CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM Lc 7, 36-50; 8 1-3
Uma pecadora
que admirava a virtude
As mesas de refeição daqueles
tempos costumavam ser em forma de um longo “u”. O anfitrião e o principal
convidado sentavam-se lado a lado, bem ao centro.
Nessas ocasiões, as mulheres
eram excluídas dos salões. Portanto, a entrada de uma dama naquele recinto,
mesmo sendo de alta reputação, chocaria fortemente todos os comensais; mais
ainda se fosse ela conhecida por seus maus costumes. Foi o que se passou.
Há muito que Maria Madalena
havia provado o vazio e a mentira do pecado. Sua alma delicada, ansiava uma
oportunidade para mudar de vida, mas as circunstâncias a impediam de realizar
esse bom intento. Por pura fraqueza caíra naqueles horrores. Mas, em seu
coração feminino, guardava uma grande admiração pela virtude e — por incrível
que pareça — em especial pela pureza. Sua sensibilidade física a arrastava às
enganosas delícias da carne e, portanto, à ofensa grave a Deus; mas a
espiritual a convidava à paz de consciência, ao amor ao Criador.
No auge desse dilema, depois de
muito implorar socorro ao Céu, ouviu falar do surgimento de um grande profeta
em Israel, taumaturgo em altíssimo grau: os paralíticos andavam, os cegos
enxergavam, os surdos ouviam, os mudos falavam e até os mortos ressuscitavam.
Afinal, pensou ela, chegara o remédio para todos os males que atormentavam seu
espírito tão carregado de recriminadoras aflições. Ela se considerava
monstruosa e não via a hora em que pudesse sentir-se purificada de suas
manchas. Por debaixo daquela lama imunda havia uma pele de arminho que ardia de
anseios de limpeza.
As primeiríssimas reações de
sua alma em relação a Jesus foram da mais entranhada simpatia. Desde o início,
ela O amou mais do que a si própria e anelava pela oportunidade de se aproximar
d’Ele. Assim, “quando soube que estava à mesa em casa do fariseu”, decidiu
enfrentar os rigorismos sociais e entrar na sala da ceia. Para chegar onde
estava o Divino Mestre, deu a volta pelo lado externo da mesa e “colocando-se a
seus pés, por detrás d’Ele, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas, e
enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os, e os ungia com o
perfume”, que trouxera num frasco de alabastro.
Antes, por sua concupiscência,
andava irrequieta a atrair a atenção de todos para si; agora se ajoelha para
servir. Os olhos com os quais ofendera a Deus por sua curiosidade irrefreada,
choravam de dor pelo passado. Seus cabelos, outrora vaidosamente penteados, ela
os utilizava nesse momento como fino linho para enxugar os pés do Senhor. Os
lábios que tanto proferiram palavras de insensatez consagravamse em beijar
aqueles divinos pés. Por fim, elevava à categoria de instrumento de louvor o
perfume usado em outras eras para açular sua vaidade. “Assim, esta mulher
pecadora tornou-se mais honesta que as virgens, depois de se consagrar à
penitência e se dedicar a amar a Deus. E tudo quanto dela se disse [no
versículo 38] passava-se exteriormente, mas o que movia sua intenção, e só Deus
via, era muito mais cheio de fervor” (7).
Continua no próximo post.
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