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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum - Ano C 2013 - Lc 21, 5-19

Evangelho Lc 21, 5-19
Naquele tempo, 5 algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: 6 ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’. 7 Mas eles perguntaram: ‘Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?’. 8
Jesus respondeu: ‘Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente! 9
Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim’. 10
E Jesus continuou: ‘Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11 Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu. 12 Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. 13 Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. 14 Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15 porque Eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. 16 Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17 Todos vos odiarão por causa do meu nome. 18 Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. 19 É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!’” (Lc 21, 5-19).

Comentário ao Evangelho – XXXIII Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013                                                                           

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

Ao longo de sua bimilenar História, a Igreja caminhou sempre sob o signo da perseguição. Entretanto, a cada investida das forças adversárias, brilha ela com maior esplendor.
O Sinal dos verdadeiros discípulos
Conta-se que São Pio X, durante audiência aos membros de um dos colégios eclesiásticos romanos, perguntou aos jovens estudantes:
–– Quais são as notas distintivas da verdadeira Igreja de Cristo?
São quatro, Santo Padre: Una, Santa, Católica e Apostólica — respondeu um deles.
–– Não há mais de quatro? — indagou o Papa.
–– Ela é também Romana: Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.
–– Exatamente, mas não falta mencionar ainda uma característica das mais evidentes? –– insistiu o Pontífice.
Após um instante de silêncio, ele próprio respondeu:
Ela é também perseguida! Esse é o sinal de sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.
Ódio contra Cristo e sua Igreja
A Igreja é perseguida. De fato, sem essa nota não se entende bem a história da Esposa de Cristo, que já começa sob esse signo na mais tenra infância do seu Divino Fundador. Que mal poderia fazer a Herodes aquele Menino, filho de carpinteiro, nascido numa gruta e deitado numa manjedoura? Nenhum. Mas na ímpia tentativa de tirar-Lhe a vida, o tetrarca não hesitou em mandar assassinar crianças inocentes.
Ao longo da vida pública de Jesus, o ódio contra Ele não fez senão crescer, e chegou ao paroxismo quando os fariseus tomaram a decisão de matá-Lo e obtiveram de Pilatos a iníqua sentença de condenação. De tal forma detestavam o Divino Mestre, que não toleravam sequer vê-Lo fazer o bem, ou ensinar a doutrina da Salvação.
Nessa mesma inimizade encontra-se a fonte das investidas sofridas pela Igreja após a subida de Nosso Senhor ao Céu. Assim, foi movido por ódio furibundo contra os cristãos que Nero deu início, no ano 64, à sangrenta perseguição que haveria de durar, com intermitências, até 313, quando o Imperador Constantino concedeu liberdade à Igreja, pelo Edito de Milão.1
E ao longo dos séculos subsequentes, a Esposa de Cristo nunca deixou de enfrentar os mais variados ataques — por vezes cruentos — e incessantes oposições, ora abertas, ora solapadas. Mesmo em nossos dias, este ódio contra aqueles que praticam o bem não deixa de se manifestar em seus múltiplos aspectos.
Os maus não suportam os bons
Se o mundo vos aborrece, sabei que aborreceu primeiro a Mim. Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu Senhor’. Se Me perseguiram a Mim, também a vós vos perseguirão” (Jo 15, 18.20). Por estas palavras de Jesus, vemos serem a adversidade e a incompreensão inerentes à existência terrena do verdadeiro fiel, pela irreversível incompatibilidade entre a doutrina do mundo e a de Cristo. Pois, desde o tempo dos nossos primeiros pais, há entre a bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça da serpente maldita o irreconciliável antagonismo descrito pelo Gênesis: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).
Os maus não suportam os bons, e para estes, o ódio daqueles indica eleição por parte de Deus, conforme se depreende destas palavras de São Jerônimo a Santo Agostinho: “Sois celebrado por todo o mundo. Os católicos veneram e reconhecem em vós o restaurador da antiga Fé, e — o que é sinal de glória ainda maior — todos os hereges vos detestam e perseguem com o mesmo ódio que a mim, anelando matar-nos com o desejo, já que não podem fazê-lo com as armas”.2
É na fidelidade dos justos diante das perseguições que reluz de modo especial a glória de Deus.
Anúncio do fim do mundo
A liturgia escolhida pela Igreja para este penúltimo Domingo do Tempo Comum significa praticamente o término do Ano Litúrgico C, uma vez que antecede à Solenidade de Cristo Rei. A perspectiva do fim do mundo e do Juízo Final é muito acentuada nos textos, e convida-nos a considerar com mais atenção a justiça, contraponto indispensável da bondade e da misericórdia divinas.
Naquele tempo, 5 algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas”.
Após acerba discussão com os escribas e fariseus, ocorrida justamente no recinto do Templo (cf. Lc 20, 45-47; Mt 23, 13-36; Mc 12, 38-40), dirigia-Se Jesus ao Monte das Oliveiras. No caminho, os discípulos manifestavam seu encanto com a beleza daquela “construção de imensa opulência”, no dizer de Tácito,3 rica em simbologias que elevavam a mente para Deus, como convém a todo edifício religioso.
Ponto de referência máximo do povo judeu, para o Templo se voltavam os corações dos israelitas do mundo inteiro. Extraordinária era sua história, desde o momento em que, erigido por Salomão, uma densa e miraculosa nuvem dele tomara conta: ali ofereciam-se os verdadeiros sacrifícios, eram recebidas insignes graças e os devotos entravam num contato mais intenso com o sobrenatural. Embelezar o Templo era, então, realçar ainda mais o seu significado espiritual.
Entretanto, a julgar pelas palavras ditas a seguir por Nosso Senhor, tudo indica que estavam eles contemplando a Casa de Deus com uma visualização meramente naturalista.
Admiravam o Templo, mas não adoravam Quem o habitava
Jesus disse: 6 ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’”.
Os Apóstolos tinham diante de si Alguém que valia muito mais do que o Templo: o Criador, o Redentor, a Sabedoria eterna e encarnada. Ao contemplarem com olhos mundanos aquele prédio, manifestavam-se cegos para Deus, porque detinham-se na admiração da criatura sem se elevar até o Criador; compreendiam o símbolo, mas não o Simbolizado. Esta é a razão da contundente advertência de Nosso Senhor.
Pelas mãos de Maria, fora o Menino Jesus apresentado no Templo. Suas muralhas testemunharam as pregações e os inúmeros milagres de Jesus, mas as pedras vivas que o compunham — os sacerdotes e os fiéis — não aceitaram o Messias: “Ele veio para os seus e os seus não O receberam” (Jo 1, 11). Eis por que caiu sobre tão faustoso edifício a terrível condenação: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”.
E essa dura profecia tardaria menos de quarenta anos em realizar-se do modo mais radical possível. “Permitiu a Divina Providência a destruição de toda a cidade e do Templo para que nenhum daqueles que ainda estavam débeis na fé — admirado por subsistirem ainda os ritos de seus sacrifícios — fosse seduzido por suas diversas cerimônias”, comenta São Beda.4
Continua 


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 - Lc 20, 27-38

Continuação dos comentários ao Evangelho 32º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 - Lc 20, 27-38

