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sábado, 14 de maio de 2011

Domingo do Bom Pastor

Deus, na sua inesgotável sabedoria, dispôs em perpétua ordem e harmonia todos os seres, fazendo muitas vezes os inferiores símbolos dos superiores. Assim, no sexto dia de sua obra, criou entre os animais a espécie ovina, com o intuito de, no futuro, o cordeiro servir de título ao Redentor, o Cordeiro de Deus. Conferiu características próprias aos rebanhos de ovelhas, assim como ao relacionamento entre estas e seus pastores, para facilitar a compreensão do amor entre o Fundador da Igreja e seus fiéis.

Já nos primórdios do Antigo Testamento, há uma insistência na figura do pastor (cf. Gn 4, 4 e 20), na pessoa de Abraão (Gn 12, 16), de Lot (Gn 13, 5) e do próprio Rei Davi (1 Sam 17, 34-35). Aos poucos, a condução do rebanho vai se tornando símbolo dos guias do povo de Deus, a ponto de a Escritura referir-se a eles com estas palavras: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sabedoria”(Jr 3, 15). Ou como neste trecho: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; dize-lhes, a esses pastores, este oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: ai dos pastores de Israel que só cuidam do seu próprio pasto. Não é seu rebanho que devem pastorear os pastores? Vós bebeis o leite, vestis-vos de lã, matais as reses mais gordas e sacrificais, tudo isso sem nutrir o rebanho. Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las” (Ez 34, 2-6).
Porém, a figura do Pastor toma a plenitude de seu significado no Ser por excelência, o próprio Deus: “Eis o que diz o Senhor Javé: vou castigar esses pastores, vou reclamar deles as minhas ovelhas, vou tirar deles a guarda do rebanho, de modo que não mais possam fartar-se a si mesmos; arrancarei minhas ovelhas da sua goela, de modo que não mais poderão devorá-las. Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar Eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por causa de seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu; Eu o reconduzirei de todos os lugares por onde tinha sido disperso num dia de nuvens e de trevas. Eu as recolherei dentre os povos e as reunirei de diversos países, para reconduzi-las ao seu próprio solo e fazê-las pastar nos montes de Israel, nos vales e nos lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas pastagens, elas serão levadas a gordos campos sobre as montanhas de Israel; elas repousarão sobre as verdes relvas, terão sobre os montes de Israel abundantes pastagens. Sou Eu que apascentarei minhas ovelhas, sou Eu que as farei repousar — oráculo do Senhor Javé. A ovelha perdida, Eu a procurarei; a desgarrada, Eu a reconduzirei; a ferida, Eu a curarei; a doente, Eu a restabelecerei, e velarei sobre a que estiver gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça. (...) E vós, minhas ovelhas, vós sois homens, o rebanho que apascento. E Eu, Eu sou o vosso Deus — oráculo do Senhor Javé”(Ez 34, 10-16; 31).
Jesus, o Bom Pastor
Por fim apareceu nos céus da História o Pastor arquetípico, o Bom Pastor: “Eu irei em socorro de minhas ovelhas para poupá-las de serem atiradas à pilhagem; e julgarei entre ovelha e ovelha: Para pastoreá-las suscitarei um só pastor (...). Será ele quem as conduzirá à pastagem e lhes servirá de pastor” (Ez 34, 22-23).
Jesus é o Pastor que deu a vida por seu rebanho; ademais, sempre disposto a ir atrás da ovelha perdida e, encontrando-a, retornar alegre e feliz com ela sobre os ombros; a tirá-la do valo, ainda que em dia de sábado. Quem de nós pode afirmar nunca ter sido objeto da busca do Bom Pastor, às vezes até em circunstâncias trágicas? Quem alguma vez não se sentiu ovelha desgarrada, mas nos ombros de Jesus, sendo reconduzida ao aprisco?
É nesta perspectiva que se insere o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa: “Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor. O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai” (Jo 10, 11-18).
Jesus não só conhece como efetivamente ama suas ovelhas desde toda a eternidade. Ele as criou, uma a uma, e as redimiu com seu próprio sangue, elevando-as a participarem de sua vida. Ademais, deixou-se como alimento na Eucaristia até a consumação dos séculos. Seu trato para com o rebanho atinge extremos inimagináveis até mesmo pelo mais perfeito dos Anjos.
Através da Fé e em virtude da Graça, suas ovelhas, por reciprocidade, conhecem-No, n’Ele esperam e operosamente O amam. Assim, Bom Pastor e ovelhas relacionam-se de maneira semelhante ao convívio existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade, em um só Deus. Essa é a principal razão de seu desejo-profecia: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).
Através da entrega de sua própria vida, sobre a qual Ele tem um poder absoluto, obterá Jesus uma unidade entre Pastor e redil.

domingo, 8 de maio de 2011

Multiplicação dos pães

Jo 6, 26
26“Em verdade, em verdade eu vos digo, estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”.


Muitas vezes fazemos algo e sentimos um bem-estar enorme, mas, por que fizemos? Porque Deus, Nosso Senhor, nos deu a graça de fazer e, ao mesmo tempo, nos deu a consolação de estar fazendo. No entanto, nós, em vez de remontarmos à causa ficamos apegados à consolação, ou seja, apegados ao “pão” que foi multiplicado e esquecemos de olhar para quem fez o pão.

Com isso perdemos um fruto extraordinário da nossa vida espiritual, mais do que fruto, uma essência fundamental da nossa vida espiritual, que deve estar sempre unida à fonte, sempre remontado à causa, sempre restituindo.

