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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Comentários ao Evangelho da Solenidade da Epifania do Senhor Ano C Mt 2, 1-12

Continuação dos comentários ao Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor Ano C  Mt 2, 1-12  
De Jerusalém a Belém
“Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria”.
Assim sempre procede Deus, recompensando aqueles que são fiéis à Sua graça. É comovedora a confiança penetrada de coragem desses Reis Magos, diante de um tirano de tal má fama. Não há dúvida de estarem sustentados por especial moção do Espírito Santo.
Reaparece a estrela
Terão partido à noite, ou durante o dia? De Jerusalém a Belém, levava-se duas horas de caminhada por via conhecidíssima. Entretanto, uns poucos autores defendem a tese de esse deslocamento ter-se efetuado durante o dia. Mas, como se explicaria o reaparecimento da estrela? Uns dizem não terem sido necessárias as sombras da noite, por tratar-se de um corpo luminoso em regiões atmosféricas mais próximas dos Magos. Outros interpretam essa passagem como se a estrela tivesse reaparecido só na entrada de Belém, uma vez que não havia como errar o caminho.
Ao ler estes versículos com devoção, chega-se, por momentos, a participar da alegria dos primeiros peregrinos aos Lugares Santos.
O desaparecimento da estrela lhes pusera à prova a confiança; agora é a consolação como prêmio. Uma pergunta aqui surge, também. Por que se ocultara a estrela ao chegar a Jerusalém e reapareceu só em Belém? Será que já àquelas alturas Jerusalém não era digna de um sinal tão evidente e público? Ou, pelo contrário, escondendo-se, ela propiciou uma permanência maior dos Magos na cidade, e com isso a autenticidade do acontecimento tornou-se mais patente a todos os seus habitantes?
Adoraram-No, inspirados pelo Espírito Santo
“Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante dEle, O adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra”.
Emociona esta descrição de Mateus: “acharam o Menino com Maria, Sua mãe”. Palavras proféticas, inspiradas pelo Espírito Santo, para deixar constando pelos séculos afora que não se pode encontrar Jesus sem Maria, e menos ainda, Maria sem Jesus. A História comprova — e muito mais o fará — o quanto a devoção à Mãe conduz à adoração ao Filho, e vice-versa.
Chama-nos a atenção Mateus ao local onde Se encontrava o Menino: uma casa, não uma gruta. “Alguns autores antigos — entre eles São Justino — julgaram que ‘casa’ era um eufemismo, em lugar de ‘gruta’. São Jerônimo, em compensação, menciona várias vezes a gruta e nunca fala da lembrança nem da presença dos Magos nela. Não seria nada improvável que a palavra ‘casa’ tenha em Mateus seu sentido real. Situada essa cena à distância de um ano e meio do nascimento de Cristo, não é de crer-se que a Sagrada Família tenha permanecido alojada naquela gruta circunstancial; parece natural que ela tenha habitado uma modesta casa. Ademais, o versículo 22 sugere que ela havia se estabelecido em Belém”.13
Essa adoração prestada pelos Magos comprova mais uma vez a realidade da ação do Espírito Santo nas almas deles, tal qual afirma São Tomás de Aquino:
Os Magos são ‘as primícias dos pagãos’ a crerem em Cristo. Neles apareceram, numa espécie de presságio, a fé e a devoção dos pagãos vindos a Cristo de lugares remotos. Por isso, sendo a fé e a devoção dos pagãos isentas de erro, por inspiração do Espírito Santo, também deve-se crer que os Magos, inspirados pelo Espírito Santo, se comportaram sabiamente ao prestarem homenagem a Cristo”.14
Quanto aos presentes, eles cumprem, com esse gesto, a profecia de Isaías: “Virão todos de Sabá, trazendo ouro e incenso, e publicando os louvores do Senhor. Todo o gado menor de Cedar se reunirá junto a ti, os carneiros de Nabaiot ficarão à tua disposição; fá-los-ão subir sobre meu altar para minha satisfação, e para a honra de meu templo glorioso” (Is 60, 6-7).
“Ao reconhecê-Lo como rei, ofereceram as primícias excelentes e preciosas do templo: o ouro que guardavam; por entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira, oferecida como suave odor do Espírito Santo; e em reconhecimento de que sua natureza humana receberia sepultura temporal, ofereceram mirra”.15
Voltaram por outro caminho
“Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho”.
Deus jamais deixa de proteger aqueles que O servem com amor e fidelidade. Se os Magos tivessem retornado a Herodes, eles mesmos poderiam ter precedido os Inocentes na morte.
A todos nós, Deus nos faz retornar à Pátria “por outro caminho”, segundo nos ensina São Gregório Magno. Infelizmente, deixamos o Paraíso Terrestre pelo pecado de orgulho de nossos primeiros pais; mais ainda, dele nos afastamos pelo apego às coisas deste mundo e devido aos nossos próprios pecados. Deus, como bom Pai, nos oferece o Paraíso Eterno; mas, para nele entrar, o caminho é oposto ao do orgulho e da sensualidade, ou seja, o do desprendimento, da obediência, da renúncia às nossas paixões. Ele nos oferece um caminho fácil e seguro: “Ad Jesum per Mariam!” (A Jesus, por Maria!).


AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica II-II, q. 84 a.1. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica II-II, q. 81 a. 6. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 36, a. 2, resp. c. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 36, a. 3 ad I. MOPSUÉSTIA, Teodoro de, Fragmentos sobre o Evangelho de Mateus, 6. Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 36 a. 3c. TUYA OP, Pe. Manuel de. Bíblia Comentada. Madrid: BAC, 1964, v. II, p. 35. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 36, a. 5 resp. Ver quadro anexo: Não foi uma das estrelas do céu. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Rialp, 2000. v. I. p. 7-8. Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 6, 4: PG 57, 67-68. Cf. Antiguidades dos Judeus, l. XV, c. 10, 4. TUYA OP, Pe. Manuel de. Op. Cit. p. 39. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 36 a. 8, resp. ANÔNIMO. Obra incompleta sobre o Evangelho de Mateus, 2: PG 56, 642.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Comentário ao Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor

Continuação dos comentários ao Evangelho da Solenidade da Epifania do Senhor Mt 2, 1-12 
Os reis perante Herodes
“Perguntaram eles: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’”.
Torna-se claro, por este versículo, o real e profundo motivo da longa viagem empreendida por eles; nada houve de pura curiosidade, razões profanas, ou até mundanas. Ademais, demonstram possuir grande fé, e não pouca intrepidez, ao formularem uma pergunta tão incisiva, tanto mais que poderia ser interpretada por Herodes como sendo uma negação de seu título e de seu poder, conquistados com tantos esforços.
A estrela que guiava os Magos
Sobre a estrela, comenta o Revmo. Padre Manuel de Tuya, OP: “Os magos alegam, para terem vindo adorar o Rei dos judeus recém-nascido, que viram ‘sua estrela no Oriente’. De maneira muito acentuada, fala-se precisamente da estrela do Rei dos judeus. No mundo da astrologia, os homens se consideram governados pelos astros. Mas também na Antiguidade estava difundida a crença de que o nascimento dos homens de grande importância era precedido de algum sinal do céu. Isto se refletia até nos escritos cuneiformes. Surgiram várias teorias a respeito dessa ‘estrela vista pelos Magos’”.7
Também o Doutor Angélico não deixou de exprimir seu pensamento a respeito desta passagem. Depois de discorrer sobre as razões pelas quais aos judeus revelou Deus Seu nascimento através de Anjos e, aos gentios, por sinais, cita Santo Agostinho: “Os Anjos moram nos céus que são adornados pelas estrelas”.8 E a partir daí, passa a analisar a estrela em si mesma, mostrando como ela “não era uma das estrelas do céu”, mas sim um astro inteiramente sui generis.9
Jerusalém ficou perturbada
“Ouvindo isto, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele”.
É de fácil compreensão esse temor de Herodes, dada sua irrefreável ambição, inveja e crueldade. Sua esposa e seus três filhos puderam experimentar a violência de seu péssimo e impetuoso temperamento, pois foram mortos por uma determinação tirânica sua, nascida do medo de que o destronassem.
Para um homem com essa moral desregrada e tão mau caráter, o anúncio do surgimento miraculoso de um novo rei só poderia causar perturbação; tanto mais que “havia-se difundido então por todas as partes do Império Romano, no Oriente mais do que em qualquer outra, certo pressentimento — às vezes vago, às vezes mais preciso — de uma nova era que se abriria para a humanidade”.10
E qual a causa da perturbação dos habitantes de Jerusalém? Era-lhes anunciado o nascimento de um Rei judeu: não seria esta uma alvissareira notícia? E não deveriam eles acompanhar os Magos para, com alegria, comprovar os fatos? Não causaria estranheza que o povo, a essas alturas, já estivesse acomodado e relaxadamente complacente com o criminoso tirano. Quiçá pudesse concorrer para essa perturbação o receio de represálias e vinganças. Ou ainda o amor-próprio ferido, o orgulho pisado, o desprezo de uma graça, pois esperavam um Messias com maior esplendor e, ademais, anunciado a eles diretamente, e não a estrangeiros.
A esse propósito, comenta São João Crisóstomo: “Porque continuavam na mesma disposição de seus antepassados — os quais, apesar de todos os benefícios recebidos, afastaram-se de Deus — e gozavam de plena liberdade, recordavam-se das carnes do Egito”.11
Iniquidade fraudulenta de Herodes
“Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e deles indagou onde havia de nascer o Cristo”.
Péssimo, mas habilidoso, Herodes dissimula seu satânico plano de matar o Messias e procura saber quais são os desígnios de Deus para, com eficácia, impedi-los. Com ares de hipócrita piedade, convoca o Sinédrio. Sua pergunta demonstra o quanto todos eram conhecedores da possibilidade de que aquele recém-nascido bem poderia ser o Cristo. Daí também a maldade do Sinédrio e do próprio povo.
“Disseram-lhe: ‘Em Belém de Judá, porque assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo’” (Mq 5, 2).
Os doutores da Lei não temem dizer a Herodes que, segundo Miqueias, o Cristo deveria nascer na cidade de Belém de Judá. Entretanto, suprimem da profecia oficial a frase subsequente, que clarissimamente insinuava a origem divina de Cristo: “Et egressus eius a temporibus antiquis, a diebus æternitatis” — “Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias da eternidade” (Mq 5, 1). Talvez por malícia, ou por orgulho, não possuíam suficiente fé para crer nessa revelação. Ou, ainda, quiçá por amolecimento de caráter. Essa péssima atitude levou São João Crisóstomo a associá-los na culpabilidade pela morte dos Santos Inocentes, pois Herodes não se enfureceria se soubesse que se tratava de um Rei da eternidade, portanto, não de um rival terrestre.
“Herodes, então, chamou secretamente os Magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido”.
Chama-nos a atenção o emprego do advérbio secretamente. Segundo um famoso historiador daqueles tempos, Flávio Josefo, era muito comum Herodes vestir-se como um qualquer e imiscuir-se em meio às gentes para sondar de modo direto o que pensavam sobre seu reinado.12 Era o seu habilidoso modo de proceder. Estando já seguro quanto à cidade onde teria nascido seu inimigo Messias, desejava agora conjecturar sua idade, pois aproximava a data do nascimento do Menino ao dia do aparecimento da estrela.
“E, enviando-os a Belém, disse: ‘Ide e informai-vos bem a respeito do Menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo’”.
Hipócrita, se faz de piedoso e suave para enganar a simplicidade, candura e inocência dos Magos. Não sem fundamento, alguns autores denominam essa atitude de “iniquidade fraudulenta”.
Continua no próximo post.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Comentário ao Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor Mt 2, 1-12 Ano C