 A cilada dos Saduceus
Essa é a maravilhosa realidade — revelada por Cristo Jesus e explicitada pela Igreja infalível — que nossa fé católica nos faz aguardar com fortalecida esperança. Mas, na Antiguidade nem de longe essa doutrina era assim conhecida. Sobretudo era ignorada entre os pagãos e mais especialmente em meio a certas correntes filosóficas da Grécia. Não é difícil compreender a razão pela qual se tinha criado obstáculos contra a possibilidade de haver ressurreição.
Antes de tudo devemos considerar a constatação histórica, no dia-adia, sobre os mortos: quais deles retornam à vida? Porém, indo mais ao fundo do problema, encontramos a luta que se estabelece no interior de todo homem entre suas más inclinações e sua consciência. Sendo a criatura humana um monolito de lógica, se admite ela a ressurreição dos corpos como um prêmio ou castigo eternos em proporção aos méritos ou culpas, ver-se-á na obrigação de cumprir as leis morais contra sua própria concupiscência. Sem a graça de Deus, essa batalha sempre termina mal. Ora, foi bem exatamente esse o resultado obtido pelos povos da Antiguidade, chegando alguns filósofos a defender a tese da materialidade da alma e de sua morte concomitante à do corpo.
Origem do partido dos saduceus
Sob o império de Alexandre Magno (356 – 323 a.C.) houve um enorme empenho na helenização e colonização do território pertencente aos hebreus. Do povo eleito, a classe mais abastada foi a mais atingida pela influência estrangeira e, aos poucos, transformou-se numa espécie de aristocracia sacerdotal, dando origem ao partido dos saduceus.
Cumpridores exatos das formalidades da Lei, os membros desse partido eram, na realidade, incrédulos e relativistas em matéria moral. Reduziam ao mínimo as exigências dogmáticas e não receavam professar erros crassos hauridos do mundo pagão, como por exemplo chegavam a se opor à existência dos anjos e, pior ainda, não aceitavam a própria existência das almas separadas dos corpos. Negavam inclusive a providência de Deus, como também Sua ação sobre os acontecimentos. Eram ateus-práticos e apesar de se revestirem dos cerimoniais do culto da religião judaica, não passavam de semipagãos. Não é difícil concebê-lo pois, ainda nos dias de hoje esbarramos não poucas vezes com pessoas dessa mentalidade e submersas nas mesmas convicções.
Apesar do número dos saduceus ser proporcionalmente muito reduzido, a péssima influência por eles exercida sobre o povo, era bem considerável, devido à sua situação social. Seu nome tem origem na palavra hebraica ṣadiq (‫ ,)צדיק‬ou seja, justo. Talvez por arrogância própria, eles mesmos escolheram esse nome, ou por debique lhes foi conferido por outros.
Os saduceus constituíam uma forte corrente, em oposição os fariseus. Os dois partidos compunham o quadro político social e religioso vigente durante a vida pública do Divino Mestre. Apesar do caráter inteiramente pacífico, ordeiro e caritativo em extremo da atuação de Jesus, essas correntes — acrescentemos ademais o sinédrio, os escribas e os herodianos — se alternavam para de maneira encarniçada Lhe armar alguma cilada da qual pudesse resultar sua prisão e condenação à morte. Eis a vez dos saduceus com seu deboche feito de ceticismo.
A objeção levantada pelos saduceus
Aproximaram-se depois alguns saduceus, que negam a ressurreição, e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer o irmão de algum homem, tendo mulher, e não deixar filhos, case-se com ela o seu irmão, para dar descendência ao irmão.’ Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou, e morreu sem filhos. Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filhos. Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete; e morreram sem deixar filhos. Morreu enfim também a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher, pois que o foi de todos os sete?”.
Sobre esses versículos, afirma Filion: “A citação dos saduceus era exata quanto ao sentido. Esta prescrição, que não era particular dos judeus, pois também é encontrada em vários povos antigos, como os egípcios, os persas e os hindus, e ainda hoje entre os circasianos, é conhecida com o nome de lei do Levirado, que seria a lei que regula o matrimônio entre cunhados e cunhadas. Tinha por objetivo conservar o ramo primogênito de cada família e impedir a excessiva transmissão dos bens a outrem. Não estava limitada aos irmãos do marido morto sem filhos, mas se estendia também aos parentes próximos, como sabemos pelo livro de Ruth (3, 9-13). Não era estritamente obrigatória, mas o que se recusasse cumpri-la tinha que se submeter a uma cerimônia humilhante (Dt 25, 7-10; Rt 4, 1-11). Apesar de que no tempo de Nosso Senhor já havia caído em descrédito, que irá aumentando com os anos, não havia cessado de estar em vigor na Palestina. […]
Esta breve narração, picante e rápida, é um modelo de casuística refinada. Seus autores davam por seguro que a questão que acabavam de propor a Jesus lhe co- locaria seguramente em um grande apuro. Como poderá responder esta deductio in absurdum? Não parece que fere de morte o dogma da ressurreição dos corpos, provando que deste nascem dificuldades insolúveis? Ainda que não tivesse havido mais do que dois matrimônios, a questão se apresentaria do mesmo modo (a bem da verdade, a propuseram alguns rabinos e estes a haviam resolvido dizendo que neste caso a mulher pertenceria, na outra vida, ao primeiro dos dois maridos. Zohar Gen. 24, 96); mas, multiplicando-os desta maneira, os saduceus conseguem ressaltar mais a objeção” 12.
Entretanto, poderíamos, com segurança, afirmar ser característica evidente de inteligência superficial e sem substância, o julgar os acontecimentos e o próprio ser humano pelas simples aparências sensíveis, sem nunca se elevar ao invisível. Para esse tipo de gente, Deus lhes é semelhante e a eternidade não é senão um prolongamento do mundo atual se é que ela existe. Não se poderia esperar outro tipo de objeção de um libertino para justificar seu relativismo.
É incrível a semelhança do discurso dos saduceus com o raciocínio de certos filósofos atuais e de outros tempos. São tão numerosas as oposições ao dogma da ressurreição surgidas ao longo da História que se fôssemos catalogá-las todas, seria intérmina sua coleção.
Resposta do Divino Mestre
Jesus disse-lhes: “Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas os que forem julgados dignos do mundo futuro e da ressurreição dos mortos, não desposarão mulheres, nem as mulheres desposarão homens, porque não poderão jamais morrer; porquanto são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição”.
Em nossa vida terrena, devido à mortalidade, a existência da sucessão é indispensável para perpetuar-se a humanidade, e por consequência o matrimônio será uma exigência até se completar o número dos eleitos.
Ora, a eternidade, enquanto excelente imagem de Deus, não comportará a morte, e os bem-aventurados viverão exclusivamente nas leis do Espírito, no conhecimento e amor de Deus, vendo-O face a face. Os corações e as inteligências estarão unidos nas castas delícias da caridade perfeita, sem nenhuma necessidade do matrimônio. “Porque os casamentos são feitos para se ter filhos; os filhos vêm para a sucessão; e a sucessão chega pela morte; portanto, onde não há morte não há casamentos” 13.
Não é demais insistirmos que erraríamos se julgássemos ser a ressurreição um acontecimento exclusivo aos corpos dos justos. Não se deve crer “que unicamente ressuscitarão os que sejam dignos ou os que não se casam, mas também ressuscitarão todos os pecadores, e não se casarão na outra vida. Além do mais, o Senhor, para estimular nossas almas a buscar a ressurreição gloriosa, quis falar somente dos eleitos” 14.
Depois da ressurreição, os corpos dos eleitos serão “angelizados” e já não estarão sujeitos às leis da matéria e nem às da animalidade, conforme anteriormente dissemos. Torna-se patente, assim, o quanto devemos evitar o pecado pois, “se viverdes segundo a carne, morrereis [ressuscitar para ser lançado em corpo e alma no inferno, é morte eterna], mas se, pelo Espírito, fizerdes morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8, 13).
Deus não cria nossos corpos diretamente como o faz com nossas almas. Nesse sentido, somos filhos dos homens, expostos a todas as contingências inerentes à nossa natureza, até a morte. Como “filhos da ressurreição”, seremos filhos da onipotência divina, a qual restaurará nossos corpos de forma imediata, sem o concurso nem sequer de nossos pais terrenos.
Eis o quanto estavam errados os saduceus com seus falsos e infundados argumentos. Quando se afasta de Deus e de sua Revelação, o homem sempre cria sistemas de pensamento obscuros, estreitos e obtusos.
A imortalidade da alma
Que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés no episódio da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos são vivos.”
Nesses versículos, claramente defende o Divino Mestre a imortalidade da alma, depois de ter revelado a ressurreição dos corpos. As Escrituras têm outras passagens ainda mais explícitas sobre a ressurreição (Dn 12, 2; Is 26, 19) que bem poderiam ter sido enunciadas por Jesus. Mas Ele lançou mão do exemplo ocorrido na vida de Moisés, para refutar a citação feita pelos próprios saduceus ao Levirato (Dt 25, 5-6).
Se o homem, ao morrer, se precipitasse no vazio, aniquilando-se em seu ser, todas as promessas da Escritura cairiam também no vazio. Deus jamais reduz ao nada qualquer de suas criaturas. As formas podem ser mutáveis, mas as substâncias permanecem. Nossos corpos são como que invólucros de nossas almas. Estas podem se desprender daqueles, cessando de emitir aos nossos sentidos as manifestações de sua existência, mas continuarão a viver na vingança ou no amor de Deus, nas trevas ou na Luz eternas.
Se Deus se define como ‘Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó’ e é um Deus de vivos, não de mortos, então quer dizer que Abraão, Isaac e Jacó vivem em alguma parte; se bem que, no momento em que Deus fala a Moisés, eles já haviam desaparecido há séculos. Se existe Deus, existe também a vida além do túmulo. Uma coisa não pode estar sem a outra. Seria absurdo chamar a Deus de ‘o Deus dos vivos’ se, no final, Ele se encontrasse só para reinar sobre um imenso cemitério de mortos. Não entendo as pessoas (parece que existem) que dizem crer em Deus, mas não em uma vida ultra-terrena.
A pesar disso, não é necessário pensar que a vida além da morte começa só com a ressurreição final. Aquele será o momento em que Deus, também, tornará a dar vida aos nossos corpos mortais” 15.
Conclusão
Frustradamente vive o mundo, hoje em dia, à busca de novos prazeres, a fim satisfazer a sede de infinito que arde no âmago da alma humana. Se pudessem os homens ouvir um acorde da música celeste que arrebatou em êxtase a São Francisco, ou contemplar por um rápido momento a face de Deus que levou a São Silvano ter repugnância às faces dos homens, compreenderiam o quanto as delícias do Céu são puríssimas, eternas e opostas às da Terra.
Sêneca comentando o suicídio de Catão, concretizado com o auxílio de um punhal, para fugir das considerações de uma Roma que perdera a liberdade, afirma que o motivo principal de sua morte estava centrado na doutrina elaborada por Platão em sua obra Fedon, na qual explana longamente a imortalidade da alma. Em sua genialidade, Sêneca resume o ato com esta frase: “Ferrum fecit ut mori posset, Plato ut vellet”: O ferro (aço) fez que pudesse morrer, Platão que quisesse.” Se os próprios pagãos quando fiéis à razão chegavam a essas conclusões, por que nós batizados haveremos de seguir os equívocos dos saduceus?
1) Suma contra Gent. 4, 84. 2) Idem, ibidem, 4, 86 3 ) Idem, ibidem. 4 ) Idem, ibidem. 5 ) Idem, ibidem. 6 ) Idem, ibidem. 7 ) Suma contra Gent. 4, 89. 8 ) Idem, ibidem. 9 ) Idem, ibidem. 10 ) Idem, ibidem. 11 ) Idem, ibidem. 12 ) L.–Cl. FILLION. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Editorial Voluntad, 1927. T. IV, p. 95-96. 13) SANTO AGOSTINHO apud S. Tomás de Aquino, Catena Aurea.14) BEDA apud Ibidem. 15) CANTALAMESSA, Raniero. Echad las Redes. Ciclo C. EDICEPI C.B., 2001, p. 346.


