Continuação dos comentários ao Evangelho – I Domingo da Quaresma
II – O prólogo da pregação da Boa nova
O Evangelho deste
primeiro domingo reporta-nos ao momento no qual dispunha-Se Cristo a iniciar
sua missão de pregar a Boa Nova. Ao sair das águas do Jordão, logo após ser
batizado por João, o Céu se abriu, o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma
de uma pomba e ouviu-se uma voz vinda do Alto: “Tu és o meu Filho bem-amado; em
Ti ponho minha afeição” (Lc 3, 22).
Nesse instante,
comenta Bento XVI, deu-se uma como que investidura do encargo messiânico do
Filho do Homem. Foram-Lhe conferidas ali, para a História e perante Israel, a
dignidade real e a sacerdotal. A partir desse momento a vida de Jesus está
subordinada à missão para a qual Ele havia Se encarnado.9
O recolhimento precede a ação
“Naquele tempo, 12 o Espírito levou Jesus para
o deserto”.
Após o Batismo, a
primeira disposição do Espírito Santo foi de conduzir Jesus ao deserto, onde
Ele permaneceu quarenta dias em regime de penitência, isolamento e oração.
Mostra-nos assim o
Divino Mestre que, antes de lançar-se a santas e grandes empresas, é
indispensável preparar-se pela oração e pela contemplação, pois a vida interior
é a alma de toda ação missionária. Se o próprio Deus humanado deu esse sublime
exemplo, qual lição devem dele tirar todos quantos, em nossos dias, consagram a
vida ao apostolado?
Forças superabundantes para os que haveriam de segui-Lo
13ª “E Ele ficou no deserto durante quarenta dias...”.
O primeiro dos
sinóticos especifica que “Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites”
(Mt 4, 2). Não pensemos, entretanto, que esse jejum de Jesus foi “o jejum
habitual dos judeus renovado por quarenta dias consecutivos; o jejum judaico
obrigava até o pôr do sol, mas ao cair da noite eles tomavam alimentos, [...]
enquanto Jesus jejuou quarenta dias e quarenta noites sem interrupção”.10 Nesse
período, quis o Redentor contemplar o panorama completo da sua missão e como a
Santa Igreja haveria de manter os efeitos da Redenção até os últimos tempos, através
dos Sacramentos.
Um mero ato da
vontade divina teria bastado para a fundação da Igreja. Mas, ao longo de sua
peregrinação terrena, o Filho do Homem queria conquistar forças superabundantes
para todos quantos haveriam de segui-Lo até o fim dos tempos. Por isso Ele nada
comeu nem bebeu nesses quarenta dias. Viveu sustentado pela ação angélica e por
uma força sobrenatural que não O impedia, entretanto, de sentir fome e sede.
Patenteia-se assim, uma vez mais, até que extremos de amor Ele estava disposto
a chegar, para nossa salvação.
A Cabeça obtém a vitória para todo o Corpo
13ª “...e aí foi tentado por Satanás”.
Cristo era Deus e,
enquanto tal, não foi ao deserto visando preparar-Se na solidão para a luta que
estava por vir, mas sim para iniciá-la. Longe de buscar refúgio contra o mal,
começava sua vida pública enfrentando e vencendo os ataques do inimigo.
Entretanto, não tinha
o demônio ainda consciência da divindade de Jesus. Julgando-O passível de
pecar, quis de todas as maneiras induzi-Lo a cometer diversas faltas. Terá ele
tentado o Filho de Deus durante os quarenta dias e quarenta noites, como parece
desprender-se deste versículo de São Marcos e é opinião de São Beda? Ou terá
aguardado até o fim do jejum para tentá-Lo, como afirma São Tomás?