Continuação dos Comentários ao  Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor Mt 2, 1-12 Ano C

Belém, os Magos e Herodes
“Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém”.
Como nos diz São Paulo: “Se a tivessem conhecido [a misteriosa sabedoria de Deus], nunca teriam crucificado o Senhor da glória” (I Cor 2, 8). Não era dos desígnios de Deus que o nascimento de Jesus Menino fosse manifestado a toda a humanidade, pois isso provavelmente impediria que se realizasse a Redenção. Por outro lado, se Sua vinda ao mundo fosse acompanhada por sinais fulgurantes e grandiosos, seriam anulados os méritos da fé.
O nascimento, sinal prévio da segunda e plena manifestação
Por estes e outros motivos, nos explica São Tomás de Aquino: “É inerente à ordem da sabedoria divina que os dons de Deus e os segredos de sua sabedoria não cheguem da mesma forma a todos, mas que cheguem imediatamente a alguns e, por meio deles, se estendam aos outros. Assim, no que concerne ao mistério da Ressurreição, diz o livro dos Atos: ‘Deus ressuscitou Cristo ao terceiro dia e Lhe concedeu manifestar a sua presença, não ao povo em geral, mas às testemunhas designadas de antemão por Deus’. O mesmo devia ser observado em relação a Seu nascimento: que Cristo não Se manifestasse a todos, mas a alguns, por meio dos quais poderia chegar aos outros”.3
Várias também são as razões pelas quais a Providência Divina escolheu primeiro os judeus, e só depois os gentios, para manifestar o nascimento de Jesus. Claro está que tendo Deus um especial apreço pelo princípio de hierarquia, deveria preferir iniciar Sua grande obra pelo Povo Eleito. Daí continuar a discorrer sobre esse pormenor o mesmo Doutor Angélico:
“A manifestação do nascimento de Cristo foi uma antecipação da manifestação plena que haveria de vir. E assim como na segunda manifestação a graça de Cristo foi anunciada por Cristo e por Seus Apóstolos, primeiro aos judeus, e depois aos pagãos, assim também, os primeiros a aproximar-se de Cristo foram os pastores, que eram as primícias dos judeus e estavam perto; depois vieram os Magos, de longe, como ‘primícias dos pagãos’, na expressão de Agostinho”.
Considerações e profecias
Quanto à referência à cidade de Belém de Judá neste versículo, devemos considerar a afirmação feita pelo próprio Salvador, décadas mais tarde: “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu” (Jo 6, 41). Por isso fazem os comentaristas uma aproximação entre o significado do nome Belém — ou seja, “casa do pão” — e a instituição do Sacramento da Eucaristia, Pão dos Anjos. Havia uma outra Belém, ao norte, na terra de Zabulon, daí procurar o Evangelista especificar a tribo de Judá.
O rei Herodes, na realidade, não pertencia à raça dos judeus, pois era idumeu. Chegou ao trono por apoio dos romanos, devido a lhe serem contrários os judeus, por se tratar de um estrangeiro. Foi muito habilidoso, restaurando com esmero o Templo de Jerusalém, no intuito de que se esquecessem de suas origens. Porém, sua fama perpetuou-se pelas grandes máculas de seus costumes dissolutos e de sua crueldade.
Sobre este particular, pondera Teodoro de Mopsuéstia: “O patriarca Jacó havia já discernido com exatidão esse momento, ao dizer: ‘Não se apartará o cetro de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence por direito, e a quem devem obediência os povos’ (Gn 49, 10). Mateus apresenta esses dados para, por meio deles, pôr em evidência que tudo estava correndo de acordo com as palavras proféticas. Por um lado, o profeta tinha dito que nasceria em Belém (cf. Mq 5, 1); por outro, o fato de ocorrer isso no tempo de Herodes cumpria, ademais, a predição de Jacó. Primeiro reinou sobre eles a estirpe de Davi, da tribo de Judá, irmão de Levi, mas a descendência provinha da estirpe de Judá, que se mesclara com a tribo levítica, especialmente com sumos sacerdotes, e tinham prerrogativas reais. Em seguida — depois que os irmãos Aristóbulo e Hircano disputaram entre si o poder — a dignidade real passou finalmente para Herodes, o qual não era judeu de raça, por ser filho de Antípatro, o idumeu. Foi então, no tempo desse reinado, que apareceu Cristo Senhor, não havendo mais reis e governantes do povo judeu”.5
Mateus se cala sobre maiores detalhes a respeito dos Magos; daí a multiplicidade de hipóteses e a não pouca divergência entre os autores sobre este particular. Entretanto, podemos afirmar que o nome Magos não deve ser tomado com as conotações próprias aos nossos tempos. Naquela época, significava pessoas de certo poder e muito distintas, em especial pelos conhecimentos científicos, sobretudo de astronomia. Além disso, a tradição no-los apresenta como reis. É também por tradição que consta serem três, terem sido batizados mais tarde por São Tomé Apóstolo e, tempos depois, martirizados.