domingo, 3 de novembro de 2013

Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 - Lc 20, 27-38

Comentários ao Evangelho 32º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 - Lc 20, 27-38

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P .

Evangelho Lc 20, 27-38

27 Aproximaram-se depois alguns saduceus, que negam a ressurreição, e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer o irmão de algum homem, tendo mulher, e não deixar filhos, case-se com ela o seu irmão, para dar descendência ao irmão.’ Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou, e morreu sem filhos.
30Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filhos. Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete; e morreram sem deixar filhos. Morreu enfim também a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher, pois que o foi de todos os sete?”
34Jesus disse-lhes: “Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas os que forem julgados dignos do mundo futuro e da ressurreição dos mortos, não desposarão mulheres, nem as mulheres homens, porque não poderão jamais morrer; porquanto são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição. Que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés no episódio da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. 38 Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos são vivos” (Lc 20, 27-38).
A Ressurreição dos corpos
Afirma o Apóstolo que Jesus ressuscitou como “primícias dos que morrem” (1 Cor 15, 20). São Paulo não perde nenhuma oportunidade para acentuar a importância da ressurreição final com vistas a animar aos coríntios por ele batizados a continuarem firmes na fé, como também no trabalho apostólico. Segundo ele, sem essa fé, a tendência seria adotar-se um sistema de vida epicurista, relativista e libertino, conforme a expressão de Isaías: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (22, 13).
No capítulo 15 de sua Primeira Epístola aos Coríntios, depois de denominar de “insensato” a quem se põe o problema de como e em que condições ressuscitam os mortos, ele procura esclarecer de forma muito simples e acessível a revelação sobre a identidade substancial dos corpos nesta vida terrestre e os readquiridos após o Juízo Final, apesar das enormes diferenças de propriedade e aspecto entre o morto e o ressurrecto.
A comparação é retirada da natureza vegetal. Desta, Paulo faz uma aproximação entre a morte do grão ao ser semeado, sua posterior germinação e frutificação, com o nosso retorno à vida, no dia do Juízo. “Assim também será a ressurreição dos mortos. Semeia-se na corrupção, ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia, ressuscita-se glorioso. Semeia-se na debilidade, ressuscita-se na força. Semeia-se um corpo natural, ressuscitará um corpo espiritual” (1 Cor 15, 42-44).
Nosso corpo participa dos prêmios e castigos da alma
Mais de um milênio após essa proclamação de Paulo, o Doutor Angélico nos deixaria uma rica e profunda doutrina sobre a essência dessa revelação. Sempre levando em conta estar a alma unida ao corpo como forma e matéria, e “como a alma é a mesma especificamente, parece que deve ter também a mesma matéria específica. Logo, será o mesmo corpo antes e depois da ressurreição. E assim, será preciso que esteja composto de carne e ossos, e de outras partes da mesma classe” 1.
Nosso corpo ressuscitará porque Deus assim quis e determinou, como também por ser parte integrante de nós mesmos, merecendo os prêmios ou castigos conforme caibam à nossa alma na medida em que tenha participado dos méritos ou das iniqüidades da mesma. Por isso, “entre os bons e os maus permanecerá uma diferença fundamentada no que pertence pessoalmente a cada um. […] e como a alma merece, pelos seus atos pessoais, ser elevada à glória da visão de Deus ou ser excluída pela culpa da ordenação para tal glória, segue-se, como conseqüência, que todo corpo se conformará segundo a dignidade da alma” 2.
Os corpos dos justos se revestirão de glória
A morte não é senão um sono prolongado (cf. Jo 11, 11), e os cemitérios, vastos dormitórios. Os que repousam no pó da terra despertarão, uns para a felicidade eterna, outros para as trevas e castigo também eternos (cf. Dn 12, 2). Os bons, já no acordar, terão seus corpos em claridade. “Pela claridade da alma elevada à visão de Deus, o corpo, unido à alma, alcançará algo mais. Pois estará totalmente sujeito a ela pelo efeito da virtude divina, não só enquanto ser, mas também enquanto ações e paixões, movimentos e qualidades corpóreas. Portanto, assim como a alma se encherá de certa claridade espiritual, ao gozar da visão divina, também, por certa redundância desta no corpo, se revestirá este, à sua maneira, da claridade da glória”. 3
Ademais, os corpos dos bons, no próprio instante da ressurreição, gozarão da agilidade. “A alma, que unida a seu fim último gozará da visão divina, experimentará o cumprimento total de seu desejo em tudo. E como o corpo se move conforme o desejo da alma, resultará que o corpo obedecerá absolutamente à indicação do espírito. Por isso os corpos que terão os bemaventurados ressuscitados serão ágeis. E isto é o que diz o Apóstolo no mesmo lugar (1 Cor 15, 43): Semeado na fraqueza ressuscita vigoroso. Pois experimentamos a fraqueza corporal porque o corpo se sente incapaz de responder aos desejos da alma nas ações e movimentos que lhe impõe; fraqueza que, então, desaparecerá totalmente pela virtude que sobeja no corpo ao estar a alma unida a Deus. Por isso, na Sabedoria (3,7) se diz também dos justos que correrão como centelhas na palha, não porque tenham que moverse necessariamente, pois tendo a Deus de nada precisam, mas para demonstrar seu poder” 4.
O corpo glorioso se levantará da poeira da terra, espiritualizado, dotado de sutileza. “A alma que goza de Deus se unirá perfeitissimamente a Ele e participará de Sua bondade em grau sumo, conforme sua própria medida; e de igual modo o corpo, pois este se sujeitará perfeitamente à alma” 5.
A impassibilidade dos corpos gloriosos não permitirá a existência de nenhum defeito, dor ou mal. “A alma que goza de Deus terá tudo em ordem à remoção de todo mal, porque onde está o Sumo Bem não cabe mal algum. Logo, também o corpo, aperfeiçoado pela alma e em proporção a ela, será imune de todo mal, não só atual, mas inclusive do mal possível. Do atual, porque em ambos nem haverá corrupção, nem deformidade, nem defeito nenhum. Do possível, porque nada poderão sofrer que lhes perturbe. E por isso serão impassíveis. Mas esta impassibilidade não excluirá neles as paixões essencialmente sensíveis, porque usarão dos sentidos para gozar daquilo que não repugna o estado de incorrupção” 6.
Ressurreição dos condenados
Os maus também ressuscitarão íntegros. “As almas dos condenados têm efetivamente natureza boa, que foi criada por Deus; mas terão a vontade desordenada e afastada do próprio fim. Portanto, seus corpos, no que se refere à natureza, serão reparados e íntegros, pois ressuscitarão na idade perfeita, com todos os seus membros e sem nenhum defeito, nem corrupção que tivesse ocasionado uma falha da natureza ou enfermidade” 7.
As almas dos maus, ao ressuscitarem seus corpos, estarão sujeitas a estes; diferentemente da situação dos bem-aventurados, serão elas carnais e não espirituais. “Como sua alma estará voluntariamente separada de Deus e privada de seu próprio fim, seus corpos não serão espirituais, ou seja, sujeitos totalmente ao espírito, senão que sua alma será carnal pelo afeto” 8.
Nem de longe experimentarão a agilidade dos corpos gloriosos. Muito pelo contrário, serão de certo modo sujeitos à lei da gravidade. “Tais corpos não serão ágeis, nem obedientes à alma, sem dificuldade, mas serão graves e pesados, de certo modo insuportáveis à alma, tais quais são as mesmas almas que se afastaram de Deus pela desobediência” 9.
Serão ainda mais sujeitos às dores e ao sofrimento do que o somos nós nesta vida terrena mas, sem nunca em nada se corromper, além das respectivas almas serem “atormentadas pela privação total do desejo natural da bem-aventurança” 10.
E pelo fato de estar a alma excluída da luz do conhecimento divino, seus corpos serão “opacos e tenebrosos” 11.
Sobre esses desgraçados, triunfará a morte. Ressuscitarão para ser lançados na morte eterna. A eles não se aplicarão as palavras de Isaías (25, 8) e Oséias (13, 14) citadas pelo Apóstolo “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55).
Continua...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Solenidade de Todos os Santos