O problema não nos
parece especialmente relevante diante do fato de o Divino Mestre ter querido
assumir sobre Si as nossas tentações para vencê-las.11 Com a derrota infligida
ao demônio no deserto, Cristo, Cabeça do Corpo Místico, obteve a vitória para
todos os seus membros, conforme afirma São Gregório Magno: “Não era indigno de
nosso Redentor querer ser tentado, Ele que veio para ser morto; quis Ele vencer
com as suas as nossas tentações, assim como venceu com a sua a nossa morte”.12
“Não nos deixeis cair em tentação”
Ora, segundo São
Tomás, não foi essa a única razão pela qual quis Cristo ser tentado; ele
acrescenta mais três: para ninguém, por mais santo que seja, sentir-se seguro e
imune à tentação; para nos mostrar como vencer as tentações; e para incutir-nos
a confiança em sua misericórdia.13
Por isso, explica o
mesmo Doutor Angélico: “Deve-se notar que Cristo não nos ensina a pedir para
não sermos tentados, mas sim para não cairmos em tentação. Pois se o homem
vence a tentação, merece a coroa”.14 Deus permite ao demônio atuar, deixa as
más inclinações de nossa natureza decaída nos atormentarem, para dessa forma
podermos obter méritos.
Observa, a este
propósito, o padre Royo Marín: “Inumeráveis são as vantagens de vencer a
tentação, com a graça e ajuda de Deus. Porque humilha Satanás; faz resplandecer
a glória de Deus; purifica nossa alma, enchendo-nos de humildade,
arrependimento e confiança no auxílio divino; obriga-nos a estarmos sempre
vigilantes e alertas, a desconfiarmos de nós mesmos, esperando tudo de Deus, a
mortificar nossos gostos e caprichos; aumenta nossa experiência e nos torna
mais circunspectos e precavidos na luta contra nossos inimigos”.15
Da mesma forma como
não se pode premiar um corredor que nem sequer saiu da cama, ou um intelectual
que nada escreveu nem disse, assim também na vida espiritual: para receber a
recompensa na eternidade, precisamos ser provados nesta vida.
Nada alegra tanto nosso inimigo quanto o desânimo
Portanto, a tentação
não nos deve entristecer, pois representa a hora do heroísmo e da alegria: é o
momento de mostrarmos nosso amor a Deus. Cristo nos deu o exemplo! Nesses
quarenta dias de orações e padecimentos no deserto, Ele conquistou as graças
necessárias para a nossa perseverança, inclusive as graças específicas para
fazermos bem os exercícios quaresmais, preparatórios para a Páscoa. E mesmo que
sucumbamos ante alguma tentação, Ele nos obteve forças para levantar e
prosseguir no caminho da santificação.
Assim, quando chegar
a tentação, não podemos tolerar nenhum desânimo, pois quem resiste e quem já
venceu é Cristo, Cabeça do Corpo Místico do qual somos membros.
O demônio, quando nos
tenta, tem por objetivo primordial tirar-nos o ânimo, porque, se conseguir
isso, nos prenderá em suas garras. O ânimo, pelo contrário, nos mantém nas mãos
de Deus e de Nossa Senhora.
“O que alegra o
inimigo não são tanto as nossas faltas como o abatimento e a perda de confiança
na misericórdia divina em que elas nos mergulham”.16 Por isso nos adverte São
Francisco de Sales numa carta dirigida a uma filha espiritual: “A desconfiança
que sentis de vós mesma é boa, desde que sirva de fundamento à confiança que
deveis ter em Deus; mas se ela vos conduzir a qualquer desânimo, inquietude,
pesar e melancolia, conjuro-vos a rejeitá-la como a tentação das tentações, e a
nunca conceder a vosso espírito oportunidade de disputar e replicar em favor da
inquietação e do abatimento do coração a que vos sentirdes inclinada”.17
As feras do deserto e os animais do Paraíso
13b “Vivia entre animais selvagens...”.
Baseando-se nos
Padres da Igreja, comentaristas como Fillion e Maldonado, ou lj Kra o próprio
São Tomás, consideram ustavo G ter feito São Marcos esta afirmação para
sublinhar, com a vivacidade própria do discípulo de São Pedro, o caráter
selvagem da região onde Jesus Se retirou, e acentuar a completa solidão na qual
Ele passou esses quarenta dias e quarenta noites.18 São João Crisóstomo comenta
que São Marcos teria dito isso “para mostrar como era o deserto; nele não havia
caminho para os homens, e estava cheio de animais ferozes”.19 Mas essas
palavras podem ser analisadas também num sentido mais profundo.
