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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Evangelho – I Domingo da Quaresma - Mc 1, 12-15 - Ano B

Continuação dos comentários ao Evangelho – I Domingo da Quaresma
II – O prólogo da pregação da Boa nova
O Evangelho deste primeiro domingo reporta-nos ao momento no qual dispunha-Se Cristo a iniciar sua missão de pregar a Boa Nova. Ao sair das águas do Jordão, logo após ser batizado por João, o Céu se abriu, o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de uma pomba e ouviu-se uma voz vinda do Alto: “Tu és o meu Filho bem-amado; em Ti ponho minha afeição” (Lc 3, 22).
Nesse instante, comenta Bento XVI, deu-se uma como que investidura do encargo messiânico do Filho do Homem. Foram-Lhe conferidas ali, para a História e perante Israel, a dignidade real e a sacerdotal. A partir desse momento a vida de Jesus está subordinada à missão para a qual Ele havia Se encarnado.9
O recolhimento precede a ação
“Naquele tempo, 12 o Espírito levou Jesus para o deserto”.
Após o Batismo, a primeira disposição do Espírito Santo foi de conduzir Jesus ao deserto, onde Ele permaneceu quarenta dias em regime de penitência, isolamento e oração.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Evangelho – I Domingo da Quaresma - Mc 1, 12-15 - Ano B

Comentário ao Evangelho – I Domingo da Quaresma
Naquele tempo, 12 o Espírito levou Jesus para o deserto. 13 E Ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos O serviam. 14 Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15 ‘O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!’” (Mc 1, 12-15).
Adequar o nosso pensamento, desejos, ações e sentimentos conforme Nosso Senhor Jesus Cristo é o único meio de correspondermos condignamente ao amor que Deus manifesta por cada um de nós.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – Um amor levado ao extremo limite
É insondável o amor do Criador em relação a cada um de nós em particular. Por isso, às vezes, nos confunde a consideração de todos os benefícios que d’Ele recebemos.
Podendo simplesmente permanecer em sua plena e eterna felicidade, quis Deus criar o universo, com o objetivo de manifestar sua infinita bondade: “Ele criou por bondade. Não necessitava de coisa alguma daquilo que fez”1 — ensina Santo Agostinho.
A todos os homens e mulheres, Ele deu o ser, escolhendo-os um a um dentre as infinitas criaturas racionais que poderia criar. Ademais, nos redimiu do pecado, nos sustenta e favorece com seus dons, nas mais variadas circunstâncias. Mas, sobretudo, dá-nos a oportunidade de participar de sua vida divina já nesta Terra, como primícias da felicidade sem fim que nos está reservada no Céu, em inefável convívio com a Santíssima Trindade.
Deus faz aliança com os homens
Em contrapartida a tanta bondade, repete-se invariavelmente uma constante no comportamento dos homens: em determinado momento, eles se desviam dos caminhos traçados pelo Criador; a Providência, então, intervém a fim de evitar sua perdição, proporcionando-lhes os meios necessários para a salvação. Assim, quando Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, Deus os castigou com a expulsão do Paraíso, mas fez ao mesmo tempo uma aliança com o gênero humano, prometendo-lhe a Redenção e o restabelecimento do estado de graça perdido.2
Contudo, não tardaram os homens a recair no pecado. Logo depois de nossos primeiros pais começarem a povoar o orbe com sua descendência, o Senhor constatou “o quanto havia crescido a maldade das pessoas na Terra e como todos os projetos dos seus corações tendiam para o mal” (Gn 6, 5). Arrependido, então, de ter criado o gênero humano, o Senhor o teria extirpado por completo da face da Terra se Noé não encontrasse graça diante de seus olhos (cf. Gn 6, 8).
Assim, conforme narra a primeira leitura deste domingo (Gn 9, 8-15), terminado o terrível castigo do Dilúvio, Deus abençoou Noé e seus filhos, e estabeleceu com eles e com sua descendência uma aliança que “permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho”.3
Essa aliança será mais tarde renovada com Abraão, em quem “serão abençoadas todas as famílias da Terra” (Gn 12, 3); através da Lei de Moisés, no Sinai (cf. Ex 19, 5-6); ou na promessa messiânica feita a Davi (cf. II Sm 8, 16), para citar apenas alguns dos principais episódios da história da Salvação.
Cristo, auge da história da Salvação
Passam-se os séculos e a humanidade atinge um auge de decadência que marca simultaneamente o fim do Antigo Testamento e a “plenitude dos tempos” de que nos fala o Apóstolo (Gal 4, 4). Jesus cumpre de maneira superabundante as promessas feitas aos patriarcas e profetas, assumindo a humana natureza sem deixar de ser Deus. Culmina, assim, com uma perfeição toda divina, a história da Salvação.
A Encarnação do Verbo é um mistério que ultrapassa por completo nossa capacidade intelectiva. Para tentar compreendê-lo em alguma medida, imaginemos um anjo nos propondo assumir a natureza de uma minhoca, sem deixarmos a condição humana, com a missão de salvar da morte todas as minhocas do mundo. Qual seria nossa resposta?
Ora, a diferença entre um homem e uma minhoca é insondavelmente menor do que a existente entre Deus e as criaturas racionais. No primeiro caso, há uma desproporção enorme; no segundo, nem sequer se pode falar de desproporção, porque a distância é infinita. Entretanto, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana para nos salvar, manifestando por nós um amor extraordinário, fora de toda medida.
De uma “loucura” de amor nasce a Santa Igreja
No alto do Calvário, a bondade e a misericórdia do Verbo Encarnado pelos pecadores são levadas, por assim dizer, até à loucura (cf. I Cor 1, 18). E São Pedro nos lembra, na segunda leitura deste domingo: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito. No Espírito, Ele foi também pregar aos espíritos na prisão, aos que haviam sido desobedientes outrora, como nos dias em que Noé construía a arca” (I Pd 3, 18-20a).
