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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A parábola - os dois filhos

 Os dois filhos da parábola
28 “Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Aproximando-se do primeiro, disse-lhe: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. 29 Ele respondeu: Não quero — mas, depois, arrependeu-se e foi. 30 Dirigindo-se em seguida ao outro, falou-lhe do mesmo modo. E ele respondeu: Eu vou, senhor — mas não foi.”
É na seqüência daquela desavença entre Jesus e os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo (ver o post antetior) que ocorre esse trecho do Evangelho . Apesar da forma amena e quase familiar com que Jesus introduz a parábola — “Mas que vos parece?”, fórmula usada com certa largueza pelo Salvador — não devemos nos esquecer da sanha invejosa dos interlocutores de Jesus, manifestada na discussão descrita anteriormente e estancada, nas suas conseqüências, pela diplomacia divina.
Devido ao incômodo silêncio que lhes fora imposto, aguçaram sua atenção e inteligência para não errar em seu parecer a propósito da parábola que viria.
No desenrolar dos acontecimentos comuns e banais da vida, não é difícil aplicar com acerto o senso do ser e escolher o melhor, o verdadeiro, ou o mais belo. A evidência dos fatos nesses casos nos conduz à inerrância de nosso juízo. E esse será justamente o intuito do Divino Mestre: que seus ouvintes discirnam e apontem, de maneira imediata e quase espontânea, qual dos dois filhos agiu com retidão.
Os comentaristas antigos são unânimes em conceder o primeiro lugar ao filho que acaba por ir trabalhar na vinha, apesar de ter se negado a fazê-lo, a princípio. Ademais, são eles também concordes em interpretar que o filho desobediente, ou seja, aquele que não cumpriu com sua palavra, representa os judeus, mais especificamente os fariseus, os príncipes dos sacerdotes, etc., enquanto o obediente representa os gentios, publicanos e pecadores.
O pai da parábola representa Deus. Quem são os dois filhos?

Uma das apreciações mais interessantes é da lavra do Pe. Juan de Maldonado SJ. Segundo ele, pensavam os escritores antigos (tais como Orígenes, Atanásio, Crisóstomo, Jerônimo, Beda e Eutímio) que um dos filhos representava os gentios, aos quais Deus mandara trabalhar em sua vinha, impondo-lhes a lei natural. E embora eles não o tenham querido no início, porque não observavam a lei natural, arrependeram-se e não apenas passaram a obedecer a ela, mas também aceitaram os preceitos do Evangelho. Contrariamente, o povo judeu respondera que ia trabalhar na vinha, pelos preceitos de Moisés — “Faremos tudo o que o Senhor mandou” (Ex 19, 8) — mas depois não foi. Mas — acrescenta o Pe. Maldonado — é provável que esses dois filhos representassem dois tipos de judeus. Um, o da plebe, com seus publicanos, meretrizes e pecadores. No início haviam respondido “não” a Deus, pelo menos com os fatos, não observando a Lei divina. Mas depois, tocados pela pregação de João Batista, arrependeram-se e aceitaram o Evangelho. O segundo tipo inclui os sacerdotes, os escribas e os fariseus, que haviam respondido afirmativamente a Deus, mas nem obedeceram à Lei nem acreditaram em João, de quem os profetas haviam falado.
 Terceiro filho:
Parábola aparentemente ingênua
31 “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Responderam-lhe: “O primeiro”. Disse-lhes Jesus: “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precederão no Reino de Deus”.
Na pergunta que antes lhes fizera Jesus, os fariseus se haviam recusado a responder (v. 27), agora eles se apressam em optar pelo primeiro dos filhos. Esse é, aliás, o juízo comum e corrente de qualquer pessoa com uma gota de bom senso, posta diante da mesma questão. Mas os interpeladores de Jesus não podiam imaginar fossem eles mesmos os acusados.
Após, certamente, haver passado horas e horas em seus conciliábulos, maquinando as mais requintadas ciladas para apanhar o Messias em algum deslize, vêem-se de súbito numa situação bem pior do que a desejada para sua vítima.
O método empregado pelo Homem-Deus era clássico entre o povo judeu e consiste em propor uma parábola aparentemente ingênua, de fácil interpretação, sem despertar a suspeita do interlocutor, o qual, ao se engajar no caso, acaba por proferir sua auto condenação.
“Os publicanos e as meretrizes vos precederão”
Ao fim do versículo encontra-se a aplicação nas palavras do próprio Divino Mestre. Nada mais desprezível aos olhos de um fariseu do que um publicano ou uma meretriz; entretanto, estes irão à frente indicando o caminho da salvação. Impossível maior humilhação, pois os conhecedores da Lei deveriam ser os vanguardeiros na entrada no Reino de Deus. O publicano Zaqueu (Lc 19, 1- 10), como também a pecadora (Lc 7, 37), num primeiro momento não haviam aceitado entrar pelas vias de acesso ao Reino, mas acabaram por fazê-lo. Essa recriminação, haviam eles já ouvido de forma ainda mais explícita no episódio da cura do servo do centurião (Mt 8, 11-12). Portanto, Jesus não afirma neste versículo que os fariseus e príncipes dos sacerdotes também se salvariam. Isto se torna ainda mais claro no trecho seguinte.