  Continuação dos comentários à liturgia da Solenidade de Todos os Santos
                                                                                          Mons. João Clá Dias
A ideia da felicidade eterna
Esta é a felicidade absoluta da qual nossos irmãos, os Santos, já gozam em plenitude na eternidade e com a qual nenhuma consolação desta vida é comparável. Nossa ideia a propósito da felicidade é tão humana, que julgamos, muitas vezes, possuí-la em grau máximo ao obter algo que muito desejamos. A mera inteligência do homem não alcança a compreensão da felicidade do Céu, pois em relação a Deus somos como formigas que, andando pela terra, levantassem a cabeça para olhar o voo de uma águia no céu. A diferença entre uma formiga e uma águia é ridícula perto da infinitude existente entre a razão humana e a inteligência divina. E ainda que, dotados de uma capacidade incomum, passássemos trezentos bilhões de anos estudando, nosso verbo continuaria falho e não encontraríamos termos para nos expressarmos devidamente a respeito de Deus.
A essência divina é definida pela teologia como o Ser subsistente por Si mesmo,9 que Se conhece, Se entende e Se ama por inteiro, tal qual é.10 Desde toda a eternidade, isto é, sem haver princípio, Deus, contemplando-Se, Se compreende inteiramente enquanto Ser incriado, necessário e superexcelente, que não depende de ninguém, que Se basta; e nisto consiste sua felicidade absoluta. Contudo, seu próprio conhecimento é tão rico que gera uma Segunda Pessoa, o Filho, idêntico a Ele e tão feliz como Ele. Ambos Se amam, e deste mútuo amor entre Pai e Filho procede uma Terceira Pessoa, também feliz: o Espírito Santo. Assim, há três Pessoas, num só Deus, a Se conhecerem, Se entenderem e Se amarem, numa perpétua alegria, sem origem no tempo e sem fim, eternamente!
Um emprestimo da inteligência divina
Pois bem, em seu infinito amor, Deus quis dar às criaturas inteligentes, Anjos e homens, um empréstimo de sua luz intelectual, o lumen gloriæ, para que possam nela entendê-Lo tal qual Ele Se entende — guardadas as proporções entre criatura e Criador —, já que, segundo explica São Tomás, “a capacida de natural do intelecto criado não basta para ver a essência de Deus” sem ser aumentada pela “graça divina”.” E por mais que seccione sua luz, Ele sempre permanecerá imutável e em nada será diminuído, pois é infinito.
O eminente dominicano padre Santiago Ramírez define o lumen gloriæ como “um hábito intelectual operativo, infuso per se, pelo qual o entendimento criado se faz deiforme e torna-se imediatamente disposto à união inteligível com a própria essência divina, e se torna capaz de realizar o ato da visão beatífica”.12
Esse “fazer-se deiforme” significa que quem entra na bem-aventurança e contempla a Deus face a face se torna semelhante a Ele, como afirma São João na continuação de sua Epístola: “Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é” (I Jo 3, 2b). Só no Céu veremos a Nosso Senhor Jesus Cristo de fato, uma vez que enquanto viveu na Terra ninguém O viu tal qual Ele é. Nem mesmo na Transfiguração, quando tomou, enquanto qualidade passageira, a claridade inerente ao corpo glorioso13 — como tivemos oportunidade de analisar em comentários anteriores —, São Pedro, São Tiago e São João chegaram a contemplar a essência de sua divindade, pois, do contrário, a alma deles ter-se-ia destacado do corpo.
Todo o que espera n’Ele purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (I Jo 3, 3). Quanto mais aumenta em nós a esperança desse encontro e dessa visão, e, portanto, quanto mais crescemos no desejo de nos entregarmos a Deus e de Lhe pertencermos por inteiro na caridade, mais nos purificamos do amor-próprio e do egoísmo profundamente enraizados em nossa natureza. Devemos ter bem presente que não existem três amores, mas apenas dois: o amor a Deus levado até o esquecimento de si mesmo ou o amor a si levado até o esquecimento de Deus.14
SIGAMOS O EXEMPLO DAQUELES QUE NOS PRECEDERAM NA GRAÇA E NOS ESPERAM NA GLÓRIA!
O homem, ainda quando privado da graça, tem uma apetência de infinito que não descansa enquanto não for saciada pela união com Deus. E o que revela Santo Agostinho, em suas Confissões: “E eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e fora Te procurava; e, disforme como era, lançava-me sobre as coisas belas que criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de Ti aquelas coisas que, se não estivessem em Ti, não existiriam”.15 Essa felicidade imensa e indescritível, para a qual todos nós somos criados, só a atingiremos seguindo os passos daqueles que nos precederam com o sinal da Fé e que já gozam dela, por sua fidelidade a tal chamado.
Peçamos que essa bem-aventurança eterna seja também para nós um privilégio, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora e da intercessão de todos os Santos que hoje comemoramos, a fim de um dia nos encontrarmos em sua companhia no Céu. Enquanto lá não chegarmos, podemos nos relacionar com essa enorme plêiade de irmãos celestes, membros do mesmo Corpo, por um canal direto muito mais eficiente do que qualquer meio de comunicação moderno: a oração, o amor a Deus e o amor a eles enquanto unidos a Deus. Tenhamos a certeza de que, do alto, eles nos olham com benevolência, rogam por nós e nos protegem. 
1 SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS. Antífona da entrada. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil’ realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.691.
2) Idem, Prefácio, p.692.
3) cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.61, a.4.
4) cf. Idem, q.5, a.4, ad 2.
5) Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Radical mudança de padrões no relacionamento divino e humano. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.109 (Jan., 2011); p.10-16; Comentário ao Evangelho do IV Domingo do Tempo Comum — Ano A,no Volume II desta coleção.
6) SÃO BOAVENTURA. Breviloquio. PV, c.1, n.2. In: Obras. 3.ed. Madrid: BAC. 1968, v.1, p.324.
7) BEATO RAIMUNDO DE CÁPUA. Santa Caterina da Siena. 5.ed. Siena: Cantagalli, 1994, p.149.
8) SCHEEBEN, Matthias Joseph. As maravilhas da graça divina. Petrópolis: Vozes, 1952, p.29.
9) Cf. ROYO MARÍN, OP, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.47-49.
10) cf. SAO TOMAS DE AQUINO, op. cit., q.14, a.2-4; q.20, al.
11) Idem, q.12, a.5.
12) RAMÍREZ, OP, Santiago. De hominis beatitudine. In I-Il Summæ Theologice Divi Thomæ commentaria (QQ. 1-y). II P., Q.II, Sect.III, n.298. Madrid: Instituto de Filosofía Luis Vives, 1972, t.IV, p.342.
13) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.45, a.2.
14) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XIV, c.28. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.984.
15) SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.X, c.27, n.38. In: Obras. 6.ed. Madrid: BAC, 1974, v.11, p.424.
 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Solenidade de Todos os Santos

