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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Comentários ao Evangelho II DOMINGO DO ADVENTO -Ano C - Lc 3, 1-6

Continuação dos comentários ao Evangelho 2º Domingo do Advento

Pregação de alto sentido simbólico
4 …como está escrito no Livro das palavras do profeta Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas”.
Essas palavras de Isaías, que prenunciaram o fim do exílio do povo judeu na Babilônia e o retorno à Palestina, haviam atravessado os séculos como sinal de consolo e perdão. Nos lábios do Precursor, todavia, a mesma mensagem revestiu-se de caráter penitencial, penetrando a fundo nas consciências e movendo-as à conversão.
Importante é lembrarmo-nos de que a pregação de João Batista não foi dirigida somente aos que tiveram a ventura de viver no tempo de Jesus. Conforme ensina São Bernardo, a vinda de Nosso Senhor ao mundo pode ser dividida em três etapas, das quais a primeira corresponde à sua vida mortal e a última ao Juízo após o fim do mundo, quando Ele vier em Corpo glorioso. A segunda vinda, por sua vez, é cotidiana, quando Ele vem a cada um de nós, pela sua graça.16 Jesus nos chama a cada momento, nas mais diversas circunstâncias da vida, sendo necessário estarmos sempre prontos para recebê-Lo.
Como outrora aqueles judeus que acorriam às margens do Jordão, também nós devemos produzir “frutos de verdadeira penitência” (Mt 3, 8), colocando em prática as admoestações do Precursor. Em primeiro lugar, ele exorta a endireitar as veredas do caminho pelo qual o Senhor passará em breve. Não se trata, evidentemente, de promover uma obra de retificação das estradas palestinas. Toda a sua pregação tem alto sentido simbólico e deve ser interpretada sob o prisma sobrenatural. Esta advertência é um apelo para eliminar os desvios que se estabelecem na alma quando se quer conjugar a adoração a Deus com o egoísmo. Quem não se empenha em combater os defeitos pessoais nem em progredir na perfeição acaba entrando pelas tortuosas sendas dos vícios à margem do bem, sem, todavia, querer abandoná-lo por inteiro. Cedo ou tarde, o dinamismo do mal termina sufocando uma frágil adesão à virtude e cai-se por inteiro na via do pecado.
Oportuno é, no Advento, determo-nos um pouco em nossa caminhada espiritual e, abstraindo da febricitação do mundo, examinar nossa consciência a fim de verificar se não estamos, em algum ponto, construindo trajetos sinuosos em nossa vida. Façamos então o firme propósito de endireitá-los, buscando a inteira coerência entre nossa conduta e a Fé, o que se cifra no perfeito cumprimento dos Mandamentos da Lei de Deus.
Eliminar a mediocridade e o orgulho
5a “‘Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas...’”
Chamado a viver em função de sua dignidade de filho de Deus e a ter os olhos sempre postos nos elevados panoramas da Fé, muitas vezes o homem dá as costas a esse plano superior e concentra toda a atenção nas coisas concretas, preocupando-se excessivamente com os bens materiais e com banalidades próprias à existência terrena. Tal mesquinhez leva-o a se esquecer da efemeridade desta vida e, menosprezando a eternidade, a viver como se o Criador não existisse. Formam-se na alma, então, os vales da ausência de Deus. A par disso, há também montanhas e colinas na vida espiritual. São as elevações do amor-próprio desregrado, o qual se manifesta das mais diversas maneiras. Por exemplo, no desejo de chamar a atenção alheia sobre as qualidades pessoais, reais ou supostas, procurando sobressair em relação aos demais. Além de aterrar os vales da mediocridade materialista, é preciso nivelar essas proeminências do orgulho.
É interessante aqui observarmos um pormenor do texto evangélico, pois, neste versículo, o Precursor não dá uma ordem, como no anterior, mas faz uma afirmação: os vales serão aterrados; as montanhas e colinas serão rebaixadas Com a vinda de Nosso Senhor ao mundo foram deixados à disposição da humanidade os Sacramentos, meios eficazes para essa reforma interior. Conferindo a graça à alma, eles corrigem os desníveis que se interpõem no caminho da perfeição e dificultam o progresso espiritual. Como comenta São Cirilo, “quando Deus feito homem destruiu o pecado em sua carne, tudo foi aplainado e se tornou fácil o caminho, não havendo montes nem vales que fossem obstáculo para quem quisesse caminhar”.17 Resta ao homem unir a esse auxílio divino o próprio esforço, sempre consciente de que cada avanço, mesmo quando pequeno, se deve à graça obtida por Cristo e não a seu mero empenho.
As racionalizações, passagens tortuosas da consciência
56 “‘… as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados”.
As racionalizações — ou seja, os falsos raciocínios elaborados pelo homem para justificar suas próprias faltas — são desvios muito sutis na vida espiritual, pois encobrem a inconsistência do erro com a aparência sólida da verdade. As passagens tortuosas são uma imagem adequada desses desonestos subterfúgios do pecador, que foge ao se deparar com o aguilhão da consciência que o importuna, advertindo-o a respeito do mal que pretende fazer ou repreendendo-o pelas faltas já praticadas. Só com tais evasivas o homem consegue permanecer nos acidentados caminhos do pecado. Para eliminar essas ardilosas irregularidades do terreno é preciso a virtude da retidão, a qual faz a pessoa ver por inteiro sua própria fraqueza e maldade, reconhecendo-se pecadora e necessitada do amparo sobrenatural para não soçobrar nas tentações. Porém, o fator decisivo é, mais uma vez, a ação divina, ressaltando aos olhos do homem o horror do pecado e a noção de que Deus conhece todas as coisas, inclusive os mais íntimos pensamentos e as intenções do coração.

