecados do mundo.
E Jesus, com um ano de antecedência, anuncia que dará a Santa Eucaristia, sob as espécies de pão e de vinho, e afirma ser esse pão sua “carne para salvação do mundo”.
Para entender bem o conteúdo deste versículo, devemos nos lembrar que, segundo o conceito judaico daqueles tempos, carne e sangue designavam o homem completo; ora, de qual carne se trata aqui? Da carne de Cristo, carne crucificada e imolada para “salvação do mundo”. Eis o caráter sacrifical da Eucaristia subentendido nessa afirmação de Jesus.
 Naquela atmosfera semítica — e até mesmo greco-romana — comia- se a vítima oferecida em sacrifício e dessa forma se participava do mesmo. Pois este é o objetivo essencial de São João no presente versículo, ou seja, o de acentuar o efeito redentor e universal da morte de Jesus, em benefício do mundo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Corpus Christi



Corpus Christi
“LOUVA, SIÃO, O SALVADOR”
Um dos pontos culminantes do ano litúrgico, a festa do Corpo de Cristo comemora o dom inigualável do Santíssimo Sacramento.
Aquele mesmo Jesus que pelas, pelas praças e por todo outro lugar por onde passava, curava, perdoava e fazia o bem, encontra-se à nossa disposição na Eucaristia.
Como nasceu a comemoração de “Corpus Christi”
A festa litúrgica em louvor ao Santíssimo Sacramento foi instituída em 1264 por Urbano IV. Ela deveria marcar os tempos futuros da Igreja, tendo como finalidade cantar a Jesus Eucarístico, agradecendo-Lhe solenemente por ter querido ficar conosco até o fim dos séculos sob as espécies de pão e vinho. Nada mais adequado do que a Igreja comemorar esse dom incomparável.
 Logo nos primeiros séculos, a Quinta-feira Santa tinha o caráter eucarístico, segundo mostram documentos que chegaram até nós. A Eucaristia já era o centro e coração da vida sobrenatural da Igreja. Todavia, fora da Missa não se prestava culto público a esse sacramento. O pão consagrado costumava ficar guardado numa espécie de sacristia, e mais tarde lhe foi reservado um nicho num ângulo obscuro do templo, onde se punha um cibório em forma de pomba, suspenso sobre o altar, sempre tendo em vista a eventual necessidade de atender a algum enfermo.
 Mas durante a Idade Média, os fiéis foram sendo cada vez mais atraídos pela sagrada humanidade do Salvador. A espiritualidade passou a considerar de modo especial os episódios da Paixão. Criou-se por isso um clima propício para que se desenvolvesse a devoção à Sagrada Eucaristia.
O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao arcediago de Liège, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV.
Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do ano litúrgico em toda a Cristandade.
O “Lauda Sion”
A seqüência da Missa de Corpus Christi é constituída por um belíssimo hino gregoriano, intitulado Lauda Sion. Belíssimo por sua variada e suave melodia, e muito mais pela letra, ele canta a excelsitude do dom de Deus para conosco e a presença real de Jesus, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, no pão e no vinho consagrados.
Urbano IV encontrava-se em Orvieto, quando decidiu estabelecer a comemoração de Corpus Christi. Estavam coincidentemente naquela cidade dois dos mais renomados teólogos de todos os tempos, São Boaventura e São Tomás de Aquino. O Papa os convocou, assim como a outros teólogos, encomendando-lhes um hino para a seqüência da Missa dessa festa.
Conta-se que, terminada a tarefa, apresentaram-se todos diante do Papa e cada um devia ler sua composição.
O primeiro a fazê-lo foi  São Tomás de Aquino, que apresentou então os versos do Lauda Sion.
São Boaventura, ato contínuo àquela leitura, queimou seu próprio pergaminho, não sem causar espanto em São Tomás, que perguntou “por quê?”. O santo franciscano, com toda a humildade, explicou-lhe que sua consciência não o deixaria em paz se ele causasse qualquer empecilho, por mínimo que fosse, à rápida difusão de tão magnífica Seqüência escrita pelo dominicano.