A restituição é fundamental, mas para restituir eu não posso parar na consolação, tenho de subir e remontar à fonte dessa consolação.
 Quem dos efeitos remonta à causa, diz São Tomás, tem admiração. [Na multiplicação dos pães] faltou admiração a esse povo, porque Nosso Senhor está dizendo que eles foram atrás do pão que deu a eles um bem-estar extraordinário; é compreensível.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Apóstolos viram Jesus ressurrecto

“Mostrou-lhes as mãos e o lado”
1)      Como foi possível aos Apóstolos contemplar a glória de Jesus ressurrecto, sendo que, no Tabor, três deles não haviam suportado vê-Lo em sua transfiguração?
A isso responde Santo Agostinho: “É de crer-se que a claridade com a qual, como o sol, resplandecerão os justos em sua ressurreição, foi velada no corpo de Cristo ressurrecto aos olhos dos discípulos, porque a debilidade do olhar humano não a teria podido suportar, e era necessário que eles O reconhecessem e ouvissem” (6).
2)      Sendo as cicatrizes um defeito produzido por ferimentos, como puderam se conservar no Sagrado Corpo do Senhor?
Das mais variadas formas se expressam os autores a esse respeito, mas são concordes em observar que se trata de cicatrizes de triunfo e, portanto, gloriosas e não defectivas. No Céu, todos os mártires trarão à mostra suas cicatrizes como símbolo triunfante de seu testemunho, tal qual na terra o fazem os militares vencedores em suas batalhas.

3)      Os Apóstolos apenas viram as chagas, ou também as tocaram? Tomé terá sido o único a apalpar as cicatrizes do Senhor?
O Evangelista João afirma apenas que Jesus mostrou suas chagas. Lucas vai mais longe: “Apalpai e vede, porque um espírito não tem carne nem osso” (24, 39).
Entretanto, o dito de São João em sua primeira Epístola: “O que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, o que tocamos com as nossas mãos relativamente ao Verbo da Vida” (1, 1), e a condição posta por São Tomé para dar sua adesão de fé: “Se não vir nas suas mãos ... se não meter a minha mão” (v. 25), levam os autores à conclusão de que, de fato, não só Tomé, mas também os outros tocaram nas Santas Chagas de Jesus.
Qual não deve ter sido a consolação dos Apóstolos ao tocarem no Sagrado Corpo do Salvador? Nós hoje temos a graça, não de tocá-Lo, mas, muito mais, de recebê-Lo em comunhão.
Oh! sacrossantas chagas, manancial de toda santidade, quantos dons receberam os Apóstolos ao tocá-las!
Sem embargo, o fato de Jesus as haver mostrado nessa ocasião não significa que Ele deva sempre ostentar os sinais de sua Paixão. Apareceu como um peregrino aos discípulos de Emaús, e, para a fé robusta de Madalena, não só Se apresentou sem as chagas, como não lhe permitiu que O tocasse, para não diminuir os seus méritos. Aos Apóstolos, convida-os a apalparem-nas por razões didáticas. A forma de apresentar-Se depende de sua vontade e conveniência.
A alegria que sentiram eles, nessa ocasião, era o cumprimento da promessa do próprio Salvador: “Outra vez vos verei e alegrar-se-á vosso coração” (Jo 16, 22).

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Maria Madalena, o arauto da Boa Nova

 “Deus o ressuscitou ao terceiro dia, permitindo que aparecesse a nós...”
Maria Madalena: a que mais ferventemente amava o Senhor
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã, sendo ainda escuro, e viu a pedra retirada do sepulcro.
Para o amor, nada é impossível, disse Santa Teresinha do Menino Jesus. Maria Madalena vivia inebriada de amor a Jesus e por isso não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado corpo. Despertou-se de madrugada e servindo-se da luminosidade prateada do luar, dirigiu-se ao Santo Sepulcro: “Não cabe dúvida de que Maria Madalena era a que mais ferventemente amava o Senhor entre todas as mulheres que O haviam amado; assim, não é sem motivo que São João faz menção somente a ela, sem nomear as outras que com ela foram, como asseguram os outros Evangelistas”.
São João, além de ter escrito este relato bem depois dos outros Evangelistas, deve ser o mais objetivo ao afirmar que o Sol não havia raiado ainda. A esse respeito, vários são os comentários como, por exemplo, o de São Gregório: “Com razão se diz: ‘Sendo ainda escuro’, porque, com efeito, Maria buscava no sepulcro o Criador do universo, que ela amava, e, não O tendo encontrado, imaginou que O haviam roubado; e por conseguinte encontrou trevas quando chegou ao sepulcro”.
Belo exemplo para nós. Madalena buscava o adorável corpo de Jesus jazido no sepulcro, a nós foi concedida a imensa graça de recebê-Lo vivo e em Seu estado de glória. Será que nós possuímos a mesma e empenhada solicitude e devoção em buscar Jesus na Eucaristia, logo ao acordarmos?
São Mateus narra com mais detalhes os antecedentes dessa chegada de Madalena ao túmulo do Senhor, fazendo menção ao terremoto devido à descida de um anjo, no fulgor de um relâmpago, para remover a pedra, e ao conseqüente desmaio dos guardas, de puro terror (cf. Mt 28, 2-4).
Arauto da boa nova da Ressurreição
Correu então, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”.
“Pedro e João representam a autoridade e o amor, a força do governo e da caridade. Madalena vai a Pedro e João, na angústia que dela se havia apoderado à vista do sepulcro aberto, para buscar direção e sustento. É uma mulher amantíssima do Senhor, mas se reconhece incapaz de julgar e decidir nesse assunto gravíssimo que seus próprios olhos lhe trouxeram ao espírito. Por isso busca a luz do conselho e o amparo da caridade. Em nossas dúvidas, sobretudo no que diz respeito aos assuntos da fé, recorramos aos ofícios daqueles que dela são os custódios natos, e que por sua hierarquia serão nossos guias, e com amorosa solicitude sustentarão nosso espírito”.
Por uma determinação divina, a pregação do evangelho desde seu nascedouro compete aos homens. Entretanto, a História registra algumas poucas, mas comovedoras, exceções como essa contida no presente versículo. Trata-se da primeira e fundamental verdade do evangelho; para comunicá-la aos apóstolos, Deus não escolhe um anjo e nem sequer um homem. É a Madalena que será o arauto da boa nova da ressurreição do Senhor. Logo em seguida, repetir-se-á essa evangelização através de outras santas mulheres.
Com muita propriedade afirma Santo Agostinho: “Ama et quod vis fac” (Ama, e faze o que quiseres). Nesse ato de “imprudência”, ao irem ao sepulcro do Senhor — ainda de madrugada, sem se preocupar com os guardas, nem com a laje a ser removida, não considerando que se trata de uma ação contra a lei civil e contra, até, a própria lei natural — essas mulheres estão cumprindo um outro preceito: um mandamento do amor, ou seja, na prática realizam já as palavras deixadas por Cristo. Nelas, tudo se perdoa pelo fato de agirem por puro amor. O amor próprio está ausente das almas delas. Ao deparar Deus com o verdadeiro amor a Jesus Cristo, Seu Unigênito, Ele próprio toma sobre Si o encargo de limpar as manchas tão comuns às ações executadas pela natureza humana decaída, transformando-as de imperfeitas e imprudentes em obras de santa e meritória ousadia.
Por isso, São João, ao narrar este acontecimento, “não privou a mulher desta glória, nem achou indecoroso que [os dois apóstolos] recebessem por intermédio dela a primeira notícia. Por sua palavra, vão eles com muita solicitude para reconhecer o sepulcro”.
Madalena pronuncia sua informação fazendo uso do verbo no plural: “... e não sabemos ...”, fato este demonstrativo do quanto a descrição se harmoniza com as dos outros evangelistas, pois São João procura completar o relato feito por eles. Madalena, portanto, estava acompanhada pelas outras santas mulheres.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Páscoa- Ressurreição do Senhor