Naquele tempo, não
faltavam nas proximidades do Jordão hienas, chacais, leopardos e javalis,
segundo informa, entre outros, o menVitrais representando as cionado Fillion.20
Ora, se “Tentações de Cristo” - Catedral de Gloucester, Inglaterra no Paraíso
todos os animais obedeciam a Adão inteiramente, naquele deserto eles avançavam
sobre os homens, atemorizando-os e obrigando-os a fugir.
Teria querido o Divino
Mestre suportar mais essa fraqueza da humanidade decaída? Se Ele quis
experimentar o temor provocado pela presença das feras, é certo que o venceu de
forma grandiosa, obtendo-nos assim mais forças ainda para superarmos as
adversidades, dramas e complicações que a vida nos apresenta.
Servido como Deus pelo ministério dos Anjos
13c “...e os anjos O serviam”.
Misteriosa e cheia de
significado é também a presença dos anjos.
Terão eles se
afastado de seu Senhor até o fim das tentações, como leva a pensar o relato dos
outros sinóticos? Ou terão permanecido servindo-O e sustentando sua vida
terrena durante esses quarenta dias e quarenta noites em que nada comeu nem
bebeu?
Nada impede, em nossa
opinião, imaginar a Corte Celestial descendo até o deserto e retornando ao Céu
durante todo esse período, a fim de assistir a natureza humana do seu Criador.
Pelo contrário, a isso convida o comentário de São Beda, reproduzido na Catena
Áurea por São Tomás: “Considere-se também que Cristo mora entre as feras como homem,
e é servido por ministério angélico como Deus”.21
“Convertei-vos e crede no Evangelho”
14 “Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a
Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15 ‘O tempo já se completou e
o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!’”.
Depois dessa sublime
preparação, tudo estava pronto nos relógios da História para o aparecimento do
Salvador no cenário da vida pública de Israel. Terminado o seu retiro, e
vencidas as tentações, vai Ele entregar-Se ardorosamente ao cumprimento da sua
missão. Faltava apenas o sinal indicado pela Sabedoria Divina para o início da
pregação da Boa Nova: a prisão de João Batista.
Com ela inicia-se o
ocaso do Antigo Testamento. Mas sem dar ensejo à chegada da noite, raia a
aurora de uma nova era, mais radiante, iluminada pelo verdadeiro Sol da
Salvação. “O tempo já se completou, o Reino de Deus está próximo, convertei-vos
e crede no Evangelho”. Com estas palavras abre o Divino Mestre sua pregação,
evocando os termos com que o Precursor anunciara sua chegada (cf. Mt 3, 1-2).
Na liturgia deste
domingo, a Igreja quer nos transmitir uma mensagem: Deus nos ama e deseja nos
perdoar. Ele está disposto a reconciliar-Se conosco, a fazer conosco uma aliança
inquebrantável. Mas é preciso reavivar a Fé e mudar de vida, como nos exorta
Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.
III – Como corresponder a esse amor?
No concernente a essa
conversão, é mister nos acautelarmos de um perigoso erro.
Em nossa vida
espiritual, falta-nos muitas vezes a compenetração da necessidade de sermos
santos. Não raro procuramos ser simplesmente corretos, esquecendo o chamado do
Concílio Vaticano II tantas vezes repetido: “Jesus, mestre e modelo divino de
toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador,
a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos
como vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5, 48)”.22
“Gravíssimo erro
comete”, ensina Santo Afonso Maria de Ligório, “quem sustenta que Deus não
exige que todos nós sejamos santos, pois São Paulo afirma: ‘Esta é a vontade de
Deus, vossa santificação’ (I Tes 4, 3). Quer Ele que sejamos todos santos, cada
qual conforme seu estado: o religioso como religioso, o leigo como leigo, o
sacerdote como sacerdote, o casado como casado, o comerciante como comerciante,
o soldado como soldado, e o mesmo se diga de todos os demais estados e
condições de vida”.23
Continua no próximo
post
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