Negaram-se a ouvir o chamado do Precursor
32 “Porque veio a vós João pelo caminho da justiça, e não crestes nele; e os publicanos e as meretrizes creram nele. E vós, vendo isto, nem assim fizestes penitência depois, crendo nele.”
Com esta conclusão tão categórica, o Salvador deixa claro que, debaixo de certo ponto de vista, seus interlocutores fariseus se encontram numa situação muito pior que a dos dois filhos da parábola. Ouviram o chamado do Precursor; entretanto se negaram a seguir seus conselhos, e, ao surgir o Messias, tornaram-se ainda mais obstinados em sua falta de fé: “Porque Eu vos digo: Entre os nascidos de mulher não há maior profeta que João Batista; porém, o que é menor no Reino de Deus é maior do que ele. Todo o povo que O ouviu, mesmo os publicanos, deram glória a Deus, recebendo o batismo de João. Os fariseus, porém, e os doutores da lei frustraram o desígnio de Deus a respeito deles, não se fazendo batizar por ele” (Lc 7, 28- 30). Assim, não só se negaram a trabalhar na vinha, como de fato não o fizeram.
Esta seria a atitude de um terceiro filho, num extremo de mau comportamento em relação ao Pai!
Radical advertência
É tão radical a advertência contida neste v. 32 que alguns exegetas julgam-na uma inserção à força, realizada por Mateus. Discordamos de tal hipótese.
Em realidade, se a metáfora exposta por Jesus contivesse também a figura desse terceiro filho, levantaria a desconfiança de seus adversários e tornaria inúteis os esforços d’Ele. E se assim não fosse, como poderíamos explicar as outras duas parábolas consecutivas à dos dois filhos?
 O quarto filho
Faltaria dizer uma palavra sobre um quarto filho que, embora não esteja mencionado explicitamente pelo Divino Mestre, com facilidade é discernido por contraste em seu perfil moral. Este teria ouvido com entusiasmo o convite do Pai para trabalhar na vinha e entregado sua vida para, cultivando-a, Lhe dar alegria. A seguir esse exemplo nos convida a parábola de hoje.
Acima de tudo, o Pai tem o pleno direito de mandar sobre seu filho. Sendo Deus meu Pai, só me ordenará o que é justo, razoável e factível. Ora, seu preceito é inteiramente harmônico com meu senso do ser, ou seja, amá-Lo, servi-Lo, cumprir seus mandamentos, fugir do pecado, desejar a perfeição, temperar minhas paixões, etc. Para tal, Ele coloca à minha disposição os Sacramentos, a graça, os Anjos e até a sua própria Mãe. Em qualquer necessidade, bastar-me-á recorrer a Ele: “Em verdade vos digo que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23).
Exame de consciência
Cabe aqui, então, uma pergunta: em face desse convite, qual tem sido minha resposta e minha conduta? Qual dos quatro filhos melhor me simboliza?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Acirramento dos sinedritas contra Jesus

Uma civilização atraída por enigmas e parábolas
Para melhor entendermos a Liturgia, devemos remontar aos hábitos do tempo do Divino Mestre. Encontraremos uma civilização mais campesina, pastoril e orgânica do que a nossa, sem os progressos da tecnologia atual. Ademais, a prática da reflexão não fora substituída pela máquina. Naquele tempo sem rádio, TV, telefone, computador e outros aparelhos do gênero, uma das mais fortes atrações do relacionamento humano era a conversa, e nesta o uso de enigmas e parábolas. Era corrente então valer-se de axiomas éticos para a resolução dessas ou daquelas questões concretas da vida de todos os dias. Lançar mão de metáforas para fins didácticos não era, portanto, uma inovação implantada pelo Messias. Ele não fez senão servir-se dos costumes vigentes.
As Sagradas Escrituras estão embebidas de casos nos quais as disputas se realizavam tomando como base enigmas. Assim se aprimorava a inteligência, como também o senso moral, racional e estético.
Inveja e arrogância dos sinedritas
Na lembrança dos escribas, anciãos do povo, príncipes dos sacerdotes e outros, estava toda a fama angariada pelo Divino Mestre ao longo de sua vida pública, incluindo o recentíssimo episódio da entrada triunfal em Jerusalém. Quando viram “Jesus Cristo entrar no Templo com grande pompa, agitaram-se por inveja; e assim, não podendo sofrer em seu coração o ardor da inveja que os acossava, levantaram a voz” (2) e com grande arrogância resolveram interromper a pregação, perguntando-Lhe: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem Te deu tal direito?” (Mt 21, 23).
A seguir se estabelece um diálogo entre Jesus e as autoridades religiosas.