 Vitória de Cristo sobre a morte
“Este é o meu filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência...” (Mt 17, 5). Seria suficiente esse amor infinito do Pai pelo Seu Unigênito para que operasse Sua ressurreição, porém, ademais concorreu para tal o brilho da justiça divina, conforme São Tomás de Aquino: “A esta pertence exaltar os que se humilham por causa de Deus, conforme diz Lucas (1, 52): “Destronou os poderosos e exaltou os humildes”. E já que Cristo, por seu amor e obediência a Deus, se humilhou até a morte de cruz, era preciso que Ele fosse exaltado por Deus até a ressurreição gloriosa”

Tomados de adoração, uma vez mais foi-nos possível acompanhar liturgicamente ao longo da Semana da Paixão, o quanto a morte teve uma aparente vitória no Calvário. Todos que por ali passavam podiam constatar a “derrota” de Quem tanto poder havia manifestado não só nas incontáveis curas por Ele operadas, como também em Seu caminhar sobre as águas ou nas duas vezes que multiplicou os pães.
Os mares e os ventos Lhe obedeciam, e até mesmo os demônios eram, por sua determinação, desalojados e expulsos. Aquele mesmo que tantos milagres prodigalizara havia sido crucificado entre dois ladrões e, diante de Seus extremos sofrimentos, “os que passavam O injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: ‘Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!’ Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dEle: ‘Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nEle! Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque Ele disse: Eu sou o Filho de Deus!’” (Mt 27, 39-43).
Porém, a maneira pela qual fora removida a pedra do sepulcro e o desaparecimento dos guardas, eram de si, uma prova sensível do quanto havia sido derrotada a morte, conforme o próprio São Paulo comenta: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55). Os fatos subseqüentes tornaram ainda mais patente a triunfante Ressurreição de Cristo e por isso os prefácios da Páscoa cantam sucessivamente:
“Morrendo, destruiu a morte, e, ressurgindo, deu-nos a vida” (I). “Nossa morte foi redimida pela sua e na sua ressurreição ressurgiu a vida para todos” (II). “Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente” (III). “E, destruindo a morte, garantiu-nos a vida em plenitude” (IV).
 Constituem essas frases uma sequência de afirmações que proclamam a vitória de Cristo não só sobre Sua própria morte, como também sobre a nossa. Ele é a cabeça do Corpo Místico e, tendo ressuscitado, trará necessariamente a nossa respectiva ressurreição, pois esta nos é garantida pela presença dEle no Céu, apesar de estarmos, por ora, submetidos ao império da morte. De maneira paradoxal, aquele sepulcro violentamente aberto a partir de seu interior, deu à morte um significado oposto, passou ela a ser o símbolo da entrada na vida, pois Cristo quis “destruir pela sua morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio”, e assim libertar os que “estavam em escravidão toda a vida” (Hb 2, 14).
São Paulo tem sua alma transbordante de alegria em face da realidade da Ressurreição de Cristo e nela encontramos nosso triunfo sobre a morte, tal qual ele próprio nos diz: “E assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Cor 15, 22);
“...ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram! Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos” (1 Cor 15, 20-21).
Na Ressurreição vemos, ademais, realizada por Jesus, a profecia que Ele mesmo fizera pouco antes de Sua Paixão: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). De fato, propriamente dito, o cumprimento dessa profecia se iniciou durante os quarenta dias de retiro no deserto, e teve continuidade passo a passo ao longo de Sua vida pública ao expulsar os demônios que pelo caminho encontrava, chegando ao ápice em Sua Paixão: “Despojou os Principados e Potestades, e fez deles um objeto de escárnio público, levando-os no seu cortejo triunfal” (Cl 2, 15).
Posteriormente, não só o demônio, mas o próprio mundo foi derrotado: inúmeros pagãos passaram a se converter e muitos entregaram a própria vida para defender a cruz, animados pelas luzes da ressurreição do Salvador. Em função dela, passaram a ser acolhidos no Corpo Místico todos os batizados que, revitalizados pela graça e sem deixarem de estar incluídos no mundo, tornaram perpétuo o triunfo de Cristo: “Tende confiança! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Trata-se, portanto, de uma vitória ininterrupta, mantendo seu rútilo fulgor tal qual no dia de Sua ressurreição, sem uma fímbria sequer de diminuição. Com a redenção, Cristo lacrou as portas do seio de Abraão depois de ter libertado, de seu interior, as almas que ali aguardavam a entrada no gozo da glória eterna.
“Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea!”
Essas são algumas considerações que nos facilitam compreender o porquê de ser a Páscoa da Ressurreição a festa das festas, a solenidade das solenidades, pois o mistério nela presente é dos mais importantes para a história da Cristandade, tal como afirma São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 14).
Por isso, nos primórdios da Igreja, esse período era considerado o mais importante do ano inteiro. Os fiéis se apinhavam na Basílica de São João de Latrão para assistir às cerimônias e muito comum era, entre eles, o cumprimento com a fórmula do “Aleluia!”. Hoje em dia, com o progressivo desbotamento das majestosas comemorações que marcaram os séculos, infelizmente deteriorou-se o sabor da grande importância das solenidades pascais.
A alegria que será a nota dominante dessa celebração far-se-á presente nos cânticos, nos paramentos, no incenso e na própria liturgia. Se bem sejam todos os Domingos do ano dedicados ao Senhor, desde as mais antigas eras a Igreja celebrou com especial júbilo este da Ressurreição; e tal é seu gáudio que sempre o fez prolongar por cinqüenta dias consecutivos, conforme comentava Tertuliano: “Somai todas as solenidades dos gentios, e não chegareis aos nossos cinqüenta dias da Páscoa”.
Ademais, podemos afirmar ser a Ressurreição a festa de nossa esperança, pelo fato de nela encontrarmos não só o extraordinário triunfo de Cristo, como também o nosso próprio, pois se Ele ressurgiu dos mortos, o mesmo se passará conosco. E é em vista desse futuro triunfo nosso que desde já nos é feito o convite para abandonarmos os apegos a este mundo, sem olhar para trás, fixando nossa atenção nos absolutos celestes, conforme nos aconselha o Apóstolo: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória” (Cl 3, 1-4).
O depósito de fé que nos foi deixado por Jesus e pelos apóstolos sobre este fundamental acontecimento escatológico é corroborado por estas palavras de São Tomás de Aquino: “Ao ver ressuscitar Cristo, que é nossa cabeça, esperamos que também ressuscitaremos nós. Assim é como se diz: ‘Se de Cristo se prega que ressuscitou dos mortos, como entre vós dizem alguns que não há ressurreição dos mortos?’ (1 Cor, 15, 12)” 4. E aí está mais uma maravilha a promover a exultação de nosso instinto de conservação. Esse instinto terá sua plena realização no fim dos tempos, proporcionando-nos verdadeira e eterna felicidade, garantida pelo próprio Cristo Ressurrecto.

