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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

O critério de precedência entre os bons
43“Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo;44 e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”.
Entre os bons, qual deve ser o critério de precedência? Nosso Senhor insistirá por duas vezes que é o da submissão: ser servo e ser escravo. Dentro da instituição que Ele está fundando, deve-se aprender a servir: quem mais serve, maior será; e quem menos serve, menor será, O que qualifica para o Reino de Deus é a disposição de servir.
Nosso Senhor não condena, pois, o desejo de ser o primeiro na linha do bem, mas sim o meio errado de chegar a essa posição. “Ele não Se es panta com a preocupação dos discípulos, e não contesta o princípio da hierarquia, mas insinua o espírito novo que deve animar os chefes”.’12 O caminho, isto sim, é aquele cujo exemplo foi dado por Ele mesmo: serviço e escravidão.
O exemplo do Filho do Homem
“Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.
Já na infância, Jesus Se colocou na mais plena sujeição e a serviço de Maria Santíssima e de São José, embora sendo Deus e o Criador de ambos. Mais ainda, pôs-Se na submissão a todos quantos precisavam d’Ele, para não dizer a todo o gênero humano que Ele haveria de redimir na Cruz.
Essa é a via por onde Ele resgata e ordena toda a criação. Com efeito, ensina o Apóstolo que “quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não existe perdão” (Hb 9,22). Cristo veio para nos perdoar e salvar, para servir e dar a vida por nós. E no Céu, por estar em nossa natureza mais próximo do trono do Pai, continua disposto a ajudar-nos.
 A NECESSIDADE DO ESPÍRITO SANTO NA IGREJA
Antes de Pentecostes, podemos distinguir duas conversões nos Apóstolos.
A primeira deu-se quando, chamados por Jesus, se dispuseram a segui-Lo. Contudo, tinham ainda a ideia de um Messias temporal, comum a todos os judeus naquele tempo, sobretudo os formados na escola dos fariseus. E os Apóstolos, apesar de vários deles terem sido orientados e preparados por São João Batista, conservavam uma concepção a respeito do Reino de Deus inteiramente terrena, de acordo com os princípios farisaicos. Julgavam ter encontrado o Libertador de Israel, ao qual serviam de modo não inteiramente desinteressado.13
A segunda conversão operou-se quando, reconhecendo a própria miséria de ter abandonado o Divino Mestre na hora da Paixão, receberam uma especial graça de arrependimento e começaram a considerá-Lo dentro do mistério inefável da Cruz.’4 Mas continuavam com uma perspectiva humana do Messias, a ponto de não terem acreditado, num primeiro momento, na sua Ressurreição (cf. Le 24, 9-12). E na hora da Ascensão do Senhor manifestaram ainda seu desejo de ver restaurado o Reino de Israel, segundo esse conceito equivocado (cf. At 1,6-9).
O absurdo de querer adaptar Deus à nossa mentalidade
Como constantemente procuravam os Apóstolos conformar à sua mentalidade anterior as revelações extraordinárias feitas por Nosso Senhor, permaneceram com uma visão distorcida da Boa-Nova até o dia da descida do Paráclito, no Cenáculo. Aí o próprio Espirito Santo assumiu as virtudes que haviam sido infundidas na alma deles, e fez com que os dons, que estavam passivos como um lustre apagado, se acendessem com todas as energias possíveis. Somente pela ação desses dons as virtudes infusas têm condições de atingir o seu pleno e perfeito desenvolvimento.’15 Podemos, assim, avaliar o incomensurável alcance, para a vida da Igreja, do operar do Espírito Santo, a quem São Cirilo de Jerusalém denomina “o guardião e santificador da Igreja, o diretor das almas, o piloto das naves sob a tempestade, Aquele que ilumina os equivocados, premeia os combatentes e coroa os vencedores”.’6
Afinal, com a efusão das graças de Pentecostes, morreu na alma dos Apóstolos essa visão humana a respeito de Nosso Senhor. Mas, sob diversas roupagens, continua ela ao longo da História e é possível inclusive que em nossa alma se encontrem laivos dela, como um vernie a nos corroer por dentro, movendo-nos a agir em tudo por egoísmo, por puro interesse pessoal, considerando a Religião numa perspectiva social e politica.
Necessidade do sofrimento para atingir a glória
Analisando a Liturgia de hoje, vemos que, para os bons, o verdadeiro e único triunfo se encontra no amor à cruz e na aceitação do sofrimento. Ensina-nos São Paulo, na segunda leitura: temos um Sumo Sacerdote eterno, “provado em tudo”, que intercede por nós e do qual, portanto, devemos nos aproximar com toda Fé e confiança (cf. lIb 4, 14-16).
Não é fácil essa via indicada por Nosso Senhor, mas recordemos o famoso verso de Corneille: “A vaincre sans péril, on triomphe sans gloire”.’17 Quando se vence sem passar por perigos e riscos, não há glória. Afirma Santo Agostinho: “Ninguém se conhece antes de ser provado, nem pode ser coroado se não vencer, nem pode vencer sem ter combatido, nem the é possível lutar se não tiver inimigo e tentações”.18 Ora, esta vitória está reservada somente para as almas unidas a Deus, que põem sua confiança n’Ele e conseguem assim enfrentar todos os riscos.
Por nossa natureza, por nosso otimismo perante a vida e horror ao sofrimento, temos a ilusão de que triunfar significa nunca sofrer nem passar por desventura alguma. Não é o que nosmostra a dura existência terrena. Por isso, afirma o Prof Plinio Corrêa de Oliveira: “A vida da Igreja e a vida espiritual de cada fiel são uma luta incessante. Deus dá por vezes à sua Esposa dias de uma grandeza esplêndida, visível, palpável. Ele dá às almas momentos de consolação interior ou exterior admiráveis. Mas a verdadeira glória da Igreja e do fiel resulta do sofrimento e da luta. Luta árida, sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob as tempestades e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus”.19
Assim como o carvão, para se transformar em diamante, precisa ser submetido às altíssimas temperaturas e pressões encontradas nas entranhas da Terra, nossas almas necessitam do sofrimento, neste vale de lágrimas, para merecermos a glória celeste. E para bem suportarmos os padecimentos que nos esperam, façamos, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, o pedido contido no salmo de hoje:“Sobre nós venha, Senhor, vossa graça, pois em Vós esperamos” (Sl 32,22).
1FREDEGAIRE, apud KURTH, Godefroid. Clovis. Paris: Jules Taillandier, 1978, p.297.
2Cf SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Ill, q.46, a.5. a.6.
3Idem, a.1.
4 CCE 472.
5 LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Evangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: J. Gabalda et Fils, 1929, p.277-278.
6GARRIGOU-LAGRANGE, OP. Réginald. El Salvador y su amar por nosotros. Madrid: Rialp, 1977, p.494.
7SÃO TOMÁS DE AQUINO, op.cit, T-II, q.108, a.3, ad 5.
8 LAGRANGE, op cit., p.278.
9Cf. FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible Commentée. Paris: Letouzey et Ané, 1912, t.VII, p. 251.
10 LAGRANGE, op. cit., p278.
11Cf. RICCIOTI’I, Giuseppe. Vita di Gesù Cristo. 14.ed. Roma: Poliglotta Vaticana, 1941, p.164-165, nota.
12LAGRANGE, op. cit. p.244-245.
13 Cf. GARRIGOU-LAGRANGE,OP, RéginaLd. Las conversiones del alma. Madrid: Palabra, 1981, p.60-61.
14Cf. Idem, p.61-64.
15Cf. ROYO MARÍN, GP, Antonio. Somos hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p.34-37.
16 SÃO CIRILO DE JERUSALÉM. Catechesis ad illuminandos, 17,13. In: Catequesis. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, p.400-401.
17 CORNEILLE. Le Cid, Acte II, Scène IL In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1963, p.226.
18 SANTO AGOSTINHO. Enarratio in psalmum 60,3. In: Comentário aos Salmos (51-l 00). São Paulo: Paulus, 1997, v.11, p.225.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