Comentários à liturgia da Solenidade de Todos os Santos
                                                                                          Mons. João Clá Dias
A festa dos irmãos celestes

Na Solenidade de Todos os Santos a Igreja nos convida a ver com esperança nossos irmãos celestes, como estímulo para percorrermos por inteiro o caminho iniciado com o Batismo e atingirmos a plena felicidade na glória da visão beatífica.
OS SANTOS, IRMÃOS CELESTES?
Na Solenidade de Todos os Santos a Igreja celebra todos aqueles que já se encontram na plena posse da visão beatífica, inclusive os não canonizados. A Antífona da entrada da Missa nos faz este convite: ‘Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de Todos os Santos”.’ Sim, alegremo-nos, porque santos são também — no sentido lato do termo — todos os que fazem parte do Corpo Místico de Cristo: não só os que conquistaram a glória celeste, como também os que satisfazem a pena temporal no Purgatório, e os que, ainda na Terra de exílio, vivem na graça de Deus. Quer estejamos neste mundo como membros da Igreja militante, quer no Purgatório como Igreja padecente, quer na felicidade eterna, já na Igreja triunfante, somos uma única e mesma Igreja. E como seus filhos temos irmandade, conforme diz São Paulo aos Efésios: “já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19).
Os Santos intercedem por nós e dão exemplo
É por isso que o Prefácio desta Solenidade reza: “Festejamos, hoje, a cidade do Céu, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos, os Santos, vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor. Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da fé. Contemplamos, alegres, na vossa luz, tantos membros da Igreja, que nos dais como exemplo e intercessão”.2
Assim, caminhando  “na penumbra da fé”, voltemos a atenção para os Bem-aventurados — nossos irmãos, se vivermos na graça de Deus —, pois eles estão mais perto d’Aquele que é  Cabeça desse Corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles são motivo de esperança para os que padecem nas chamas do Purgatório. E para nós, que possuímos pelo Batismo o germe dessa glória da qual eles já gozam, são modelo da santidade de vida que devemos alcançar. Todo nosso empenho será pouco para obter que essa semente se transforme em árvore frondosa, no pleno desabrochar de suas flores e com abundância de frutos, isto é, a glória eterna, nossa meta última.
Precisamos avançar, então, rumo aos que estão na presença de Deus com o mesmo desejo com que procuraríamos nossa família, caso não a conhecêssemos, pois, entre os membros de uma família harmônica e bem constituída existe um imbricamento, fruto da consanguinidade, tão inquebrantável que, por exemplo, se um dos irmãos atinge uma situação de prestígio, todos os demais se regozijam. Muito maior há de ser a união daqueles que, pela filiação divina, pertencem à familia de Deus, e maior também a alegria ao contemplarmos nossos irmãos louvando a Deus no Céu, por todo o sempre, e intercedendo por nós junto a Ele.
Tais pensamentos nos dão a clave para analisar o florilégio das leituras que a Santa Igreja separou para esta Solenidade.
CHAMADOS A NOS REUNIRMOS NO CÉU
Na primeira leitura, do Apocalipse (7, 2-4.9-14), é cheia de beleza e, ao mesmo tempo, difícil de ser explicada com profundidade, em todos os seus simbolismos. Detenhamo-nos apenas em dois aspectos que a relacionam especialmente com esta comemoração. “Eu, João, vi um outro Anjo que subia do lado onde nasce o Sol. Ele trazia a marca do Deus vivo, e gritava, em alta voz, aos quatro Anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: ‘Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marca do na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 2-3). Este bonito trecho deixa patente que Deus só promoverá o fim do mundo quando forem ocupados todos os lugares do Céu e a coorte dos Bem-aventurados se tenha completado. Vemos como Deus, para além das ofensas cometidas contra Ele e antes de enviar o castigo à Terra, cuida de seus Santos, daqueles que Ele escolheu.
Logo em seguida, continua São João: “Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel” (Ap 7, 4). Este número dos que seguem o Cordeiro por toda parte (cf. Ap 14, 4) é simbólico, pois a quantidade de Santos do Céu é incalculável. Ao criar o Céu Empíreo — que, segundo São Tomás,3 foi a primeira criatura a sair das mãos de Deus, junto com os Anjos —, tinha Ele, desde toda a eternidade, o plano de povoá-lo com outros seres inteligentes que, além dos espíritos angélicos, fossem partícipes da natureza divina e, portanto, sócios de sua felicidade eterna.
Eis o apelo feito a nós na Liturgia de hoje: desejar e abraçar a via da santidade para fazer parte destes cento e quarenta e quatro mil.
O predomínio do mal depois do pecado original
Ora, a partir do pecado original o homem passou a se interessar de forma intemperante pelas coisas materiais, e aos poucos se esqueceu de Deus. Estabeleceu-se na face da Terra a luta entre o bem e o mal, entre as volúpias da carne e o chamado de Deus à santidade, e no relacionamento humano entrou o mal com uma virulência extraordinária, pois este é dinâmico, enquanto o bem é apenas difusivo.4 Com efeito, se não fosse a sustentação da graça, o mal dominaria completamente em nós e derrotaria o bem.
Desde o primeiro Santo, até Nosso Senhor Jesus Cristo
Isto se faz patente logo após a saída de Adão e Eva do Jardim do Eden, na história de seus dois primeiros descendentes, Caim e Abel. Abel era um filho da luz, reto e justo, cujos Sacrifícios oferecidos a Deus eram aceitos com enorme benevolência (cf. Gn 4, 4). Caim, pelo contrário, nutria em sua alma o nefasto vício da inveja que, tendo chegado ao auge, levou-o a matar seu irmão, derramando sangue inocente. Em seguida, tomado de amargura e depressão, em consequência de seu pecado, Caim quis fugir da face do Senhor, com a ilusão característica do pecador que julga poder ocultar-se de Deus, assim como se esconde do olhar dos homens (cf. Gn 4, 8.14).
Qual não terá sido o espanto de Eva ao carregar o cadáver de seu filho nos braços e deparar-se, pela primeira vez, com o efeito do pecado cometido no Paraíso! A alma de Abel, porém, no instante em que se destacou do corpo foi para o Limbo dos Justos, à espera da vinda do Salvador que lhe abriria as portas do Céu. Precedendo os pais, ele encabeçou o cortejo dos Santos, daqueles que, aos poucos, constituiriam o número dos que de veriam passar desta vida à eterna bem-aventurança.
A Encarnação do Verbo trouxe ao mundo uma plêiade de Santos