Na Aliança estabelecida por Deus com a humanidade após o Dilúvio, Ele prometeu não mais castigar a Terra por meio das águas (Gn 9, 11). Ora, bem se poderia dizer que a história da Salvação culmina num “dilúvio de Sangue”, de acordo com a expressiva fórmula de São Luís Maria Grignion de Montfort.4 Porque — se não bastassem a flagelação, a coroação de espinhos e todos os sofrimentos ao caminho do Calvário — Ele permitiu que, na Cruz, uma lança Lhe perfurasse o peito sagrado. Verteram-se nessa hora as últimas gotas de sangue e linfa que ainda restavam no seu Sacratíssimo Coração. Nasceu assim o Corpo Místico do qual Cristo é a Cabeça. “No Calvário, Ele completa sua imolação e faz nascer, em meio às mais espantosas torturas físicas e morais, a Igreja que Ele havia tão laboriosamente preparado e instituído. [...] É, pois, a Igreja que, segundo a doutrina dos Padres, sai do Lado aberto do Salvador e, por assim dizer, é dada à luz por Ele”.5
No mesmo sentido comenta São João “Pala da Santa Trindade” - por Fra Angélico, Convento de São Marcos, Florença (Itália) Crisóstomo: “Aquele sangue e aquela água são símbolos do Batismo e dos mistérios. De um e de outra nasce a Igreja, ‘pelo banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo’ (Tt 3, 5), pelo Batismo e pelos mistérios”.6 E o Concílio Vaticano II afirma serem o começo e o crescimento da Igreja “significados pelo sangue e pela água que saíram do lado aberto de Jesus crucificado”7; e que “do lado de Cristo dormindo na Cruz é que nasceu o admirável Sacramento de toda a Igreja”.8

Continua no próximo post

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Evangelho – I Domingo da Quaresma - Mc 1, 12-15 - Ano B

Comentário ao Evangelho – I Domingo da Quaresma
Adequar o nosso pensamento, desejos, ações e sentimentos conforme Nosso Senhor Jesus Cristo é o único meio de correspondermos condignamente ao amor que Deus manifesta por cada um de nós.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
Naquele tempo, 12 o Espírito levou Jesus para o deserto. 13 E Ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos O serviam. 14 Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15 ‘O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!’” (Mc 1, 12-15).
I – Um amor levado ao extremo limite
É insondável o amor do Criador em relação a cada um de nós em particular. Por isso, às vezes, nos confunde a consideração de todos os benefícios que d’Ele recebemos.
Podendo simplesmente permanecer em sua plena e eterna felicidade, quis Deus criar o universo, com o objetivo de manifestar sua infinita bondade: “Ele criou por bondade. Não necessitava de coisa alguma daquilo que fez”1 — ensina Santo Agostinho.
A todos os homens e mulheres, Ele deu o ser, escolhendo-os um a um dentre as infinitas criaturas racionais que poderia criar. Ademais, nos redimiu do pecado, nos sustenta e favorece com seus dons, nas mais variadas circunstâncias. Mas, sobretudo, dá-nos a oportunidade de participar de sua vida divina já nesta Terra, como primícias da felicidade sem fim que nos está reservada no Céu, em inefável convívio com a Santíssima Trindade.
Deus faz aliança com os homens
Em contrapartida a tanta bondade, repete-se invariavelmente uma constante no comportamento dos homens: em determinado momento, eles se desviam dos caminhos traçados pelo Criador; a Providência, então, intervém a fim de evitar sua perdição, proporcionando-lhes os meios necessários para a salvação. Assim, quando Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, Deus os castigou com a expulsão do Paraíso, mas fez ao mesmo tempo uma aliança com o gênero humano, prometendo-lhe a Redenção e o restabelecimento do estado de graça perdido.2
Contudo, não tardaram os homens a recair no pecado. Logo depois de nossos primeiros pais começarem a povoar o orbe com sua descendência, o Senhor constatou “o quanto havia crescido a maldade das pessoas na Terra e como todos os projetos dos seus corações tendiam para o mal” (Gn 6, 5). Arrependido, então, de ter criado o gênero humano, o Senhor o teria extirpado por completo da face da Terra se Noé não encontrasse graça diante de seus olhos (cf. Gn 6, 8).
Assim, conforme narra a primeira leitura deste domingo (Gn 9, 8-15), terminado o terrível castigo do Dilúvio, Deus abençoou Noé e seus filhos, e estabeleceu com eles e com sua descendência uma aliança que “permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho”.3
Essa aliança será mais tarde renovada com Abraão, em quem “serão abençoadas todas as famílias da Terra” (Gn 12, 3); através da Lei de Moisés, no Sinai (cf. Ex 19, 5-6); ou na promessa messiânica feita a Davi (cf. II Sm 8, 16), para citar apenas alguns dos principais episódios da história da Salvação.

Comentário ao Evangelho –  Mt 6, 1-6.16-18 quarta-feira de cinzas

 Comentário ao Evangelho – Mt 6, 1-6.16-18 quarta-feira de cinzas
1 “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2 Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 3 Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará.
5 Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa.
16 Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa” (Mt 6, 1-6.16-18).
Comentário ao Evangelho – Quarta-Feira de Cinzas
O centro deve estar sempre ocupado por Deus
No jejum, na oração ou na prática de qualquer boa obra, não se pode erigir como fim último o benefício que daí possa nos advir, mas sim a glória d’Aquele que nos criou. Pois tudo quanto é nosso — exceção feita das imperfeições, misérias e pecados — pertence a Deus.
Tempo de penitência e reconciliação
Por meio do Ciclo Litúrgico, com sabedoria e didática, rememora a Igreja ao longo do ano os mais importantes episódios da existência terrena do Verbo Encarnado. As solenidades da Anunciação e do Natal, as comemorações do Tríduo Pascal e da Ascensão de Nosso Senhor aos Céus, entre outras, compõem um variado caleidoscópio, apresentando à piedade dos fiéis diferentes aspectos da infinita perfeição de nosso Redentor. As graças dispensadas pela Providência em cada um desses momentos históricos revivem, de certo modo, e se derramam sobre aqueles que devotamente participam dessas festividades.
