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quarta-feira, 12 de março de 2014

Evangelho 2º domingo da Quaresma - Mt 17, 1-9 - Ano A - Transfiguração

Comentário ao Evangelho – II domingo da Quaresma – Mt 17, 1-9 – Ano A – 2014
A refulgência esplendorosa da alma de Jesus
E transfigurou-Se diante deles. O Seu rosto ficou refulgente como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se luminosas de brancas que estavam.
No que terá consistido essa transfiguração? Evidentemente, não viram os Apóstolos a divindade do Verbo de Deus, inacessível aos olhos corporais. Viam apenas uma fímbria dos fulgores da verdadeira glória da humanidade sagrada de Jesus. Provavelmente, nada mais do que o dom da claridade da qual gozam os corpos gloriosos.
Tenhamos presente o quanto o Salvador tinha preferência pela noite para rezar e por isso esse marcante acontecimento deve ter-se dado após o entardecer, em meio aos silêncios da natureza, pois também assim Ele Se manifesta a nós quando fazemos calar, em nosso interior, o bulício das criaturas e buscamos as luzes do alto depois de termos apagado as de aqui debaixo.
“O seu rosto resplandecia como um Sol” (Ap 1, 16), ou seja, raios de luz partiam de Sua Sagrada Face e se espalhavam a Se a fé dos Apóstolos necessitasse de boa distância. Sem deixar uma confirmação testemunhal, ali estavam dois máximos representantes da Lei e dos de ser a mesma fisionoProfetas adorando a Cristo Jesus mia, nada mais possuindo de conotações terrenas, tornou-se radiante de brilho e esplendor, com plena vitalidade e doçura. Bem podemos imaginar Sua grandeza ao vir julgar os vivos e os mortos no fim dos tempos, uma vez que Seu rosto será ainda muitíssimo mais brilhante nessa ocasião.
Por mais requintada que seja a arte humana, difícil lhe é superar certas belezas da natureza saídas das mãos de Deus. Acima dessas, estão as maravilhas da graça, as quais ultrapassam todos os limites. Assim deveriam ser as vestes de Jesus durante Sua Transfiguração, bem diferente, aliás, das usadas por nós nessas vias que terminam na morte. Essa refulgência das roupas de Jesus era pálida exteriorização da glória de Sua adorável alma, bem-aventurada pela graça de união e por encontrar-se na visão beatífica desde o primeiro instante de Sua criação.
Quanta ilusão causam às vezes, nossos alfaiates, costureiras e modistas, quando com certo sucesso, por suas habilidades, conseguem encobrir defeitos de um corpo concebido no pecado e por ele tisnado. Nestes casos, a roupa acaba por retificar as linhas tortas da natureza. Durante a Transfiguração tudo foi diferente; a pulcritude da alma de Jesus revestiu sua natureza humana perfeitíssima. Foi a glória interior que se explicitou ante o olhar de quem teve a felicidade de estar no Tabor naquele momento.
O poder sobre a morte e a vida
Eis que lhes apareceram Moisés e Elias falando com Ele.
Se a fé dos Apóstolos necessitasse de uma confirmação testemunhal, ali estavam dois máximos representantes — um da Lei e outro dos Profetas — adorando a Cristo Jesus. Intimamente ligados ao Messias, cumpriam de maneira soberana as exigências jurídicas para a autenticidade de um testemunho absoluto. Termina a Lei, cumprem-se as profecias. Toda a criação se prostre aos pés do Prometido das nações.
Esses dois grandes personagens aparecem na Transfiguração do Senhor, segundo nos assegura São João Crisóstomo, “para que se soubesse que Ele tinha poder sobre a morte e sobre a vida; por esta razão apresenta Moisés, que tinha morrido, e Elias, que ainda vivia”
Papel das consolações na vida
Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: “Senhor, que bom é nós estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas, uma para Ti, uma para Moisés, e outra para Elias.”
Pedro será confirmado em graça somente em Pentecostes; até lá, sua loquacidade lhe confere o mérito da manifestação de fé na divindade de Jesus (cf. Mt 16, 16; Mc 8, 29; Lc 9, 20), ou o demérito da promessa temerária de jamais romper sua fidelidade (cf. Mt 26, 33-35; Mc 14, 29; Lc 22, 33; Jo 13, 37), ou da negação na casa do Sumo Sacerdote (cf. Mt 26, 69-74; Mc 14, 66-72; Lc 22, 55-60; Jo 18, 25-27). No Tabor, penetrado de desmedida alegria, deseja perpetuar aquela felicidade. Pedro não estava ainda suficientemente instruído pelo Espírito Santo para saber o quanto a Terra não era o ambiente para o gozo permanente. Não tinha noção de quanto as consolações são auxílios passageiros concedidos por Deus para nos estimular em Seu serviço e a sofrer por Ele.
“Eu e o Pai somos um”
Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem resplandecente os envolveu; e saiu da nuvem uma voz que dizia: “Este é o Meu Filho muito amado em Quem pus toda a Minha complacência; ouvi-O”.
Nas Escrituras Sagradas, aparece algumas vezes esta ou aquela nuvem para simbolizar a presença de Deus e Sua teofania. Várias são as passagens do Êxodo em que elas são utilizadas como sinais sensíveis da manifestação divina: “a glória do Senhor apareceu no meio da nuvem” (Ex 16, 10); “e logo que Moisés entrava no tabernáculo da aliança, a coluna de nuvem descia [...] vendo todos que a coluna de nuvem se conservava parada à porta do tabernáculo” (Ex 33, 9-10); etc.
Não resta a menor dúvida de ser do Pai a voz que proclama: “Este é o meu Filho”. E de fato, analisando em profundidade, somente Cristo Jesus preenche todos os requisitos de Filho perfeito. Possui a mesma substância do Pai de maneira tão plenamente cabal que constitui uma só e mesma coisa com Este: “O Pai e eu somos a mesma coisa” (Jo 10, 30). É, portanto, igual ao Pai: “Filipe, quem me vê, vê também a meu Pai” (Jo 14, 9).
Em Suas duas naturezas, Ele é a Palavra que manifesta o Pai: é “o resplendor de sua glória e a figura de sua substância” (Hb 1, 3), enquanto Deus. Por outro lado, também o fez através de Sua humanidade: “Manifestei o Teu nome aos homens que Me deste do meio do Mundo” (Jo 17, 6); “glorifiquei-Te sobre a Terra; acabei a obra que Me deste a fazer” (Jo 17, 4). Além disso, foi de uma insuperável obediência: “Não se faça a Minha vontade, mas a Tua” (Lc 22, 42); “o meu alimento é fazer a vontade dAquele que Me enviou” (Jo 4, 34); “fez-Se obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2, 8). Sempre em inteira submissão, imitando-O em tudo: “O Filho não pode por Si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vê fazer o Pai” (Jo 5, 19).
Se bem que sejamos verdadeiros filhos de Deus, como nos assegura o Salmista — “Eu disse: ‘Sois deuses, e todos filhos do Altíssimo’” (Sl 81, 6) —, nós o somos por misericordiosa adoção. O Filho de Deus por natureza é um só: “O Filho de Deus veio e nos deu entendimento e luz para conhecer ao verdadeiro Deus” (1 Jo 5, 20).
[...] “muito amado em Quem pus toda a minha complacência” [...]
Quando amamos algo, buscamos uma bondade que preexiste nesse algo, enquanto reflexo do próprio Deus. Nosso amor não é eficiente a ponto de produzir a bondade nos objetos por nós amados. Pelo contrário, o amor de Deus, segundo São Tomás de Aquino, é tão rico que introduz a bondade nos seres por Ele amados. Ele é a Bondade por essência e a difundiu por todas as Suas criaturas. Porém, aqui afirma o Pai ter colocado “toda” a Sua complacência em seu Unigênito, tal qual no-lo declara São João: “O Pai ama o Filho, e pôs todas as coisas na sua mão” (Jo 3, 35). Portanto, ao colocar nEle todo o Seu amor, pôs nEle, toda a Sua bondade.
[...] “ouvi-O”
Ali estava o próprio Moisés, que outrora dissera ao povo eleito: “O Senhor teu Deus te suscitará um Profeta, como eu, de tua nação, e dentre teus irmãos; ouvi-lo-ás” (Dt 18,15). A ele, mais tarde, se associaria a voz de um outro mestre: Elias.

