-->

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Evangelho  Quarta-Feira de Cinzas  Mt 6, 1-6.16-18 Ano C - 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho  Quarta-Feira de Cinzas  Mt 6, 1-6.16-18 Ano C - 2013

É vã a oração de quem visa as exterioridades
5 “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Naquela época, era dever de todo varão judeu rezar três vezes por dia: de manhã, coincidindo com o sacrifício matutino, ao meio-dia e na hora do sacrifício vespertino. As preces eram feitas geralmente de pé, com os braços erguidos para o Céu, como a simbolizar o dom que se esperava receber.16
As pessoas costumavam orar no interior das próprias casas. Os fariseus, porém, escolhiam para tal os lugares mais visíveis nas sinagogas ou nas praças públicas. Ali gesticulavam e repetiam de cor grande número de orações, de forma a impressionar quem por lá passava. Inútil dizer que eram vãs essas preces, pois eles já tinham obtido o que almejavam: o aplauso dos transeuntes.
Não caiamos, entretanto, no erro de pensar que Nosso Senhor condena toda oração feita em público. O Divino Mestre recrimina neste versículo apenas a preocupação com as exterioridades, tão frequente nos homens daquele tempo, e a atitude genérica das pessoas que rezam com ostentação ou procurando unicamente o louvor dos semelhantes.
Na nossa vida de piedade, devemos procurar ser discretos
6 “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa”.
A essência da oração, ensina o Catecismo, é a “elevação da mente a Deus”.17 Assim, é possível a qualquer um permanecer em oração inclusive durante os atos comuns da vida, realizando-os com o espírito voltado para o Céu.
Portanto, para rezar não é preciso tomar a atitude espalhafatosa dos fariseus. Devemos, pelo contrário, ser discretos nas manifestações externas de nossa piedade particular, evitando gestos ou palavras que ponham em realce nossa própria pessoa.
Mas se, apesar disso, nossa devoção for notada pelos outros, não devemos nos perturbar, tranquilizemo-nos com este ensinamento de Santo Agostinho: “Não há pecado em ser visto pelos homens, mas sim em proceder com a finalidade de por eles ser visto”.18
O jejum transformado em um ato de caráter social
16 “Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
O espírito oriental, em sua riqueza de expressividade, é propenso a atitudes dramáticas, por vezes bonitas, mas que, nas práticas religiosas, podem extrapolar os padrões normais. Assim acontecia com os fariseus que, ao jejuar, colocavam cinza na cabeça, não penteavam a barba e até pintavam o rosto para dar ideia de tristeza, ostentando uma fisionomia de tragédia.19 Tinham transformado o jejum em um ato de caráter social, uma encenação, para convencer os outros de sua pretendida virtude. E não receavam recorrer a todos os meios disponíveis para atingir esse objetivo.
Uma vez mais, Nosso Senhor os reprova por se servirem da aparência de justiça para impressionar os outros, e afirma terem sido já recompensados pelo seu jejum.
A propósito deste versículo, cabe uma aplicação a nós: ao fazermos algo difícil, nunca procuremos atrair a atenção dos demais, mendigando alguns elogios. Assim procediam muitos santos que, ao praticar severos jejuns, mortificações e austeridades assustadoras, apresentavam-se, por meio de uma santa dissimulação, com uma aparência exterior alegre e jovial.
Alegria e asseio ao praticar a virtude
17 “Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa”.
Além de tornar claro o quanto todas as nossas ações devem ser realizadas em função de Deus, Jesus ressalta aqui a fundamental importância da limpeza para a criatura humana. Devemos primar pelo asseio corporal como reflexo da pureza que desejamos para nosso espírito. E aliando uma apresentação impecável às boas ações, ajudaremos a manifestar que a verdadeira felicidade se encontra na prática da virtude.
Quanto ao conselho de ungir a cabeça, explica São Jerônimo: “Trata-se aqui do costume que havia na Palestina, de se ungir a cabeça nos dias de festa”. E acrescenta que assim, “o Senhor nos ordena que nos manifestemos contentes e alegres quando jejuarmos”.20


Continua no próximo post

16 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.129. Muito interessante é a proposta que fazem os professores de Salamanca, de traduzir a palavra grega hestótes por “com pose” (em lugar de “de pé”), observando, acertadamente, que “com pose” estaria mais de acordo com o contexto desta passagem.