Entretanto, a Encarnação do Verbo e sua presença visível entre os homens trouxe ao mundo uma plêiade de Santos: desde os mártires inocentes, até o bom ladrão que, tendo implorado misericórdia, obteve dos lábios do próprio Deus o prêmio de ser perdoado e santificado: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Le 23, 43). Quando Jesus expirou na Cruz, sua Alma desceu ao Limbo, onde, decerto, o primeiro a recebê-Lo foi São José, que O aguardava havia poucos anos. Mas foi no dia de sua gloriosa Ascensão que o Redentor levou consigo essa coorte exultante de justos, introduzindo-os no Céu a fim de começar a povoá-lo. Em certo momento, com gáudio para os Bem-aventurados, Maria Santíssima subiu em corpo e alma, e foi coroada como Rainha do universo.
Ficaram escancaradas as portas da santidade
Ao longo dos vinte séculos de História da Igreja, as moradas eternas acolheram os mártires, os doutores, os confessores... pois foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem abriu definitivamente as portas da santidade a todos os homens, com a superabundância de sua graça e sua doutrina nova dotada de potência (cf. Lc4, 32; Mc 1, 22).
Sinopse desta doutrina é o Sermão da Montanha, cujo centro é o Evangelho escolhido para esta Solenidade: a proclamação das Bem-aventuranças. De fato, elas são o resumo de toda a moral católica, de toda via de perfeição, de toda a prática da virtude, e se neste dia comemoramos as miríades de Santos que habitam o Paraíso Celeste, é porque eles realizaram em sua vida aquilo que o Divino Mestre delineia como causa de bem-aventurança.
Tendo comentado este Evangelho em outras ocasiões,5 nos limitaremos agora a dar uma síntese dos ensinamentos nele contidos, em harmonia com a Solenidade hoje celebrada.
O contraste entre a Antiga e a Nova Lei
Em primeiro lugar, apreciemos o contraste desta cena do Sermão da Montanha com outro importante discurso da História Sagrada: a promulgação da Antiga Lei, no Monte Sinai (cf. Ex 19—23). Parece que Nosso Senhor quis estabelecer de propósito uma contraposição entre ambos os episódios, a fim de mostrar a beleza existente na Nova Lei que Ele veio trazer, levando a Lei Antiga a maior perfeição (cf. Mt 5, 17).
No Sinai, Deus permanece no cume da montanha e Moisés tem de subir até lá para receber as Tábuas da Lei. Cristo, pelo contrário, desce à meia altura do monte para Se encontrar com o homem e entregar-lhe, Ele próprio, a Nova Lei. Assim, uma Lei é promulgada no cimo da montanha, outra na orla. Enquanto no Sinai o homem deve subir até Deus, na montanha em que Jesus faz seu sermão, Deus desce até o homem.
No Sinai, o Todo-Poderoso Se apresenta em meio a trovões, relâmpagos, escuridão e som ensurdecedor de trombeta; na montanha, o Salvador senta-Se entre os homens, num ambiente suave, sereno e tranquilo, sem especiais manifestações da natureza. No Sinai, o povo tinha proibição de tocar a base do monte, pois morreria se o fizesse; na montanha, a multidão está próxima de Jesus e pode tocá-Lo, porque d’Ele emana uma virtude que cura a todos.
No Sinai, foi dado a Moisés um código de leis, verdadeiro código penal, com severos castigos para quem o transgredisse; na montanha, Nosso Senhor mostra, com misericórdia sem limites, quais os prêmios, os benefícios e as maravilhas concedidas por Deus a quem pratica a virtude e cumpre a Lei.
No Sinai, Moisés representa a Lei, servindo de exemplo por seu zelo em cumprir essa mesma Lei; na montanha, Jesus Cristo é o modelo perfeito da lei da bondade.
No Sinai, para ouvir as prescrições divinas poderia subir qualquer homem, desde que fosse eleito por Deus; na montanha, porém, só o Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade Encarnada, podia pronunciar aquele Sermão, pois unicamente Ele, enquanto Messias, tinha autoridade para aperfeiçoar a Lei Antiga.
Nessa perspectiva de bondade, Jesus proclama as Bem-aventuranças, mostrando a que alturas é capaz de se elevar uma alma pelo florescimento dos dons do Espírito Santo, produzindo atos de virtude heroica. Tais frutos podem brotar de maneira isolada, mas, em geral, quando o santo chega à plenitude da união com Deus, todas as bem- aventuranças se verificam numa única florada. Ser santo, então, significa ser um bem-aventurado no tempo para depois se-lo na eternidade.
A filiação divina nos conteve uma qualidade
Em que consiste, pois, essa bem-aventurança? Na segunda leitura (I Jo 3, 1-3) desta Liturgia, um lindíssimo trecho da Primeira Epístola de São João — o Apóstolo do Amor, exímio espiritualista, sempre dado a ressaltar a vida sobrenatural — nos dá a resposta, lembrando o valor da nossa condição de filhos de Deus: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus. E nós realmente o somos” (I Jo 3, la). Na verdade, por ocasião do Batismo, embora a natureza humana continue a mesma, com inteligência, vontade e sensibilidade, acrescenta-se uma qualidade: a participação na própria natureza divina, que nos assume por completo. A graça, explica São Boaventura, “é um dom que purifica, ilumina e aperfeiçoa a alma; que a vivifica, a reforma e consolida; que a eleva, a assimila e a une a Deus, tornando-a aceitável; pelo que semelhante dom justamente chama-se graça, pois nos faz gratos, isto é, graça gratificante”.6
Sendo um bem do espírito, não pode ser vista com os olhos materiais pois estes captam só o que é sensível, mas comprovamos, isto sim, seus efeitos. Santa Catarina de Sena, a quem Nosso Senhor concedera a graça de contemplar o estado das almas, chegou a afirmar a seu confessor: “Meu pai, se vísseis o fascínio de uma alma racional, não duvido que daríeis cem vezes a vida pela sua salvação, porque neste mundo nada há que se lhe possa igualar em beleza”.7
Certas imagens podem servir para termos uma ideia, ainda que pálida, das maravilhas operadas pela graça nas almas. Imaginemos um vitral esplendoroso, com uma perfeita combinação de cores, fabricado com vidro da melhor qualidade, contendo até ouro na sua composição. Uma vez posto na janela, se não é iluminado, que valor terá peça tão espetacular? Entretanto, a partir do momento em que os raios de luz sobre ele incidem, brilhará com extraordinários matizes, desdobrando-se em mil reflexos multicoloridos.
Outra comparação que também nos aproxima da realidade sobrenatural é a de um litro de álcool no qual são derramadas algumas gotas de fabulosa essência, finíssima e de requintado aroma. Sem deixar de ser álcool, o líquido torna-se perfume, pois é assumido pela essência.
Da mesma forma como a luz ilumina o vitral e a essência assume o álcool — e ainda poderíamos encontrar na natureza outras imagens ilustrativas —, também a graça confere nova qualidade à alma humana, que é, por assim dizer, submersa na natureza divina, como comenta Scheeben: “Se dentre todos os homens e todos os Anjos escolhesse Deus uma só alma, para comunicar-lhe o esplendor de tão inesperada dignidade, [...] deixaria estupefatos não só os mortais, mas ainda os mesmos Anjos, que se sentiriam quase tentados a adorá-la, como se fora Deus em pessoa”.8 Tal é a excelência da filiação divina!
Uma semente da glória futura