Os mestres do Antigo Testamento eram autênticos enquanto procuravam anunciar o Messias vindouro ou Sua doutrina. O mesmo se deve afirmar a respeito de todos os que vieram depois de Cristo: serão eles verdadeiros mestres na medida em que aprenderem e transmitirem a doutrina do Divino Mestre, tal qual Ele mesmo afirmou: “Um só é o vosso Mestre” (Mt 23, 8). Ele não ensina como um professor comum que busca ilustrar seus alunos por meio de puros raciocínios, Ele se baseia em Seu conhecimento, por ser a Sabedoria infinita, e em Sua autoridade de Filho de Deus, e por isso exige nossa fé. Sua vida nos proporcionou, a cada passo, motivos suficientes para nEle crermos. É um dever de nossa parte crer em Sua Palavra, imitar Seus exemplos, praticar sua lei, etc.; nisto consiste a obediência à ordem do Pai: “... ouvi-O”.
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terça-feira, 11 de março de 2014

Evangelho 2º domingo da Quaresma - Mt 17, 1-9 - Ano A - Transfiguração

Comentário ao Evangelho – II domingo da Quaresma – Mt 17, 1-9 – Ano A – 2014
Gozo: a posse do bem desejado
Dessa visão de Deus face a face e desse amor recíproco entre mim e Ele, redundará um eterno e indescritível gozo, pois quando tomo posse de um objeto sempre muito desejado por mim, torno-me feliz. Enquanto ele não me pertence, eu me consumo por obtê-lo. Ao recebê-lo por minha propriedade definitivamente, nele repouso e dele desfruto. Nisso consiste a felicidade. Quanto melhor for o objeto e maior sua duração, proporcionalmente mais intenso será o meu gozo daí resultante. O ser humano, na essência de seu espírito, especificamente é inteligência e amor. No Céu, o desejo de conhecer se satisfaz de forma plena na visão da Verdade, Bondade e Beleza, ou seja, do próprio Deus. E a ânsia de amar e ser amado se aplaca inteiramente, pois não só amaremos a Deus, mas seremos cientes e experientes de todo o amor que Ele nos tem. E, ademais, eternamente vendo aspectos novos do Ser Absoluto e Infinito, acrescidos pelo insuperável convívio de Jesus em Sua santíssima humanidade, da Virgem Maria, nossa Mãe, dos anjos e dos santos.
O que é o Céu?
Esse é o Céu, “o fim último e a realização de todas as aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva” 6; e essa é a glória que transparece no Tabor, ao transfigurar-Se o Senhor. Manifestou aos três Apóstolos a clareza de Sua alma e de Seu corpo para animá-los, em função da glória final, a percorrerem o espinhoso e dramático caminho do Calvário e, com fortaleza de alma, aceitarem o futuro martírio no epílogo de suas vidas.
Com esse fundo de quadro, analisemos o Evangelho deste Segundo Domingo da Quaresma.
A Transfiguração do Senhor
Seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os à parte a um monte alto [...]
São Lucas fala em oito dias. Será mais fácil compreender quão aparente é essa discrepância se levarmos em conta que um evangelista considera o dia de saída e o de chegada, enquanto Mateus só se refere aos intermediários, como nos explica São Jerônimo7. O “depois” toma como referência a cena da confissão e primado de Pedro, na Cesaréia. Dali partem rumo ao Monte Tabor que dista aproximadamente 80 km, situado nos confins da Galiléia e da Samaria. O Divino Mestre se comprazia com o alto das montanhas, e ali procurava prodigalizar Seus grandes mistérios.
Nesse caso concreto, escolheu o Tabor talvez para simbolizar a necessidade de elevarmos nossos corações sobre as coisas deste mundo e, em conseqüência, mais facilmente nos entregarmos à meditação das verdades eternas e delas tirarmos todo proveito, conforme as palavras de São Remígio: “Com isto o Senhor nos ensina que é necessário, para quem deseja contemplar a Deus, não se deixar atolar nos baixos prazeres, mas elevar a alma para as coisas celestiais, por meio do amor às realidades superiores. Ensina ainda a Seus discípulos que não devem procurar a glória de sua beatitude divina nas regiões inferiores do mundo, mas sim no reino da beatitude celestial. E são levados separadamente porque todos os santos estão apartados, com toda a sua alma e pela direção da fé, de qualquer mancha, e serão radicalmente separados nos tempos vindouros; ou também porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos” 8.
Os comentários se multiplicam a propósito da razão de ter Jesus escolhido esses três Apóstolos para gozarem do convívio glorioso do Senhor. Um motivo claro e imediato salta logo aos olhos: estes veriam mais de perto as humilhações pelas quais passaria o Salvador. Como também era fundamental haver algumas testemunhas da glória de Jesus para sustentarem, na prova da Paixão, os Apóstolos em suas tentações.

Apartar-se das criaturas é condição indispensável para entrar em contato com Deus e, mais ainda, para vê-Lo.
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segunda-feira, 10 de março de 2014

Evangelho 2º domingo da Quaresma - Mt 17, 1-9 - Ano A

Comentário ao Evangelho – II domingo da Quaresma – Mt 17, 1-9 – Ano A – 2014
Seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os à parte a um monte alto, e transfigurou-Se diante deles. O Seu rosto ficou refulgente como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se luminosas de brancas que estavam. Eis que lhes apareceram Moisés e Elias falando com Ele. Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: “Senhor, que bom é nós estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas, uma para Ti, uma para Moisés, e outra para Elias.” Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem resplandecente os envolveu; e saiu da nuvem uma voz que dizia: “Este é o meu Filho muito amado em quem pus toda a minha complacência; ouvi-O”. Ouvindo isto, os discípulos caíram de bruços, e tiveram grande medo. Porém, Jesus aproximou-Se deles, tocou-os e disse-lhes: “Levantai-vos, não temais”. Eles, então, levantando os olhos, não viram ninguém, exceto Jesus. Quando desciam do monte, Jesus fez-lhes a seguinte proibição: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (Mt 17, 1-9).
Como será a felicidade eterna?
A Transfiguração foi para os discípulos um antegozo do Céu e uma imensa consolação para enfrentar as futuras provações da Paixão e Morte de Jesus. Também todo batizado recebe consolações, como estímulo a perseverar no serviço de Deus.
A imensa felicidade do Paraíso celeste
São Paulo declara aos Coríntios ter sido arrebatado ao Céu em certo momento de sua vida, e lá ter ouvido palavras impossíveis de ser transmitidas e menos ainda de poder explicá-las: “... foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis que não é lícito [ou possível] a um homem repetir” (2 Cor 12, 4).
De fato, para os místicos torna-se difícil externar suas experiências interiores, e daí bem podemos compreender o quanto faltaram a São Paulo os termos de comparação para relatar o que com ele se passara, pois, segundo o que ele mesmo havia dito anteriormente: “nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1 Cor 2, 9). Essa é a maravilha que nos aguarda no momento de ingressarmos na vida eterna. E esse deve ter sido um considerável motivo para São Paulo perseverar até a hora de seu martírio, apesar de ter ele visto então apenas reflexos do Absoluto que hoje contempla face a face.
Consideremos em profundidade — até onde pode alcançar nossa inteligência fortalecida pela fé — qual será a essência de nossa felicidade quando ingressarmos na visão beatífica.
Visão beatífica e conhecimento de Deus através das criaturas
Segundo São Tomás de Aquino, todos os seres criados por Deus poderiam ter sido superiores, com exceção de três: a humanidade de Cristo, por estar unida hipostaticamente à pessoa do Filho; a Virgem Santíssima, por ser Mãe de Deus; e a visão beatífica, por se tratar de visão do próprio Deus 1. São Paulo afirma ser imperfeito nosso conhecimento nas atuais circunstâncias, mas “quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido” (1 Cor 13, 10). E torna ainda mais clara essa idéia utilizando-se desta comparação: “Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, discorria como criança. Mas, quando me tornei homem, dei de mão às coisas que eram de criança. Nós agora vemos como que por um espelho, obscuramente, mas então veremos face a face” (1 Cor 13, 11-12).
Tão rico foi o universo teológico recebido por São Paulo diretamente do próprio Cristo Jesus que, às vezes, teses de preciosa substância ficam involucradas em meio de outros temas, ao longo de suas epístolas. Esta, em concreto, é uma delas. De fato, nosso conhecimento é imperfeito, pois, quer seja no campo natural da pura inteligência, ou no sobrenatural, mediante a virtude da fé, e inclusive no da profecia, tem uma nota comum: a elaboração subseqüente realizada com base nos conceitos criados e com o esforço da abstração.
Pelo contrário, ao vermos Deus face a face, a fé redundará em visão e, portanto, se evanescerá com todo o conhecimento abstrativo.
Agora vemos como que por um espelho...” ou seja, por meio de um instrumento; conhecemos a Deus só “porque as coisas invisíveis dEle, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis” (Rm 1, 20). E é a partir desse contato direto com as criaturas que elaboramos outros motivos e princípios através da própria fé, utilizando conceitos criados. Por isso é obscuro nosso conhecimento e, portanto, imperfeito. Porém, quando chegar o fim, teremos um conhecimento imediato, claro e total de Deus, se bem que não possamos conhecê-Lo totalmente.
A felicidade do ser inteligente: o exercício de suas faculdades
Talvez entendamos ainda melhor essa questão se seguirmos o pensamento de São Tomás de Aquino 2. Segundo o Doutor Angélico, o desejo de felicidade do ser inteligente leva-o a buscar sua própria perfeição, exercitando suas mais elevadas faculdades. Isto se verifica até quanto aos próprios sentidos, e por isso podemos constatar que o olho se regozija ao ver, e o paladar, ao saborear. E em conseqüência constitui um tormento a inatividade forçada dos mesmos.