Precedendo as solenidades mais importantes — o Nascimento do Salvador e sua Paixão, Morte e Ressurreição — a Igreja destina dois períodos de preparação: o Advento e a Quaresma, pois convém que, para celebrar tão elevados e sublimes mistérios, os fiéis purifiquem suas almas das misérias e apegos, tornando-as mais aptas a receber as dádivas celestes.
Na Quarta-Feira de Cinzas têm início os quarenta dias que antecedem a Semana Santa. As três leituras desse dia — uma passagem do Profeta Joel, um trecho de uma epístola de São Paulo e outro do Evangelho — nos falam da necessidade do jejum e da penitência como meios de melhor combater os vícios, pela mortificação do corpo, e propiciar a elevação da mente a Deus. Pois, segundo nos ensina o Papa São Leão Magno, “nós nos mortificamos para extinguir em nós a concupiscência. E o resultado da mortificação deve ser o abandono das ações desonestas e dos desejos injustos”.1
Como mais adiante veremos, os textos litúrgicos em questão fazem referência, sobretudo, a um tipo de penitência que agrada especialmente a Deus e que é essencial para nossa vida espiritual. Trata-se de evitar os exageros do amor próprio, procurando não atrair as atenções dos outros sobre si mesmo, de maneira que a alma, limpa e ornada da virtude da humildade, ofereça ao Senhor um sacrifício de agradável perfume.
“Lembra-te, homem, de que és pó”
De forma cogente, a liturgia da Quarta-Feira de Cinzas recorda-nos também nossa condição de mortais: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris — Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó hás de voltar”, diz, de modo categórico, uma das duas fórmulas usadas pela Igreja para a imposição das cinzas.2 Após a cerimônia, a fronte dos fiéis fica marcada por um traço escuro cujo aspecto trágico e carente de beleza parece proclamar: “De uma hora para outra, podemos ser levados pela morte, retornando ao pó!”.
A consideração da árdua passagem desta vida para a eternidade muitas vezes nos inquieta. Entretanto, tal pensamento é altamente benfazejo para compenetrar-nos da necessidade de evitar o pecado que, sem o arrependimento e o imerecido perdão, poderá fechar-nos, para sempre, as portas do Céu: “Lembra-te de teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40). A esse propósito, com propriedade, Dom Próspero Gueranger recomenda: “Se quisermos perseverar no bem, onde a graça de Deus nos restabeleceu, sejamos humildes, aceitemos a sentença, e não consideremos a vida senão como uma caminhada mais ou menos longa que termina no túmulo”.3
“Deixai-vos reconciliar com Deus”
Na própria primeira leitura de hoje, incentiva-nos São Paulo a vivermos na graça de Deus: “Em nome de Cristo, vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!” (II Cor, 5, 20). E com toda razão, pois o pecado nos afasta de Deus, tornando necessária a reconciliação. A Doutrina Católica nos ensina que nem mesmo os incomensuráveis méritos de Nossa Senhora somados aos dos Anjos e dos Bemaventurados, e aos de todos aqueles que poderiam ter sido criados e não o foram, seriam suficientes para reparar a ofensa de um só pecado venial. Quanto mais em se tratando de uma falta grave!
Só mesmo o Adorabilíssimo Sangue de Deus teria mérito infinito para redimir as ofensas cometidas pelos homens, desde Adão e Eva, como, com a elevação de linguagem de sempre, mostra-nos São Paulo: “Aquele que não conheceu o pecado, Deus O fez pecado por nós, para que n’Ele nós nos tornássemos justiça de Deus” (II Cor 5, 21). A Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, com sua Paixão e Morte na cruz, foi o meio escolhido para restituir à humanidade transviada a plena amizade com Deus. E, por serem insuperáveis as operações divinas, tal foi a superabundância de graça conquistada pelo sacrifício do Calvário que, mesmo a soma de todas as possíveis faltas dos homens jamais tornará insuficientes os méritos infinitos do Preciosíssimo Sangue de Cristo.4
Se Jesus não tivesse assumido sobre Si a dívida contraída por nossos primeiros pais, por meio da oblação de seu Corpo, impossível seria nossa reconciliação com Deus 5 e teríamos para sempre fechadas as portas do Céu.
Amor próprio, oração e jejum
Na passagem do Evangelho que hoje analisamos, vemos o Divino Mestre tomar como exemplo didático uma cena característica daqueles tempos. Sob uma perspectiva histórica, Ele censura uma atitude corrente, sobretudo entre os fariseus. Mas, sendo eterna a palavra de Deus, contém ela uma lição para os homens de todos os séculos.
O principal sorvedouro por onde se escoam os méritos
1“Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. Do contrário não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos Céus”.
Difícil era fariseus serem alheios à hipocrisia. Levados por um supino orgulho, voltavam-se para si mesmos a ponto de se esquecer de Deus, fazendo suas boas obras com o intuito de angariar prestígio “diante dos homens”.
O defeito apontado por Nosso Senhor neste versículo era comum entre eles, e infelizmente não é raro também em nossos dias. Trasbordam das Sagradas Escrituras conselhos sobre esse pecado capital, raiz de muitos vícios, principalmente no livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2). É essa a preocupação do Divino Mestre.
A respeito dos atos humanos podemos afirmar que alguns são neutros, como por exemplo, cantar ou pintar. A substância e o mérito lhes advêm da intenção e da finalidade com as quais os executamos. Outros são bons de per se, por estarem ordenados pela razão a um objetivo honesto. Mas, segundo o Doutor Angélico, “pode acontecer que um ato em si mesmo virtuoso se torne, eventualmente, vicioso, devido a certas circunstâncias”.6
Ora, a vaidade macula muitas vezes nossos atos de virtude e nos rouba os méritos. Pois, como sublinha o Cardeal Gomá, ela é “um perniciosíssimo inimigo das boas obras: praticá-las com o escopo de ser visto e admirado pelos outros, é perder a recompensa que lhes corresponde quando são feitas com reta intenção”.7
Afirmam os mestres da vida espiritual ser a vaidade um vício tão arraigado no homem que, por assim dizer, somente o abandona meia hora depois de sua morte. Para vencêlo, requer-se muita oração, paciência e esforço. Oração, porque por meio dela se obtêm as graças para combatê-lo. Paciência e esforço, porque devemos lutar contra ele dia e noite, impedindo-o de instalar-se em nossa alma, como recomenda São João Crisóstomo: “É necessário prestar muita atenção em sua entrada, do mesmo modo como alguém põe-se em guarda contra uma fera prestes a atacar quem não está vigilante”.8
Poderíamos, então, usar uma expressão forte, mas muito verdadeira: a vaidade é o principal sorvedouro por onde se escoam os méritos das nossas orações e boas obras. Ela é também um veneno para a alma, porque a deixa desprovida de forças para enfrentar as tentações e, portanto, exposta a toda espécie de fraquezas e capitulações.