Continuação dos comentários ao Evangelho Mc 10, 35-45 
Cegueira ante a perspectiva da dor
“Eles responderam: ‘Podemos”.
Supunham os dois irmãos, sem dúvida, que o cálice e o batismo aludidos por Nosso Senhor representavam as dificuldades a serem transpostas para alcançar a glória temporal imaginada por eles, e que, portanto, valia a pena enfrentá-las... Possivelmente também, julgavam em seu otimismo ser feito de honra e prestígio esse batismo.
Ora, este equívoco é consequência da incompreensão da advertência de Nosso Senhor a respeito da sua Paixão e Morte, as quais Ele já mencionara três vezes, dando inclusive detalhes dos tormentos que padeceria (cf. Mc 8, 31-32; 9, 31; 10, 33-34). Ao mesmo tempo, tornavam-se cada vez mais claras as ameaças de isto vir a se efetivar (cf. Jo 10, 31-40; 11, 49-54).
Acontece que os Apóstolos, em sua cega esperança de felicidade mundana, se obstinavam na ideia do Messias temporal. Davam a essas previsões do Divino Mestre o valor de uma linguagem simbólica, talvez julgando que, afinal, Ele daria um golpe qualquer e seria proclamado Rei de Israel, como descendente que era de Davi. Por isso, Tiago e João respondem com ânimo à pergunta de Nosso Senhor: “Podemos”.
Os planos de Deus são inalteráveis
39b E Ele lhes disse: Vós bebereis o calice que Eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que Eu devo ser batizado. 40 Mas não depende de Mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. E para aqueles a quem foi reservado”.
Ao pedido formulado num plano meramente natural e segundo critério equivocado, Nosso Senhor replica a partir de uma perspectiva sobrenatural: desde toda a eternidade Deus Pai escolheu o lugar de cada qual segundo o sapiencial plano traçado por Ele. Portanto, apesar de ser legítimo o desejo dos filhos de Zebedeu, era preciso acima de tudo fazer a vontade do Pai.
Com efeito, as palavras do Mestre sobre os dois irmãos se confirmaram: relata-nos a História ter sido São Tiago o primeiro Apóstolo a beber o cálice do martírio, em Jerusalém, pelo ano 44 (cf. At 12, 1-2). Quanto a São João, consta ter tido morte natural, muito idoso, pelo ano 104. 0 discípulo amado não deixou de “beber do cálice”, pois foi o único Apóstolo a acompanhar de perto a Paixão do Senhor e a sofrer junto com Ele; e, segundo antiquíssima tradição, teria sido lançado mais tarde numa caldeira de azeite fervente, e saldo milagrosamente ileso.”
Portanto, em ambos se realizou o predito por Jesus: eles beberam o cálice e passaram pelo batismo de sangue.
As disputas no Colégio Apostólico antes de Pentecostes
41 “Quando os outros dez discípulos ou viram isso, indignaram-se com Tiago e João”.
A certa distância, os demais Apóstolos acompanhavam com atenção a conversa, e se indignaram ao ouvir o pedido dos dois irmãos. Certamente, não por verdadeiro zelo em relação a Jesus, mas, quiçá, por cada qual julgar-se mais digno de receber a almejada honraria. Afinal de contas, desejavam também eles participar dessa disputa. Isso torna evidente o quanto essas doze magníficas colunas sobre as quais se levantaria o sagrado edifício da Igreja tinham, antes da descida do Espírito Santo, uma visão humana e político-social de Jesus Cristo e estavam com os olhos fixos na conquista do poder temporal.
42 “Jesus os chamou e clisse: ‘Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”.
Com essa referência aos governantes da época, Cristo advertia seus Apóstolos de que quem deseja a glória mundana e assume o poder por amor-próprio acaba sendo um tirano. De fato, sem o auxilio da graça e a prática da virtude, a tendência do poderoso é oprimir os subalternos. E, tendo sido os judeus escravizados diversas vezes, disso eles tinham as cicatrizes de amargas experiências...
Continua no próximo post