Ora, a felicidade do ser inteligente também se verifica no exercício de suas faculdades e tornar-se-á ele tanto mais feliz quanto mais nobres sejam essas faculdades e mais formoso e elevado o objeto sobre o qual se exerçam. Não há dúvida de que, naturalmente falando, nada há de mais excelente no homem do que sua inteligência e nada pode superar a suprema verdade que é o próprio Deus. É, portanto, na inesgotável e sempre renovada visão beatífica que o homem encontra a plenitude da felicidade, extensiva a todas as suas apetências legítimas, como, por exemplo, o desejo de governar: “e reinarão com Ele ...” (Ap 20, 6); ou a necessidade dos bens: “Todos os bens me vieram juntamente com ela, e inumeráveis obras pelas suas mãos” (Sb 7, 11). “O que é presentemente para nós uma tribulação momentânea e ligeira, prepara-nos um peso eterno de glória para além de toda a medida” (2 Cor 4, 17).
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sábado, 8 de março de 2014

Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Mt 4, 1 -11 - Ano A - 2014

Conclusão dos comentários ao Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Ano A -Mt 4, 1 - 11
O VALOR DAS TENTAÇÕES
Na segunda leitura (Rm 5, 12.17-19), São Paulo sintetiza o ensinamento da Liturgia deste 1 Domingo da Quaresma: se “o pecado entrou no mundo por um só homem [...], pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5, 12.19). Sua afirmação deixa patente como toda graça, força e poder foram franqueados ao gênero humano pela fidelidade de Cristo, modelo supremo no combate às tentações.
Existem doentes com uma espécie de complexo causado por verem pessoas saudáveis, a quem muitas vezes gostariam de transmitir suas enfermidades para aliviar o instinto de sociabilidade ferido, por se sentirem diferentes ou inferiores. Assim também age satanás. Ao cair no inferno, por ter-se revoltado contra Deus, passou a detestar os que batalham para obter a salvação, por serem seus inimigos e adoradores de quem ele odeia. Então, quer o demônio a nossa perdição e permanece à espreita, andando em derredor, “como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pd 5, 8), pronto para nos empurrar precipício abaixo e nos lançar na mesma infelicidade eterna na qual ele se jogou.
A tentação é um benefício
Deus lhe permite tentar-nos, com vistas ão nosso benefício, para nos dar oportunidade de adquirir força, experiência e sagacidade na luta contra ele, e, derrotado este, outorgar-nos o prêmio de não ter cedido. Mas se tivermos a desgraça de sucumbir, não nos esqueçamos do Salmo Responsorial (cf. Sl 50, 3a), que diz: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós”. Estas palavras do rei Davi, o perfeito arrependido, recordam como, desde que reconheçamos nosso pecado com verdadeira contrição e desejo de nunca recair na falta cometida, nossas culpas serão apagadas. Quando nos apegamos a Nosso Senhor e à misericórdia de Nossa Senhora, recebemos o consolo de sermos perdoados.
Foi o que aconteceu a Adão e Eva. À medida que foram comprovando as consequências da falta cometida, deram-se conta de que não valera a pena ter comido o fruto proibido e, sem dúvida, choraram seu crime. Quantas vezes algo semelhante se passa conosco quando, depois de ter percorrido um bom trecho da vida, olhamos para trás e verificamos que o pecado não compensou. Nessas horas a lembrança de nossas quedas servirá para ilustrar e fortalecer as atitudes do presente, ajudando-nos a tomar decisões bem firmes e acertadas.
As tentações nos obtêm, sobretudo, méritos para a eternidade. Tanto o santo quanto o pecador são tentados, e às vezes oprimeiro mais que o segundo, a julgar pelo modo atroz com que satanás investiu contra Nosso Senhor. A grande diferença entre ambos é que um recusa as solicitações e o outro se rende. Logo, ser tentado não é um desastre, pelo contrário, pode ser até um bom sinal. De nossa parte é preciso não consentir e, para isso, apoiemo-nos no auxílio divino, pois seria uma insensatez concebermos nossas qualidades como o fator essencial na luta contra o demônio, o mundo e a carne.
A nossa força está na graça
Diante da tentação, devemos crer na força de Nosso Senhor Jesus Cristo e não nas nossas. No deserto, o diabo quis convencê-Lo do quanto Ele era poderoso, capaz e apto a estar no centro dos acontecimentos, e faz o mesmo conosco incitando-nos, pelo orgulho, a esquecer a graça e a vida interior, imprescindíveis para resistir. Daí a necessidade absoluta de nos aproximarmos dos Sacramentos com a maior frequência possível, de “orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo” (Lc 18, 1); de recorrermos à mediação de Nossa Senhora e à intercessão dos Santos; de termos, enfim, ao longo de todo o dia, a nossa primeira atenção posta no sobrenatural, como São Paulo: “A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim” (Gal 2, 20). Assim obteremos forças para enfrentar todos os problemas, pois quem é negligente em sua vida interior perde o principal instrumento de combate. O Apóstolo, confiante na ajuda divina, não se sentia intimidado por nenhuma adversidade: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: ‘Por amor de Ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro’. Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d’Aquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Rm 8, 35-39).
Se uma criança recém-batizada tem mais poder do que todos os infernos reunidos, os que possuem a vida divina nada devem temer! Quando o inimigo nos assalta, unamo-nos ainda mais a Nosso Senhor Jesus Cristo, animados pela lição deste início de Quaresma: para vencer todas as tentações é indispensável contar com a graça divina.
