-->

sábado, 26 de março de 2016

Evangelho Vigília Pascal - Ano C

Comentários ao Evangelho Vigília Pascal - Ano C
1 No primeiro dia da semana, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo de Jesus, levando os perfumes que haviam preparado. 2 Elas encontraram a pedra do túmulo removida. 3 Mas ao entrar, não encontraram o Corpo do Senhor Jesus 4 e ficaram sem saber o que estava acontecendo. Nisso, dois homens com roupas brilhantes pararam perto delas. 5 Tomadas de medo, elas olhavam para o chão, mas os dois homens disseram: "Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? 6 Ele não está aqui. Ressuscitou! Lembrai-vos do que Ele vos falou, quando ainda estava na Galileia: 7 ‘O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia'". 8 Então as mulheres se lembraram das palavras de Jesus. 9 Voltaram do túmulo e anunciaram tudo isso aos Onze e a todos os outros. 10 Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Também as outras mulheres que estavam com elas contaram essas coisas aos Apóstolos. 11 Mas eles acharam que tudo isso era desvario, e não acreditaram. 12 Pedro, no entanto, levantou-se e correu ao túmulo. Olhou para dentro e viu apenas os lençóis. Então voltou para casa, admirado com o que havia acontecido (Lc 24, 1-12).
Uma “perseguição” da bondade divina
Destruído o plano original da criação com o pecado de nossos primeiros pais, inicia Deus, em sua bondade infinita, um processo que culmina de forma grandiosa na noite da Ressurreição do Senhor.
I - A mais bela cerimônia do Ano Litúrgico
A noite que antecede o Domingo da Ressurreição do Senhor é marcada pela riquíssima cerimônia da Vigília Pascal, realizada em honra deste grandioso mistério. Nos albores do Cristianismo, esta noite era muito considerada pelos fiéis, que costumavam passá-la em oração, a fim de se prepararem para comemorar o triunfo de Jesus sobre a morte com a celebração da Eucaristia, na madrugada do domingo. Desde a Quinta-Feira Santa a Igreja primitiva, imersa na lembrança da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, se abstinha do Santo Sacrifício, inclusive no sábado, preferindo acompanhar no silêncio da sepultura o Corpo inanimado do Divino Redentor. Com o decorrer do tempo perdeu-se esse costume no Ocidente, onde, a partir do século XI, a Solenidade da Ressurreição foi aos poucos antecipada para a manhã do Sábado Santo.1 Por fim, no ano de 1951, o Papa Pio XII restaurou definitivamente a Vigília Pascal com a esplêndida pompa litúrgica que a circunda, pervadida de profundo significado.
O mistério da morte de um Deus

quarta-feira, 23 de março de 2016

EVANGELHO QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR – ANO C - Jo 13, 1-15

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR – ANO C
1 "Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado Sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. 2 Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. 3 Jesus, sabendo que o Pai tinha posto tudo em Suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4 levantou-Se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5 Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido. 6 Chegou, assim, a Simão Pedro. Pedro disse: ‘Senhor, tu me lavas os pés?'. 7 Respondeu Jesus: ‘Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás'. 8 Disse-lhe Pedro: ‘Tu nunca me lavarás os pés!'. Mas Jesus respondeu: ‘Se Eu não te lavar, não terás parte comigo'. 9 Simão Pedro disse: ‘Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça'. 10 Jesus respondeu: ‘Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos'.  11 Jesus sabia quem O ia entregar; por isso disse: ‘Nem todos estais limpos'. 12 Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-Se de novo. E disse aos discípulos: ‘Compreendeis o que acabo de fazer? 13 Vós Me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois Eu o sou. 14 Portanto, se Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15 Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que Eu fiz'" (Jo 13, 1-15). 
Amar aos outros como Deus nos amou! Eis uma das mais belas formas de preparar-nos para a Eucaristia no tempo da Páscoa que agora começa. Se assim fizermos, estaremos imitando, de fato, em nossas vidas, o Divino Mestre no sublime ato do lava-pés.
I - "Deus é amor"
Um insuperável clímax de plenitude de amor atinge o Sagrado Coração de Jesus naquelas últimas horas de convívio com os Seus. Transcorrem ali, naquele histórico recinto, os momentos finais de Sua vida terrena. São os derradeiros episódios que constituem o grande pórtico dos sagrados mistérios da Redenção prestes a realizarem- se. Os inimigos se agitam e se entre-estimulam a perpetrar o mais grave homicídio de todos os tempos. Encontram-se eles na dependência de um guia possuído por Satanás, aguardando o momento propício para agarrar o Messias e conduzi- Lo aos tormentos da Cruz. Não há minuto a perder, é indispensável o Salvador externar ao Pai e aos discípulos o transbordante amor a borbulhar no interior de Seu Sagrado Peito.
As primeiras manifestações desse amor já haviam se dado na própria obra da Criação. Desfrutando de perfeita felicidade em Si mesmo, desde toda a eternidade, não necessitava Deus de nenhum ser que O completasse. Entretanto, por amor, quis Ele comunicar Suas infinitas perfeições às criaturas, de maneira que estas Lhe rendessem a glória extrínseca.1 Com especial benevolência, concebeu os Anjos e os homens à Sua imagem, destinando-os a participar da vida e da natureza divinas, pela Graça. E eles, seres racionais, encontram sua felicidade em glorificar seu Criador, pois "o mundo foi criado para a Glória de Deus".2

domingo, 20 de março de 2016

Evangelho Domingo da Páscoa - Ano C - Jo 20, 1-9

Comentários ao Evangelho Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor - Ano C  

A RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Entre os acontecimentos daquele dia, há episódios que passam muitas vezes despercebidos; porém, bem analisados, revelam em toda a sua força o poder do amor.
Quia surrexit sicut dicit... Tal como havia anunciado aos seus (Mt 16, 21; 17,9; 17, 22; 20, 19; Jo 2, 19, 20 e 21; Mt 12, 40), Jesus ressuscitou. Esse supremo fato já havia sido previsto por David (Sl 15, 10) e por Isaías (Is 11, 10).
São Paulo ressaltará o valor desse grandioso acontecimento: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 14). Daí a importância capital da Páscoa da Ressurreição, a magna festa da Cristandade, a mais antiga, e centro de todas as outras, solene, majestosa e pervadida de júbilo: “Haec est dies quam fecit Dominus. Exultemus et laetemur in ea” — esse é o dia que o Senhor fez, seja para nós dia de alegria e felicidade (Sl 117, 24).
Na liturgia, essa alegria é prolongada pela repetição da palavra “aleluia”, pelo branco dos paramentos e pelos cânticos de exultação. Com razão dizia Tertuliano: “Somai todas as solenidades dos gentios e não chegareis aos nossos cinquenta dias de Páscoa” (TERTULIANO.De idolatria, c 14 ML 1, 683).
Na Ressurreição do Senhor, além de contemplarmos o triunfo de Jesus Cristo, celebramos também a nossa futura vitória, sendo aplicáveis a nós as belas palavras de São Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55).
Cristo foi o único que ressuscitou por seu próprio poder
Elias operara a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, em casa de quem vivia (1 Rs 17, 17-24). Mais tarde, o mesmo faria Eliseu com o filho de uma sunamita (2 Rs 4, 17-37).
O próprio Salvador, tomado de pena ao encontrar o cadáver da filha de Jairo, ordenou às mulheres que não mais chorassem, pois a menina apenas dormia. Jesus conservou consigo apenas os pais e três apóstolos e, tomando-a pela mão, disse: “Menina, eu te ordeno, levanta-te!” Ela se pôs de pé cheia de vida e de alegria. Maravilhados com o prodígio, os pais nem se deram conta de que a jovenzinha precisava se alimentar, e o próprio Mestre teve de lhes lembrar isto (Mc 5, 35-43).
A compaixão de Jesus pelos sofrimentos humanos se manifestou novamente ao deparar Ele com um enterro, na cidade de Naim. Todos caminhavam consternados em extremo, pois falecera o filho de uma viúva, seu único sustento. O féretro encontrava-se cercado por gente desfeita em pranto. As misericordiosas entranhas de Nosso Senhor se comovem: “Não chores”, diz Ele à pobre mãe. E, colocando sua onipotência divina a serviço de sua bondade infinita, diz: “Moço, eu te ordeno, levanta-te!” Obedecendo à solene voz do Criador, começou a falar aquele que havia pouco ainda era defunto. Jesus tomou-o pela mão e o entregou a sua mãe (cf. Lc 7, 11-16).