À procura de uma ocasião para desacreditá-Lo
Como comenta Frei Manuel de Tuya OP (3), grande exegeta de Salamanca, os sinedritas agiam com má intenção, uma vez que secretamente já haviam condenado Jesus à morte. Apenas andavam à procura de uma ocasião oportuna para executar essa sentença. Queriam comprometê-Lo e desacreditá-Lo ante o público, o que facilitaria seu intento. Era idéia aceita no ambiente rabínico que seria preciso pedir sinais ao Messias, a fim de que este fosse reconhecido como tal.
Era verdade que ninguém podia ensinar no Templo sem antes haver recebido a imposição de mãos de outro rabino. Entretanto, ao indagarem a Jesus sobre quem Lhe havia dado autoridade para pregar, a intenção deles era pedir satisfação também pelos eventos do Domingo de Ramos, pelas aclamações messiânicas com as quais fora recebido no próprio Templo e até pelos milagres realizados ali. A pergunta era, portanto, sobre seus poderes messiânicos.
Jesus responde: “De onde era o batismo de João?”
Jesus lhes respondeu: “Também Eu vos farei uma pergunta; se Me responderdes, Eu vos direi com que direito faço estas coisas. De onde era o baptismo de João? Do Céu ou dos homens?” (Mt 21, 24-25). Os evangelistas traduzem o que os sinedritas pensavam: “Se Lhe dissermos que do Céu, Ele dirá: Então por que não crestes nele? Se Lhe dissermos que é dos homens, tememos o povo” (Mt 21, 25-26).
Frei Manuel de Tuya observa que Jesus, ao interrogá-los sobre o batismo de João, mantinha-se no terreno messiânico, pois o Batista só anunciava o Messias. E eles o compreenderam perfeitamente, daí terem respondido: “Não sabemos”. Temiam eles as multidões que consideravam São João Batista um verdadeiro profeta. Melhor, temiam que “todo o povo os apedrejasse”, como diz São Lucas (20, 6). O delito religioso acarretava o apedrejamento, e o povo costumava reagir impulsiva e cegamente nesses casos. Assim, o temor dos membros do Sinédrio era bem justificado!
Embaraço dos sinedritas
A resposta deles era, ela mesma, um juízo a respeito de sua incapacidade de pronunciar um veredicto em assuntos desse gênero. Afinal, se depois de tudo o que São João Batista fizera, não eram capazes de formar uma opinião sobre ele, quanto mais em se tratando de Jesus, que lhes fornecera inumeráveis signos de ser o Messias. A embaraçada resposta dos sinedritas deu oportunidade ao divino Mestre de dizer: “Nem Eu vos direi com que autoridade faço estas coisas” (Mt 21, 27).

Continua no próximo post

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pesca milagrosa II

Continuação da pesca milagrosa
6 Disse-lhes: “Lançai a rede para o lado direito da barca e encontrareis.” Lançaram a rede e já não a podiam arrastar, por causa da grande quantidade de peixes.
Sendo Jesus onipotente, sua didática é divina. A fim de tornar ainda mais maravilhoso o milagre a ser por Ele operado, aproveita-se de uma noite de fracasso para aconselhar-lhes a lançar uma vez mais a rede. Nossas desilusões com as puras forças da natureza muitas vezes nos são úteis para convencer-nos da infinitude do poder de Deus.
Jesus orienta que seja do lado direito da barca. Por quê?
Quem nos explica é o grande Santo Agostinho (2): “Essa pesca se faz depois da Ressurreição do Senhor para nos indicar qual será o estado da Igreja após a nossa ressurreição. ‘Lançai a rede à direita da barca’ (Jo 21, 6) disse o Senhor. Os que estão à direita não se confundirão com os outros. Não esquecestes como o Filho do Homem nos garantiu sua vinda no meio dos anjos; as nações comparecerão diante d’Ele, e Ele as separará como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, as ovelhas à direita, os cabritos à esquerda, e dirá depois às ovelhas: ‘Vinde (...) tomai posse do reino’; e aos cabritos: ‘apartai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno’ (Mt. 25, 31-41). ‘Lançai a rede à direita’ significa, portanto, vede-me ressuscitado’. Quero dar-vos uma imagem do que vai ser a Igreja na Ressurreição dos mortos. ‘Lançai à direita’ (...) Lançaram a rede à direita e mal podiam levantá-la, tal era o seu peso!”
7 Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se à água.
Compreensível e belo era que o discípulo mais amado, somando suas impressões ainda implícitas à constatação da superabundância de peixes obtida, fosse o primeiro a concluir quem era aquele possível freguês. O timbre da voz, o decidido da ordem e a plenitude do efeito levaram João a reconhecê-Lo: “É o Senhor!”, exclamou ele.