1) SANTO AGOSTINHO. Enarratio in psalmum LX, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.519.
2) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. T, q.102, a.4.
3) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 21 set. 1985.
4) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.I (1,1-10, 42), c.4, n.21. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.11, p.39.
5) Cf. CLA DIAS, EP, João Scognamiglio. Convertei-vos e crede no Evangelho. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.122 (Fey., 2012); p.10-i7; Os benefícios das tentações. In:Arautos do Evangelho. São Paulo. N.62 (Fey., 2007); p.10-I7
6) Cf. WILLAM, Franz Michel. A vida de Jesus no país e no povo de Israel. Petrópolis: Vozes, 1939, p.85.
7) Cf. MALDONADO, SJ, Juan de. Comentario a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.1, p.213-214.
8) AUTOR INCERTO. Opus impeifectum in Matthceum. Homilia V, c.4, n.5: MG 56, 665.

9) SAO JERONIMO, op. cit., p.41.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Mt 4, 1 -11 - Ano A - 2014

Continuação dos comentários ao Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Ano A -Mt 4, 1 - 11
Com o diabo não se conversa
4 Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Tomando uma atitude radical, Ele cortou a conversa com o demônio. Como podemos comprovar nesta e nas tentações seguintes, suas respostas são taxativas, dadas com a nítida intenção de encerrar o colóquio. Além disso, o argumento utilizado por Jesus baseia-se na autoridade da Escritura, contra a qual não há recurso. Ao evocar as palavras do Deuteronômio, “não só de pão vive o homem” (8, 3), Ele como que afirmava: “Não só de pão, mas também de pão”. Reconhece a necessidade do alimento e até do dinheiro, porém, ensina que devem ser utilizados com a primeira atenção posta em Deus. Seu divino exemplo é de desprendimento das coisas concretas.
Outra lição que daí decorre diz respeito ao modo de proceder de Jesus em face de uma necessidade pessoal. Aquilo que o demônio queria que realizasse em proveito próprio, ao converter as pedras em pão, Ele o faz depois, em favor de terceiros, nas Bodas de Caná, ao converter a água em vinho (cf. Jo 2, 1-11), e multiplicando pães e peixes ao longo da vida pública (cf. Mt 14, 15-21; Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-13). Sua conduta é perfeita, pois precisamos dar aos Outros aquilo que o maligno sugere que obtenhamos para nós mesmos, e fazer-lhes o bem que gostaríamos de receber.
Movido por sua característica pertinácia, o anjo mau não desiste e faz nova proposta.
A quimera de uma religião sem cruz
Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-O sobre a parte mais alta do Templo, 6 e Lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, e eles Te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!”
Ðiscutem os autores se o demônio foi caminhando com o Divino Mestre até a parte mais alta do Templo ou se usou de suas faculdades angélicas para conduzi-Lo até lá.7 Grande parte deles sustenta que O levou pelos ares, para dar-Lhe a sensação de que tinha muito poder. Insensatez, pois o tentador não sabia que Jesus Cristo, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o criara e lhe outorgara a capacidade de realizar este prodígio. “Levava Cristo como se Ele estivesse obrigado, sem dar-se conta de que ia voluntariamente”.8 No alto do Templo o diálogo continua, e como Nosso Senhor silenciou satanás na primeira tentação valendo-Se da Escritura, ele agora contra-ataca, com inteligência, utilizando a mesma arma. Seu argumento consiste em alegar a proteção que Deus Lhe daria se Ele Se lançasse do pináculo do edifício sagrado. Não obstante, “as falsas flechas do diabo, tiradas das Escrituras, são quebradas por Cristo com os escudos verdadeiros das próprias Escrituras”.9
Nesta tentação o demônio propunha uma caricatura da Religião verdadeira, excluindo o papel da dor, do sacrifício e do caminho autêntico para a santidade. Uma religião baseada no fabuloso, no portento e no prodígio, porque, do principal local de culto de Israel desceria de forma fulgurante o Messias, muito diferente do varão crucificado que Nosso Senhor estava destinado a ser, por amor à humanidade pecadora. A resposta admite dois sentidos, para confundir o diabo e dar a conversa, mais uma vez, por concluida: “Não me tentes porque Eu sou Deus” ou “Eu não posso fazer isto, porque seria tentar a Deus”. Nós, porém, podemos interpretá-la como um ensinamento a respeito da resignação que deve caracterizar o nosso relacionamento com Jesus. E lícito pedirmos milagres e até manifestações grandiosas, mas cientes de que se não formos atendidos a nossa fé tem de permanecer intacta.
O príncipe das trevas sempre tira o que promete
Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto.
Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9 Lhe disse: “Eu Te darei tudo isso, se Te ajoelhares diante de mim, para me adorar”, ‘° Jesus lhe disse: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto”. Então o diabo O deixou, E os Anjos se aproximaram e serviram a Jesus.
Apesar de ter sido vencido duas vezes, o demônio deseja chegar ao último ponto: ser adorado por Nosso Senhor, o que suporia uma negação do culto a Deus. Para isto ele oferece o domínio temporal que — sempre cobiçado ao longo da História —levou muitos homens a seguir os ídolos, abandonando o verdadeiro Deus. No entanto, com uma resposta que não prima pela diplomacia, Jesus, em primeiro lugar, expulsa o príncipe das trevas e, depois, ainda sublinha que apenas ao Senhor — ou seja, a Ele mesmo — é devido o culto que o maldito pretendia desviar para si.

