-->
Mostrando postagens com marcador parábola operários contratados. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador parábola operários contratados. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
A inveja, “cárie dos ossos”
Como vimos, Fillion recrimina a inveja nascida no coração de alguns trabalhadores da vinha. Com efeito, esta parábola traz um ensinamento a propósito da inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja.
No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”. Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo .rei Royo Marín, O.P., “é o apetite desordenado da excelência própria”. A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”, faz questão de sublinhar o dominicano.
São Tomás destaca, na Catena aurea, o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na recompensa à qual tinham direito, mas porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: “Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).
Na parábola em questão, a inveja é o motivo da murmuração dos operários da primeira hora contra o dono da vinha. Este mesmo afirmará: “Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Pecado de conseqüências funestas, tornou amargurados muitos anjos, logo no primeiro dia da criação, que por essa razão foram precipitados do alto dos céus ao mais profundo dos infernos. Não suportaram a infinita superioridade de Deus e, quiçá, a divindade de Jesus e a predestinação de sua Mãe à maternidade divina.
Os Evangelhos transbordam ao narrarem a perfídia dos escribas e fariseus contra o Messias. Qual a causa desse ódio deicida? “Porque sabia que O tinham entregado por inveja” (Mt 27, 18).
Com propriedade afirma o livro dos Provérbios (14, 30): “Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos”.
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
“A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo”, comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.
De passagem, parece-nos oportuno notar que essa regra se aplica não somente a cada católico, mas também às numerosas famílias espirituais existentes na Igreja. Entre elas deve reinar sempre e de modo crescente a atmosfera expressa pelo Apóstolo nestas palavras: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).
Onde impera o amor a Deus, desaparece a inveja.
A recompensa demasiadamente grande
Aqui nesta terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen” (Sl 35, 10) — “Na vossa luz veremos a luz”. Nossa inteligência participará do “lumen gloriae” (luz da glória) de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos, daí, na nossa parábola, ser “o salário o mesmo” para cada um dos “operários da vinha”.

Mas um salário que cumulará a todos de indizível felicidade, pois, como disse Deus: “Tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá chegarmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
A figura da vinha
Ao contrário do que geralmente se supõe, a região na qual hoje se incluem a Palestina e Israel era, no tempo de Nosso Senhor, extremamente fértil. O panorama muitas vezes árido e desolador de nossos dias é resultante de dois mil anos de lutas e arrasamentos. Mas ali de fato era um país onde, além de “correr o leite e o mel” e produzir ótimo azeite, cultivavam-se excelentes vinhas, conforme no-lo atestam as Sagradas Escrituras (Nm 13, 24), certamente sinal de bênção de Deus.
No trabalho da vinha, utilizavam-se dois períodos do ano: o começo da primavera e o outono. O primeiro para deixá-la pronta para o florescimento e o outro para a colheita. Para ambas as ocasiões se necessitava um bom número de trabalhadores extras, pois poucos eram permanentes. Por isso vemos, na parábola em questão, o pai de família ir à procura dos operários, contratando uns por necessidade e outros pelo puro desejo de lhes oferecer um meio de ganhar algo.
As horas de trabalho eram divididas em quatro partes de sol a sol, ou seja, de três em três horas, das seis da manhã às seis da tarde. Entretanto, na parábola dos vinhateiros, os últimos trabalharam tão-só das 17 às 18h, constituindo um quinto grupo. O salário, como é óbvio, era o contratado.
A explicação
Uma boa explanação sobre essa parábola, dada com a clareza, concisão e objetividade próprias ao estilo francês, é de autoria do conhecido exegeta L. Cl. Fillion, na Vie de N. S. Jésus-Christ. Segundo ele, de modo geral os comentaristas dos Evangelhos são concordes em que, nas parábolas, há circunstâncias cuja função é apenas de ornamento. No presente caso, muitos comentadores tropeçam na análise, ao forçar uma interpretação de cada detalhe.
Tendo isto em vista, Fillion procura apontar a idéia dominante na parábola: “Parece ser que Deus, figurado no proprietário rico, cumpre fielmente suas promessas para os que O servem, e que a todos dá, sem exceção, em qualquer ponto da vida em que tenham começado seu trabalho, uma justa recompensa de todas as suas fadigas.”
Contudo, esse homem reparte seus dons na proporção que lhe apraz. Para vários exegetas, aqui reside a principal dificuldade da parábola: à primeira vista, pareceria uma injustiça o senhor da vinha pagar o mesmo salário tanto para os que trabalharam mais, como para os que menos o fizeram.
Fillion ressalta que, na narrativa, ninguém foi esquecido na hora da distribuição, de modo que não há motivo para queixas. São Tomás é do mesmo parecer: “Naquilo que é dado gratuitamente, uma pessoa pode dar mais ou menos, conforme lhe agradar (desde que não prive ninguém do que lhe é devido), sem de modo algum infringir a justiça” (Summa, 1 q. 23 a. 5). Voltando a Fillion, completa ele seu raciocínio com uma sentença da maior importância, sobre a qual voltaremos adiante: “Cada um deve se satisfazer com o recebido e demonstrar reconhecimento, sem olhar com vista invejosa os que ganharam mais”.
O chamado de Deus
Ao terminar o comentário, o autor francês aponta outra relevante lição da parábola: “Não são todos que começam a trabalhar em sua salvação e santificação na mesma época de sua vida. Alguns o fazem na primeira hora, a infância; outros, na juventude; outros ainda, na idade madura; e alguns iniciam quando já se manifestam os sinais precursores da morte. Felizes os operários da primeira hora, que só tenham vivido para Deus! Felizes também aqueles que, tendo ouvido em qualquer época da vida o chamado da graça, correspondem a ele e acorrem para junto de seu Salvador, a fim de trabalhar com Ele e para Ele!”

Conforme dizíamos no princípio deste artigo, Jesus preparava com suas pregações, nesta fase, o chamado a seus seguidores futuros. Deus, tal como consta nesta parábola, chama todos à perfeição, apesar de o fazer em horas e circunstâncias diversas da vida. Ninguém deve desanimar, se tiver deixado para muito tarde o preocupar-se com sua salvação, pois para todos a misericórdia de Deus reserva um prêmio. Mas também é necessário atender logo à convocação de Jesus, de modo decidido. Nenhum dos chamados ao trabalho, nesta parábola, chegou a propor um horário mais tardio, mas imediatamente se pôs a trabalhar. Nenhum também recusou. Assim devemos proceder nós: não devemos retardar o nosso “sim” ao chamado do Mestre.
Continua no próximo post