17 Catecismo da Igreja Católica, n.2559.
18 SANTO AGOSTINHO. De sermone Domini, 2, 3.
19 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.151152; GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.191.
20 SÃO JERONIMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Evangelho  Quarta-Feira de Cinzas  Mt 6, 1-6.16-18 - 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho  Quarta-Feira de Cinzas  Mt 6, 1-6.16-18 - 2013

1“Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus”.
Difícil era fariseus serem alheios à hipocrisia. Levados por um supino orgulho, voltavam-se para si mesmos a ponto de se esquecer de Deus, fazendo suas boas obras com o intuito de angariar prestígio “diante dos homens”.
O defeito apontado por Nosso Senhor neste versículo era comum entre eles, e infelizmente não é raro também em nossos dias. Trasbordam das Sagradas Escrituras conselhos sobre esse pecado capital, raiz de muitos vícios, principalmente no livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2). É essa a preocupação do Divino Mestre.
A respeito dos atos humanos podemos afirmar que alguns são neutros, como por exemplo, cantar ou pintar. A substância e o mérito lhes advêm da intenção e da finalidade com as quais os executamos. Outros são bons de per se, por estarem ordenados pela razão a um objetivo honesto. Mas, segundo o Doutor Angélico, “pode acontecer que um ato em si mesmo virtuoso se torne, eventualmente, vicioso, devido a certas circunstâncias”.6
Ora, a vaidade macula muitas vezes nossos atos de virtude e nos rouba os méritos. Pois, como sublinha o Cardeal Gomá, ela é “um perniciosíssimo inimigo das boas obras: praticá-las com o escopo de ser visto e admirado pelos outros, é perder a recompensa que lhes corresponde quando são feitas com reta intenção”.7
Afirmam os mestres da vida espiritual ser a vaidade um vício tão arraigado no homem que, por assim dizer, somente o abandona meia hora depois de sua morte. Para vencêlo, requer-se muita oração, paciência e esforço. Oração, porque por meio dela se obtêm as graças para combatê-lo. Paciência e esforço, porque devemos lutar contra ele dia e noite, impedindo-o de instalar-se em nossa alma, como recomenda São João Crisóstomo: “É necessário prestar muita atenção em sua entrada, do mesmo modo como alguém põe-se em guarda contra uma fera prestes a atacar quem não está vigilante”.8
Poderíamos, então, usar uma expressão forte, mas muito verdadeira: a vaidade é o principal sorvedouro por onde se escoam os méritos das nossas orações e boas obras. Ela é também um veneno para a alma, porque a deixa desprovida de forças para enfrentar as tentações e, portanto, exposta a toda espécie de fraquezas e capitulações.
Convém notar, de outro lado, que ao dizernos: “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, não nos convida o Mestre a sempre nos ocultarmos para fazer o bem, pois praticar a justiça diante dos homens pode ser motivo de edificação para o próximo e de glória para o Criador, como sublinha o grande Bossuet: “Ele não nos proíbe de praticar a justiça cristã em todas as oportunidades, para edificação do próximo; pelo contrário, disse Ele: ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’. [...] Edificai o próximo, por vossas ações externas, e tudo em vós, até mesmo um piscar de olhos, seja ordenado, mas tudo se faça com naturalidade e simplicidade, visando dar glória a Deus”.9
Dar esmola visando o aplauso
2 “Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Não tendo recebido ainda a seiva regeneradora do Cristianismo, na humanidade daquela época imperava de tal modo o egoísmo, que o dar esmola era prática incomum. Quem o fazia, julgava-se merecedor do aplauso dos demais, por sua pretensa bondade. Daí ser costume dar esmola “com muita ostentação”.10
Mais ainda: “Parece que, para excitar a generosidade, estabeleceu-se o hábito de proclamar o nome dos doadores [...] e chegava-se mesmo a honrá-los, oferecendo-lhes os primeiros lugares na sinagoga”.11
Ora, ensina Nosso Senhor, nesta passagem do Evangelho, que quem dá esmola para obter a aprovação dos outros pode considerar-se bem pago pelos elogios assim obtidos. Não lhe cabe esperar um prêmio sobrenatural, pois, conforme acentua o padre Tuya, “Deus recompensa em justiça sobrenatural somente aquilo que se faz sobrenaturalmente por amor a Ele, assim como repugna-Lhe esse censurável procedimento que é a hipocrisia farisaica”.12
Quem, entretanto, dá esmola discretamente, apenas diante de Deus e por amor a Deus, este sim, d’Ele receberá a recompensa.
O prêmio, devemos esperá-lo apenas de Deus
3 “Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará”.
 No versículo anterior, Nosso Senhor recrimina aqueles que visam a vanglória na prática da esmola; neste, censura-nos o comprazimento vaidoso ao realizarmos as boas obras. Para combater esse defeito, precisamos esforçar-nos para não deter nossa atenção naquilo que fazemos de bom. “Se fosse possível — comenta Bossuet —, seria necessário esconder de vós mesmos o bem que fazeis; procurai ocultar a vossos olhos pelo menos o seu mérito; [...] empenhai-vos na prática da boa obra a ponto de jamais vos preocupar com o que dela vos resultará: deixai tudo por conta de Deus, assim só Ele vos verá, vos ocultareis de vós mesmos”.13
Na mesma linha opina o Cardeal Gomá: “Se possível fosse, até nós deveríamos ignorar nossas esmolas. A recompensa, devemos esperá-la somente de Deus”.14
Complementando essas afirmações, esclarece Maldonado: “Não há culpa em ser visto pelos outros quando se faz o bem, mas sim em desejar ser visto. Também não há culpa em querer ser visto, desde que não seja para conseguir o elogio dos homens. ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’”.15