Continua no próximo post

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Comentários ao Evangelho II DOMINGO DO ADVENTO -Ano C - Lc 3, 1-6

Continuação do post anterior Lc 3, 1-6

Um Precursor à altura?
2b…foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias
Devido aos diversos fatos extraordinários relacionados com o nascimento de São João Batista (cf. Lc 1, 5-25.57-66), as notícias a seu respeito se propagaram “por todas as montanhas da Judeia” (Lc 1, 65), despertando a admiração popular. A esse início cheio de celebridade, porém, sucederam-se anos de completo apagamento aos olhos do mundo. Apartando-se do convívio social, João “viveu no deserto até o dia em que se apresentou diante de Israel” (Lc 1, 80). Tal deserto corresponde a uma região agreste, quase toda desabitada, compreendida entre o Lago de Genesaré e o Mar Morto, e que se estendia a partir da margem ocidental deste último até os limites das terras férteis da Judeia. Ali o menino cresceu e fortificou-se em espírito (cf. Lc 1, 80) pela prática de um rigoroso ascetismo, vestindo-se de pele de camelo e alimentando-se de mel silvestre e gafanhotos (cf. Mc 1, 6; Mt 3, 4), até à idade de mais ou menos trinta anos,11 quando começou a exercer seu ministério. Esse estilo de vida permite-nos imaginá-lo como “um homem profundamente recolhido, de uma grande delicadeza de alma e extrema modéstia, tão absorto em Deus que se tem a impressão de que só com esforço ele consegue sair de sua contemplação”.12
À primeira vista, tão misteriosa austeridade pode parecer o extremo oposto da glória infinita do Verbo Encarnado, de quem João era Precursor. Da mesma forma como a entrada do Menino Deus no mundo havia sido anunciada aos pastores por um Anjo refulgente de luz (cf. Lc 2, 9) e aos Reis Magos pela estrela que os conduziu a Belém (cf. Mt 2, 1-12), seria de se esperar que o começo de sua vida pública também fosse precedido por aparições semelhantes ou por extraordinários fenômenos da natureza. Bem diferente, entretanto, foi o anúncio feito por João Batista, pois sua grandeza não era aparatosa. “Sua autoridade lhe vinha desta pureza mais que terrestre e da majestade da graça que o destacava aos olhos do povo como um homem superior ao resto da humanidade, encarregado de censurar e repreender, é verdade, como também investido de uma missão de inefável miserjcórdja”.13
A essência da verdadeira grandeza
Entre outras razões, Deus procedeu desta forma para não tirar aos judeus a possibilidade de adquirir o mérito da fé, crendo na divindade de Jesus quando O vissem pessoalmente. Com efeito, se as exterioridades do arauto de Cristo correspondessem às pompas do cerimonial prestado à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade pela corte celeste, ter-se-ia extinguido o estado de prova dos contemporâneos de Nosso Senhor em relação ao mistério da Encarnação. Pela força da evidência, o aspecto esplendoroso de João Batista seria suficiente para concluir que o Mestre por ele anunciado era o próprio Deus.
Por outro lado, quis a Providência nos ensinar que o verdadeiro valor do homem está em seu interior, embora muitas vezes o mundo não o reconheça. Não foi entre os líderes da política ou da religião em Israel, cujos nomes abrem o Evangelho de hoje, que Deus escolheu o seu Precursor. O eleito para esta missão de importância ímpar na História foi um homem sui generis para os costumes da época, sem qualquer prestígio social. Não obstante, sua excelência sobrenatural fê-lo ultrapassar em grandeza a todos os homens, conforme o próprio Jesus revelou: “Em verdade vos digo, não surgiu entre os nascidos de mulher alguém maior que João Batista” (Mt 11, 11). Portanto, como é próprio à ação divina, também neste caso a Providência escolheu o que havia de melhor. O anunciador de Cristo possuía a mais nobre das qualificações: fora santificado ainda no ventre materno, tornando-se cheio do Espírito Santo e, por isso, era “grande diante do Senhor” (Lc 1, 15).
Daí decorre também ser São João Batista um exemplo do quanto, para Deus, mais vale o homem pelo que é do que por aquilo que faz. Nossos atos exteriores nos obtêm mérito sobrenatural mais pela disposição interior que nos anima, do que pelo esforço empregado ao realizá-los. Modelo supremo, nesse sentido, é Maria Santíssima, cujo amor a Deus e fervor de intenção fê-la dar “mais glória a Deus pela menor de suas ações — por exemplo, fiando na roca, dando pontos de agulha —, que São Lourenço sobre a grelha, no seu cruel martírio, e o mesmo em relação às mais heroicas ações de todos os santos”,’4 ensina São Luís Grignion de Montfort.
Simbolismo do deserto
2c …no deserto…
Além de referir-se ao local onde São João viveu e recebeu a revelação, o deserto pode ser interpretado em sentido simbólico. Assim como aquela região era desabitada, também o Precursor estava livre de apegos materiais e pretensões mundanas, vazio de si mesmo. O deserto é uma bela imagem da alma dignamente preparada para receber Jesus e participar do Reino de Deus: despojada das manias e dos caprichos egoístas, afastada do materialismo reinante no mundo, deserta de vaidades e ambições.
Um batismo de penitência
3 E ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um baptismo de conversão para o perdão dos pecados...
De modo diferente dos antigos profetas, João Batista não se dirigiu às cidades, nem aos locais públicos onde era comum haver aglomerações. Percorrendo as agrestes cercanias do rio Jordão, começou ali mesmo a pregar àqueles que encontrava — bem poucos, certamente. O impacto causado por sua pessoa e pelo vigor de sua mensagem teve rápida repercussão, e logo “saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém” (Mc 1, 5). Naquela região, outrora solitária, tornou-se intensa a circulação de judeus que procuravam encontrar no profeta o despontar da ansiada regeneração moral e religiosa de Israel. Inclusive muitos carregavam em seu interior uma dúvida cheia de esperança: não seria João o próprio Messias? Por isso, ora discernindo os pensamentos dos corações, ora respondendo a perguntas explícitas, o Precursor entremeava as exortações à penitência com afirmações que dirimiam os equívocos a respeito de sua pessoa: “Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias” (Lc 3, 16). Se Aquele que deveria vir superava ainda mais o admirável e arrebatador Batista, fazia-se mister preparar-se para recebê-Lo.
Com vistas a esse grande acontecimento, numerosos judeus receberam o “batismo de conversão”. Este, contudo, não conferia a graça à alma15 como o Batismo sacramental instituído depois por Cristo, pois era apenas um símbolo que consolidava a mudança de mentalidade à qual João conclamava, ratificando de forma sensível o desejo de, através da penitência, purificar-se espiritualmente a fim de poder participar no iminente Reino de Deus.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Comentários ao Evangelho II DOMINGO DO ADVENTO -Ano C - Lc 3, 1-6