Convém notar, de outro lado, que ao dizernos: “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, não nos convida o Mestre a sempre nos ocultarmos para fazer o bem, pois praticar a justiça diante dos homens pode ser motivo de edificação para o próximo e de glória para o Criador, como sublinha o grande Bossuet: “Ele não nos proíbe de praticar a justiça cristã em todas as oportunidades, para edificação do próximo; pelo contrário, disse Ele: ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’. [...] Edificai o próximo, por vossas ações externas, e tudo em vós, até mesmo um piscar de olhos, seja ordenado, mas tudo se faça com naturalidade e simplicidade, visando dar glória a Deus”.9
Dar esmola visando o aplauso
2 “Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Não tendo recebido ainda a seiva regeneradora do Cristianismo, na humanidade daquela época imperava de tal modo o egoísmo, que o dar esmola era prática incomum. Quem o fazia, julgava-se merecedor do aplauso dos demais, por sua pretensa bondade. Daí ser costume dar esmola “com muita ostentação”.10
Mais ainda: “Parece que, para excitar a generosidade, estabeleceu-se o hábito de proclamar o nome dos doadores [...] e chegava-se mesmo a honrá-los, oferecendo-lhes os primeiros lugares na sinagoga”.11
Ora, ensina Nosso Senhor, nesta passagem do Evangelho, que quem dá esmola para obter a aprovação dos outros pode considerar-se bem pago pelos elogios assim obtidos. Não lhe cabe esperar um prêmio sobrenatural, pois, conforme acentua o padre Tuya, “Deus recompensa em justiça sobrenatural somente aquilo que se faz sobrenaturalmente por amor a Ele, assim como repugna-Lhe esse censurável procedimento que é a hipocrisia farisaica”.12
Quem, entretanto, dá esmola discretamente, apenas diante de Deus e por amor a Deus, este sim, d’Ele receberá a recompensa.
O prêmio, devemos esperá-lo apenas de Deus
3 “Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará”.
 No versículo anterior, Nosso Senhor recrimina aqueles que visam a vanglória na prática da esmola; neste, censura-nos o comprazimento vaidoso ao realizarmos as boas obras. Para combater esse defeito, precisamos esforçar-nos para não deter nossa atenção naquilo que fazemos de bom. “Se fosse possível — comenta Bossuet —, seria necessário esconder de vós mesmos o bem que fazeis; procurai ocultar a vossos olhos pelo menos o seu mérito; [...] empenhai-vos na prática da boa obra a ponto de jamais vos preocupar com o que dela vos resultará: deixai tudo por conta de Deus, assim só Ele vos verá, vos ocultareis de vós mesmos”.13
Na mesma linha opina o Cardeal Gomá: “Se possível fosse, até nós deveríamos ignorar nossas esmolas. A recompensa, devemos esperá-la somente de Deus”.14
Complementando essas afirmações, esclarece Maldonado: “Não há culpa em ser visto pelos outros quando se faz o bem, mas sim em desejar ser visto. Também não há culpa em querer ser visto, desde que não seja para conseguir o elogio dos homens. ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus’”.15
É vã a oração de quem visa as exterioridades
5 “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
Naquela época, era dever de todo varão judeu rezar três vezes por dia: de manhã, coincidindo com o sacrifício matutino, ao meio-dia e na hora do sacrifício vespertino. As preces eram feitas geralmente de pé, com os braços erguidos para o Céu, como a simbolizar o dom que se esperava receber.16
As pessoas costumavam orar no interior das próprias casas. Os fariseus, porém, escolhiam para tal os lugares mais visíveis nas sinagogas ou nas praças públicas. Ali gesticulavam e repetiam de cor grande número de orações, de forma a impressionar quem por lá passava. Inútil dizer que eram vãs essas preces, pois eles já tinham obtido o que almejavam: o aplauso dos transeuntes.
Não caiamos, entretanto, no erro de pensar que Nosso Senhor condena toda oração feita em público. O Divino Mestre recrimina neste versículo apenas a preocupação com as exterioridades, tão frequente nos homens daquele tempo, e a atitude genérica das pessoas que rezam com ostentação ou procurando unicamente o louvor dos semelhantes.
Na nossa vida de piedade, devemos procurar ser discretos
6 “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa”.
A essência da oração, ensina o Catecismo, é a “elevação da mente a Deus”.17 Assim, é possível a qualquer um permanecer em oração inclusive durante os atos comuns da vida, realizando-os com o espírito voltado para o Céu.
Portanto, para rezar não é preciso tomar a atitude espalhafatosa dos fariseus. Devemos, pelo contrário, ser discretos nas manifestações externas de nossa piedade particular, evitando gestos ou palavras que ponham em realce nossa própria pessoa.
Mas se, apesar disso, nossa devoção for notada pelos outros, não devemos nos perturbar, tranquilizemo-nos com este ensinamento de Santo Agostinho: “Não há pecado em ser visto pelos homens, mas sim em proceder com a finalidade de por eles ser visto”.18
O jejum transformado em um ato de caráter social
16 “Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa”.