Entretanto, o que mais amava, devido ao seu temperamento impetuoso e arrojado, foi o único a lançar-se nas águas. A dor pela falta cometida, o entusiasmo por Jesus, a rede pesadíssima, etc. fizeram-no optar por vias mais rápidas e decididas. Porém, por estar usando uma roupa comum dos pescadores daqueles tempos, devido a serem quentes os ares do Lago de Genezaré naquela época do ano, viu-se Pedro na contingência de cingir-se com a túnica, para nadar os cem metros que o separavam de Jesus. O “porque estava nu” não significa que estivesse de todo despido, mas sim com o sumário traje de pescador.
Curioso é de se notar que na época de Jesus nadava-se cingido de túnica.
8 Os outros discípulos, que não estavam distantes da terra senão duzentos côvados, vieram no barco puxando a rede cheia de peixes.
Ouçamos Santo Agostinho comentar este versículo (3): “Trouxeram a rede até a margem. (...) Ao dizer-se ‘margem’, deve-se entender ‘fim do mar’; e por ‘fim do mar’, entende-se fim do século. Na primeira pesca, as redes não foram trazidas até a margem, pelo contrário, os peixes foram colocados dentro das barcas. Agora não, são arrastadas até a praia. Espera o fim do século. Ele virá para o bem dos que estiverem à direita e para o mal dos que estiverem à esquerda”.
9 Logo que saltaram para terra, viram umas brasas acesas, peixe em cima delas, e pão.
Segundo São João Crisóstomo e muitos outros autores, foi intenção do evangelista fazer notar a evidência do milagre operado por Jesus. Comentam eles a nova maneira de agir sobre a natureza, após a Ressurreição. Antes, o Senhor se aproveitava de matéria existente, agora já não, a realização é ainda mais maravilhosa, ou seja, certamente do nada tirou Jesus as brasas, o peixe e o pão. Como medir a delicadeza do gesto de Quem amou os seus e os amou até o fim?
10 Jesus disse-lhes: “Trazei dois peixes que apanhastes agora.”
Esse pedido feito por Jesus não visava apenas aumentar a quantidade de peixes a serem comidos por eles. De maneira sempre afetuosa e com ilimitada bondade, Jesus deseja fazê-los comprovar a grandeza da pesca realizada. Até esse momento, os Apóstolos estavam absortos na contemplação do Mestre e até já haviam se esquecido dos peixes e da barca. Em realidade, seu propósito era o de que trouxessem todos os peixes e os contassem.
11 Simão Pedro subiu à barca e arrastou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede.
Pedro, em seu ardoroso amor, está sempre pronto a, com arrojo, atender às solicitações de Jesus. Sua disponibilidade total não se cifra somente ao fato de ser ele o dono da barca. Ele sozinho termina a operação iniciada pelos outros. O primeiro no amor, o mais flexível na obediência. Aí está a verdadeira raiz da qual retiram substanciosa seiva todas as virtudes: o amor.
O número cento e cinquenta e três suscitou ao longo dos séculos — e até mesmo entre os Padres da Igreja — uma variada gama de opiniões. Entre somas, subtracções e multiplicações, uma corrente de teólogos e de exegetas atribuíram um notório caráter simbólico a essa cifra. Outros, porém, — e é a opinião predominante hoje em dia — julgam ter sido intenção exclusiva do evangelista, a de ressaltar a grandeza do milagre.
Simbólica, sem dúvida alguma, é a afirmação contida no fim do versículo, ou seja, apesar do grande número e do porte dos peixes, a rede não se rompeu. Quase todos os autores procuram tornar clara essa passagem de São João. Santo Agostinho é o mais feliz em interpretá-la.
Explica-nos ele a diferença entre as duas pescas, no tocante à integridade da rede. Na primeira, rompeu-se. Símbolo das heresias que surgiriam ao longo dos séculos. Na descrita pelo Evangelho de hoje, a rede manteve-se intacta apesar do enorme peso. Esta é uma pré-figura da Igreja após a ressurreição dos mortos, na qual haverá o supremo império da paz dos justos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

As pescas milagrosas

A PRIMEIRA PESCA MILAGROSA
Jesus é o Mestre. Ele ensina de maneira insuperável, aproveitando-se dos episódios do dia-a-dia para elevar as almas ao amoroso conhecimento das vias escolhidas para seus eleitos. Aqueles homens estavam habituados aos ofícios e mistérios do mar, e era a partir dessa realidade que o Senhor queria conduzi-los às mais altas paragens da santidade.
No milagre anterior (Lc 5, 1-7), Jesus ordenara o lançamento das redes sem determinar se à esquerda ou à direita, para significar a universalidade da missão da Igreja Militante, a qual deve atingir tanto os bons quanto os maus, até o momento da separação definitiva entre o joio e o trigo. Os peixes foram recolhidos em tal abundância que chegaram a romper as redes, rompimento este, símbolo das heresias que surgiriam no futuro. As barcas quase se afundaram, representação dos riscos tremendos pelos quais, incólume, passaria a Igreja. Estas e outras figuras nos fazem compreender a situação da Igreja durante o curso da História.