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

Continuação do post anterior
Pedem uma glória humana, recebem a felicidade eterna
“Eles responderam: ‘Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda,quando estiveres na tua glória!”.
Ao lermos este versículo hoje, quase dois mil anos depois do fato, ficamos pasmos: como chegaram a proceder desta forma São Tiago e São João? Desconcerta. Percebe-se estarem am-bos supondo uma glória terrena, com Nosso Senhor tornando-Se rei de Israel, ou seja, a glória de um Messias humano conquistando o poder político, social e financeiro da nação eleita. Tinham a impressão de que isso não estava longe de acontecer, e calculavam poder obter bons postos, a julgar pelas prerrogativas com as quais o Mestre já antes os distinguira.
Ora, o mais impressionante é que Jesus, em certo sentido, dispõe-Se a atendê-los, concedendo não o que pretendiam, mas muito mais: a felicidade eterna no Céu. Nosso Senhor transferirá o pedido deles da Terra para a glória celeste, dando-lhes “o presente dessa enorme graça que éo amor à Cruz” .6
Nosso Senhor sempre quer nos dar o melhor
38a “Jesus então lhes disse: ‘Vós não sabeis o que pedis”.
Julgam alguns estar neste versículo condenado todo e qualquer desejo de proeminência, mas não há na resposta de Nosso Senhor base para essa interpretação. Ele dá a entender que os dois irmãos estão pedindo pouca coisa. A natureza humana deles está ávida de glórias mundanas, passageiras, enquanto o Mestre os quer convidar para as celestes, eternas. Por isso, não nega o pedido, cuja verdadeira dimensão eles ignoram. Eles não sabiam o que estavam pedindo porque se equivocavam quanto ao gênero de honra desejado.
Isto mostra que é legítimo aspirar a uma proporcionada grandeza terrena — desde que seja ela útil para a santificação de quem pede e dos outros —, pois, ensina São Tomás que, no tocante aos bens temporais, “o Senhor não proibiu a solicitude necessária, mas a solicitude de sordenada”.7
O cálice da dor
38b “Por acaso podeis beber o cálice que Eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?”.
A resposta do Redentor denota que os filhos de Zebedeu desconheciam o caminho para chegar até essa glória que ambicionavam. Mas Nosso Senhor queria dá-la no plano sobrenatural: “Em vez de censurar logo de início a ambição dos dois irmãos, Jesus Se empenha em corrigir a ideia falsa que eles têm de sua missão”.8
Bem conhecia nosso Salvador o quanto Ele deveria padecer, por isso menciona o cálice e o batismo de sangue, ambos símbolos do sofrimento.9 E no Horto das Oliveiras chegará a pedir: “Abbá! Pai! Tudo é possível para Ti! Afasta de Mim este cálice! Contudo, não seja o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc 14, 36). Assim, Ele pergunta a São Tiago e a São João se estão preparados para beber o cálice que a primeira leitura descreve como sendo da dor, do sofrimento, do drama. E o batismo de sangue corresponderia à Paixão do Cordeiro: “Jesus fala da imersão como se Ele devesse ser mergulhado num abismo de tormentos”.’10