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Evangelho  Quarta-Feira de Cinzas  Mt 6, 1-6.16-18 - 2013

 Comentário ao Evangelho  Mt 6, 1-6.16-18 quarta-feira de cinzas - 2013

1 “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2 Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 3 Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará.
5 Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa.
16 Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa” (Mt 6, 1-6.16-18).
Comentário ao Evangelho – Quarta-Feira de Cinzas
O centro deve estar sempre ocupado por Deus
No jejum, na oração ou na prática de qualquer boa obra, não se pode erigir como fim último o benefício que daí possa nos advir, mas sim a glória d’Aquele que nos criou. Pois tudo quanto é nosso — exceção feita das imperfeições, misérias e pecados — pertence a Deus.
Tempo de penitência e reconciliação
Por meio do Ciclo Litúrgico, com sabedoria e didática, rememora a Igreja ao longo do ano os mais importantes episódios da existência terrena do Verbo Encarnado. As solenidades da Anunciação e do Natal, as comemorações do Tríduo Pascal e da Ascensão de Nosso Senhor aos Céus, entre outras, compõem um variado caleidoscópio, apresentando à piedade dos fiéis diferentes aspectos da infinita perfeição de nosso Redentor. As graças dispensadas pela Providência em cada um desses momentos históricos revivem, de certo modo, e se derramam sobre aqueles que devotamente participam dessas festividades.
Precedendo as solenidades mais importantes — o Nascimento do Salvador e sua Paixão, Morte e Ressurreição — a Igreja destina dois períodos de preparação: o Advento e a Quaresma, pois convém que, para celebrar tão elevados e sublimes mistérios, os fiéis purifiquem suas almas das misérias e apegos, tornando-as mais aptas a receber as dádivas celestes.
Na Quarta-Feira de Cinzas têm início os quarenta dias que antecedem a Semana Santa. As três leituras desse dia — uma passagem do Profeta Joel, um trecho de uma epístola de São Paulo e outro do Evangelho — nos falam da necessidade do jejum e da penitência como meios de melhor combater os vícios, pela mortificação do corpo, e propiciar a elevação da mente a Deus. Pois, segundo nos ensina o Papa São Leão Magno, “nós nos mortificamos para extinguir em nós a concupiscência. E o resultado da mortificação deve ser o abandono das ações desonestas e dos desejos injustos”.1
Como mais adiante veremos, os textos litúrgicos em questão fazem referência, sobretudo, a um tipo de penitência que agrada especialmente a Deus e que é essencial para nossa vida espiritual. Trata-se de evitar os exageros do amor próprio, procurando não atrair as atenções dos outros sobre si mesmo, de maneira que a alma, limpa e ornada da virtude da humildade, ofereça ao Senhor um sacrifício de agradável perfume.
“Lembra-te, homem, de que és pó”
De forma cogente, a liturgia da Quarta-Feira de Cinzas recorda-nos também nossa condição de mortais: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris — Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó hás de voltar”, diz, de modo categórico, uma das duas fórmulas usadas pela Igreja para a imposição das cinzas.2 Após a cerimônia, a fronte dos fiéis fica marcada por um traço escuro cujo aspecto trágico e carente de beleza parece proclamar: “De uma hora para outra, podemos ser levados pela morte, retornando ao pó!”.
A consideração da árdua passagem desta vida para a eternidade muitas vezes nos inquieta. Entretanto, tal pensamento é altamente benfazejo para compenetrar-nos da necessidade de evitar o pecado que, sem o arrependimento e o imerecido perdão, poderá fechar-nos, para sempre, as portas do Céu: “Lembra-te de teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40). A esse propósito, com propriedade, Dom Próspero Gueranger recomenda: “Se quisermos perseverar no bem, onde a graça de Deus nos restabeleceu, sejamos humildes, aceitemos a sentença, e não consideremos a vida senão como uma caminhada mais ou menos longa que termina no túmulo”.3
“Deixai-vos reconciliar com Deus”
Na própria primeira leitura de hoje, incentiva-nos São Paulo a vivermos na graça de Deus: “Em nome de Cristo, vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!” (II Cor, 5, 20). E com toda razão, pois o pecado nos afasta de Deus, tornando necessária a reconciliação. A Doutrina Católica nos ensina que nem mesmo os incomensuráveis méritos de Nossa Senhora somados aos dos Anjos e dos Bemaventurados, e aos de todos aqueles que poderiam ter sido criados e não o foram, seriam suficientes para reparar a ofensa de um só pecado venial. Quanto mais em se tratando de uma falta grave!
Só mesmo o Adorabilíssimo Sangue de Deus teria mérito infinito para redimir as ofensas cometidas pelos homens, desde Adão e Eva, como, com a elevação de linguagem de sempre, mostra-nos São Paulo: “Aquele que não conheceu o pecado, Deus O fez pecado por nós, para que n’Ele nós nos tornássemos justiça de Deus” (II Cor 5, 21). A Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, com sua Paixão e Morte na cruz, foi o meio escolhido para restituir à humanidade transviada a plena amizade com Deus. E, por serem insuperáveis as operações divinas, tal foi a superabundância de graça conquistada pelo sacrifício do Calvário que, mesmo a soma de todas as possíveis faltas dos homens jamais tornará insuficientes os méritos infinitos do Preciosíssimo Sangue de Cristo.4
Se Jesus não tivesse assumido sobre Si a dívida contraída por nossos primeiros pais, por meio da oblação de seu Corpo, impossível seria nossa reconciliação com Deus 5 e teríamos para sempre fechadas as portas do Céu.

Amor próprio, oração e jejum

Na passagem do Evangelho que hoje analisamos, vemos o Divino Mestre tomar como exemplo didático uma cena característica daqueles tempos. Sob uma perspectiva histórica, Ele censura uma atitude corrente, sobretudo entre os fariseus. Mas, sendo eterna a palavra de Deus, contém ela uma lição para os homens de todos os séculos.

Continua no próximo post.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11 - Ano C 2013