Já a pesca do Evangelho de hoje, realizada depois da ressurreição do Senhor, foi por Ele ordenada a fim de nos mostrar o estado da Igreja Triunfante após o Juízo Final.
1 Depois disto, Jesus voltou a mostrar-Se aos seus discípulos, junto do mar de Tiberíades. Mostrou-Se deste modo:
Jesus não mais convivia com os seus, como anteriormente fizera. Por isso o versículo começa com as palavras: “Depois disto”. Já estava em corpo glorioso e, conforme nos ensina São Tomás, Jesus poderia ser ou não visto, dependendo de sua vontade os discípulos O veriam somente se Ele se mostrasse. Esta é a razão teológica pela qual João narra:“Mostrou-Se deste modo”.
2 Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos do Zebedeu e dois outros dos seus discípulos.
Ainda não havia descido sobre eles o Espírito Santo. As aparições de Jesus eram esporádicas. Estavam desocupados e, assim sendo, se juntavam para mutuamente se apoiarem. Eram sete ao todo, número que chama a atenção de alguns autores pelo seu significado de multiplicidade.
3 Simão Pedro disse-lhes: “Vou pescar”. Responderam-lhe: “Nós vamos também contigo”. Partiram e entraram numa barca. Naquela noite nada apanharam.
A noite é o período mais propício para a pesca e, certamente, hábeis e experientes nesse ofício, intuíam um bom êxito naquele empreendimento proposto por Pedro. Bastou ele comunicar seu plano que todos os outros se congregaram naquela aventura, tanto mais que deveriam estar carentes de subsídios para seu dia-a-dia. Pedro, sempre entusiasmado e não menos impetuoso, paulatinamente se havia constituído em propulsor dos Apóstolos.
Deu-se a partida cheia de esperança. Entretanto, com o passar das horas, a constatação da ineficácia de seus esforços fazia-lhes crescer no coração a convicção de quanto dependiam de um auxílio divino.
4 Chegada a manhã, Jesus apresentou-Se na praia, mas os discípulos não conheceram que era Ele.
O senso de observação era rico naquela civilização orgânica. Sem jornal, televisão, cinema ou rádio, as notícias se espalhavam oralmente e, por essa razão, surgiam espectadores da realidade por todas as partes. Assim, tomaram com naturalidade a presença de Jesus na praia, sem reconhecê-Lo de imediato. Aliás, da mesma forma havia procedido o Mestre com os discípulos de Emaús e com Madalena.
5 Jesus disse-lhes: “Rapazes, tendes alguma coisa para comer?” Responderam-Lhe: “Nada”.
Jesus, mesmo ao dirigir-lhes a palavra, voluntariamente não revela sua identidade, quer comunicar-Se com eles de forma exclusivamente humana, quiçá até mesmo modificando o timbre de voz e a expressividade, para não ser reconhecido. Este minúsculo detalhe nos mostra o quanto Jesus pode estar presente junto de nós em nossas actividades quotidianas, sem nós nos darmos conta. Compreenderemos no dia de nosso Juízo a que extremo Ele foi nosso companheiro a cada segundo, observando até nossos pensamentos e desejos.
Neste curto diálogo, Jesus propicia aos sete Apóstolos o sonho com um possível freguês. É curioso notar como, apesar do fracasso noturno, estão dispostos a uma nova tentativa para não perder o hipotético comprador. Assim devemos ser nós em nossos afazeres, sobretudo os apostólicos, ou seja, nunca desanimar. Sempre há uma última chance.

Continua no próximo post...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A multiplicação dos pães

Nada de grandioso se faz repentinamente”, diz um provérbio latino. O mais excelso de todos os sacramentos, a Eucaristia, deveria ser precedido por belas pré-figuras, numa longa preparação da humanidade através dos séculos. No Antigo Testamento, uma das mais expressivas foi o maná caído do céu para os hebreus, durante os quarenta anos de travessia do deserto, em busca da Terra da Promissão.
No Evangelho da multiplicação dos pães, vemos o Divino Mestre tornar patente seu império sobre esse alimento. Logo a seguir, Ele andará sobre as águas num mar encapelado, com o intuito de deixar evidente o quanto dominava seu próprio corpo. Assim, as premissas para a instituição da Eucaristia iam se fixando nos que o seguiam, sobretudo nas almas dos Apóstolos.
Por outro lado, o rico sabor e a alta qualidade dos pães e peixes distribuídos por Jesus, deixaram a multidão ansiosa por comê-los novamente (12). E quando Jesus disse aos que foram beneficiados pelo milagre: Moisés não vos deu o pão do Céu (...) o pão que desce do Céu e dá vida ao mundo, eles logo Lhe pediram: Senhor, dá-nos sempre deste pão! (13).
É insuperável a didática de Jesus ao iluminar assim a inteligência de seus discípulos, tocar seus corações e mover suas vontades rumo a um ardente desejo da Eucaristia. Método perfeito, tal qual o recomenda São Tomás de Aquino.