Continua no próximo post

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

Continuação dos comentários ao Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

A ÚLTIMA SUBIDA A JERUSALÉM

O Divino Redentor está subindo para Jerusalém pela derradeira vez. Os Apóstolos tentaram dissuadi-Lo, alegando o quanto punha em risco sua vida (cf. Jo 11, 7-8), devido ao tremendo ódio das autoridades religiosas contra Ele. Mas o Mestre está decidido. Ficam eles, então, entre a insegurança do instinto de conservação — pois se interessavam Certamente por Jesus, mas também temiam pela própria vida — e a confiança naquele poder misterioso manifestado por Ele em tantas circunstâncias.

De fato, os Apóstolos tinham dificuldade de entender a possibilidade da morte de Jesus. Imaginavam um Messias de acordo com a inteligência especulativa deles, com uma perfeicão segundo seus Critérios humanos, que deveria assumir o governo político da nação. Julgavam que Nosso Senhor não poderia morrer, pois, mediante os extraordinários poderes com os quais curava e ressuscitava, tinha meios de viver indefinidamente, e desse modo organizar um reino terreno sem igual.

Entretanto, as cogitações e as vias do Salvador eram bem outras, e rumavam em direção oposta. Ao longo do caminho, revelou-lhes com toda clareza o que iria acontecer: “Eis que estamos subindo para Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles O condenarão à morte e O entregarão aos pagãos. Vão zombar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-Lo e matá-Lo. E, depois de três dias, Ele ressuscitará” (Mc 10, 33-34). Mais explícito, realmente, Ele não poderia ter sido!

Logo em seguida a esta revelação, parecendo fazer abstração completa do que acabavam de ouvir, os irmãos Tiago e João formulam a Jesus um pedido de uma ousadia surpreendente. Observa, a este propósito, Lagrange: “Parece, pois, que a lição dos sofrimentos ainda não causou séria impressão aos discípulos; não suspeitam qual a finalidade destes na obra messiânica. Talvez até julguem que o Mestre Se deixe impressionar por engano. De qualquer modo, porém, Ele mesmo falou de ressurreição. Todo o resto não passa de um episódio sobre o qual o pensamento deles desliza para deter-se nessa glória”.5

Um pedido despropositado acolhido com bondade

“Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e Lhe disseram: ‘Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”.

Eles expõem esta demanda a Nosso Senhor com toda confiança e intimidade, diante dos outros. Dir-se-ia ser um pedido despropositado, feito de modo pouco educado e de todo inadequado. Portanto, reuniria as condições para não ser atendido. Surpreendente, porém, será a reação do Divino Mestre.

“Ele perguntou: ‘O que quereis que Eu vos faça?”.

Embora conhecesse muito bem a intenção deles, o Senhor os acolhe com bondade, mostrando-Se disposto a atender. Ou seja, até pedidos na aparência absurdos, Deus os toma combenevolência. Por quê? Porque é tal o seu desejo de nos facilitar os caminhos para a salvaçãoque, ainda quando nos comportamos de maneira inconveniente, Ele nos recebe como Pai insuperável.