II DOMINGO DO ADVENTO

No décimo quinto ano do império de libério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe, as regiões da Itureia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; 2 quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.

3 E ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo de conversão para a perdão dos pecados,4 como está escrito no Livro das palavras do profeta Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.5Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. 6 E todas as pessoas verão a salvação de Deus” (Lc 3, l-6).


A verdadeira procura da felicidade
Em busca da felicidade, muitos se arriscam por vias equivocadas que terminam na frustração. A mensagem de São João Batista surge na História como um farol seguro a iluminar o caminho para encontrá-la.
A PROCURA DA FELICIDADE
Quem se detivesse a fazer uma breve análise das pessoas do próprio meio ou até de outras menos próximas — incluindo antepassados, personagens históricos, figuras destacadas no contexto mundial hodierno ou de outrora —, perceberia que, apesar da diferença de mentalidade, aptidões ou estilo de vida, é possível nelas distinguir um traço comum, norteador de seus atos: o desejo de ser feliz. Entretanto, apesar de todos, sem exceção, procurarem a felicidade com infatigável ardor, muitos chegam ao fim de seus dias sem a terem encontrado... Qual será a causa desses esforços frustrados? O problema é que “todos querem ser felizes e nem todos desejam viver do único modo como se pode ser feliz”,1 observa Santo Agostinho. Ao invés de orientar sua existência para Deus, Bem supremo e fim último do homem, único Ser que sacia por completo esta aspiração, muitos são ludibriados pelo mundo e acabam trilhando vias paralelas ao verdadeiro caminho. Nunca serão felizes, pelo simples fato de seguirem um itinerário que não conduz a Deus.
Alguns, por exemplo, enredam-se nas ilusões do dinheiro. Veem o equilíbrio financeiro como sinônimo de prestígio, poder e influência na sociedade, bem como garantia de um futuro despreocupado. Não é raro, porém, que a existência de quem muito possui tenha características bem diversas de uma estável tranquilidade, sobretudo quando entesouram para si mesmos e não são ricos para Deus (cf. Le 12, 21). Vivem na insaciável ambição de acumular cada vez mais pois quem “ama a riqueza nunca se fartará” (Ecl 5, 9) — e, quanto maior for a opulência, tanto maiores serão suas aflições para administrá-la e conservá-la. Já para outros, a ilusão será a ciência. Aspirando a dominar assuntos de difícil compreensão para o geral das pessoas e obstinados pela ideia de serem laureados pela erudição, consomem o tempo em estudos, pesquisas e escritos. Fazem do saber a finalidade última da existência, esquecendo-se de que ele é apenas um meio dado por Deus ao homem para conhecê-Lo melhor e remontar a considerações mais elevadas. Por ser limitado, o conhecimento humano jamais satisfará a sede de felicidade da alma, que anseia pelo Infinito. Por isso, muitos intelectuais, mesmo sendo aplaudidos pelo mundo, terminam seus dias na amargura. E, às vezes, esses falsos caminhos levam não só à frustração, como também ao absurdo. E o que se verifica em nossos dias, por exemplo, com pessoas que se submetem a dietas rigorosas para se adequarem aos padrões de beleza física impostos pela moda. Julgando que se sentirão plenamente satisfeitas com os elogios e a admiração provocada por uma exagerada magreza, prescindem não só do nobre prazer do paladar temperante, mas inclusive da saúde. Em casos extremos, essa enganosa via da felicidade torna-se um atalho para abreviar a própria vida...
Nessa perspectiva, nossa consideração recai sobre uma figura ímpar na História, contemplada neste 2º Domingo do Advento: o Precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que relação podemos encontrar entre sua mensagem e a busca da felicidade?
A PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA
No décimo quinto ano do império de libério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe. as regiões da Itureia e Traconítide, e Lisânias a Abilene...
Pôncio Pilatos
Para situar cronologicamente o início da missão do Precursor e delinear a conjuntura histórica em que se encontrava o povo judeu naquela época, São Lucas abre seu terceiro capítulo nomeando as autoridades políticas da Palestina. O poder supremo do Império Romano era então exercido por Tibério, “um dos mais mal-afamados tiranos da História universal”2 devido à duplicidade de caráter e irrefreável espírito vingativo que marcou sua conduta no governo. Pôncio Pilatos foi por ele constituído procura dor da Judeia 3 e, sob todos os aspectos, mostrou-se um autêntico representante do arbitrário césar. Os relatos evangélicos da condenação de Jesus retratam o procurador como homem covarde e egoísta, capaz de derramar sangue inocente para salvaguardar os próprios interesses, e seus contemporâneos Filon e Flávio Josefo são ainda mais categóricos ao descrever sua má índole, dizendo ter-se destacado “por seu desdém à Lei judaica, não obstante estivesse reconhecida pelos romanos, e por sua pérfida crueldade”.4 Aproveitava ele qualquer pretexto para infringir os preceitos mosaicos e assim ferir a religiosidade e o nacionalismo israelita, pois “não somente odiava seus súditos, como também tinha uma prepotente necessidade de mostrar-lhes seu ódio”.5