Após isso, com soberana autoridade e divina unção, Ele declara: Eu sou o Pão da Vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o Pão que desceu do Céu para que aquele que dele comer, não morra. Eu sou o Pão Vivo descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente; e o Pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo.
Quem mais poderia unir a autoridade grandiosa à total simplicidade? Com muita propriedade, assim se expressa Bossuet sobre este aspecto de Jesus: Quem não admiraria a condescendência com que tempera a elevação de sua doutrina? É leite para os meninos e, ao mesmo tempo, pão para os fortes. Vemo-Lo cheio dos mistérios de Deus, mas se percebe que não está possuído como os outros mortais aos quais Deus se comunica: fala disso naturalmente, como tendo nascido nesse segredo e nessa glória; e o que Ele tem sem medida (Jo III, 34), Ele o dá com medida, a fim de que nossa debilidade possa suportá-lo.
Por isso, importa convencermo-nos em nos deixar conduzir pelos ensinamentos de Jesus, pois não quer Ele senão a nossa felicidade eterna e com prodigalidade: Eu vim para que tenham vida, e a tenham abundante”.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Talentos -Parte III

A recompensa e o castigo
“O que recebeu cinco talentos, aproximou-se e apresentou outros cinco: ‘Senhor — disse-lhe — confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei’. Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’. O que recebeu dois talentos, adiantou-se também e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei’. Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’”.
Pela forma com que os dois servos fiéis se aproximam, podemos discernir uma espécie de sofreguidão, de santa ansiedade, da parte deles, pela chegada do seu senhor. Nota-se que tinham passado todo o tempo de sua ausência suspirando pelo seu retorno. Ao ouvirem que ele os chama, vão céleres ao seu encontro, porque percebem ter chegado o fim das penas, trabalhos e esforços. Acorrem logo e sem nenhum receio. O que temeriam eles de um senhor que sempre amaram e pelo qual sempre trabalharam?
Esta é a situação dos homens que, durante a vida, atuaram com seriedade e diligência, utilizando todo o seu tempo no serviço do Senhor. Uma vez que cumpriram eximiamente o seu dever e souberam avaliar, aprimorar e agradecer os dons recebidos de Deus e deles se utilizar, não terão dificuldade alguma em deixar esta vida e passar para a eternidade.
A morte os encontrará alegres e desejosos de prestar contas Àquele que tudo lhes deu. Perante a perspectiva do Juízo, não sentirão temor, mas sim uma santa avidez de ir gozar eternamente da Presença de seu Senhor.
Nós, que agora consideramos esta parábola, não poderíamos deter-nos para um breve exame de consciência?
Quanto nos esforçamos por fazer render os dons que Deus nos deu para a glória dEle? Aplicamo-nos, como devemos, muito mais no serviço dEle do que em satisfazer o nosso egoísmo? Em que medida nossas retribuições, nossos louvores, nosso amor a Deus correspondem a tudo aquilo que Ele fez por nós?
Necessidade de restituir os talentos recebidos
Consideremos, a seguir, o belo gesto dos servos, reconhecendo que tudo pertence ao senhor e não se apropriando de nada: “Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei. [...] Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei”.
Ao longo da nossa vida, Deus não deixa de nos conceder “talentos”. No Batismo, recebemos o dom por excelência que é a graça santificante, participação criada na vida incriada de Deus. A ela, por pura liberalidade divina, se acrescentam graças atuais ordinárias, operantes e cooperantes, e também graças atuais extraordinárias, que a Providência concede em circunstâncias especiais.
Perante tal profusão de “talentos”, devemos reconhecer, com gratidão, que todos esses dons pertencem a Deus. E quando deles “tiramos lucro” ao praticarmos uma boa obra, devemos saber ver, com humildade, quanto o mérito desse ato provém de Deus. Como os servos fiéis, precisamos retribuir a Deus tanto pelos “talentos” recebidos, como por aqueles lucrados pelos nossos atos de virtude.
A recompensa dos servos fiéis
Os servos fiéis da parábola dobraram a soma recebida das mãos de seu senhor, mostrando como o trabalho feito com diligência, com amor, com responsabilidade, acaba sendo coroado pelo sucesso.
“Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor”.
A seriedade com que ambos se comportaram merece de seu senhor idêntico e belíssimo elogio, o qual evoca o que receberão do próprio Deus todos quantos procederam bem durante sua existência terrena.
A resposta do senhor — “eu te confiarei muito” — lembra também outra verdade importante: quem corresponde às primeiras graças, é geralmente beneficiado por outras ainda maiores e por uma renovada força para ser fiel a elas. Toda graça bem correspondida abre as portas para Deus outorgar muitas outras; e quem, nesta terra, deixa de corresponder a uma graça, corre o terrível risco de fechar as portas para as vindouras. Talvez, até, para aquelas que devem conduzi-lo à Bem-Aventurança eterna...