Continua no próximo post.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comentário ao Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45

Evangelho XXIX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 35-45
Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”.
Ele perguntou: “O que quereis que eu vos faça?”
Eles responderam: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!”
Jesus então lhes disse: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?”
Eles responderam: “Podemos”.
E ele lhes disse: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”.
Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.
Reflexão
Há vida sem sofrimento?             
A TEOLOGIA DO SOFRIMENTO
É frequente encontrar, nas pessoas que começam a abrir os olhos para o estudo da Religião, manifestações de uma indignada reação análoga à de Clóvis, rei dos Francos, ao ouvir o relato da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo: ‘Ah! Por que não estava eu lá com os meus francos?”.1 Custa imaginar como pôde o Divino Salvador, a Suma Bondade, ser morto de maneira tão injusta e cruel, sem que ninguém, nem mesmo algum dos numerosos beneficiados por seus milagres, se apresentasse para defendê-Lo.
A resposta para essa dificuldade, vamos encontrá-la na Liturgia deste domingo, a qual trata daquilo que se poderia denominar a “teologia do sofrimento”. Pelo sofrimento, chega-se à “ciência perfeita” Na primeira leitura, o profeta Isaías mostra ter Nosso Senhor padecido tudo quanto era possível, para redimir o gênero humano:2 “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas” (Is 53, 10-11).
Nos divinos arcanos, aprouve ao Pai permitir que o Filho, o Servo de lavé, fosse “macerado com sofrimentos”. Expressão categórica que significa moer o trigo ou pisar a uva no lagar. E como passou Ele por essa “maceração”? Sereno, tranquilo, suportando tudo como um cordeiro, sem nenhuma queixa, com inteira paciência e submissão aos desIgnios do Pai. Com isso, ensina São Tomás, “mereceu a glória da exaltacão pelo abatimento da Paixão”.3
Pela via do sofrimento, explica o profeta, Jesus “alcançará luz e uma ciência perfeita”. Ora, o que poderia Nosso Senhor receber que ainda não tivesse? Ele é Deus, portanto, o Conhecimento e a Verdade em substância! A que ciência perfeita faz referência Isaías?
Em Jesus Cristo podemos distinguir quatro conhecimentos: o divino, pois Ele é Deus; o beatifico, decorrente de sua alma ter sido criada na visão beatifica; a ciência infusa, recebida no instante de sua concepção humana; e o experimental, em sua humanidade, o único passível de : aumento, pois “exercia-se nas condições históricas de sua existência no espaço e no tempo”,4 à medida em que Ele ia tendo contato com as coisas.
Em sua vida terrena, para merecer o seu próprio conhecimento e, mais ainda, comprar o conhecimento para os outros, devia Jesus padecer. Ele comprovava pelo conhecimento experimental o que já sabia pelos outros três, alcançando assim a ciência perfeita a partir da vida da dor.
Pela via do sofrimento, chega-se à perfeição
Dessa maneira, mostra-nos Isaías o quanto é pela via do sofrimento que, à imitação do Messias, se chega à perfeição. Vê-se, em consequência, ser a dor bem aceita a única maneira de atrair as bênçãos divinas para a perpetuidade de uma obra sobrenatural. Não há outra via! Jesus apontou-nos apenas um caminho para segui-Lo: “tomar a cruz” (cf. Mc 8, 34), através da qual cumprimos a vontade do Senhor.
Ora, nossa natureza é avessa à cruz, tem verdadeiro pânico do sofrimento e o instinto de conservação nos leva a fugir da dor. Esta situação, tão comum à condição humana, nos é apresentada pelo Evangetho do 29 Domingo do Tempo Comum, analisado em sua profundidade.
Continua nos próximos posts.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXVIII Domingo do Tempo Comum Mc 10, 17-30

