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sábado, 12 de outubro de 2013

Evangelho XIX Domingo Tempo Comum - Ano C - 2013

 Evangelho 29º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 (Lc, 18, 1-8)

1Disse-lhes também uma parábola, para mostrar que importa orar sempre e não cessar de o fazer: 2 “Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3 Havia também na mesma cidade uma viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. 4 Ele, durante muito tempo não a quis atender. Mas, depois disse consigo: Ainda que eu não tema a Deus nem respeite os homens, 5 todavia, visto que esta viúva me importuna, farlhe-ei justiça, para que não venha continuamente importunar-me.”
6 Então o Senhor acrescentou: “Ouvi o que diz este juiz iníquo. 7 E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite, e tardará em socorrê-los? 8 Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, porventura encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 1-8)
 
Comentário ao Evangelho 29º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 (Lc, 18, 1-8)
Mons João Clá Dias

 Com divina didática, Jesus contrapõe à iniquidade de um juiz a obstinada insistência da fragilidade feminina, para nos mostrar a necessidade de sermos incessantes na oração.
A alma humana tem sede do infinito. Por Deus, assim fomos criados e essa é a razão de vivermos em contínua busca da felicidade total, sem dores nem obstáculos, num relacionamento social perfeito e harmonioso. A apetência do ilimitado marca profundamente todas as nossas ações. Esta é, aliás, a principal causa do sentimentalismo romântico e de tantos outros desequilíbrios do convívio humano, no qual buscamos satisfazer entre puras criaturas esse anseio de infinito só saciável por Deus.
O querer obter, a qualquer preço ou esforço, algum bem necessário, ou livrar-se de um incômodo insuportável, não poucas vezes vem penetrado por essa aspiração de plenitude. A viúva implora sem cessar, o juiz usa de subterfúgios e evasivas para dela escapar. Por fim vence a insistência da fragilidade sobre um duro coração amante do bem-estar.
Analisemos a parábola em seus detalhes para, ao final, aproveitarmos as conclusões daí provenientes.

O juiz iníquo

Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens.
De que juiz se trata e qual a cidade em que ele vivia? Não se sabe. A descrição começa como se fosse um conto para crianças: “Havia em certa cidade...” O episódio é propositadamente anônimo. O Divino Mestre deseja com esse procedimento, fixar a atenção de seus ouvintes nos aspectos morais e psicológicos da parábola e por isso apresenta-a desprovida de seus eventuais dados históricos.
O juiz era sem dúvida um judeu de raça e religião, caso contrário, Jesus o caracterizaria como sendo um homem que não acreditava no Deus Verdadeiro.
Na realidade, em seu modo de agir ele representa uma clara personificação do ateísmo prático já comum naqueles tempos, se bem que não tão difuso como nos dias atuais. Provavelmente ele praticava a religião com exclusão do Primeiro Mandamento da Lei de Deus. Era, portanto, um mau judeu.
Ora, devendo ser Deus o centro de nossos pensamentos, desejos e ações, ao ignorá-Lo, ou d’Ele se afastar, as próprias relações humanas se tornam defectivas e viciadas, ou seja, deterioram- se todos os princípios do saudável respeito.
Nesse juiz, vê-se retratado um dos grandes males de nossos tempos: o desaparecimento da douceur de vivre, da benquerença e da admiração no trato social, seja entre iguais, ou entre inferiores e superiores. Ao se considerar o único ponto de referência para atender a seus semelhantes, pouco lhe importam estas ou aquelas qualidades dos mesmos. Ele se move de acordo com a volubilidade do sopro de seus caprichos e não se inclina a dar ouvidos aos respectivos pleiteantes, pois lhe falta o necessário estímulo para conduzir a bom termo suas causas. O egoísmo é sua lei.

A viúva importuna

3 Havia também na mesma cidade uma viúva, que ia ter com ele, dizendo: "Faze-me justiça contra o meu adversário".
Nessa mesma cidade havia uma viúva. Como em todas as épocas, a esposa que se vê desprotegida pela morte de seu marido, torna-se uma figura digna de pena. Recairá sobre ela, a parte mais frágil, o ônus da educação dos filhos, sobretudo dos pequenos, e da administração dos bens e da casa. Se ela não tiver o amparo de amigos verdadeiros, seu isolamento bem poderá se tornar dramático, e os interesses egoístas desses ou daqueles se concentrarão sobre a herança dos menores. Restar-lhe-á o intransigente vigor de seu instinto materno, acompanhado de suas amargas lágrimas. Por nada deste mundo ela abandonará as crianças alimentadas e crescidas em seus braços. Será um modelo insuperável de obstinação nesse particular. Esse é, bem provavelmente, o caso da presente parábola.
A viúva deve ter saturado o juiz com suas inúmeras visitas, implorando-lhe, a cada vez, justiça contra seu adversário.
Este último, quiçá, fosse um israelita constituído na fraude e na maldade que — tirando proveito da existência de um árbitro nada temente da cólera divina — havia dado largas à sua ganância e, assim, procurava extorquir os bens, no todo ou em parte, da desamparada e aflita senhora.
A apropriação indébita sempre existiu ao longo dos tempos. Sobretudo nos casos onde predomina o absolutismo do mais forte, ao excitarem-se as paixões, se estabelece a lei da selva.
E o que poderia fazer uma pobre mulher, nessa crítica situação, senão recorrer aos tribunais? Por outro lado, o mau israelita terá grande interesse em manter o status quo e, não havendo outra solução, se empenhará, na medida do possível, em retardar ao máximo qualquer pronunciamento legal.
Ora, as delongas só poderiam agravar o drama da triste senhora. Daí a grande insistência: “Faze-me justiça contra o meu adversário”.

A atitude do juiz

4a Ele, durante muito tempo não a quis atender.
Não nos são desconhecidas as demoras processuais em nosso Ocidente latino. Mas, nos povos orientais, naqueles tempos, as intérminas esperas faziam guerra às mais robustas paciências. Pelas próprias Escrituras Sagradas temos ciência da existência do suborno na época e, portanto, pode-se levantar a questão: terá o juiz recebido propostas, ou presentes, da parte contrária? Por outra, esperava ele alguma oferta da viúva para solucionar sua causa? O certo é que, por certa razão, talvez até por puro desleixo, capricho ou preguiça, o julgador se recusava a ouvir os rogos da autora do processo em curso.
Ainda uma outra hipótese se poderia levantar para buscar uma explicação de tal atitude. É do conhecimento geral que a demora muitas vezes resolve inextricáveis problemas. Não teria sido, o magistrado em questão, partidário de tomar o tempo como seu conselheiro? Nada leva a crer que assim fosse, pois ele “não temia a Deus, nem respeitava os homens”, e, portanto, a virtude não era a lei de seu habitual procedimento.