sábado, 23 de abril de 2011

A RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Tal como havia anunciado aos seus ,Jesus ressuscitou. Esse supremo fato já havia sido previsto por David (Sl 15, 10) e por Isaías (Is 11, 10).
São Paulo ressaltará o valor desse grandioso acontecimento: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 14). Daí a importância capital da Páscoa da Ressurreição, a magna festa da Cristandade, a mais antiga, e centro de todas as outras, solene, majestosa e pervadida de júbilo: “esse é o dia que o Senhor fez, seja para nós dia de alegria e felicidade” (Sl 117, 24).
Na liturgia, essa alegria é prolongada pela repetição da palavra “aleluia”, pelo branco dos paramentos e pelos cânticos de exultação.
Cristo foi o único que ressuscitou por seu próprio poder
Elias operara a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, em casa de quem vivia (1 Rs 17, 17-24). Mais tarde, o mesmo faria Eliseu com o filho de uma sunamita (2 Rs 4, 17-37).
O próprio Salvador, tomado de pena ao encontrar o cadáver da filha de Jairo, ordenou às mulheres que não mais chorassem, pois a menina apenas dormia, tomando-a pela mão, disse: “Menina, eu te ordeno, levanta-te!” Ela se pôs de pé cheia de vida e de alegria.
A compaixão de Jesus pelos sofrimentos humanos se manifestou novamente ao deparar Ele com um enterro, na cidade de Naim. Jesus ressuscitou o filho da viúva.
A mais impressionante de todas as ressurreições operadas por Jesus foi, sem dúvida, a de Lázaro.
Na Sexta-feira Santa, ressurreições numerosas se operaram, concomitantes ao terremoto, às trevas e ao rasgão do véu do templo. Os justos deixaram suas sepulturas, passearam pelas ruas e apareceram a muitas pessoas, certamente para increpá-las pelo deicídio (Mt 27, 52-53).
Ao longo da Era Cristã haverá outras ressurreições: São Pedro fará retornar à vida Tabita (At 9, 36-43); São Paulo, com um abraço, reerguerá da morte o jovem Êutico (At 20,9-12); São Bento devolverá com saúde, a um camponês, o filho, cujo corpo inerte havia sido posto à porta do mosteiro.
Mas, se numerosas foram as ressurreições ao longo dos tempos, no que se distingue especialmente a de Cristo?
Em primeiro lugar, nunca ninguém profetizou seu próprio retorno à vida terrena. Menos ainda pôde alguém operar por seu próprio poder esse milagre tão acima da natureza criada.
“Destruí este templo, e eu o reedificarei em três dias” (Jo 2, 19). Era a maior prova de que Jesus dissera a verdade.
Um aspecto pouco comentado da narrativa da Ressurreição de Jesus
Embora não o tenham afirmado os Evangelistas, é de senso comum, e os bons autores são concordes a este respeito, que Jesus apareceu em primeiro lugar a sua Mãe, logo após a Ressurreição. Na seqüência, apareceu a Santa Maria Madalena (Mc 16,9; Jo, 1117) e, depois, a outras das santas mulheres (Mt 28, 9-10).
Por que motivo teria escolhido as mulheres para Se manifestar, antes dos próprios Apóstolos?
Voltemos nossa atenção para uma passagem do Evangelho muito pouco analisada:
“Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir a Jesus. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o sol havia despontado. E diziam entre si: Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?” (Mc 16, 1-3)
Agiam impensadamente, ou seja, de modo substancialmente imperfeito, por várias razões. Sabiam que o cadáver havia sido ungido dois dias antes. Por que fazê-lo de novo? Ademais, tratava-se do corpo de uma pessoa falecida havia quarenta e oito horas. Por fim, é de bom senso que não se deve violar uma sepultura, qualquer que seja, e as leis romanas não toleravam uma transgressão desse tipo.
Havia dificuldades adicionais, como elas mesmas confessam: “Quem nos há de remover a pedra...?” Naquela hora era improvável que encontrassem homens aos quais pudessem pedir tal serviço. E na hipótese de lá haver alguns, prestar-se-iam a realizar tarefa tão perigosa?
O sepulcro havia sido lacrado com todos os cuidados dos odientos adversários de Jesus, como sabiam os discípulos. Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus “asseguraram o sepulcro, selando a pedra e colocando guardas” (Mt 27, 62-66). Como iriam elas convencer as sentinelas a lhes permitirem abrir o túmulo e retirar o cadáver?
E nada indica que elas tenham exposto seus planos a São Pedro e aos outros Apóstolos. É mais uma nota de imperfeição. Agiam por conta própria num assunto que poderia comprometer toda a Igreja nascente. Qualquer violação da sepultura deixaria a incipiente comunidade cristã em complicada situação diante das autoridades judaicas e romanas. O simples fato de chegarem a fazer aos vigias alguma proposta quanto ao cadáver daria razão aos príncipes dos sacerdotes e escribas, que haviam solicitado ao governador romano uma guarda diante do túmulo de Jesus, pois “seus discípulos poderiam vir roubar o corpo e dizer ao povo: Ressuscitou dos mortos”... (Mt 27, 64).
