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quarta-feira, 8 de abril de 2015

EVANGELHO II DOMINGO DA PÁSCOA - ANO B - Jo 20, 19 - 31

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS DE MONS. JOÃO CLÁ DIAS AO EVANGELHO DO 2º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO B - Jo 20, 19 - 31

II - OS CONTRASTES DE UM ESPÍRITO POSITIVO
Tudo indica ter sido São Tomé um homem de espírito rebarbativo e convicto das próprias opiniões, e ao mesmo tempo muito positivo e categórico. Quando Nosso Senhor decidiu retornar à Judeia, a fim de atender a Lázaro que estava doente, os Apóstolos protestaram, cientes do risco ao qual Se expunha o Mestre, por aproximar-Se de Jerusalém. E foi São Tomé quem afirmou: “Vamos também nós, para morrermos com Ele” (Jo 11, 16)!
Em outras circunstâncias Tomé se mostrara cauto e objetivo, querendo conhecer as provas. Por exemplo, ao Jesus anunciar que “Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde Eu estou, também vós estejais. E vós conheceis o caminho para ir aonde vou” (Jo 14, 3-4), ele logo perguntou: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14, 5). Ora, estas reações são úteis, pois se não houvesse pessoas que, como Tomé, tivessem falta de intuição e precisassem apelar principalmente ao discurso da razão, muitos princípios ficariam sem explicitação. Se, naquela ocasião, Tomé não levantasse o problema, o Divino Mestre talvez não houvesse feito tão sublime revelação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14, 6). Desta forma, teve ele um papel importantíssimo no Colégio Apostólico, pedindo uma explicação racional daquilo que só se admite pela fé. Com isso contribuía para estabelecer as bases sobre as quais se ergueria mais tarde o edifício da teologia.

Sem provas, São Tomé não acredita
24 Tomé, chamado Dídimo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: ‘Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.
Ausente do Cenáculo, Tomé não assistiu à primeira aparição de Jesus aos discípulos. Sem dúvida, estes tentaram persuadi-lo da veracidade do ocorrido. Em vão. Depois de terem fugido e deixado o Divino Redentor a sós, seu testemunho, aos olhos de Tomé, não se revestia de suficiente autoridade, e ele permanecia cético — como, aliás, estavam os outros Apóstolos antes de tocarem em Nosso Senhor —, exigindo como condição para acreditar as mesmas provas que a eles foram dadas. Tomé passou para a História como o incrédulo, mas, na realidade, como vimos anteriormente, os demais também o foram.
Testemunha qualificada da Ressurreição
26 Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-Se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco”, 27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”.
Após oito dias, Jesus “pôs-Se no meio deles” pela segunda vez e mandou Tomé colocar a mão nas suas chagas, dizendo-lhe que não fosse “incrédulo, mas fiel”. É interessante notar que Nosso Senhor não o acusa de ser incrédulo e, sim, o adverte para não vir a tornar-se tal, a partir desta hora em que lhe oferecia o argumento concreto e a demonstração cabal de sua Ressurreição. Para ser fiel era indispensável ter fé, e Cristo o convidava a crescer nesta virtude. Bem-aventurado Tomé, porque para possuir esta fé acabou recebendo a insigne graça de tocar no lado do Salvador! Como comenta São Gregório Magno, “isto não aconteceu por acaso, mas por disposição da Providência; pois a Divina Misericórdia agiu de modo tão admirável para que, tocando o discípulo incrédulo as feridas de seu Mestre, curasse em nós a chaga de nossa incredulidade. De maneira que a incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram, porque, decidindo aquele apalpar para crer, nossa alma se afirma na fé, descartando toda dúvida” . Quanto foi útil este seu gesto para nossa alma apoucada, pois serviu de sinal autêntico da Ressurreição do Senhor!
Entrega completa, reação da alma reta
28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!”
A correspondência a esta graça é certificada pelo fato de Tomé reconhecer a divindade de Jesus como nenhum outro Apóstolo. Todos tiveram a mesma comprovação, mas a reação dele foi mais enérgica, ousada e radical. Ao anunciarem a Ressurreição a Tomé, os Apóstolos não atestaram: “Jesus é realmente Deus”. São Tomé, sim, o declarou.
Se é verdade que ele não confiou no testemunho dos discípulos, é patente que quando Nosso Senhor o instou a pôr o dedo nas marcas dos pregos, ele acreditou e atribuiu a Jesus Cristo Homem, o qual Se mostrava a ele ressuscitado, o título devido apenas ao Criador, no Antigo Testamento: Deus e Senhor! Ele creu, portanto, na divindade de Cristo, embora tocasse somente na humanidade.4 Ao mesmo tempo, ao proclamar “Meu Senhor”, ele se entregava como escravo, abandonando-se todo nas mãos de Jesus. De sua fé robusta brotou, naquele instante, este ato de amor. Era uma alma reta, inocente e disposta a dar-se por inteiro. “Oh, maravilhosa perspicácia a deste homem! Toca num Homem e o denomina Deus: tocou numa coisa e acreditou noutra. Se tivesse escrito mil códices, não teria sido de tanto proveito para a Igreja. Com que clareza, com que precisão, com que candura ele chama Cristo com o nome de Deus!”,5 exclama São Tomás de Villanueva.

Cabe recolher aqui uma lição para nossa vida espiritual. Nós, com frequência, somos o oposto de São Tomé: acreditamos nos homens e até em nós mesmos, e não em Deus. Trata-se de crescer na fé em Deus e partir para as obras, pois a fé sem as obras é morta (cf. Tg 2, 17).
Continua no próximo post

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