O principal fruto da pesca
‘‘Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus”.
Grande parte dos comentaristas reúne num só episódio os relatos dos sinópticos a respeito da vocação dos referidos Apóstolos, considerando o convite do Mestre, na resumida narração de São Mateus e de São Marcos, como tendo sido feito logo após os pescadores terem regressado com as barcas: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens” (Mt 4, 19; Mc1, 17). Os dois primeiros Evangelistas o registram em forma de mandado oficial, dado a Pedro e André e, logo em seguida, a Tiago e João, o que, segundo São Lucas, havia sido prenunciado como missão de Pedro, em meio às águas: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5, 10).
“Jesus, com sua graça, dá eficácia ao chamado, sua voz é ouvida sem demora nem réplica. ‘No mesmo instante’, produzindo em suas almas um total desapego a tudo parentes, amigos, relações, posses —, ‘deixando tudo’, e sentindo uma atração irresistível por Jesus, ‘O seguiram’, sem se preocupar aonde iam”,9 aponta Gomá y Tomás. A conquista dos futuros Apóstolos fora o principal fruto da pesca milagrosa, confirmando a eficácia plena da didática do Divino Pescador.
CHAMADO PARA TODOS OS SÉCULOS
O eco do encargo entregue aos Apóstolos às margens do lago de Genesaré repercute ao longo dos séculos e chega também a nós, conclamando-nos à missão de trabalhar pela glória de Deus e da Igreja, quer sejamos clérigos, religiosos ou leigos. Como católicos, devemos buscar a edificação de uma sociedade conforme aos preceitos evangélicos e, para isso, cabe-nos a responsabilidade de atrair as almas dispersas no mar revolto do mundo moderno e levá-las à barca de Pedro.
Não obstante, não poucas serão as dificuldades para exercer tão elevada função, sobretudo quando nos deparamos com nossas próprias insuficiências e falhas. Diante dessa desproporção, avançar e lançar as redes se afigura como algo impossível. O que nos é necessário para corresponder a uma missão tão superior às nossas capacidades? E o próprio Mestre quem nos responde, pela pena de São Paulo: “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (II Cor 12, 9).
Portanto, quanto mais nos sentirmos incapazes de cumprir a vocação à qual Deus nos chama, maior deve ser nossa confiança no poder da voz que nos convoca. E vendo uma atitude de humildade cheia de fé que Nosso Senhor opera a pesca milagrosa, deixando patente que os bons resultados não dependem das qualidades nem dos esforços humanos. Ele confunde os fortes deste mundo e conduz os fracos à realização de obras grandiosas (cf. I Cor 1, 27).
A exemplo de Pedro, sejamos generosos e confiantes, pois também em nossas vidas Cristo apareceu ordenando: “Duc in altum! Eu os quero como instrumentos para renovar a face da Terra! Não tenham medo, pois Eu mesmo lhes darei as forças para a obtenção de um glorioso resultado!”
9) GOMA Y TOMÁS, op. cit., p.78.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11 - Ano C 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho Lc 5 1-11  5º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013
A humildade, condição para corresponder ao chamado
8 Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” E que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.10a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados.