Final dos comentários ao Evangelho Mc 10, 17-30

O cêntuplo já neste mundo
“Pedro começou a dizer-Lhe: ‘Eis que deixamos tudo e Te seguimos’. 29 Respondeu-lhe Jesus: ‘Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho 30 que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna’”.
Talvez pelo fato de se sentirem apanhados, São Pedro, impulsivo porta-voz de todas as perplexidades dos Apóstolos, formula uma frase que, no dizer de Lagrange, “resume todo o episódio precedente, do ponto de vista dos discípulos”.17
Segundo Maldonado — o qual segue a opinião de Orígenes, São Jerônimo e São João Crisóstomo — quis Pedro, com sua afirmação, lembrar a Cristo o fato de terem os Apóstolos já cumprido anteriormente aquilo que era agora pedido ao jovem rico.18 No mesmo sentido se pronuncia Lagrange, observando que a afirmação do Príncipe dos Apóstolos foi feita “com uma certa satisfação que parece solicitar uma aprovação”.19 Mas caberia perguntar, com Maldonado: “Por que, então, duvidava? Por que não creu firmemente que também para eles havia um tesouro no Céu?”. Ao que ele próprio responde: “Talvez porque pensassem que Cristo prometia tão grande recompensa àquele jovem por causa das muitas riquezas que este devia abandonar; ora, como os Apóstolos possuíam apenas coisas de pouco valor, esperavam receber algo, sim, mas não se atreviam a esperar tanto; por isso perguntam como e quanto será”.20
No fundo da afirmação de Pedro havia uma desconfiança e uma objeção. Jesus, entretanto, não os repreende. Sendo a Bondade em essência, Ele os trata com carinho e acrescenta, ao prêmio da vida eterna no Céu, uma recompensa ainda aqui na terra.
Comentam certos autores que o Senhor, fazendo essa promessa, quis afirmar que quem por causa dEle deixar os bens desta terra, receberá em troca bens de valor infinito. Ou seja: quem por Ele abandonar aquilo que é “carnal”, receberá em troca o prêmio do bem “espiritual”.
Parece-nos, entretanto, que as palavras do versículo 30 — “já neste século” — tornam claro o caráter terreno dessa recompensa, cuja efetivação concreta na era apostólica é assim assinalada por Fillion: “Nos primórdios da Igreja, quando tão amiúde os neófitos precisavam romper os mais estreitos laços de família para se alistarem no serviço de Cristo, encontravam eles na grande comunidade cristã irmãos e irmãs, pais e mães que lhes suavizavam os padecimentos causados por uma violenta separação e enchiam de consolo seus doloridos corações”.21
Sob uma perspectiva mais atemporal, assinala o padre Didon que o Espírito divino “não só traz a todos aqueles que invisivelmente O recebem o antegozo dos bens celestiais, eternos, infinitos, mas, além disso, exalta ainda a vida deste mundo, aumenta seus recursos, harmoniza as suas energias, transfigura todos os seus atos. Entre os seres eleitos que este Espírito aproxima, formam-se laços mais íntimos, mais profundos, mais doces que entre aqueles que são parentes do mesmo sangue”.22
E o padre Fernández Truyols, referindo-se especificamente às pessoas que correspondem à vocação religiosa e fazem a entrega completa de si mesmas, comenta: “O sacrifício dos bens terrenos terá sua recompensa já nesta vida. E não só em vantagens exclusivamente espirituais, mas também em bens temporais, embora num plano superior ao puramente material. Quem se despoja de tudo para seguir Cristo Jesus receberá da Divina Providência, quiçá com acréscimo e superabundantemente, o quanto necessitar para sua subsistência. Deixa seu pai e sua mãe, e Deus dá-lhe pais e mães que o adotam como um filho muito querido. Donzelas na flor da juventude renunciam à maternidade, e Deus as faz mães não de alguns, mas de inumeráveis filhos, nos quais derramam todas as ternuras de um coração verdadeiramente maternal”.23
Uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual
Somos todos “participantes da vocação celestial” (Hb 3, 1). Contudo, enquanto Jesus nos chama a segui-Lo a caminho do Reino de Deus, as nossas tendências desordenadas em consequência do pecado original nos arrastam para aquilo que é inferior.