Sobre o país de origem — Caldeia, Arábia ou Pérsia —, o que consta são puras hipóteses; como também quanto ao momento da chegada deles a Jerusalém e a Belém, que parece ter-se dado depois da Apresentação do Menino Jesus.
O certo e admitido por todos é que, sendo a Redenção de âmbito universal, deveria ser anunciada a todos.6

Continua no próximo post.

Comentário ao Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor Ano C

Comentário ao Evangelho Solenidade da Epifania do Senhor Mt 2, 1-12 Ano C

1“Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’. Ouvindo isto, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe: ‘Em Belém, na Judeia, porque assim foi escrito pelo profeta:
E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo”. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse: ‘Ide e informai-vos bem a respeito do Menino. Quando O tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-Lo’. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria. Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante dEle, O adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
12Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho” (Mt 2, 1-12).

Diante do Rei, os bons reis e o mau
Na longa viagem empreendida pelos Magos, nada há de razões profanas ou mundanas. E, diante de um tirano de má fama como Herodes, é comovedora sua confiança penetrada de coragem. Sem dúvida, estavam sustentados por uma especial moção do Espírito Santo.
Natal e Epifania
A festa da Epifania — também denominada pelos gregos de Teofania, ou seja, manifestação de Deus — era celebrada no Oriente já antes do século IV. É uma das mais antigas comemorações cristãs, bem como a Ressurreição de Nosso Senhor.
Não nos devemos esquecer que a Encarnação do Verbo se tornou efetiva logo após a Anunciação do Anjo; entretanto, apenas Maria, Isabel, José e, provavelmente, Zacarias tiveram conhecimento do grande mistério operado pelo Espírito Santo. O restante da humanidade não se deu conta do que se passava no período de gestação do Filho de Deus humanado. A Revelação feita pelos Profetas era envolta em certo mistério que só após o testemunho dos Apóstolos se tornou evidente.
A Liturgia do Tempo do Advento
Nas quatro semanas do Advento, a Liturgia nos recorda as profecias sobre os principais fatos ligados às manifestações graduais e sucessivas do Salvador e da Boa Nova trazida à Terra. Com muita ênfase é sublinhado o texto de Isaías: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará ‘Deus Conosco’” (Is 7, 14). Fica patente que o Messias pertenceria à nobre estirpe de Davi: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor” (Is 11, 1-2).
A Liturgia vai num crescendo a ponto de tornar claro que vem o Salvador das nações, por isso roga que a terra O germine: “Rorate cæli desuper et nubes pluant iustum, aperiatur terra et germinet salvatorem et iustitia oriatur simul!” — “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade, e ao mesmo tempo faça germinar a justiça!” (Is 45, 8).
Por fim, nasce o Redentor, como um simples bebê. Quem estivesse, porém, tomado por um dom do Espírito Santo, discerniria naquela adorável criança os resplendores dos raios de sua fulgurante divindade. Não se tratava de um ente puramente humano; àquela natureza se unia a própria Divindade na hipóstase da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ali estava o Homem-Deus.
Epifania: público reconhecimento da divindade do Menino Jesus
Se, por assim dizer, no Natal Deus Se manifesta como Homem, na Epifania esse mesmo Homem se revela como Deus. Assim, nestas duas festas, quis Deus que o grande mistério da Encarnação fosse revelado com todo o brilho, tanto aos judeus como aos gentios, dado o seu caráter universal. No Ocidente, desde o princípio, celebrava-se o Natal a 25 de dezembro, e no Oriente, a Epifania a 6 de janeiro. Foi a Igreja de Antioquia, na época de São João Crisóstomo, que passou a comemorar as duas datas. Só a partir do século V é que no Ocidente começou a se celebrar a segunda festividade.
Em nossa atual fase histórica, a Liturgia comemora a Adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus. Por outro lado, ainda permanecem alguns vestígios da antiga tradição oriental que incluía na Epifania, além da Adoração dos Reis, o milagre das Bodas de Caná e o Batismo do Senhor no Jordão. Hoje, em nossa Liturgia, as Bodas de Caná não são mais celebradas, e o Batismo do Senhor é festejado no domingo entre os dias 7 e 13 de janeiro.
Em síntese, podemos afirmar que a Epifania, ou seja, a manifestação do Verbo Encarnado, não pode ser considerada desligada da adoração que Lhe prestaram os Reis do Oriente. Nesta cena está concernido um público reconhecimento da divindade do Menino Jesus unida à Sua humanidade.
A virtude de Religião
A adoração, segundo nos ensina o Doutor Angélico, “orienta-se à reverência daquele que é adorado”. Trata-se de uma virtude especial, chamada de religião, à qual “é próprio prestar reverência a Deus”.1 Para melhor entendermos, basta dizer que a religião tem seu fundamento em quem é Deus e o que somos nós; naquilo que Ele nos deu e no que Lhe devemos restituir. Deus é o ser por essência, a Perfeição, o Bem, a Verdade e a Beleza, ademais, absoluto e infinito; e nós, pelo contrário, somos criaturas contingentes: d’Ele recebemos tudo e, em nossa existência, necessitamos de Sua sustentação a cada instante. Bem dizia o Revmo. Padre Antonio Royo Marín, OP, que se, por absurdo, Deus chegasse a cochilar, todas as criaturas retornariam ao nada; ao que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira respondeu: “E, em Sua onipotência, Ele recriaria tudo novamente, logo ao despertar”. Portanto, o ser de toda e qualquer criatura é conferido por Deus, assim como os mais variados bens que haja em toda a ordem do universo. Na linha dos dons nada há, portanto, que não recebamos de Deus. Somos os eternos devedores do Criador. Debaixo deste ponto de vista, até a mais excelsa de todas as criaturas, Maria Santíssima, também o é, e Ela soube reconhecer isto em seu cântico diante de sua prima Santa Isabel: “Minha alma glorifica ao Senhor [...] porque olhou o nada [a humildade] de Sua serva” (Lc 1, 46.48).
A virtude de religião é a essência da adoração que se concentra no reconhecimento destas duas realidades: quem é Deus, quais Seus direitos e benefícios; quem somos nós, nossa indigência, nosso nada. Por isso, “a religião é a principal entre as virtudes morais” — explica-nos São Tomás de Aquino —, porque “está mais próxima de Deus que as outras virtudes morais, enquanto suas ações diretas e imediatamente ordenam-se para a honra divina. Consequentemente, a religião é superior às outras virtudes morais”.2