Embora Pedro já tivesse presenciado outros milagres — inclusive a cura de sua sogra (cf. Lc 4, 38-39) —, ficou de fato impressionado diante do acontecido. E este é outro aspecto da pedagogia usada pelo Redentor: adaptar o chamado ao modo de ser e às aptidões de cada pessoa. “Era o milagre que faltava para convencer um pescador, como era Simão Pedro”,5 comenta o padre Cantalamessa. Por essa mesma razão São Lucas nomeia Tiago e João, entre os outros pescadores, para assinalar como o ocorrido lhes tocara fundo a alma, pois, apesar de haverem testemunhado em outras ocasiões diversos prodígios do Mestre, “também ficaram espantados”.
Pouco antes de retornar à Galileia, Jesus agira de forma semelhante à beira do poço de Jacó, ao oferecer à samaritana uma água que a saciaria para sempre (cf. Jo 4, 1-42). 0 assunto logo despertou a atenção da mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!” (Jo 4, 15) e, abrindo a alma à ação da graça, após esse encontro tornou-se propagadora de Nosso Senhor entre seus concidadãos, levando muitos samaritanos a crerem n’Ele.
No caso de Pedro, só nesse momento ele compreendeu a fundo a infinita diferença que o separava de Cristo, cuja grandeza a descomunal pesca evidenciava de modo particular a seus olhos de pescador. Veio-lhe, então, o imediato reconhecimento da própria insuficiência e, sentindo-se analisado pelo olhar de Jesus, percebeu em que medida Ele conhecia por inteiro o fundo de sua alma, bem como suas faltas. Compenetrado dessa condição de pecador, prostrou-se diante do Homem-Deus e pediu que dele se afastasse. Não cogitava ser tal manifestação de humildade o último precedente da missão que o aproximaria do Salvador de modo definitivo.
Pescador de homens
10b Jesus porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”.
Relacionando pela primeira vez o milagre com o chamado, o Mestre tranquilizou Pedro, “como se dissesse: Não te espantes, mas alegra-te e crê que estás designado por minha Providência a uma pesca superior. Outra barca e outras redes te serão dadas, porque até agora pescavas peixes com tuas redes, mas doravante, e em breve, pescarás homens através de tuas palavras, trazendo-os pela sã doutrina ao caminho da salvação”.6
Convém notar que, associando o conceito de pesca ao apostolado, Jesus também deixava entrever a Pedro e a seus companheiros como “esse penoso ofício havia sido excelente escola de preparação para serem dignos discípulos do Messias. Nele haviam aprendido a paciência e o animoso trabalhar”,7 observa Fillion. Com efeito, do mesmo modo que para obter peixes não temiam os perigos da noite e os demais contratempos da profissão, também audazes deveriam ser enquanto missionários, arriscando-se aos mais ousados lances de evangelização. Ademais, na pesca apostólica, cujas redes “impedem que pereçam os que foram colhidos, mas os conservam e os trazem do abismo até à luz”,8 nunca deveriam desanimar, mesmo após muito se empenharem sem nada obter, sabendo esperar o momento propício para o agir da graça nas almas, o qual não depende dos esforços do apóstolo, mas, sim, da vontade de Deus.
Importante é ressaltar não ter Nosso Senhor confirmado nem negado a condição de pecador de Pedro, visando mostrar-lhe que Deus jamais outorga uma vocação em função das virtudes ou defeitos dos homens, conhecidos por Ele desde toda a eternidade. Um chamado resulta de um desígnio de sua infinita misericórdia. Jesus não se atém à consideração das fraquezas de Pedro, pois assim como elas não constituíram impedimento para sua escolha como Príncipe dos Apóstolos, também não o seriam para a realização de tal missão.
Continua no próximo post.


5) CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Echad ias redes. Reflexiones sobre los Evangelios. Ciclo C. Valencia: Edicep, 2003, p.196.
6) GARCÍA MATEO, SJ, Rogelio. El misterio de la vida de Cristo en los ejercicios ignacianos y en el “Vita Christi” Cartujano, de Ludoif von Sachsen. Antología de Textos. Madrid: BAC, 2002, p.103.
7) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.23. “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5, 10)
8) SANTO AMBROSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. LIV, n.72. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, vi, p.227.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11 - Ano C 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11  - Ano C  2013
“Avança para águas mais profundas!”
4Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.
Com esta ordem de avançar “para águas mais profundas”, o Redentor indicava a ousadia que deveria caracterizar as metas daqueles pescadores dali em diante, predispondo-os a uma ação mais ampla do que os limitados horizontes lacustres nos quais trabalhavam: o plano divino da salvação dos homens. Em outras palavras, Nosso Senhor pedia corações generosos.
Ora, Simão era pescador veterano, e a prática lhe dizia não haver a menor possibilidade de pescar algo na manhã seguinte a uma noite de trabalho infrutífero. Desse modo, tinha razões válidas e escusas suficientes para não atender à ordem de Jesus e poderia ter argumentado em favor de uma resposta negativa, valendo-se de seus conhecimentos na matéria e alegando ser inconveniente — ou até mesmo inútil — lançar as redes. Entretanto, agiu de modo diferente.
5Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.
Longe de ser uma manifestação de falta de fé, a explicação dada por Simão — em um tom de voz que podemos conjecturar cheio de deferência — ratifica sua confiança na palavra do Mestre. Agindo de modo coerente, pratica um ato de perfeita obediência, pois, sendo experimentado, suspende o próprio juízo e cumpre de imediato a ordem recebida. Tal fé e docilidade à determinação divina, atributos imprescindíveis de um genuíno apóstolo, eram a resposta esperada por Jesus para realizar o milagre.
Pesca prodigiosa
6Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. 7Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem.
Como resultado final da pesca, “obteve-se tal quantidade de peixes quanto quis o Senhor do mar e da terra”,3 afirma São Gregório Niceno. Além de representar a messe abundante — para a qual, já prevenia os futuros Apóstolos, eram poucos os operários... , Cristo também lhes mostrava a importância da harmonia e do mútuo auxílio entre eles. Sem a colaboração dos companheiros da segunda barca, teria sido impossível retirar das águas aqueles peixes, assim como para a evangelização do mundo seria necessária a união de forças dos apóstolos, a fim de conduzir ao caminho da salvação cada uma das almas que a Providência lhes confiaria.
A fartura de peixes traz ainda outra marca da tão insuperável didática utilizada por Jesus: peritos na arte pesqueira, os discípulos logo concluíram não ser naturalmente explicável o acontecido, O Mestre já realizara um milagre sobre uma criatura inanimada, transformando a água em vinho nas Bodas de Caná, e agora, demonstrando pela primeira vez seu poder sobre a natureza animal, levava-os a compreender que dominava de modo absoluto todos os seres. Desta maneira, antes de convocar aqueles discípulos a segui-Lo sem reservas, quis Jesus manifestar seu poder sobre a criação através dessa pródiga pesca, para convencê-los de que Ele sempre os proveria em quaisquer necessidades temporais na vida missionária, facilitando-lhes a renúncia às preocupações terrenas.
Não obstante, o mais importante objetivo de Jesus era fazer Simão compreender — e, com ele, os demais discípulos — “que, se durante a noite inteira não havia pegado nada, era inútil todo seu esforço sem Cristo, como o são todos os nossos atos humanos sem a graça divina”,4 explica Maldonado. O Salvador queria deixar consignado o quanto a missão de salvar as almas será continuamente uma pesca milagrosa, na qual o apóstolo figura como mero instrumento. Sua habilidade e diligência serão frustradas se não forem movidas pela voz d’Aquele que disse de Si mesmo: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).
Continua no próximo post.