O espírito oriental, em sua riqueza de expressividade, é propenso a atitudes dramáticas, por vezes bonitas, mas que, nas práticas religiosas, podem extrapolar os padrões normais. Assim acontecia com os fariseus que, ao jejuar, colocavam cinza na cabeça, não penteavam a barba e até pintavam o rosto para dar ideia de tristeza, ostentando uma fisionomia de tragédia.19 Tinham transformado o jejum em um ato de caráter social, uma encenação, para convencer os outros de sua pretendida virtude. E não receavam recorrer a todos os meios disponíveis para atingir esse objetivo.
Uma vez mais, Nosso Senhor os reprova por se servirem da aparência de justiça para impressionar os outros, e afirma terem sido já recompensados pelo seu jejum.
A propósito deste versículo, cabe uma aplicação a nós: ao fazermos algo difícil, nunca procuremos atrair a atenção dos demais, mendigando alguns elogios. Assim procediam muitos santos que, ao praticar severos jejuns, mortificações e austeridades assustadoras, apresentavam-se, por meio de uma santa dissimulação, com uma aparência exterior alegre e jovial.
Alegria e asseio ao praticar a virtude
17 “Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa”.
Além de tornar claro o quanto todas as nossas ações devem ser realizadas em função de Deus, Jesus ressalta aqui a fundamental importância da limpeza para a criatura humana. Devemos primar pelo asseio corporal como reflexo da pureza que desejamos para nosso espírito. E aliando uma apresentação impecável às boas ações, ajudaremos a manifestar que a verdadeira felicidade se encontra na prática da virtude.
Quanto ao conselho de ungir a cabeça, explica São Jerônimo: “Trata-se aqui do costume que havia na Palestina, de se ungir a cabeça nos dias de festa”. E acrescenta que assim, “o Senhor nos ordena que nos manifestemos contentes e alegres quando jejuarmos”.20
A Quaresma nos convida a crescer em humildade
O Evangelho da Quarta-Feira de Cinzas nos apresenta o espírito com que se deve viver a Quaresma: não fazer boas obras com vistas a obter a aprovação dos outros, não ceder ao orgulho nem à vaidade, mas procurar em tudo agradar somente a Deus.
No jejum, na oração ou na prática de qualquer boa obra, não se pode erigir como fim último o benefício que daí possa nos advir, mas sim a glória d’Aquele que nos criou. Pois tudo quanto é nosso — exceção feita das imperfeições, misérias e pecados — pertence a Deus. E também nossos méritos, pois é o próprio Jesus quem afirma: “Sem Mim, nada podeis fazer”! (Jo 15, 5).
Assim, se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. “Quem se gloria, glorie-se no Senhor” (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo.
Pelo sacerdócio comum a todos os batizados,21 cada fiel é chamado, em determinadas circunstâncias, a atuar como mediador das graças que vêm de Deus para benefício dos outros, e dos louvores que deles se elevam ao trono do Altíssimo. Nessa ocasião, cuidemos de não nos apropriarmos de nada, pois tudo quanto possuímos de virtude, bondade ou beleza — tanto as faculdades da alma quanto as qualidades corporais e o desenvolvimento de nosso ser físico, intelectual e moral —, tudo isso provém de Deus.
Santa Teresa de Jesus assim define a humildade: “Deus é a suma verdade, e a humildade consiste em andar na verdade, pois de grande importância é não ver coisa boa em si mesmo, mas sim a miséria e o nada”.22
Reconheçamos os benefícios que Deus nos dá e por eles rendamos-Lhe graças, não nos colocando jamais como objeto desse louvor, julgando sermos nós a fonte de qualquer virtude ou qualidade.
Neste início de Quaresma, procuremos, mais ainda do que a mortificação corporal, aceitar o convite que a Liturgia sabiamente nos faz, combatendo o amor próprio com todas as nossas forças. “Procurai o mérito, procurai a causa, procurai a justiça; e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus”.23
Só estarão à direita de Nosso Senhor Jesus Cristo, no dia do Juízo Final, aqueles que tiverem vencido o orgulho e o egocentrismo, reconhecendo que “todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto” (Tg 1, 17). Pois o homem tem diante de si apenas dois caminhos: ou amar a Deus sobre todas as coisas, até o esquecimento de si; ou amar-se a si próprio sobre todas as coisas, até o esquecimento de Deus.24 Não existe um terceiro amor.
Saibamos, portanto, aproveitar este Tempo da Quaresma para crescermos na humildade e tomarmos consciência clara da nossa limitação, uma vez que “o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do Céu” (Jo 3, 27).
Sirvam-nos de estímulo estas confortadoras palavras de um célebre guia espiritual, o padre Reginald Garrigou-Lagrange, OP: “Quanto mais nossa alma progredir na vida divina da graça, mais ela será uma imagem viva da Santíssima Trindade. No início de nossa existência, o egoísmo nos faz pensar especialmente em nós e a nos amarmos, atribuindo tudo a nós. Se, porém, formos dóceis às inspirações do Alto, chegará o dia em que pensaremos sobretudo, não em nós mesmos, mas em Deus, e em que, a propósito de todas as coisas, agradáveis ou penosas, O amaremos mais do que a nós e quereremos constantemente levar as almas para Ele”25.
16 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.129. Muito interessante é a proposta que fazem os professores de Salamanca, de traduzir a palavra grega hestótes por “com pose” (em lugar de “de pé”), observando, acertadamente, que “com pose” estaria mais de acordo com o contexto desta passagem.
17 Catecismo da Igreja Católica, n.2559.
18 SANTO AGOSTINHO. De sermone Domini, 2, 3.
19 Cf. TUYA, OP, op. cit., p.151152; GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.191.
20 SÃO JERONIMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea.
22 Cf. SANTA TERESA DE JESUS. Las Moradas. Morada sexta, c.10, § 6-7.
23 SANTO AGOSTINHO. Sermo 185: PL 38,999. In: Liturgia das Horas I. Segunda Leitura do dia 24 de dezembro.
24 SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei, XIV, 28: “Dois amores geraram duas cidades: a terrena, o amor de si até ao desprezo de Deus; a celeste, o amor de Deus até ao desprezo de si”.