Outra questão de grande peso para a avaliação dos fatos é esta: por que Nossa Senhora não se juntou a elas? Terão perguntado à Mãe de Jesus se estava correto aquele modo de proceder?
Além do mais, elas mesmas não criam na Ressurreição. Do contrário, teriam preferido ficar nas proximidades do Santo Sepulcro, para aguardar os acontecimentos. Igualmente, não lhes teria ocorrido a idéia de embalsamar de novo o corpo, a fim de protegê-lo da agressividade do tempo e da decomposição.
Este juízo parece por demais severo, ainda que apoiado em autores de grande importância. E de fato o é. Acrescente-se a isto que os próprios Apóstolos consideravam a situação com a gravidade que estamos descrevendo. As terríveis notícias sobre os acontecimentos da Paixão do Senhor, que se haviam propagado por todos os lados, e o ódio que podiam sentir pairando no ar, haviam lhes incutido terror até o fundo da alma. Por isto estavam trancados no Cenáculo.
Ora, é precisamente em meio a esse clima de tragédia e pânico que aquele grupo de piedosas mulheres, sem muito refletir sobre as conseqüências de seus atos, resolve sair antes do raiar da aurora...
Apesar da sua imprudência, as mulheres não foram repreendidas
Podemos imaginar a enorme preocupação que tomou a todos no Cenáculo, ao darem por falta dessas mulheres. E também o alvoroço que deve ter havido e os olhares de reprovação, quando elas voltaram para contar o que haviam presenciado no túmulo de Jesus. Apóstolos e discípulos não só não acreditaram na narração, como atribuíram tudo à fértil imaginação feminina: “Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito” (Lc 24, 11). Ao narrar o episódio dos discípulos de Emaús, São Lucas lhes coloca nos lábios um lamento sobre tais mulheres, que haviam assustado a todos no cenáculo (Lc 24, 22).
Apenas São Pedro e São João resolveram se mover para certificar-se do que ouviram, e creram em Santa Maria Madalena depois de examinarem o sepulcro de Jesus (Jo 20, 3-8).
No fim de tudo, as próprias mulheres se deram conta do perigo a que se haviam exposto e da imprudência cometida: “Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas; e a ninguém disseram coisa alguma (pelo caminho), por causa do medo” (Mc 16, 8). Esta é a reação característica dos imprevidentes: antes do ato, o perigo não existe; após as primeiras configurações deste, o pânico.
Diante desses fatos, tornam-se incompreensíveis as atitudes de Nosso Senhor para com elas. Façamos uma breve recapitulação dos fatos:
1. Por escolha de Jesus, a precedência na pregação do Evangelho cabia aos homens (os doze apóstolos e 72 discípulos). Ora, o mais importante de todos os milagres, o fundamento de nossa fé, a Ressurreição do Senhor Jesus, não é comunicada aos homens em primeiro lugar, mas sim às mulheres. Elas são encarregadas pelo “raboni” de transmitir a Boa Nova para os próprios apóstolos e discípulos, a fim de que estes a anunciem pelo mundo. Por cúmulo, eles nem sequer chegam a lhes dar crédito... (Mc 16, 11).
2. Jesus manda dois Anjos (Lc 24, 4) para lhes comunicar o grande acontecimento (Lc 24, 6; Mc 16, 6; Mt 28, 6). É a primeira vez que no Evangelho deparamos com o termo “ressurreição” após a morte do Senhor.
3. Elas não só não recebem a menor recriminação da parte dos mensageiros celestes, mas são tratadas com enorme bondade e deferência. Um dos Anjos as recebe com palavras carinhosas, procurando logo de início desfazer-lhes o medo e mostrar-lhes que conhecia perfeitamente a alta razão que as movia até ali.
4. Como ficou visto mais atrás, Jesus apareceu a Maria, sua Mãe, logo após sair do sepulcro. Em segundo lugar, a Madalena (Jo 20, 16), com enorme ternura, chamando-a pelo nome. E, em terceiro, às outras mulheres, também com muita bondade, deixando que d’Ele se aproximassem e até osculassem seus pés (Mt 28, 9-10).
O amor puro por Jesus acaba compensando as imperfeições
A esta altura nos perguntamos por que essa diferença de atitude de Jesus, para com elas, de um lado, e para com os Apóstolos, de outro. O trato do Senhor para os Apóstolos é bem descrito por São Marcos: “Finalmente apareceu aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não terem dado crédito aos que o viram ressuscitado” (Mc 16, 14). Sua primeira palavra, portanto, segundo o evangelista, é de censura para com eles. Que diferença! Por quê?