Um convite a sermos gratos ao Senhor
Ora, o que movia o fundo da alma dos Reis Magos era o desejo de prestar culto de adoração Àquele que acabara de nascer. O significado da moção do Espírito Santo, levando-os a Belém, cifra-se no chamado universal de todas as nações à salvação e à participação nos bens da Redenção.
Se bem que os Profetas houvessem feito previsões sobre a universalidade dessa vocação, os judeus consideravam-na como um privilégio exclusivo do Povo Eleito. É curioso notar como o próprio Senhor em Sua vida pública, apesar de elogiar a fé do centurião romano — “Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel” (Mt 8, 10) —, afirma não ter sido enviado pelo Pai senão para cuidar das “ovelhas dispersas da casa de Israel” (Mt 15, 24). Ou seja, não quis Ele chamar diretamente a gentilidade; essa tarefa seria reservada aos Apóstolos, em especial a São Paulo. Mas, com décadas de antecedência, os Santos Reis simbolizaram junto ao berço do Salvador esse Seu grande desejo de nos redimir também a nós todos da gentilidade, conforme as palavras da Oração do Dia: “Ó Deus, que hoje revelastes o Vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela”; e mais claramente no Prefácio: “Revelastes, hoje, o mistério de Vosso Filho como luz para iluminar todos os povos no caminho da Salvação”.
Se aos Reis Magos Deus os chamou por meio da estrela, a nós Ele nos chama através de Sua Igreja, com sua pregação, doutrina, governo e Liturgia. Logo, a Epifania é a festa que nos convida a agradecermos ao Senhor, como também a Lhe implorar a graça de sermos guiados sempre e por toda parte através de Sua luz celeste, bem como de acolhermos com fé e vivermos com amor todos os dons que a Santa Igreja nos dá.
Continua no próximo post.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Evangelho do Domingo da Sagrada Família Ano C Lc 2, 41-52