Síntese teológica, em forma de poesia
Aquilo que São Tomás ensinou em seus tratados de Teologia a respeito da Sagrada Eucaristia, ele o expôs magistralmente em forma de poesia no Lauda Sion.
Trata-se de verdadeira peça de literatura, que brilha pela profundidade do conteúdo e pela beleza da forma, elevação da doutrina, acurada precisão teológica e intensidade do sentimento.
Repassemos alguns trechos desse célebre cântico.
“Louva Sião, o Salvador, louva o Guia e Pastor com hinos e cânticos”
As palavras do subtítulo acima constituem o primeiro verso do Lauda Sion. É a expansão do coração de um santo, tomado pela graça mística de encanto pelo Santíssimo Sacramento, que pede a Sião, quer dizer, ao povo eleito do Novo Testamento, que passe a louvar o Salvador. Ele, o maior teólogo da história da Igreja — “o mais sábio dos santos, e o mais santo dos sábios” —, era tão fervoroso devoto de Jesus Eucarístico que, nas horas em que sentia dificuldade nos seus estudos, colocava a cabeça dentro de um sacrário à procura de ser iluminado pelo próprio Deus, e não a retirava enquanto não encontrasse a solução.
Desse primeiro verso até o final da quinta estrofe, São Tomás condensa todo o infinito louvor ao Santíssimo Sacramento do Altar. Ele continua a conclamar os fiéis a “louvar o guia e pastor com hinos e cânticos”. Mas, como louvar adequadamente esse santo sacramento? Como louvar de modo suficiente o próprio Deus? É o sacramento mais elevado e substancioso entre todos, pois nele está presente o próprio Homem-Deus, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Não há palavras, não há gestos, não há nada a ser oferecido que esteja à altura d’Ele.
Por isso São Tomás quase geme ao dizer: “Tanto quanto possas, ouses tu louvá-Lo, porque está acima de todo o louvor e nunca O louvarás condignamente”.
E explica ser essa a tarefa que recebeu do Papa: “É- nos hoje proposto um tema especial de louvor, o pão vivo que dá a vida”.
“É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma”.
O santo se preocupa em incentivar em nossa alma um louvor, o mais perfeito de que sejamos capazes, para assim nos aproximarmos do Santíssimo Sacramento e adorar a Jesus, que ali se encontra por detrás do “véu” do pão e do vinho.
“Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete”
A partir deste verso, até a décima estrofe, São Tomás passa a apontar as razões para se comemorar a instituição da Eucaristia na festa litúrgica estabelecida pelo Papa.
“Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga”. O rito da Igreja Católica Apostólica Romana encerrara o da Antiga Lei, que era uma prefigura dele. Por isso completa São Tomás:
“O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite”.
Sim, uma vez tendo vindo ao mundo o simbolizado, não faz sentido celebrar o símbolo. O culto da Sinagoga no Antigo Testamento era todo voltado para a espera do Salvador, e seus ritos simbolizavam-No. No novo rito, na celebração Eucarística, Nosso Senhor Jesus Cristo se imola Ele próprio. Ora, estando presente o simbolizado, para que o símbolo? Qual o sentido de imolar um cordeiro? O rito novo rejeita o velho...
“O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua”.
Aqui São Tomás recorda as palavras de Jesus na Ceia da Quinta-feira Santa: “fazei isto em memória de Mim”.
“E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação”.
São Tomás, sacerdote, podia dizer com toda a propriedade: “instruídos por suas ordens sagradas”. É uma referência ao Sacramento da Ordem, que dá àquele que o recebe a grande glória de poder emprestar sua laringe e suas mãos ao Divino Mestre, para que, sobre o altar, se opere um dos maiores milagres — e o mais freqüente deles — da História da humanidade: a transubstanciação. Quer dizer, a substância pão e a substância vinho cedem lugar à substância Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador”
A partir deste ponto, em dez estrofes, o autor dá em detalhe, numa maravilhosa síntese, a doutrina católica sobre o Sacramento do Altar. Ele continua:
“O que não compreendes nem vês, uma fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural”.