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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Evangelho XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 - Lc 17, 11-19

  Conclusão dos comentários ao Evangelho  XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 Lc 17, 11-19
A cena repete-se ao longo da História
O milagre operado por Nosso Senhor ao curar os dez leprosos, Ele o continua a realizar a todo instante em favor de qualquer pecador que, arrependido, venha a suplicar o seu perdão. Ele exige apenas que seja obedecida a mesma recomendação dada aos leprosos: apresentar-se ao sacerdote. Esta prescrição legal não era senão uma pré-figura da absolvição sacramental, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual nossas almas são purificadas da lepra do pecado.
O Evangelho de hoje sugere-nos uma atualíssima aplicação. Não temos lepra física, porém, nem sempre podemos dizer que estamos isentos da lepra espiritual. E em quantas ocasiões fomos mais beneficiados que os dez leprosos… É preciso, pois, não agir como os nove ingratos, mas imitar o exemplo do samaritano: voltar para agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo por nos ter curado tantas vezes da lepra interior, a começar pela maldição do pecado original, também por Ele abolida.
A prática da verdadeira gratidão
No entanto, quão rara é a virtude da gratidão! Muitas vezes ela se pratica apenas por educação e meras palavras. Todavia, para ser autêntica, é preciso que ela transborde do coração com sinceridade. É lamentável, afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que “a virtude da gratidão seja entendida hoje de um modo contábil. De maneira que, se alguém me faz um benefício, eu devo responder, contabilisticamente, com uma porção de gratidão igual ao benefício recebido. Há, portanto, uma espécie de pagamento: favor se paga mediante afeto, bem como mercadoria se paga mediante dinheiro. Então, eu recebi um favor e tenho de arrancar de dentro de minha alma um sentimento de gratidão. Também fico pago, tenho um alívio, estou quite”.9 Essa é uma forma pagã, materialista, de conceber a gratidão. Bem diferente é essa virtude quando impregnada de espírito católico.
A gratidão é, em primeiro lugar, o reconhecimento do valor do benefício recebido. Em segundo lugar, é o reconhecimento de que nós não merecemos aquele benefício. E, em terceiro lugar, é o desejo de dedicar-nos a quem nos fez o serviço na proporção do serviço prestado e, mais ainda, da dedicação demonstrada com relação a nós. Como dizia Santa Teresinha, ‘amor só com amor se paga’. Ou a pessoa paga dedicação com dedicação ou não pagou. […] Dentro dessa perspectiva, a gratidão de nossas almas ao benefício que Nossa Senhora nos fez, consentindo na morte de seu Divino Filho e aceitando as dores que sofreu para que fôssemos resgatados, […] deve ser imensa e deve nos levar a querer servi-La com uma dedicação análoga”.10
Ora, além de dar-nos a vida humana, Deus nos concede o inestimável tesouro da participação na sua vida divina pelo Batismo e, mais ainda, nos dá constantemente a possibilidade de recuperar esse estado quando perdido pelo pecado, bastando para isso o nosso arrependimento e a Confissão sacramental. Sobretudo dá-Se a Si mesmo em Corpo, Sangue, Alma e Divindade como alimento espiritual para nos transformarmos n’Ele, santificando-nos de maneira a nos garantir uma ressurreição gloriosa e a eternidade feliz. Ele nos deixou sua Mãe como Medianeira, para cuidar do gênero humano com todo carinho e desvelo. Os benefícios que Deus nos outorga são, assim, incomensuráveis! Qual não deve ser, pois, nossa gratidão em relação a Nosso Senhor e a sua Mãe Santíssima? Abraçar com entusiasmo e abnegação a santidade e batalhar com sempre crescente dedicação pela expansão da glória de Deus e da Virgem Puríssima na Terra, eis o melhor meio de corresponder ao infinito amor do Sagrado Coração de Jesus, que se derrama sobre nós às torrentes, do nascer do Sol até o seu ocaso.
1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.90, a.3; a.4, ad 1.
2 COLUNGA, OP, Alberto; GARCÍA CORDERO, OP, Maximiliano. Biblia Comentada. Pentateuco. Madrid: BAC, 1960, v.I, p.688.
3 Cf. LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: J. Gabalda, 1929, p.29.
4 COLUNGA; GARCÍA CORDERO, op. cit., p.685.
5 Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XIV, c.11, n.1 In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.951.
6 MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.728.
7 SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.107, a.2.
8 TITO BOSTRENSE, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.XVII, v.11-19.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 1 jun. 1974.
10 Idem, 27 dez. 1974.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Evangelho XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 - Lc 17, 11-19