Continuação dos comentários ao Evangelho do Domingo da Sagrada Família Ano C  Lc 2, 41-52
A Sagrada Família cumpre o preceito
41“Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando Ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume”.
Três eram as festas — Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos — nas quais os varões judeus tinham o dever de comparecer ao Templo.7 Tendo Jesus completado os doze anos, era obrigado também a fazê-lo, pois, como lembra Fillion, ao atingir essa idade todo jovem israelita se tornava “‘filho do preceito’ ou ‘filho da Lei’, quer dizer, sujeito a todas as prescrições da Lei mosaica, mesmo as mais onerosas, como o jejum e as peregrinações ao Templo”.8
De Nazaré a Jerusalém são vários dias de viagem, feita em comitiva, em caravanas, com as estradas apinhadas pelos que iam cumprir o preceito nessas datas. Era costume os peregrinos passarem uma semana em Jerusalém. Assim, segundo descrições feitas por autores da época, como Flávio Josefo, a cidade se tornava intransitável, superlotada de gente por todos os cantos.9
Dirigiu-Se Jesus à Casa de Deus para prestar culto ao Pai. Que magnífica manifestação de amor à hierarquia, que sublime relacionamento entre as Pessoas da Santíssima Trindade! Quanta alegria teria sentido o Filho do Homem ao cumprir esse preceito da Lei mosaica, por ocasião da festa da Páscoa! E vendo o cordeiro, símbolo de Si mesmo, sendo oferecido ao Pai no Templo, deve ter considerado como, ao redimir o gênero humano pelo sacrifício cruento na Cruz, Ele tornaria realidade essa imolação simbólica.
Muito provavelmente caminhou por Jerusalém e fitou com olhos humanos os lugares nos quais Ele iria padecer, e teve um arroubo de amor semelhante àquele “desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” (Lc 22, 15) que mais tarde manifestaria na Santa Ceia. E Nossa Senhora não O terá acompanhado nesse percurso? Terão discorrido sobre a Paixão? Ignorados pelos homens, eram, contudo, espetáculo para os Anjos do Céu.
Jesus não lhes deu nenhuma explicação
43“Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem”.
Costumavam os judeus, durante essas viagens, formar duas comitivas, uma de mulheres e outra de homens, e as crianças caminhavam ora com o pai, ora com a mãe. E à noite, pai, mãe e filhos se juntavam para o jantar e algum tempo de convívio antes de cada qual ir descansar.
Assim deve ter sido a vinda para Jerusalém e seria também a viagem de retorno, com a inevitável confusão própria à partida de uma caravana que sai de uma cidade superlotada. Isso explica o fato de que somente no final do primeiro dia, ao se encontrar com São José, Nossa Senhora deu-Se conta do desaparecimento do Menino. Começaram, então, aflitos, a buscá-Lo entre os parentes e conhecidos. Em vão!
Aflição de Maria e José
44“Pensando que Ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não O tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura”.
Podemos bem calcular a grande dor de Maria e José, atônitos diante desse fato, para o qual não encontravam explicação.
Sabiam que o Messias deveria ensinar toda a Sua doutrina e depois seria condenado à morte. Isto os deixava receosos, como afirma a Glosa, de que “aquilo que Herodes tentara levar a cabo em sua primeira infância, agora, encontrando uma ocasião oportuna, o fizessem outros, matando-O nessa idade”.10 Procuravam-No, então, pelo caminho — com que angústia! —, temendo achá-Lo morto.
Ao sofrimento da dúvida sobre a causa do desaparecimento de Jesus, somava-se o da incerteza sobre a ocasião. Como fora acontecer agora? Transida de dor, Nossa Senhora certamente Se lembrava da profecia de Simeão: “Uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 35).
Preocupação, aflição e angústia, sim, mas numa superior paz de alma. Maria Santíssima talvez Se poria o problema de ser Ela a culpada pelo acontecido, por alguma falta de amor a Deus. A separação do Seu adorável Filho seria, nesse caso, uma divina repreensão. Daí estar Ela na aflição das aflições e sentir no coração a espada de dor! Ela e José talvez julgassem não terem sido dignos da guarda daquele Tesouro, de não terem correspondido à missão que receberam. E isso os deixava em grande desolação.
Nosso Senhor é ávido por dar testemunho
46“Três dias depois, O encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47Todos os que ouviam o Menino estavam maravilhados com sua inteligência e respostas”.
Constatada a perda de Jesus, Nossa Senhora e São José tiveram de aguardar até o amanhecer para empreender a viagem de volta. Quando chegaram a Jerusalém, anoitecera já novamente; e, assim, só no terceiro dia puderam ir ao Templo. Bem sabia Ela que era esse o lugar mais provável onde achar o Filho.
Quando afinal O encontraram, a Virgem Mãe e São José, absortos pelo sofrimento, nem se deram conta da admiração causada pelo Menino Jesus aos doutores — “maravilhados com sua inteligência e respostas” —, como ressalta o grande exegeta Lagrange: “A aprovação dos doutores seria de molde a lisonjear os pais, e sobretudo teria dado ocasião à doce complacência de uma mãe; mas Maria estava assumida pela dor e tomada de surpresa”.11
Diante dos mestres da Lei, o Menino Jesus estava dando testemunho de Sua missão, dezoito anos antes de iniciar Sua vida pública, conforme comenta São Beda: “Para provar que era Deus, respondia-lhes de uma maneira sublime quando O interrogavam”.12 Agindo assim, estava ajudando aquelas pessoas a se aperceberem de que chegara a hora do Messias e da libertação do povo judeu. Libertação, não do domínio romano, mas espiritual, em ordem à salvação eterna: as portas do Céu iriam ser abertas!
Maria pergunta com admiração
48“Ao vê-Lo, seus pais ficaram muito admirados e sua Mãe Lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e Eu estávamos, angustiados, à tua procura’”.
A admiração de que nos fala este versículo pode ser entendida em dois sentidos. Primeiro no sentido explicitado por São Tomás de Aquino: estavam eles, em meio aos efeitos, à procura da causa, da razão.13 Segundo, ficaram admirados ao encontrar o Menino cumprindo Sua missão em tão tenra idade e presenciar a manifestação que Ele dava de Si mesmo.
Maria e José dão-nos aqui exemplo de como devemos nos comportar quando a graça sensível se afastar de nós. Antes de tudo, evitar qualquer atitude de revolta; se aconteceu, foi porque Deus quis. São os percalços da vida, os dramas, as dificuldades que a Providência permite para unir-nos mais a Ela. Aceitemos tudo com o mesmo estado de espírito dos pais de Jesus. E quando revirmos Nosso Senhor, teremos também admiração.
Na pergunta feita por Nossa Senhora, não se nota uma manifestação de queixa. Com sua retíssima consciência, Ela demonstra aflição e perplexidade, desejando uma explicação para, assim, melhor servir a Deus. Essa deve ser também nossa atitude, resignada e amorosa, face aos problemas que se nos deparam ao longo da vida.
Resposta segundo a natureza divina
49“Jesus respondeu: ‘Por que Me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’”.
Em sua pergunta, na qual transparece bem a preocupação de mãe em relação ao filho, a Virgem Maria toma em consideração a natureza humana de Jesus. E Ele, respondendo por meio de outra pergunta chama a atenção para a Sua natureza divina.
Por essa resposta — a qual, segundo Fillion, constituía “o programa de todo o seu ministério”14 —, podemos conjecturar ter o Menino Jesus instruído Nossa Senhora a respeito de como Ele deveria cumprir a vontade do Pai. E de como esse chamado divino superava qualquer laço de sangue. Ele quis dizer a seus pais terrenos que Sua missão divina estava acima dos vínculos familiares.
Mas, com isso, estaria Ele reprovando Maria e José porque se colocaram como seus pais? São Beda faz um inspirado comentário: “Não os repreende porque O buscam como filho, mas os faz levantar os olhos da alma para verem o que Ele deve Àquele de quem é Filho eterno”.15 Jesus Cristo tinha uma missão a cumprir e queria que seus pais terrenos compreendessem que tudo devia se subordinar ao Pai Celeste.
O exemplo de Maria diante do não entender
50 “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera”.
Por que Nossa Senhora e São José não entenderam? Deus não lhes deu luzes para isso naquele momento, a fim de que pudessem ter maior mérito, compreendendo só mais tarde as razões do comportamento do Menino Jesus.
Maria não entendeu as palavras de seu Filho, mas, como se vê no versículo seguinte, conservava no seu coração “todas essas coisas”, com amor, sabendo que havia uma lição por do desse episódio.
Essa deve ser nossa atitude em relação a tudo quanto nos transcende e que porventura não consigamos entender em nossa vida espiritual: com paz e confiança, guardar os acontecimentos no coração e refletir sobre eles ao longo do tempo, lembrando-nos da promessa de Nosso Senhor: “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai vos enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos lembrará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26). Mais cedo ou mais tarde, o Espírito Santo nos fará compreender, na medida que isso for útil para nossa santificação e o cumprimento de nossa missão.
Neste episódio, ensina-nos também o Divino Mestre que, por vezes, até nossos parentes podem não entender alguma atitude nossa, de firme decisão de cumprir um dever moral ou religioso. Portanto, se isso acontecer, não nos surpreendamos.
O imenso valor do recolhimento
51“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas essas coisas”.
Visando provavelmente evitar a interpretação errônea de que, para obedecer ao Pai Eterno, é preciso desobedecer aos pais terrenos, São Lucas, com muita delicadeza, lembra logo a seguir que Nosso Senhor passou o resto da vida submisso a Maria e José. Pois, como afirma São Beda: “O que haveria de fazer o Mestre da virtude, senão cumprir esse dever de piedade? O que haveria de fazer entre nós senão aquilo mesmo que desejava que fizéssemos?”.16
Portanto, Ele aceitou que O levassem novamente para Nazaré e continuou a ser-lhes obediente até o início de Sua vida pública, quase duas décadas depois.
O que significaria esse longo período de vida oculta? Bem pode exprimir ele o imenso valor do recolhimento. Jesus, evidentemente, já estava preparado para cumprir a vontade do Pai. Entretanto, depois de afirmar que veio cumprir essa vontade, Ele segue Nossa Senhora e São José, e fica mais dezoito anos na vida oculta e recolhida.
Não esqueçamos, também nós, que o recolhimento, a contemplação e o isolamento são excelentes meios de nos prepararmos para executar bem nossas ações. Nunca houve uma comunidade contemplativa excelsa como a de Nazaré: Jesus, Maria e José! Impossível imaginar algo superior. É por isso que, como lembra o grande teólogo padre Antonio Royo Marín, “alguns Santos Padres se comprazem em dizer que a principal ocupação de Jesus em Nazaré foi a doce tarefa de santificar cada vez mais sua queridíssima Mãe, Maria, e seu pai adotivo, São José. Nada mais sublime, e mais lógico e natural”.17
Crescimento em sabedoria, estatura e graça
52 “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens”.