segunda-feira, 14 de março de 2016

EVANGELHO DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR - ANO C

COMENTÁRIOS AO  EVANGELHO DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR  - Lc 23, 1-49  
  Evangelho da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas [versão mais breve]
Naquele tempo, toda a multidão se levantou e levou Jesus a Pilatos. 2 Começaram então a acusá-Lo, dizendo: Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo, proibindo pagar impostos a César e afirmando ser ele mesmo Cristo, o Rei”. Pilatos o interrogou: “Tu és o rei dos judeus?” Jesus respondeu, declarando: “Tu o dizes!”  Então Pilatos disse aos sumos sacerdotes e à multidão: “Não encontro neste homem nenhum crime”. Eles, porém, insistiam: “Ele agita o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui”. 6 Quando ouviu isto, Pilatos perguntou: “Este homem é galileu?”
7Ao saber que Jesus estava sob a autoridade de Herodes, Pilatos enviou-o a este, pois também Herodes estava em Jerusalém naqueles dias. 8Herodes ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-lo. Já ouvira falar a seu respeito e esperava vê-lo fazer algum milagre. 9Ele interrogou-o com muitas perguntas. Jesus, porém, nada lhe respondeu.
10 Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei estavam presentes e o acusavam com insistência. 11Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo, zombou dele, vestiu-o com uma roupa vistosa e mandou-o de volta a Pilatos. 12Naquele dia Herodes e Pilatos ficaram amigos um do outro, pois antes eram inimigos.
13Então Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e lhes disse: 14“Vós me trouxestes este homem como se fosse um agitador do povo. Pois bem! Já o interroguei diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais; 15nem Herodes, pois o mandou de volta para nós. Como podeis ver, ele nada fez para merecer a morte. 16Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”. 18Toda a multidão começou a gritar: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!”
18Barrabás tinha sido preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. 20Pilatos falou outra vez à multidão, pois queria libertar Jesus. 21Mas eles gritaram: “Crucifica-o! Crucifica-o!” 22E Pilatos falou pela terceira vez: “Que mal fez este homem? Não encontrei nele nenhum crime que mereça a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”. 23Eles, porém, continuaram a gritar com toda a força, pedindo que fosse crucificado. E a gritaria deles aumentava sempre mais. 24Então Pilatos decidiu que fosse feito o que eles pediam. 25Soltou o homem que eles queriam — aquele que fora preso por revolta e homicídio — e entregou Jesus à vontade deles.
26Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. 27Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. 28Jesus, porém, voltou-se e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! 29Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’.
30Então começarão a pedir às montanhas: ‘Cai sobre nós! e às colinas: ‘Escondei-nos!’ 31Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” 32Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus. 33Quando chegaram ao lugar chamado “Calvário”, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda.
34Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” Depois fizeram um sorteio, repartindo entre si as roupas de Jesus. 35O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!”
36Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, 37e diziam:“Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” 38Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. 39Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”40Mas o outro o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? 41Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”. 42E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. 43Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.
44Já era mais ou menos meio-dia e uma escuridão cobriu toda a terra até as três horas da tarde, 45pois o sol parou de brilhar. A cortina do santuário rasgou-se pelo meio, 46e Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Dizendo isso, expirou.
47O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus, dizendo: “De fato! Este homem era justo!” 48E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido e voltaram para casa, batendo no peito. 49Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que o acompanhavam desde a Galileia, ficaram a distância, olhando essas coisas. ( Lc 23, 1-49)
Até na hora a aparente derrota, o Sumo Bem sempre vence
Aos louvores da entrada triunfal de Nosso Senhor em Jerusalém logo se sucederam as dores da Paixão. Como explicar este paradoxo?
 A inexorável luta entre o bem e o mal
Reportemos a imaginação à eternidade, quando ainda não existia o tempo, pois Deus não havia criado o universo. Ele tinha diante de Si a possibilidade de criar infinitos mundos diferentes deste em que vivemos, mas, por uma livre escolha de sua vontade, não quis fazê-lo.’ Muitos dentre eles, aos nossos olhos de meras criaturas, poderiam ter sido melhores do que o existente, quiçá algum sem pecado e sem lutas...
Entretanto, o que Deus criou? Um universo cujas criaturas são boas e o conjunto delas é “muito bom” (Gn 1, 31). Logo no seu início, porém, todo esse bem criado passou a coexistir com o mal, a partir do momento em que a terça parte dos espíritos angélicos se uniu a Lúcifer numa revolta contra Deus (cf. Ap 12, 4). Ao brado de São Miguel, os Anjos fiéis se levantaram em oposição aos rebeldes e “factum est prælium magnum in Cælo — uma grande batalha se travou no Céu” (Ap 12, 7). Precipitado nas trevas eternas, o demônio tentou, como forma de manifestar sua obstinada oposição a Deus, desfigurar a beleza do plano da criação.
Invejando a criatura humana, que ainda se conservava inocente e desfrutava das delícias do Paraíso e da amizade com Deus, satanás se empenhou “em enganar os homens, para que não fossem exaltados e elevados ao lugar de onde ele caíra”.2 Tomando o aspecto de uma encantadora serpente, astuta e habilidosa para exacerbar as paixões humanas, entrou ele em contato com Eva e lhe propôs a desobediência a Deus. Eva cedeu e levou Adão a segui-la no mesmo caminho.
Por que a serpente entrou no Paraíso?

quinta-feira, 10 de março de 2016

Leitura do Livro do Profeta Jeremias 11, 18-20

Comentários de Mons João Clá Dias à Leitura do Livro do Profeta Jeremias.
18Senhor, avisaste-me e eu entendi; fizeste-me saber as intrigas deles. 19Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim: “Vamos cortar a árvore em toda a sua força, eliminá-lo do mundo dos vivos, para seu nome não ser mais lembrado”.