Filhos de Deus... “nós o somos! Se o mundo não nos conhece é porque não conheceu o Pai. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos” (I Jo 3, lb-2a). De fato, enquanto permanecemos neste mundo, em estado de prova, temos a graça santificante, recebida no Batismo, e as graças atuais, que Deus derrama sobre nós ao longo da nossa existência. Todavia, estamos apenas no começo do caminho, pois, só quando contemplarmos a Deus face a face, esta graça se transformará em glória e chegaremos ao “estado de homem feito, a estatura própria da maturidade de Cristo” (Ef 4, 13).
Continua no próximo post

Evangelho XXXI Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 19, 1-10

Continuação dos comentários ao Evangelho 31º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 19, 1-10

Nosso Senhor fixa seu olhar no publicano
5a “Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: ‘Zaqueu, desce depressa!’”.
Paremos por um instante para imaginar a cena. Como fizera ao curar o cego à entrada da cidade, Jesus se detém diante da árvore onde se encontra Zaqueu e lhe dirige um olhar pervadido de bondade. O povo se aglomera, curioso de ver o que ia suceder, talvez na expectativa de que o Mestre tomasse uma atitude de censura em relação ao cobrador de impostos. Entretanto, em lugar de repreendê-lo, Jesus chama-o afetuosamente pelo nome, e o manda descer.
Por sua ciência humana, Nosso Senhor não conhecia ainda esse publicano. Entretanto aqui revela não ignorar quem ele era, nem as virtudes que começavam a despontar em sua alma. Muito a propósito, comenta São Cirilo: “Cristo já contemplara aquela cena com seus olhos de Deus, e ao levantar as vistas, fitou essa pessoa com os olhos da carne. E como seu objetivo é que todos os homens se salvem, estendeu a esse homem sua bondade”.11
Qual não teria sido a surpresa do publicano quando ouviu pronunciar seu próprio nome! E quão grande sua alegria!” — observa o padre Truyols.12 E Jesus ainda lhe infundiu maior ânimo e confiança ao dizer-lhe “desce depressa”, pois, no acertado juízo do padre Tuya, “há nessas palavras um anseio espiritual por conquistá-lo”.13
É curioso notar que Zaqueu nada diz a Jesus. A julgar pelo relato evangélico, limita-se a olhá-Lo com enlevo e veneração, enquanto escuta, jubiloso, suas palavras.
Hoje vou hospedar-Me na tua alma”
5b“‘Hoje Eu devo ficar na tua casa’”.
Como se isso não bastasse, o Divino Mestre toma a iniciativa de convidar-Se à residência de Zaqueu, contrariando os costumes. Mas, observa Santo Ambrósio, Jesus “sabe que quem O acolhe como hóspede receberá uma abundante recompensa, e acontece que, embora não tivesse ouvido ainda seu convite, havia já lido em seu coração”.14 Enfrentando todas as murmurações que poderia suscitar sua presença na casa de um publicano, Nosso Senhor anuncia sua visita “de um modo ao mesmo tempo régio e familiar”.15
O episódio confirma que nada atrai mais as graças de Deus do que um espírito tomado pela admiração. Com certeza, afirma Maldonado, “Cristo chamou Zaqueu porque notava a disposição de sua alma e a diligência posta por ele para conseguir vê-Lo passar”.16 E Santo Agostinho comenta: “Quem considerava grande e inefável felicidade o fato de vê-Lo passar, mereceu imediatamente tê-Lo em casa. Infunde-se a graça, atua a fé por meio do amor, recebe-se em casa Cristo, que habitava já no coração”.17
Importa determo-nos nas palavras “na tua casa”. Sem dúvida, referia-Se Nosso Senhor à residência de Zaqueu, a qual precisava ser posta em ordem para acolhê-Lo. Para o chefe dos cobradores de impostos, isso não era difícil, pois, pela sua posição social, deveria receber com frequência visitas importantes. Não lhe faltariam criados nem recursos para isso.
Mas, do ponto de vista sobrenatural, é como se Jesus Se comunicasse com Zaqueu de olhar a olhar, de coração a coração, dizendo-lhe: “Hoje vou hospedar-Me na tua alma”. Portanto, a “casa” significa aqui também a alma que deve estar preparada para acolher o Senhor.
A admiração traz alegria
6 “Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria”.
Diante da misericordiosa iniciativa do Redentor, Zaqueu manifesta-se disposto a em tudo obedecer. Tomado de entusiasmo, “fez o que lhe mandava Cristo, e do modo como este lhe ordenara. Acabava de dizer-lhe que descesse depressa, e depressa desceu. Isso é corresponder à graça: seguir prontamente Aquele que chama, sem demora nem pretextos”.18
Mais ainda, aquele homem recebe Jesus “com alegria”, pois ao sentir-se inteiramente interpretado e compreendido por quem lhe é superior, sua alma se enche de júbilo e se abre para a fé. Vemos, assim, como a admiração é excelente antídoto para a má tristeza que leva ao desânimo. Quando, à semelhança de Zaqueu, nos sentimos atraídos por Jesus e procuramos ocasiões para encontrá-Lo — seja no Sacramento da Eucaristia, seja através dos seres criados — Ele nos recompensa vindo à nossa casa, isto é, entrando em nosso convívio e enchendo-nos de graças, muitas vezes sensíveis.
Surpresa e incompreensão da opinião pública
7 “Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: ‘Ele foi hospedar-Se na casa de um pecador!’”.
Tomados de ódio contra aquele publicano, os presentes “não puderam vencer seus preconceitos, apesar de pouco antes terem dado glória a Deus pela cura do cego, operada por Jesus”,19 e começaram a murmurar contra Ele.
É importante notar que São Lucas afirma serem “todos”, e não apenas alguns, os que recriminavam Jesus por ir hospedar-Se na casa de um “pecador”. Esta palavra, sublinha o padre Tuya, “tinha para eles o sentido de um homem imerso em toda impureza ‘legal’, que neste caso podia ser também moral, devido às suas extorsões no exercício do cargo”.20 Entrar na residência de um cobrador de impostos significava, para os judeus de então, macular-se e atrair sobre si a maldição de Deus.
Essa rejeição à atitude de Jesus carecia, entretanto, de qualquer fundamento. Não havia ensinado já o Divino Mestre, em disputa contra os fariseus, que não viera “chamar à conversão os justos, mas sim os pecadores” (Lc 5, 32)? Bem conclui Santo Agostinho: querer impedir Jesus de visitar o lar do publicano equivalia “a censurar o médico por entrar na casa do enfermo”.21
Jesus, como observa o padre Truyols, não fez caso dessas murmurações. “Ele era o Bom Pastor, que viera ao mundo em busca da ovelha perdida. Para encontrá-la e reconduzi-la ao redil aceitara o convite do publicano Levi, deixara-Se tocar pela pecadora e não ignorava que a aparente delicadeza de consciência daqueles que reprovavam seu proceder não era senão um disfarce de refinado orgulho e de cruel egoísmo”.22
Submissão e generosidade de Zaqueu
8a “Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: ‘Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres...’”.
Este versículo mostra o quanto o publicano havia preparado a “casa” de sua alma para bem receber o Messias. Chegado àquela residência, Jesus deve ter Se recostado à moda oriental em um divã, e seria inusual que o anfitrião não fizesse o mesmo. Ora, Zaqueu permaneceu de pé, em sinal de submissão, veneração e reconhecimento da superioridade do seu Hóspede, no qual talvez vislumbrasse rasgos de divindade.
Nessas alturas, ele já deseja mudar de vida, converter-se, abandonando seus erros e pecados. De fato, inúteis teriam sido todas as graças recebidas, se não conduzissem a esse desfecho. “Jesus, o doce e misericordioso Salvador dos pecadores, era inexorável na luta contra o pecado. Exigia daqueles que queriam segui-Lo, e daqueles aos quais dispensava favores ou perdoava crimes, o propósito de romper definitivamente com todo e qualquer pecado”.23
O fato de Zaqueu dispor-se a dar aos pobres a metade dos seus bens prova sua sinceridade e boa-fé. Entretanto, Fillion vai mais longe, ao tomar esse gesto “como uma recordação da honra que lhe fizera Jesus, e como manifestação de que, com fé inquebrantável, O considerava o Messias prometido”.24
8b “‘...e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais’”.
Contudo, a conversão do publicano não teria sido completa sem o desejo de reparar os males que fizera. Pois o pecado de roubo exige, além de pedir perdão a Deus, a restituição dos bens indevidamente adquiridos.
Enlevado pela contemplação da Justiça em substância, que ante ele Se encontrava, Zaqueu manifesta a disposição de cumprir essa obrigação com largueza: “Se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. Sua generosa atitude revela verdadeira dor pelo pecado e uma retidão de alma fruto da conversão obtida pela graça.
Esta passagem do Evangelho nos proporciona um valioso princípio para o apostolado: as autênticas conversões se conquistam sempre despertando nas almas a admiração por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Apesar da falta de méritos, é justificado por Nosso Senhor
9 “Jesus lhe disse: ‘Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. 10 Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido’”.
Nosso Senhor usa aqui a palavra “casa” também num sentido mais profundo, referindo-se, como vimos, à alma do anfitrião. Pois “foi nesse momento que a fé de Zaqueu, sua obediência, seu desinteresse e sua caridade fizeram dele um verdadeiro filho de Abraão”.25 Assim, ao afirmar “hoje a salvação entrou nesta casa”, Jesus declara solenemente que esse homem está perdoado.
Antes de se encontrar com o Divino Mestre, Zaqueu era um pecador que corria atrás do lucro, por vezes ilícito. Entretanto a graça introduziu em sua alma o desejo de ver aquele que “veio procurar e salvar o que estava perdido”, e o publicano correspondeu.
Buscar Nosso Senhor, subir na árvore, descer depressa ao ser chamado, receber com alegria e atender com generosidade: eram sintomas da aceitação das graças recebidas. Para consumar a conversão, faltava apenas Zaqueu reconhecer seus pecados, pedir perdão e manifestar-se disposto a reparar o mal. Foi isso o que ele fez na presença de Jesus.
A admiração transforma
Em certo sentido, todos somos Zaqueus. Estando nesta vida em estado de prova, a qualquer momento pode Nosso Senhor passar diante nós e nos chamar, servindo-Se de uma leitura, uma conversa, uma pregação, ou quiçá por meio de uma moção interior da graça.
Como responderemos nós se, como ao publicano, Ele nos disser: “desce depressa, porque hoje vou hospedar-Me em tua casa”? “Saberemos imitar a generosidade de Zaqueu e, antecipando-nos à admoestação do Senhor, responder-Lhe com espontânea prontidão: ‘doravante, quero firmemente não pecar mais’?”.26
Tudo dependerá da admiração que tivermos.
O caminho da conversão do publicano, narrado nesta passagem do Evangelho, começou com um mero sentimento de curiosidade para com aquele Homem do qual ele tanto ouvira falar. Mas, pela ação da graça, logo se transformou em desejo de conhecê-Lo, falar-Lhe e estar com Ele, dando início ao processo que haveria de torná-lo um verdadeiro “filho de Abraão”.
Como Zaqueu, assim devemos reagir também nós, fugindo das multidões e subindo na “árvore da admiração” para melhor contemplar o Divino Mestre. Porque quem está tomado de verdadeiro enlevo, escuta a palavra do Senhor, observa seus preceitos e enfrenta todas as dificuldades para segui-Lo, até o fim.
Árduo seria avaliar até que ponto são profundas as consequências desse voltar-se enlevado para o que é superior, se não fosse São Tomás de Aquino nos ensinar: “A primeira coisa que então [ao atingir o uso da razão] ocorre ao homem pensar é deliberar sobre si mesmo. E se se ordenar ao fim devido, conseguirá pela graça a remissão do pecado original”.27 Ou seja, derramam-se sobre ele os mesmos efeitos do Batismo sacramental!28
Essa ousada afirmação do Doutor Angélico é analisada em profundidade por Garrigou-Lagrange, segundo o qual, se um menino não batizado e educado entre os infiéis, ao chegar ao pleno uso da razão amar eficazmente “o bem honesto por si mesmo e mais do que a si mesmo”, estará justificado. “Por quê? Porque desse modo ama eficazmente a Deus, autor da natureza e soberano bem, confusamente conhecido; amor eficaz que no estado de queda não é possível senão pela graça, que eleva e cura”.29
Com efeito, na admiração pelo bem o homem se torna semelhante ao objeto de seu enlevo. Pelo contrário, ao fechar-se em si mesmo, julgando encontrar nisso a felicidade, enche a alma de amargura, tristeza e frustração, pois a desvia de sua finalidade suprema que é Deus. “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e nosso coração estará inquieto enquanto não repousar em ti”,30 ensina o grande Santo Agostinho.
Através do enlevo pelos reflexos do Criador, a exemplo de Maria, Mãe de todas as admirações, melhor nos identificaremos com Jesus, modelo perfeitíssimo de todos os homens. Terá entrado, assim, a salvação em nossa casa, pela porta da admiração!