É importante ressaltar, por fim, que o prêmio é infinitamente superior ao esforço que os servos fizeram: “Vem regozijar-te com teu Senhor”. Para um pobre mortal que sai desta vida, o entrar no Céu, o ver Deus face a face, o possuí-Lo, amá-Lo e gozar da sua essencial felicidade é algo inimaginável e muito acima de qualquer merecimento!
O servo que esconde o talento
“Veio, por fim, o que recebeu só um talento: ‘Senhor — disse-lhe —, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence’”.
O comportamento deste “servo mau e preguiçoso” é chocante e digno de toda reprovação, sobretudo se comparado com o dos servos “bons e fiéis”. Em lugar de exercer sua função de forma séria e responsável, ele esconde o talento, guiado por um medo pecaminoso que nada tem a ver com o timor reverentialis (temor reverencial) das almas virtuosas.
Durante a ausência do senhor, foge do cumprimento de sua obrigação e, ao ser chamado a prestar contas, revolta-se contra ele. Para justificar sua falta, ultraja aquele a quem deveria servir, acusando-o de ser injusto: “Sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste”. Sua atitude erige-se, assim, em paradigma do comportamento dos pecadores que procuram justificar suas faltas revoltando-se contra Deus e contra os outros. Nunca reconhecem sua culpa; tudo lhes serve de escusa para a sua má conduta.
Sofismarão que é muito difícil salvar- se, porque poucas são as pessoas que alcançam o Céu; ou afirmarão: “Minhas paixões são vivas demais...”; ou: “O mundo está tão corrompido...” De nada servirá aconselhá-los a fazer um maior esforço para domar suas paixões, se elas forem fortes demais; nem recomendar-lhes a fuga das ocasiões que os põem em grave risco. Pois esses pecadores não procuram corrigir-se, mas sim, como já foi dito, sempre buscam razões para justificar suas más obras.
A resposta do senhor
“Respondeu-lhe seu senhor: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com juros o que é meu’”.
O senhor não se preocupa em refutar as afirmações do servo infiel, porque a ofensa que ele lhe faz é tão sem fundamento que não merece resposta. Pelo contrário, vai directamente ao ponto essencial do assunto, devolvendo-lhe a acusação: “Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com juros o que é meu”.
O castigo
“Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
A condenação do “servo mau e preguiçoso”, contida nestes versículos, mostra-nos quão terrível será o suplício dos pecadores no Juízo Final.
Nesse dia, seus falsos raciocínios serão desmascarados diante de todos, e eles sentirão a mais viva vergonha. Os dons que a eles tinham sido concedidos, ser-lhes-ão arrancados e entregues a outros, provocando-lhes uma inveja e amargura tremendas. Aquilo que durante a vida desprezaram aparecerá ante seus olhos em todo o seu valor, enriquecido por Deus e posto nas mãos de outro que aproveitou melhor as graças recebidas.
A essas lancinantes dores, une-se a humilhação de ver-se condenado e jogado nos terríveis tormentos do Inferno, sobre os quais, por falta de espaço, deixamos para falar em outra ocasião.
Medita nos teus novíssimos
Meditar sobre a parábola dos talentos leva-nos, como vimos, a reflectir a respeito da seriedade com que devemos conduzir todas as nossas ações. Salta aos olhos como isto traz para nós benefícios extraordinários.
Mas, nesta parábola, Nosso Senhor nos ensina também a jamais nos apropriarmos de nada. Quer se trate de um dom gratuito, quer se trate de um benefício conquistado pelo próprio esforço, tudo é de Deus; dEle tudo recebemos e a Ele pertence tudo quanto fazemos, porque até as nossasncapacidades pessoais e nosso próprio trabalho foram criados para sua glória.
A parábola dos talentos nos convida, e muito também, a voltarmos constantemente os olhos para o nosso fim último, que é Deus, assim como para o dia em que por Ele seremos julgados. “Em tudo o que fizeres, lembra-te dos teus novíssimos e jamais pecarás” (Eclo 7, 40), diz a Sagrada Escritura. Se assim procedermos, teremos abraçado uma via segura para a nossa salvação eterna!

domingo, 11 de setembro de 2011

Parábola dos talentos - II

Continuação dos comentários de Mons João sobre a parábola dos talentos
Ausência do senhor
“Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois. Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor”.
O senhor parte e, “logo em seguida”, o primeiro servo se põe em ação, indicando-nos claramente que nunca devemos perder tempo no serviço do Senhor. A partir do recebimento do uso da razão, devemos entregar-nos à causa de Deus e trabalhar unicamente por ela. E, assim que cada um de nós se dá conta de qual é sua missão específica e quais as responsabilidades a ela inerentes, deve começar a agir sem demora, utilizando todos os dons que a Providência lhe deu para cumpri-la nesta vida.
Amor à autoridade que dá a tarefa
É necessário — como anteriormente vimos — que, ao assumirmos uma função ou ao sermos incumbidos de qualquer tarefa, desempenhemo-nos com senso de responsabilidade, com seriedade e diligência. Mas não só.