20E tu, Senhor dos exércitos, que julgas com justiça e perscrutas os afetos do coração, concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Evangelho V Domingo da Quaresma - Ano C - Jo 8, 1-11

Comentário ao Evangelho V Domingo da Quaresma - Ano C  
1 Dirigiu-se Jesus para o Monte das Oliveiras. 2 Ao romper da manhã, voltou ao Templo e todo o povo veio a Ele. Assentou-Se e começou a ensinar. 3 Os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. 4 Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: “Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. 5 Moisés mandou-nos na Lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes Tu a isso?” 6 Perguntavam-Lhe isso, a fim de pô-Lo à prova e poderem acusá-Lo. Jesus, porém, Se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. 7 Como eles insistissem, ergueu-Se e disse-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. 8 Inclinando-Se novamente, escrevia na terra. 9 A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante d’Ele. 10 Então Ele Se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: “Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?” 11 Respondeu ela: “Ninguém, Senhor”. Disse-lhe então Jesus: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 1-11).
A Lei ou a Bondade?
No episódio da mulher adúltera, os evangelistas não revelam tudo quanto estava oculto na urdidura feita pelos fariseus para colocar Jesus diante de um dilema: condenar a pecadora à morte, violando a lei romana, ou salvar-lhe a vida, desconsiderando a Lei de Moisés. Jesus superou a justiça salomônica.
Jesus veio para perdoar
Os Evangelhos são o testamento da Misericórdia. O anúncio do maior ato de bondade havido em toda a obra da criação — a Encarnação do Verbo — é o frontispício, a bela abertura de sua narração. A chave de ouro com a qual esta termina deixa-nos sem saber se ainda não é mais bela e comovedora: a crucifixão e morte de Cristo Jesus para restabelecer a harmonia entre Deus e a humanidade.
A Bondade divina une substanciosamente esses dois extremos, a Gruta de Belém e o Calvário, através de uma seqüência riquíssima em acontecimentos escachoantes de amor pelos miseráveis: “Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Essa alegria de Jesus em perdoar transparece nas doutrinas, conselhos e até mesmo nas parábolas por Ele elaboradas a fim de que seus ouvintes melhor entendessem sua misericórdia, como, por exemplo, a do filho pródigo (Lc 15, 11-32), a da ovelha desgarrada (Lc 15, 4-7) e a da dracma perdida (Lc 15, 8-10). A euforia de quem encontra, em qualquer dos três casos, reflete o contentamento do próprio Cristo ao promover o retorno de uma alma às vias da graça.
Ele é o Bom Pastor que ao apanhar a ovelha imprudentemente destacada do rebanho, a reconduz ao redil, a fim de infundir-lhe nova vida de maneira superabundante. E Ele a leva sobre seus próprios ombros, enquanto os Céus se enchem de um júbilo ainda maoir do que o causado pela perseverança dos justos (cf. Jo 10, 11-16; Lc 15, 4-7).
Dentro dessa atmosfera de amor, jamais vimos Jesus, ao longo de sua vida pública, tomar a menor atitude depreciativa em relação a quem quer que fosse: samaritanos, centurião, cananéia, publicanos, etc. A todos invariavelmente atendia com divina atenção e carinho: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Nenhuma pessoa d’Ele se aproximou em busca de uma cura, perdão ou consolo, sem ser plenamente atendida. Tal foi seu infinito empenho em fazer o bem, sobretudo aos mais necessitados: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17); “o Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu; e enviou-Me (...) para publicar o ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18-19). O próprio Apóstolo dirá mais tarde: “Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro” (1 Tm 1, 15).
Malícia dos fariseus
Mas, assim como “é belo durante a noite acreditar na luz” (1), a Bondade substancial de Cristo Jesus se torna ainda mais luzidia aos nossos olhos quando contrastada com uma oposição toda feita de malícia. E esta nós a encontramos, radical e constante, do começo ao fim do Evangelho. Já o Precursor, ao distinguir entre os que o circundavam, alguns fariseus, os increpou: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vos ameaça? (...) Não digais dentro de vós: Nós temos Abraão por pai!” (Mt 3, 7-9).
São tão numerosas as investidas dos escribas e fariseus contra Jesus, em razão de sua misericórdia, que reproduziríamos uma boa parte dos Evangelhos se procurássemos ser minuciosos nas citações a esse respeito. Lembremos de passagem que eles chegam a chamá-Lo de possesso do demônio (Jo 8, 52; 10, 20; Lc 11, 15), distorcem suas palavras e afirmações (Mc 14, 58), perseguem-No com intensidade crescente (Jo cap. 7 a 11) até O condenarem à morte, e O acusam de revolucionário, porque, segundo eles, sublevava o povo contra o poder civil e afirmava que não devia ser pago o imposto ao imperador (Lc 23, 2).