Grande é o contraste entre Adão e Nosso Senhor Jesus Cristo. O primeiro deu ouvidos à recomendação da serpente, transmitida por Eva, e comeu o fruto, perdendo aquilo que o demônio prometera: “sereis como Deus” (Gn 3, 5). Pois com o pecado a vida divina se extinguiu em sua alma, enquanto se tivesse correspondido ao mandado do Senhor receberia um acréscimo de felicidade, manteria o estado de graça e teria feito notável progresso na vida espiritual. Portanto, aquilo que o tentador fingia querer dar foi justamente o que lhe roubou. A Nosso Senhor ele ofereceu o serviço dos Anjos e todos os tesouros da Terra, coisas que era incapaz de conceder, mas que foram entregues a Jesus-Homem junto com a realeza sobre toda a humanidade e sobre a ordem da criação, por ter vencido satanás e ter abraçado os tormentos do Calvário. Eis um princípio que deve nortear constantemente a nossa vida, até a hora da morte: nunca podemos dialogar com o demônio, criatura maldita que sempre tira aquilo que promete. Devemos encerrar qualquer conversa com ele logo no início, com o apoio da Palavra de Deus, à imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Continua no próximo post.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Mt 4, 1 -11 - Ano A

Continuação dos comentários ao Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Ano A -Mt 4, 1 - 11
NOSSO SENHOR QUIS SER TENTADO
A tentação de Jesus se deu no início de sua vida pública, logo depois de ter recebido o Batismo de São João. Estendeu-se ao longo de quarenta dias no deserto de Judá, região isolada, inóspita e habitada por feras selvagens. Segundo a tradição, Ele permaneceu em oração e rigoroso jejum numa elevação existente nas proximidades de Jericó, hoje chamada Monte da Quarentena. Encontramos uma pré-figura desse acontecimento nas vidas de Moisés e Elias, que também se retiraram pelo mesmo período durante o desempenho de sua missão profética (cf. Ex 34, 28; I Rs 19, 5-8).
Deus permite a tentação para o nosso bem
Naquele tempo, 1 o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
Neste primeiro versículo, chama-nos especial atenção o fato de Nosso Senhor ter sido conduzido pelo Espírito Santo. No Batismo do Jordão Ele fora glorificado pelo Pai, cuja voz se ouviu enquanto o Paráclito descia sob a forma de uma pomba, em circunstâncias que à primeira vista diríamos muito propícias para inaugurar seu período de pregação. Ao invés disso, quis Se dirigir ao deserto. Sua atitude nos mostra que quando somos chamados a realizar alguma obra importante devemos rezar antes, tal como a Igreja recomenda fazer, no início de todas as atividades.
Disso nos dá exemplo o Filho de Deus ao escolher o isolamento. E não somente com vistas à contemplação, mas também para “ser tentado pelo diabo”, como deixa claro São Mateus. Por que motivo isso teria sido permitido por Deus? Ora, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Nosso Senhor era incapaz de sofrer a menor tentação; como Homem, todavia, quis padecê-la para vencer o demônio e quebrar seu poder. Assim, o anjo decaído seria derrotado por uma criatura humana.
Satanás, por sua vez, não tinha conhecimento de que Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus, e apenas julgava que fos se seu Filho, sem possuir a mesma natureza do Pai. Ignorava também o mistério da união hipostática, embora reconhecesse que Jesus estava na graça de Deus. Em suma, o maligno arrastava uma forte insegurança a respeito da identidade de Cristo, e daí o interesse em tentá-Lo para descobrir quem era, na realidade. Seu objetivo, porém, terminará frustrado e ele se verá obrigado a partir sem saber o que desejava, pois Nosso Senhor não lhe dará possibilidade de chegar a uma conclusão, segundo comenta São Jerônimo: “Em todas as tentações o diabo faz isto para saber se é Filho de Deus, mas o Senhor mede a resposta de modo a deixá-lo na dúvida”.4 E evidente que Jesus jamais poderia ser logrado pela astúcia do demônio, uma vez que era seu Criador.
Quando a tentação se abate sobre nós, temos a tendência de perguntar: “Por que Deus a permite?”. Certamente para o nosso bem, caso contrário Nosso Senhor não a teria experimentado. Lembremo-nos de que Jesus é conduzido pelo Espírito Santo, e quem permite a tentação é o Pai, o qual dissera pouco antes: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 17). Se o Pai manifesta sua complacência pelo Filho e, em seguida, consente em sua ida para o deserto, por que não quererá que nós, que recebemos a vida divina por meio d’Ele, sigamos o mesmo caminho?