25 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Reginald. La Sainte Trinité et le don de soi. In: Vie Spirituelle n.265, maio, 1942.





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Conclusão dos comentários ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Jesus completa a obra mandando aos sacerdotes a prova
“E o ameaçou, e logo o mandou retirar-se; e disse-lhe: ‘Guarda-te de o dizer a alguém, mas, vai, mostra-te ao príncipe dos sacerdotes, e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhe servir de testemunho’”.
A caridade também possui um como que santo pudor, semelhante ao da virtude da castidade, e por isso procura cobrir-se de véus aos olhares alheios. A este propósito, comenta São João Crisóstomo: “Deste modo, [Jesus] nos ensina a não procurar, como retribuição por nossas obras, honras humanas. [...] O Salvador o envia ao sacerdote para prova da cura, e para que ele não tivesse de ficar fora do Templo, mas pudesse rezar nele com os demais. Enviou-o também para cumprir o preceito da Lei, e para aplacar a maledicência dos judeus. Assim, pois, completou a obra mandando-lhes a prova de sua realização”.8
Estes versículos nos mostram o grande empenho de Jesus em que a Lei fosse observada. O miraculado queria seguir a Nosso Senhor e não mais abandoná-Lo, mas Ele lhe fala em tom severo e ameaçador, obrigando-o a apresentar-se ao sacerdote antes de tudo. Quando obtida uma cura tão brilhante e de uma doença que conduziria à morte, compreensível era que o beneficiado não quisesse se afastar, ainda que fosse para cumprir umas tantas prescrições legais, mas Jesus não desejava escandalizar ninguém, e por isso evitava causar a impressão de que suas ações eram contrárias às determinações de Moisés.
Ora, a Lei dispunha que neste caso o miraculado deveria oferecer três sacrifícios: um de culpabilidade, outro de expiação e um terceiro de holocausto (cf. Lv 14, 10-13). Os ricos ofertavam cordeiros, e os pobres, aves. Essas providências deveriam ser cumpridas com urgência; além do mais, no caso concreto, era apostólico para com os que serviam no Templo, o fato de tomarem logo conhecimento do milagre. Assim, uma vez constatado este, confeririam oficialidade ao mesmo, reintroduzindo o ex-leproso na sociedade, e de nada poderiam acusar o verdadeiro Messias, caso fossem acometidos pela costumeira inveja. Daí entender-se melhor a severidade com que o Divino Mestre Se dirige ao miraculado: “E o ameaçou e logo o mandou retirar-se...”.
Ainda quanto à necessidade exigida por Lei de apresentar-se ao sacerdote, podemos ver nela uma certa aproximação com a obrigatoriedade de buscar a Confissão, quando alguém é atingido pela lepra do pecado. Deve-se, entretanto, sublinhar a enorme superioridade do sacramento da Reconciliação sobre o antigo rito, pois restabelece a amizade da alma com Deus e consigo mesma, obriga à restituição dos bens quando mal obtidos, força o homem a conhecer-se melhor, etc. Quanto aos dois sacerdócios, há também vultosas diferenças. Na Antiga Lei, o sacerdote apenas constatava e registrava a cura corporal. No Novo Testamento, o Padre não só constata a cura, mas oferece sua laringe a Jesus para que Ele realmente a opere.
O Divino Mestre ficava nos lugares desertos
“Ele, porém, retirando-se, começou a contar e a publicar o sucedido, de sorte que (Jesus) já não podia entrar descobertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos; e de todas as partes iam ter com Ele”.
Por mais que o comovido miraculado pudesse ter comprovado a severidade do Divino Mestre, esta não conseguiu frear a exuberância de sua alegria. Saiu ele por todos os cantos a proclamar a maravilha de que tinha sido objeto da parte do Salvador.
Por isso, não mais foi possível a Jesus mostrar-Se nas cidades. Viu-Se Ele na contingência de recolher-Se aos campos desertos, longe das gentes que O aclamavam logo ao encontrá-Lo. Teve, dessa forma, de abandonar por certo tempo Seu intenso apostolado, porém, dedicando-Se à pura contemplação tão amada por Ele. Essa contemplação, como sabemos, é causa dos bons frutos da ação, tal como comenta São Beda: “Depois de fazer o milagre na cidade, o Senhor se retira ao deserto, para manifestar que prefere a vida tranquila e separada das preocupações do século, e que por essa preferência Se consagra ao cuidado de sanar os corpos”.9
III – Considerações finais
Somos concebidos e nascemos sob os estigmas do pecado original; pelo pecado nos transformamos em inimigos de Deus.10 E se a lepra física enfeia o corpo, a da alma — o pecado —, a torna horrorosa aos olhos de Deus, dos Anjos e dos Bem-Aventurados. Essa “lepra” da alma traz consequências até mesmo para o corpo, pois, como diz Nosso Senhor, “o pecador se torna escravo do pecado” (Jo 8, 34), prejudicando, assim, até sua saúde física.
Efeitos da lepra do corpo e da “lepra” da alma
Se de um lado o leproso se torna um pária da sociedade, condenado ao isolamento e ao abandono, por outro lado, o pecado não só faz perder a inabitação da Santíssima Trindade na alma do pecador, como o exclui da sociedade dos eleitos e dos santos.
Além disso, a “lepra” da alma é mais contagiosa do que a física. A propagação da primeira se faz até à distância, por palavras, conversas, pensamentos, escândalos, maus exemplos, influência, maledicência, etc., e muitas vezes de maneira tal que não se consegue reparar os males oriundos de sua difusão.
Também não devemos olvidar que o fato de se comunicarem entre si os que sofrem dessa enfermidade física, e nem sequer com os que por ela não foram atingidos, não faz crescer sua desgraça. O mesmo não se dá com a “lepra” do pecado: ao sermos causa de contágio, aumentamos nossa culpa.
Por mais que a lepra conduza a miseráveis condições que, sem tratamento, só terminam com a morte, o pecado é muito pior, pois arranca da alma a paz de consciência, torna amarga a vida e prepara a morte eterna.