Jesus, a Misericórdia substancial, não é menos duro para com eles: “Se compreendêsseis o sentido destas palavras: Quero a misericórdia e não o sacrifício... não condenaríeis os inocentes” (Mt 12, 7). Por sete vezes, Jesus os chama de hipócritas, com a expressão: “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas”, para — em cada uma — atribuir-lhes um pecado (cf. Mt 23, 13-29).
Ódio contra a bondade de Jesus
Essa indisposição farisaica contra Jesus tomava como motivo implícito sua infinita misericórdia, virtude específica de Deus: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus” (Jo 8, 47). E, sobretudo, porque não queriam ser verdadeiros filhos de Deus, mas sim do diabo (Jo 8, 44). Além dessa terrível ascendência que lhes é definida por Jesus, recebem também o título de “ladrões” (Jo 10, 10), “homicidas” (id.), “víboras” (Mt 12, 34).
Ora, o ódio farisaico contra a Bondade também deveria se refletir na repulsa que manifestavam em relação aos necessitados. E é, portanto, no contraste com a acidez dos fariseus e escribas contra os pecadores que vemos rebrilhar ainda mais a Bondade de Cristo. Ela se torna histórica quando chega aos extremos limites de absolver uma Madalena (Lc 7, 47-48) ou, no alto do Calvário, o bom ladrão (Lc 23, 43).
Os fariseus se indignavam contra essas atitudes de Jesus porque seu puritanismo procedia de uma falsa justiça, toda feita de orgulho, e por isso se afastavam dos miseráveis, desprezavam-nos e jamais demonstravam sentimentos de compaixão por qualquer carente. 
É no embate entre a Bondade infinita e o falso amor à Lei, que se desenrola o drama do Evangelho de hoje.
O episódio da mulher adúltera
1Dirigiu-se Jesus para o Monte  das Oliveiras.
Segundo nos diz Alcuíno (2), Jesus passava o dia pregando no Templo de Jerusalém e, ao entardecer, retornava a Betânia para repousar na casa de Lázaro. De acordo com este versículo, nessa ocasião, por ser a última tarde de festa, é possível que Jesus tenha passado a noite em oração, no Monte das Oliveiras. Quem melhor comenta esta passagem é o Pe. Andrés Fernandez Truyols, SJ: “Terminado o ministério apostólico de todo dia, tornado mais árduo pelas discussões às quais seus eternos adversários o obrigavam, que não lhe deixavam momento de repouso, enquanto seus ouvintes voltavam cada um para sua casa, Jesus se retirou para o Monte das Oliveiras. Não parece que se afastasse até Betânia, o que teria sido provavelmente indicado pelo autor. O mais certo é que passasse a noite numa tenda ou uma gruta; talvez naquela que foi considerada por muitos como a Gruta da Agonia ou, porventura, na que se encontra quase no topo do monte, e que a tradição consagrou como a cátedra dos ensinamentos de Jesus, sobre a qual Santa Helena edificou uma basílica. Desse modo, tanto de uma como da outra, Jesus podia dirigir-se rapidamente ao Templo pela porta oriental, que coincidiria mais ou menos com a hoje chamada Porta Dourada. De resto, o Monte das Oliveiras era um local familiar para Jesus” (3).
2 Ao romper da manhã, voltou ao Templo e todo o povo veio a Ele. Assentou-Se e começou a ensinar
Ninguém jamais poderá imaginar a irresistível força de atração exercida por Jesus em relação a quem viesse a conhecê-Lo. Disso dão uma ideia os Evangelhos, que constituem meras sínteses de maravilhas indescritíveis. Tal é seu empenho em fazer o bem que, logo ao raiar do dia, Ele vai ao Templo, certamente já seguido por outros pelo caminho. À sua entrada todos se juntam a seu redor para ouvi-Lo. Era o início de mais uma longa jornada de pregação conversada, na qual poderiam tomar parte ativa, com perguntas ou comentários, quaisquer dos presentes, numa atmosfera inteiramente amena e familiar. Por isso, Ele Se sentou e começou a ensinar. De repente, aquele sagrado convívio foi interrompido por um fato inusitado.
A adúltera é apresentada a Jesus
3 Os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. 4 Puseram-na no meio da multidão…
A adúltera foi colocada no centro da multidão, para ser julgada, como fautora de um crime e, dessa forma, ipso facto, constituíram a Jesus como juiz.
Esse fato, inevitavelmente, levanta uma importante questão: o que teria acontecido com o homem implicado na mesma falta? Qual a razão de ele não ter sido apresentado a Jesus, nessa ocasião? Ora, o texto da Escritura é peremptório sobre a obrigatoriedade da punição de ambos: “Se um homem cometer adultério com uma mulher casada, com a mulher de seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão punidos de morte” (Lv 20, 10); ou ainda: “Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, ambos deverão morrer: o homem que dormiu com a mulher, e esta da mesma forma. Assim, tirarás o mal do meio de ti” (Dt 22, 22).