3) SÃO GREGÓRIO NICENO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, cV, v.5-7; 8-11.
4) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.11, p.478.
 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11 - Ano C 2013


Continuação dos comentários ao Evangelho 5º Domingo do Tempo Comum Lc 5 1-11  - Ano C  2013

2 Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Naquela época o lago de Genesaré era centro de intensa atividade pesqueira, que constituía o principal meio de subsistência da população local. Como o exercício da profissão exigia sempre a ação em conjunto, os pescadores se reuniam em pequenas equipes, sendo comum duas ou mais dessas corporações se associarem. Com barca própria e sob a direção de um arrais, os grupos de consócios uniam esforços na faina de cada jornada e partilhavam o produto final obtido.
No episódio aqui contado, as duas embarcações — uma, de Simão; outra, de Zebedeu — haviam regressado após uma noite de vãs tentativas. Ao estado de desapontamento geral dos pescadores somavam-se os incômodos de outros fatores humanos, como o cansaço da noite passada em claro e a necessidade de lavar as redes, labor indispensável depois da pesca, fosse esta bem ou mal sucedida.
Segundo a cuidadosa pedagogia do Mestre, era assim, exaustos e sentindo-se fracassados, que os pescadores se encontravam nas condições ideais para receber a missão a eles reservada.
A barca, símbolo da Igreja
3Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões.
Como todos os atos de Nosso Senhor, a escolha da barca tem profundo significado. Os comentários a esse respeito são unânimes: com tal gesto, Cristo quis indicar a proeminente posição de Simão no colégio apostólico, o qual em breve seria constituído, simbolizando a barca a Igreja, então nascente. “A partir da Igreja, Jesus, pessoalmente ou através de Pedro, seu Vigário, instrui o mundo. ‘Onde está Pedro, aí está a Igreja’. Isto nos dá a medida da adesão que devemos professar à Sé de Pedro”,2 explica o Cardeal Gomá y Tomás.
Ademais, um pequeno detalhe desperta nossa atenção: terá Jesus subido na barca estando ela na areia — sem molhar os pés, portanto — ou foi preciso dar alguns passos dentro da água, até chegar à embarcação? Tanto em uma quanto na outra hipótese, a areia se beneficiou por ser próprio Deus feito homem. Terá o mesmo acontecido E uma das muitas curiosidades provocadas pelas si ativas evangélicas...
Aproveitando o natural declive da praia, onde o público se encontrava apinhado, o Mestre pediu a Simão que se distanciasse um pouco da margem, formando um original anfiteatro. Admirável era a poesia da cena: enquanto a embarcação balançava pausadamente nas águas ao sabor da ondulação, o Criador do Céu e da Terra, Deus Encarnado, doutrinava a multidão!

Continua no próximo post.

2) GOMA Y TOMAS, Isidro. El Evangelio explicado. Años primero y segundo de la vida pública de Jesús. Barcelona: Balmes, 1930, v.11, p.80.