Exemplo paradigmático dessa dicotomia é o episódio do Evangelho que acabamos de comentar. O jovem rico era bom. Praticava os Mandamentos a ponto de Nosso Senhor o fitar com amor. Quando, porém, o Mestre o convidou a ser um dos Seus discípulos, afastou-se triste e abatido, pois sempre que alguém recusa um convite da graça, é pervadido pela tristeza e pelo remorso. O padre Duquesne descreve com notável clareza essa lamentável situação de alma: “Ninguém renuncia à sua vocação sem uma dor de coração, sem uma secreta tristeza que increpa sua covardia, tristeza que difunde amargura ao longo de todo o curso da vida e aumenta na hora da morte”.24
A liturgia deste domingo nos coloca, assim, diante de uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual: a que distância se encontra nossa alma da atitude do moço rico? Se Cristo nos convidasse hoje a segui-Lo, como Lhe responderíamos? Bradaríamos com alegria, como Samuel: “Præsto sum” (I Sm 3, 16) – “Eis-me aqui”? Ou, tomados pela tristeza, recusaríamos o convite de nosso Salvador?
Quando chegar esse chamado — e ele pode vir em hora inesperada —, seremos muito mais capazes de dar resposta afirmativa se nos tivermos preparado previamente. Para isso, é necessário que, em todas as circunstâncias da vida, nosso coração esteja à procura do Divino Mestre, combatendo o apego aos bens terrenos, aumentando sem cessar o fogo do amor a Deus e fazendo a pergunta de São Paulo no caminho de Damasco: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6).
A isto nos incita o Príncipe dos Apóstolos: “Irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pd 1, 10-11).
1AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. III q. 24, a. 1, resp. “A predestinação propriamente dita é a eterna pré-ordenação divina com relação às coisas que, pela graça de Deus, devem realizar-se no tempo. Ora, pela graça da união, Deus fez com que, no tempo, o homem fosse Deus e Deus fosse homem. E não se pode afirmar que Deus não tenha pré-ordenado desde a eternidade que Ele faria isso no tempo, porque daí se seguiria que algo de novo poderia acontecer para o entendimento divino. Por isso é preciso afirmar que a união das naturezas na pessoa de Cristo entra na predestinação eterna de Deus”.
2JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Mater, n. 8. “No mistério de Cristo, Maria está presente já ‘antes da criação do mundo’, como aquela a quem o Pai ‘escolheu’ para Mãe do seu Filho na Encarnação — e, conjuntamente ao Pai, escolheu-a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade. Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excepcional; e é amada neste ‘Filho muito amado’ desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda ‘a magnificência da graça’”.
3DIDON, OP, Pe. Henri. Jesus Christo. Porto: Chardron, 1895, p. 381.
4LAGRANGE, OP, Pe. M.J. Évangile selon Saint Marc. Paris: Lecoffre, 1929, p. 264.
5FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Rialp, v. 2, p. 429.
6DUQUESNE. L’Évangile médité. Paris-Lyon: Perisse Frères, 1849, p. 266.
7SAN EFRÉN DE NISIBE, Comentario al Diatessaron, 15, 210 apud ODEN, Thomas C. e HALL, Cristopher A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento 2 San Marcos. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 199.
8DUQUESNE. Op. cit., p. 267.
9FILLION. Op. cit., p. 431.
10MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro evangelios – I Evangelio d
11LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 266.
12DUQUESNE. Op. cit., p. 273.
13FILLION. Op. cit., p. 431.
14CLEMENTE DE ALEJANDRÍA. Quis dives salvetur? c. XXVII.e San Mateo. Madrid: BAC, 1950, p. 692.
15CESÁREO DE ARLES, Sermo 153, 156 apud ODEN e HALL. Op. cit., p. 202.
16MALDONADO, SJ. Op. cit., p. 695.
17LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
18Cf. MALDONADO, SJ. Op. cit., p. 695.
19LAGRANGE, OP. Op. cit., p. 271.
20MALDONADO, SJ. Op. cit., p. 695.
21FILLION. Op. cit., p. 433.
22DIDON, OP. Op. cit., p. 385.
23FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: BAC, 1954, p. 482.
24DUQUESNE. Op. cit., p. 270-271.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXVIII Domingo do Tempo Comum Mc 10, 17-30