1 Cf. KELLER, Helen Adams. A história de minha vida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940, p.248-249.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.3, a.8, resp. Ver também q.32, a.8, resp.: “A admiração é um certo desejo de saber, que surge no homem porque vê o efeito e ignora a causa; ou porque a causa de certo efeito excede o conhecimento ou a potência de conhecer”.
3 TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.889.
4 SAN CIRILO DE ALEJANDRÍA. Comentario al Evangelio de Lucas, 19, 2, apud ODEN, Thomas C. e JUST Jr., Arthur A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento, San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, v.III, p.392.
5 DUQUESNE. L ’Évangile medité. Lyon-Paris: Perisse Frères, 1849, p.309.
6 Respeitamos aqui a ordem cronológica da exposição de São Lucas, sem entrar na discussão exegética sobre se a cura do cego aconteceu realmente à entrada ou à saída da cidade.
7 Cf. DUQUESNE, op. cit., p.309.
8 WILLAM, Franz Michel. A vida de Jesus no país e no povo de Israel. Petrópolis: Vozes, s/d, p.338.
9 DUQUESNE, op. cit., p.311.
10 MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.752.
11 SAN CIRILO DE ALEJANDRÍA, op. cit., p.392.
12 FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1954, p.490.
13 TUYA, OP, op. cit., p.889.
14 SANCTUS AMBROSIUS. Expositio Evangelii secundum Lucam. l.8, 82: PL: 15, 1791.
15 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, s/d, v.II, p.457.
16 MALDONADO, SJ, op. cit., p.753.
17 SANCTUS AUGUSTINUS HIPPONENSIS. Sermo 174, c.IV: PL 38, 942.
18 MALDONADO, SJ, op. cit., p.753.
19 GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.III, p.398.
20 TUYA, OP, op. cit., p.889.
21 SANCTUS AUGUSTINUS HIPPONENSIS. Sermo 174, c.V: PL 38, 943.
22 FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, op. cit., p.490.
23 KOCH, SJ, Anton; SANCHO, Antonio. Docete. Formación básica del predicador y del conferenciante. La gracia. Barcelona: Herder, 1953, t.IV, p.303.
24 FILLION, op. cit., p.457.
25 DUQUESNE, op. cit., p.314.
26 KOCH, SJ; e SANCHO, op. cit., p.304.
27 SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I-II, q. 89, a.6. Cf. Idem, III, q.66, a.11, ad.2 e q.68, a.2.
28 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Sentido Común, la Filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1944, p.338-339.
30 SANTO AGOSTINHO. Confissões, L.I, c.1.
"Maria, Mãe de Deus" - Mosteiro do Monte da Tentação, Jericó (Israel)