Os tetrarcas Herodes Antipas e Filipe, mencionados logo em seguida, eram filhos de Herodes, o Grande. Seu governo, portanto, significava para os judeus a humilhante condição de dupla sujeição aos gentios: os romanos e os idumeus. A respeito de Antipas, basta lembrar a alcunha de raposa que lhe foi dada pelo Divino Mestre (cf. Lc 13, 32) para se ter uma acertada noção de sua personalidade. A maneira desse astuto animal, o comportamento do tetrarca era regido conforme a prudência carnal, vício caracterizado por “uma hábil sagacidade em encontrar os meios mais oportunos para entregar-se a toda espécie de concupiscências desordenadas”.5 Seu irmão Filipe, pelo contrário, foi honrado em sua vida particular e exerceu de modo correto as funções administrativas, a ponto de ser considerado uma exceção à regra dos herodianos.7 Quanto à Abilene, província limítrofe da Judeia governada por Lisânias,8 tetrarca de origem grega, o Evangelista a inclui nesta relação porque tal território fazia parte dos “limites assinalados por Deus a Abraão [...] e é provável que estivesse habitada em sua maior parte por judeus, embora sob o domínio de um estrangeiro”,9 comenta Maldonado.
Reavivamento das expectativas messiânicas
2… quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes...
Caifás
Desde a época de Herodes, o Grande, os pontífices eram instituídos e depostos conforme os interesses dos imperadores ou das autoridades políticas locais, existindo, com frequência, negociações corruptas por detrás de cada nomeação. Tal decadência moral do judaísmo se agravou com Anás, o qual constituiu uma organização familiar cúmplice do poder romano e herodiano, à custa de subornos, passando a controlar todo o establishment israelita. No momento histórico descrito pelo Evangelista, o cargo, que era individual, estava ocupado por Caifás, genro de Anás. São Lucas nomeia ambos pelo fato de Anás, deposto havia anos, ainda exercer tamanha influência que sua palavra era equivalente à voz do sumo sacerdote oficial.10
Essa deplorável situação religiosa somada à opressão política refletia-se no povo e resultava num estado geral de depauperamento. Pesavam-lhe os impostos e os próprios costumes judaicos se dessoravam sob o influxo do paganismo romano. Em nenhum momento, contudo, os israelitas perderam as esperanças a respeito do Messias prometido por Deus aos patriarcas e anunciado pelos profetas. Ele viria “para curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade” (Is 61, 1), e apareceria num período de extrema desolação para a nação judaica. Por isso, à medida que a situação piorava, a realização da promessa messiânica parecia mais iminente. No entanto, a errônea interpretação das profecias levava os judeus a imaginar o Salvador como um herói nacional que os libertaria do jugo romano — considerado o grande mal do qual decorriam todos os outros infortúnios de Israel — e dar-lhes-ia uma insuperável projeção política, social e financeira, bem como a supremacia em relação a todos os outros povos da Terra.
Em meio a tão singular atmosfera, na qual se confundiam o desalento e a expectativa, um novo profeta manifestou-se à nação eleita.
Continua no próximo post.
1) SANTO AGOSTINHO. De Trinitate. L.XIII, c.4, n.7. In: Obras. Madrid: BAC, 1956, vV, p.7 12.
2) WEISS, Juan Bautista. Historia Universal. Barcelona: La Educación, 1927, v.111, p.661.
3) Segundo os historiadores, Herodes, o Grande, deixara consignado em testamento que após sua morte a Palestina fosse dividida entre seus três filhos. E assim se fez: a Judeia, a Samaria e a Idumeia foram dadas a Arquelau; Herodes Antipas recebeu a Galileia e a Pereia; e as terras situadas ao norte da Transjordânia foram a parte de Filipe. Acusado de tirania, Arquelau foi deposto por César Augusto e seu território tornou-se subjugado ao governo da Síria. A partir de então, os imperadores nomeavam procuradores que se estabeleciam na Judeia e exerciam sua autoridade em toda a província (cf. RICCIOTf I, José. Historia de Israel. Buenos Aires: Excelsa, [s.d.], til, p.412-413; SCHUSTER, Ignacio; HOLZAMMER, Juan B. Historia Bíblica. Barcelona: Litúrgica Española, 1935, tII, p.76).
4) SCHUSTER; HOLZAIvIMER, op. cit., p.132, nota 1.
5) RICCIOTTI, op. cit., p.430.
6) ROYO MARIN, OP, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1996, v.1, p.421.
7) Cf. RICCIOTFI, op. cit., p.414.
8) Este dado do Evangelho de São Lucas foi causa de inúmeras controvérsias durante longo período, devido à falta de provas de sua historicidade. Julgava-se ter sido um equívoco do Evangelista a menção a Lisânias como contemporâneo de Tibério (14-37), pois o rei Lisânias do qual se tinha notícia fora morto antes da constituição do Império Romano, vítima de uma instigação de Cleópatra junto a Antônio (cf. FLAVIO JOSEFO.Antiguidades judaicas. LXV, c.4). As polêmicas cessaram, porém, diante da evidência trazida a lume quando escavações na região descobriram inscrições da época que coincidem com o Evangelho. Com base nestes registros, concluiu-se que São Lucas se refere a outro Lisânias, governante do antigo reino de Cálcide, então transformado em tetrarquia, recebendo o nome de Abilene.
9) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.11, p.445.
10) Cf. SCHUSTER; HOLZAMMER, op. cit., p.132; FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés, Vida de Nuestro Señ or Jesucristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1954, p.621-622.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Evangelho I Domingo do Advento- Lc 21, 25-28.34-36


Continuação dos comentários ao Evangelho do 1º Domingo do Advento
Vigilância e oração