Santo Agostinho, São Tomás e a generalidade dos teólogos afirmam que Jesus possuía em grau supremo, desde o primeiro instante de sua concepção, a graça, a sabedoria e a santidade.18 E não só as possuía, mas era em substância a Graça, a Sabedoria e a própria Santidade.
No entanto, Ele crescia fisicamente, de ano em ano, tomando configuração de adulto, “mas sem exceder exteriormente as leis gerais do desenvolvimento humano”, sublinha Fillion.19 De acordo com a idade, ia Ele manifestando mais a Graça e a Sabedoria. Não Se tornava maior em substância, mas sim em manifestação. Isso, segundo o Doutor Angélico, porque “à medida que avançava em idade, fazia obras mais perfeitas para demonstrar que era verdadeiro homem, tanto no referente a Deus como no tocante aos homens”.20
Oração e doutrina
Que aplicação tem esta passagem do Evangelho para nossa vida espiritual?
Há momentos de nossa existência nos quais temos a sensação de ter “perdido o Menino Jesus”, isto é, com ou sem culpa nossa, a consolação espiritual desaparece e nos sentimos desamparados. O que fazer quando percebemos que estamos sem graças sensíveis, sem aquilo que nos dava ânimo e sustentação para praticar a virtude?
Esta passagem do Evangelho ensina-nos a imitar Maria e José: ir atrás do Menino Jesus, isto é, pôr-se à procura da graça sensível, quando ela se retirar. Quando estivermos aflitos, na aridez, devemos procurar Jesus no Santíssimo Sacramento. Não há nada, absolutamente nada do necessário para nossa santificação que, se pedirmos a Jesus Eucarístico, não acabemos por obter.
Contudo, não nos esqueçamos de que, no Templo, Nosso Senhor estava entre os mestres da Lei, o que bem pode significar a importância da doutrina para nos sustentar na hora da provação. Daí decorre para nós a necessidade de uma boa e sólida formação doutrinária.
Como quem vai fazer uma longa viagem providencia com antecedência documentos, roupas apropriadas e tudo o mais, assim precisamos fazer nós: rezar muito e conhecer bem a doutrina, a fim de estarmos preparados para atravessar os períodos de aridez. Se tivermos os princípios bem vincados na alma, quando bater o vento da provação, as folhas estarão firmes na árvore da Fé.

8 Cf. apud TUYA, OP, Pe. Manuel de. Biblia Comentada – V Evangelios. Madrid: BAC, 1954, p. 781.

9 Cf. Idem, ibidem.
10 Apud AQUINO, SantoTomás de. Op. cit., p. 71.
11 LAGRANGE, OP, Pe. JosephM. Vida de Jesucristo según los Evangelios. Madrid: Edibesa, 1999, p. 52.
12 BEDA, San. Apud AQUINO, Santo Tomás de. Op. cit., p. 70.
13 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica, I-II, q. 32, a. 8, Resp.: “A admiração é um certo desejo de saber, que surge no homem porque vê o efeito e ignora a causa”.
14 FILLION, Louis-Claude. Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios. Madrid: Edibesa, 2000, p. 88.
15 BEDA, San. Apud AQUINO, Santo Tomás de. Op. cit., p. 71.
16 Idem, p. 72.
17 ROYO MARÍN, OP, Pe. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 274.
18 Cf. por exemplo: SANTO AGOSTINHO, In Sermone LVII, de diversis; Tract. 108 in Ioan., n. 5; De trinitate, I, 15, c. 26, n. 4; AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 7, a. 12.
19 FILLION. Op. cit., p. 86.
20 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q.7, a.12, ad 3.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Comentário ao Evangelho Domingo da Sagrada Família Lc 2, 41-52 Ano C