Várias hipóteses levantam os autores a esse respeito; não encontramos, porém, nenhuma que leve até ao extremo a desconfiança em relação à perfídia daqueles escribas e fariseus. Permitido nos seja, conhecendo a consumada maldade que lhes era característica, levantar uma suspeita sobre a “fuga” do infrator adúltero: não seria ele cúmplice de seus mandantes para, assim, conseguirem um flagrante? Neste caso, provavelmente, a adúltera teria sido induzida ao crime, deixando-se levar mais por ingenuidade e pela inclinação de suas paixões, do que por dolo.
Cabe aqui a pergunta clássica: “A quem aproveitou o crime?” Já na época de Daniel, os acusadores não haviam conseguido agarrar o suposto parceiro de Suzana no adultério caluniosamente inventado pelos dois juízes anciãos. E no caso do Evangelho de hoje, quem era o criminoso? A mulher teria se negado a declará-lo? Espanta-nos a facilidade com que os escribas e fariseus encontraram uma adúltera, para ser introduzida no Templo, bem àquela hora e em tal circunstância, tão favoráveis para armar uma cena show que envolvesse a Jesus.
Acrescente-se este outro dado: duas criaturas humanas, adultas, que fossem perpetrar um crime punido com pena de morte imediata, por mais primitivas que fossem, procurariam se proteger de qualquer risco de um flagrante. Ora, o caso em questão realizou-se em condições tais que dificilmente deixaria de ter sido planejado por terceiros, interessados em sua consecução.
Os fariseus invocam uma lei em desuso
…multidão e disseram a Jesus: “Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. 5 Moisés mandou-nos na Lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes Tu a isso?” 6 Perguntavam-Lhe isso, a fim de pô-Lo à prova e poderem acusá-Lo. Jesus, porém, Se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra.
A expressão “apanhada em adultério” confere ainda mais substância à hipótese de um crime planejado por várias pessoas, com um intuito que se tornará explícito na revelação contida no versículo seguinte. Ademais, a afirmação fortemente categórica da parte deles evitava que fossem argüidos por Jesus a respeito das provas, pois nem a própria mulher procurava defender-se. Talvez, pela delicadeza de sua alma feminina, não insinuava sequer quem fosse seu cúmplice naquele crime.
Flávio Josefo, famoso historiador judeu daqueles tempos — portanto, de certo modo, insuspeito —, contanos que havia caído em desuso a lei que punia com pena de morte os réus condenados por esse tipo de crime.
Rigorismo em meio ao relaxamento geral dos costumes
Sob o reinado dos Herodes, a corrupção dos costumes em Jerusalém havia chegado ao extremo. Quiçá fosse essa uma circunstância que propiciasse aos fariseus e escribas criarem, junto a Jesus, o impasse de como proceder naquele caso de adultério. Seja como for, “sob as aparências de zelo pela Lei, aqueles homens hipócritas e rancorosos armavam para Jesus uma armadilha maldisfarçada. Estavam certos de que Aquele a quem chamavam ironicamente pelo epíteto de ‘amigo de pecadores e publicanos’ Se mostraria indulgente com a culpada; e então eles O acusariam de violar a Lei divina num ponto fundamental” (4).
Na mesma linha, comenta o Pe. Andrés Fernandez Truyols, SJ: “ pergunta, aparentemente respeitosa e até honorífica para Jesus, era na realidade insidiosa. Se Ele Se pronunciasse pelo castigo, tacha-Lo-iam de duro; se absolvesse, seria acusado de violar a Lei” (5). Por outro lado, vale a pena observar o contraste entre os fiéis, que ouvem enlevados as palavras do Salvador, e a sanha dos doutores da Lei e dos fariseus em condenar Jesus. “Enquanto os pacíficos e simples admiravam as palavras do Salvador, os escribas e fariseus Lhe faziam perguntas, não para aprender, mas para armar armadilhas à verdade” (6).
Querem tornar Jesus réu de sua própria sentença
Tornou-se famoso o dilema criado pelos fariseus a propósito do pagamento do imposto, se a César ou ao Templo. O “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21) marcou a História. Entretanto, o caso trazido a lume pela Liturgia de hoje foi montado com muitíssimo mais habilidade. Decidindo por uma ou outra solução, Jesus, ou se levantaria contra o poderio romano, ou se declararia discordante de Moisés e, portanto, do Sinédrio. Se sua sentença fosse no sentido de que lapidassem a mulher, na certa seus inimigos procurariam entregá-Lo a Pilatos por ter violado a lei imposta por Roma às províncias conquistadas e suas sufragâneas: o direito de vida e de morte lhe pertencia com exclusividade. Sem contar que teriam elementos para sublevar o povo contra sua radicalidade e intransigência.
Jesus contra Moisés...
Se Jesus a absolvesse, agitariam os fiéis pelo fato de Ele Se opor à Lei de Moisés e O arrastariam ao Sinédrio para ser excomungado e entregue à autoridade romana. Provavelmente, “queriam colocar Cristo em oposição à Lei de Moisés, dando a entender que O consideravam um outro Moisés, o qual trazia uma lei mais perfeita que a do primeiro. Tudo era feito para incentivá-Lo e provocá-Lo, de modo que Ele tomasse partido contra a Lei de Moisés, dando-lhes ocasião de acusá-Lo. Que dizes Tu a isso? Contrapondo-O a Moisés, como se O elevassem acima de Moisés. Tu, que és maior que Moisés, a quem não se aplicam suas leis, porque promulgas outra melhor e mais perfeita, o que dizes? Aprovas ou reprovas a sentença da lei mosaica? Por todos os meios, procuram colocá-Lo na tentação de dizer algo contra Moisés, em face de todo aquele público, já que O reconhecem como superior ao grande legislador” (7).