  Continuação dos comentários ao Evangelho  XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 Lc 17, 11-19
A gratidão de um só
15 “Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16 atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano”.
Houve um, entretanto, que ao invés de caminhar rumo ao Templo, resolveu voltar para agradecer a Jesus, cantando as glórias de Deus e manifestando enorme alegria por ter encontrado Alguém em quem se apoiar e a quem seguir. Era aquele que contraíra não só a lepra física, mas também a lepra da alma. Se ele acompanhara inicialmente os outros doentes para se apresentar ao sacerdote, era apenas porque constituía uma sociedade com eles, pois, não sendo israelita, estava isento de tal obrigação. Sem embargo, a partir do momento em que foram curados, a comunidade perdia sua razão de ser e ele tornava-se aos olhos dos demais um estrangeiro infiel, um samaritano qualquer e, portanto, odiado e maltratado pelos judeus.
Vendo Nosso Senhor rodeado de gente, foi se aproximando d’Ele, abrindo com sua presença um vácuo de repugnância na aglomeração. Não obstante, enquanto ele avançava, todos puderam comprovar sua carnadura inteiramente modificada, pois, sem dúvida, como acontecera com Naamã — cuja cura é narrada pela primeira leitura deste domingo —, “a sua pele tornara-se como a de uma criança” (II Re 5, 14), alva, sem queimaduras do Sol, dando inclusive a impressão de que tinha engordado um tanto. Vendo a mudança, a multidão ficou impactada. Chegando perto do Divino Mestre, o samaritano prostrou-se por terra, em sinal de adoração.
Por cima do preceito legal de certificar a cura, a principal obrigação de todos era agradecer a quem os curara. Quando Nosso Senhor disse “ide apresentar-vos aos sacerdotes”, Ele não os proibiu de exprimir reconhecimento ao benfeitor. Deu-lhes apenas uma recomendação, não querendo ferir o livre-arbítrio dos leprosos por respeitar essa faculdade que nos é oferecida para escolhermos o bem,5 nem fazê-los perder o mérito que adquiririam pela gratidão. Todavia, desdenhando a oportunidade, os outros nove resolveram caminhar em rumo contrário ao de Jesus. Mais ainda, nada contradiz a hipótese de que regressaram mais tarde a sua vida normal, esquecendo-se por completo de quem os tinha beneficiado.
Culposa omissão
17 “Então Jesus lhe perguntou: ‘Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?’ 19 E disse-lhe: ‘Levanta-te e vai! Tua fé te salvou’”.
A surpresa manifestada por Nosso Senhor tinha um intuito formativo sobre aqueles que O cercavam e leva-nos a fazer a seguinte reflexão: dez foram curados da lepra de modo miraculoso e, dentre estes, nove retornaram ao meio social em que viviam antes de contraírem a enfermidade. Pertencentes ao establishment local, ansiavam por reintegrar-se no ambiente mundano e davam mais importância ao entorno corrompido e no qual foram contagiados pela lepra, do que ao convívio com o Mestre. Essa era a gratidão do povo judeu, o mais favorecido entre todos, uma vez que o Messias viera em primeiro lugar para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15, 24)... Conforme ressalta Maldonado, “aqueles, como judeus, certamente deveriam ter-se mostrado mais agradecidos a Deus, como seu próprio nome lhes recordava; e, contudo, foram os mais ingratos; os que tinham motivo especial para reconhecer e receber a Cristo como seu libertador, que havia sido enviado propriamente para eles, eram os que pareciam conhecê-Lo menos que os outros”.6
Para eles, o episódio da cura operada por Nosso Senhor ficara para o passado. Hoje ignoramos seu paradeiro, pois desapareceram na História.
Pela falta de gratidão, é recusado um milagre ainda maior
Tal ingratidão em relação a Deus quiçá leve ao inferno, já que pode desencadear uma grande quantidade de outros pecados. “O primeiro grau de ingratidão”, ensina São Tomás de Aquino, “é a ausência de retribuição; o segundo é a dissimulação, ou seja, como que escondendo o fato de se ter recebido o benefício; e, finalmente o terceiro e mais grave consiste em não reconhecer o benefício, seja por esquecimento seja por qualquer outro modo”.7
É preciso, sobretudo, considerar que, além da lepra física, padeciam eles também de uma lepra moral chamada mundanismo, que os tornava cegos de Deus e fazia com que pusessem sua felicidade no prestígio social. O Mestre os curou da primeira para que pudessem, no momento de voltar e agradecer, serem curados da segunda. Entretanto, pela ingratidão, acentuaram ainda mais a lepra moral, se bem estivessem livres da física. Isso nos deve levar a refletir sobre o perigo de certos relacionamentos humanos que não nos aproximam de Jesus. Pode ser que em determinado momento tenhamos de Lhe retribuir algum dom ou favor e, infelizmente, nos esqueçamos desse dever por dar mais valor às amizades terrenas.
O samaritano é favorecido com outro milagre portentoso
No extremo oposto dessa postura encontra-se o décimo leproso, originário da Samaria, região habitada por um povo tisnado por séculos de infidelidade à verdadeira religião. Uma vez recuperada a saúde, ele não tinha a quem recorrer e, percebendo o grande bem que lhe fora feito, soube procurar a sociedade verdadeira. Ele não pediu o perdão de seus pecados, a salvação ou mesmo a entrada no Reino dos Céus, nem suplicou como o Bom Ladrão na cruz: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (Lc 23, 42). Contudo, ele agradeceu e a partir deste ato de gratidão, Jesus o favoreceu com um milagre maior que a cura da lepra: o perdão dos pecados.
Quando obtemos um milagre e somos gratos, alcançamos outro maior que o pedido, pois Deus sabe das nossas necessidades. Esse duplo miraculado provavelmente seguiu Jesus por toda a parte e podemos conjecturar ser ele um dos santos que hoje povoam o Céu e gozam do convívio com a Santíssima Trindade. Os outros nove, de que sentença se tornaram merecedores? Não nos é dado conhecer o destino post-mortem das almas, mas quiçá tenham ido, pelo menos, ao Purgatório, por tamanha ingratidão... Por isso, quanto devemos temer o perigo acarretado para a vida espiritual por uma atitude semelhante à deles em relação aos bens recebidos do Salvador!
A lepra, enfermidade simbólica
Nesta passagem, Cristo nos mostra a lepra como uma doença simbólica, pois ela destrói o organismo e deforma a beleza do semblante. Ora, muito pior que a lepra física é a espiritual contraída por quem comete um pecado mortal. Se a lepra física desfaz o corpo, a do espírito enfeia a alma, a torna repulsiva aos olhos de Deus e faz com que a pessoa se torne escrava de suas más tendências e paixões. O leproso físico era expulso da sociedade, enquanto o espiritual é retirado de uma sociedade muito mais excelente, a divina, pela privação da graça santificante, das virtudes, dos dons, de todo o organismo sobrenatural e, sobretudo, da inabitação da Santíssima Trindade. “A lei dos judeus considera a lepra como uma enfermidade imunda, e a Lei do Evangelho não considera imunda a lepra externa, mas sim a interna”.8 A lepra física é contagiosa, característica verificada também na da alma, pois a pessoa que abraça as vias do pecado acabará causando escândalos que levarão outros à ruína espiritual. Se a lepra física, depois de uma vida infeliz, levava à morte, a lepra do pecado amargura a existência e conduz a uma morte muito mais terrível: a eterna infelicidade, no inferno. A lepra física atinge apenas o corpo, mas se o doente enfrentar a situação com cristã resignação e espírito sobrenatural progredirá na virtude, podendo vir a ser santo. O pecado, embora possa ser cometido sem suficiente noção da gravidade de suas consequências, destrói a vida divina na alma, que é sua maior beleza, dano muito pior do que destruir a formosura do corpo e a saúde.
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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Evangelho XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 - Lc 17, 11-19

  Comentário ao Evangelho  XXVIII Domingo do Tempo Comum Ano C – 2013 Lc 17, 11-19
Evangelho - Lc 17, 11-19
Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, 13 e gritaram: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!’ 14 Ao vê-los, Jesus disse: ‘Ide apresentar-vos aos sacerdotes’. Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16 atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: ‘Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?’ 19 E disse-lhe: ‘Levanta-te e vai! Tua fé te salvou’” (Lc 17, 11-19).