Consideremos ainda a grande superioridade da alma sobre o corpo. Aquela é criada à imagem da Santíssima Trindade e, enquanto obra-prima das mãos de Deus, leva ademais, sobre si, o infinito preço do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo, os males da alma sempre são mais graves que os do corpo. E, sendo físicos os estigmas do mal de Hansen, são fáceis de serem reconhecidos pela vítima. Em sentido contrário, o pecador, quanto mais avança nas tortuosas vias do pecado, menos se dá conta do abismo no qual rola. Nesta perspectiva, como poderá ele obter a cura?
Terrível é ainda considerar que os sofrimentos do leproso abandonado à própria sorte terminam com seu falecimento e, se os aceitou com resignação e amor a Deus, abrirá seus olhos para a eternidade feliz. Os do pecador não só se perpetuam na eternidade, como se tornam incomparavelmente mais atrozes após a morte.
Não deixemos passar um dia sem receber a Jesus Eucarístico
E como curar a “lepra” do pecado?
Muitas são as vias que conduzem à cura total, isto é, à santidade plena. Há uma, entretanto, que se sobressai entre todas, e esta nos é indicada pelo Evangelho de hoje, quando afirma que o leproso “foi ter com Ele...”, ou seja, foi buscar Jesus.
Não se trata de esperar que Jesus vá ao pecador; é preciso que este vá em busca de Jesus. E, quanto mais avançado for o estado de sua “lepra”, mais confiança deverá ter de ser bem recebido por Ele. Jamais deve permitir qualquer fímbria de desânimo ou, pior ainda, de desconfiança.
E onde encontrá-Lo?
Jesus não está entre nós de passagem, como aconteceu na vida do leproso do Evangelho, mas de forma permanente: “Estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Sim! Cristo se encontra constantemente na Eucaristia em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. E será na Comunhão frequente — melhor ainda na diária — que Ele irá assumindo interiormente os que em sua graça O recebem, para dessa forma torná-los cada vez mais semelhantes à Sua santidade.
Aquelas divinas e sagradas mãos, cujas carícias encantavam os pequeninos, e ao aproximarem-se dos enfermos, curavam a todos; aquelas mesmas mãos onipotentes que acalmavam os ventos e os mares, restituíam a vida aos cadáveres e perdoavam os pecados, estarão no interior do ser de quem receber Jesus na Comunhão Eucarística, para santificá-lo.
É de altíssima conveniência aceitar o convite que a Igreja faz a todos os batizados no sentido de que não deixem passar um só dia sem receber a Jesus Eucarístico; mas a ação d'Ele será ainda mais eficaz nas almas que o fizerem por meio d'Aquela que O trouxe à Encarnação: Sua e nossa Mãe, Maria Santíssima.
1 Cf. Suma Teológica I, q. 25, a. 2 e 3.
2 Cf. Suma Teológica III, q. 13, a. 1, ad 1.
3 Cf. Suma Teológica III, q. 13, a. 1c e 2c.
4 Suma Teológica III, q. 43, a. 1 resp.
5 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
6 ORIGENES, Commentarium in evangelium Matthaei, 2, 2-3.
7 CHRYSOSTOMI, Joannis. Homiliæ in Matthæum, 25, 2 (PG 57, 329).
8 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.

9 Cf. DENZINGER HÜNERMANN, 1528.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Continuação dos comentários ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Cura do leproso
“E foi ter com Ele um leproso, fazendo-Lhe suas súplicas, e, pondo-se de joelhos, disse-Lhe: ‘Se queres, podes limpar-me’”.
A lepra sempre foi uma enfermidade dramática, com inenarráveis sofrimentos físicos e graves consequências sociais. Naqueles tempos era, ademais, na maior parte das vezes incurável.
A mais temida das doenças
Pequenas manchas brancas, insensíveis, em qualquer parte da epiderme — as quais, com o tempo, degeneram em úlceras e se espalham por todo o corpo — podem ser indício desse mal. No seu auge, pés e mãos se tornam edemaciados, as carnes se rasgam, as unhas caem e, em seguida, também os dedos e artelhos. A face se torna monstruosa e a voz enrouquece. Das narinas — já à mostra pela degenerescência de seu exterior, pois o nariz acaba por se descarnar — escorre um líquido purulento que se soma a uma terrível fetidez do hálito. Esses efeitos acabam por produzir na vítima, além das dores físicas, um abatimento de ânimo tão grande que facilmente o leva ao desespero, e, por fim, à morte. Se, pelo contrário, obtém a cura, uma assombrosa alvura lhe reveste o corpo de alto a baixo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Evangelho VI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45

Comentário ao Evangelho — 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 1, 40-45
Naquele tempo, 40 um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. 41 Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!” 42 No mesmo instante, a lepra desapareceu, e ele ficou curado. 43 Então Jesus o mandou logo embora, 44 falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!” 45 Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-Lo.
Qual a pior das lepras?
A “lepra” da alma é mais contagiosa e terrível do que o mal de Hansen. Ela arranca a paz da consciência, torna amarga a vida e prepara a morte eterna. Se fosse tão visível quanto a lepra física, quão mais repulsiva seria aos nossos olhos!
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Onipotência do verbo
Jesus Cristo fez notar Sua humanidade nascendo numa gruta em Belém, em sua fome, sede ou cansaço, e até mesmo quando dormiu na barca. Por outro lado, manifestou Sua divindade através dos incontáveis milagres realizados, por exemplo, quando acalmou os ventos e os mares pelo império de Sua voz, ou quando ressuscitou Lázaro. Enquanto Ser infinito, Ele é todo-poderoso,1 e por isso, excluído o que seja contraditório, todos os possíveis são objeto do Seu poder. “Onipotente” é o nome próprio de Deus (cf. Gn 17, 1), pois Sua Palavra é suficiente, em si, para produzir todas as criaturas (cf. Gn 1, 3-30).