Por cima do objetivo concreto do nosso trabalho, considerado em si mesmo, devemos amar a legítima autoridade que nos deu o encargo, sobretudo quando se trata de um superior religioso. Neste caso, a nossa responsabilidade deixa de ser meramente material para elevar-se a um nível mais alto, dentro do qual o amor ao superior deve ser o motor eficazmente dinâmico na execução da tarefa. O bom andamento do serviço e a própria realização do objetivo proposto estarão em função desse amor.
Afastemos de nós o equívoco de julgar que apenas os monges, os sacerdotes ou as religiosas de um instituto de vida consagrada se encontram nessa situação. Qualquer simples fiel, ao obedecer ao Papa, ao Bispo ou ao pároco, ou a qualquer outro legítimo superior, na família ou na sociedade, deve ser movido primordialmente pelo amor à autoridade, instituída pelo próprio Deus.
Retribuir a Deus por dever de amor e de justiça
Quando quem nos impõe uma obrigação não é uma autoridade terrena, mas o Senhor por excelência, o próprio Deus, o amor com que a executemos toma o caráter de suprema importância.
Por amor e por dever de justiça, a Ele devemos toda obediência. É dEle que provêm nosso ser, inteligência, vontade, sensibilidade e todos os dotes naturais. E, sobretudo, de Nosso Senhor Jesus Cristo nos vem a Redenção, de um preço infinito, e com ela a Graça, dom que nenhum talento humano é capaz de merecer.
O senhor passou muito tempo fora
“Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas”.
Nas parábolas do Divino Mestre, nenhum detalhe é casual. As circunstâncias, e até os mínimos matizes da narração, são dispostos pela sua absoluta Sabedoria, para o nosso bem. Assim, detenhamo-nos um instante na análise do fato de Jesus ter assinalado que o senhor passou muito tempo fora.
Durante essa prolongada viagem, os servos que mais receberam não foram tomados pela preguiça nem pelo desamor. Pelo contrário, mantiveram plena fidelidade durante a ausência de seu senhor, perseverando de forma ótima e fazendo frutificar, tanto quanto lhes era possível, os talentos que ele lhes entregara.
Quais as conseqüências deste ensinamento?
Imaginemos que cada um de nós estivesse chamado a viver durante apenas seis meses com inteiro uso da razão. Em vista dessa brevidade, faríamos todo o possível para apresentarmo-nos ao Tribunal Divino com o máximo de frutos, provenientes dos dons recebidos. Planejaríamos cuidadosamente a recepção dos sacramentos, tomaríamos todas as medidas cabíveis para nos afastar das ocasiões de pecado, procuraríamos crescer em zelo e piedade durante esse curto período de progresso rumo à eternidade.
Entretanto, a maioria dos homens é chamada a viver nesta terra um tempo relativamente longo, ou que lhes parece longo. E por isso, o fervor inicial com que o homem empreende a via do Reino do Céu tende a não ser duradouro.
Recebemos uma graça e o entusiasmo nos pervade, empreendemos uma obra com toda a energia para coroá-la, assumimos uma função fazendo os mais belos propósitos... mas esse primeiro impulso, muitas vezes, não perdura. Chega o momento em que o fervor inicial começa a retirar-se. A ausência do senhor, por assim dizer, se torna consciente no dia-a-dia; e começamos a nos dar conta de quão distante se encontra aquele que partiu.
A essa altura dos acontecimentos, desaparece a força que o senhor irradia com sua mera presença. No cumprimento das obrigações que ele nos deixou, já nem sequer nos estimula a consideração de um retorno dele de forma repentina e imediata. Essa sensação de demora nos coloca em grave risco de esquecê-lo.
Assim acontece com quem abraça a vida religiosa. No início, sente um entusiasmo capaz de derrubar todos os obstáculos e vencer qualquer dificuldade; esse é o “fervor de noviço”, assim chamado por ser característico de quem acaba de entrar nas vias da perfeição. Algum tempo depois — mais longo para uns, menos longo para outros —, afasta-se lentamente a visão primaveril que encantou o religioso no início de sua vocação, e aquele entusiasmo primeiro começa a diminuir. Surgem então as dificuldades. Imerso no labor cotidiano, pesa-lhe a monotonia do dia-a-dia. Se ele não lutar contra essa provação, acabará por esquecer-se da glória de Deus, dos interesses da Igreja, à qual entregou sua vida, e do benefício da própria alma.
Mas esse fenômeno não se dá só com as almas consagradas. O mesmo, quantas vezes, se passa também com quem acaba de receber a Primeira Comunhão, ou a Crisma, ou conclui algum período de formação religiosa! Nessas ocasiões, não poucos podem se sentir pervadidos de um fervor semelhante ao do noviço. Para estes, a perspectiva de uma vida longa bem pode vir a ser grave obstáculo para o fervor inicial continuar aceso!