Jesus responde por escrito
Chama especialmente a atenção a inédita atitude do Divino Mestre, de inclinar-Se, permanecendo sentado, e pôr-Se a escrever “com o dedo na terra”. Jesus Se encontrava perto do pátio das mulheres, na galeria do Tesouro, e não sabemos de que maneira era constituído o piso desse local. Seja como for, provavelmente a escrita seria de molde a poder ser lida por outrem. Consideremos o fato de escribas e fariseus terem se postado perto de Nosso Senhor e, ainda mais, por se encontrarem de pé, não lhes era difícil ler os caracteres desenhados por Ele. Jesus escrevendo: é a única ocasião em que isso acontece em toda a narração dos Evangelhos. Como imaginar a forma das letras e a sequência das palavras? Evidentemente, só poderiam ser as mais belas entre todas as possíveis. Algo legível deveria restar no chão, talvez impresso sobre a própria poeira do caminho. O que teria escrito Ele naquele momento? Mais adiante trataremos desse pormenor.
Jesus eleva a questão do plano jurídico ao moral
7 Como eles insistissem, ergueu-Se e disse-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.
No Deuteronômio encontramos a clara obrigatoriedade de a primeira testemunha de um crime, punido com pena de morte, atirar a primeira pedra: “Tens, ao contrário, o dever de matá-lo:
Diante do Senhor se encontravam mestres da Lei e fariseus, peritos no domínio desses conhecimentos relativos à jurisprudência. Portanto, Jesus não se exime, pronuncia a sentença, mas, a propósito de sua execução, aproveita o ensejo para transferir a problemática do campo jurídico a um plano muito mais elevado, ou seja, o moral. Frase divinamente célebre, se ela fosse gravada de forma indelével em nossos corações, compenetrados estaríamos de nossa indignidade, de nossas insuficiências, pecados, etc., e não seríamos ásperos com ninguém, nem repreenderíamos com dureza de coração os culpados. Doçura, humildade e compaixão constituiriam a essência de nosso relacionamento, e assim, atrairíamos a benevolência de Deus e seríamos causa de edificação do próximo. “Creio que Cristo quis criticá-los, e não só dava a entender que podiam pecar, enquanto homens, e que eram pecadores de fato — quer dizer, que estavam manchados de pecados como a generalidade dos homens — mas também que eram hipócritas: cheios de iniqüidade no interior, enquanto no exterior fingiam santidade e zelo religioso, tratando de apedrejar aquela mulher. Increpou-os como naquela outra ocasião em que os chamou de sepulcros caiados (Mt 23, 27). Feriu-os, portanto, no íntimo da consciência, ao dizer-lhes: ‘Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra’, dando a entender que eles eram réus daquele pecado ou de outros maiores. Mas essa acusação é tão prudente que não parece ser Ele quem a faz, mas a consciência de cada um deles. O Salvador os remete às suas próprias consciências, estabelecendo-as como juízes, como se Ele ignorasse o que nelas havia. De certo modo, é de direito natural que quem acusa ou condena alguém esteja livre do pecado que lhe reprocha” (8).
Pode um homem julgar outro homem?
É insuperavelmente magistral essa resposta de Nosso Senhor, pois não assume a função de juiz, que lhe ofereciam os escribas e fariseus, mas sim a de Mestre, conforme o título empregado por eles ao Lhe proporem o julgamento (v. 4). Como Altíssimo Conselheiro, Jesus lhes recorda que um juiz, apesar de seus pecados ou falhas, pode — e até deve — julgar e condenar, se necessário for; porém, levanta para eles um espinhoso problema: pode um pecador ser o executor da justiça de Deus?
O único, verdadeiro e competente Juiz é Nosso Senhor Jesus Cristo: “O Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho” (Jo 5, 22). Todo aquele que de forma competente julga outro homem, por direito natural, positivo ou divino, assim o faz por delegação de Jesus Cristo. Entretanto, aquela sentença moral lançada contra homens orgulhosos que hipocritamente se julgavam santos e imaculados, de si não os deteria em sua determinação de cumprir a Lei, se esse fosse realmente seu objetivo exclusivo. Que mais faria Jesus para impedi-los?
Escrevendo, Jesus acusava os acusadores
8 Inclinando-Se novamente, escrevia na terra.
 Por mais que São Jerônimo não seja acompanhado pela maioria dos autores, parece ter ele inteira razão em sua análise a respeito deste ponto. Não cremos ser de boa linha a opinião de alguns comentaristas, de que Jesus escrevia sem um objetivo definido, como simplesmente querendo significar seu desinteresse pela questão levantada, ou para ganhar tempo. Tudo leva a crer que os pecados, dignos do mesmo castigo, cometidos pelos acusadores, figuravam naquela escrita aparentemente informal. Santo Ambrósio é também partidário desta hipótese de São Jerônimo.