36 “Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar  de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.
Bem observam os professores de Salamanca o fato de São Lucas não acompanhar seu relato com parábolas, como fazem os outros sinópticos. Ele traz apenas uma exortação geral. “Em compensação, exprime bem o sentido dessa vigilância constante em pureza de vida e oração”.26
Ficar atento significa estar sempre preparado para o encontro com Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora, mantendo bem abertos, não apenas os olhos do corpo, mas, sobretudo, os da alma, pois são estes que poderão indicar a proximidade do Senhor. E para isto precisamos viver continuamente em estado de oração, mesmo quando estivermos cumprindo nossas obrigações habituais. Só assim poderemos estar preparados para os grandes acontecimentos anunciados por Jesus e nos apresentar “de pé diante do Filho do Homem”, isto é, íntegros, honestos e virtuosos. Em suma, permanecendo no estado de graça.
Na vida terrena, muito mais importante do que conservar a saúde, o dinheiro ou qualquer outro bem, é manter-se na graça de Deus. Portanto, esforçando-se por jamais ofendê-Lo; mas, se tiver a desgraça de cair no pecado, procurando imediatamente reconciliar-se com Ele, pelo sacramento da Confissão. A isso nos exorta São Gregório Magno: “Emendai-vos, mudai vossos costumes, vencei as tentações e castigai com lágrimas os pecados cometidos, porque algum dia vereis a chegada do eterno Juiz com tanto maior segurança quanto mais tiverdes prevenido pelo temor Sua severidade”.27
 A “terceira vinda”
A Liturgia do Primeiro Domingo do Advento é toda ela penetrada pela perspectiva da comemoração da primeira vinda de Nosso Senhor, com Seu nascimento na gruta em Belém, e pela preparação da segunda, que se dará no fim do mundo para julgar toda a humanidade.
De acordo com São Bernardo de Claraval, porém, são três as vindas de Nosso Senhor: “A primeira, quando Ele veio por Sua Encarnação; a segunda é cotidiana, quando Ele vem a cada um de nós, pela Sua graça; e a terceira, quando virá para julgar o mundo”.28 Em outra passagem, especifica o Doutor Melífluo que o segundo advento de Cristo é oculto e “somente os eleitos o vêem em si mesmos, e com ele salvam suas almas”. Ele está vindo constantemente a nós para ser “nosso repouso e consolo”.29
Assim, a todo instante somos chamados a ter um encontro com Jesus. Será, sobretudo, na Eucaristia. Mas também, por exemplo, ao meditar este Evangelho do Primeiro de Advento, ou escutando uma palavra inspirada de algum ministro de Deus. Por isso, nossa vida deveria em realidade girar em torno de um Natal permanente, que se iniciasse ao acordar pela manhã e não terminasse sequer ao dormir à noite, porque para tudo dependemos da graça de Deus e devemos estar continuamente esperando o auxílio que nos vem dEle.
Fiquemos atentos e aproveitemos esses valiosos convites da graça de modo a estarmos em condições de receber, não com pavor e desespero, mas com júbilo, o justo Juiz que descerá do Céu em toda pompa e majestade e dirá àqueles que nesta terra confiaram em Sua misericórdia e cumpriram Seus Mandamentos: “Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo” (Mt 25, 34). Quem tiver sempre em vista esse fim, terá ânimo redobrado para praticar a virtude e comparecer sem temor ao encontro definitivo com Nosso Senhor. 
Preparemo-nos, portanto, porque Ele virá quando menos esperarmos!


1Prefácio do Advento, I.
2Idem.
3BOSSUET. Oeuvres choisies. Versailles: Lebel, 1822, p. 156.
4SAN GREGORIO MAGNO. Obras de San Gregorio Magno. Madrid: BAC, 1958, p. 538.
5DEHAUT, P. Pierre Auguste Teóphile. L’Évangile expliqué, défendu, médité. Paris : Lethielleux, 1868, vol. 4, p. 405.
6GARRIDO, Manuel. Iniciación a la Liturgia de la Iglesia. Palabra, p. 275.
7LANDRIEUX, Mgr. Maurice. Courtes gloses sur les Evangiles du dimanche. Paris: Beauchesne, 1918, p. 2-3.
8THIRIET, P. Julien. Explication des Evangiles du dimanche. Hong-Kong: Société des Missions Étrangères, 1920, p. 2.
9Veja-se também I Ts 5, 2; II Pd 3, 10; Ap 16, 15.
10Cf. SAN JUAN CRISÓSTOMO. Homilias sobre el Evangelio de San Mateo, 76 e 77.
11Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
12THIRIET, Op. cit., p. 5.
13Idem.
14SAN AGOSTÍN, Carta 199, 41-45. In Comentarios de San Agustín, Valladolid: Estudio Agustiniano, 1986, p. 52-53.
15Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
16THIRIET, Op. cit., p. 6.
17LANDRIEUX, Op. cit. p. 7
18Apud ODEN, Thomas C.; JUST, Arthur A. La biblia comentada por los Padres de la Iglesia. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 431.
19SAN CIPRIANO. Sobre la mortalidad, 2 apud ODENJUST, Op. cit., p. 434.
20Homilías sobre el Levítico, 7, 1-237. Apud ODEN-JUST, Op. cit., p. 434-435.
21Idem.
22Apud ODEN-JUST, Op. cit., p. 432.
23Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
24Apud idem.
25LANDRIEUX, Op. cit. p. 8-9.
26TUYA, OP, Pe. Manuel de. Biblia comentada. Madrid: BAC, 1964, p. 904.
27SAN GREGORIO MAGNO, Op.cit., p. 541.
28Cf. THIRIET, Op. cit., p. 2.
29SAN BERNARDO DE CLARAVAL. In Obras completas de San Bernardo. Madrid: BAC, 1953, p. 177.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Evangelho I Domingo do Advento- Lc 21, 25-28.34-36