  Dez curas e um milagre

Dez miraculados! Dir-se-ia que todos manifestariam sua gratidão, embora cada um com suas características próprias. Entretanto, só um deles — um samaritano — obteve o milagre da cura da alma. E os outros nove judeus? Não agradeceram...
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
O dever de gratidão das almas beneficiadas
Raras vezes interrompemos as ocupações cotidianas para considerar quantos bens nos são concedidos pela Divina Providência ao longo da nossa vida, ainda que não os tenhamos pedido ou sequer desejado. Se formos até à raiz de tais benefícios, devemos lembrar que não existiríamos sem um desígnio de Deus. A partir do nada, foi Ele constituindo a diversidade de seres, ao longo dos seis dias da criação, como está descrito no Gênesis, até modelar Adão do barro e Eva de sua costela, e neles infundir a vida. E cada nascimento, que ocorre a todo instante no mundo inteiro, é um fato extraordinário porque à lei física se acrescenta uma lei espiritual: Deus infunde uma alma inteligente, criada pelo simples desejo de sua vontade, num corpo concebido pelo concurso do pai e da mãe.1 E tudo o mais — a saúde, o alimento, o repouso, o conforto — vem d’Ele, direta ou indiretamente. Além disso, o Criador nos promete para depois de transpor os umbrais da morte um grande milagre: tendo nossos corpos sofrido a decomposição, voltando ao barro do qual fomos feitos, retomaremos um corpo glorioso que se unirá de novo à nossa alma, já na visão beatífica, e gozaremos da felicidade de Deus por toda a eternidade.
Quanta bondade! Entretanto… como é a nossa resposta? Somos gratos por tudo quanto recebemos? Essa é a pergunta que surge ao considerarmos o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum que nos mostra diferentes atitudes tomadas por quem é objeto de um grande benefício vindo das dadivosas mãos do Salvador.
Saúde, alimento, repouso, conforto... tudo nos vêm d’Ele direta ou indiretamente
Duas classes de milagre: do corpo e do espírito
Na época de Nosso Senhor, o leproso, devido à falta de recursos médicos que possibilitassem o seu tratamento — carência que se prolongou por muitos séculos —, era um pária desprezado pela sociedade. Uma vez detectada a enfermidade, era ele apresentado ao sacerdote que, após um minucioso exame, o declarava legalmente impuro mediante um cerimonial apropriado. Se é verdade que ele não era deportado para uma ilha, segundo o costume adotado em tempos posteriores, deveria, contudo, ausentar-se da cidade, do convívio humano e viver isolado no campo. Obrigavam-no, ademais, a utilizar uma veste característica para anunciar a situação de excomunhão social em que se encontrava e a seguir certas normas, como a de se deslocar tocando uma campainha para indicar sua presença, de forma que as pessoas abrissem caminho, evitando o risco de contaminação pelo contato ou pela simples cercania. Aproximando-se de alguém além do permitido, recebia de imediato uma severa reprimenda, pelo pânico gerado diante do perigo do mal se espalhar. Arrastava-se assim “lamentando-se de si mesmo como o faria por um defunto, com as vestes rasgadas, a cabeça descoberta e a barba coberta com seu manto, gritando aos transeuntes, para que não se aproximem: ‘Imundo!’”.2
Ao longo de uma vida sem perspectiva de cura, veria seus próprios membros apodrecerem até caírem, num processo causador de nauseabundo odor e de incômodos vários.3 Tal estado produzia, como é compreensível, um profundo trauma psicológico. Ademais, como as doenças eram tidas, naquele tempo, como castigo pelos próprios pecados ou por aqueles cometidos pelos antepassados, a lepra trazia consigo também um drama moral: ser leproso de corpo significava, antes de tudo, possuir lepra de alma. “Encontramo-nos com ideias populares dos antigos, nas quais se mistura o religioso e o natural. O leproso se considerava castigado por Deus em virtude de pecados ocultos”.4 Nesse contexto social, desenrola-se a cena recolhida por São Lucas.
Unidos para suplicar um milagre
11“Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia.12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, 13 e gritaram: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!’”.
Reza o ditado que a desgraça em conjunto é sempre mais alegre. Os dez leprosos de que fala o Evangelho formavam uma sociedade entre si, e deste modo tornavam suas penas mais suportáveis e garantiam uma companhia até sobrevir a morte, termo forçoso daquela lenta e dolorosa enfermidade. Sem dúvida, já tinham ouvido falar do Mestre e sabiam das numerosas curas por Ele operadas, entre as quais se contavam várias do mal de que padeciam. Ao receber a notícia da proximidade do Divino Taumaturgo, logo se puseram a caminho e foram tentar um encontro com Nosso Senhor, com a esperança de não surgir obstáculo algum que lhes impedisse um contato, mesmo ao longe.
Com efeito, pelo relato evangélico vemos como esses dez leprosos cumpriam os preceitos legais, no que se refere à sua terrível doença. Por tal motivo não ousaram acercar-se demais de Jesus, e colocando-se a certa distância imploraram a cura, por misericórdia. Eles obedeceram à Lei, sim, mas faltou-lhes fervor para se ajoelharem todos juntos diante de Cristo, que decerto os teria tocado e curado naquele momento, como no episódio antes ocorrido com outro leproso (cf. Mt 8, 2-4; Mc 1, 40-45; Lc 5, 12-16).
Este fato nos serve de lição para a vida espiritual: tratando-se do relacionamento com Jesus, devemos agir com plena confiança e intimidade irrestrita, nunca receando recorrer a Ele, por piores que sejam os deslizes morais que nos pesem na consciência.
Uma prova para a fé dos leprosos
14“Ao vê-los, Jesus disse: ‘Ide apresentar-vos aos sacerdotes’. Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados”.
Percebendo logo a chegada deles, Nosso Senhor os olhou. Ele não operou a cura naquele ato, por não querer causar demasiada estupefação na opinião pública. Assim, abrindo um pouco o espaço no meio da multidão que estava junto d’Ele, mandou, com autoridade, que fossem se apresentar aos sacerdotes.
Naquela época era muito rara a cura da lepra. Nas poucas ocasiões em que isso acontecia realmente, ou quando constatado que o próprio diagnóstico inicial tinha sido equivocado, sendo o leproso já conhecido como tal na região, deveria por Lei apresentar-se a um sacerdote. Este lavrava uma ata na qual constavam as características do caso, desde os primeiros sintomas até o desaparecimento da enfermidade, e o documento possibilitava ao antigo doente a reintegração no convívio social (cf. Lv 14, 1-32).
Pois bem, o Mestre determinou esta medida, embora nem houvesse sinais visíveis de cura. A pronta obediência dos dez leprosos patenteia a fé que possuíam em Jesus — fruto por certo de uma moção da graça, infundida pelo próprio Homem-Deus — e denota a forte convicção de que Ele os curaria pelo caminho. Estando todos de acordo em observar essa norma, empreenderam a viagem rumo a Jerusalém.
Podemos conjecturar que eles saíram em conjunto, experimentando grande consolação interior, pois Nosso Senhor ia criando graças para alimentar em suas almas a fé na própria cura. E cada um, segundo sua crença e temperamento, demonstraria isso de uma forma diferente dos outros. Entre eles, um mais silencioso pensaria, quiçá, numa lepra pior que a do corpo, que era a do pecado, pois vivia afastado da religião verdadeira… era samaritano. Confiante na cura, cogitava no modo de melhor estar à altura do prodígio de que em breve seria objeto.
Finalmente, durante o percurso, deram-se conta de que a lepra os abandonara e, sem dúvida, prorromperam em gritos de alegria. A gravidade do mal de que se viram livres concorre mais ainda para certificar a grandeza do milagre operado. Apressaram então o passo para obterem quanto antes o atestado de cura.
Continua no próximo post.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013

  Continuação dos comentários ao Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013 - Lc I 7, 5-10
por Mons João Clá Dias