41 “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando Ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43
Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44Pensando que Ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não O tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.
46 Três dias depois, O encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47 Todos os que ouviam o Menino estavam maravilhados com sua inteligência e respostas. 48 Ao vê-Lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe Lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e Eu estávamos angustiados, à tua procura’. 49 Jesus respondeu: ‘Por que Me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’. 50 Eles, porém, não compreenderam as palavras que Lhes dissera. 51 Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-Lhes obediente. Sua Mãe, porém, conservava no coração todas essas coisas. 52 E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens (Lc 2, 41-52).
Comentário ao Evangelho Domingo da Sagrada Família Lc 2, 41-52
Como encontrar Jesus na aridez?
Há momentos de nossa vida espiritual em que também nós “perdemos o Menino Jesus”. Ou seja, com ou sem culpa, a graça sensível pode desaparecer. Para reencontrá-Lo, devemos procura-Lo por meio da oração e dos seus ensinamentos.
O paradoxo da Sagrada Família
Uma bela metáfora oriental, relatada pelo presbítero Hesíquio de Jerusalém (séc. V), narra que a Santíssima Trindade estaria num verdadeiro impasse, por serem as três Pessoas totalmente iguais. E seria preciso haver algum acontecimento pelo qual o Pai pudesse ser louvado enquanto pai, o Filho ser inteiramente filho, e o Espírito Santo dar mais ainda do que já havia dado. Nessa dificuldade, a solução teria surgido no momento em que Nossa Senhora aceitou a encarnação do Verbo em seu virginal corpo, tornando-Se, deste modo, o “complemento da Santíssima Trindade”.1
Para a realização de tão grande mistério, “Deus Pai transmitiu a Maria sua fecundidade, na medida em que a podia receber uma simples criatura, para que Ela pudesse produzir o seu Filho e todos os membros de seu Corpo Místico”, afirma o grande São Luís Grignion de Montfort.2 E o “Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia outra pessoa divina, tornou-Se fecundo em Maria. É com Ela, n’Ela e d’Ela que Ele produziu sua obra prima, um Deus feito homem, e que produz todos os dias, até o fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe adorável”.3
Assim, o Filho Se teria feito Homem não só para nos redimir, mas também para, com toda propriedade, poder chamar de pai a Primeira Pessoa Divina. Pois faria isto de dentro da natureza humana, inteiramente como filho e devedor, porque, como homem, deveria a Ele sua existência e, portanto, teria obrigação de restituir-Lhe o que dEle recebeu.
Eis o motivo pelo qual, segundo Hesíquio, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade aniquilou-Se a Si mesma, fazendo-Se semelhante aos homens (cf. Fl 2, 7), e operou, de dentro da natureza humana, a nossa Redenção. Qual novo Adão no Paraíso Terrestre, “encontrou sua liberdade em Se ver aprisionado no seio da Virgem Mãe”.4
Quem é mais, manda menos
À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério. Pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.
A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em Seu seio virginal e Se fez seu filho.
Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura Sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!
Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.
Deus ama a hierarquia
Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?
Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.
Bem podemos imaginar, na pequena Nazaré, a prestatividade, a sacralidade e a calma de Jesus, auxiliando José na carpintaria: serrando madeira, pregando as peças de uma cadeira, quando bastaria um simples ato de vontade Seu, para serem imediatamente produzidos, sem necessidade sequer de matéria-prima, os mais esplêndidos móveis, jamais vistos na História.
Entretanto, afirma São Basílio, “obedecendo desde sua infância a seus pais, Se submeteu Jesus humilde e respeitosamente a todo trabalho braçal”.5 Assim, logo que São José mandasse — e com que veneração! — o Filho fazer um trabalho, Este Se punha a executá-lo!
Pois agindo dessa maneira — honrando o pai que estava na terra e aceitando, por exemplo, fazer um móvel de acordo com as regras da natureza — dava Jesus mais glória a Deus Pai, que O havia enviado. Afirma São Luís Grignion, a propósito de sua obediência a Nossa Senhora: “Jesus Cristo deu mais glória a Deus submetendo-Se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres”.6
Assim, temos dentro da própria Sagrada Família um impressionante princípio de amor à hierarquia, porque, uma vez que Jesus havia desejado nascer e viver numa família, Ele honrava pai e mãe, mesmo sendo onipotente e o Criador de ambos.
Uma vida de aparência normal
Não devemos supor que na Sagrada Família tudo era absolutamente místico, sobrenatural e pleno de consolações.
Do Menino Jesus não se pode dizer que vivia de fé porque sua alma estava na visão beatífica. Entretanto, quis que seu corpo tivesse o desenvolvimento normal de um ser humano. Assim, por exemplo, não nasceu falando, embora pudesse falar todas as línguas do mundo.
Nossa Senhora e São José levavam também uma vida inteiramente comum na aparência e, como todos os homens, sofreram perplexidades e angústias. Disto nos dá um exemplo o Evangelho deste domingo: “Teu pai e Eu estávamos, angustiados, à tua procura”.
Verdadeiro Deus e verdadeiro homem
A descrição de São Lucas é a mais minuciosa apresentada pelos Evangelhos a respeito dos trinta anos de vida oculta de Nosso Senhor, junto aos pais, o que leva a supor que o episódio lhe tenha sido relatado pela própria Nossa Senhora.
Continua no próximo post