Continuação dos comentários ao Evangelho 1º Domingo Advento 

28“Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça;  porque a vossa libertação está próxima”. 
As palavras de Jesus neste versículo convidam e elevar o ânimo e ter confiança pois, junto com o anunciado castigo, chegará para aqueles que tiverem permanecido fiéis a hora da libertação. Daí que São Gregório Magno afirme: “Quando as pragas afligirem o mundo, levantai vossas cabeças, isto é, alegrai vossos corações, porque enquanto acaba o mundo, do qual na verdade não sois amigos, aproxima-se vossa redenção, que tanto tendes procurado”.15
A aumentar nossa esperança e alçar nossos corações para o Céu nessa hora, convida também Dom Maurice Landrieux: “Se o dia do Juízo Final deve ser terrível para os réprobos, será, ao contrário, consolador para os eleitos, os quais entrarão de corpo e alma na glória completa, tão desejada. Portanto, quando essas coisas começarem a acontecer, enquanto os pecadores murcharão de terror e serão tomados de desespero, vós, Meus amigos e servidores, levantai a cabeça e olhai; fortalecei vossa fé e vossa esperança, desviai da terra vosso espírito e vosso coração e elevai-os ao Céu; alegrai-vos, pois está próxima a vossa libertação. Essa libertação ou redenção será para os eleitos o fim absoluto de todos os males, a perfeita satisfação da alma e do corpo, o gozo incomparável da eterna bem-aventurança”.16
E conclui com esta exclamação: “Dia de pavor e desespero para os ímpios, os pecadores: dies iræ, dies illa! Mas de indizível esperança para os justos de Deus, para os pequenos e os humildes desconhecidos, desdenhados, rejeitados, execrados, explorados, maltratados, oprimidos de todos os modos nesta terra”.17
Ora, se no fim dos tempos os castigos de Deus contra os maus significam a libertação dos bons, a ponto de Santo Agostinho afirmar que “a vinda do Filho do Homem incute temor só aos incrédulos”,18 bem poderíamos tirar disso uma conclusão para nossa época: por mais que, nos dias atuais, as aflições e apreensões oprimam os bons, estes igualmente não devem temer, pois Deus jamais abandona quem nEle confia.
É o que afirma São Cipriano: “Quem espera a recompensa divina deve reconhecer que em nós não poderá haver medo algum ante as borrascas do mundo, nenhuma vacilação, pois o Senhor predisse e ensinou que isso aconteceria, exortando, instruindo, preparando e fortalecendo os fiéis de Sua Igreja com vistas a suportar os acontecimentos futuros”.19
Preparação dos Corações
34 “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula,  da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós;
35  pois esse dia cairá como uma armadilha  sobre todos os habitantes da terra”. 
“Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis!”. Nesta segunda parte do Evangelho escolhido pela Igreja para este domingo, o Divino Mestre faz referência àquelas almas que, mesmo não negando formalmente a Fé, já não se enlevam, não vibram, nem se comovem com as mais belas doutrinas, cerimônias ou acontecimentos, ficando incapazes de reconhecer neles a voz ou a presença do Salvador.
“Como uma armadilha”, cairá o dia terrível do Juízo Final sobre os habitantes da terra; portanto, para não sermos apanhados de improviso, precisamos estar vigilantes para impedir que nossos corações se tornem insensíveis pelos vícios e pela preocupação com os efêmeros bens deste mundo.
Gula, embriaguez e preocupações da vida
Jesus menciona, em primeiro lugar, a gula. Pecado que, em nossos dias, pode ser considerado inclusive no sentido inverso, ou seja, como a preocupação excessiva com o controle do peso, em prejuízo da própria saúde. O equilíbrio consiste em comer o necessário para manter-se e poder enfrentar as dificuldades da vida.
Mas existe também uma gula dos olhos: a excessiva curiosidade; ou dos ouvidos: o desejo imoderado de conversar, de querer estar a par de todas as novidades. Para não estender demais a lista dos vícios correlatos à gula, mencionemos apenas mais um, e dos mais perniciosos: o anseio de chamar a atenção sobre si.
Quanto à embriaguez, Orígenes nota quão profunda é a degradação à qual ela conduz, por afetar simultaneamente o corpo e a alma. “Em outros casos pode acontecer que o espírito se fortaleça quando o corpo se debilite, como diz o Apóstolo (cf. II Cor 12, 10); e quando o homem exterior se enfraquece, o interior se renova’ (II Cor 4, 16). Mas na enfermidade da embriaguez deterioram-se ao mesmo tempo o corpo e a alma; o espírito se corrompe como a carne. Debilitam-se os pés e as mãos, embota-se a língua, as trevas lançam um véu sobre os olhos, e o olvido envolve a mente, de modo que o homem não conhece nem sente”.20
Em nossos dias, bem poderia este vício ser tomado como símbolo do inebriamento com as coisas materiais como o automóvel, o computador, o telefone celular, a internet e outros aparelhos que são úteis e até necessários, mas que, usados sem o controle da virtude da temperança, contribuem para tornar o coração insensível às realidades sobrenaturais.
Uma eloquente metáfora do mesmo Orígenes vem muito a propósito para realçar o quanto precisamos tomar em consideração a advertência feita pelo Divino Mestre no Evangelho deste domingo: “Imagine-se que um médico experiente e sábio dê prescrições parecidas a esta, recomendando, por exemplo: ‘Cuide de não tomar em excesso suco de tal erva, pois isso pode causar morte repentina’. Não duvido que, para preservar a própria saúde, todos obedeceriam a essa advertência. Ora, Aquele que é médico das almas e dos corpos, o Senhor, nos ordena tomar cuidado com a erva da embriaguez e da crápula, bem como dos negócios mundanos e dos sucos mortais que é preciso evitar”.21
Assim, não só quem se deixa levar pelos vícios degradantes como a gula e a embriaguez, mas também quem se toma de excessivas preocupações pelos bens terrenos, acaba ficando com o coração insensível, pesado, incapaz de elevar-se até Deus. É novamente Orígenes quem faz esclarecedores comentários: “A última advertência de Jesus, no momento, incide sobre o cuidado que devemos ter com aquelas coisas da vida que — embora não sendo consideradas como pecados graves, mas sim como atividades aparentemente indiferentes — obnubilam entretanto nossa consciência a respeito de Sua volta iminente e da repentina chegada do fim do mundo”.22
A este respeito, recomenda-nos São Basílio: “A curiosidade e os cuidados desta vida, embora não pareçam prejudiciais, devem ser evitados quando não contribuem para o serviço de Deus”.23 E o douto Tito nos alerta: “Tomai cuidado para não se obscurecerem as luzes de vossa inteligência, porque as preocupações desta vida, a crápula e a embriaguez afugentam a paciência, fazem vacilar a fé e provocam o naufrágio”.24
Ao que Dom Landrieux acrescenta: “Prestai muita atenção para não deixar vosso coração apegar-se à terra pelos prazeres grosseiros dos sentidos, pela fruição imoderada dos bens deste mundo, ou por um cuidado excessivo com vossa situação, que vos exporia a ser surpreendido de repente pela morte: et superveniat in vos repentina dies illa. Pelo contrário, vigiai e orai, sede prudentes, recorrei aos meios sobrenaturais para obter que a mão de Deus vos sustente nessas provações, de sorte a poderdes permanecer de pé no dia do Juízo: stare ante filium hominis”.25