A virtude fundamental da fé
Nosso Senhor já os advertira, em ocasiões anteriores, a respeito do risco do amor desordenado às riquezas – conforme já consideramos nas parábolas do administrador infiel e a do pobre Lázaro -, consequência de uma fé apequenada. Os discípulos foram, pois compreendendo a necessidade dessa fundamental virtude, sem a qual seria impossível perseverar até o fim de sua missão. Ensina São Tomás que essa é a principal virtude para ter-se o desprendimento dos bens materiais, bem como para a prática das outras virtudes, as quais, nas palavras de Royo Marín, “ nela se estribam, como o edifício sobre os seus alicerces […]. Informada pela caridade, dela vivem e, graças a ela, progridem”. 10 É, portanto, indispensável pedi-la a Deus, conforme nos demonstra o Evangelho desta Liturgia.
A fé é passível de crescimento?
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta nossa fé!”
Mas era preciso pedir esse aumento de fé, se já a possuíam em seu interior? Todavia, o pedido dos Apóstolos tinha fundamento. A virtude infusa da fé é passível de acréscimo ou de diminuição, e tanto pode se fortalecer como enlanguescer-se. Segundo explica ainda são Tomás, 11 ela cresce ou diminui de forma proporcional ao número de verdades conhecidas. Por esse motivo, além dos atos de piedade e devoção praticados -os quais tambén tornam a fé mais robusta -, fortalecerá essa virtude quem estudar a Doutrina Católica, ampliando o quadro de verdades conhecidas pela própria inteligência.
Aumentaremos a fé se adaptarmos nossa vida diária – trabalhos, obrigações e responsabilidades -à fé professada, pois, se houver dicotomia entre esta virtude e a vida prática, entre aquilo que cremos e o que fazemos, a fé terminará por evaporar-se. É necessário, portanto, que a fé coroe todas as nossas atividades, como destaca o padre Royo Marín: “as almas que tiverem progredido na vida cristã, procupar-se-ão com o incremento desta virtude fundamental até conseguir que toda a sua vida esteja informada por um autêntico espírito de fé que as transponha a un plano estritamente sobrenatural, a partir do qual possam ver e julgar todas as coisas”.12 Contudo, tal conduta não é tão fácil de ser mantida. As dificuldades do dia a dia nos fazem chegar a uma conclusão: é indispensável suplicar com fervor o auxilio divino. Agiram, então, muito bem os Apóstolos ao pedir o aumento de sua fé, a qual, segundo podemos julgar pela resposta de Nosso Senhor, era bem frágil...
Era preciso ter fé antes de pedir seu aumento
6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como un grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: 'Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria”.
Sua resposta reveste-se de certa dureza. De fato, a fé de seus escolhidos era ainda menor que o minúsculo grão de mostarda, quase do tamanho de uma partícula de açúcar. Ora, bastava uma fé de diminuta dimensão para mandar uma árvore sólida como a amoreira jogar-se ao mar. Afirmação surpreendente! A amoreira desta passagem de São Lucas provavelmente corresponde ao Shiquemah -sicômoro-, árvore de raízes vigorosas, que se fixam no chão com toda a força. 13 Seria possível que alguém realizar tamanha proeza? Entretanto, não fez o Mestre tal declaração apenas de forma metafórica. A fé é, de fato, capaz de mover montanhas, pois por detrás dela está o poder de Deus, e quando alguém se une à força divina pela robustez de tão valiosa virtude, torna-se forte quanto é forte o próprio Deus.
Ante essa concepção verdadeira da fé, Nosso Senhor contrapõe o conceito errado do mundo a respeito do relacionamento do homem com Deus.
Uma situação humana, imagem do relacionamento sobrenatural
Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra o cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: 'Vem depressa para a mesa?' 8 pelo contrário, não vai dizer ao empregado: 'Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?' 9 Será que vai agradecer ao empregado porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.
O Divino Mestre tem diante de si ouvintes com acentuado senso hierárquico, portanto, sem os igualitarismos dos dias hodiernos, e para quem todas as funções sociais eram muito bem definidas. Por essa razão pôde fazer uso, nesta parábola, da figura do servo, 14 ou seja, daquele homem sem direitos, cujo trabalho consistia em cuidar dos animais e dos campos de seu senhor, sem que jamais alguém se tivesse posto o problema de ocorrer a hipótese por Ele levantada. Embora entre o povo eleito o tratamento dispensado aos escravos fosse incomparavelmente mais compassivo do que entre os povos pagãos, 15 era inconcebível imaginar o próprio servo sentado à mesa do amo. Ao voltar do trabalho do campo, o criado se lavava e cingia os rins para servir o patrão. Só depois tomava sua refeição.
Esta cena, narrada por Cristo com sabedoria infinita, ilustra qual deve ser nosso relacionamento com Deus. Quando conseguimos cumprir inteiramente os Mandamentos ou nossas próprias obrigações, devemos reconhecer não ter sido por esforço próprio, nem como fruto de qualidades ou capacidades pessoais, mas, sim, da graça. Antes mesmo de termos realizado algum ato bom, Nosso Senhor já nos pagou com antecipação, concedendo-nos sua ajuda. Por isso, mesmo tendo feito o bem, não temos o direito, por nós mesmos, de merecimento algum. Com efeito, assim o declara Santo Ambrósio, Padre e Doutor da Igreja: “ninguém se glorie de seu bom proceder, pois por uma justa dependência devemos nosso serviço ao Senhor. […] Ele não pode admitir que te apropries do mérito de uma ação ou trabalho, já que, enquanto estejamos vivos, é dever nosso trabalhar sempre. Portanto, vive de acordo com a convicção de seres um servo ao qual se encomendaram muitos afazeres […] Não te acredites mais do que és pelo fato de te chamarem filho de Deus -deves reconhecer, sim, a graça, mas não podes esquecer a tua natureza -, nem te enchas de vaidade por ter servido com fidelidade, pois esse era teu dever”. 16 Ainda quando cumprimos nossas obrigações, continuamos sendo servos inúteis, ensina-nos hoje Jesus.
Concepçao comercial da religião