Os milagres de Jesus são prova de Sua divindade
Ora, segundo nos ensina São Tomás, pelo fato de Sua natureza humana estar unida à divina, Jesus recebeu enquanto Homem a mesma onipotência que o Filho de Deus tem desde toda eternidade, pois ambas as naturezas possuem hipostaticamente uma só e única Pessoa.2 A própria alma adorável de Cristo, enquanto instrumento do Verbo — e não por si só — tem todo poder.3 Essa é a razão pela qual Cristo Jesus dominava qualquer enfermidade (cf. Mt 8, 8), perdoava os pecados (cf. Mt 9, 6; Mc 2, 9-11), expulsava os demônios (cf. Mc 3, 15), etc. Daí ter podido Ele afirmar: “Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra” (Mt 28, 18); e mais tarde, São Paulo insistir nesse ponto fundamental de nossa fé: “Para nós, é força de Deus” (I Cor 1, 18); “Cristo é força de Deus e sabedoria de Deus” (I Cor 1, 24); e mais adiante: “também nos ressuscitará a nós com o Seu poder” (I Cor 6, 14).
A fé nessa onipotência de Deus permite-nos admitir mais facilmente as outras verdades e, de maneira especial, as ações que ultrapassam a ordem natural. A um Deus todopoderoso, são proporcionadas as obras excelentes e admiráveis: “Porque a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).
Diz-nos São Tomás de Aquino: “Pelo poder divino é concedido ao homem fazer milagres por duas razões: primeiro, e principalmente, para confirmar a verdade que alguém ensina. As coisas que pertencem à fé são superiores à razão humana e por isso não se podem provar com razões humanas; é preciso que se provem com demonstrações de poder divino. Deste modo, quando a pessoa realiza obras que só Deus pode realizar, pode-se crer que o que diz vem de Deus; como quando alguém apresenta um documento com o sigilo do rei, pode-se crer que o que no documento está contido provém da vontade do rei. Em segundo lugar, para mostrar a presença de Deus no homem pela graça do Espírito Santo. Quando a pessoa faz as obras de Deus, pode-se crer que Deus nela habita pela graça. Diz-se na Carta aos Gálatas: ‘Aquele que vos dá o Espírito e realiza milagres entre vós’ (Gl 3, 5).
Ora, em Cristo, uma e outra coisa era preciso demonstrar, a saber, que Deus nEle estava pela graça, não de adoção, mas de união; e que seu ensinamento sobrenatural provinha de Deus. Por isso, era de todo conveniente que Cristo fizesse milagres.
Ele próprio afirmou: ‘Se não quereis crer em Mim, crede em minhas obras’ (Jo 10, 38). E também: ‘As obras que meu Pai Me concedeu realizar, são elas que dão testemunho de Mim’ (Jo 5, 36)”.4 Esses são os motivos que levaram os Apóstolos a crer em Jesus depois do milagre por Ele operado nas Bodas de Caná da Galiléia (cf. Jo 2, 11); e muitos outros foram levados a crer, após a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-44).
Jesus mesmo chega a citar Suas obras como prova de Sua divindade: “Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres” (Mt 11, 4-5). “As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de Mim. Se Eu não faço as obras de meu Pai, não Me creiais; mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim, e Eu no Pai” (Jo 10, 25.37-38).
A Igreja: um milagre permanentemente renovado
Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo, tal qual afirmou Pedro em Cesareia de Filipe (cf. Mt 16, 16), e portanto, onipotente tanto quanto o Pai. Mas, entre a multidão de Seus milagres, qual teria sido o mais extraordinário? Difícil dizê-lo com plena segurança. Entretanto, uma hipótese não deixa de ter considerável substância e grande aparência de ser a mais provável.
A Santa Igreja passou por inúmeros dramas ao longo de seus vinte séculos de existência; dramas esses capazes de fazer desaparecer qualquer estado ou governo. Já em seus primórdios, teve ela de enfrentar o “fixismo” religioso do povo judeu.
A Redenção se operou no âmbito dessa nação: as primeiras ações, organizações, proselitismo foram efetuados por judeus — o próprio Fundador, os Apóstolos, etc. — e exclusivamente sobre os israelitas. Contudo, em se tratando de uma mentalidade blindada em suas próprias concepções, era de se temer que a Igreja viesse a ser sufocada no seu nascedouro. Quem poderia prever as decisões do primeiro concílio, o de Jerusalém, que recusa o judaísmo e se abre aos gentios? Se o Espírito Santo não tivesse inspirado os Apóstolos nesse sentido, quantos anos de vida teriam sido concedidos à Igreja?
Pari passu, surgiu a heresia da Gnose que comprazia às más inclinações daqueles tempos. Diziam seus adeptos terem recebido a missão de explicar e resolver o problema da existência do mal no mundo. Foi um grande perigo para a Igreja naquela quadra histórica.
Seria um não mais acabar, se procurássemos enumerar todos os ataques sofridos pela Igreja ao longo de seus dois milênios. Basta-nos recordar as perseguições romanas, a invasão dos bárbaros, o arianismo, os cátaros e albigenses, Avignon, o Renascimento, protestantismo e humanismo, a Revolução Francesa, o comunismo. Ou seja, a Santa Igreja vem recebendo os mais violentos ataques que a História tenha conhecido, quer externa quer internamente.
Porém, nunca se pôde dizer ter chegado o fim. Isto só se dará quando se cumprir a profecia de Jesus: “Será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo, em testemunho a todas as gentes; e então chegará o fim” (Mt 24, 14). Foi em função dessa profecia que Ele mandou os Doze irem ao mundo inteiro, para pregar e batizar, até mesmo em meio às perseguições, mas sempre convencidos de que “as portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18).
Afirmou ainda, categoricamente, o Redentor: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. [...] Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 18.20). Vemos, nestes dois versículos, o quanto a Igreja existiu, existe e existirá sempre por um milagre permanentemente renovado pelas divinas e adoráveis mãos de seu Fundador.

É na consideração da onipotência divina, tão claramente comprovada pelos milagres do Homem Deus, Jesus Cristo, de maneira especial o da imortalidade da Santa Igreja, que se deve compreender a cura do leproso narrada no Evangelho deste 6º Domingo do Tempo Comum.
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