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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Evangelho I Domingo do Advento- Lc 21, 25-28.34-36

Continuação dos comentários ao Evangelho do 1º Domingo do advento



As quatro semanas de advento
O Tempo do Advento compõe-se de quatro semanas, representando os séculos e milênios que esperou a humanidade pela vinda do Redentor. Nesse período, tudo na Liturgia se reveste de austeridade — omite-se o Glória, os paramentos são roxos e as flores não enfeitam mais o interior dos templos — para lembrar “nossa condição de peregrinos, ancorados ainda na esperança”, como afirma o famoso liturgista Manuel Garrido.6
A causa de estar dedicado o Evangelho deste primeiro domingo à segunda vinda de Nosso Senhor é assim explicada por Dom Maurice Landrieux, Bispo de Dijon: “A Igreja nos fala do fim do mundo, isto é, dos Novíssimos, para recordar-nos o sentido da vida, desapegar-nos do pecado e encorajar-nos à prática do bem. Deus nos criou para a vida eterna. Não temos morada permanente nesta terra: aqui estamos de passagem, a caminho do Céu”.7
Daí que, já no início da Celebração Eucarística, a Igreja faça esta oração: “Concedei aos Vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino Celeste. Para que acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo, que vem, sejamos reunidos à Sua direita na comunidade dos justos”.
Assim, nesta abertura de ano litúrgico, temos duas preparações: uma para comemorar dignamente o nascimento de Jesus em Belém; outra, para o grandioso ato de encerramento da História humana, que é o Juízo Final. Pois “a lembrança da última vinda de Nosso Senhor, inspirando-nos um salutar pavor que nos afasta do pecado e nos conduz ao bem, prepara-nos também para celebrar santamente a primeira vinda”.8
Na segunda e terceira semanas são considerados aspectos do Precursor; e na última a Liturgia trata de uma preparação mais direta para o nascimento do Redentor, considerando toda a espera e as orações de Nossa Senhora, dos patriarcas, dos profetas, como fatores que aceleraram a vinda do Messias à terra.
Jesus anuncia Sua Segunda vinda
25“Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas.Na terra as nações ficarão angustiadas com pavor do barulho do mar e das ondas. Os homens vão desmaiar de medo, só de pensar no que vai 
acontecer ao mundo  porque as forças do céu serão abaladas”.
São João Crisóstomo faz uma interessante consideração sobre estes versículos, ao dizer que Nosso Senhor indica aqui uma série de sinais prenunciadores do fim do mundo enquanto, em outras passagens, afirma que este virá num momento inesperado (cf. Mt 24, 42).9
Para explicar esta aparente contradição, levanta o Crisóstomo a hipótese de que nos últimos tempos haverá guerras e perseguições, mas em certo momento tudo entrará numa aparente tranquilidade em meio à desordem do pecado. Os bons ficarão reduzidos a presenciar impotentes todo tipo de abominações. Quando, porém, parecer evidente a todos o triunfo geral e definitivo do mal, dando a ideia de que Deus não existe, o Juiz Supremo Se apresentará inesperadamente para julgar os vivos e os mortos.10
 Santo Agostinho, de sua parte, comenta que os fenômenos da natureza descritos nestes versículos “devem ser entendidos como se referindo à Igreja, pois esta é o sol, a lua e as estrelas; ela tem sido chamada de formosa como a lua, eleita como o sol, e não brilhará nessa época, devido à furiosa perseguição”.11
“Então eles verão o Filho do Homem vindo sobre uma nuvem com grande poder e glória.
Vejamos a bela relação que faz o Pe. Julien Thiriet entre este versículo e a primeira vinda do Senhor: “Eles verão o Filho do Homem vindo com grande poder e majestade. Ou seja, com força invencível, para confundir e castigar Seus inimigos, mas também com uma glória resplandecente, uma majestade divina, para recompensar e coroar Seus eleitos. Assim, depois de ter aparecido sob uma forma humilde e desprezível na Sua primeira vinda — ‘aniquilou-se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo’ (Fl 2, 7) —, aparecerá na última vinda como poderoso Rei e soberano Senhor do Céu e da terra. Todos os homens verão em Seu Corpo as gloriosas cicatrizes de Suas chagas, e os pecadores, conforme disse o profeta Zacarias, reconhecerão Aquele que transpassaram”.12
O fato de Cristo vir sobre uma nuvem é relacionado pelo mesmo autor com o dia de Sua Ascensão: “As nuvens que Lhe serviram de carro triunfal para subir ao Céu, diz Orígenes, servir-Lhe-ão de trono quando Ele descer para julgar a terra”.13
Mais circunstanciado é o comentário de Santo Agostinho, que considera duas possíveis interpretações para esse pormenor:
Pode-se entender isso em dois sentidos. Ele poderá vir à Igreja como sobre uma nuvem, como não cessa de vir agora, conforme diz a Escritura: ‘Vereis doravante o Filho do Homem sentar-Se à direita do Todo-Poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu’ (Mt 26, 64). Mas virá então com grande poder e majestade, porque manifestará mais nos santos Seu poder e majestade divina, pois aumentou-lhes a fortaleza para não sucumbirem na perseguição. Pode-se entender também que venha em Seu Corpo, que está sentado à direita do Pai, no qual morreu, ressuscitou e subiu ao Céu, conforme está escrito nos Atos dos Apóstolos: ‘Dizendo isso, elevou-Se da terra à vista deles e uma nuvem O ocultou aos seus olhos’. E ali mesmo disseram os Anjos: ‘Voltará do mesmo modo que O vistes subir ao Céu’ (At 1, 9.11). Temos, pois, motivos para crer que virá, não só em Seu Corpo, mas também sobre uma nuvem; virá como Se foi, e ao ir-Se uma nuvem O ocultou. É difícil julgar qual dos dois sentidos é o melhor”.14