Dada a natureza decaída pelo pecado, a tendência geral do homem é não reconhecer que tudo lhe vem do Alto, forjando para si uma religião marcada pela mentalidade comercial. Muitas vezes transferimos o intercâmbio mercantilista de interesses -tão profundo nas relações humanas de todos os tempos- para o trato com Deus, e queremos apresentar-nos diante d'Ele cobrando aquilo que julgamos pertencer-nos pelo fato de termos feito algum bem. Na realidade, ninguém seria capaz de pronunciar sequer uma jaculatória ou fazer um sinal da cruz com mérito sobrenatural se não estivesse unido, e até “enxertado”, em Nosso Senhor Jesus Cristo, que afirmou: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). No campo sobrenatural, todos os nossos méritos estão ligados a Ele e nos são transferidos por Ele. Somos meros servos! D'Ele recebemos o ser, a redenção e o sustento da graça. 17
A imagem desta parábola encontra-se, então, ainda distante da realidade, pois o servo ali figurado conserva alguma liberdade enquanto nós estamos dentro de uma escravidão compulsória -nossa origem é a escravidão-, a qual, após a Redenção, mais se intensificou.
Deus nos premeia por aquilo que Ele mesmo nos concede
O homen deve, pois, considerar-se um ser contingente, dependente dos outros e consciente de que, em relação a Deus, essa dependência deverá ser absoluta. Se existimos, é porque em primeiro lugar Ele existe e, em sua infinita bondade, tirou-nos do nada, sem nosso consentimento, para dar-nos uma alma na qual pudesse ser introduzida a vida da graça. Ele nos redimiu e a cada instante sustenta nosso ser. Tudo é, portanto, gratuito, e quando agimos com perfeição estamos tão só restituindo-Lhe aquilo que d'Ele mesmo recebemos. Con quanta propriedade afirma a Sagrada Liturgia: “na assembleia dos Santos, vós sois glorificado e, coroando seus méritos, exaltais vossos próprios dons!”. 18 De fato, quando as obras humanas merecem algum prêmio da parte de Deus, isso é devido aos dons ou graças dadas com antecipação por Ele mesmo. Sendo Ele a Humildade e a Generosidade, faz-nos trabalhar para sua glória, ajuda-nos a praticar atos de virtude e ainda nos torna merecedores de sua recompensa, escondendo-Se, como se os merecedores fôssemos nós.
Entretanto, tal prodigalidade divina exige de nossa parte reciprocidade: nunca nos apropriemos daquilo que pertence só a Deus. Somos “servos inúteis”, devendo pedir muito a virtude da fé, a fim de compreender que Ele é o único a levar tudo adiante, e a nós cabe apenas o cumprimento de um mandato ou desígnio seu. Assim, não podemos exigir d'Ele, como se fosse nossa, a glória dos nossos pretensos méritos. Só com essas disposições de alma estaremos tomando a atitude perfeita no relacionamento com Ele.
A perfeita contingência em relação a Deus
Uma só criatura soube ter fé ardente e compreender a contingência de modo perfeito, em sua plenitude, tendo sido objeto de um dom insuperável da parte de Deus, “porque olhou para a humilhação de sua escrava”. (Lc 1, 48). Somente Ela teve a noção clara e sublime do seu nada e de sua dependência completa do Altíssimo. A partir desse reconhecimento do próprio nada, Deus se inebriou de amor por Ela, escolhendo-A e constituindo-A um paraíso para Si, superior ao dos próprios Anjos. A estes fora dado o Céu Empíreo, a nós o Paraíso Terrestre, mas para a Santíssima Trindade foi escolhida Aquela que disse “eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38): Maria Santíssima! Belíssimo comentário a esse respeito nos deixou São Luís Maria Grignion de Montfort: “A divina Maria, direi com os santos, é o paraíso terrestre do novo Adão, onde Ele se encarnou por obra do Espírito Santo, para realizar ali maravilhas incompreensíveis; é o excelso e divino mundo de Deus, que encerra belezas e tesouros inefáveis; a magnificência do Altíssimo, onde Ele ocultou, como em seu próprio seio, seu Filho único e, n'Ele, tudo o que há de mais excelente e precioso”. 19
Nunca perder a Fé perante as dificuldades
O Evangelho deste domingo nos ensina o papel fundamental da fé, na gozosa dependência de Deus. As desilusões e dificuldades humanas, imprevistas ao longo da vida, são permitidas pela Providência Divina para marcar em nós o momento culminante no qual Deus ou o demônio se torna vencedor no campo de batalha interior da alma. Ao presenciar o desabamento dos sonhos construídos sobre os fundamentos frágeis de nosso instinto de sociabilidade desregrado, a fé pode diminuir e ficarmos egoístas, procurando a segurança nos bens materiais. Não obstante, se, pelo contrário, mantivermos a confiança -esperança fortalecida pela fé- recomendada por Nosso Senhor neste trecho do Evangelho, teremos a possibilidade de uma vida feliz nesta terra, ainda que sempre acompanhados da cruz, de toda e qualquer circunstância, devido a nosso estado de prova. Só essa fé firme e sem faça nos faz viver, de fato, numa submissão total a Deus, tornando-nos capazes de enfrentar os sofrimentos com ânimo.
Crescer na fé significa, muitas vezes, presenciar ou sofrer um desastre e manter, no fundo da alma, uma confiança inabalável. Cena mais pungente não poderia enfrentar quem, ao chegar ao Calvário, se deparasse com Jesus crucificado entre dois ladrões! No entanto, com a alma partida diante de tal drama, encontraria consolo se soubesse pensar nas maravilhas que daquela Cruz iriam surgir, tal como fazia Nossa Senhora, que ali estava, de pé, sem esmorecer. Sejamos confiantes, pois os desastres são permitidos por Deus para se obter algum bem maior. A fé é o unguento para todas as nossa dores, é o ânimo e a alegria em meio aos sofrimentos deste grande deserto -a existência no exílio terreno- , até atingirmos um dia a felicidade eterna, na glória celestial.
A fé conquistará o mundo!
Vivemos em uma época de ateísmo em que a fé vai cada vez mais se esvaecendo no coração das pessoas. O terrível orgulho predomina em face de Deus, e o mundo não aceita nem adere às suas verdades. Diante de tal humanidade afastada de seu próprio fim, nosso anseio de católicos é o de ver a Boa-nova do Evangelho conquistar a face da Terra, de maneira a produzir os mais belos resultados em matéria de santidade. Temos bem presente o quanto as condições do momento estão longe de tornar isso naturalmente possível. Por isso, nos é pedido um dos maiores atos de fé jamais vistos e exigidos até os dias atuais.
Se os Apóstolos – escolhidos diretamente por Nosso Senhor – pediram um aumento de sua fé, como não o devemos pedir para nós? Peçamos, pois, a Ele, uma fé robustíssima, suplicando: Senhor, Vós sois Todo-Poderoso e criastes o dom da fé para infundi-lo nas almas; Vós tendes a possibilidade de criar essa virtude em grau infinito. Dai-nos, então, a fé de que tanto precisamos! Vinde e concedei-nos um fulgor de fé como nunca existiu na história!