Não teria entendido nada dessa sublime lição quem afirmasse que Jesus quis dar preeminência à mulher sobre o homem. Não é este o caso. Na verdade, tais episódios deixam transparecer claramente a essência do Evangelho, que Nosso Senhor havia resumido nos seguintes termos: “Douvos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também deveis amarvos uns aos outros” (Jo 13, 34). É no perfeito amor a Deus e ao próximo que está a síntese do Evangelho.
Era tão grande o amor que aquelas mulheres tinham por Jesus que até seu instinto de conservação havia se definhado, no que significasse ir ao encontro d’Ele. Carregavam imperfeições, mas o amor pelo Senhor era puro. E quando esse amor é assim acrisolado, Cristo mesmo toma sobre si a tarefa de aperfeiçoar as ações que a natureza humana decaída venha a realizar.
Com essa afirmação, não é nossa intenção fazer uma apologia da imprudência enquanto tal, mas ressaltar como as atitudes irrefletidas das santas mulheres do Evangelho eram compensadas pelo puro amor de Deus — a caridade.
É por demais exíguo o espaço destas páginas para discorrer sobre a falsa e a verdadeira prudência. A primeira entrincheira a alma no mero raciocínio e abafa o fervor. Mas nesse episódio do Evangelho vemos premiado o amor, mesmo quando tingido de imperfeição. São Paulo se refere à essa supremacia do amor, ao afirmar de nada valerem o dom das línguas, o de profecia, o de ciência, e outros, sem a caridade (1Cor 13, 1-3).
O fervor é um tesouro
São Tomás transcreve este pensamento de Aristóteles: “Os que são movidos pelo instinto divino são mais audazes...” (1-2 q 45 a3c).
É oportuno lembrar que também o coração do jovem costuma mover-se pelo amor, sobretudo quando arrebatado pelo fervor primaveril. Tal como as santas mulheres, muitas vezes não se guia pela prudência, nem pela razão, mas sim pela audácia. Se se trata de um amor desinteressado e puro, Deus o premia.
Essa chama é um tesouro, que precisa ser tratada com carinho. Cabe aos pais e aos educadores não extingui-la, mas direcioná-la para as sendas do bem e da virtude.
Terminemos estas reflexões com uma explicitação de São Pedro Julião Eymard (1811-1868), fundador da obra da adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento e da Congregação Sacramentina:
“Nosso Senhor quer suscitar em nós um amor apaixonado por Ele. Toda virtude ou pensamento que não se torne por fim uma paixão, jamais produzirá algo de grande. (...) O amor só pode triunfar se for em nós uma paixão vital. Sem isso, podemos produzir atos isolados de amor, mas nossa vida não é ganha nem doada. (...)
“Para ser uma paixão, nosso amor deve seguir as leis das paixões humanas. Refiro-me às paixões honestas, naturalmente boas; pois, em si mesmas, as paixões são indiferentes. Fazemo-las más quando as dirigimos para o mal. Depende só de nós utilizá-las para o bem.
 “Quando a paixão domina um homem, concentra-o. Determinado homem quer chegar a uma certa posição honrosa e elevada. Só trabalhará para isto, mesmo que tome dez ou vinte anos, não importa. ‘Chegarei lá’, diz ele. Concentra nisto sua vida. Tudo fica reduzido a servir a este pensamento ou desejo. Deixa de lado tudo o que não o conduza a seu objetivo. (...) Eis como se chega, no mundo, ao que se deseja.
“Essas paixões podem tornarse más, e ai! muitas vezes não são mais que crime contínuo. Mas, enfim, podem ser e são ainda, em si mesmas, honoríficas.
“Sem uma paixão, nada alcançamos. Vivemos sem objetivo, arrastando uma vida inútil. Pois bem, na ordem da salvação, é preciso ter também uma paixão que nos domine a vida e a faça produzir, para a glória de Deus, todos os frutos que o Senhor espera. Amai tal virtude, tal verdade, tal mistério apaixonadamente. Devotai-lhe vossa vida, consagrai-lhe os vossos pensamentos e trabalhos. Sem isso, nada alcançareis, sereis apenas um assalariado que trabalha por empreitada, jamais um herói! (...)
“Olhai os santos. Seu amor os transporta, faz sofrer, abrasa-os; é um fogo que os consome, despende as suas forças e acaba por lhes causar a morte. Mas uma morte feliz! Entretanto, se não chegamos todos a este ponto, podemos pelo menos amar apaixonadamente a Nosso Senhor, e deixar que nos domine seu amor. (...)
“Mas poderíamos dizer: ‘Somos então obrigados a amar assim?’ Bem sei que o preceito de amar deste modo não está escrito. Não é preciso! Nada o diz, mas tudo o clama: esta lei do amor está em nosso coração. (...)
“Alguns dirão: ‘Mas isto é exagero!’ Mas o que é o amor senão o exagero? Exagerar é ultrapassar a lei. E o amor deve exagerar” (S. Pedro Julião Eymard, La Divine Eucharistie). ²