De fato, o Pai quis que tivéssemos um paradigma, Cristo Jesus, e, ao passarmos por tentações, agíssemos em conformidade com Ele. Não podemos tomar a provação como um desastre ou um sinal de decadência na vida espiritual, pois se assim fosse deveríamos concluir que Nosso Senhor havia passado por uma crise espiritual nesse episódio, o que é absurdo e até blasfemo. Muito pelo contrário, deitemos especial empenho em analisar o procedimento de Jesus, tendo presente que o relato das tentações é tão só uma síntese do que na realidade aconteceu. Vários Santos mostraram-se favoráveis à hipótese de que Ele tivesse sido provado inúmeras vezes e de todos os modos, no decorrer dos quarenta dias, como já tivemos oportunidade de comentar.5
O demônio se aproveita das fraquezas humanas
2 Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome.
O recolhimento de Nosso Senhor no deserto atinge seu auge ao cabo de quarenta dias, e é esse o momento escolhido por satanás para tentá-Lo de forma particular, o que novamente encerra um ensinamento, pois muitas vezes as piores provações se abatem sobre nós nas melhores fases da vida espiritual. Quando começamos a dar passos firmes nas vias da virtude, o demônio costuma intensificar as tentações, visando impedir a nossa santificação. Este versículo mostra ainda como Jesus padecia as contingências físicas próprias à natureza humana, das quais o demônio tirou proveito para pô-Lo à prova. Depois de enfrentar longos dias sem comer nem beber, só uma sustentação sobrenatural O mantinha vivo. Ele estava exangue, consumindo suas últimas energias, e o tentador, por sua vez, encontrava-se à espreita para agir. Tal é o artifício que conosco emprega satanás: ele se aproveita das debilidades humanas. No nosso caso, de maneira diversa ao que se passava com Nosso Senhor, sofremos as fraquezas decorrentes do pecado, como a concupiscência, a inclinação para o mal e as paixões desregradas. Se consentimos nas propostas do espírito das trevas, ele alcança o objetivo desejado ao nos tentar, fazendo-nos morrer para a vida sobrenatural.
A tentação tem seu início na sensibilidade
3 Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: ‘Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”
O demônio, conforme vimos, não sabia ao certo se Jesus Cristo era o Messias. E provável que possuísse uma vaga noção a respeito disso, por ter-lhe sido revelado quando era um Anjo de luz no Céu, mas, ainda neste caso, nem todo o plano divino sobre a Encarnação chegou a ser de seu conhecimento. Recordemo-nos de que São Paulo afirmou ter sido chamado a ensinar verdades ignoradas inclusive pelo mundo angélico (cf. Ef 3, 10).
Dado o impasse no qual estava, o tentador decidiu investir contra o Homem-Deus, tanto para descobrir quem Ele era quanto para induzi-Lo a cair no apego à matéria. Como no Paraíso, deu Início à conversa usando um método muito velhaco, de acordo com a necessidade da ocasião e os elementos existentes no local. Observam os exegetas que o deserto onde Nosso Senhor Se encontrava tinha pedras de aspecto muito aprazível, com formato arredondado e cor dourada, parecido ao dos deliciosos pães ázimos consumidos naquele tempo no Oriente.6 Portanto, em certo sentido, semelhantes ao fruto proibido do Paraíso, que era “atraente para os olhos e desejável” (Gn 3, 6), dando a ideia, sobretudo para quem tinha poder para isso, de serem transformáveis em pão. Bastaria um ato de sua vontade e Jesus as converteria num magnifico alimento saído do forno de sua palavra criadora, suficiente para Lhe saciar a fome. Ele, que ainda multiplicaria pães e peixes, transmutaria a água em vinho e operaria outros milagres sobre a comida, estava em condições favoráveis de transformar aquelas pedras. E satanás O estimula, em sua humanidade, para que use de suas capacidades sobrenaturais.
Eis a tática empregada pelo anjo das trevas na hora da tentação: começa por excitar a sensibilidade. Ao agir assim, atinge grande número de almas, sobretudo fomentando o interesse pelos bens materiais. Estes, e em especial o dinheiro, são simbolizados pela pedra e pelo pão, e constituem o maior empecilho para a santificação dos que põem sua esperança nos valores deste mundo.
O demônio mente ao fazer esta proposta a Nosso Senhor, pois promete a vida — comer, naquela circunstância, era uma questão de subsistência —, mas é à morte que quer conduzi-Lo, ao sugerir que use seu poder divino para satisfazer uma mera necessidade humana. Na verdade, Ele tinha direito de operar o milagre, mas o demônio não o sabia. Esta passagem nos confirma como satanás nunca promove a vida nem produz união, pois só se empenha em levar as almas ao pecado e, após lograr a queda de muitas delas, visa o aniquilamento da sociedade.