sábado, 28 de setembro de 2013

Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013

Comentários ao Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013 - Lc I 7, 5-10
por Mons João Clá Dias
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé!” 6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria.
 7 Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por  acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: Vem depressa para a mesa?’ 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?’  Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado! Assim também vós quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc I 7, 5-10).
Como enfrentar as desilusões?
Ao longo da existência nos deparamos com situações imprevistas que podem levar ao desânimo. Só na fé robusta encontraremos força para enfrentá-las.
O SER HUMANO QUER RELACIONAR-SE COM OS DEMAIS
Imaginemos um homem punido com o isolamento, preso na masmorra de uma longínqua torre, convencido de estar inteiramente afastado de tudo e de todos. Nessa triste situação, sem a mínima possibilidade de comunicação com qualquer pessoa, vê passarem-se os dias... Certa tarde de calor, porém, deita-se no chão e ouve, de repente, um rumor de vassoura em plena atividade. Surpreendido, aproxima-se da parede, coloca ali o ouvido e, percebendo pelos ruídos tratar-se da presença de alguém do lado oposto, dá algumas pancadas no muro. A resposta chega de imediato. E outro pobre preso que sofre de igual problema: isolado, deseja entrar em contato com alguém a quem possa transmitir suas aflições e que o entenda naquela infeliz situação. Depois de muitas batidas descobrem que, falando junto ao ralo da cela, conseguem se fazer ouvir um ao outro e, a partir daí, começa um verdadeiro relacionamento entre ambos os cativos, causando-lhes imensa consolação. Pois, o isolamento absoluto que era o maior tormento daquele cativeiro, por ferir o instinto de sociabilidade, de alguma forma, tinha-se rompido com o estabelecimento desse rudimentar modo de comunicação. Essa singela história nos ilustra a necessidade intrínseca ao homem de entrar em contato com seus semelhantes.
Um fenômeno comum ao gênero humano: a “fímbria da insegurança”
Tal anseio natural, consequência do instinto de sociabilidade infundido por Deus em nós, é inerente a todos os homens.1 Cada um conserva em si mesmo um entranhado desejo de obter proteção, de poder apoiar-se em alguém e de sentir-se seguro, pois Deus não criou o homem autossuficiente. Ele tem numerosas carências e debilidades que só consegue suprir vivendo em sociedade e com a entreajuda de seus semelhantes. Por isso, ele tem de ter uma fé humana nos demais. E é compreensível, pois “sem a fé humana, a vida social seria totalmente impossível, e boa parte de nossos conhecimentos — os quais cremos serem certos e seguros — viriam estrepitosamente abaixo”.2 Entretanto, não existe a possibilidade de aplicar essa fé com total segurança a ninguém sobre a face da Terra, pois, “pela natureza, nenhuma pessoa adulta está acima ou abaixo de outra a tal ponto que uma possa elevar-se à frente da outra como autoridade de valor absoluto”.3 Todos sabemos como a natureza humana é falível em decorrência do pecado original e, por isso, somos levados a conferir nossos critérios com a opinião dos demais para diminuir a probabilidade de erro, sobretudo, no que toca à procura da verdade. Não é sem razão que aconselha Santo Agostinho: “Que nenhum de vós pretenda colocar sua esperança no homem. O homem só é alguma coisa enquanto se une Àquele por quem foi feito. Porque, se d’Ele se afastar, nada mais é o homem, ainda quando se una a outros”.4
E como o gênero humano está sujeito ao erro moral e intelectual, o homem com frequência trai a confiança dos outros, ao valer-se tão só de sua própria natureza, pois sem a graça é o egoísmo que prevalece sobre o amor ao próximo. Desencadeou-se assim para a humanidade uma instabilidade fundamental, denominada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira “fímbria da insegurança”, ou seja, “uma espécie de fímbria do espírito humano, a qual não elimina a possibilidade de conhecermos algumas verdades com certa firmeza porém, apenas crepuscular —, misturada com insegurança”.5 Dessa forma, carregamos dentro de nós mil indecisões, não havendo, nem em nós nem nos outros, a garantia plena de agir com acerto. A medida que os anos e as décadas passam o problema se agrava. A experiência da vida vai contabilizando as desilusões e as decepções. Constatamos um equívoco aqui, um erro ali, um engano acolá... E concluímos que não se pode depositar a confiança no homem. Como resolver, então, esse problema da “fimbria da insegurança” e adquirir certezas firmes?
Ora, se a falibilidade natural do homem torna inconsistente a confiança no seu semelhante, isso, contudo, não acontecerá se houver a ação dessa virtude sobrenatural, em relação a Deus, cuja prática tornar-se-á possível pela graça, e cujo agir não é outro senão o da virtude teologal da esperança fortalecida por firme convicção, como diz São Tomás,6 e como sintetiza o grande tomista padre Santiago Ramírez, seguindo a trilha de seu mestre: “Esperança perfeita e robusta em seu gênero, a qual se chama propriamente confiança [...1. Não é uma esperança qualquer e vacilante, mas uma esperança firme, decidida, certa, segura, sem titubeios de nenhuma classe. Uma esperança que não falha nem defrauda”.7 E a confiança que nos dá a certeza de existir Alguém com o qual podemos nos relacionar, seguros de nunca produzir em nós equívoco, de nunca defraudar nossas esperanças legítimas. Esse é Deus!
É tal confiança, sem dúvida, que será capaz de resolver a questão da “fímbria da insegurança” oculta no interior de todos os homens, libertando-nos da incerteza que atinge quantos se aferram ao mundo material, segundo o ensinamento do Bispo de Hipona: ‘Aproxima-te, pois, de Deus; esse jamais desmerece porque não existe nada de mais formoso. Se as coisas daqui nos aborrecem, é por causa de sua instabilidade, pois elas não são Deus. Ó alma! Coisa alguma poderá saciar-te, se não for Aquele que te criou. Lá onde colocares tua mão, acharás miséria; só poderá saciar-te quem te fez à sua imagem. [...j Só ali, em Deus, pode haver segurança”.8
A fé viva nos Evangelhos
Essa fé, todavia, não pode reduzir-se a um simples princípio teórico e doutrinário. Para ser íntegra, sobretudo em meio a nosso mundo tão conturbado, é preciso aplicá-la a Alguém: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encamada, Nosso Senhor Jesus Cristo! Os fatos narrados ao longo dos Evangelhos nos atestam como essa fé viva era um dom comunicado aos que d’Ele se aproximavam com plena confiança, como, por exemplo, o centurião romano. Tinha ele fé no poder do Redentor de curar um dos seus servos, inclusive à distância, e dele afirmaria o Divino Mestre jamais ter encontrado semelhante fé em Israel (cf. Lc 7, 2-10). A fé daquele comandante, que causara admiração no próprio Jesus enquanto homem, havia-lhe sido infundida por Ele mesmo, enquanto Deus.
Também a persistente cananeia nos deu provas de grande fé ao pedir com tanta insistência a cura da filha (cf. Mt 15, 22-28). Mais uma vez era um dom de Deus concedido à estrangeira, em um grau que nem os próprios judeus possuíam, talvez por não terem querido aceitá-la... Igualmente o pobre leproso, ao ajoelhar-se e suplicar: “Senhor, se vós quereis, podeis curar-me!” (Lc 5, 12), manifestava uma fé profunda, sendo, por isso, imediatamente atendido. Semelhante fé ainda revelou-se na sofrida hemorroíssa, que padecia havia longos anos. Procurava ela, com humildade, um momento oportuno para aproximar-se do Messias, acreditando ficar curada se ao menos conseguisse tocar na orla de seu manto sagrado (cf. Lc 8, 43-48).