Continuação dos comentários ao Evangelho Mc 10, 17-30
A causa mais profunda da recusa
22 “Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens”.
Entretanto, o mesmo que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou-se triste e “abatido”, porque “possuía muitos bens” e preferiu conservá-los a seguir sua vocação, desprezando o “tesouro no Céu” que o próprio Messias lhe oferecera. Fato inédito, pois os Evangelistas não narram recusa semelhante a esta.
Não pensemos, entretanto, ter sido o apego às riquezas a principal causa de sua defecção. O jovem rico praticara os Mandamentos desde sua infância, mas não na perfeição. Negligenciara, sobretudo, o primeiro e mais fundamental: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5). Como bem observa o conhecido biblista M. J. Lagrange, os preceitos mencionados a ele por Nosso Senhor “bem podem ser observados sem heroísmo. Se Jesus lhe tivesse perguntado se amava a Deus de todo o coração, teria ficado bem mais incomodado”.11
O grande pecado desse homem não foi, portanto, de avareza, mas sim de orgulho. Ao ser convidado a seguir Nosso Senhor e sentir em si a própria debilidade e insuficiência, deveria ter dito: “Senhor, não tenho forças para seguir-vos. Tenho apego a minhas riquezas e, sobretudo, faltame amor exclusivo por Vós”.
 Perante esse ato de humildade, Jesus lhe teria dado graças superabundantes para corresponder ao chamado. E bem poderíamos ter hoje no Calendário Romano uma festa dedicada ao jovem rico, que se tornou pobre para adquirir uma riqueza muito maior: o décimo terceiro Apóstolo!
Entretanto, faltou-lhe reconhecer que, se praticava os Mandamentos, não era por suas próprias forças, mas pela graça divina. E que, portanto, sem o auxílio da graça, não conseguiria desprezar as riquezas e seguir Jesus.
Só os pobres de espírito entrarão no reino dos céus
23“E, olhando Jesus em derredor, disse a Seus discípulos: ‘Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!’. 24 Os discípulos ficaram assombrados com Suas palavras. Mas Jesus replicou: ‘Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! 25 É mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus’”.
Neste último versículo, Nosso Senhor Se serve de um provérbio utilizado pelos judeus para expressar algo extremamente difícil e quase impossível. Recorre propositalmente a essa comparação na aparência exagerada — “é mais fácil passar o camelo pelo buraco de uma agulha...” — para mostrar a gravidade da “desordem própria dessa paixão, consistente em apegar o coração à terra, endurecê-lo no que diz respeito a Deus e ao próximo, torná-lo insensível às coisas do Céu”.12
Para bem analisar essas palavras de Jesus, é preciso começar por evitar a interpretação errada, segundo a qual todo rico estaria condenado e todo pobre, ao contrário, estaria no caminho certo para a salvação. Pois o Mestre não se refere aqui à riqueza material, mas sim ao desvio que leva o homem a depositar sua confiança nos bens terrenos, antepondo-os aos bens superiores.
Sobre este particular, esclarece Fillion: “Não se trata aqui dos ricos enquanto tais, pois a posse dos bens temporais não é, de si, um estado de pecado nem causa de condenação, embora ofereça sérios perigos. Jesus não exclui de Seu Reino senão aqueles ricos que se apegam às suas riquezas e nelas põem — digamos assim — sua finalidade e todo o seu afeto”.13
Como valer-se da riqueza para alcançar a vida eterna
A finalidade última do homem está no Céu. O dinheiro e as riquezas podem ser apenas meios — efêmeros, instáveis e dispensáveis — para alcançar esse supremo fim. Assim, é legítimo acumular bens e deles usufruir, desde que sejam adquiridos de forma lícita e seu uso esteja subordinado à glória de Deus.
Nesta linha se insere o comentário feito por São Clemente de Alexandria a esta passagem do Evangelho: “A parábola ensina aos ricos que não devem descuidar-se de sua salvação eterna, como se de antemão dela se desesperassem, não que seja preciso jogar ao mar a riqueza, nem condená-la como insidiosa e inimiga da vida eterna. O que importa é saber qual a maneira de valer-se dela para possuir a vida eterna”.14
Com efeito, quantos reis, príncipes ou simples pessoas abastadas que, administrando o que tinham com inteiro desprendimento, encontramse hoje no Céu como atesta o catálogo dos santos?
Por outro lado, quantos pobres há que se recusam a praticar a virtude! Bem fariam estes em ouvir a conclamação de São Cesário de Arles: “Ricos e pobres, escutai o que diz Cristo. Falo ao povo de Deus. Em vossa maioria, sois pobres ou deveis aprender a sê-lo. No entanto, escutai, pois podemos inclusive nos vangloriarmos de ser pobres; tende cuidado com a soberba, não aconteça que os ricos humildes vos superem; acautelai-vos contra a impiedade, não aconteça que os ricos piedosos vos deixem para trás”.15
O problema não está, portanto, na quantidade de bens materiais possuídos por alguém, mas no uso que deles se faz. Para poder entrar no Reino dos Céus, é preciso não ter apego algum a eles. A pobreza de espírito consiste em nos compenetrarmos que somos criaturas contingentes, que dependem de Deus. Pode-se lutar para se ter recursos, mas com vistas a espalhar o Reino de Deus, e fazer com que Ele reine de fato em todos os corações.
Por nosso simples esforço, jamais conquistaremos o Céu
26“Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar-se?’. 27 Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível’”.
Não é de estranhar o espanto dos discípulos perante a força da comparação usada por Nosso Senhor. Mas essa mesma perplexidade os leva a considerar melhor a própria contingência e a fixar no espírito o duplo ensinamento do Divino Mestre: pelos seus simples esforços, o homem jamais conseguirá conquistar o Céu; mas aquilo que para o homem é impossível, não o é para Deus.
Deus é onipotente, ama-nos desde toda a eternidade e está desejoso de abrir-nos as portas do Céu. Para nele entrar, é preciso apenas que sejamos humildes e reconheçamos nossas misérias, pedindo o auxílio divino, sem desanimar.
A salvação, como a própria vida, é uma dádiva de Deus. É Sua graça que nos dá forças para praticar os Mandamentos e nos torna dignos de entrar no Seu Reino. Não façamos, pois, como o moço rico, mas confiemos humildemente na Sua bondade, como ensina São Paulo na segunda leitura deste domingo: “Aproximemo-nos confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4, 16).
Ainda sobre estes dois versículos, convém notar, com Maldonado, que a pergunta “quem pode então salvar-se?”, os Apóstolos a fizeram “a si próprios”, isto é, somente eles puderam ouvi-la. Cristo, entretanto, olhou para eles e deu-lhes a resposta, mostrando assim que “lia seus pensamentos e ouvia suas conversas, por mais reservadas que fossem”.16
Continua no próximo post