Uma vez lançado o desafio, iria Nosso Senhor dialogar com o tentador?
Continua no próximo post.

sábado, 1 de março de 2014

Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Mt 4, 1 -11 - Ano A

Comentários ao Evangelho 1º Domingo da Quaresma - Ano A -Mt 4, 1 - 11
Naquele tempo, 1 o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
2 Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome.  Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pãesl” 4Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
5 Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-O sobre a parte mais alta do Templo, 6 Lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo! Porque está escrito Deus dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, e eles Te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!”
8 Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e sua glória,  Lhe disse: “Eu Te darei tudo isso, se Te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. 10 Jesus lhe disse: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto”. 11 Então o diabo O deixou. E os Anjos se aproximaram e serviram a Jesus (Mt 4, 1 - 1 1).
Ao triunfar sobre o demônio e as tentações no deserto, Nosso Senhor nos dá a principal garantia de que também nós, sustentados pela graça, podemos transpor incólumes todas as lutas espirituais.
“A VIDA DO HOMEM SOBRE A TERRA É UMA LUTA”
Os fenômenos da natureza humana, mesmo os mais comuns, não raras vezes obedecem a leis que, ao serem analisadas com atenção, podem nos proporcionar valiosas lições. E o que acontece quando sofremos uma fratura e somos obrigados, por exemplo, a manter engessado durante longo período um braço ou uma perna. No momento em que o gesso é retirado comprovamos que o membro atingido, embora antes fosse forte e vigoroso, tornou-se flácido. A musculatura ficou atrofiada pela imobilidade, sendo necessário submetê-la a sessões de fisioterapia para readquirir seu aspecto normal. Algo parecido se verifica com o homem que trabalhou a vida inteira e, ao se aposentar, opta por uma existência scdentária, permanecendo sentado na maior parte do dia numa confortável cadeira de balanço. Tal regime o expõe, com o tempo, a alguma grave doença, pois a constituição do ser humano exige movimento, esforço e combate.
Isso tem sua reversibilidade na vida espiritual, e até com maior razão. Nossa alma precisa exercitar-se constantemente na virtude a fim de aderir ao bem com toda a força, para o que as dificuldades, sobretudo a tentação, contribuem com um importante estímulo, como recorda Santo Agostinho: “Nossa vida neste desterro não pode existir sem tentação, já que o nosso progresso é levado a cabo pela tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado se não vence; nem vence se não peleja; nem peleja se lhe faltam inimigo e tentações” .
A Liturgia deste 1º Domingo da Quaresma nos ensina a reconhecer a necessidade e o valor da tentação.
O Paraíso Terrestre: uma maravilha que excede a natureza humana
A primeira leitura (Gn 2, 7-9; 3, 1-7) relata como Deus, depois de criar o homem, o introduziu no Paraíso Terrestre onde “fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2,9). Segundo São Tomás de Aquino,2 era um lugar muito superior à natureza do homem — moldado com a terra deste mundo e só depois levado para o Eden (cf. Gn 2, 7-8) —, mas ao qual ele se adequava em virtude do dom sobrenatural da incorruptibilidade, infundido por Deus. Podemos supor que a natureza vegetal ali era esplendorosa, com flores, frutos e folhagens dotados de um brilho especial, e animais mais perfeitos que os atuais.
Apesar de estarem cercados de maravilhas, algo faltava a nossos primeiros pais: não tinham o mérito da fidelidade face às vicissitudes e reveses, o mérito da luta. A este propósito, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Até aquele momento, que luta tinha travado Adão? Nenhuma. Ele não tinha más inclinações, ele não tinha [defeitos] nativos, [...] ele não tinha apetência para o mal. [...] No Paraíso havia tudo, exceto um herói!”.3
Em meio ao esplendor, surge a tentação
Nessa situação de felicidade — narra o Gênesis —, aproxima-se o demônio para tentá-los através da serpente, “o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito” (3, la). Ladino, ele inicia um diálogo com Eva e lhe indaga: “E verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?” (Gn 3, lb). Deturpação característica do pai da mentira, pois Deus não havia dito isto a Adão, apenas proibira de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, acrescentando uma advertência: “no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17). Uma vez estabelecida a conversa, o demônio já havia alcançado metade de seu intento. Só faltava levá-los à queda.

Adão e Eva sucumbiram à tentação, mas o Evangelho deste domingo nos ensina a opor resistência ao inimigo infernal, seguindo as pegadas de Nosso Senhor. Por ter assumido a natureza humana, Jesus adquiriu o direito de nos conferir seus méritos e força para enfrentar o demônio, tornando-nos também triunfantes à medida que nos unimos a Ele. E neste episódio nos dá uma lição de como combater.
Continua no próximo post.