Tal era a fé que Cristo desejava infundir em seus Apóstolos, nesta passagem do Evangelho do 27 Domingo do Tempo Comum.
1) Cf. TAPARELLI, SJ, Luis. Ensayo teórico de Derecho Natural. 2.ed. Madrid: San José, 1884, tI, p.154-155.
2) ROYO MARIN, OP, Antonio. Lafe de la Iglesia. 4.ed. Madri& BAC, 1979, p.17.
3) Idem, p.16.
4) SANTO AGOSTINHO.Enarratjo in psalmum LXXV, n.8. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.992-993.
5) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 29 maio 1965.
6) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-JI, q.129, a.6, ad 3.
7) RAMIREZ, OP, Santiago. La esencia de la esperanza cristiana. Madrid: Punta Europa, 1960, p.120-121.
8) SANTO AGOSTINHO. Sermo CXXV, nil. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1965, v.X, p.531-532.
Continua no próximo post

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

EVANGELHO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS DE MONS JOÃO CLÁ DIAS AO EVANGELHO DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM -  ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31
Invertendo os papéis na Parábola
Pode-se perguntar: vai-se para o inferno pelo simples fato de ser rico? No Céu, só entram os mendigos? Toda riqueza é um mal e toda miséria, um bem?
Neste trecho de Lucas, encontramos a descrição de uma condenação e de uma salvação. As penas eternas aplicadas ao avarento são devidas ao mau uso das riquezas, pois estas, de si, são neutras, nem boas, nem más. Depende do uso que delas se faça. O mesmo se deve dizer da pobreza, não é ela boa, nem má. Para qualificá-la é necessário saber com que disposição interior foi aceita.
Assim, para maior clareza de análise, invertamos os papéis das duas figuras principais da Parábola. Imaginemos o rico cheio de compaixão por Lázaro, a ponto de contratar um médico para curar-lhe as chagas, comprar-lhe os remédios, conseguir-lhe um bom abrigo e proporcionar-lhe deliciosos alimentos. Ademais, procurando cercá-lo de afetuosas atenções, chegando a rezar várias vezes ao dia por sua saúde, como também por sua eterna salvação.
Por outro lado, suponhamos um Lázaro que teria a alma mais ulcerada do que seu corpo, pois se consumiria de inveja dos bens do rico e, revoltado contra tudo, contra todos e contra o próprio Deus, cobriria de injúrias o seu benfeitor, desejando-lhe a desgraça e até a morte. A cada ato de comiseração e estima da parte do rico, corresponderia uma reação mal-educada e ressentida de Lázaro. Este só se acalmaria quando obtivesse toda a fortuna daquele, e, para isto, estaria disposto a instigar seu ódio em muitos outros.
Se, nesse estado de alma, morressem ambos, qual seria o destino eterno de cada um?
Não há a menor dúvida: Lázaro iria para os “tormentos do inferno” e o rico seria “levado pelos Anjos ao seio de Abraão”.
Confirmando esta suposição, ouçamos o comentário feito por São João Crisóstomo: “Os Anjos serviram e levaram o pobre e o colocaram no seio de Abraão, porque ele, apesar de ter vivido desprezado, não havia se desesperado, nem blasfemou dizendo: ‘Este rico goza vivendo na opulência e não padece tribulação, e eu não posso alcançar o alimento necessário’” 6.
Quanto precisamos ter sempre presente diante dos nossos olhos esta Parábola, a fim de bem sabermos nos servir, sem apego, das riquezas e aceitarmos com paciente resignação as dores, provações e contingências da vida!
Essa é a fundamental lição para todos os tempos: o bom relacionamento entre ricos e pobres, e de ambos com Deus, no uso dos bens ou na aceitação das situações constrangedoras pelas quais passem.
Como andará o mundo de hoje nessa matéria? Haverá ainda Lázaros de alma? Existirão ainda os ricos de espírito? E qual será o destino eterno de uns e de outros?
 “PREGAI TODA A VERDADE SOBRE O INFERNO”
O texto evangélico narra-nos a seguir um tal tormento do rico entre as chamas eternas, que uma simples gota de água seria suficiente para lhe refrescar a língua. Um abismo separa os dois mundos, o Céu do inferno. Será real essa tragédia? A Revelação é abundante nessa matéria: “Qual de nós poderá habitar no fogo devorador, nas chamas eternas?” (Is 33, 14). O Evangelho nos fala quatorze vezes sobre o inferno com expressões categóricas como estas: “fogo inextinguível” (Mc 9, 43), “... o seu verme não morre e o fogo não se apaga...” (idem, 48); “...e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13, 42). E o Apocalipse: “Serão lançados vivos no abismo abrasado de fogo e enxofre para ser atormentados noite e dia por todos os séculos dos séculos” (20, 10).
Por isso, o condenado da parábola roga a Abraão mandar Lázaro à sua casa paterna para convencer os cinco irmãos sobre o “lugar de tormentos”, no qual ele se encontra para todo o sempre. Segundo seu critério, o ideal seria que “alguém do mundo dos mortos fosse ter com eles” para adverti-los sobre os horrores do castigo eterno, pois só assim se converteriam.
Abraão é muito incisivo em sua resposta, declarando que também os outros cinco irmãos acabariam por ser lançados no inferno, se não acreditassem em Moisés e nos profetas.
Segundo pode-se deduzir desses versículos, até o precito da Parábola julga indispensável explicar a existência do inferno. E, de fato, esse é o empenho dos Santos e do próprio Magistério infalível da Igreja, como declarou em certa ocasião o Bem-Aventurado Papa Pio IX: “Pregai muito as grandes verdades da salvação, pregai sobretudo o inferno; nada de meias palavras, dizei, clara e altamente, toda a verdade sobre o inferno. Nada é mais capaz de fazer refletir e de conduzir a Deus os pobres pecadores” 7.
Bem clara é também a linguagem de nosso catecismo atual: “O ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do inferno, ‘o fogo eterno’. A pena principal do inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira” 8.
Sobre a eficácia da crença nos fogos eternos, um dos grandes escritores do séc. XIX, o Pe. Frederick W. Faber, afirmava: “A mais fatal preparação do demônio para a vinda do anticristo é o esmorecimento da crença dos homens no castigo eterno. Se fossem estas as derradeiras palavras por mim a vós dirigidas, lembrai-vos de que nada eu quereria imprimir tão profundamente em vossas almas, nenhum pensamento de fé — após o do Preciosíssimo Sangue — vos seria mais útil e proveitoso do que sobre o castigo eterno.” 9
Lembremo-nos sempre de como nossa morte pode ser súbita e quão necessário é vivermos nas disposições de alma de Lázaro, na maior resignação face aos infortúnios, desapegados dos bens deste mundo, fortes na oração, na prática da Religião e da virtude, ardorosos devotos da Mãe de Deus, para assim gozarmos da felicidade eterna.
Essas são as reflexões para a liturgia deste XXVI domingo do Tempo Comum.
1) Cf. Suma Teológica, I-II, q 87, a 2-4
2 ) Mt 5, 22; 10, 28; 18, 9; Mc IX, 42, 48; etc.
3 ) Suma Teológica, Supl q 97, a 2, 5 e 6
4 ) Ab. A. Monnin, Espírito do Cura d’Ars, Ed. Vozes, Petrópolis, 1949, 2ª ed., pp. 80-81.
5) Exortação Apostólica post-sinodal de 1984
6) Catena Áurea, in Lucam
7 ) M. de Ségur, L’enfer, Paris, 1875.
 8 ) CIC, nº 1.035
9 ) Pe. Bondeu, Vida e cartas do Pe. Faber, t. 2, c. 7, p. 389.