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Evangelho I Domingo do Advento- Lc 21, 25-28.34-36

Evangelho 1º Domingo do Advento
25Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra as nações ficarão angustiadas com pavor do barulho do mar e das ondas. 26 Os homens vão desmaiar de medo, só de pensar no que vai acontecer ao mundo porque as forças do céu serão abaladas. 27 Então eles verão o Filho do Homem vindo sobre uma nuvem com grande poder e glória.
28 Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça; porque a vossa libertação está próxima. 34 Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes da terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 25-28.34-36).
As três vindas do Senhor
No Natal, o Messias desceu à terra sob os véus da humildade. No fim dos tempos, virá em todo esplendor e glória, como supremo Juiz. Entre essas duas vindas, segundo São Bernardo de Claraval, há uma “terceira vinda” de Jesus, que ocorre a todo instante de nossa vida.
As duas vindas de Cristo
A despreocupação com que a criança vive e brinca lhe advém em grande medida da confiança no apoio, para ela infalível, do pai ou da mãe. Essa salutar segurança é, sem dúvida, uma das razões para a desanuviada e contagiante alegria infantil.
Relacionamento semelhante a esse entre filhos e pais, na ordem natural, observa-se também entre o homem e Deus, na ordem espiritual. É o que poeticamente exprime a Sagrada Escritura ao dizer: “Mantenho em calma e sossego a minha alma, tal como uma criança no seio materno, assim está minha alma em mim mesmo” (Sl 130, 2).
Deus é muito mais do que um pai terreno
Deus, como incomparável Pai, nos ama verdadeira e incondicionalmente, e fica agradado sempre que pedimos Seu auxílio, não importa em que situações. Entretanto, ao contrário da criança, que jamais se esquece dos seus progenitores, tendemos a levar a vida cotidiana sem considerar quanto dependemos da Divina Providência, a qual nunca deixa de velar por nós. E essa propensão à auto-suficiência seria muito maior se nossas debilidades, limitações e infortúnios não nos recordassem frequentemente o quanto precisamos da ajuda divina.
Ora, Deus é para nós muito mais do que um pai terreno, pois d’Ele dependemos de forma absoluta, essencial e única. Em primeiro lugar, Ele nos criou: devemos-Lhe nossa existência. Ademais, Ele nos conserva, nos sustenta no ser, o que nenhum pai humano pode fazer a seu filho. Se Deus, por assim dizer, cessasse de pensar em nós um instante, deixaríamos de existir, voltaríamos ao nada. Em relação a Ele, nossa dependência é total.
Além disso — mistério de amor! —, Deus Se encarnou para nos remir. E o preço pago para essa Redenção foi a morte na Cruz, derramando todo o Seu Sangue por nós. Mais, verdadeiramente, não poderia Ele fazer pela humanidade.
É nessa perspectiva da Bondade de Deus que nos ama como Pai e nos redime, que devemos entrar no período do Advento que hoje começa, e é também nessa clave que comemoramos, na Liturgia deste domingo, as duas vindas de Nosso Senhor.

Uma vinda na humildade e outra na glória
Na primeira, que já se realizou, o Menino Jesus apresentou-Se pobre, humilde, sem qualquer manifestação de grandeza: “Revestido da nossa fragilidade, Ele veio a primeira vez para realizar Seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação”.1 De forma bem diversa se dará a segunda, no fim dos tempos, quando Nosso Senhor vier para julgar os vivos e os mortos: “Revestido de Sua glória, Ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos, que hoje, vigilantes, esperamos”.2
Na Sua primeira vinda, Ele Se apresentou aos homens  
na fraqueza da infância, na pobreza e na indigência
Mostra o grande Bossuet como, ao assumir a natureza humana, Deus quis fazê-lo nas condições mais modestas, humilhando-Se até o inconcebível: “Ele como que caiu, do seio de Seu Pai, no de uma mulher mortal, daí num estábulo, e daí desceu, por sucessivos graus de rebaixamento, até a infâmia da Cruz, até a escuridão do túmulo. Reconheço que não era possível cair mais baixo”.3
Ora, tão humilde quanto foi o nascimento de Jesus, gloriosa será Sua segunda vinda, a respeito da qual afirma São Gregório Magno: “Aquele a Quem não quiseram escutar quando Se apresentou humilde, eles O verão descer em grande poder e majestade, e experimentarão o Seu poder, tanto mais rigoroso quanto menos dobrem agora a cerviz do coração ante a paciência dEle”.4
O acentuado contraste entre essas duas situações leva o Pe. Dehaut a exclamar: “Que diferença entre esta segunda vinda de Jesus e a primeira! Na primeira, Ele Se apresentou aos homens na fraqueza da infância, na pobreza e na indigência, escapando, pela fuga, aos emissários de um tirano sanguinário. Na segunda, descerá cercado de glória e majestade, como Rei do Universo”.5
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