De fato, pela nossa inteligência, jamais chegaríamos a penetrar neste mistério tão sagrado. Nem sequer os demônios, que, embora decaídos, são de natureza angélica, e portanto superior à nossa, conseguem discernir nas aparências do pão e do vinho o Homem-Deus. Só mesmo a fé nos faz penetrar neste mistério sagrado.
“Debaixo de espécies diferentes, aparência e não realidades, ocultamse realidades sublimes”.
São Tomás volta a insistir na idéia de que os “véus” do vinho e do pão ocultam realidades divinas.
“A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente”.
Esta é uma verdade de fé, que a Teologia nos explica. Olhando para o vinho e para a hóstia consagrados, poderíamos ser levados a imaginar que a carne está só na eucaristia pão, e o sangue só na eucaristia vinho. Entretanto, a doutrina nos diz e a nossa fé assimila que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo encontram-se plenamente tanto na hóstia como no vinho consagrados.
“E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro”.
Outra das impressões equivocadas que podem transpassar uma alma é esta: ao ver o ministro dividindo uma hóstia, pensar que Nosso Senhor já não se encontra inteiro em cada uma das partículas. Não é verdade. Por um mistério sagrado, Nosso Senhor Jesus Cristo se encontra de modo integral em todas as frações que sejam visíveis.
“Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-O podem consumi-Lo”.
Outra verdade de fé: se um milhão de pessoas comungarem ao mesmo tempo, como já aconteceu em algumas Missas presididas pelo Santo Padre em suas viagens pelo mundo, todos estarão recebendo um só e o mesmo Jesus, sem qualquer fracionamento de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Todos O recebem no seu todo. E eis mais um mistério: ao receber Nosso Senhor Jesus Cristo, não podemos consumi-Lo, pois, quando se desfazem as espécies sagradas em nosso organismo, Ele deixa o nosso corpo sem tocá-lo, santificando nossa alma e dando-nos vigor até na saúde.
“Recebem-No os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para morte. Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento”.
Quem comunga em estado de graça, recebe um influxo de vida e de força espiritual, e até corporal. Entretanto, ai daqueles que se aproximam desse Sacramento em estado de pecado mortal! O odor da morte se assenhoreia ainda mais da alma, e do próprio organismo. Quanto cuidado devemos tomar para não nos aproximarmos da Eucaristia sem estarmos inteiramente preparados. Procuremos antes o confessionário, que se encontra à nossa disposição, e saibamos ajoelhar-nos com humildade e pedir perdão de nossas faltas.
“Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira. Nenhuma divisão pode violar a substância: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alterados.”
São Tomás retoma aqui o que já ensinara mais acima, para solidificar nas almas a doutrina católica a respeito da Eucaristia.
“Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos”
O santo recorda nestas frases que o Sacramento do Altar é a realização de antigos signos: “Verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães. As figuras o simbolizam, é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais”.
As últimas estrofes louvam o Bom Pastor que nos alimenta e guarda e nos faz futuramente participantes do Banquete Celestial. Nesse trecho final, letra e melodia se unem numa suprema beleza, de irresistível doçura:
“Bom Pastor, pão verdadeiro, Jesus, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.
“Ó Vós que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa. Amém. Aleluia.”




LOUVA SIÃO - sequência
1. Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.
2. Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.
3. É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.
4. É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.
5. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.
6. Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.
7. Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.
8. O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.
9. O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.
10. E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.
11. É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.
12. O que não compreendes nem vês, uma fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.
13. Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.
14. A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.
15. E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.
16. Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.
17. Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.
18. Morte para os maus e vida para os bons: vêde como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.
19. Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.
20. Nenhuma divisão pode violar a substância: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alterados.
21. Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.
22. As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.
23. Bom Pastor, pão verdadeiro, Jesus, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.
24. Ó Vós que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa. Amém. Aleluia.