CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM Lc 7, 36-50; 8 1-3
O juízo
preconceituoso do fariseu
A segurança parecia retornar ao
coração de Simão, o fariseu, ao assistir a tão escandalosa cena: “Se este fosse
profeta, com certeza saberia de que espécie é a mulher que O toca: uma
pecadora” . Seu juízo é apressado e infundado. Assim como não teve fé e amor
para enlevar-se com o Mestre, faltou-lhe também o discernimento para, na
ex-pecadora, ver e interpretar os sinais de um arrependimento perfeito, pois
são notórios os efeitos do vício ou da virtude estampados na face (Eclo 13,
31). O orgulho de ser um rigoroso e sábio legista levou-o a uma conclusão
aparentemente lógica, mas em realidade temerária, contra o Médico e contra a
enferma. Além do mais, manifestou sua falsidade, pois, se concebeu no seu
interior a convicção de estar diante de um homem comum e aguardou sua saída
para provavelmente comentar com satisfação o aparente horror daquele escândalo,
por que chamá-Lo de Mestre? A esse respeito, comenta com muita propriedade São
Gregório Magno: “O Médico se encontrava entre dois enfermos; um tinha a febre
dos sentidos, e o outro havia perdido o sentido da razão: aquela mulher chorava
o que havia feito, mas o fariseu, orgulhoso pela sua falsa justiça, exagerava a
força de sua saúde” (8).
Além não ter tido tino ou
virtude para perceber na pecadora a enorme graça de que havia sido objeto,
faltava ao fariseu humildade fé e amor para ver em Jesus o Filho de Deus.
Entretanto, a prova de quanto Jesus é profeta foi dada a Simão logo a seguir,
no estilo tão apreciado naqueles tempos, através da parábola dos dois
devedores. É notório o caráter universal das palavras do Salvador contidas
nesse trecho, mas não podemos negligenciar a realidade concreta a desdobrar-se
diante de seus olhos de Juiz Supremo.
Ali estavam dois réus. Ambos
haviam ofendido a Deus em graus diferentes e necessitavam, portanto, do perdão.
A pecadora estava tomada por um arrependimento perfeito e foram-lhe “perdoados
os seus muitos pecados, porque muito amou”. Quanto ao fariseu, o Senhor lhe externa
sua disposição em perdoá-lo, mas seria necessário, da parte dele, fé e maior
amor (vv. 47 e 50). Indispensável era ao fariseu reconhecer seu débito para com
Deus e pedir-Lhe perdão, mas ele assim não procedeu, por ser orgulhoso.
É fácil compreender a sentença
final do Divino Juiz: a pecadora é oficial e publicamente perdoada; quanto ao
fariseu, na melhor das hipóteses — se chegasse a arrepender-se e vencer seu orgulho
— caberia, talvez, o decreto de Nosso Senhor: “os publicanos e as meretrizes
vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31).
É preciso ter
pecado para crescer no amor?
É importante respondermos a uma
questão: em face do Evangelho de hoje, é necessário a pessoa ter praticado um
grande número de pecados para, ao ser perdoada, amar mais?
Se assim fosse, Maria Imaculada
— não só pela sua puríssima concepção, mas também por sua ilibada vida — seria
a criatura que menos amou a Deus. Ora, sabemos com emocionado júbilo ser a
Santíssima Virgem a mais amada e a mais perfeita amante, entre todos os seres
saídos das mãos do Criador. Porém, a Ela também cabia rezar: “Perdoai as nossas
dívidas”, como se pedia antigamente no Pai Nosso, pois Ela Lhe deve o ser, a
predestinação à maternidade divina, a plenitude de graças, a concepção
imaculada, a vida isenta de qualquer mancha de pecado, enfim, todos os dons,
virtudes e privilégios que Lhe foram concedidos no mais alto grau.
Ela mesma externou esse
reconhecimento, ao pronunciar o Magnificat, em casa de sua prima Santa Isabel
(Lc 1, 46-55):”A minha alma glorifica o
Senhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque olhou
para a humildade de sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as
gerações Me chamarão ditosa, porque o Todo-Poderoso fez em Mim grandes coisas”
(Lc 1, 46-49).
A gratidão que se manifestava
perfeita na pecadora, não estava presente em Simão, o fariseu. Com
independência das faltas cometidas, nós todos somos devedores diante da
incomensurável bondade de Deus, pois Ele nos escolheu entre infinitos outros
seres passíveis de serem criados, sobre os quais não incidiu seu ato criador.
Mas, aos orgulhosos não ocorrem
esses pensamentos.
Debaixo desse prisma, Maria
Santíssima é a maior devedora, pois Ela sozinha recebeu de Deus muito mais que
a soma dos Anjos e dos Bem-Aventurados, no seu conjunto. Compreendemos agora
melhor o Evangelho: a pecadora recebeu de Jesus dez vezes mais do que Simão, o
fariseu. Ela amou o Redentor na mesma proporção, penetrada de gratidão. O
outro, não. Por seu orgulho, ele não se reconhecia devedor e, portanto, não
entendia nem desejava a remissão que Jesus lhe oferecia.
Abraçar a via
do amor e da gratidão
“Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em
Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).
Diante de Jesus, ou estamos com
o amor e gratidão da pecadora; ou, melhor ainda, com disposições de alma
semelhantes às da Santíssima Virgem; ou seguindo as desordens do fariseu Simão.
Se abraçarmos a via do amor
agradecido — quer na inocência, quer no arrependimento — a nós se aplicará a
sentença de São Tomás: “O menino,
inclusive o não- batizado, se tem a idade do uso da razão e ama eficazmente o
bem mais do que a si mesmo, está justificado pelo batismo de desejo, porque
esse amor, que já é o amor eficaz a Deus, não é possível no estado atual da
humanidade sem a graça regeneradora” (9).
Pelo contrário, se assumirmos a
soberba do fariseu, sentiremos em nós o quanto “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso,
busca só os seus próprios interesses, pervadido de irritações e de
ressentimentos pelo mal sofrido”. Provaremos no fundo de nossa alma “o regozijo com a injustiça e a tristeza com
a verdade”, porque o orgulho “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera
e nada suporta” (parafraseando São Paulo, I Cor 13, 4 a 7).
1) Nat. Hist. 2, 33. 2) Ver I Mac 2, 19-27. 3) Ver Mt 15, 7;
16, 4; 22, 18; 23, 13-33; e Mc 7, 6. 4) Luís Vives, De anima et Vita - I, 3: De
superbia [Basilea 1555] f. 592. 5
) Ver Lc 7, 41-55; Mc 5, 3542. 6 ) C.M. Franzero, The memoirs of Pontius
Pilate, trad. Portuguesa de Morais Cabral, Lisboa, p. 215. 7 ) São João
Crisóstomo, apud Catena Áurea in Lc VII, 36-50. 8 ) Apud Catena Áurea, in Lc
VII, 36-50. 9 ) Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, El Salvador y su amor por
nosotros, Rialp, Madrid, 1977, p. 34, comentando ST, I, II, q. 109, a. 3
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