terça-feira, 19 de abril de 2011

As sete palavras de Jesus

Jesus é a Caridade. A perfeição dessa virtude, nós a encontramos nas “Sete Palavras”. As três primeiras têm em vista os outros (inimigos, amigos e familiares); as demais, a Si próprio.
1ª Palavra: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)
Pai — É o mais suave título de Deus. Nessa hora extrema, Jesus bem poderia invocá-Lo chamando-O Deus. Percebe-se, entretanto, claramente a intenção do Redentor: quis afastar, dos fautores daquele crime, a divina severidade do Juiz Supremo, interpondo a misericórdia de sua paternalidade. Chega-se a entrever a força de seu argumento: se o Filho, vítima do crime, perdoa, por que não o fazeis também Vós?
É a primeira “palavra” que os divinos lábios d’Ele pronunciam na cruz, e nela já encontramos o perdão. Perdão pelos que Lhe infligiram diretamente seu martírio. Perdão que abarca também todos os outros culpados: os pecadores. Nesse momento, portanto, Jesus pediu ao Pai também por mim.
 Embora não houvesse  fundamento para escusar o desvario e ingratidão do povo, a sanha dos algozes, a inveja e ódio dos príncipes e dos sacerdotes, etc., tão infinita foi a Caridade de Jesus que Ele argumenta com o Pai: “porque não sabem o que fazem”.
A ausência absoluta de ressentimento faz descer do alto da cruz a luminosidade harmoniosa e até afetuosa do amor ao próximo como a si mesmo. Ouvindo essa súplica, chegamos a entender quanta isenção de ânimo havia em Jesus, na ocasião em que expulsou os vendilhões do Templo: era, de fato, o puro zelo pela casa de seu Pai.
2ª Palavra: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43)
A cena não podia ser mais pungente. Jesus se encontra entre dois ladrões. Um deles faz jus à afirmação da Escritura: “Um abismo atrai outro abismo” (Sl 41, 8). Blasfema contra Jesus, dizendo: “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e salva-nos a nós” (Lc 23, 39).
 Enquanto esse ladrão ofende, o outro louva Jesus e admoesta seu companheiro, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 40-41).
São palavras inspiradas, nas quais transparecem a santa correção fraterna, o reconhecimento da inocência de Cristo, a confissão arrependida dos crimes cometidos. São virtudes que lhe preparam a alma para uma ousada súplica: “Senhor, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42).
Ao referir-se a Jesus enquanto “Senhor”, o bom ladrão professa sua condição de escravo e reconhece-O como Redentor. O “lembra-te de mim” é afirmativo, não tem nenhum sentido condicional, pois sua confiança é plena e inabalável. Compreende a superioridade da vida eterna sobre a terrena, por isso não pede aquilo que, para o mau ladrão, constitui um delírio: o afastamento da morte, a recuperação da saúde e da integridade.
 O bom ladrão confessa publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, ao contrário até mesmo de São Pedro, que havia três vezes negado o Senhor. Tal gesto lhe fez merecer de Jesus este prêmio: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).
Jesus torna solene a primeira canonização da história: “Em verdade...”
A promessa é categórica até quanto à data: hoje. São Cipriano e Santo Agostinho chegam a afirmar ter recebido o bom ladrão a palma do martírio, pelo fato de, por livre e espontânea vontade, haver confessado publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.
3ª Palavra: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 25-27).
Com essas palavras, Jesus finaliza sua comunicação oficial com os homens antes da morte (as quatro outras serão de sua intimidade com Deus). Quem as ouve são Maria Madalena, representando a via da penitência; Maria, mulher de Cleófas, a dos que vão progredindo na vida espiritual; Maria Santíssima e São João, a da perfeição.
Consideremos um breve comentário de Santo Ambrósio sobre este trecho: “São João escreveu o que os outros calaram: [pouco depois de] conceder o reino dos céus ao bom ladrão, Jesus, cravado na cruz, considerado vencedor da morte, chamou sua Mãe e tributou a Ela a reverência de seu amor filial. E, se perdoar o ladrão é um ato de piedade, muito mais é homenagear a Mãe com tanto carinho... Cristo, do alto da cruz, fazia seu testamento, distribuindo entre sua Mãe e seu discípulo os deveres de seu carinho” (in S. Tomás de Aquino, Catena Aurea).
É arrebatador constatar como Jesus, numa atitude de grandioso afeto e nobreza, encerrou oficialmente seu relacionamento com a humanidade, na qual se encarnara para redimi-la. Do auge da dor, expressou o carinho de um Deus por sua Mãe Santíssima, e concedeu o prêmio para o discípulo que abandonara seus próprios pais para segui-Lo: o cêntuplo nesta terra (Mt 19, 29).
É perfeita e exemplar a presteza com que São João assume a herança deixada pelo Divino Mestre: “E dessa hora em diante, o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 27). São João desce do Calvário protegendo, mas sobretudo protegido pela Rainha do céu e da terra. É o prêmio de quem procura adorar Jesus no extremo de seu martírio.
4ª Palavra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 45)
Jesus clama em alta voz. Seu brado fende não somente os ares daquele instante, mas os céus da história. Nossos ouvidos são duros, era indispensável falar com força. Jesus não profere uma queixa, nem faz uma acusação. Deseja, por amor a nós, fazer-nos entender a terrível atrocidade de seus tormentos. Assim mais facilmente adquiriremos clara noção de quanto pesam nossos pecados e de quanto devemos ser agradecidos pela Redenção.
Como entender esse abandono? Não rompeu-se — e é impossível — a união natural e eterna entre as pessoas do Pai e do Filho. Nem sequer separaram-se as naturezas humana e divina. Jamais se interrompeu a união entre a graça e a vontade de Jesus. Tampouco perdeu sua alma a visão beatífica.
Perdeu Jesus, isto sim, e temporariamente, a união de proteção à qual Ele faz menção no Evangelho: “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho” (Jo 8, 29). O Pai bem poderia protegê-Lo nessa hora (cfr. Mc 14, 36; Mt 26, 53; Lc 22, 43). O próprio Filho poderia proteger seu Corpo (Jo 10, 18; 18, 6), ou conferir-lhe o dom de incorruptibilidade e de impassibilidade, uma vez que sua alma estava na visão beatífica.
Mas assim determinou a Santíssima Trindade: a debilidade da natureza humana em Jesus deveria prevalecer por um certo período, a fim de que se cumprisse o que estava escrito. Por isso Jesus não se dirige ao Pai como em geral procedia, mas usa da invocação “meu Deus”.
A ordem do universo criado é coesa com a ordem moral. Ambas procedem de uma mesma e única causa. Se a primeira não se levanta para se vingar daqueles que dilaceram os princípios morais por meio de seus pecados, é porque Deus lhe retém o ímpeto natural. Se assim não fosse, os céus, os mares e os ventos se ergueriam contra toda e qualquer ofensa feita a Deus. Mas como frear a natureza diante do deicídio? Por isso, na hora daquele crime supremo, “cobriu-se toda a terra de trevas”... (Mt 27, 45).
5ª Palavra: “Tenho sede.” (Jo 19, 28)