Se assim de fato foi, Jesus procedeu com invariável sabedoria e, ademais, com suma bondade, pois poderia contra-acusar de público cada um deles, e não o fez. Muito pelo contrário, colocava-lhes à disposição seu total perdão. Bastaria um arrependimento interior e um pedido de misericórdia, ainda que implícito, para todos saírem daquela situação em inteira harmonia com Deus e até mesmo entre eles próprios. Jesus lhes oferecia essa grande oportunidade, mas...
9 A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante d’Ele.
Essa narração contribui, ainda mais, para a probabilidade de estar relacionada a escrita no solo com os pecados de cada um dos acusadores. Não teria Jesus começado pelos mais velhos? Se o simples enunciado da sentença os tivesse convencido a todos, a desistência deveria ser coletiva e concomitante. O fato de se retirarem um a um indica que a conclusão de não ser conveniente ali permanecer, foi individual e sucessiva. Por outro lado, a ser verdadeira a interpretação de São Jerônimo e de Santo Ambrósio, não reconheceram aqueles homens suas faltas e delas não pediram perdão.
O pecado não compensa
 10 Então Ele Se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: “Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?” 11 Respondeu ela: “Ninguém, Senhor”. Disse-lhe então Jesus: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar
Ao notar a adúltera que seus acusadores iam-se retirando, começou a sentir crescente alívio em seu interior, atingindo um clímax após a saída do último deles. A perspectiva da morte por lapidação a amedrontara e promovera uma constatação freqüente nos pecadores arrependidos: o pecado não compensa! A grande vergonha e humilhação diante daquele numeroso público talvez a fizessem sofrer ainda mais.
A última terrível prova: o santíssimo olhar de Jesus. A Sagrada Face, íntegra em sua divina moralidade, a pureza e a virgindade em essência, sendo contempladas pelo delírio carnal envergonhado e arrependido... Só um ardoroso sentimento salvaria do merecido castigo aquela pobre alma: um pedido de perdão! Jesus não exigirá dela uma declaração explícita e formal, apenas lhe manifestará sua insuperável delicadeza: “Ninguém te condenou?”
Respeitando a Lei, Jesus é misericordioso
Com um procedimento tão sábio quanto inusitado, ninguém mais poderia acusar o Mestre de haver desconsiderado a Lei de Moisés e, portanto, de ter sido exageradamente indulgente. Ele não repetira senão a própria atitude dos fariseus e, ademais, Ele levara a pecadora a declarar: “Ninguém, Senhor”. Seguindo o exemplo de todos, Ele tampouco a condenaria.
Assim, “quebra o laço que Lhe armaram os caçadores” (cf. Sl 123, 7), confirma a Lei, faz rebrilhar sua dignidade, põe em fuga seus inimigos, produz maior admiração, respeito e submissão junto ao povo que O cercava e perdoa a pobre pecadora, despedindo-a com uma advertência: “Não peques mais”. Com essa admoestação, Ele ainda lhe concedia sua graça, sem a qual nenhuma virtude se pratica estavelmente.
Conclusão
Os acusadores foram julgados, a pecadora foi perdoada
Que magnífica lição de penitência, de perdão e da necessidade da perseverança, oferecida a cada um de nós neste vale de lágrimas no qual fomos concebidos e vivemos!
Jesus, o único que teria direito de lançar desde a primeira até a última pedra, concede à pecadora uma bela experiência da grandeza de sua misericórdia. Ali sentiu-se ela verdadeiramente amada pela infinita bondade de um Coração sagrado, humano e divino. E a felicidade que, de maneira equivocada, buscara no pecado, encontrou-a no perdão e na benquerença d’Aquele que os escribas e fariseus haviam escolhido para juiz: o Mestre. 
Aqueles que se apoiavam na Lei para acusar saíram julgados; a pecadora arrependida, que deveria ser morta, retirou-se na graça de Deus. Ninguém jamais foi ou será tão intransigente com o erro quanto Jesus; ninguém mais manso do que Ele para com os pecadores. 
Este é mais um dos episódios do Evangelho nos quais transparecem, de um lado, a infinita bondade do Sagrado Coração de Jesus, ardendo em chamas de desejo de perdoar, e, no extremo oposto, a dureza de alma dos escribas e fariseus, que não só rejeitam esse perdão, até para si próprios, mas jamais reconhecem com humildade suas respectivas faltas. 
Quando se defende a Lei por puro egoísmo, não só não se tem forças para praticá-la, como não se aceita a bondade!
1 ) Edmond Rostand, Chantecler.
2) Cf. São Tomás de Aquino, Catena Aurea, in Jo.
3) Vida de Nuestro Señor Jesucristo, BAC, Madrid, 1954, pp. 395-396.
4 ) FILLION, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, Voluntad, Madrid, 1926, t.III, p. 391.
5) TRUYOLS, op. cit., p. 396.
6 ) São Tomás de Aquino, "Catena Aurea", in Jo.
7 ) Pe. Juan de MALDONADO SJ, Comentarios a los cuatro Evangelios, BAC, Madrid, 1956, v. III, p. 519.
8) MALDONADO, op. cit., p. 522.