Assinala o evangelista que Jesus dissera tais palavras por saber “que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura”. Vendo um vaso cheio de vinagre que havia por ali, os soldados embeberam uma esponja, “e fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca” (Jo 19, 28-29).
Cumpria-se assim o versículo 22 do salmo 68: “Puseram fel no meu alimento; na minha sede deram-me vinagre para beber”.
Qual a razão mais profunda desse episódio? É um verdadeiro mistério.
Jesus derramara boa quantidade de seu preciosíssimo Sangue durante a flagelação. As chagas, em via de cicatrização, foram reabertas ao longo do caminho e ainda mais quando Lhe arrancaram as roupas para crucificá-Lo. O pouco sangue que Lhe restava escorria pelo sagrado lenho. Por isso, a sede tornou-se ardentíssima. Além desse sentido físico, a sede de Jesus significava algo mais: o Divino Redentor tinha sede da glória de Deus e da salvação das almas.
 E o que lhe oferecem? Um soldado lhe apresenta, na ponta de uma vara, uma esponja empapada de vinagre. Era a bebida dos condenados.
Podemos de alguma maneira aliviar pelo menos esse tormento de Jesus? Sim! Antes de tudo, compadecendo-nos d’Ele com amor e verdadeira piedade, e apresentando-Lhe um coração arrependido e humilhado.
Devemos querer ter parte nessa sede de Cristo, almejando acima de tudo à nossa própria santificação e salvação, com redobrado esforço, de modo a não pensar, desejar ou praticar algo que a Ele não nos conduza. Para Ele será uma água fresca e cristalina nossa fuga vigilante das ocasiões próximas de pecado. Compadeçamo-nos também dos que vivem no pecado ou nele caem, e trabalhemos por sua salvação. Em suma, apliquemo-nos com ânimo na tarefa de apressar o triunfo do Imaculado Coração de Maria.
O Salvador clama a nós do alto da cruz que defendamos, mais ainda que o bom ladrão, a honra de Deus, procurando conduzir a opinião pública para a verdadeira Igreja. É nosso dever buscar entusiasmadamente a glória de Cristo, “que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.” (Ef 5, 2).
6ª Palavra: “Tudo está consumado.” (Jo 19, 30)
A Sagrada Paixão terminara e, com ela, a pregação. Todas as profecias haviam se cumprido, conforme interpreta Santo Agostinho: a concepção virginal (Is 7, 14); o nascimento em Belém (Mq 5, 1); a adoração dos Reis (Sl 71, 10); a pregação e os milagres (Is 61, 1; 35, 5-6); a gloriosa entrada em Jerusalém no dia de Ramos (Zc 9,9) e toda a Paixão (Isaías e Jeremias).
Na Cruz foi vencida a guerra contra o demônio: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). No paraíso terrestre, o demônio adquirira de modo fraudulento a posse deste mundo, com o pecado de nossos primeiros pais. Jesus a recuperou como legítimo herdeiro.
Consumado também estava o edifício da Igreja. Este iniciou-se com o batismo no Jordão, onde foi ouvida a voz do Pai indicando seu Filho muito amado, e se concluiu na cruz, na qual Jesus comprou todas as graças que serão distribuídas até o fim do mundo através dos sacramentos.
Para que o preciosíssimo Sangue do Salvador ponha fim ao império do demônio em nossas almas, é preciso que crucifiquemos nossa carne com seus caprichos e delírios, combatendo também o respeito humano e a soberba. Jesus nos abriu um caminho que, aliás, todos os santos trilharam.
7ª Palavra: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lc 23, 46)
Estabeleceu-se na Igreja, desde os primórdios, o costume de encomendar as almas dos fiéis defuntos, a fim de que a luz perpétua os ilumine.
Jesus, porém, não tinha necessidade de encomendar sua alma ao Pai, pois ela havia sido criada no pleno gozo da visão beatífica. Desde o primeiro instante de sua existência, encontrava-se unida à natureza divina na pessoa do Verbo. Portanto, ao abandonar o corpo sagrado, sairia vitoriosa e triunfante. “Meu espírito”, e não alma, provavelmente aqui significaria a vida corporal de Jesus.
Mas Jesus aguardava sua ressurreição para logo. Ao entregar ao Pai a vida que d’Ele recebera, sabia que ela Lhe seria restituída no tempo devido. Com reverência tomou o Pai Eterno em suas mãos a vida de seu Filho unigênito, e com infinito comprazimento a devolveu, no ato da ressurreição, a um corpo imortal, impassível e glorioso. Abriu-se, assim, o caminho para a nossa ressurreição, ficando-nos a lição de que ela não pode ser atingida senão pelo calvário e pela cruz. AVE CRUX, SPES UNICA.